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História

"Foi tão boa a minha vida sempre"

História de: Thereza Redorat
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/07/2003

Sinopse

Thereza Redorat nasceu na cidade de Guariba no ano de 1908. Seu pai, imigrante espanhol, veio ao Brasil para não servir o exército e aqui, em Minas Gerais, conheceu a mãe de Thereza, com quem teve oito filhos. Nessa entrevista, Thereza nos conta sobre a sua infância no bairro do Brás, o modo inusitado como conheceu o marido, homem com quem viveu por quarenta anos, e também relembra acontecimentos históricos do Brasil, como a Revolução de 32 e a campanha “Ouro para o bem do Brasil”.

 

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História completa

 

P – Dona Thereza, a gente queria começar nossa entrevista, perguntando para senhora seu nome completo, onde a senhora nasceu, local do seu nascimento e a data de seu nascimento? 


R – Meu nome completo? Thereza Redorat.


P – E a senhora nasceu onde? 


R – Em Guariba.


P – Onde é essa cidade?


R – No Estado de São Paulo.


P – E a data do seu nascimento?


R – Dia 2 de abril de 1908.


P – Qual o nome de seu pai, Dona Thereza?


R – Miguel Redorat.


P – E da sua mãe? 


R – Brita Maria da Conceição. 


P – Fala um pouquinho de seu pai. Ele é de que região, de que cidade? 


R – Ele era da Espanha, de Benicarló. Ele veio para o Brasil porque a mãe dele não queria que ele servisse o exército. Ficou com medo que ele morresse. Então mandou ele para o Brasil. Ele tinha dezenove, vinte anos quando veio. E não voltou mais pra lá. 


P – Ele veio sozinho?


R – Veio sozinho. Veio como imigrante. Veio sozinho. 


P – A senhora sabe para qual lugar ele veio? Para que cidade? 


R – Para onde ele veio aqui no Brasil? Desceu em Santos e passou por... Como é que chama aquela casa de imigrantes? 


P – Hospedaria? 


R – É Hospedaria. Aí arrumou emprego, ficou trabalhando assim, até que houve emprego para Minas, conheceu minha mãe e casou com ela. Eram muito jovens ainda.


P – Ele tinha mais ou menos quantos anos nessa época?


R – Vinte e um. E minha mãe tinha vinte. 


P – O que ele foi fazer em Minas?


R – Foi a serviço. Como ele tinha profissão, ele arrumou logo um serviço. Não foi para lavoura nada. Ele arrumou logo um serviço, trabalhou em São Paulo e depois mandaram ele para Minas.


P – Que serviço era esse, dona Thereza?


R – Engenheiro. Ele montava máquina de beneficiar arroz, café.


P – E aí ele foi para Minas. 


R – Ele foi para Minas. Lá ele casou com minha mãe. 


P – A senhora sabe como ele conheceu a sua mãe? 


R – Não. Não sei. Ele não falou (risos). Eu sei que os avós dela eram garimpeiros, Isso eu sei. O resto eu não sei. Ele não conversava muito. Só com a gente, outras coisas. Mas de família, pouco.


P – E a sua mãe, não contou para senhora? 


R – A minha mãe contou. Vivia com uma tia, porque a mãe dela morreu e a tia ficou criando ela. Aí ela foi para escola, e aí quando ela conheceu meu pai… Meu pai foi apresentado por um irmão dela que levou meu pai na casa dela. Ele ficou gostando dela e casou. História curta, não? (risos)


P – Depois que eles se casaram, eles foram para onde? 


R – Depois, não sei. Meu pai viajava muito, mas como a gente era muito pequena, não tem noção de onde está. Aqui, ali, acolá. Assim mesmo eu lembro bastante coisa. Quando eu era pequena, morava em Monte Azul e lá meu pai montou a máquina de beneficiar arroz, também. Aí os meninos já eram grandes, já estavam na escola, estavam estudando e nós éramos pequenas ainda, mas ficava tudo em casa Na escola também.


P – Eram quantos filhos? 


R – Oito. Quatro homens e quatro mulheres. 


P – E a senhora é qual? Na ordem. 


R – Maior? A maior era a Ritinha, que faleceu. A Ritinha, a Deli que era a mais velha faleceu. A Ritinha faleceu. Tem eu e uma irmã só agora. Os homens também faleceram todos. 


P – Mas a senhora era das mais velhas ou das mais novas? 


R – Eu era.. Cheguei por exemplo...A terceira eu era. 


P – Vocês brincavam de quê? Quais eram as brincadeiras? 


R – As brincadeiras? Naquela época era fácil. Era peteca, pular corda, na rua. Não tinha esse trânsito, de modo que a gente brincava muito na rua. A criançada vizinha também brincava. Brincava tudo junto. Havia muita liberdade para gente fazer isso.


P – E seus pais? Eles eram severos? Qual o tipo de educação que a senhora tinha, que eles passavam para vocês? 


R – Sempre rígidos. “Não faz isto, não faz aquilo.” “Não briga”. Não deixava brigar, e a gente vivia sempre bem. Com os vizinhos, com criança, com tudo. Nada de briga. Meu pai era muito exigente. Tudo muito correto. Marcava hora, era aquela hora. Enquanto a gente era pequeno, todos na mesma hora almoçavam juntos. Minha mãe servia e ficava tudo junto. Depois cresceram, iam trabalhar e já não tinha muito horário. Mas ele era muito rígido, fazia questão da pessoa ser sincera. Não queria mentira, nada. E a gente acostumou assim. Horário tenho até hoje. Horário era horário. Marcou então, tá marcado. Haja visto (risos).


P – Dona Thereza, dos dois, quem era o mais bravo? Era seu pai ou sua mãe?


R – Meu pai. A mãe sempre balanceia. (risos) 


P – E vocês tinham educação religiosa? 


R – Educação religiosa. Íamos à missa, aos domingos. Minha mãe com a criançada ia tudo para a missa. Depois quando cresce, cada um vai para um lado.


P – Qual foi sua primeira escola? A senhora lembra qual foi sua primeira escola? Em que cidade vocês moravam? 


R – Ah sim, me lembro. Era em Catanduva. E a professora não era formada. Então ela... Tinha uma sala muito grande, e tinha uma mesa comprida. Ela enchia de cadeiras. A gente sentava lá e estudava. Depois que a gente mudou, depois fui para Grupo, estudo. Aí foi diferente na escola. Mas aprender a ler foi assim numa mesa, junto com os outros alunos. 


P – E, esse grupo, a senhora lembra também? 


R – Ah, não lembro. Foi em São Bernardo, mas não me lembro o nome. 


P – A senhora lembra de uma professora que tenha marcado nessa época. 


R – Lembro de uma. Até hoje não esqueci o nome dela. É Míriam de Oliveira Ribeiro. Não esqueci nunca. Ela sempre foi muito boa, muito atenciosa. Então, ela sempre marcava as coisas. Nessa época a gente morava na Água Branca e a escola era lá em cima, e a gente tinha que vir de bonde, porque era muito longe. Um dia eu estava sentada com ela assim e ela disse: Tá vendo aquele homem lendo o jornal do outro? Nunca faça isso que é muito feio. Nunca esqueci. (risos) Quando tem jornal, eu nem olho. É fato que a gente não esquece, essas coisas. 


P – A senhora lembra que série ela dava para senhora? Que ano que era isso? Ela era professora de que série? 


R – Era da... Deixa ver se eu me lembro. (pausa) Não me lembro. Aí depois, saímos do Grupo lá e nós fomos estudar em outra escola. Mudamos para São Bernardo e lá fizemos o ginásio. Eu completei o ginásio. 


P – Que ginásio era? 


R – Não me lembro o nome, também. 


P – Tudo bem. Deixa eu perguntar uma coisa para senhora. Quando a senhora veio para São Paulo, a senhora se lembra da primeira vez, quando a senhora mudou para São Paulo?


R – Me lembro. Desci na Estação da Luz. Tinha aquela carruagem que usa hoje na Terra Nostra (risos) e fomos morar num hotel que não esqueci o nome… Hotel Eiras. Eu era pequena, mas me lembro o nome. Hotel Leiras. 


P – E onde que era? 


R – Por ali na Estação da Luz mesmo. Perto. Depois de lá meu pai arrumou casa e aí mudamos para casa. Uma residência.


P – Onde era essa casa? 


R – Era na...Não me lembro o nome. Não me lembro o nome da rua. 


P – E do bairro?


R – Era no bairro do Brás. Mas não me lembro o nome da rua. 


P – E como era o Brás nessa época, dona Thereza? 


R – Ah. Era muito bom Tinha a casa muito boa, casas boas e comércio. Ah, me lembrei. Nós morávamos na rua Monsenhor Andrade, atravessava a rua e ia na escola. O nome da escola não me lembro. Lá era muito limpo naquela época. Imagine você, que eu tinha quanto? Oito, dez anos. As ruas eram muito limpas e para atravessar a rua também era fácil, não tinha tanto trânsito. Não tinha nem semáforo, nem nada. A gente atravessava e pronto. As professora também eram... Não seriam iguais às de hoje, não. Eram mais sinceras, mais alegres, mais mulher assim para cuidar das crianças. Era muito bom naquela época. Não tinha lixo na rua como tem hoje. 


P – E as brincadeiras, onde vocês brincavam, no bairro mesmo? 


R – Na rua. Não tinha trânsito, não tinha nada. Brincava com uma facilidade ali. Não tinha nada. Tinha casa muito boas e na rua que a gente morava.. [falha áudio]


P – A senhora se lembra de ter ido ao cinema nessa época no Brás? Já tinha cinema nessa época? 


R – Tinha cinema sim. Não me lembro o nome do cinema, mas a gente ia no cinema sim. E era… Deixa ver se me lembro o nome. Não me lembro não. Mas o cinema era baratinho. Era quatrocentos réis. Tinha dia das moças, das mulheres, então a gente pagava quatrocentos réis só. Meu pai comprava O Estado de São Paulo por duzentos réis. (risos) Uma época boa. 


P – Seu pai tinha hábito de leitura, de ler jornais para vocês, ou ele só lia no canto?


R – Leitura? Tinha. Fazia questão. Comprava revista, gibi. Naquela época tinha gibi. Então ele comprava para gente. Fazia questão de ler. Lia notícia do Estado também para gente. A gente sentava assim na mesa e ele: “Vem escutar essa notícia”. A gente ia lá sentar. Tinha que ir. (risos) 


P – A senhora lembra notícias da Primeira Guerra Mundial? Da primeira. A senhora tem lembranças dessa época? 


R – Tenho sim. Mas não de acontecer nada. É fato que...eu estava na escola, onde eu falei para você que era aquela mesa comprida que sentava tudo junto, e tinha um rapaz que estudava com a gente. Então ele comprava o jornal e ele dizia assim: “Vem escutar essa…Conflagração…”... Como é que falava naquela época? Conflagração mundial da guerra, não sei o quê. E ele lia pra gente. A gente não entendia nada, porque era tudo pequena. E ele era muito alto, e a gente tudo atrás dele, e ele lendo o jornal, o Estado de São Paulo. (risos) É só essa história da guerra. A gente era pequena. Não tomava conhecimento. 


P – E seus pais comentavam na sua casa sobre a guerra? 


R – Meu pai comentava sim, da guerra. Ela achava que não devia existir guerra. Matava muita gente, morria muita gente. Transtornava muito a cidade e tudo. Ele não gostava não. 


P – Bom, a gente estava conversando sobre o Brás. Vocês ficaram muito tempo morando no Brás? 


R – Moramos um bocado de tempo sim. Naquela época não existia luz na rua. Existia gás. Então o homem assim de manhã apagava, de noite ia com a coisinha e acendia, na rua. Justamente na Avenida Rangel Pestana, porque nas travessas, pouquinha luz que tinha. Uma aqui, outra lá, outra lá, porque justamente não podia pegar em todas as ruas. Então era mais na Avenida, na Rangel Pestana. Tinha muito cinema ali também, muita casa boa de lanche, sabe, de café, essas coisas. Casa de calçado, casa muito boa de roupa. Tinha o...Passava o trem. Tinha a porteira do Brás. Custava para abrir. Até saía crítica: Tinha um casal de noivos esperando abrir a porteira. E depois tinha ela com a criancinha no braço, de tanto tempo que esperou abrir a porteira. Aqui as críticas. (risos)


P – E tinha bonde lá? Nessa época? Tinha linha de bonde?


R – Tinha. Linha de bonde tinha. 


P – Passava na Rangel Pestana? 


R – Passava, na Rangel Pestana. Ele vinha na Rangel Pestana, rua do Carmo, Praça da Sé, dava a volta e descia outra vez, ia para outros bairros, lá, Ipiranga, por lá tudo. E tinha pouca gente. Sentava um em cada banco e quando era saída de serviço, enchia o bonde de gente, pendurada. Ficava naquela plataforma que a gente pisa para entrar. Ali ficava cheio, tudo pendurado. Lá dentro também, um na frente do outro. O bonde cheio de pessoas. Era duzentos réis o bonde. Caro não?


P – Era o preço de um jornal.


R – Para a época era. 


P – Vocês iam passear no parque da Luz?


R – Ah. No parque da Luz sim. Meu pai levava a gente para passear no parque da Luz. Era muito bonito, tinha muito aves. Muitas aves. Era muito bonito. A gente tirava fotografia sentada no riacho, sombra ali, tirava fotografia. Era muito bonito, Jardim da Luz. Hoje acho que não vale mais. 


P – Bom, dona Thereza. A senhora estava morando no Brás, nessa época. E o seu pai ainda continuava viajando muito? 


R – Não. Aí depois ele parou de viajar, porque os filhos cresceram, precisava estudar, trabalhavam e estudavam naquela época, então, já não viajava mais. Mas assim mesmo, de vez em quando ele tinha...Como minha mãe… Já estavam todos crescidos, aí de vez em quando, uma vez ou outra, ele viajava sozinho, mas voltava logo. Não ficava muito tempo longe de casa. 


P – Dona Thereza. O seu pai, ele era funcionário de alguma empresa, ou ele prestava serviço?


R – Não. Prestava serviço para uma firma, mas já não me lembro o nome da firma. Tinha uma firma que montava máquina em determinado lugar, e ele ia montar a máquina. A firma vendia a máquina de beneficiar arroz, e ele ia montar naquela cidade. Quando terminava, ele deixava uma pessoa apta para fazer aquele serviço e saía. E, quando ia para outra cidade, era a mesma coisa. Sempre assim. Sempre mudando de cidade, para montar máquina.


P –  Bom, a senhora morou até quando no Brás? 


R – Moramos... Não sei. Acho que uns dois, três anos só. Mas depois voltamos. Quando era mais de idade, mais moça, aí voltamos, porque nós fomos morar no Alto da Mooca, e meu pai aí tinha serviço, mas na cidade mesmo. Não saía mais. E meu irmão tinha farmácia na esquina da rua Santa Clara com a rua Rio Bonito. Ele se formou em Farmácia em Pindamonhangaba. Então ele montou farmácia lá. E depois nós mudamos do Alto da Mooca para o Brás também, para ficar mais perto deles. Aí trabalhava com ele também na farmácia. Era mocinha. Trabalhava na farmácia com ele. Era muito bom lá. Gente muito boa. Tinha namorado também. Lá na esquina. 


P – A senhora tinha namorado? Quem era esse rapaz? 


R – Já morreu também. Casou com outra e já morreu (risos). 


P – O que a senhora fazia na farmácia? Conta pra gente. 


R – Só vendia remédio. Manipulação era meu irmão que fazia porque ele era farmacêutico. E quando pedia algum remédio, eu procurava na farmácia e vendia. Era assim só. Alguma aspirina, essas coisas assim, só. Atendia telefone, aplicava injeção também. Uma vida boa também (risos). 


P – Deixa voltar um pouquinho antes. Vocês moraram no Brás e foram morar onde depois? Antes de voltarem para o Brás? A senhora falou que morou uns dois anos no Brás. Aí saiu de lá e foi para onde? 


R – Para onde? Aí o Henrique mudou a farmácia para rua do Hipódromo, que era Brás também, e eu mudei também para lá. Nesse ínterim minha mãe já tinha morrido e os rapazes, um estava casado, outro estava noivo, assim dispersando já a família grande. E eu fui morar na rua do Hipódromo com o Henrique. A esposa dele, Maria José era muito boa, muito atenciosa e me acolheu lá com muito carinho, e eu fiquei lá. A outra irmã estava casada, e a outra estava morando junto com a gente também. Era menor. Tinha o Ramón, que era menor, também estava na farmácia. Trabalhava na farmácia. Depois ele se formou e montou farmácia também. Quer dizer, os três tinham farmácia. Um só era Administrador de Empresa. 


P – E seu pai estava morando onde nessa época, quando sua mãe faleceu? 


R – Nessa época ele morava com um irmão que tinha farmácia na rua Padre Adelino. Chamava Miguel. 


P – A família estava toda separada? 


R – Estava. Um aqui, outro ali, outro lá, mas domingo juntava tudo. Reunía. (risos) 


P – A senhora estava falando de namorado. Quem foi o primeiro namorado? 


R – Meu primeiro namorado? Ih, não me lembro. 


P – Mas quem era? Era algum vizinho? 


R – Era vizinho da farmácia quando estava na rua Santa Clara. Quando meu irmão estava na farmácia da rua Santa Clara. Então ele morava assim.. Então eu estava na farmácia e de vez em quando, né? (risos) Um namoradinho assim. Depois passou, ele foi embora para São João da Boa Vista e casou lá. Me deixou. Mas não senti muito, não. Não tinha grande amizade. 


P – Mas como é que a senhora sabia assim, que era... “Ah, esse é meu namorado”? Era alguém que mandava bilhete, conversava com a senhora? 


R – Conversava bastante. 


P – Pedia a mão em namoro? Como é que era? 


R – A gente ia passear de bonde junto, ia no parque da Aclimação junto. Era só isso. Eu não gostava muito dele, também. (risos) 


P – Mas vocês saiam sozinhos ou saiam com alguém? 


R – Sempre com a irmã dele, com minha irmã. Uma turma grande, de gente, pessoas, de amigas. Saía tudo junto, ia para o Parque da Aclimação passear. 


P – E vocês davam a mão? 


R – Dava a mão. Ia sempre de mãozinha dada. (risos) 


P – E a senhora tinha quantos anos nessa época desse primeiro namorado? 


R – Quantos anos? Que eu namorei? 


P – Não. Quantos anos a senhora tinha? 


R – Eu tinha dezenove, vinte anos.


P – E o segundo namorado? 


R – O segundo já era um senhor. Também não gostava dele não. Ele morava em Rio Claro. Não. Rio Claro, São Carlos… Rio Claro. E namorei pouco tempo ele também. Não gostava dele também. Era um senhor já de cabelo branco. Não gostava não. Achava que era muito velho para mim. Depois aí eu conheci o Guimarães. Nessa época eu já estava com trinta anos. Ele trabalhava na Homeopatia Fiel e na farmácia minha cunhada disse assim: “Thereza, vai visitar o – sobrinho dela, não sei – que está muito doente, e eu não posso ir. E hoje é domingo e eu não posso sair daqui porque a farmácia está de plantão. Você vai com a Hermínia e a Clara”. A Clarinha era a filhinha dela, que hoje é avó. [falha áudio]


P – Dona Thereza, a senhora estava falando justamente que a senhora foi na casa dessa pessoa com a Clara, Hermínia. 


R – É isso, Hermínia. Fomos visitar o sobrinho da minha cunhada que estava muito doente, e a gente desceu na estação em Santo André. Mas antes eu falei assim… Quando chegamos na estação do Brás, eu falei assim: “Hermínia, o trem vai demorar, vamos na estação da Luz?”. Então tomamos o trem e fomos na estação da Luz tomar o trem para ir para Santo André. Chegando lá tinha uma fila grande para comprar bilhete e eu fiquei atrás de um senhor. Aí, estava demorando muito, uma moça bateu com tanta força lá no guichê, então quando o rapaz abriu, deu um sorriso. Então, o Guimarães virou e falou assim: “Pois é, se fosse um homem, ele estrilava”. Eu falei:  “Mas uma mulher bonita…”. Ele falou: “Pois é”. Compramos bilhete, descemos, tomamos o trem e ele comprou doces, bolachas, bombom, não, balas. Sentamos no..., ofereceu balas, sentamos ali, conversamos, nós pra cá e ele pra lá. Aí perguntou onde eu morava. Aí eu falei: Eu trabalho na farmácia com meu irmão, na Farmácia Redorat, na rua do Hipódromo. E ficou por isso mesmo. “Então, Até logo.” “Até logo.” Pronto. Aí, ficou por isso mesmo. Visitamos o rapaz que estava muito mal e voltamos para casa. E depois, eu falei assim para ele, falei para Hermínia: “Gostei do homem. Será que vou encontrar outra vez?” (risos). Depois ele... Um dia uma amiga falou assim: “Thereza, você mora e trabalha ali no centro, compra entrada para o teatro, para nós – eu, ela e o namorado – no Teatro Santana”. Tinha, não sei que peça que era. Eu fui. Fui comprar a passagem, a entrada, e na esquina, assim: “Oh, você por aqui?” – ele falou. Eu falei: “Vou comprar entrada para o teatro”. “Eu passei tantas vezes na farmácia, não te vi lá.” Eu falei: “Mas eu estou trabalhando lá”. Aí, ele foi também no teatro. De noite. E acompanhou a gente, conversou. Aí perguntou onde é que eu estava, onde é que eu morava. Essas coisas todas. E ficamos grandes amigos, e nos casamos, só no civil. Não tivemos filhos.


P – Por que a senhora casou só no civil? 


R – Ah, ele não era mocinho, nem eu também. Eu tinha trinta anos, ia casar de véu, essas coisa. Não gosto. Nunca gostei. 


P – E ele tinha quantos anos, Dona Thereza? 


R – Ele estava com trinta e oito anos. E eu trinta nessa época. Vivemos quarenta anos juntos. Valeu. Valeu sim. Ele foi muito bom. Passeamos muito. Ia no Municipal. Toda a temporada do Municipal a gente ia. Ele gostava muito. Ele trabalhava no palácio, tinha facilidade de tudo. Então a gente ia no Municipal, passeava lá para Campos de Jordão. Passeei bastante. 


P – Qual era a profissão dele? 


R – Redator. Falava muito bem. Tem um livro de poesia dele, mandei encadernar para ficar de lembrança. E ela quis trazer, para você ver. 


P – Que ótimo. Vocês casaram e foram morar onde? 


R – Fomos morar na rua Carmelitas e depois de lá nós fomos para Pindamonhangaba. Moramos lá uns quatro anos em Pindamonhangaba e voltamos, para rua Carmelitas mesmo, mas agora já tinha apartamento. Compramos apartamento onde eu moro até hoje. 


P – Por que vocês foram para Pindamonhangaba?


R – Ele queria ir. Tinha facilidade de transporte. Ele disse: “Vamos para Pindamonhangaba? A cidade está tão cheia de coisas. Vamos embora um pouco para o interior”. E fomos para lá. 


P – Mas vocês já estavam aposentados?


R – Eu só. Ele não. Ele trabalhava. Ele vinha segunda e voltava sexta para casa. Trabalhava no palácio. Depois ele aposentou também e ficamos todos lá. 


P – E a senhora gostou dessa época? Lá de Pindamonhangaba? 


R – Eu gostei. Gostoso lá. Naquela época era tudo bom (risos). Tinha vizinho bom. Foi uma vida muito boa. A minha vida foi muito fácil. Nunca sofri demais, nunca tive dissabores demais. Dissabores que eu tinha era quando falecia alguém de casa. Mas, outra coisa não.


P – A senhora virou funcionária pública depois? A senhora trabalhou na farmácia, Fala um pouco sobre a carreira profissional da senhora. 


R – Da farmácia que eu fui para Secretaria. Aí fiquei na Secretaria até aposentar. 


P – Que Secretaria? 


R – Da Fazenda. Na Rangel Pestana. 


P – A senhora fazia o que lá? 


R – Era escriturária. Como eu tinha...como é que chama... começo de redação de empresa, então de vez em quando o chefe faltava e eu ficava no lugar dele. 


P – A senhora ficou quantos anos lá? 


R – Trabalhei vinte e oito anos. Até hoje tenho amizade ainda. Elas vão em casa. Tem uma que vai toda semana em casa (risos), chama Thereza também. Hoje ela é diretora lá. 


P – E como é seu dia a dia hoje, dona Thereza? 


R – Levanto, ligo o rádio, a TV, para ver notícias. Porque logo de manhã tem notícia. Faço café, tomo café e depois arrumo a casa, essas coisas, tudo. Lavo roupa. Hoje mesmo já lavei roupa, já estendi. 


P – A senhora mesmo lava? 


R – Já. A máquina lava. (risos) 


P – A senhora mora sozinha? 


R – Moro. Sozinha. Nós criamos um rapazinho, negrinho, mas ele morreu. Tenho uma saudade dele, só vendo. Uma pena mesmo. Criatura melhor do mundo. Desculpe viu, mas a criatura melhor do mundo, que eu conheci. 


P – Morreu de quê? 


R – Do coração. A vida é assim. Quis levar. Paciência. Guimarães também morreu do coração. Ele tinha diabete também. Depois pôs duas pontes de safena. Na terceira não pode por mais e ele faleceu. Faleceu com oitenta anos. 


P – Deixa perguntar uma coisa para senhora. Nas coisas que a senhora passou, que a senhora viveu, se a senhora pudesse mudar alguma coisa, a senhora mudaria? 


R – Agora? 


P – É. Se a senhora pudesse voltar no tempo. 


R – Não. Não mudaria não. Foi tão boa a minha vida sempre. Sempre, desde criança, também não passamos nunca necessidades. Meu pai sempre trabalhou. Nunca passamos necessidade. Tinha o que queria. Na medida do possível, claro. Depois casei, tinha bom rendimento também, ele. Não voltaria não. Estou esperando ir para o céu. (risos) 


P – A senhora ainda tem algum sonho, algum desejo para o futuro? 


R – O que eu posso ter para o futuro? Noventa e dois anos. (risos) Eu não queria morrer numa cama, dando trabalho. Isso sim. Dando trabalho para os outros. Não queria mesmo, não desejo mesmo, ficar numa cama meses, anos, ali, dando trabalho para as pessoas. Isso não desejo mesmo. Quando acordo de manhã… “Ah. Ainda estou viva.” (risos) “Obrigada Senhor, ainda estou viva.” 


P – O que a senhora achou de ter contado sua história aqui pra gente? 


R – Achei interessante. Muito interessante. Quando...Posso falar outra coisa também? 


P – Pode, pode. 


R – Quando inaugurou, agora que é a Prefeitura, quando inaugurou era Palácio das Indústrias. Muito bonito. Meu pai levava a gente lá. Aliás, meu pai sempre levou a gente para passear. Ele levou lá. Era um palácio mesmo. Uma beleza aquilo. Hoje está em petição de miséria. Mas naquela época era muito bonito. Eles davam amostra, tudo pequenininha. Caixa de fósforo...Tudo que era amostra, tudo pequenininho assim. Uma beleza aquilo. Gente muito bonita para atender. Uns homens loiros, bonitos para atender as pessoas, para indicar onde... Foi muito bonito mesmo. Quando inaugurou também o Mercado grande que é hoje, também nós fomos ver. Porque ele era na Praça Fernando Costa, no Parque Dom Pedro. Era ali o Mercado. Mas era um mercado assim… Umas coisas cobertas, outras coisas cobertas. Cada um vendia uma coisa. Então chamava Mercado. Depois, quando inaugurou lá, aí sim. Aí ficou bonito mesmo. Os vitrais são todos bonitos e da França. Os vitrais do Mercado. Muito bonito aquilo 


P – Deixa perguntar uma coisa para senhora. A senhora lembra da Revolução de 32? 


R – Lembro sim. A Revolução de 32, nós fomos... Meu pai pegou nós todos e fomos para Guariba, porque jogavam muita bomba e a gente estava no centro. Era bomba pra cá, bomba pra lá. E nós fomos para Guariba nessa época. Era moça, bem moça, não tinha casado. Era tudo de juventude ainda, naquela época, 1932. Meus irmãos também, um ficou aqui trabalhando na farmácia, morava lá, os outros foram todos “com nós”. Mas morreu muita gente, explodia bomba nos quintais. Assim. Que mais?


P – E o Quarto Centenário. A senhora lembra do Quarto Centenário de São Paulo?


R – Não. Eu estava em Catanduva. Em Catanduva. Em Catanduva não. Em Pindamonhangaba. 


P – A senhora quer falar mais alguma coisa que a gente não perguntou? 


R – Que mais, que mais. 


Acompanhante – Posso falar, posso perguntar também? 


R – Pode. 


Acompanhante – Acho que ela se lembra do Ouro pelo Brasil. 


R – Lembro. Ouro pelo Brasil lembro sim. Tinha aquelas bacias cheias de alianças nas vitrines. Todo mundo dando ouro para o Brasil. (risos, risos)


P – A senhora chegou a colocar alguma coisa lá? Algum anel? 


R – Meu pai pôs. Aliança da minha mãe também. Pôs a aliança lá. E hoje, no Largo da Misericórdia tem um prédio que foi comprado com o ouro do Brasil. O ouro que foi dado… Falaram isso. Não sei se é verdade. 


Acompanhante – Tem uma coisa interessante que aconteceu com nós duas há uns dez anos atrás, eu fui dar um curso lá em Poços de Caldas. Ela quis ir comigo. 


R – Não, eu tinha setenta anos naquela época. 


Acompanhante – Não, o Crechplan tem catorze anos. Eu estou faz uns dez anos. E aí, foi aquela época que chovia muito, que a Rodoviária ficava cheia de água. Nós duas passamos as duas, a noite, dentro do ônibus no meio da enchente. Não tinha o que comer, não tinha o que fazer, e eu lembro que ela falou assim para mim: “Ah, que bom que eu vivi essa experiência”. (risos) “Senão eu ia morrer sem passar por uma enchente.” (risos) 


P – A senhora nunca tinha passado por uma enchente? 


R – Foi tão engraçado, eu nunca esqueci disso. Ah meu Deus, tem gosto pra tudo né tia. 


P – Dona Thereza, Na época que a senhora morava aqui no Brás, não enchia a 25 de março, não enchia d’água? Já tinha sido feita a correção do rio? 


R – Tinha só loja boas, boas mesmo. Então veio e uma prima da Espanha, eu levei na rua 25 de Março que ela queria conhecer. Então ela disse assim: “Mira, y se vende todo? Ai que cosa, que cosa maravillosa”. Porque era muita loja e ela achava que não vendia nada. Eu falei: Vende sim. Por isso que estão todas as lojas abertas. Ela achava demais, muita loja. E na época, todo mundo comprava roupa, fazenda para costurar. Hoje não. Hoje compra tudo pronto. Hoje tem mais loja de roupa pronta do que tecido. As fábricas estão fechando todas. A rua 25 de Março está quase toda fechada. 


P – A senhora chegou a ir na Espanha alguma vez, viajar para Espanha? 


R – Viajamos. Viajei com uma sobrinha. Fomos para Espanha, Alemanha, França. Inglaterra. Fizemos uma turnê. Gostoso mesmo. Ficamos trinta e seis dias viajando. 


P – A senhora foi na cidade de seu pai? 


R – Fui na Espanha, mas não fomos. A gente precisava ir, mas tinha que falar aqui já para ir, porque o turismo de lá tinha que saber. Então, eu não estava sabendo, e eu não fui. Não fui em Benicarló. Tem outro primo que mora em Valência. Até me mandou uma revista de lá, que eles fazem, chama Fallas. São bonecos que eles fazem com tecido velho, fazenda, papel, papelão. Fazem cada coisa bonita, só vendo. Mas tudo crítica.. Tudo crítica. E é uma revista muito grande. Eu recebi esta semana, deles. Uma revista muito boa. Eu mando também de Carnaval pra eles. Que eles querem. (risos) Fazem questão da revista de Carnaval. (risos) 


P – Tá joia, dona Thereza. Queria agradecer à senhora por ter vindo aqui para dar seu depoimento para o Museu da Pessoa. 


R – Eu que agradeço. Obrigada.

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