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História

Foi onde aprendi a ser gente

História de: Marcela Carvalho de Camargo Alves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2014

Sinopse

Marcela nasceu e viveu no interior de São Paulo até os 17 anos, quando uma viagem aos Estados Unidos, incialmente pouco desejada, mudou profundamente sua visão de mundo, por meio de experiências intensas que marcaram sua vida e que ajudam a definir a pessoa que é hoje.

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História completa

Meu nome é Marcela Carvalho de Camargo Alves, nasci em seis de abril de 1984, em Taubaté. A minha mãe é Lígia Maria de Carvalho, nasceu em seis de janeiro, em Taubaté, na cidade de Taubaté. O meu pai é José Ernesto Freitas de Camargo, ele é de dez de dezembro, São Paulo. A minha mãe é dona de um bar, o Reduto do Samba, e ela trabalha em Taubaté nesse bar. O meu pai é empresário, ele trabalha com rádio desde que eu me conheço por gente, lá em São Paulo.

Nossa, eu acho que hoje em dia eu me lembro dessa casa, me dá uma saudade. Hoje em dia não tem mais de brincar na rua, daquelas casas compridas. Nossa, morava todo mundo junto, porque meus pais são separados desde que eu sou pequenininha, então eu sempre morei com a minha mãe e com a minha avó. E meu pai sempre morou em São Paulo, então era um relacionamento já desde o início não tão assíduo, não tão frequente. Mas eu lembro que morávamos eu, minha avó, minha tia, minha bisavó, então morava todo mundo numa casa enorme.  E eu lembro que eu brincava muito na rua, eram os vizinhos assim... Um deles, a gente tem um bom relacionamento até hoje, que são um dos melhores amigos da minha mãe, então a gente tem um ótimo relacionamento. Mas eu me lembro dessa fase assim de brincar, da inocência boa, de pega-pega, esconde-esconde, enfim, pular corda, de elástico. Eram brincadeiras saudáveis, que hoje em dia a gente não tem mais. É uma lembrança muito boa de todo mundo junto, de Natal todo mundo junto. É bem gostoso de se lembrar de estar todo mundo junto, porque aí o tempo vai passando. A minha avó mora no mesmo pedacinho, só que reformou, tá numa casa menor. Hoje mora ela, a irmã dela, que é minha tia que sempre morou, com um sobrinho. Mas minha mãe mora em outra casa, minha outra tia já também mora em outra cidade, a minha bisavó faleceu. Então assim, acabou distanciando um pouco, não era aquela coisa gostosa de estar todo mundo junto. É uma infância gostosa de se lembrar.

Tinha de queimada. Que eu era muito boa na queimada. Era a única brincadeira que todo mundo me queria no grupinho. A ente brincava na calçada. Literalmente na calçada. Minha avó morava no Centro, mas o Centro naquela época não era aquela coisa cheia de carro, cheia de comércio, ainda não era do jeito que é hoje. Então tinha mais casas, era um pouco menos movimentado, então a gente brincava na calçada. Passava giz assim na calçada e dali a gente fazia a nossa área de lazer. E assim, quando tava chovendo, sei lá, por algum motivo, minha avó tinha um quintal enorme, que tinha um pé de amora incrível, que minha bisavó pegava quase todos os dias pra mim. E lembro que ela punha num potinho. Eu chegava da escola, almoçava... Eram, tipo, duas casas em uma casa, então eu almoçava quando eu chegava da escola, depois eu ia lá à casa da minha bisavó, que era lá nos fundos, e ela já tava com um potinho de amora me esperando. Porque eu amava amora, então ela ia lá e pegava do pé. E eu lembro que a minha roupa era sempre manchada de amora e minha mãe queria me matar, porque manchava e não saía. Então tinha esse, voltando aí, tinha esse quintal também maravilhoso, que tinha um jardim, que minha avó gostava de aguar as plantas. Que tinha umas flores uma mais linda que a outra. Não era nada de horta assim. Tirando a amora, era flor mesmo. Era rosa, era margarida, eram todos os tipos de flor que ela tinha. E era o máximo. Então ou era na calçada, ou era no quintal.

As refeições eram preparadas pela minha avó. Minha mãe trabalhava, eu ficava na escola, e eu estudava à tarde. Então de manhã eu acordava, fazia tarefa, eu fazia tarefa na mesa da cozinha enquanto minha avó preparava o almoço. Então eu lembro que já nove horas da manhã minha avó já tinha chegado... Já tava em casa de novo, já tinha comprado as coisas para o almoço, já tava assim, a todo vapor cozinhando. Então ela escolhia feijão, eu a ajudava escolher o feijão, que eu lembro que na época escolhia-se feijão. Enquanto eu fazia tarefa, ela cozinhava. Quando eu tinha dúvida, ela parava, ia. Quando eu terminava de fazer a tarefa, eu a ajudava, lavava a salada, mexia o arroz. Eu lembro que ela no mexer o arroz, ela fazia tipo uma musiquinha, e eu lembro que eu queria sempre fazer uma musiquinha com o barulho da colher de pau mexendo o arroz, então era uma coisa que eu sempre segui nela. E aí eu falava, falava: “Nossa, que queria cozinhar”. Porque pra mim era uma profissão o que a minha avó fazia. E eram todos reunidos. Minha mãe saía do trabalho, na época, almoçava em casa, e depois voltava para o trabalho, e aí eu ia pra escola. Então eu me lembro da mesa cheia de gente. Nessa mesma mesa da cozinha que eu fazia minha tarefa. Então ela era cheia de gente, todo mundo almoçando junto.

No segundo ano para o terceiro ano do colegial eu fui morar nos Estados Unidos. No meio do segundo ano eu fui morar nos Estados Unidos. Então eu terminei o terceiro ano lá, me formei lá, fiquei um ano lá. Então eu saí daqui do Brasil, eu tinha 17 anos. E por ser filha única aqui, por parte de mãe, eu não sabia nem pegar ônibus sozinha. E com 17 anos, eu fui pegar um avião sozinha. Então assim, eu tinha consciência de que era uma coisa boa pra mim, de ir morar, e tem toda essa questão do idioma, e toda essa questão de “vamos crescer, vamos ser alguém”, toda aquela coisa do meu pai em cima de mim. Mas foi realmente o divisor de água.

Então, meu pai falou pra mim, falou: “Vamos. Você vai, já paguei”. E foi assim que eu fiquei sabendo, sempre do jeito que foi meu pai. Ele nunca perguntava, ele: “Você vai. Você vai fazer”. E assim foi. E quando eu recebi a notícia, eu lembro que eu chorei demais e fui pra minha mãe: “Mãe, meu pai falou que já pagou e que agora não tem saída”. E comecei a chorar. Porque ele me avisou, faltavam seis meses pra eu ir embora, então aqueles seis meses voaram. A minha mãe tentando fazer aquele meio de campo, mas assim, ao mesmo tempo em que ela sentiu, porque a gente até então nunca tinha ficado separadas, ela: “Não, você tem que ir”. Dando o maior apoio. Aí entra: “Quanta gente queria, quantas pessoas queriam estar no seu lugar, e vai”. E essa questão do idioma pegou muito, porque a família do meu pai, todo mundo sempre falou inglês, todo mundo sempre muito viajado. Todo mundo era muito aberto ao mundo lá fora. São Paulo é muito diferente da vida do interior, principalmente na época, muito tempo atrás. Então eu sabia que eu precisava ir, que eu precisava aprender. Todo mundo aprendia, por que eu não? E fui. E acabei indo. E eu lembro que no avião eu chorava tanto, eu acho que foi a pior viagem da minha vida assim. Porque eu entrei sozinha e aí foi inevitável a despedida no aeroporto, que também foi outra coisa horrível. Então eu sou muito assim. E eu lembro que já no aeroporto eu não queria abraçar ninguém. Que eu tinha aquilo na minha cabeça, que se eu abraçasse, eu não ia, eu ia ficar. E foi muito louco, porque eu dei tchau e não abracei ninguém. E minha mãe, minha avó, que eram mais ligadas, ficaram inconformadas, achando que elas tivessem feito alguma coisa. E eu só fui descobrir isso quando eu voltei, um ano depois. E aí eu fui. Mas eu chorei tanto no avião, que eu lembro que uma aeromoça veio perguntar se tava tudo bem, se eu precisava de ajuda. E eu lembro que o voo tava vazio, não era aquele voo cheio. E aí a aeromoça sentou do meu lado, e ficou, e me acalmou. Eu ainda tinha que fazer uma conexão em Nova Iorque. Então eu desci em Nova Iorque e tive que pegar outro avião. Nossa, então eu cheguei a Nova Iorque, nossa, aí eu desabei mesmo. Eu pensei que não podia mais desabar, mas foi de novo. E eu liguei do orelhão pra minha mãe e chorava: “Mãe, eu quero ir embora, eu não sei o que eu faço. Eu to aqui, eu preciso pegar outro avião, mas não sei pra onde eu vou. Eu não sei qual chek-in, onde eu tenho que fazer o chek-in, eu não sei nada”. E minha mãe começou a chorar do outro lado do telefone. E eu fiquei mais desesperada ainda. Ela falou assim: “Calma! Respira e vai. Pergunta, gesticula, fala português, enfim, mostra a passagem”. No fim deu tudo certo, eu cheguei lá... Assim, o primeiro mês foi bem assustador.

Eu fui pra Connecticut, que é uma hora e meia de trem até Nova Iorque. E foi uma superexperiência. Foi onde eu aprendi a ser gente. Foi onde eu aprendi a lavar as minhas roupas, a ter responsabilidade. Então assim, eu acordava... Teve uma época que e acordei doente e falava: “O que eu faço? Eu vou pra escola ou não vou? Eu tomo remédio?”. Então assim, foi onde eu precisei me virar. Foi onde eu aprendi outro idioma, que foi pra isso que eu fui. Então assim, a minha escola, na época, era um corredor, no colégio, e aquilo se resumia no meu colégio, era um corredor e tinha umas salas e pronto. Quando eu cheguei lá, eu ganhei um mapa da escola. Então tinha mapa. Quando eu olhei, eu falei: “Aonde eu vou? Que sala eu vou? Com quem eu falo?”. Era um colégio público. Uma High School normal. Realmente, assim, eu cheguei com a cara e com a coragem, em tudo. Eu não falava nada. Mas assim, “malemá” saía meu nome. Então foi duro. Mas dizem que a gente só aprende assim, quando a gente tem alguma dificuldade, quando a gente dá um tropeço assim, que a gente realmente aprende e valoriza as pequenas coisas da vida.

Na escola é outro mundo. Outro mundo. A impressão que eu tinha era assim, eu fazia amizade com uma pessoa, no dia seguinte parecia que eu não a conhecia, porque não é aquela coisa receptiva, aquele calor brasileiro que a gente quer, tratar bem, receber bem e falar, enfim. Não, lá não tinha isso. E lá eram aulas diferentes. Então assim, eu fazia uma aula com uma turma, fazia outra aula com outra turma, e assim ia. Então eu fazia amizade com a fulana, aí eu ia embora pra casa assim: “Ai, conheci fulana, que bom, conheci mais uma pessoa”. Mas na aula seguinte, a fulana “malemá” olhava pra minha cara. Então eu falava: “Meu Deus”. Então assim, pra mim era cada dia uma conquista, cada dia um dia novo. Eu acordava assim, como será que vai ser hoje? Até que eu conheci um anjo. Na verdade, dois anjinhos na minha vida, que foi uma menina, que ela tinha se mudado também, americana, só que ela se mudou de estado. Então ela era recente lá, então ela também tava se sentindo um peixe fora d’água, e eu fazia uma aula com ela e a gente começou a conversar. E assim, eu acho que nada é por acaso nessa vida. Ela virou assim, minha best friend, entendeu? E foi daí que eu comecei a viver, de fato, a minha vida no mundo americano. E foi aí que o meu inglês cresceu, fluiu. E eu fui morar com ela. Eu liguei pra minha mãe, falei: “Posso?”. E conheci a família dela, a família dela era demais. Então assim, foi muito engraçada essa visão que eu tive. Então assim, essa família era muito louca, porque eles moravam numa casa que tinha um banheiro, e a família inteira se resumia em dez pessoas. Era o pai a mãe, a mãe tinha quatro filhas do primeiro casamento, o pai tinha quatro filhos do segundo casamento, filhas também, e eles se juntaram, então a família eram dez pessoas, comigo, 11, com um banheiro. E eu dividia o quarto com mais quatro pessoas. Eles fizeram do porão um quatro gigante, então nesse quarto gigante que eu me encaixei. E eu dividia a cama de casal com uma das meninas. Então assim, era uma coisa assim, as minhas roupas, eu colocava numa prateleirinha assim, mas foi a época mais feliz e mais importante da minha vida, de ver onde estavam realmente os valores da vida, felicidade, e que não se tratavam de coisas materiais, muito pelo contrário, era de sentimento, de pessoas que faziam diferença na minha vida. Foi aí que eu enxerguei um mundo de uma forma mais humana e que eu levo comigo até hoje. Foi uma lição de vida.

Quando teve o atentado do 11 de setembro, eu tava lá, fazia um mês que eu tava lá. E assim, o meu inglês ainda não funcionava muito bem, e eu tava na escola, e isso também me marcou muito. Eu lembro que eu tava tendo aula, eu não entendia nada que o cara falava, então eu ia pra escola e ficava lá viajando no que ele falava. E ele ligou a televisão e todo mundo começou a ver, e eu também comecei a ver televisão. E todo mundo: “Olha, olha”. Eu falei: “Gente, esse filme tá muito real que esse cara tá passando”. E eu achando que fosse um filme, que fazia parte da aula. E quando eu vi que o negócio era sério, eu fiquei assim, superassustada. E eu fui entendendo aos poucos o que tava acontecendo, eles dispensaram a gente mais cedo da aula. Eu tentei ligar pra minha mãe, as linhas congestionadas e não conseguia falar com ela. Eu falei: “Pronto, morri”. E longe da minha mãe, da minha família. Só caiu a ficha que era real, que uma menina da minha sala, o pai trabalhava em uma das torres. E quando o segundo avião atingiu a segunda torre, ela entrou em choque. Ela ficou em pânico. Eu falei: “Ai meu Deus, o negócio é sério. É de verdade”. Porque o segundo foi ao vivo, todo mundo viu, então foi muito intenso tudo.

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