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História

Foi muito prazerosa essa conquista

História de: Claudinê Aparecido Saldanha Junior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2014

Sinopse

Claudinê conta das inúmeras reviravoltas que marcam sua história e de sua família: desde o avô paterno que um dia saiu de casa para nunca mais voltar, passando pela batalha da avó que tornou-se cozinheira para manter a família, até os inúmeros trabalhos que o pai executou antes de finalmente obter estabilidade com a oficina mecânica. O depoente teve uma carreira de caubói em ascensão, sonho que teve a oportunidade de realizar nos Estados Unidos, antes de ser interrompido por um importante chamamento familiar, quando teve que assumir os negócios da família. A propriedade leiteira que construíram com as próprias mãos e que está constantemente se transformando é a conquista de outro sonho: estar cada vez mais próximo do campo e de garantir uma produção de qualidade.

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História completa

Sou Claudinê Aparecido Saldanha Júnior. Quarenta e um anos. Nascido no dia seis de outubro de 1972, em São Carlos, São Paulo. Meu pai, Claudinê Aparecido Saldanha, nascido em 20 de outubro de 1947, na cidade de Birigui, São Paulo. Minha mãe, Maria Bernardete Castelen Saldanha, de 1947... Quase 51, nascida em São Carlos, São Paulo.

Desde o início, meu pai tem uma história muito triste, por conta que meu pai tinha uma irmã, com sete anos de idade, que era a irmã do meio, meu pai tinha cinco e meu tio mais velho, que é sócio nessa propriedade, eles estão juntos até hoje, com onze anos, na época. A minha tia, na infância, mas era minha tia, é minha tia, e ela saiu num domingo pra buscar uma garrafa de guaraná, na venda da esquina e tropeçou e caiu, cortou o pulso e morreu de tétano três dias depois. Meu avô tinha uma empresa, uma pequena empresa, onde ele fornecia, ele era o principal fornecedor de lenha pra ferrovia, pra antiga Fepasa, a ferrovia paulista. Ele tinha lá seus 40 funcionários. Minha avó criava meu pai, meu tio e essa minha tia muito bem. Em colégio particular, e coisa e tal, naquela época já. Dentro de 30 dias o vento soprou e o barco virou. O meu avô foi até o banco pra sacar o dinheiro, que naquela época sacava o dinheiro e pagava todo mundo em dinheiro, ele sacou esse dinheiro, saiu do banco e nunca mais ninguém o viu até hoje. Nisso, a minha avó, pra não perder o estudo do meu pai e do meu tio, foi trabalhar de cozinheira na escola, pra poder manter a bolsa dos dois. Vendeu todos os bens, carro, casa, tudo que tinha pra pagar a indenização dos funcionários, seus quarenta e poucos funcionários na época e nisso, eles passaram a viver uma vida humilde, a partir desse dia, que meu vô foi embora, deu uma vira volta dentro de 30 dias. Meu pai, assim, teve idade, com meu tio, que eles desceram pro centro da cidade, para engraxar sapato, pegar papel e minha avó montou uma cozinha e começou a fazer bolos e salgado pra festas, pra fora, nos finais de semana, e trabalhando na cozinha do colégio, pra eles estudarem. Ela morreu aos 84 anos, fazendo isso, criou meu pai e meu tio com dignidade e ensinou pra eles o que era o trabalho e eles, na minha geração, conseguiram criar um novo patrimônio, saindo da estaca zero, nos primeiros dez anos de vida e chegaram onde chegaram até hoje. Meu pai, aos 15, entrou de ajudante de mecânica, numa oficina. Ele se deu muito bem com isso. E aos 23, ele já era chefe de mecânica de uma concessionária, em São Paulo, do Chiquinho Scarpa. A ascensão dele foi muito rápida. Com isso, ele se casou, minha mãe ficou grávida de mim e não queria morar em São Paulo. Criada aqui no interior, não queria morar em São Paulo. Meu pai retornou a São Carlos, sendo chefe da concessionária Volks, da Discasa, em 1970, morando em São Carlos, como minha mãe queria. Trabalhou lá por um ano e pouco, criou coragem, montou sua própria oficina, que é a Auto Modelo, uma oficina que a gente tem até hoje, que é nossa principal fonte de renda e ela tem, praticamente, 41 anos hoje. Temos quase 20 funcionários e, eu cresci lá dentro, eu administro ela hoje, e eu administro também a minha propriedade. A propriedade tem desde 1984. Fazendo, agora, 30 anos. A gente formou ela do zero, a gente comprou ela não tinha nem divisa de cerca, era um cerrado, não tinha nada. Cada árvore que você plantada aqui, foi a gente que plantou.

O histórico vem do lado da minha mãe, que até agora eu falei do meu pai. O histórico vem de lá da minha mãe. Porque meu avô materno era produtor de leite. Meus tios produtores de leite, então, minha mãe foi criada com o gado de leite. Eu passava férias na fazenda do meu vô, que depois perderam tudo, mas passava as férias lá, de infância. Meu gosto por cavalo, por gado, sempre veio desse lado da minha mãe. Meu pai, herói que é, sempre pendeu pra esse lado, fazendo o meu gosto. Por isso que veio essa aquisição da propriedade. Não adquiriu essa de cara, a gente tinha uma pequenininha, pegamos do zero, trabalhamos, formamos, vendeu, comprou essa do zero, trabalhou, formou. Nada caiu do céu. Para você ver como foi difícil essa ascensão do meu pai. Meu pai sempre foi assim, não teve medo de nada. A primeira propriedade que meu pai comprou foi uma chácara de 15 mil metros, onde não tinha dinheiro pra pagar o trator pra fazer o desmate. Eles fizeram no enxadão, ele e meu tio, cavoucando pé de árvore, tirando, limpando, pra construir a casa. Contrataram pedreiro e trabalhavam de ajudante pra esse pedreiro pra ficar mais barato, e coisa e tal e, aos sete anos de idade, aos meus sete anos de idade, a gente foi morar lá pro meu pai começar a construir o barracão da primeira oficina dele. Então, a gente morou nessa chácara por três anos, com acesso em terra, que nem esse que tem aqui. Só que naquela época, sem energia elétrica. Então, minha mãe esquentava água no caldeirão, no fogão de lenha e colocava naquele chuveirinho de campanha, igual de exército, que puxava a cordinha e tomava banho e tal. Então, dos sete aos dez, eu morei nessa chácara com a casa sem forro, com telhado de Brasilit, que nessa época de inverno, soava por dentro, de frio e a gente foi criado lá três anos, sem energia elétrica, uma fase muito difícil, mas prazerosa na parte de conquista, entendeu?

Eu sempre quis ser caubói. Desde pequeno, montado no cabo de vassoura, eu e meu primo. Os dois, caubóis. Um primo que cresceu comigo, que é o que comprou essa chácara, agora, que eu morei, Eduardo. A gente cresceu junto. Fomos, eu agora ligado mais ao gado, parei, mas você viu nas minhas fotos, montado a cavalo, fazendo prova. Meu pai me proporcionou eu crescer no meio do cavalo, fazendo provas e cronômetro e tive oportunidade de morar nos Estados Unidos por um ano, participando de rodeios, essas coisas, provas. Então, eu consegui realizar meu sonho de ser um caubói, viver daquilo.

Você vai ver foto minha com três anos de idade já montado a cavalo. Eu sempre montei a cavalo. Quando eu comecei, tipo, numa fase amadora, pra depois me profissionalizar, foi perto dos 20 anos por aí; que eu fui enxergar o negócio, esse mercado que existia, participar dos rodeios, das provas, dos campeonatos, essas coisas e poder também, subir um degrau que era ir pro Texas. Depois dos 19, 20 anos. Morei no Texas, um ano.

Eu sempre quis, mas do jeito que eu consegui, muita gente vai, muita gente consegue, mas do jeito que eu consegui foi tipo uma conquista mesmo. Por quê? Porque eu não paguei. Quem vai, quem consegue ir pra lá, é pagando, né? O cara faz intercâmbio ou paga, né, paga caro. Você sabe que é caro. O quê que aconteceu? Em Presidente Prudente, tem um rodeio chamado de Rodeio dos Campeões e onde são convidados alguns campeões de cada modalidade, americanos. Na modalidade que eu praticava na época, que era o Team Hoping, que era o laço em dupla, foi convidado um americano chamado David Lloyd pra participar aqui. Eu fui assistir esse rodeio. Lá, com acesso que eu tinha, eu fiquei nos bastidores com meus amigos. Eu não falava inglês, muito básico, e esse americano muito gente boa, ficando amigo de todo mundo. Tentando me comunicar com ele, ele pegou me deu um cartão e falou: “Ó, mi casa su casa. Quando quiser vai me visitar.” Eu: “Tá bom”. Eu guardei aquilo. Um dia, atendendo na oficina, um cara: “Ah, sou professor de inglês.” Eu falei: “Pô, você não quer fazer um negócio pra mim?” Ele: “Fazer o quê?” “Você não quer ligar pra um americano pra mim? Ver qual é o esquema pra eu morar com ele lá? Eu conheci ele, tal, tal, tal”. “E se você conseguir, você ganha um aluno.” Que ele dava aula particular. “Se você conseguir, você ganha um aluno. Se você não conseguir, eu não vou fazer.” Ele, pegou, fez contato com esse americano. Explicou, falou... Eu passei tudo pra ele, eu falei: “Ó, fala pra ele que eu sei fazer tudo em fazenda. Sei fazer cerca, sei tratar de cavalos, escovo cavalo, corto o casco de cavalo, faço injeção em cavalo. Fui criado. Eu faço tudo que ele quiser. Eu trabalho de funcionário pra ele lá. A troco de ele me dar casa, comida e eu participar com ele lá, ele me ensinar.” Esse cara, na época, tava entre os cinco melhores do mundo. Ele cobrava pra quem quisesse, foi o intuito de ele me dar o cartão, quinhentos dólares por semana. Só pra morar lá com ele. Esse meu amigo, que hoje é meu amigo, esse professor de inglês, o Pita, fez contato com o David e explicou isso pro David. Ele falou: “Ó, ele não tem quinhentos dólares pra te pagar por semana, só que ele tem o trabalho e ele é um cara muito influenciado, aqui, que conhece todo mundo, que conhece pessoas que podem te pagar os quinhentos dólares por semana.” Que eu tinha amigos com poder aquisitivo que poderiam ir pra lá, que não falava inglês, que eu to num haras, se sentiriam apoiados e poderiam estar indo lá. O americano enxergou nisso uma oportunidade de negócio e falou: “Não! Prepara ele aí uns 30, 60, 90 dias, quanto você acha que ele prepara ele aí, um inglês intensivo pra você mandar ele pra cá com o básico e manda ele pra cá. Não vou cobrar nada dele, só vai me ajudar com o trato do cavalo que vou dar pra ele usar aqui, um combustível pra gente trabalhar junto. Coisa simples, coisa de amigo. Conheci ele, gostei muito dele.” Ah! Quando me deu essa notícia, eu falei: “Não! Vamos começar hoje!” Me empenhei nessas aulas de inglês com ele e em 90 dias, eu tinha uma namorada na época, que eu achava que fosse ser minha esposa, naquela juventude de 19, 20 anos. Eu falei pra ela: “Tchau! Tô indo! Daqui noventa dias eu to indo embora.” “Ah. Você vai fazer isso?!” “Vou.” Falei pro meu pai: “Segura a onda, que eu tô indo realizar meu sonho”. E aí juntei as malas e em pouco tempo tava eu fazendo uma conexão em Nova York, de bota, chapéus, naquele aeroporto de Newark, perdido lá dentro, sem achar portão de embarque, sem nada. Um Crocodilo Dundee em Nova York. Me encontrei, lá, com esse americano, em Dallas, depois. Ele tava esperando lá no portão de embarque lá.

O segundo ponto foi conquistar uma competição importante lá, que foi num dia de Ano Novo, onde na noite anterior, eu falei com todos os meus amigos, antes da meia-noite, não só por conta do fuso horário, mas que eu tinha que acordar cedo, que era uma competição muito importante, chamava New Year’s Roping onde tinham setecentos participantes, só eu de estrangeiro. Eu venci essa competição em primeiro lugar e foi muito marcante pra mim isso e era eu e um parceiro americano, né, que éramos em dois, na competição. Todo aquele momento do galope da vitória que você tem, tradicional, depois do anúncio do campeão. Todo mundo em pé aplaudindo e tocando aquela música “We are the Champions” e eu esse meu amigo, e eu chorando, aos prantos, em cima do cavalo, e num tinha ninguém pra registrar aquilo. Aquilo só tá minha memória. Só eu e a minha memória que sabe daquele momento o quanto foi importante, o quanto foi bonito, só eu participei daquele momento, sozinho. Eles me chamavam só de Brasil, porque só tinha eu de brasileiro naquele dia. Foi muito bonito. Foi muito marcante pra mim, naquela viagem. Eu acho que o momento mais emocionante, assim, foi esse momento e o momento da vinda embora. A gente se tornou muito cúmplice, eu e esse meu amigo, que hoje é meu amigo. Ele é dez anos mais velho que eu. Ele não tinha filho homem. Ele só tinha duas meninas, como eu tenho hoje. Ele me abraçou de uma tal maneira que ele chorava quando eu vencia uma competição, como se eu fosse filho dele, sabe, tanto que ele se engajou na minha formação lá, como competidor. Eu morava a duas horas, duas horas e pouquinha, do aeroporto internacional de Dallas, Fort Worth lá. A gente saiu de casa sem trocar uma palavra e na hora que a gente entrou no aeroporto, até a hora que a gente foi se despedir, chorando os dois, de quebrar um negócio tão forte que a gente tava acontecendo na vida da gente, tanto na dele quanto da minha. A gente foi se despediu, chorando. Foi um outro momento marcante, foi a despedida daquilo. Foi muito marcante. Consegui voltar lá mais três vezes depois, pra visitá-lo, a última, agora, em 2012, mas só como visita.

Eu voltei porque meu pai precisou de mim do lado dele para administração do negócio da família e eu larguei tudo lá e voltei. Não me arrependo, que a empresa teve mais sucesso na minha administração. Me casei, agora com minhas filhas, tal, foi uma coisa que teve que passar, mas eu consegui realizar meu sonho. E agora, meu projeto de futuro é poder trazer pra minha família, pra mim também, pra quem vai consumir nossa produção, que hoje a propriedade virou uma produção do leite orgânico, que tá dentro de uma coisa que eu acho que tem que crescer, tem que expandir cada vez mais essa alimentação orgânica. Eu acho que é isso.

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