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História

Foi muito bonito

História de: Silvia Maria Franciscato Cozzolino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2014

Sinopse

Silvia nasceu fruto de um casamento apaixonado, filha de pais que fugiram para poder ficar juntos. Acredita que herdou do pai o espírito aventureiro e empreendedor que o fez motorista, empresário e aviador, mesmo tendo estudado apenas até o quarto ano primário. Por influência de uma tia, decidiu fazer o curso de Nutrição em uma época que muito pouco se conhecia da carreira. Formou-se na primeira turma de Nutrição da Universidade de São Paulo e construiu uma carreira sólida e próspera com muita determinação e perseverança, vencendo inclusive os obstáculos que se apresentavam às mulheres da sua época no meio acadêmico em que estava inserida.

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História completa

Silvia Maria Franciscato Cozzolino, nasci em Avaré, dia 12 de maio de 1947. Meu pai é Silvio Franciscato, nascido em dois de novembro de 1915, e minha mãe Inesme Schain Franciscato, nascida em Niterói, Rio de Janeiro, no dia nove de novembro de 1923, Campo Grande, Mato Grosso do Sul, eu acho. Meu pai é descendente de italianos, de Treviso. Meu avô e minha avó se conheceram no navio vindo para o Brasil. E meu pai tinha 12 irmãos, ele era o último. E minha mãe, meu avô era libanês, e minha avó era filha de português. Então você imagina, meu avô assim, bem moreno e minha avó muito clarinha. E minha mãe era uma mulher muito bonita, ela pegou a pele da minha avó e o cabelo bem preto do lado do meu avô. Meus avós paternos, do lado da Itália, vieram imigrando, quando teve uma grande massa de imigração de lá.

E meu avô materno veio do Líbano, ele era libanês e veio com 12 anos para o Brasil, e se fez aqui. Já da minha avó materna, eu não sei muito. Ela falava e que a avó dela era índia e tinha sido roubada pelo pai dela, pela família dela, enfim, que ela tinha um pouco dessa mistura. Eles vieram pra trabalhar na lavoura, do lado dos italianos, tanto que depois de um tempo meus avós se separaram e minha avó cuidou praticamente dos 12 filhos sozinha. E assim, trabalhando junto com os irmãos dela e com a família dela em uma fazenda. E aí cada um foi para o seu destino, tanto que a gente nem sabe muito dos meus tios daquela época. E meu avô do lado da minha mãe veio mais pelo comércio. Acho que a comunidade libanesa no Brasil era assim bem unida e eles eram mais comerciantes, então eu lembro que meu avô tinha uma lojinha em Avaré. E eu nasci em Avaré por acaso, porque meus pais moravam naquela época em Curitiba. E minha mãe veio me ter na casa dos pais dela em Avaré. Eu nasci em Avaré, daí até os nove anos eu morei em Botucatu, aí eu vim pra São Paulo.

Era assim bem gostoso em Botucatu. Nós morávamos em casa e perto da minha rua passava uma boiada. As ruas já eram pavimentadas, tudo, mas passava uma boiada na rua debaixo da minha casa. E de vez em quando tinha uns bois que escapavam, então você tinha que sair correndo e fugir. A minha infância foi ótima, porque eu estudava numa escola lá das freiras em Botucatu e ao mesmo tempo eu tinha uma vida bastante, vamos dizer assim, interessante. Porque do lado da minha casa tinha um terreno que era não sei se alugado, ou se era dos meus pais lá, do meu avô, e meu avô fazia uma plantação, meu avô do lado da minha mãe. E ele plantava uma horta. E eu lembro que nós éramos pequenos, nós íamos lá, pegávamos a cenoura, comíamos e enterrávamos o galhinho pra não dizer que nós tínhamos comido. Então tinha uma infância bem alegre, bem divertida, de jogar amarelinha na rua com as minhas amiguinhas. Eu tinha duas amigas que moravam em frente a minha casa, os pais delas tinham uma padaria.

E eles faziam toda espécie de doces, de pães, daquela época. E nós brincávamos, nós crescemos juntas, chamava Vitorinha, era minha amiga de infância. Não era uma casa grande, mas era uma casa que você entrava, tinha uma sala mais ou menos grande, aí tinha os quartos, a cozinha mais para o fundo, e do lado tinha um quintalzão onde nós brincávamos, e do outro lado ainda tinha esse lugar que eu te falei que tinha horta. E na frente tinha uma roseira muito linda, que minha mãe plantou, e que ficava totalmente florida. E minha mãe gostava muito de planta. Minha mãe tinha muitas plantas no jardim, bem bonitinho na frente. E tinha um murinho assim na frente, que nós ficávamos nesse murinho. E teve um dia desses que passou a boiada e tinha um tio meu que tava na frente de casa e um desses bois chegou, fugiu da boiada e veio em cima assim. Se não fosse o murinho, o boi teria batido naquilo lá, poderia ter pegado o meu tio e não ter sido muito bom. Mas era bem divertido.

Meu pai começou trabalhando com o meu tio numa empresa de ônibus. Eles tinham um ônibus que eles começaram a fazer uma linha de ônibus de Piracicaba até naquela região. Hoje é uma empresa muito famosa, que é o Expresso de Prata. Pega Bauru, Marília e vai. E hoje ela é do meu primo. Porque quando começou, foi do meu pai e do meu tio, que eles mesmos guiavam os ônibus. E é muito interessante isso, porque naquela época meu pai conheceu a minha mãe, nessas viagens que ele fazia. E meu avô não queria que a minha mãe casasse com o meu pai, porque ele não era da mesma origem, ele queria que a minha mãe casasse com alguém de origem libanesa mesmo. E a minha mãe fugiu pra se casar com o meu pai, naquela época, em 1942. E foi muito interessante, porque minha mãe falou: “Não, eu vou casar, mas...” Aí meu pai arrumou todo o apartamento pra eles se casarem. Não sei se era apartamento ou casa. E o que ele fez? Ele foi pra lá pra Avaré com a irmã dele, aí minha mãe foi embora com eles. E quando eles chegaram lá, eles avisaram a família da minha mãe que eles iam se casar. Parece que eles tinham que ficar 24 horas, porque tinham que ficar não sei o número de horas pra dizer que tinha que casar.

Porque ela tinha 18 anos, eu não sei nem tinha ainda 18 anos. E a minha tia ficou com a minha mãe a noite inteira, daí no dia seguinte, meu tio mais velho, que o meu avô não quis ir, meu tio mais velho e a minha avó foram até Botucatu e eles se casaram. E a minha mãe era só estudante na época, estudava, nem chegou a completar o superior. E meu pai, como ele começou a trabalhar muito cedo e não gostava muito de escola, ele só completou o primário. Mas ele era assim, supertrabalhador, durante toda a vida dele trabalhou muito. Depois ele resolveu sair da empresa, foi pra Curitiba, e lá ele transportava caminhões da General Motors, nem eram caminhões, eram estruturas, só a parte da frente do caminhão, ele fazia esse trabalho. E aí voltou pra Botucatu, e lá ele voltou a trabalhar com o irmão dele, mas trabalhando assim, como gerência da garagem. Naquela época já havia crescido a empresa e ele trabalhou praticamente a vida inteira dele nessa… Mas nesse período que ele estava em Botucatu, vamos dizer assim, logo depois que meus pais se casaram, meu pai era instrutor de aviação. Você imagina que ele não tinha nem primário completo, praticamente, e ele ensinava o pessoal de lá a pilotar. Não sei como ele aprendeu.

Eu não sei te dizer, só sei que ele era instrutor de aviação no Aeroclube de Botucatu. E a minha mãe tem o brevê... Tinha, porque ela faleceu faz dois anos. Ela tinha o brevê de piloto, que ela era maior orgulhosa disso, e ela tinha aprendido com o meu pai. E naquela época que eu era bem pequena, meu pai nos colocava, eu e minha irmã, eu tenho uma irmã, que é um ano mais nova que eu, e nós duas íamos com eles naqueles aviõezinhos pequenininhos, voávamos por toda aquela região lá do interior de São Paulo. Era muito interessante, eu lembro bem. E meu pai era muito aventureiro, então ele gostava de caçar, de pescar, então nós crescemos também na beira do rio, bem da terra mesmo.

Eu entrei na escola no prezinho com seis anos, na época. Fiz esses três anos lá em Botucatu, aí eu vim pra São Paulo e terminei aqui o primário. Entrei no ginasial em São Paulo e segui em São Paulo até o final. Quando eu era criança, eu não pensava muito assim o quê fazer, como fazer. Depois teve uma época que eu comecei a pensar: “Ah, vou querer ser médica. Não, vou querer fazer Biologia. Não, vou querer fazer outra coisa”. E naquela época, depois que eu já passei pela fase de... Antes disso, eu queria fazer... Depois que eu terminei o ginásio, eu pensei: “Vou fazer clássico ou vou fazer científico?”. Que na minha época era clássico ou científico.

E eu pensava assim: “Não, eu tenho que ir pra uma parte biológica, que eu gosto mais do que fazer línguas”. Eu não gostava muito de línguas, não. E aí eu falei: “Não, vou fazer o científico”. E quando eu comecei a fazer o científico, eu já comecei imaginar: “Bom, o que eu vou fazer? Medicina? Biologia?”. E eu tinha uma tia, essa mesma tia que foi com a minha mãe quando a minha mãe fugiu, que era educadora sanitária. Ela trabalhava numa escola e ensinava puericultura, toda aquela parte assim. E eu achava superinteressante. Então eu falei pra ela assim... E ela teve uma influência bem marcante na minha vida, assim, de a tia que tinha estudado e que tinha uma posição na escola que era respeitada, e que eu mais ou menos a tinha como exemplo.

E na época que eu terminei o científico, eu falei assim: “Tia, eu vou querer fazer educadora sanitária”. E naquela época, esse curso era dado na Faculdade de Higiene e Saúde Pública, naquela época, e ele era, vamos dizer assim, um ano depois do científico ou do... Só que no ano que eu fui fazer, falei pra ela que eu gostaria, ela foi se interar e falou pra mim: “Eles fecharam esse curso. Não existe mais. Mas tem um curso de Nutrição. E esse curso de Nutrição também é de um ano depois que você termina o científico e acho que é interessante pra você fazer” – ela falou. Eu falei: “Ah, tá bom”. E eu fui lá pra me matricular pra fazer. Naquele ano fechou o curso de Nutrição, porque ele ia passar por uma reestruturação pra passar a ser de nível universitário. Porque naquela época, ele era um curso de, vamos dizer assim, aprimoramento, um curso pra você ir trabalhar direto na parte de serviço de alimentação e tudo mais. O que eu fiz? Falei tá bom, então qual a minha outra opção? É Biologia. Fui fazer cursinho pra entrar na Faculdade de Biologia da USP. Peguei, fui lá, fiz um ano de cursinho. Chegou ao final do ano, bombei, não entrei. Eu falei assim: “Tá bom. Vou fazer um curso pra Medicina. E no fim do ano, eu presto Medicina e Biologia de novo”.

Porque eu falei assim, fazendo um cursinho de Medicina, eu vou estar mais preparada pra entrar na Biologia, que era o que eu queria. Fiz outro ano inteiro de cursinho, fiz um cursinho que chamava Cursinho da USP, que era dado por alguns professores da USP, por alunos da USP que davam esse cursinho, era lá na Avenida Angélica, perto da Avenida Angélica. E chegou no final do ano, abriu o curso de Nutrição. A primeira coisa que eu fiz foi prestar na Nutrição. Eu entrei, nem fui fazer mais os outros. Então eu entrei na Nutrição depois de dois anos que foi fechado, e eu me formei na primeira turma de Nutrição que passou a ser de nível universitário.

Eu me formei em 1969 e tenho muito orgulho de ser dessa primeira turma. Porque nós tivemos com isso muita vantagem, porque nossos professores eram todos da área de pós-graduação da faculdade. Então como era a primeira turma, eles puseram várias disciplinas que eram disciplinas da pós-graduação, com os professores da pós-graduação, que eram sanitaristas da Faculdade de Saúde Pública, que hoje é Faculdade de Saúde Pública. Então eu tive aula com professores maravilhosos. Professor Magaldi foi um dos que mais me chamou pra área de pesquisa, praticamente. Porque foi com ele que nós começamos a fazer experimentos com animais, com ratos naquela época. Nós fazíamos o experimento no nosso curso e víamos o resultado de uma alimentação nesses animaizinhos. E era uma coisa incrível de ver aquilo. E ele foi um dos grandes incentivadores pra mim de seguir estudando depois da graduação.

Na época nós éramos só 20 alunas, meninas, porque naquela época fazer Nutrição... Primeiro que ninguém sabia o que era Nutrição. Todo mundo achava que você ia fazer um curso que na verdade era uma, vamos dizer assim, vou ser cozinheira de luxo. Que não é nada disso, né? E era difícil você explicar a importância do curso na vida. Até hoje às vezes é difícil. E nós, 20 meninas, lá, fazendo essas disciplinas que eram difíceis, que eram bem, como eu falei, muito bem dadas, ministradas. E as amizades foram se formando. E nós fomos formando os grupos. Então nós tínhamos, na verdade, no nosso grupo, praticamente de cinco a seis meninas que eram mais unidas.

E hoje, se eu for pensar na minha turma, existem nutricionistas que fizeram muito pela profissão, que tiveram muito sucesso dentro da área. A maioria já tá se aposentando hoje, porque hoje já temos 45 anos de formadas, mas algumas ainda continuam até hoje. Uma infelizmente faleceu, até bem cedo, com câncer, depois de ter casado e ter três filhos, inclusive hoje o nome dela... Existe um prêmio no Conselho Regional de Nutrição que leva o nome dela, Eliete Salomon Tudisco. E nós éramos muito chegadas, principalmente eu, ela e a Maria Lúcia Rosa Stefanini, que também fazia parte dessas três que eram mais chegadas, embora todas as outras ficaram com o tempo sendo cada vez mais próximas.

E nós tínhamos muitas coisas em comum. A Maria Lúcia, como eu te falei, nós fizemos o científico juntas. Então nós viemos desde o científico, fizemos Nutrição juntas, e ficamos muito próximas durante esse período da faculdade, tanto que era assim, um dia nós íamos almoçar na casa dela, outro dia na minha. Então nós revezávamos pra no momento que a gente tinha aquela horinha de almoço poder almoçar uma na casa da outra quando desse. E nesse período foi assim, nós tínhamos aula o dia todo, desde as oito da manhã, até as seis da tarde. Tínhamos só um intervalo rápido para o almoço e retorávamos. Por isso que eu falo, nós tínhamos um curso que foi em três anos, mas que hoje seria em seis, porque nós tínhamos um período bastante grande de disciplinas e de aulas práticas. E muitas vezes até fora da própria faculdade. Nós tínhamos aula na Santa Casa, nós tínhamos aula na Medicina da USP, com professores de lá. Então foi assim bem integrante esse nosso curso de Nutrição.

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