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História

"Foi ali que eu descobri que eu tinha sobrevivido"

História de: Rubiane Nascimento de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/10/2021

Sinopse

História dos pais e relação com os seis irmãos. A separação dos pais e as dificuldades na infância. O carinho pelos avós. Os momentos com a família e as comidas da tia. Brincadeiras na rua. Estudos e as professoras que marcaram. As companhias da adolescência e o dia do acidente. Os flashbacks do acidente. A longa recuperação no hospital. Apoio incondicional da família e do namorado. As dificuldades da prótese e o capacitismo das outras pessoas. A autoconfiança e a força de viver um recomeço. A busca por maior autonomia. A interrupção dos estudos. A relação com seu marido e a gravidez de sua primeira filha aos dezenove anos. A segunda gravidez. Curso de contabilidade e o ingresso na Brado Logística. Efetivação na área de facilities e retomada dos estudos. O encontro com outras pessoas com deficiência. As trocas das próteses da perna. O acolhimento na Brado e o dia-a-dia do seu trabalho. Conciliar a tripla jornada de maternidade, trabalho e vida pessoal. Seus maiores sonhos e a escolha do perdão.

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História completa

P/1  – Rubiane, para começar, eu queria que você dissesse seu nome completo.


R – Me chamo Rubiane Nascimento de Souza.


P/1  – E qual local e a data de seu nascimento?


R – É Curitiba, Paraná, eu nasci no dia 24 de julho de 1992.


P/1  – E qual é o nome dos seus pais?


R – A minha mãe se chama Tereza de Fátima do Nascimento e o meu pai é Lourival Francisco de Souza. 


P/1  – E o que eles faziam?


R – Meu pai, quando eu era pequena, eu achava que ele fazia de tudo. (risos) Eu achava que ele fazia um pouco de tudo, mas eu me recordo que ele trabalhava com manutenção e a minha mãe trabalhou uma época como atendente, numa escola.


P/1  – E como você os descreveria?


R – Meus pais se separaram muito cedo, eu tinha três anos, quando eles se separaram. O meu pai foi bem ausente na minha infância, mas eu sempre o tive como meu herói, sabe? Eu acho que é muito de menina isso, então eu tenho muito carinho, muito amor pelo meu pai. Ele é um pai incrível, ele se esforça muito para ser presente, hoje em dia. A minha mãe sempre esteve do meu lado, sempre me ajudou muito, a gente teve muita briga, porque eu convivi com ela, então a gente brigou muito, mas ela é uma mãe incrível, que sempre lutou pelos filhos dela.


P/1  – Você sabe como eles se conheceram?


R – A minha mãe não me conta muito da história dela, mas eu sei que eles se conheceram - minha mãe engravidou muito cedo, aos dezesseis anos, do meu irmão mais velho, do Ricardo - na escola e eles se casaram quando minha mãe tinha dezessete anos, se não me engano. Eles tiveram uma história bonita de amor, mas não deu certo, né? Meu pai, infelizmente, era um pouquinho agressivo e minha mãe não aguentou muito tempo, também comentou alguns erros e eles acabaram se separando. Mas foi uma história bonita, enquanto durou. (risos) 


P/1  – E você tem irmãos?


R – Eu tenho bastante irmãos. Tenho o Ricardo, que é meu irmão mais velho, meu irmão que, às vezes, eu falo que é legítimo, mas acho que essa palavra não é muito certa, eu digo para ele, às vezes, que, se ele precisar de um rim, talvez só eu posso doar o rim para ele, porque é meu irmão por parte de pai e por parte de mãe. Daí, da parte da minha mãe, eu tenho o Guilherme, que tem 25 anos, a Sara, que tem quatorze , e a Milena, que tem doze anos, que são do segundo casamento da minha mãe. Da parte do meu pai, eu tenho a Lorena, que tem 25 anos também, e o Eric, que tem quinze anos, do terceiro casamento do meu pai. Então, é o Ricardo como irmão do primeiro casamento, a Lorena do segundo casamento e o Eric do terceiro casamento. Ao todo, nós somos em sete irmãos, um pouquinho de cada lado. 


P/1  – E como é que era e é, a sua relação com eles?


R – É muito bom, muito bom ter irmãos. A gente, acho que por parte da minha mãe, a gente se vê mais: eu, Guilherme, Ricardo, Sara e Milena, a gente se vê um pouquinho mais. A Lorena, que é da parte do meu pai, eu tento vê-la bastante, com frequência, mas não consigo, até porque ela mora longe e Eric também mora longe, mora com meu pai. Eu convivi mais com Ricardo que o Guilherme, a gente brigava muito, eu era a única menina, quando eu era um pouquinho mais nova eu era a única menina, então eu lembro que eu apanhava muito dos dois. A gente brincava, mas como eles eram meninos, né, era muito bruto, né? Eu lembro que nossa brincadeira era de ‘lutinha’ e eu apanhava demais dos dois. O meu irmão Ricardo, que é o mais velho, eu admiro muito, ele é muito trabalhador, ele é aquela pessoa que faz de tudo, tudo que você imagina. Ele anda de skate, ele toca música, ele é compositor, ele trabalha com marcenaria, ele trabalha com solda, tudo que você imaginar o Ricardo faz um pouco. O Guilherme é um pouquinho mais fechado, assim, a gente não conversa tanto, mas ele é um menino muito bom também, de coração. A Sara já é mais adolescente, então ela está naquela fase um pouquinho mais complicada de lidar com ela. E a Milena é um amor de criança, a Milena é um amor de criança, é uma criança muito pura. O Eric também está na adolescência, então está numa fase bem difícil, mas é um menino muito querido. A Lorena é uma princesa. A Lorena é toda delicadinha, é uma bonequinha, assim, sabe? 


P/1  – E a sua relação com os seus pais, como é que é? 


R – Então, o meu pai foi um pouquinho mais ausente, como eu disse, na minha infância. Eu acho que por muito tempo eu carreguei algumas mágoas dele, assim, mas hoje em dia eu tenho uma relação muito boa com ele. Eu o vejo sempre que eu posso, ele me manda mensagem todos os dias, eu tento manter essa relação e sempre recuperar o tempo que a gente perdeu. A minha mãe, a gente teve muitas brigas quando eu era mais nova, na minha adolescência. Às vezes, até digo que eu fui uma criança um pouquinho rejeitada, assim, quando eu era pequena. Mas, na medida do possível, a gente tem uma relação muito boa. Depois que a gente se torna adulto, a gente começa a entender algumas coisas dos nossos pais, principalmente depois que a gente vira mãe e pai, entende alguns pontos, algumas coisas que eles fizeram. Mas eu considero que a gente tenha uma relação boa, sim.


P/1  – Você quer contar um pouco porque você achava que você não era muito bem quista?


R – Então, eu acho que, com a separação dos meus pais, eu não era uma criança fácil, sabe? Eu era uma criança um pouquinho difícil. Hoje em dia, eu entendo que a única coisa que eu queria era chamar atenção, que eu precisava ser ouvida, eu precisava ser escutada, eu precisava de carinho e eu não tinha muito isso. Eu não me recordo muito da minha mãe falando ‘eu te amo’, eu não tenho esse tipo de lembrança. Eu lembro de... eu e meu irmão mais velho, quando a gente ia encontrar meu pai, aqui a gente tem o Terminal Cabral, um terminal de ônibus e a gente ficava um dia inteiro, a gente ia nove horas da manhã, até às seis da tarde, eu e o Ricardo pequenininhos, ele acho que tinha uns doze anos, eu tinha acho que oito anos e a gente ficava no terminal o dia inteiro, sem comer, esperando meu pai e meu pai não aparecia e a gente voltava para casa. Então, essas recordações que eu tenho, são um pouquinho tristes. E eu lembro que eu morei em várias casas na minha infância e pré-adolescência, adolescência, eu morei em várias casas. Morei com meu pai, morei com a minha mãe, daí eu morei com o meu pai, daí meu pai não quis mais, me mandou para casa da minha avó, depois fui para casa da minha mãe, depois fui pra casa da ex-mulher do meu pai, depois voltei para casa da minha mãe, sempre indo de uma casa para outra. Sempre por algum problema, mas a sensação que eu sempre tive é que nunca ninguém me quis, que eu sempre fui jogada de um lado para o outro, assim, porque ninguém me queria. Então, é isso que eu considero meio que uma rejeição, assim. E isso me trouxe muitos traumas, foi o que moldou a minha adolescência ali, moldou meu caráter durante a minha adolescência. 


(08:53) P/1  – Eu ia perguntar exatamente: você conhece a história dos seus avós, você chegou a conhecê-los?


R – Sim, eu conheci meus avós, até morei com a minha avó, uma época. Meus avós paternos eu não conheci, meu avô paterno morreu acho que eu tinha um aninho e a minha avó eu devia ter uns cinco anos, mais ou menos, quando ela faleceu. O nome do meu avô eu não me recordo agora, mas a minha avó era Sinésia, a mãe do meu pai. Eu lembro dela, eu tenho algumas lembranças dela, até eu lembro que meu pai não deixava, meus pais não deixavam comer comida com vinagre e limão, porque afinava o sangue, alguma coisa assim e ela deixava eu comer escondido. Eu lembro da casinha dela, eu lembro dela fazendo gelatina para mim, eu lembro dela orando, à noite. Ela tinha um cabelão enorme e, à noite, ela ajoelhava e soltava aquele cabelo grandão dela, para poder orar. Eu tenho algumas lembranças boas dela, sim. Eu tenho a minha avó, minha avó Nadir, ela já faleceu também, mas eu morei um tempinho com ela. A minha avó teve oito filhos. A minha mãe é a caçula dos oito filhos dela e ela foi embora e deixou os irmãos da minha mãe e a minha mãe morando com meu avô, que ainda é vivo. E esse tempo que ela perdeu com os filhos, ela sempre tentou recuperar com a gente, assim, com os netos, sabe? Teve bastante netos, então ela sempre tentou ajudar na criação, estar presente, então eu tenho lembranças muito boas da minha avó, assim, eu morei um tempo com ela, até. Acho que quando eu morei com ela não foi tão legal, porque eu estava numa fase bem complicada da minha infância e pré-adolescência para adolescência e não deu muito certo morar com ela, não, não deu muito certo, mas foi bom, eu sinto falta da minha avó. Acho que, até depois do meu acidente, que depois eu acho que eu vou contar um pouquinho mais, ela teria me ajudado muito. Um dia antes da minha avó falecer, eu lembro que ela sempre falava muito. Sempre falava muito e brigava, não sei o que e ela estava cuidando da minha tia, minha tia morava um pouquinho para baixo da minha casa e eu lembro que minha mãe falou: “Vai lá, que sua avó está lá na tua tia, vai lá dar benção para ela e ver como que estão as coisas. Mas vá logo, senão sua avó já começa a falar”. E eu fui lá e falei: “Benção, vó!” Aí ela: “Deus abençoe, minha filha!” Aí eu falei: “Como você está?” Aí ela começou a falar, falar e eu fui meio que desconversando, para sair um pouquinho rápido. E foi a última vez que eu vi minha avó, no outro dia ela teve um infarto e acabou não resistindo e faleceu. Se eu soubesse que era a última vez, eu acho que eu tinha parado um pouquinho, para poder escutar um sermão dela, porque foi a última vez que eu a vi. O meu avô atualmente está com 98 anos, se eu não me engano. Meu avô é um cara incrível, ele é muito forte, sabe? Ele não deixa, atualmente está com bastante problemas, ele não tem muita força nas pernas dele. Ele, volta e meia não consegue ouvir, tem uma perda de memória, mas ele é um cara muito forte. Meu avô é um cara sensacional, ele não deixa transparecer isso para a gente, sabe? Você vai lá, às vezes, a esposa dele, atual, fala: “Seu avô está assim, vocês têm que vir vê-lo, ele está doente”, mas a gente chega lá e não o vê assim, porque ele não deixa transparecer isso para a gente. Meu avô é um cara sensacional. Então, eu lembro que a gente... voltando um pouquinho na minha avó, eu tenho muita lembrança de almoços na casa da minha avó, quando eu ia com a minha mãe e estava toda a família da parte da minha mãe lá. Eu lembro que eu e minhas primas, a gente ia pousar na casa dela, ela sempre levava a gente para viajar para o norte do Paraná, são essas lembranças boas que eu tenho dela. Eu lembro até que a gente aprontava muito na casa da minha avó. Eu tenho uma prima, a Cintia, que tem a mesma idade que eu, a gente tem seis dias de diferença, então a gente estava sempre juntas. Daí tinha a Janine, que era filha adotiva da minha avó, que era de uma enteada dela e a minha avó tinha um ventilador de teto - tinha uma casa muito bonita, sabe, ali no Campo Comprido - e tinha aquelas cordinhas de puxar o ventilador de teto, eu lembro que a gente ficava pulando do sofá, para tentar puxar a cordinha, para ligar, aí teve um dia que arrebentou a cordinha e caiu o ventilador. E eu lembro dela gritando, ela chamava a gente de “os menina”, daí ela gritava: “Os menina!” Eu lembro dela me ‘catando’ por uma orelha e a Cíntia pela outra orelha, assim e levando. Minha avó era também incrível. Então, eu tive mais convivência com a minha avó materna e com meu avô materno e eles foram sensacionais. Meu avô ainda é sensacional, a minha avó foi sensacional e ela fez muita falta, ao longo dos anos aí.


P/1  – E quando você era pequena... você já deu um pequeno, assim, spoiler, mas aí eu ia te perguntar se tem alguma comida, algum cheiro, alguma data comemorativa que era muito importante para você, assim, durante a infância, que vocês estavam unidos, assim, que lembre sua família?


R – Então, de datas comemorativas eu sempre esperava muito o Natal e Ano-Novo, eu acho que isso é muito de criança, né? Esperar Natal e Ano-Novo. Mas principalmente que eu sabia que ia ver meu pai, que meu pai ia me pegar. Então, eu esperava muito por esse período. Eu acho que momentos que marcaram com a família, num todo, teve um final de ano, que minha avó tinha uma casa na praia e foi todo mundo para lá. Tinha muita gente, muita gente, a gente passou o Natal e o Ano-Novo, se eu não me engano. E tinha parente aqui de Curitiba, veio gente do norte, a gente estava em umas cinquenta pessoas, mais ou menos, na casa, assim, era muita gente. E naquela época ainda tinha trio elétricos na praia daqui do Paraná, nas praias do Paraná e a gente foi numa galera, era muita gente. E tinha competições desse trio elétrico. Eu lembro que só minha família ganhou, a gente estava em muita gente e só minha família ganhou. Lembro que minha prima Mariane foi eleita a Popozuda da Praia de Leste, porque ela dançou uma música, aquela música da Popozuda, ela foi eleita. O meu irmão Ricardo dançou uma música lá também, de axé e ganhou; a Janine dançou É o Tchan e ganhou; o meu primo Juninho ganhou com o menor sapatinho da praia, porque ele era recém-nascido, ele ganhou como menor sapatinho da praia. Aí teve primas minhas que foram lá dar mensagem de feliz Ano-Novo e ganharam prêmios também e só minha família ganhou, só minha família ganhou os prêmios da praia. Eu me recordo disso, me recordo que do lado da casa da minha avó tinha alguns morros, eu não lembro se era argila, se era terra, se era areia, não me recordo o que era, mas eu lembro que eu, minha prima Cintia e a Janine, a gente brincava nesses morros e eu lembro que a gente ficou preta, preta, preta, preta aquele dia. Minha avó até tinha foto da gente assim. Eu me recordo de um aniversário que teve, que a gente fez surpresa, da minha avó, nesse dia eu queria cortar minha franja para ir com - aquela velha história de franja de criança - a franja bonitinha e eu fui cortando a franja, cortando a franja, quando eu vi já estava careca aqui e a minha mãe fez eu ir daquele jeito para a festa, eu lembro desse dia. É muita coisa que a gente recorda. Eu lembro da minha formatura, em que a minha avó estava, minha prima, eu me lembro da Primeira Comunhão da minha prima Lauriane e do Ricardo. De algumas festas também do meu pai. Da parte do meu pai, é todo mundo roqueiro, então eu lembro de todo mundo bem doido, cantando rock. Eu acho que são mais essas lembranças que eu tenho, de festas, eu acho que é mais isso. 


P/1  – E de comidas?


R – Ai, de comida, desculpa. De comidas que eu me recorde muito, da infância, eu lembro que... hoje em dia eu não gosto, mas quando eu era pequena eu gostava muito de farinha com leite, que eu e meu irmão a gente comia bastante farinha com leite, pão com café com leite, a gente fazia papinha de pão com pão caseiro, com café com leite, papinha de bolacha. Eu lembro que minha mãe fazia bastante pudim. Eu não tenho tantas lembranças assim de quando eu era pequena. Mas essas acho que são as comidas que eu lembro que marcaram bastante. Era mais com meus irmãos, coisas que a gente fazia, que a gente pegava coisas escondidas, para comer. Era mais isso mesmo. Eu acho que tem um ponto que é legal falar, que eu lembro muito das comidas da minha tia. Minha tia que já faleceu, a tia Tata, que é a Luzinete. Eu lembro muito da comida dela, do cheiro da comida dela, ela sempre fez comida muito temperada, eu gostava muito de comer a comida dela, só de lembrar, a gente sente o gosto na boca. Do caldinho de feijão dela. A comida dela era muito temperada. Eu lembro um pouquinho também da comida da minha avó, que seguia o mesmo padrão ali da minha tia, que também era um tempero muito bom, eu me recordo mais disso.


P/1  – Rubiane, você sabe a história do seu nascimento?


R – Eu sei um pouco, sei um pouquinho, sim. Eu não sei se eu vou contar certo, mas a minha mãe conta, a minha mãe e meu pai sempre brigaram muito na minha infância. Minha infância não, antes do meu nascimento e quando eu era pequenininha. Eu não sei se eu vou contar minha história ou se eu vou contar a história do meu irmão, mas eu sei que ela trabalhou o dia todo, eu lembro que ela tinha trabalhado o dia todo e ela ligou pro meu pai, que ela estava sentindo dor e meu pai não aparecia e ela precisava de alguém para levá-la no hospital e ela não conseguia ninguém para levar no hospital. E ela foi andando, do serviço dela até a maternidade. Aqui em Curitiba, o serviço dela ficava ali para cima do Miller e a maternidade, que era o Mater Dei, ficava para baixo do Guadalupe, eu lembro que ela andou todo esse pedaço e ela quase me teve na rua. Eu não sei se estou contando minha história ou do meu irmão, mas é alguma coisa assim, eu me recordo disso. 


P/1  – E era longe, de um lugar para o outro?


R – Era longe. 


P/1  – Você sabe por que foi escolhido seu nome, Rubiane? 


R – Quando eu era pequena eu não gostava muito do meu nome não, Rubiane, sempre achei uma coisa muito feia, na verdade eu não gosto que me chame de Rubiane, prefiro que as pessoas me chamem de Rubi. Normalmente, quando me chama de Rubiane, é porque estão bravos comigo, ou porque vão brigar comigo. Normalmente o pessoal me chama de Rubi, hoje em dia eu gosto muito do Rubi. A minha mãe fala que meu nome era para ser Andreia, Andressa, meu nome era para ser Andressa. Ela colocou o nome do meu irmão de Ricardo, aí uma prima dela foi e colocou e o nome do filho de Ricardo também. E ela falou que ia colocar Andressa meu nome e acabou que essa prima da minha mãe teve a menina primeiro e colocou Andressa. Aí ela tinha uma amiga, a filha de uma amiga dela, da escolinha que ela trabalhava, se chamava Rubiane, aí ela achou bonito e colocou Rubiane. Mas era pra ser Andressa o meu nome, acho que não ia combinar não, gosto de Rubi.


P/1 – Você lembra... você contou que foram bastante casas, mas, assim, a que mais marcou a sua infância, você lembra como era?


R – Então, eu morei em várias casas, mas eu acho que o maior período eu passei com a minha mãe, mesmo. Maior período passei com a minha mãe. Teve épocas difíceis, teve épocas que foram um pouquinho melhores. A minha mãe... as lembranças que eu tenho de quando eu era pequena, eu lembro que logo que minha mãe se separou do meu pai, eu fiquei com a minha mãe e meu irmão mais velho ficou com meu pai, um período. Eu lembro que a gente morou na casa de uma amiga da minha mãe, a Maria, que até já é falecida, a gente morou um período lá, eu me recordo de um quarto pequenininho que a gente morava, no fundo da casa de uma senhora, que era no Centro aqui de Curitiba, eu lembro que tinha um banheiro pro lado de fora e a gente tinha que sair na chuva, às vezes, para poder ir nesse banheiro. Eu me recordo da minha mãe, que ela fazia Miojo para mim, à noite, mas ela não tinha dinheiro, então ela quebrava o Miojo no meio, eu lembro que ela me dava um pouquinho à noite, para comer e um pouquinho no almoço do outro dia e ela ficava sem comer. Eu me lembro disso. Eu me lembro de quando a gente morou nos fundos da tia Tata, numa casinha, minha mãe ia trabalhar, eu levantava. Eu sempre fui muito chorona, quando era pequena e a minha mãe não estava em casa, eu ficava chorando, às vezes, eu chorava o dia inteiro, a minha mãe no banheiro e eu sentava na porta do banheiro e ficava chorando, eu era bem chorona. Eu me lembro quando a minha mãe se casou com meu padrasto, com o Emerson, lembro da casinha que a gente morou. É perto de Itaperuçu, bem longe de onde eu moro hoje em dia, era uma casinha de madeira bem, bem pequenininha e aí não tinha banheiro na casa, então o banheiro a gente usava da vizinha e era um banheiro… nesse banheiro, no chão tinha um pedaço de madeira e era no chão, eu me lembro que eu morria de medo de cair dentro daquele buraco lá, que era um buracão, eu morria de medo de cair dentro daquele buraco. Depois a gente morou numa outra casa também, era uma meia água de madeira, acho que tinha um banheiro, mas era um banheiro bem pequenininho. Depois a gente passou por outra meia água, eu morei a maior parte, o maior período na minha vida foram sempre casinhas simples, assim, pequenas. Depois minha mãe construiu uma casa grande, com meu padrasto, um pouquinho mais embaixo, que foi onde eu morei com meus irmãos, com Ricardo e Guilherme, com a minha mãe e com meu padrasto. E os períodos com meus irmãos eram muito bons. A gente brincava muito, a gente dormia os três num quarto, lembro que era um quarto pequeno, mas dormia nós três no quarto e a gente fazia cabaninha, a gente fazia teatro, a gente brincava de lutinha. Eu lembro que meus irmãos, a gente era responsável por limpar a casa, minha mãe ia trabalhar e a gente limpava a casa e eu tinha um horário para limpar a casa, antes que minha mãe chegasse. E, às vezes, eles me trancavam para fora de casa e eu queria entrar para dentro de casa, para limpar a casa, eles me deixavam trancada. Eu ficava batendo na janela, eu lembro até que um dia eu fui bater na janela para abrir, meu irmão abriu a janela, me deu um cuspão na cara, eu lembro até hoje da sensação. E ele era assim. Eu lembro da minha infância assim: eu brigando, brincando, brigando muito com meus irmãos. Quando eu morei com meu pai, também foi bom ter morado com meu pai, assim, principalmente quando ele era solteiro, antes dele se casar. Moramos eu, meu pai, uma tia minha, lá morava uma tia e mais uma inquilina, então era muita loucura, mas eu gostava disso, sabe? Eu gostava da bagunça. E eu morei com a mãe da minha irmã um período também, eu também gostava muito de morar lá, com a minha avó, mas o que eu mais me recordo é da casa da minha mãe. A casa da minha mãe eu me recordo mais.


P/1  – Rubiane, eu queria que, por favor, você me contasse quais são as suas brincadeiras favoritas, quais foram, né, as brincadeiras favoritas da sua infância, o que você gostava de fazer? 


R – Na rua em que eu morava tinha muito menino, eu me recordo de ser só eu de menina por um período e depois veio a Mariele e a Daiane, mas era bastante menino. Então, a gente brincava muito de bola, de bets, de lutinha, (risos) que eram muitos meninos. E eu morava no morro, a gente sempre morou no morro, um bom período a gente morou num morro e a gente contava - era engraçado porque a gente brincava muito de ‘mãe se esconde’ - na parede do Diogo, que morava na frente da minha casa e a rua descia. E a gente ia todo mundo para um lado, correndo e dava volta, enquanto a pessoa ia para outro lado, a gente subia correndo pra bater 31, eu me recordo bastante disso. Eu recordo que a gente jogava ‘bets’ na descida, a gente fazia uma bolinha voar longe, enquanto a pessoa ia lá pegar, a gente já tinha ganhado o jogo. Me recordo muito brincando de lutinha, com meus irmãos e de casinha eu não tinha muito com quem brincar, então brincava de casinha mais sozinha. Mas lembro que uma vez eu peguei, a minha mãe chegou em casa e o tapete dela estava bem lavadinho, né? Aí ela: “Ai, que bom que você lavou o tapete para mim, vou pedir pra você levar os outros”. Mas é que eu tinha quebrado toda a bandeja de ovo fazendo bolinho e um dos ovos caiu em cima do tapete. Aí, depois ela descobriu, claro, que a bandeja de ovos estava vazia. Naquela época a gente quase não tinha comida. Ela ficou muito brava comigo, nessa época. Então, toda vez que eu ia brincar de casinha, eu fazia alguma arte, fazia alguma coisa errada, pegava Maisena para brincar e tinha um docinho, eu lembro que tinha um docinho, a gente não tinha dinheiro para comprar e era um docinho que era tipo um arrozinho caramelizado, assim, eu não sei o nome daquele doce e eu queria comer aquele doce, aí eu peguei arroz e misturei com açúcar. Nossa, eu fazia muita arte, assim, sabe? Mas eu me recordo mais brincando com os meninos, brincando de bola, brincando de bets, brincando de ‘mãe se esconde’.


P/1  – E nessa época você tinha sonho de ser alguma coisa, quando crescesse?


R – Eu acho que eu já quis ser de tudo, já quis ser de tudo. Conforme você vai crescendo, você vai mudando de ideia. Eu sei que eu queria ser professora, eu queria ser cantora, eu achava que eu cantava inglês. Hoje em dia eu tenho uma menina, a Gabriela, ela também acha que canta inglês, eu a deixo achar que ela canta inglês, ela quer ser cantora também. Mas queria ser artista, dançarina, eu gostava muito de dançar, eu sempre gostei muito de dançar. Mas eu acho que o principal, assim, era ser artista, eu queria ser artista, quando era pequena.


P/1  – Rubi, e qual é a primeira lembrança da escola?


R – Eu lembro do período ainda que eu estava no infantil. Eu estudei numa escolinha particular no Centro, que era onde minha mãe trabalhava. Aí eu acabei conseguindo estudar lá, que era Padre Anchieta e eu me recordo muito da minha prima, que ela estudou lá também, recordo das professoras brincando de massinha e eles tinham uma casinha onde eles contavam histórias para gente, tinha muito brinquedo. Acho que essa é a primeira, quando fala em questão da escola, que vem na minha cabeça, assim.


P/1  – E teve alguma professora marcante dessa época, algum professor?


R – Ah, teve vários professores, assim. Na verdade, eu me recordo de todos os meus professores, mas eu acho que mais para o ensino médio, duas professoras que eu me lembro muito, era a professora Indianara, lembro que o nome dela era a Indianara. Três, na verdade: a Indianara, a professora Fernanda, me recordo, uma professora de Matemática e a professora Inês, de História. Me recordo dessas três professoras.


P/1  – E tem alguma história marcante, com elas?


R – Tem sim, da professora Fernanda. Eu estava na sétima série, que era sétima série, ainda não era sétimo ano. Eu acho que era o primeiro dia de aula que ela ia dar para a gente e, naquela época, eu ainda não tinha perdido minha perna e estava chovendo muito, chovendo muito naquele dia e estava todo mundo encharcado dentro da sala, sabe? Todo mundo encharcado. E eu estava no sétimo ano, a minha turma era muito bagunceira, muito bagunceira. Nossa, ela sofreu muito naquele dia com a gente, eu lembro que ela ia falar e a gente gritava, toda vez que ela abria a boca para falar, a gente gritava, a gente não a deixava dar aula, teve que chamar a coordenadora e estava todo mundo encharcado. E ela ficou bem brava naquele dia, mas ela aguentou até o final. E ela foi uma das melhores professoras que a minha turma teve. Ela colocou a gente na linha mesmo, sabe? E ela foi uma professora incrível, assim. A professora Inês era uma professora muito brava, eu lembro, me recordo que era uma professora muito brava. Mas hoje em dia eu entendo os conselhos dela, as coisas que ela falava. Eu lembro uma vez - que a gente colava nas provas - que a gente estava fazendo uma prova de História e ela ficava andando na sala, para ver se alguém estava colando e eu tinha escrito tudo na minha mão, tudo na mão e ela parou do meu lado, para ver se eu estava colando. Eu parei, fiz assim, sabe e continuei escrevendo e ela viu a cola na minha mão e ela brigou comigo, né? Me mandou ir lavar a mão, eu lembro que eu fui lavar a mão e não voltei mais para a sala. Eu peguei e fui embora, aí seguraram o meu material na escola. Eu lembro disso dela, depois no outro dia ela ficou tirando sarro de mim, falou que era só ter lavado a mão e ter voltado pra fazer a prova, acabei perdendo nota. A professora Indianara foi minha professora de Artes no ensino fundamental, era uma pessoa muito querida, assim, sabe? Eu lembro do carinho que ela tinha pelos alunos, era uma pessoa muito... uma professora muito carinhosa com a gente. Eu nunca mais a encontrei. A professora Fernanda eu tive notícias, a professora Inês eu tive notícias, mas a professora Indianara, nunca mais tive notícias dela, mas eu me recordo do carinho que ela tinha pela turma.


P/1  – Lembra porque você não quis voltar, no dia da cola?


R – Então, eu não era, eu não fui uma aluna exemplar. Eu fui até o sexto ano, chegou no sétimo ano eu desandei totalmente e eu não era uma aluna muito exemplar. E eu gazeava aula, eu não fazia lição, eu não ia pra escola. Foi a oportunidade que eu tive de ir embora, então a professora Inês me mandou lavar a mão, eu peguei e fui embora e não voltei mais para escola. Até eu lembro, me recordo de uma vez que eu estava gazeando aula, eu não fui para escola esse dia, só que eu pulava, às vezes, o muro do colégio, para poder entrar dentro da sala. E eram cinco períodos. Tinha três períodos, daí o recreio e os dois outros períodos, depois do recreio. Eu entrei no terceiro período e a gente cantava o Hino Nacional e foi todo mundo para cantar Hino Nacional e eu fiquei sentada na minha carteira. Eu lembro que a Cíntia era coordenadora, ela chegou e eu achei que ela ia brigar comigo, por eu ter gazeado aula e ter entrado, mas ela foi brigar comigo porque eu não estava na fila para cantar Hino Nacional. Ou seja, ela nem percebeu que eu tinha gazeado aula, tinha pulado muro para entrar e ela pegou e só mandou eu ir para a fila. Então, eu era bem rebelde, assim, sabe? Eu fiz muita coisa errada, quando eu estava no ensino médio.


P/1  – Em que momento ocorreu o acidente?


R – Então, eu fui uma adolescente muito rebelde, eu fazia muita coisa errada ou mais andava com pessoas erradas, que faziam coisas erradas. Eu sempre quis ter muita atenção, eu não tinha atenção em casa, então eu queria buscar atenção, queria alguém que me desse atenção e eu queria que as pessoas me ouvissem, eu queria estar cercada de pessoas. E eu acabei procurando pessoas erradas, para poder andar. E eu não me recordo muito do que aconteceu no dia do meu acidente, eu não tenho lembranças, parece que meu cérebro bloqueou e eu não consigo lembrar do dia, não é só do momento, do dia eu não me lembro muito. Tem alguns flashs do que aconteceu, eu lembro que minha mãe tinha ido para o Centro, se eu não me engano e eu acordei, eu limpei a casa, eu lembro de eu levando uniforme que eu tinha vendido para uma amiga, na casa dela e fui na casa de uma outra amiga minha, o nome dela é Sheila. Eu fui na casa dela, isso já era mais à tardezinha, já devia ser umas três horas da tarde. E eu lembro que, na casa dela, o namorado dela tinha deixado uma arma lá, na casa dela. Também não valia muita coisa, tinha deixado uma arma lá e eu até peguei essa arma e apontei para o espelho, bem coisa de menina, sabe? Eu não tinha noção do que eu estava fazendo. Peguei a arma e apontei para o espelho, era uma arma pesadinha, eu acho que eu nunca tinha pego uma arma na vida. E ela falou: “Deixa aqui guardado”. Eu falei: “Vamos levar lá pra cima”, que a gente ia subir e ficar sentada no morrinho que tinha ali. E ela: “Ah, não, deixa aí, que o Tiago vai vir pegar”, que era o namorado dela. E a gente deixou essa arma ali e a gente foi, ficou sentado assim, no topo do morro aqui do Paraíso, que é onde eu moro. A gente ficou sentada e dava pra ver tudo lá embaixo e eu lembro, eu recordo de ter visto a minha mãe subindo, sabe? Minha mãe chegando em casa. Aí subiu um amigo nosso e ele passou pela gente e falou: “Ah, vamos lá em casa, que a gente vai fazer um churrasco”. E a gente foi para a casa desse amigo nosso e eu lembro que eu não queria ir e ela falou: “Vamos, vamos” e a gente acabou indo. E, chegando lá, eu queria ir embora e ela não queria ir, ela falava: “Espera um pouco, espera um pouco, que a gente já vai”. Aí eu comecei a beber, eu tinha quinze anos e eu comecei beber, beber, beber, beber, beber. Quando eu vi, eu não estava vendo mais nada, não via mais nada. Estava bem bêbada, já. Daí eu começo a lembrar de alguns flashs, assim, sabe? E essa amiga traía o namorado dela com esse menino que a gente foi na casa e eu lembro que tinha que buscar um bolo lá para baixo do morro e ela falou: “Vamos lá”. Ela queria ir atrás dele. Eu fui com ela e um pouquinho antes de descer, eu falei: “Vamos na tua casa, que eu quero tomar um banho”. Porque eu estava muito grogue, sabe? Eu falei: “Vamos para tua casa, que eu quero tomar um banho e eu vou para casa”. E ela falou: “Não, vamos descer direto” e a gente foi descendo, foi descendo, eu lembro que eu passei a rua, eu passei do lado da minha casa, eu falei: “Vamos passar quietas, senão a minha mãe vai me ouvir”. Eu passei do lado da minha casa. Eu só lembro dela, que ela me abraçou, eu a abracei, assim, ela parou para conversar com o menino e eu só lembro de tê-la abraçado e lembro de uma luz atrás de mim. Eu lembro de uma luz atrás de mim e daí eu lembro de alguém gritando, lembro de um impacto muito forte na minha cintura, eu lembro que coloquei a mão assim e caí. Eu não lembro, eu lembro da minha mãe chegando, minha mãe chegando e me chamando. Lembro de uma luz no meu olho, alguém falando meu nome, aí eu começo a lembrar de alguns flashs, assim, do que aconteceu. O que me contam... eu já ouvi três versões da história, eu não me lembro o que aconteceu, não lembro se eu tentei correr. Esse namorado dessa minha amiga desceu com o carro, com a arma que eu tinha pegado horas atrás e ele foi dar um tiro no outro rapaz, no outro rapaz que estava subindo a rua. Eu não sei se ele colocou a arma para fora e… eu não sei o que aconteceu, não sei se o menino que foi levar o tiro me puxou na frente, eu não sei se eu fui tentar correr, eu não sei o que aconteceu. Já me contaram que o menino me puxou na frente, já me contaram que eu fui tentar correr, já me contaram que eu me joguei na frente, então eu não sei o que aconteceu, como que eu levei esse tiro. Eu sei que o tiro acertou em mim, acertou na minha cintura. Quando os paramédicos chegaram, eles não conseguiam achar onde tinha sido, porque não tinha sangue. Eles me viravam pra lá e pra cá e não conseguiam achar, até que eles viram uma marca. Isso é uma história que me contaram, né? Porque eu não lembro. Eles viram uma marca no meu short, aí que eles viram que era hemorragia interna. E o Siate não chegava, não chegava, não chegava, eles me pegaram, me colocaram dentro do Samu e foram de encontro com o Siate, na rodovia e minha mãe que foi comigo. E ali na rodovia, perto do Parque Santa Maria, eles me tiraram do Samu, me colocaram Siate, foram para o hospital, a minha mãe me conta que, nesse trajeto, eles pararam três vezes, na primeira vez o paramédico desceu do Siate, foi lá para trás e não voltava, não voltava, não voltava. Daí voltou. Na segunda vez a mesma coisa, na terceira vez ele demorou mais tempo para voltar. Só que quando ele voltou, ele falou para minha mãe: é a terceira parada cardíaca dela, se ela tiver mais uma, ela não chega no hospital. Só que daí deu tempo de eu chegar no hospital, eu cheguei no hospital, me entubaram, já me induziram ao coma. Minha perna estava começando a gangrenar, porque foi hemorragia interna, então, o sangue que desceu não voltava. A bala que entrou pegou artéria, intestino e apêndice. A apêndice explodiu, meu intestino explodiu. Então, quando meu intestino explodiu, tem um nome que fala, que eu não vou me recordar agora, mas o estrago foi muito feio, foi uma bala só, mais o estrago foi muito feio, então o sangue desceu, gangrenou, devido a explosão no meu intestino, acho que é sepse, uma coisa assim, eu não me recordo agora qual é o nome, mas aí me deu várias outras complicações, eu fiquei quase um mês em coma. Eles tentaram salvar minha perna, eles não conseguiram, fizeram safena, para poder tentar salvar a perna, a minha mãe fala que quem assinou o termo para cortar minha perna foi o meu pai, porque na noite que decidiram cortar, eles tentaram ligar pra minha mãe e não conseguiram falar. Minha mãe estava muito cansada e eles tiraram o telefone do gancho, ela tirou o telefone do gancho, para poder descansar um pouco, então eles tentavam falar com minha mãe e não conseguiam, não conseguiam, não conseguiam, então eles ligaram pro meu pai e meu pai foi lá e assinou o termo, para cortarem minha perna. E até uma vez ele falou para mim chorando que ele se arrepende de ter cortado, que ele deveria ter deixado mais um tempo, para ver se iam conseguir salvar minha perna. Eu falei para ele que não, né? Claro que eu o acalmei, falei não, que ele fez a coisa certa. A minha mãe, quando chegou no hospital e soube que meu pai tinha assinado o termo, ela avançou no meu pai, ela não queria que cortassem a minha perna, ela não entendeu, na época, a necessidade de amputar minha perna, mas, enfim, eles amputaram, depois disso eu tive mais algumas complicações, devido ao intestino, infecção. E quando eu estava... eu fiquei em coma induzido, mas eu lembro de muita coisa, até algumas coisas que eu vivi durante o coma induzido foi muito surreal, assim, eu os vi fazendo a minha cirurgia, então eu vivi coisas bem surreais, assim, sabe? Eu não lembro do momento exato em que eu soube que eu estava sem a minha perna. Eu não lembro, minha mãe me disse que os médicos me contaram, mas eu não me recordo disso. Eu fui percebendo aos poucos. Eu não cheguei, eu acho que eu tive depressão no hospital, no hospital mesmo teve um período que eu fiquei um pouquinho mais abalada, um pouquinho mais quieta, depois que eu acordei do coma. Eu não comia, eu não falava, devido ao cano que ficou na minha boca, eu não conseguia falar, então demorei um pouquinho para falar. Quando eu comecei a reagir, eu tomava banho na cama, eu lembro que eu escrevia as coisas no papel. Eu fiquei isolada por causa da infecção, era muito arriscado eu piorar e, voltando, deixa eu voltar um pouquinho enquanto eu ainda estava em coma, eu lembro que, quando as pessoas iam me visitar, eu sabia que era Natal e que era Ano-Novo, porque eu levei o tiro no dia 14 de dezembro de 2007. Eu lembro que, no Natal, as pessoas me davam, falavam Feliz Natal, né, eles vinham, falavam Feliz Natal, eu estava bem grogue, mas eu me recordo disso. E no Ano-Novo eu lembro que eu estava no quarto sozinha e tinha uma janela aberta, eu lembro dos fogos, sabe? Eu me recordo dos fogos estourando, então eu sabia que era Ano-Novo. Então, eu fiquei, passei um período, assim, mal, no quarto e eu só comecei a melhorar, porque eu lembro que eu escrevi num papel para a moça, que eu queria tomar banho de chuveiro, porque eu estava tomando banho na cama e eu falei pra ela que eu queria tomar banho de chuveiro. Eles me pegaram da cama e me colocaram embaixo do chuveiro e me deixaram ali embaixo e foi a melhor sensação do mundo, sabe? Foi ali que eu descobri que eu estava viva, que eu estava viva, que eu tinha sobrevivido e consegui entender. Então, foi o primeiro banho da vida, eu considero que foi o primeiro banho da vida, né? Da segunda chance que eu tive. E eu fiquei ali embaixo do chuveiro, nossa, um tempão, acho que eu fiquei umas duas horas embaixo daquele chuveiro ali. E a sensação da água caindo no corpo foi o que me ajudou a entender o que estava acontecendo, o que tinha acontecido e entender que eu estava viva, sabe? Que eu estava viva. Ali eu comecei a melhorar, comecei a fazer um esforcinho para voltar a falar, comecei a comer aquela comida ‘maravilhosa’ de hospital, para criar forças, para poder sair do hospital. Então, isso foi o que aconteceu, isso foi o meu acidente. Então, foi uma bala perdida que eu levei, que acabou acertando a cintura, pegou intestino, artéria, apêndice e acabou fazendo um estrago. Uma bala só fez um estrago total e tive que amputar a minha perna.


P/1  – E como é que foi uma menina de quinze anos passar por tudo isso, esse período no hospital e depois, como foi?


R – Então, um pouquinho antes de eu perder minha perna, eu conheci o que atualmente é meu esposo, o Bruno. A gente se conheceu eu tinha quinze anos, se conheceu na escola. E três meses depois eu acabei perdendo a perna e ele me ajudou muito. O Bruno me ajudou muito, a gente está junto até hoje, faz quatorze anos que a gente está junto, ele era muito menino, tinha dezessete anos, eu tinha quinze anos. Ele ficou do meu lado. Eu tive muitos amigos também que me ajudaram, muitos amigos. Minha família, principalmente: minha mãe, meu pai, eu tive muita força de todo mundo, eu acho que isso me ajudou a não esmorecer, senão eu tinha... eu acho que, se eu não tivesse essas pessoas do meu lado, eu tinha entrado numa depressão. Mas talvez por eles, a adaptação não foi tão difícil, não foi difícil para mim. Eu me adaptei fácil. Eu acho que a gente tem duas escolhas, né? Ou você se lamenta pro resto na vida, ou você levanta a cabeça e continua. Eu escolhi levantar a cabeça e usar o que eu tinha ali, do meu lado. Claro que eles foram fundamentais, só que eu sempre passei por muita coisa ao longo da vida e aquilo ali eu vi como se fosse só mais uma etapa que eu tinha que vencer, sabe? Não é legal não ter uma perna, não é a coisa mais maravilhosa do mundo não ter uma perna, ter que usar prótese. Todo dia você tem que colocar prótese ali, tirar e tirar para tomar banho, tomar banho num pé só e bolhas e machucados e tem dias que eu não consigo andar, se eu andar por um longo período eu já canso, mas eu tenho uma prótese. E tem pessoas que não têm uma prótese, têm pessoas que são muito mais limitadas do que eu. Eu fiquei muito pouco período sem a perna, eu saí do hospital em fevereiro e eu coloquei a perna em junho, então, foi muito rápido. Eu coloquei minha perna muito rápido. Logo que eu comecei, coloquei minha perna, eu já comecei a andar, eu não precisei nem fazer fisioterapia, porque a ânsia era tanta de voltar a andar, que eu coloquei minha perna e já comecei a andar. Eu sofri, sim, alguns momentos de preconceito, eu acho que eu sofro muito mais preconceito quando estou sem a prótese, do que quando tô com a prótese. É engraçada a percepção que as pessoas têm da gente: quando eu estou sem a perna as pessoas - sem a prótese, no caso - têm um olhar: “Ai, coitadinha, está sem a prótese”. Quando eu coloco a minha perna, a visão que as pessoas têm é outra. Elas me veem, parece que o olho delas brilha: “Poxa, lá que guerreira, está andando!” Então, é engraçado. Quando eu não tinha prótese as pessoas me olhavam com um olhar mais de caridade e quando eu estou, coloquei minha prótese, as pessoas olham com admiração. Então, eu não me vejo sem ela, sabe? Eu não me vejo sem minha perna. É como se eu tivesse um bloqueio na minha cabeça, que não deixa me prender muito nos pensamentos de: “Ah, poxa, eu não tenho uma perna!” E fica até a questão de ficar olhando o meu corpo, que é o que sobrou da minha perna, eu não consigo olhar muito para ele, eu não consigo ficar olhando muito para ele, ficar me lamentando porque eu não tenho uma perna. Eu costumo acreditar que a gente… eu nunca me perguntei: “Poxa, por que comigo? Poxa, por que assim? Poxa, por que teve que acontecer comigo?” Eu nunca me peguei me perguntando isso, sabe? Tem dias difíceis? Tem dias difíceis, que não dá vontade de levantar da cama, mas não porque, poxa, poderia ter uma perna, mas mais pelo motivo de ser cansativo mesmo, sabe? Ser cansativo. Eu acho que eu escolhi estar no lugar onde eu estava, eu escolhi estar com as pessoas que eu estava. E o que aconteceu comigo foi consequência das escolhas que eu fiz. O que vale é o que eu fiz disso, com o que aconteceu, para frente, sabe? Dessa história para frente. Eu usei o que aconteceu comigo para mudar a minha vida. Demorou um pouquinho, porque eu era nova, então, mesmo perdendo a perna demorou um pouquinho para eu amadurecer e entender: “Poxa, eu tive uma segunda chance, se eu tive uma segunda chance, foi por algum motivo, algum propósito tem nisso”. Então, eu demorei, sim, um pouquinho para poder entender, sabe? Eu acredito que, se eu permaneci viva, é porque tem um propósito nisso tudo, não foi à toa que eu permaneci viva. Talvez, não sei, seja contar o que aconteceu para as pessoas, seja ser exemplo para alguém. Algum propósito teve nisso. Eu não me sinto uma coitada, por não ter a minha perna, eu não me sinto melhor do que ninguém por não ter uma perna, muito pelo contrário. Eu sou leonina, nasci em julho, então, eu sou leonina, eu acho que eu tenho uma autoestima muito elevada, eu me considero uma pessoa forte, eu me considero uma pessoa que vai atrás, que corre atrás das coisas. Eu não deixo que qualquer pessoa me coloque para baixo. É até incrível, porque aqui onde eu moro eu não sinto tanta liberdade de usar um short, uma saia, como eu sinto no meu serviço, como eu sinto na praia, talvez porque as pessoas de onde eu moro me conheceram antes, elas me conheceram com a perna e as pessoas onde eu trabalho, ou talvez, quando vou numa praia, conhecem a pessoa que eu sou  hoje. Então, eu costumo dizer que a Rubiane de antes e a Rubiane de agora, são duas pessoas diferentes, sabe? Eu gosto muito mais da pessoa que eu me tornei agora, pelas coisas que eu aprendi, do que da pessoa que eu era antigamente. Então, às vezes, principalmente quem te conheceu antes, a tua vida antes, costumam falar: “Porque você fez isso, você fez aquilo”. Mas quem eu sou agora apagou aquele passado, aquele passado não existe mais, sabe? Então, eu gosto muito mais de quem eu sou. Então, se eu tivesse a escolha de ter a perna de novo, ou aprender tudo que eu aprendi, eu acho que eu perderia minha perna novamente, só para aprender tudo que eu aprendi. Porque só foi como se eu tivesse parado, eu parei a minha vida para poder aprender, para poder aprender, para poder ver quem estava ao meu lado, ver o que realmente era importante, ver que a gente precisa perdoar também. E eu precisei parar, parece que a vida falou: “Não, agora para! Você vai parar, para você recomeçar”. Então, eu vejo a perca da minha perna como um recomeço, sabe? Eu tive muitas oportunidades, depois que eu perdi minha perna. Talvez oportunidades que eu não teria, quando eu tinha as duas pernas. Eu estive em lugares que eu não teria estado, se eu tivesse as duas pernas. Eu conheci pessoas, por exemplo, como vocês, que talvez, se eu tivesse as duas pernas, eu não teria conhecido. Até entrar na Brado, que é onde eu trabalho hoje em dia, eu entrei pela deficiência. Eu não permaneci na Brado pela deficiência, até o pessoal sempre me fala muito isso, porque eu entrei na Brado por cotas, mas eu não permaneci na Brado por cotas. Eu permaneci na Brado pela minha competência. Então, eu gosto muito de ver isso, sabe? Então, como que foi? Foi algo mágico na minha vida, sabe, ter perdido a perna. Não foi algo triste, não foi algo triste. É fácil? Não é fácil, não. Mas eu não perderia tudo que eu... todo conhecimento que eu tive, todas as pessoas que eu conheci, todas as oportunidades, todas as vivências que eu tive, eu não trocaria para voltar a ser quem eu era. 


P/1  – E como foi na escola, como é que foi terminando o ensino médio? Não pelo acidente, mas, assim, o momento da sua vida. 


R – Então, na escola eu nunca fui uma menina muito estudiosa, nunca fui. Eu acho que até no sexto ano fui bem, depois do sexto ano para frente eu nunca fui uma menina muito estudiosa. Acho que eu e meus irmãos, a gente sempre carregou muito isso, esse negócio de não gostar de estudar, sabe? Eu repeti de ano algumas vezes, alguns por consequência do acidente, outros porque realmente eu não levava a sério os estudos. Eu acabei desistindo muito cedo da escola. Eu fui até o oitavo, ano antes do ensino médio, oitava série e acabei saindo da escola. Fiquei eu acho que um ano sem estudar, acabei engravidando da minha menina, da minha primeira filha e desisti totalmente dos estudos. Eu voltei a estudar depois de velha, depois dos meus vinte anos que eu voltei a estudar, eu consegui terminar meus estudos, até onde eu estou atualmente, a Brado, a empresa que eu trabalho atualmente me incentivou muito. Mas isso, a minha falta de interesse nos estudos, não foi por causa do acidente, não. Foi porque eu, realmente, não era fã de estudar, não era. Hoje em dia eu me arrependo muito, porque hoje em dia eu sei o quanto é importante o estudo, sabe? Eu peno, porque hoje em dia eu tenho duas filhas, trabalho e recuperar todo o tempo que eu perdi não é fácil. Então, faculdade, casa, filho e trabalho, não é fácil. Se eu tivesse escutado minha mãe: “Estuda, porque depois você não vai conseguir”, teria sido um pouquinho mais fácil. Mas eu não era uma menina muito estudiosa, não.


P/1  – E voltando um pouquinho, assim, para depois do acidente, como é que foi para sua família, assim, você sabe? Como que eles lidaram, o que você via deles, como foi?


R – Então, depois do meu acidente, como falei para você, meu pai, por um período, se culpou muito por ter assinado o papel para amputação da minha perna. Até eu comentei com vocês que, lá no começo, se minha avó estivesse viva, ela teria cuidado de mim, minha avó teria cuidado de mim. Depois que eu voltei para casa, a minha mãe, que cuidou de mim, minha mãe me dava banho, tudo. Eu me lembro de uma vez que acho que no segundo dia que eu estava em casa, eu estava naquelas cadeiras de banho, embaixo do chuveiro e a minha mãe estava me lavando. E aí, eu acho que foi um flash, assim, eu não sei o que aconteceu, falei pra ela: “Ah, eu ia falar pra você lavar o meu outro pé”. Eu falei assim para ela e minha mãe desabou. Naquele momento a minha mãe desabou e começou a chorar, chorar, eu comecei a chorar também. Eu acho que, para quem está fora, a pessoa que está de fora, sofre muito mais do que quem está vivendo, que a pessoa... quem estava do meu lado viu tudo o que aconteceu, me viu em coma, meu esposo fala que eu inchei, que eu fiquei enorme. Os momentos que eu quase morri, então eles presenciaram muito mais. Eu estava em coma, eu não estava vendo nada do que estava acontecendo, então, talvez eles tenham sofrido muito mais do que eu. Corre, leva pro hospital e traz. A minha perna não cicatrizou, ela não fechou, então quando eu fui tirar os pontos, a cicatriz abriu, do meu corpo, então eu fiquei três meses com a perna aberta, exposta, porque eles não queriam fazer outra cirurgia, porque eu tinha acabado de sair do hospital e eu ia sofrer demais, ia ter que fazer enxerto, então fiquei com a perna exposta, quem fazia meus curativos era minha mãe e meu namorado. Eles trocavam e era um fedor, saia pus, era muito nojento, mas eles trocavam. Eles sempre cuidaram muito de mim, sabe? No terceiro dia que eu já estava em casa, eu já comecei a fazer as coisas sozinha. Eu estava na cadeira de rodas, eu ia lavar louça, eu ia... então, eu sempre tive todo mundo ali do meu lado, eu percebia que as pessoas estavam preocupadas, mas eu não queria sentir isso, eu não queria que as pessoas ficassem preocupadas. Eu queria uma nova vida, então eu tinha que aprender a me virar, aprender a ser independente, então eu sempre tentava fazer as coisas sozinha, sabe? Minha mãe estava sempre ali, para me ajudar, meu pai. Eu lembro que eu recebi uma visita, muita gente foi na minha casa, para poder me ver, às vezes precisava levar no hospital e sempre tinha alguém ali, para poder levar. Então, minha família se uniu muito. Depois da morte da minha avó, minha família acabou se afastando um pouco, mas com o meu acidente o pessoal acabou se unindo de novo. Então, eu sou muito grata por todo mundo que me ajudou, meus tios, primos, todo mundo, no momento que eu precisei, estava ali comigo. Então, eu tive muito apoio da minha família. Eu acho que quem mais sofreu, principalmente da família do meu esposo, porque eu passava muito tempo na casa dele, eu passava muito tempo na casa dele, mesmo sem a perna, eu ia para lá e ficava na casa dele e a mãe dele, que é minha sogra, a Lucélia, sempre me tratou como filha. Eu os conheci mais depois que eu perdi a perna, porque eu estava há três meses com o Bruno, então quase não ia na casa dele. Depois que eu perdi a perna, eles me acolheram de um jeito, assim, sabe? Muito carinho, muito amor e a minha sogra sempre me ajudando, me tratava, até hoje me trata, sempre me tratou como filha, assim, sabe? E eu acho que eu sempre tive muito apoio da minha família, sempre me ajudaram, sempre preocupados. Mas eu sempre procurei também ser muito independente, assim, sabe, eu não deixava muito isso para eles, eu sempre tentava fazer antes. 


P/1  – E como foi que começou de fato, né e como se desenrolou essa história de amor com seu companheiro? 


R – O Bruno eu conheci na escola, eu tinha quinze anos. Eu comecei a estudar, estudava durante o dia, eu comecei a estudar à noite. Minha mãe falou: “É a segunda chance que eu te dou, vou te colocar num colégio à noite”. Mas ela não queria me colocar, não, porque eu já não ia bem na escola, daí me colocar à noite ia ser pior, mas ela falou que ia me dar uma chance, que era para eu estudar e ela acaba me matriculando numa escola um pouquinho distante da minha casa, em outro bairro. Até pra mim... eu ia começar a trabalhar durante o dia, ela tinha conseguido um serviço de Menor Aprendiz, então eu ia trabalhar durante o dia e estudar à noite e eu entrei eu acho que em agosto na escola, então entrei no meio do ano, assim, na escola. Eu não conhecia ninguém na escola e então foi um burburinho, né? Quando tem menina nova. Isso quem fala é meu esposo, ele falou que, quando eu entrei, foi um burburinho, todo mundo queria me ver. E eu lembro que eu estava sentada e dois meninos colocaram a cabeça para dentro da porta da sala, sabe? Eu lembro que a professora falou: “Bruno, o que você quer aqui? Veio só ver a menina nova!” E falou assim pra ele, daí ele pegou e saiu. Daí passou acho que uns dias, lembro que uma vez a gente trocou de sala, ele era da minha sala, só que ele não ia pra escola. Esse dia ele foi, eu lembro que eu estava entrando na sala, ele saiu correndo, pegou e me deu um beijo, um selinho e pegou e saiu correndo. Ele não se recorda disso, mas eu lembro que foi o primeiro beijo que ele me deu. Aí o dia que a gente se beijou, eu estava indo, eu tinha fugido de casa, numa das minhas crises, estava pousando na casa de uma amiga minha e esse escolar que eu peguei ia para o Monte Santo e depois ia para o São Francisco, que é onde minha amiga morava. E ela falou, ela estava com o namorado dela e falou: “Vai com ônibus, a hora que voltar eu pego”. E eu peguei e entrei no ônibus, para não ficar ali ‘de vela’ e o Bruno, eu lembro que eu sentei no último banco e o Bruno sentou, jogou as pernas para cima de mim e ficou com as pernas em cima das minhas pernas e falando, falando. Lembro que a gente passou na rua, ele falou: “Ali em cima vai ser minha festa de aniversário, você podia vir”. E falou alguma coisa assim, eu falei que estava enxergando, mas não estava enxergando nada: “Ah, ali, então está bom!” E na hora de sair do ônibus foi muito espontâneo. Ele veio me dar tchau e acabou me beijando e eu o beijei, foi muito espontâneo, assim, daí depois eu acabei vindo na festa dele. Até é onde a gente mora atualmente, a casa que a gente mora é onde ele me pediu em namoro, há quinze anos, que era da tia dele, atualmente é nossa e ele, o Bruno... de cara a gente teve muita crise, muitas brigas, só que a gente amadureceu junto, né? A gente cresceu junto, a gente amadureceu junto, hoje em dia ele é uma pessoa sensacional, ele é um ótimo pai para minhas meninas, a gente tem duas filhas. E acho que as maiores experiências que a gente teve foi junto. Tanto da minha perna, quanto dele, da parte dele também, ele acabou perdendo o pai dele e ele viveu muita coisa e a gente usou tudo isso, para poder crescer. Então, eu acho que muita coisa fortaleceu, assim, a nossa união é incrível, porque o Bruno entrou na minha vida no momento certo. Talvez, nenhuma outra pessoa... eu sempre ‘ficava’ muito, ‘ficava’ com muito piá, mas eu nunca namorava. O Bruno foi meu primeiro namorado. Ele entrou na minha vida no momento certo, parecia que o destino sabia que tinha que ser ele, que ele era a pessoa que ia aguentar o baque. E ele entrou no momento certo e ele permaneceu do meu lado. Não foi fácil, ele falou para mim, sempre falou que muitas pessoas chegaram para ele e falaram: “Poxa, por que você não larga a menina? Você mal a conhece”. Mas não, ele continuou ali, ia trabalhar, fazia diária para conseguir dinheiro para ir para o hospital me ver, minha mãe conta que ele sempre... as pessoas iam me visitar e o Bruno sempre estava lá, ele sempre roubava a vez de todo mundo e mesmo eu em coma, o Bruno foi todos os dias, me ver. Eu fiquei, eu acho, que um mês e pouco em coma e todos os dias ele estava lá, para poder me ver e a gente já separou, já voltou, a gente já brigou muito, mas a gente está aí, levando. Vai fazer... dia 12 de... 13 de outubro faz quatorze anos que a gente está junto, entre trancos e barrancos, a gente está aí, eu acho que a gente é muito, eu costumo falar que é para ser. Sabe quando a pessoa é para ser? A gente já tentou se separar, mas não adianta, não adianta. Você sente que é como se completasse, mesmo. Eu e o Bruno, a gente é muito diferente um do outro, eu falo com o Bruno que a gente tem um gênio muito diferente, eu sou muito mais explosiva, o Bruno é muito mais zen e a gente se completa, a gente realmente se completa. O Bruno era pra ser, não tem jeito, tinha que ser ele, tinha que ser ele. 


P/1  – Você contou que você foi mãe nova, né? Como é que foi se tornar mãe? 


R – Engravidei da Gabi, da Gabriele - ela fez dez anos agora - eu tinha de dezenove para vinte anos. Eu e o Bruno, a gente já morava junto, casei com o Bruno e vim morar com ele aos dezoito anos, eu falei: “Ah, fiz dezoito anos, pronto, agora vou embora”. Achava que estava super bem para ir embora, eu trabalhava de Menor Aprendiz e eu achava que eu ganhava super bem, mas não ganhava. Eu falei: “Vamos morar juntos, vamos morar juntos”. E a gente... eu vim morar com ele. Eu lembro que eu trabalhava de Menor Aprendiz durante o dia e, à noite, eu trabalhava com ele na pizzaria que ele trabalhava. E a gente achava que estava super bem na vida: “Vamos ter um filho!” A gente resolveu ter um filho e eu engravidei da Gabi, só que quando engravidei, a gente estava numa crise, a gente acabou se separando, eu voltei a morar na casa da minha mãe, falei: “Mãe, eu acho que eu estou grávida”. Ela pagou a ecografia para mim, eu falava que eu não queria, que eu não queria, até porque eu e o Bruno, a gente não estava junto. Eu não queria ter um nenê, eu falava. Hoje em dia é claro que me arrependo muito, eu olho para o rostinho da Gabriela e eu me arrependo de tudo que eu falei, mas eu lembro que minha mãe que pagou para mim a ecografia, eu fui fazer direto a ecografia, porque eu não tinha barriga, eu era magrinha, sabe, eu era muito magrinha, só que minha menstruação estava atrasada, eu tinha um leve volume, que eu não sabia se era gordura ou se era nenê, ela falou: “Não, vai, faz direto a ecografia que, se tiver, já pega ali a ecografia e vai fazer o pré-natal”. Minha mãe pagou, eu fui sozinha, lembro que eu fui sozinha fazer a ecografia. Eu estava com aquele nervoso que eu não queria, eu não queria ter um filho, então, eu não queria que fosse. Eu lembro do coraçãozinho dela, a hora que eu ouvi o coraçãozinho dela batendo. Aí eu falei com o médico: “É?” Daí eu falei pra ele que eu estava desconfiada, para o médico, daí eu lembro que eu falei pra ele: “É mesmo, doutor?” Daí ele pegou e aumentou o som do coraçãozinho dela e eu lembro, assim, do coração dela batendo, naquilo meu olho já encheu de lágrima, já comecei a tremer, daí ele: “É mesmo, você está grávida mesmo”. Foi daí que eu falei que eu não queria, queria tirar, até porque eu e o Bruno, a gente não estava junto, né? Acabou que a mãe do Bruno o obrigou a voltar comigo, ela falou: “Não, você vai ficar com ela, a engravidou, agora você vai ficar com ela”. Aí eu lembro que a gente voltou, não foi fácil, ele falou para mim que ele só voltou comigo por causa que a mãe dele mandou ele voltar comigo. Mas ele fala, hoje em dia, que se arrepende, porque foi a melhor coisa que ele fez. E foi incrível, foi difícil, foi muito difícil ter tido a Gabriele, a gente, eu e o Bruno, era muito imaturo, muito imaturo. Logo que eu engravidei da Gabi eu saí de onde eu estava trabalhando, eu pedi para sair de lá e a gente passou um perrengue. Só o Bruno trabalhando, foi difícil, teve que sair da casa que a gente estava e morar na casa da mãe dele, eu acho que eu morei na casa da mãe dele um ano, dois anos, uma coisa assim. E é difícil morar, né? Minha sogra sempre foi muito sensacional, eu sempre me dei muito bem com ela, nas regras dela. Enquanto eu sigo as regras dela, a gente está se dando super bem. Morar com as pessoas não é fácil, sabe? Até que seja um relacionamento, ter alguém ali, principalmente com a sogra se metendo na relação, no seu relacionamento, não é muito legal, não. Mas graças a Deus a gente sempre se deu muito bem, minha sogra sempre me tratou muito bem, sempre me tratou como filha. Eu não sei se isso é bom ou se é ruim, ela me tratar como filha, porque aí ela tem liberdade para me chamar atenção. Então, eu tive a Gabriele com dezenove para vinte anos, eu engravidei dela aos dezenove e ganhei aos vinte e depois, quando a Gabriele estava com três anos e meio, eu já tinha voltado a trabalhar. Fazia acho que seis meses que eu estava trabalhando e eu acabei descobrindo que eu estava grávida da Laura. E foi um susto, foi um susto, porque eu estava bem, a gente estava na nossa casa, financeiramente a gente estava bem, só que a gente não queria. A Gabi a gente não estava bem e queria e a Laura, quando a gente estava bem, a gente não queria. E foi um susto, nossa, eu pedi para sair do serviço de novo. E eu chorei muito, porque eu não queria a Laura, eu não queria ter engravidado de novo, eu me culpei muito, só que no final acabei aceitando e foi uma gestação muito tranquila, bem diferente da Gabriele, que a da Gabriele foi muito conturbada e a da Laura foi uma gestação muito tranquila, muito tranquila. O Bruno sempre presente, sempre do lado, eu sempre conversava com ela, na barriga. E foi muito sossegado, assim e veio meu toquinho, a Laura é incrível, ela é sensacional, sabe? É muito arteira, hoje em dia está com seis anos, é muito terrível, muito arteira e são minhas pequenas, assim. Eu acho que a Gabriele veio no momento certo, porque ela veio para poder unir mais eu e o Bruno e a Laura veio para confirmar que realmente era aquilo ali, sabe? Eu não tive nenhuma complicação por causa da minha perna, eu tenho uma cicatriz enorme na barriga, por causa da cirurgia do intestino, mas eu achei que ia me dar algum problema, não me deu, foi bem tranquilo. Eu não tive dor de parto, eu tive as duas normal, mas eu quase não senti dor, foi um parto muito tranquilo, nasceram pequenininhas. Eu acho que Deus me abençoou muito na hora nos meus partos. Eu tive contração tudo, mas eu não senti. Eu lembro até quando eu fui ganhar a Gabriele, eu ouvi aquela mulherada gritando, falei: “Meu Deus, não vou aguentar, eu vou morrer”. Só que não, foi muito tranquilo, foi muito tranquilo meus partos, as duas nasceram pequenas, parece que elas realmente pularam para fora. Deus me abençoou muito, acho que ele pensou: “Não, você já sofreu tanto, que eu não vou deixar você sofrer agora”. Meus partos foram bem tranquilos, eu não tive nenhuma complicação, devido a perna. 


(P/1  – E o que vocês gostam de fazer juntos, assim, nos momentos livres?


R – O Bruno atualmente tem viajado bastante, ele trabalha numa empresa de fibra, então atualmente ele viaja muito, assim, sabe? Até esse tempo ele passou quase um mês no Rio de Janeiro e vai pra lá, vai pra cá, ele viaja muito. Mas quando a gente está junto, a gente costuma sair, a gente vai em pizzaria. A Gabriele, que é a minha menina mais velha e o Bruno, amam comer lanche. Então, a gente vai à pizzaria. Atualmente, por causa da pandemia, a gente não tem saído tanto, né? Mas a gente vai num parque que tem aqui embaixo, que é o Aníbal Khury. A gente procura assistir filme, sempre procura assistir algum filme junto, brincar. Ele dança muito com as meninas, às vezes ela está dançando, ele vai dançar com elas. Eu já sou uma mãe um pouquinho mais, assim, autoritária, reservada, brava. Alguém tem que colocar regra, né? Enquanto o Bruno estraga, alguém tem que colocar regras na casa. Mas eu também costumo brincar muito com elas, a gente desenha, cada um faz do seu jeito. Ele brinca do jeito dele, eu brinco do meu. Ele pula pra lá, pula pra cá, eu danço muito com as meninas, mas a gente tem, eu acho que a gente tem esses momentos de lazer bacanas. 


P/1  – Rubi, e quando você começou a trabalhar, como que foi?


R – Então, antes de eu começar a trabalhar, foi logo em seguida que eu ganhei a Laura. Logo em seguida não, na verdade foi um ano, dois anos depois que eu tive a Laura. Eu fiquei esse período fora do mercado de trabalho e eu precisava voltar a trabalhar, porque só o Bruno não estava dando conta em casa, né? Só que eu não tinha terminado meus estudos. Aí tem uma instituição, que é a Unilehu, que ajuda portadores de deficiência a se recolocarem no mercado de trabalho. Eu já tinha trabalhado com eles há um tempo, eu falei: “Ah, eu vou lá” e eu fui e eu descobri - eu comecei a fazer um curso de contabilidade lá - que tinha uma empresa que pagava para você fazer curso e eu fui, me inscrevi, que era a Brado, que é a empresa que eu trabalho atualmente. E eu fui, me inscrevi e comecei a me apaixonar pela empresa, comecei a me apaixonar e a gente era em trinta pessoas, se eu não me engano. Só que, o que acontecia? Como a gente estava numa sala, acho que as pessoas acabam retrocedendo, achando que está numa sala de aula. Então, era muita brincadeira e poucas pessoas que realmente levavam a sério, sabe? E eu quis levar a sério, quis conhecer a empresa e eu fui me apaixonando, me apaixonando, aí fazia seis ou sete meses que eu estava fazendo o curso e eles começaram a fazer algumas seleções, para levar o pessoal para dentro da empresa. Lembro que, na época, quem foi fazer a seleção foi a Juliane _____ e eu a chamei e falei: “Eu não tenho estudo, eu não terminei o ensino médio, mas eu tenho muito interesse em trabalhar lá, porque eu tenho muito interesse, eu preciso voltar a trabalhar e eu me apaixonei pela empresa e eu preciso trabalhar”. E ela falou: “Agora a gente não vai levar em consideração isso”. E eu fiz a prova e eu fui fazer a entrevista, até a pessoa que eu fiz a entrevista, que era o Igor, para trabalhar no departamento dele, sempre brinca comigo: “Você não quis vir para minha área”. Eu acabei fazendo a entrevista com ele, só que era para trabalhar meio período. Naquele momento eu não queria trabalhar meio período, eu precisava trabalhar período integral. E eu falei para a moça que eu não queria trabalhar meio período. Aí aconteceu que a recepcionista, na época, precisava tirar férias, não tinha quem a cobrisse, aí eles me contrataram, para poder ficar… fugiu a palavra agora, pra trabalhar um período lá, assim, não era certo que eu iria ficar, era só para poder cobrir as férias dela. Mas foi a oportunidade que eu tive, para poder mostrar o meu potencial. Até eu não queria trabalhar como recepcionista, era engraçado que eu não tinha estudo, mas eu não queria trabalhar como recepcionista, eu queria trabalhar num cargo. Mas foi a melhor coisa que eu fiz foi entrar, ter entrado na recepção, porque ali na recepção eu tive a oportunidade de conhecer todo mundo. Eu conhecia desde as meninas do café, até a diretoria. E eu atendia todo mundo. E, às vezes, quando você está em um departamento, os departamentos acabam se fechando. Não é muito o caso da Brado, mas você acaba conhecendo só o seu departamento e ali na recepção, não. Eu conhecia todo mundo, o que todo mundo fazia, eu fui conhecendo um, conhecendo outro, então foi a melhor coisa que aconteceu comigo, foi ter entrado na recepção. Eu passei eu acho que dois anos na recepção. Eu respondia para o Departamento Pessoal, as auxiliava em questões de Departamento de Festas, eu comecei a fazer as festas da empresa, comecei a fazer as festas de aniversário. Eu fiz uma festa que foi o recorde que a gente bateu e eu comecei a me apaixonar por aquilo, eu gostava de fazer aquilo. Aconteceu que o Departamento Pessoal acabou indo para Rumo e eu sou parte de um número da Brado, então eu fazia parte de cotas da Brado e não tinha como ir para a Rumo, aí a recepção passou para área de suprimentos. E na área de suprimentos acabou que eles reestruturaram, contrataram uma empresa terceirizada para fazer recepção e limpeza e eu acabei entrando pra dentro da área de suprimentos. Eu cuido, eu passei a cuidar da área de gestão de terceiros, da área de facilities. Eles confiaram em mim, me deram uma oportunidade e hoje eu estou aí. A Brado sempre me incentivou muito, até porque quando eu entrei na Brado eu não tinha nem o ensino fundamental completo. Eles falaram: “Não, vai e faz, que oportunidade tem, é só você correr atrás”. E foi o que eu fiz, eu corri atrás, terminei os estudos. Eu lembro que a Tamires, uma vez, que era minha chefe, falou: “Rubi, a oportunidade está aí, vai fazer uma faculdade, que você tem potencial, você consegue e você só vai crescer, se você tiver algum estudo”. E eu fui, comecei a fazer a faculdade também, faz três anos, estou no terceiro ano de Administração e foi a melhor coisa que eu fiz, ter corrido atrás. Eu amo meu trabalho, eu sou apaixonada pela empresa, eu sou apaixonada pelas pessoas. Eu falo que dali eu não saio, eu só saio se realmente me mandarem embora, porque eu amo o meu trabalho. Eles me deram muita oportunidade. Até a perna que eu estou hoje em dia, foram eles que me deram. Então, às vezes, eu falo que, onde eu for, a Brado está comigo, porque eu caminho por causa deles. Então, eu sou completamente apaixonada pelo meu trabalho, eu amo o que eu faço, eu amo estar onde eu estou. E é isso.


P/1  – E, voltando um pouquinho às experiências, como foram as experiências anteriores, de trabalho, para conseguir? Como é que foi, antes de entrar na Brado?


R – Quando iniciei no mercado de trabalho não foi muito fácil, não. Eu comecei, meu primeiro emprego foi como empacotadora de um supermercado e eu ficava nove horas em pé, na frente de um caixa. Eu já era protetizada. Eu entrei, comecei a trabalhar com dezessete anos e eu ficava nove horas em pé, na frente de um caixa. Era muito desumano. E teve um dia que eu estava no vestiário, eu tirei minha prótese e a prótese estava sangrando, porque eu estava com bolha, tinha feito bolha, estourou e acabou que uma moça do RH veio e viu a situação, daí ela falou: “Não, não tem como, você já deveria ter saído da frente do caixa”. E me passaram para o departamento de segurança. Aí eu virei recepcionista do departamento de segurança. E ainda nesse mercado surgiu a oportunidade de entrar numa outra empresa, uma multinacional, como Menor Aprendiz. Era uma oportunidade muito boa, era uma empresa de petróleo. Não sei se eu posso falar o nome dela aqui. Era a ExxonMobil e era uma oportunidade incrível e eu falei: “Não, eu vou para lá. É para trabalhar meio período, mas eu vou para lá”. Só que quando eu fui para lá, eu trabalhava meio período, fazia curso no outro período, só que eu ganhava mais do que eu ganhava naquele mercado. Então, foi ótimo para mim, eu aprendi muito lá. Eu não levei muito a sério, porque ainda era muito nova, eu brincava muito, mas eu aprendi muita coisa dentro da ExxonMobil, aprendi muita coisa lá, eu conheci pessoas incríveis, conheci... até então não conhecia tantos PcDS, lá eu conheci outros PcDS, eu vi que tem pessoas que têm histórias parecidas, ou até histórias mais incríveis que a minha. E eu conheci um universo sensacional, sabe? Histórias sensacionais. E eu fui trabalhar na ExxonMobil, trabalhava na ExxonMobil durante o dia, aí eu comecei a trabalhar nessa pizzaria que eu comentei anteriormente, à tarde. Então, eu estudava de manhã e ia pra ExxonMobil à tarde, à noite eu ia para pizzaria. Era muito corrido, porque eu saía da pizzaria à meia-noite, uma hora, para ter que acordar às cinco, seis horas, no outro dia. Aí, quando eu descobri que eu estava grávida, já tinha encerrado o meu contrato na ExxonMobil, eu estava só na pizzaria, eu descobri que eu estava grávida e acabei pedindo a conta. Na pizzaria também era muito… na ExxonMobil eles respeitavam a questão de PcD, eu trabalhava sentada, não fazia tanto esforço. Agora, na pizzaria não, era loucura, correria. E eu acabei pedindo a conta da pizzaria, fiquei um período em casa, com a Gabriele, acho que eu fiquei dois anos mais ou menos da Gabriele em casa, dois anos e meio parada. Voltei a trabalhar, quando eu voltei a trabalhar entrei numa indústria de chicotes elétricos, trabalhei eu acho que seis meses nessa indústria. Surgiu uma oportunidade de trabalhar numa de editora empresarial, que é a Econet, eu saí da editora empresarial, perdão, saí da indústria de chicotes elétricos e fui para a editora empresarial. Ali a gente trabalhava mais com vendas. A gente ligava para os clientes e oferecia o produto, só que eu não me identifiquei, (risos) eu acho que eu não nasci para trabalhar com isso. E eles também me ajudaram muito nesse período, eu estava com a minha perna estragada e eles me ajudaram muito também, com isso. Acabou não dando certo, eu descobri que estava grávida da Laura, eu pedi para sair da empresa. E fiquei esse período em casa novamente, uns dois anos em casa, até que eu tive oportunidade de entrar na Brado.


P/1  – Então, você falou, né, em alguns momentos e eu queria só retomar um pouquinho a história das suas próteses, que foram mudando, né? E queria saber como foi esse processo de encontrar uma prótese que fosse boa para você, como foi toda essa passagem, com a prótese.  


R– Então, até o momento eu tive três pernas, nesses quatorze anos. Eu estou na minha terceira perna. A minha primeira perna não veio pelo SUS, foi comprada, na verdade. Todas elas foram compradas. Até hoje a minha perna do SUS não chegou, estou esperando até hoje. Foi feita uma festa com meus amigos, para fazer a arrecadação do dinheiro. Na época eu paguei mil e setecentos, se eu não me engano, na perna. Foi uma pessoa que fez muito barato para mim. É uma perna antiga, porque tem dois sistemas de próteses: tem a de silicone e tem um modelo um pouquinho mais antigo, que é o que você coloca meia. Esse modelo antigo, eu fiquei com ela durante oito anos, com essa prótese, então ela já estava de um jeito que não dava mais para andar, mas eu estava andando, eu andava no ferro, já não tinha mais pé. Então, eu andava no ferro da prótese. E eu tive, ao longo do tempo, a minha perna foi atrofiando. Quando eu fiz a prótese, eu fiz com meu corpo inchado, então, quando eu comecei a andar, a minha perna foi atrofiando, eu tinha que ir colocando meia, meia, meia, meia, meia, meia. Chegou uma época que eu estava usando 32 meias na perna, para poder segurar a prótese. Essa foi a minha primeira prótese e eu acabei ganhando a segunda prótese e já foi um sistema de silicone. E foi mudar, assim, da água para o vinho, sabe? Outra vida você andar com o sistema de silicone. E eu fiquei com essa outra perna durante acho que cinco anos, mais ou menos, com a outra perna, quatro ou cinco anos, também acabou rasgando o silicone, que o silicone é mais sensível, né? Acabou rasgando o silicone e eu troquei pra minha terceira perna, que também foi ganhada. Então, eu sempre ganhei as minhas pernas. Até o momento eu não comprei pernas, eu sempre ganhei, então sempre tive pessoas que se importaram e acabaram me ajudando, me dando uma perna, me ajudando a caminhar. É como se a vida tivesse falado: “Eu te dei uma oportunidade, você vai começar uma nova vida, mas não se preocupa, que você não vai ficar sozinha”. Porque sempre que está acontecendo alguma coisa, aparece alguém no meu caminho, para poder me ajudar, sabe? Para poder falar: “Não, eu estou aqui!” Me estender a mão e falar: “Não, vou te ajudar, você vai continuar a caminhar”. Eu nunca fiquei um período tão grande sem a minha perna, eu acho que eu fiquei de fevereiro a junho, que foi logo do meu acidente. Os outros anos eu sempre estive com perna, eu nunca fiquei um período tão grande sem perna, sabe? Eu acho que isso me ajuda muito, principalmente em relação a minha independência, assim, sabe? Eu faço tudo sozinha, até meu esposo fica bravo. Esse armário que está aqui atrás, quando a gente se mudou, eu pedia pra ele colocar: “Coloca o armário para mim, coloca o armário pra mim”. Ele não colocava, ele foi viajar e eu dei um jeito de colocar. Coloquei a banqueta em cima da pia, coloquei o armário em cima da banqueta e dei um jeito de colocar o armário na parede. Então, eu não gosto muito de ser dependente das pessoas, eu acho que isso, para um PcD, é terrível, você ter que depender de alguém. Até ali, na Brado, às vezes as pessoas até esquecem, no escritório que eu trabalho, que eu utilizo prótese, eu acho, porque às vezes me pedem para fazer alguma coisa ou outra, as pessoas até esquecem que eu uso. Também eu sou muito ativa, sabe? Eu não consigo ficar parada. Então, o tempo todo estou indo para lá e para cá, em casa também eu não paro, então a minha deficiência com a prótese nunca foi uma limitação para mim, sabe? Eu sempre fui muito ativa, sempre busco fazer alguma coisa, subo escada e desço e ando e ergo as coisas, eu não tenho limitação, não tem limitação, eu não me enxergo com uma limitação. Talvez na hora que eu tiro, que tem que tomar um banho ali, sem prótese, é onde que eu lembro que eu sou PcD, caso contrário não tem limites.


(01:22:09) P/1  – E quando você começou a trabalhar, você contou que você se encontrou com outras pessoas com deficiência. Como foi, assim, encontrar outras pessoas também, assim?


R – É até bacana falar isso, que me vem uma lembrança na mente, acho que do meu primeiro dia no curso. Estavam os PcDs ali e todo mundo contando um pouquinho da história, como tinha se tornado PcD e para mim tinha sido tudo muito recente. E quando eu comecei a contar minha história, eu chorei, eu chorei, porque era recente, sabe? É muito diferente a pessoa que nasce com a deficiência e a pessoa que adquire uma deficiência, porque eu tive a experiência de como é ter duas pernas. E eu chorei, porque era muito recente para mim e o meu professor, na época, eu acho que é professor Eduardo, se não me engano, o nome dele, não me deu muita bola. E aquilo ali, para mim, foi... sabe? Poxa, eu não sou a única aqui, todo mundo tem uma história sofrida, todo mundo tem um problema e aquilo ali fez eu entender aquilo. Fez eu entender que não é só eu que sou PcD, não sou só eu que tenho problema. E eu lembro, sim, de cada história, eu lembro como foi. Eu lembro de todos eles, eu lembro que tinha algumas pessoas também que eram protetizadas. Tinha o Leonardo, que não tinha as duas pernas. Tinha mais um outro rapaz que também não tinha perna, tinha um que não tinha mão e eu lembro de todas as histórias e alguns eu ainda converso hoje em dia, depois eu acabei voltando para a instituição e conhecia outros PcDs também, alguns ainda converso hoje em dia, alguns acabaram se afastando, não tive mais notícias. Mas foi muito bom eu ter conhecido esse universo, assim. Talvez, se eu não tivesse conhecido os outros PcDs, eu não tinha conseguido entender que eu não sou o centro do mundo, (risos) que as coisas não acontecem só comigo, que tem outras pessoas que têm problema também, tem outras pessoas que precisam, têm lutas diárias também, sabe? Então, foi muito bom tê-los conhecido, ter tido essa vivência com outros PcDs, com outras pessoas que têm problemas. Eu costumo dizer que eu não sou a única pessoa do mundo que tem problema, não sou uma coitada por não ter a perna, tem pessoas que têm perna e têm problemas muito piores do que os meus, sabe? Então, foi muito bom tê-los conhecido.


P/1  – E, na Brado, você se lembra do seu primeiro dia de trabalho, como foi?


R – Lembro, lembro sim do meu primeiro dia. Eu lembro que, quando eu iniciei ali... na verdade, eles já têm uma vivência com PcDs, porque eu não fui a única PcD, teve outros PcDs que entraram, mas eu lembro do pessoal, foi muito receptivo, todo mundo me atendeu muito bem, até aonde a gente trabalhava, antes desse escritório atual que a gente está, a gente trabalhava em um prédio e tinham alguns lances de escadas que tinha que descer e o pessoal falava pra mim não ir pela escada, ir pelo elevador e eu teimava e ia pela escada. Mas todo mundo sempre falava: “Não corre, não pega isso, deixe que eu levo aquilo”. Sempre com aquele cuidado, assim. O pessoal ali da Brado é incrível, eles me tratam de igual para igual, às vezes, eles falam: “Não faz isso”. Às vezes, gente fica um pouquinho meio assim: “Poxa, mas eu consigo”. Mas eu sei que é por preocupação, porque se preocupam mesmo, eles têm um carinho, você vê neles o carinho que eles sentem, sabe? Eu gosto muito de todo mundo ali, às vezes, quando tem que falar alguma coisa da empresa, eu falo que sou suspeita para falar qualquer coisa, porque eu sou completamente apaixonada pelas pessoas e pela empresa e por todo mundo ali dentro. Mas foi, acho que foi tranquilo meu início na Brado, foi bem tranquilo. Eles já tinham até uma vivência com PcDs, então foi algo, já estava num território ali que estava totalmente adaptado para me receber. 


P/1  – E como é que seu trabalho funciona hoje em dia, na área de facilities, como é? 


R – Então, atualmente eu cuido um pouco do facilities aqui de Curitiba, junto com o meu colega, que é o Tiago, ele me dá um suporte incrível, porque ele tem mais experiência que eu, está na companhia há mais tempo que eu, então ele é um par comigo, ele me dá um suporte muito bacana. A gente cuida de toda a parte do escritório ali, estrutural, das meninas da limpeza, compras, então tudo, desde que a pessoa entra no escritório, até o momento que ela vai para uma sala de reunião, quem cuida é a gente. O Tiago cuida da área de facilities dos terminais e eu cuido da gestão de terceiros também, da empresa. Então, todo mundo que é terceirizado, que vai entrar no terminal, no escritório, que vai fazer qualquer tipo de serviço dentro da Brado, precisa passar por mim. Seja uma empresa de consultoria, uma empresa de guindaste, qualquer um tem que passar por mim primeiro. Então, se não estiver com os documentos conformes, não entra dentro da Brado. Então, é mais isso que a gente faz. A gente dá suporte em outras áreas também, na área de facilities eles cuidam, dentro da área de facilities tem mais gestão energética, gestão de terceiros, segurança patrimonial, viagens. Então, tudo isso está dentro da área de facilities, então um acaba dando um suporte para o outro, em um momento ou outro. Mas antes de ir para área de facilities eu também trabalhei um pouquinho no Departamento Pessoal, ajudava bastante as meninas ali, até que chegou um período que estava ajudando em entrevistas também, fazendo entrevistas, junto com as meninas. Na área de facilities vai fazer dois anos que estou, mas a minha maior experiência foi na área de Departamento Pessoal, junto com as meninas. Mas eu gosto muito, eu gosto muito do que eu faço. Eu me bati um pouquinho até na área de gestão de terceiros, porque era tudo novo para mim, né? Mas tem dado certo.


P/1  – E há quanto tempo você está nessa função?


R – Na gestão de terceiros faz um ano e meio, um ano e pouquinho, não sei ao certo agora, um ano e oito meses, alguma coisa assim. 


P/1  – E na Brado?


R – Na Brado, dia 17 de julho faz quatro anos que eu estou.


P/1  – E pensando, assim, na sua trajetória profissional, principalmente na Brado, assim, tem alguma história marcante, algum dia que foi marcante, para você?


R – Tem, tem várias histórias marcantes na Brado. Eu já vivenciei muita coisa ali, tanto de carinho das pessoas por mim, sabe? Eu já vi, tem pessoas assim que a gente guarda, a gente leva, que eu quero levar para a vida, ali de dentro, sabe? Tem amigas, tem uma amiga muito querida minha, que é a Vanessa, ela atualmente não trabalha mais na companhia, mas ela fez coisas por mim ali dentro da companhia que eu não esperava, sabe? Tem o Dalmiro também, que se importou comigo quando eu estava com a minha perna quebrada, foram pessoas que foram atrás: o Dalmiro, a Tamy, a Vanessa foram as pessoas que foram atrás e falaram: “Vamos ajudar a Rubi, porque ela está com problema”. Então, eu acho que o maior… já tive vários gestos de carinho ali dentro da Brado, mas acho que o maior deles foi a questão da minha perna, foi a questão da minha perna, com certeza. Eu tive um momento difícil também, já tive conversas difíceis, mas eu já tive muita gente que me aconselhou, que me deu conselho. Ali as pessoas realmente se importam se você está bem, se você não está, se você está precisando de alguma coisa. Eu acho que foi um momento muito marcante para mim, na despedida do Rogério, que era nosso antigo presidente, que eu tive a oportunidade de agradecê-lo. Foi feito um vídeo para ele e me deram a oportunidade de agradecer por tudo que ele fez para mim. E foi muito marcante para mim, assim, ter falado com ele, sabe? Eu acho que todo mundo chorou, mas para mim foi muito marcante, assim, ter falado com ele. Eu vivenciei vários momentos ali dentro, mas eu acho que, para mim, esses foram os mais marcantes, que foi quando me deram a notícia de que eu ia ganhar minha perna e quando fizeram uma rifa para mim também, para me ajudar com uma perna, que vieram falar: “Rubi, a gente está fazendo uma rifa, pra poder te ajudar”. E todo mundo se envolveu, todo mundo quis comprar. E na despedida do Rogério também, quando eu tive a oportunidade de agradecê-lo por tudo, ele e a companhia num todo, por tudo o que tinha sido feito. 


P/1  – E como foi esse dia da perna, que você recebeu a notícia? 


R – Então, antes de receber a notícia, eu já tinha feito uma vaquinha online, para conseguir o dinheiro da perna, eu fiz alguns vídeos, solicitando ajuda. Até a minha amiga, essa Vanessa, tinha falado pra mim: “Rubi, você fez a vaquinha? Não faz, eu acho melhor não fazer, não divulgar”. Eu achei estranho, sabe, ela ter falado assim. Só que depois ela veio e falou: “Não, continua, continua com a vaquinha”. Eu achei estranho, aí eu fazia as festas da empresa, eu lembro que era festa junina, se não me engano e era o meu último dia, que depois eu ia pegar férias. E eu lembro que a minha chefe me chamou, na época era a Tamires, aí a Tamires e a Juliane me chamaram na sala. Eu fiquei até com medo, né? Poxa, me chamaram na sala. E daí elas me contaram: “Foi feita uma vaquinha”. Foi feita uma vaquinha, não, desculpa: “Foi levado o teu caso até diretoria e a Brado quer te dar a prótese. A gente quer saber quanto que você tem na vaquinha, que a gente vai inteirar o valor que faltar, para poder comprar a prótese para você”. Eu fiquei... chorei e agradeci, eu fiquei nervosa, tremia, eu não sabia o que falar. Eu tenho um probleminha no meu olho, quando eu fico nervosa ele fica pulandinho, assim. Nossa, eu fiquei muito feliz, muito feliz mesmo. Depois eu descobri que quem tinha levado o caso para cima tinha sido a minha amiga Vanessa, eu até lembro do dia, eu lembro que eu estava na recepção, eu estava com a perna muito machucada, só que eu não gostava de ficar falando para as pessoas, sabe? Então, eu tirava minha prótese ali na recepção e ficava sentadinha ali, né? E ela viu o jeito que estava, ela viu que estava muito machucada minha perna e ela se comoveu e não falou nada, simplesmente foi lá para cima e chamou o pessoal, conversou: “Está assim, assim, assim e a gente precisa fazer alguma coisa”. E foi feito. Então, eu lembro sim do momento que foi falado para mim e foi algo incrível, que eu estava saindo de férias e eu fui embora, assim, muito feliz, sabendo que, quando eu voltasse, eu ia colocar a minha perna.


P/1  – E qual foi o momento mais desafiador para você, no seu trabalho, na sua trajetória profissional?


R – Eu acho que, sem sombra de dúvidas, o momento mais desafiador para mim foi assumir a gestão de terceiros, porque era uma área que eu não conhecia. Eu dominava a recepção, então tudo que tinha ali na recepção, eu dominava. Até hoje em dia, volta e meia, tem a Paula, que é recepcionista e eu dou um suporte para ela e eu estava muito na minha zona de conforto, então eu tive que sair da minha zona de conforto e assumir uma coisa que eu não conhecia. Então, foi muito desafiador para mim, sabe? Até principalmente sistemas, eu nunca gostei muito de falar no telefone, eu tinha que entrar em contato com o fornecedor e com gestor de contrato, para poder entender a situação e são muitas siglas: Ppra, Pcsmo, coisas que eu nunca tinha ouvido falar na minha vida, então foi muito desafiador, me bati muito. Eu ‘cortei um 12’ ali, porque foi difícil, foi difícil, mas graças a Deus eu tive muito suporte, sempre tive suporte, sempre tive o Alessandro, que é meu gestor, o Tiago sempre ali, junto comigo, me ajudando, sabe? Então, acho que, dentro da companhia, o momento mais desafiador foi essa troca de onde eu estava para onde eu estou agora. Não foi fácil, não, mas a gente está aí e está dando certo. E foi muito importante para mim a confiança da companhia em um todo, sabe? Jogar algo na minha mão e confiar que eu ia dar conta, confiar que eu ia dar conta e que ia dar certo. E graças a Deus tem dado certo, tenho conseguido devolver algo bacana para eles. 


P/1  – Geralmente o corporativo tem mais mulheres, né, que as áreas operacionais, assim, mas eu queria saber se você consegue perceber, assim, a ascensão das mulheres no mercado de transporte, assim, de uma maneira geral. Como que você vê isso, como está? Principalmente na Brado, que é onde você trabalha, né, se você tem alguma percepção sobre isso. 


R – No escritório a gente tem muitas mulheres, tem muitas mulheres, mas a gente tem mulheres também no campo. Tem mulheres no operacional também e a gente tem muito orgulho disso, a Brado valoriza muito a mulher. A gente tem mulheres que são gestoras, a gente tem diretora, então atualmente a gente tem espaço, sim. Basta a mulher querer que tem tido espaços para a gente, principalmente estando onde eu estou, estando na Brado, eu tenho percebido muito isso, sabe? Nós temos, a gente tem tido voz, a gente tem tido voz, eles têm nos escutado, eles sabem o que é bom para a gente, a gente tem conseguido falar o que é bom para a gente e a gente tem conseguido ganhar muito espaço dentro da companhia.


P/1  – Em algum momento, assim, na sua trajetória profissional, você sentiu algum tipo de preconceito ou de dificuldade no trabalho, relacionado ao fato de você ser mulher e PcD também?


R – Eu não consigo recordar nenhum fato tão marcante assim, pelo fato de ser mulher. Agora, na companhia onde eu estou, eles são muito respeitosos, assim. Talvez em outras companhias já tenha tido algo parecido: por ser PcD não vai dar conta, por ser mulher não vai dar conta, não necessariamente que cheguem para você e falem: “Ai, porque é mulher, você não vai dar conta”. Mas, sim, já teve situações de ter que fazer alguma coisa, um exemplo que eu vou dar é numa indústria que eu trabalhava e eu montava chicotes elétricos e tinha um chicote novo que entrou e era só eu que fazia aquela função. Só eu que montava aquele tipo de chicote, mas preferiram passar para um outro rapaz, porque acho que, naquele momento, eu não sei se era porque eu era PcD, ou se era porque eu era mulher, mas eu senti que não queriam me entregar aquilo, sabe? Entregaram para outro rapaz, mas eu acredito que tenha sido mais somente esse momento que eu tenha sentido alguma coisa. Eu acho que eu já senti mais preconceito por causa da prótese, do que necessariamente por ser mulher.


P/1  – E como foram esses momentos, assim, que você sentiu preconceito por conta da prótese?


R – Eu acho que quando um homem é amputado, ele leva muito mais fácil do que uma mulher, porque o homem é muito visual e mulher não é visual. A gente não... até questão de relacionamentos, a gente não é tão visual. A gente vai mais pela essência da pessoa. Eu digo por mim, mas a gente vai mais pela essência da pessoa, do que necessariamente pela aparência. E essa questão da aparência imposta sobre a mulher talvez tenha pesado um pouquinho para mim, sabe? Então, você não poder usar uma saia, não poder usar um short, você sabe que vai chamar atenção, que as pessoas vão olhar. E para um homem não, um homem coloca uma bermuda, até em questão, o homem coloca uma bermuda, deixa a perna aparecendo e está tudo bem. Agora, para a mulher não, para a mulher é muito mais difícil, porque mexe demais com a aparência da gente. Eu não consigo sair com uma saia, sair com um short. Não que eu queira chamar atenção de outros homens, mas até por outras mulheres também, às vezes, reparam demais, a sociedade impõe uma coisa, um padrão em cima da mulher, que isso pesa muito para mim, como deficiente, porque é difícil, é difícil você seguir o padrão da sociedade, (risos) não tem como. Às vezes está um calor de rachar e eu não consigo sair com short, não consigo sair com uma saia e não é por mim, não é pelo meu esposo, eu saio, mas é mais pelo olhar das pessoas, pela curiosidade das pessoas, sabe? Isso, às vezes, acaba incomodando um pouquinho. Acaba incomodando esses padrões, assim, é difícil você seguir, sabe? É difícil você seguir e é engraçado, porque eu tenho uma luta diária, todos os dias, para manter minha autoestima elevada, para falar: “Não, eu sou bonita, eu sou, eu estou bem, eu sou bonita, eu estou bem, isso é só um detalhe”. Todos os dias a gente luta para poder manter isso, sabe? Às vezes, vem um olhar torto e acaba desmoronando tudo aquilo ali. Então, é difícil, assim, é difícil, principalmente para mulher PcD, para mulher amputada, eu acho que é muito mais difícil você se manter bem.


P/1  – E como é esse trabalho de manter sua autoestima sempre lá em cima, como é que você faz isso, o que você pensa?

R – Eu sou bem vaidosa. Eu gosto muito de me cuidar, eu tento cuidar ao máximo de mim. Meu esposo também me elogia ao máximo, fica me elogiando o tempo todo, eu acho que ele me ajuda muito nisso. Também tento acreditar nele, que é verdade o que ele está falando, sabe? Mas é você olhar no espelho e falar: “Não, você é bonita, você consegue, você está bem. E levanta a cabeça e vai”, sabe? É mais isso: pensar que não importa o que as pessoas vão falar, que as pessoas vão olhar, o importante é você está bem, que você tem quem ame você. Não é fácil, mas é isso que eu tento fazer.


P/1  – E quais foram as principais barreiras e dificuldades que você passou, enfrentou, na sua trajetória profissional?


R – Barreiras e dificuldades? Eu acho que foi mais no início mesmo, quando eu comecei a trabalhar, mais a adaptação no mercado de trabalho. E locomoção, a questão da locomoção para onde eu vou também é um pouquinho complicado, porque como eu... a minha prótese é... eu sou transtibial, a minha perna é amputada da canela para baixo, então, dependendo da roupa que eu estou, as pessoas não percebem que eu utilizo prótese, que eu sou PcD. Normalmente elas acham que eu estou com a perna machucada, que eu dou uma mancadinha. E o meu transporte daqui até ao meu serviço dá quarenta minutos, até o terminal, para você ter ideia, dali do terminal eu pego outro ônibus pra ir no meu serviço e às vezes eu vou em pé, vou quarenta minutos em pé e as pessoas não estão... eu não culpo as pessoas, porque não tem como elas saberem, mas já aconteceu, sim, situação de eu estar de muleta, ou de eu estar com uma saia e a perna aparecendo e as pessoas simplesmente fingir que não te viram, não se importar. Eu acho que a questão do mercado de trabalho é mais isso. E dentro do mercado eu só tive essa situação que eu comentei com você, de preconceito, que eu senti o preconceito mesmo e o resto eu acho que foi mais tranquilo.


P/1  – E como é conciliar as demandas da Rubi, de ser mãe e do trabalho? Como é essa tripla jornada?


R – É loucura, é muita loucura mesmo, porque é casa, é trabalho, é faculdade, é marido, é família, é muita loucura, muita loucura, mas eu dou conta, eu dou conta, sim. Até já ouvi, uma vez, uma prima minha falando que ela não sabe como que eu dou conta, porque às vezes as pessoas têm um olhar para a gente que não cabe, sabe? Eles acham que, por eu não ter uma perna, eu faço menos, ou que eu não dou conta, eles ficam surpresos. Mas é uma rotina de mãe, uma rotina de mãe, de mulher, de uma mulher que trabalha, mulher que trabalha e precisa dar conta. Não é fácil, tem horas que dá vontade de sair correndo, sai correndo não, porque eu não corro, por causa da prótese, (risos) mas dá vontade de sumir e fugir, sabe? Mas tem que dar conta. Não é fácil, mas tem que dar conta. Graças a Deus meu esposo me ajuda bastante, quando ele está em casa. Mas não é fácil, menina, não é fácil, meus filhos também não são muito fáceis, mas eu amo, eu amo essa loucura toda. Acho que, se não fosse assim, talvez não seria tão bom.


P/1  – Você já me contou um pouquinho, mas como é o seu dia a dia?


R – Atualmente eu tenho trabalhado mais em casa, home-office, por causa da pandemia. A empresa não quer que eu vá para lá, até porque eu dependo de transporte público, então quando eu preciso ir, eu vou de Uber até o escritório. Eu procuro ir uma ou duas vezes até o escritório, porque eu cuido das meninas da limpeza e conservação, então eu preciso estar lá, para poder entender o que está acontecendo. Em casa as minhas filhas não voltaram totalmente para a escola, elas ainda estão aqui. Então, (risos) é difícil trabalhar com elas, às vezes, ficam passando aqui atrás, ou você atende o telefone e começam a brigar. Em casa eu não consigo parar, né? Em casa você não tem uma hora de almoço, em casa você não consegue ter uma hora de almoço. Você para ali, você vai limpar uma coisa, fazer comida, vai atendê-las e vai ajudar a fazer lição, então tem sido bem corrido, assim, sabe? Bem corrido. É reunião, elas, tem sido bem difícil, principalmente agora, na pandemia. Quando estava indo para o escritório, tem a menina que cuida delas, então eu saía daqui muito cedo, porque eu levo mais ou menos uma hora e quarenta, uma hora cinquenta, até chegar no escritório, eu saía de casa dez pras seis, pra chegar no escritório umas sete e quarenta, por aí. Então, ficava, passava o dia inteiro fora. Eu chegava em casa oito horas, oito e pouco da noite, tinha que fazer janta, tinha que atender as meninas, tinha que fazer trabalho da faculdade, então às vezes eu ia dormir muito tarde, por conta disso. Mas a gente tem que dar conta, tem que dar conta do negócio. (risos) 


P/1  –E o que você gosta de fazer no seu horário de lazer, quando você não está trabalhando? Como é que é?


R – Atualmente, meu horário de almoço mesmo não tem como descansar, porque está corrido, né? Está corrido e no meu horário de almoço tem que atender as meninas. E à tarde, quando estou fora do meu expediente, foco um pouquinho mais na faculdade, eu vou ajudá-las a fazerem as atividades e, no final de semana, quando meu esposo está em casa, a gente sai, vai no parque, vai passear. A gente assiste filmes juntos, a gente tenta aproveitar ao máximo esses momentos que a gente tem juntos, até por conta do serviço dele, que ele viaja bastante, então a gente tenta aproveitar ao máximo esses momentos, sabe? 


P/1  – E agora, assim, nesses últimos dois anos, como é que foi a pandemia, para você? O que afetou na sua vida, como é que foi? 


R – Desde que começou a pandemia eu vim para casa, a gente fechou o escritório e vim para casa. A gente começou a ir poucas vezes para lá. Meu esposo não parou, continuou trabalhando. As minhas meninas pararam (risos) e não foram mais para a escola, ficaram em casa, foi loucura total, porque a gente não tem, eu não tenho tanta paciência, a professora está ali para poder ensinar, ela tem paciência pra ensinar, a gente não tem paciência. Mas ainda assim a gente tenta fazer, tenta ajudar. Eu tive covid, eu e minha mãe. Só eu e ela, a gente teve covid, mas foi, comparado com os casos críticos, nosso foi muito tranquilo. Foi uma gripe mesmo, tive um pouco de falta de ar, cansaço, a gente se recuperou super bem, eu não tive ninguém muito próximo que tenha chegado a falecer, tenha ficado em estado crítico, mas eu tive amigos, pais de amigos e vizinhos, que realmente teve pessoas que chegaram a falecer, que não aguentaram, pessoas novas. E o mais difícil tem sido explicar para as meninas que não dá para sair, que não dá para sair, que não dá para passear, que não é todo lugar que a gente consegue ir e que tem que ficar em casa. Isso tem sido o mais difícil, assim, sabe? Você tem que dar um jeito de distrair, de gastar a energia delas, não tem sido fácil.


P/1  – E voltando agora um pouquinho para sua trajetória profissional, se você fosse pensar, quais são os principais aprendizados que você tira?


R – Eu acredito que onde eu mais... eu aprendi lições em todos os lugares que eu passei, eu aprendi alguma coisa, mas onde mais foi onde eu estou agora. Eu aprendi que a oportunidade existe, que só basta a gente querer e ir atrás, que a gente consegue. E que não tem limites, não tem barreiras, quando você tem força de vontade, você é capaz de conquistar o que você quer. Até tem um diretor financeiro que eu lembro muito, o Henrique, que eu lembro uma frase que ele falou uma vez, que ele chegou onde ele chegou, porque ele aguentou, porque ele foi o que mais aguentou. Então, às vezes as coisas estão difíceis ali, mas sempre tem um jeito de melhorar, sempre vai melhorar, basta ter paciência e querer que as coisas melhorem. Eu acho que é isso que me motiva, sabe? Não desistir, tentar e fazer valer a pena, fazer valer a pena as oportunidades, os momentos, as pessoas também, porque passam, entram pessoas, saem pessoas e cada um você tem que saber tirar o melhor daquela pessoa, para guardar para si, sabe? E dar também, doar também, que, às vezes, a gente quer aprender tanto, mas a gente acaba ensinando também as pessoas que estão à nossa volta.


P/1  – E você comentou, quando eu te perguntei do acidente, que mudou sua vida e foi um momento, assim, de recomeço. O que significou, para você, esse momento?


R – Eu vejo como uma oportunidade, eu vejo essa mudança como não uma tragédia, mas como uma oportunidade de recomeço. De recomeçar, de fazer de novo, prestar atenção no que está no meu redor, nas pessoas que realmente se importam com você, nas pessoas que realmente vão estar ao seu lado, quando você precisar. Dar valor às oportunidades que você tem em volta, dar valor a cada momento, porque você não sabe até quando você vai estar aqui. Eu não sabia, quando minha avó faleceu, que aquele era o último dia que eu estava vendo a minha vó. Eu não sabia que aquele dia ia ser fatídico e que ia mudar a minha vida, eu não sabia. Então, tem que dar valor a cada segundo, a cada momento. Sempre entregar o melhor da gente. É isso que eu tento fazer: entregar sempre o melhor, sempre o melhor de mim para minhas filhas, meu esposo, meu trabalho, entregar sempre o melhor de mim, porque eu não sei quando vai ser o último dia. Então, eu acho que é isso que mudou: aproveitar os momentos, valorizar quem está perto, valorizar as histórias, não só a minha história, mas a história de todo mundo. E aprender com as pessoas, aprender com as pessoas.


P/1  – E quais são os seus sonhos, hoje?


R – Meu maior sonho atualmente é terminar a minha faculdade de Administração. É claro que eu tenho sonho de crescer dentro da empresa, né? Crescer dentro da empresa, assumir um cargo maior, mas também sei que, com cargos maiores, vem mais responsabilidades, então, preciso estar preparada para isso. Acho que não sei, pessoalmente, talvez terminar minha casa, que a gente está terminando a casa. Comprar um carro, que a gente tem que comprar, ver minhas filhas formadas. E estar aqui, estar aqui para elas, eu acho. Acho que o meu maior sonho ainda é estar aqui, para elas.


P/1  – E, para você, o que é importante hoje?


R – Importante eu acho que consideraria, para mim, atualmente, é a minha família. Acho que eles são a minha base, eu preciso de uma base para ser uma boa profissional, para ser uma boa amiga e eu acho que eles são a minha base. Então, acho que família, para mim, é muito importante, minha família, minha crença, eu acho que são as minhas bases.


P/1  – A gente está chegando no fim, tem só mais três perguntas, que são mais, assim, conclusivas, mas eu queria te perguntar se você queria acrescentar alguma história que eu não perguntei, ou deixar alguma mensagem, fica à vontade, nesse momento.


R – As pessoas me perguntam muito em relação ao perdão, porque eu vejo muito a pessoa que fez isso comigo, sabe? Que fez isso comigo, não, que acabou me dando tiro e acabei perdendo a perna. As pessoas me perguntam muito se eu perdoei, que não perdoariam. Mas eu acho que o perdão não faz bem só para a pessoa, ele faz bem para a gente também, sabe? Você não carregar aquele rancor, carregar aquela mágoa, faz principalmente bem para nós, do que para a pessoa que precisa receber. Não só a pessoa que acabou me acertando tiro, mas como outras pessoas também, que já passaram na minha vida. Eu acho que todo mundo faz coisa errada, todo mundo faz coisa errada, todo mundo magoa em algum momento e todo mundo é digno de perdão. Todo mundo é digno de perdão e todo mundo é digno de uma segunda chance. Eu tive uma segunda chance, eu acho que as pessoas também têm direito às segundas chances, sabe? Acho que todo mundo tem algo bom dentro de si ainda, para mostrar.


P/1  – Rubi, e o que você achou da proposta de mulheres que trabalham no mercado de transporte rodo porto ferroviário contarem a sua história, nesse projeto de memória, de histórias de vida?


R – Eu achei sensacional! Sensacional a oportunidade das mulheres poderem contar, das mulheres serem ouvidas, acho que cada vez mais a gente tem ganhado voz. Esse movimento cada vez mais tem dado oportunidade da gente se mostrar, da gente dar a cara e ir para frente e incentivar outras mulheres também, incentivar outras mulheres para que elas saibam que as histórias sempre têm algo parecido. Sempre tem alguém que pode inspirar algo, que talvez o que eu tenha contado aqui possa inspirar outra mulher, para que ela se enxergue, se reencontre, saiba que ela é capaz, que ela tem potencial, que pode vir o que for e que sempre tem uma saída, sempre tem uma saída. O ser humano é adaptável, né? A gente se adapta, a gente se adapta às situações. Eu acho que essa oportunidade de poder contar, poder falar, poder fazer com que as pessoas conheçam e saibam que sempre tem alguém que tem uma história parecida ou igual à sua é muito bacana, muito legal, eu acho que super incentiva as mulheres, super dá coragem para elas, para que elas se enxerguem, para que elas saibam que elas são mais, saibam que elas podem chegar onde elas queiram. Lugar de mulher é onde ela quer, né? Onde ela quiser estar é o lugar dela, é isso que eu acredito.


P/1  – E o que você achou de você ter dado a entrevista? Como foi, para você, esse momento?


R – Ai, eu achei o máximo, eu achei o máximo, espero que eu tenha contado tudo que eu tinha que contar. Eu acho que tem coisas que não tem como a gente contar, porque são coisas muito pessoais e não tem como falar, mas eu achei muito bom poder ter contado como foi que aconteceu, como que eu cheguei aqui, porque todo mundo tem uma história, todo mundo traz uma bagagem. Às vezes, é bacana, você acha que a sua bagagem não vai ajudar ninguém, mas, às vezes, ajuda. Às vezes, você ter tido força para ir, para continuar, incentiva outras pessoas. Então, eu falo que eu tive uma segunda chance e por algum motivo eu tive uma segunda chance. Talvez esse momento aqui tenha sido o motivo de eu ter tido essa segunda chance. Talvez essa história possa chegar em alguém que esteja precisando ouvir, sabe?


P/1  – Muito obrigada! Adorei, adorei de verdade!


R – Eu que agradeço!


P/1  – Meu pai também é PcD, é surdo, né? E também foi adquirido, então, me identifiquei em vários momentos com sua história. Nossa, é gratificante, assim, ouvir. Muito obrigada mesmo, eu acho que vai, com certeza, eu acho que, com certeza…


R – Espero que chegue em outras pessoas, eu espero que... ,às vezes, a gente... até eu costumo dizer, que a minha história não é ohhhhhhh, aquela história, mas, para alguém que esteja precisando ouvir, seja uma história bacana, sabe? Até eu comentei com a minha mãe, com meu esposo, eu falei: “Nossa, mas por que a Rumo me indicou? Tem tantas mulheres aqui dentro da companhia, até mulheres que estão há mais tempo do que eu, mas por que eu?” Porque às vezes a gente não acha nossa história uma história tão surpreendente. Para mim, sinceramente, é uma história comum, eu me vejo uma pessoa comum, eu me considero uma pessoa comum, não me considero uma pessoa melhor do que ninguém, mas, às vezes, alguém precisa ouvir, alguém precisa escutar, então, que bom, fico feliz. E é igual você comentou: teu pai adquiriu a deficiência, ele não nasceu com deficiência e, claro, todo mundo tem essa dor, todo mundo sabe onde dói, mas quando... é mais difícil de você se adaptar, quando você teve a sensação de ter e você não ter é um pouquinho mais difícil você se adaptar.


P/1  – Sim. 


 


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