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História

"Foi a base do que eu sou"

História de: Gabriel Passerini Pavan
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/06/2020

Sinopse

Gabriel conta sobre sua infância e da influência de estudar na Playpen em sua vida.

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História completa


P/1– Primeiro eu queria te agradecer por ter vindo aqui, em nome do Museu e em nome da Playpen. Para começar eu queria que você dissesse seu nome, o local e a data de nascimento.

 

R – Meu nome é Gabriel. Nasci [no] dia 29 de dezembro de 1986, aqui em São Paulo.

 

P/1 – E qual o nome de seus pais?

 

R – João Baptista Pavan e Eliane Passerini.

 

P/1 – E qual a atividade deles? O que eles fazem?

 

R – Minha mãe é empresária, tem cafeterias e meu pai tem uma empresa de tecnologia da informação. 

 

P/1 – Os dois são de São Paulo?

 

R – São de São Paulo, mas são separados.

 

P/1 – E os seus avós?

 

R - Eu tenho viva só a minha avó por parte de mãe e por parte de pai. Meus avôs já morreram.

 

P/1 – E o nome deles?

 

R – Osvaldo Pavan, o nome do meu avô do meu pai, e Luzia Pavan; e Antonio Passerini e Cesira Passerini, mais conhecida como Tita. 

 

P/1 – Você sabe a história deles? Eles são de São Paulo?

 

R – Eu tenho uma irmãzinha de três anos, também. Esqueci. 

Meus avôs são de São Paulo, nasceram aqui. Meu avô nasceu no Tatuapé, por parte de mãe; por parte de pai, minha avó nasceu bem no interiorzão, bem no interior. 

Meu pai nasceu em São Paulo e minha mãe também, mas são imigrantes italianos, todos.

 

P/1 – Você sabe a história da família, como eles vieram para o Brasil?

 

R – Ah, não sei. Nunca parei pra pesquisar.

 

P/1 – Você falou que tem uma irmãzinha. Fale um pouco dela.

 

R – A irmãzinha, só por parte de pai. Meu pai se casou de novo com a mãe dela, a Claudia, e tiveram a Adriene, que é minha irmãzinha. Uma fofurinha.

 

P/1 – Bom, agora vamos falar um pouquinho da sua infância. Queria que você falasse pra mim onde você morou na sua infância.

 

R – Eu sempre morei no mesmo lugar. Até hoje, eu moro na mesma casa. Na verdade, eu morava em apartamento, depois eu mudei pra casa, mas é no mesmo condomínio. 

Desde pequenininho eu ia pra Playpen, pegava um trânsito que até hoje eu pego! (risos) A gente entrava de manhãzinha. Eu já dormia vestido, tomava banho de noite, punha uniforme. Acordava e ia dormindo no carro até chegar lá. Era pequenininho. Até hoje, só que hoje eu faço ess caminho dirigindo e vestido pra ir trabalhar. 

 

P/1 – Conte um pouquinho pra gente como era o seu prédio, ou o bairro.

 

R – Meu pai morava em Curitiba com a minha mãe. A minha mãe ficou grávida lá e eles vieram morar aqui em São Paulo. Como eles trabalhavam ali na [Rodovia] Raposo [Tavares], no CAU, que era o prédio do Unibanco - ambos trabalhavam no Unibanco - eles compraram um apartamento neste prédio, que ficava dentro de um condomínio. Só tinha prédio e meia dúzia de casas. Daí meu pai… A gente morou [lá] e quando eu tinha uns dez anos meu pai, olhando pela janela do apartamento, viu uma casa e falou: “Ah, vou comprar aquela casa.” 

A gente só mudou do lado da rua e foi pra casa. E minha avó, que já estava mais velhinha, com problema no joelho [e] morava no Tatuapé, veio morar no apartamento onde a gente morava. 

No prédio tinha um monte de criançada. Brincava a tarde inteira. Voltava do colégio e brincava. Sempre morei em condomínio, então eu sempre andava de bicicleta, desde pequeno. Sempre ferrado, com o braço quebrado. Meu aniversário de um ano eu já fiz com o braço quebrado. E a última agora foi romper os ligamentos do ombro. [Tive de fazer] operação. Até agora estou em recuperação. 

 

P/1 – Conte um pouquinho do que vocês brincavam, quais as artes que vocês aprontavam. Você lembra de algumas histórias?

 

R – Ah, no colégio? 

 

P/1 – Não, no prédio.

 

R – Ah, no prédio a gente brincava desde pequeno, muito na piscina. Quando fazia sol, homens e mulheres ao mar. Ficava pulando de um lado pro outro. Polícia e ladrão, muito; a gente brincava de aventureiro. Você tinha que... Um ia escalando, subindo em árvore, e os outros iam tendo que fazer a mesma coisa até chegar no destino final, que ninguém nem sabia: a hora que cansasse ou alguém se machucasse. Brincadeira mais de moleque. 

A gente começou a crescer um pouquinho e brincava com arminha de bexiga, fazia guerrinha. Aí polícia e ladrão passou pro lado de fora do prédio e foi pra uma reserva ecológica que tem dentro do condomínio, então a gente brincava lá dentro. Andava de bicicleta, fazia trilha de bicicleta, quando era pequeno. Fazia bastante coisa no condomínio. Carrinho de rolimã - todo mundo, acho que já brincou - e patins. Mas patins eu caí, quebrei o braço e nunca mais andei. 

Antigamente, quando eu era mais novo, andava de moto lá dentro com os moleques,  a gente tinha umas motos. Era superlegal. Até hoje, todo mundo que mora lá ainda se conhece, se fala, apesar de cada um ter ido pra um ramo. Alguns se mudaram, mas a maioria ainda está lá. 

Condomínio foi isso. Empinava muita pipa. E bicicleta; acho que passei muito a minha infância andando de bicicleta. 

 

P/1 – Conte pra gente como eram as festas no condomínio, na sua casa. Quais a sua família comemorava mais? Os aniversários. 

 

R – Até meu pai separar da minha mãe a gente sempre ia, um monte de família unida, mas aí separou e ficamos morando eu e minha mãe. A família do meu pai, que é muito grande e que a gente sempre estava junto, não se encontrava muito. 

Eu sempre passei o réveillon na casa do meu tio em Itatiba. Com o meu pai nunca passei nem o réveillon, nem o Natal, passo sempre com a minha mãe. Réveillon não, Natal; Réveillon a gente passa com os amigos, desde mais moleque que a gente passa junto, todos os amigos do condomínio; um círculo de amizades que eu já apresentei uns do condomínio pro pessoal da Playpen. 

O pessoal que morava no condomínio… Tinha um amigo, Roberto, que era da nossa sala, que morava lá também. Era assim. 

Festa, a gente fazia bastante churrasquinho. E as festinhas [a gente] fazia no salão de festas do prédio, ou na casa de alguém que tinha uma garagem grande porque era tudo menor de idade: não podia sair, não podia dirigir, não podia entrar em nenhum lugar. A gente chamava o pessoal e fazia lá mesmo.

 

P/1 – Você faz aniversário entre o Natal e Ano Novo. Quando você era pequenininho você comemorava antes ou durante o Ano Novo?

 

R – Sempre comemorava um pouco antes, em dezembro, antes de acabar as aulas. No dia do aniversário estava viajando, sempre, mas tudo bem, já tinha comemorado. Até hoje faço isso. 

Tenho uma amiga que faz dia 28 de dezembro; eu faço dia 29, aí a gente junta. Tem um que faz dia dezesseis. Junta todo mundo e faz uma puta festa. Agora é mais legal, vem muita gente.

 

P/1 – E tem algum fato marcante desta sua primeira infância que você possa contar pra gente?

 

R – De quantos anos?

 

P/1 – Quando você era pequenininho.

 

R – Pequenininho?

 

P/1 – Quatro, cinco anos.

 

R – Nossa, já tô misturando quatro, cinco anos com quinze, dezesseis. Quatro, cinco anos... Ah, não lembro, eu era muito pequenininho. 

 

P/1 – Você falou que a sua avó foi morar no apartamento que vocês moravam. Como era a relação com a sua avó? Você ia sempre comer na casa dela?

 

R – Até hoje eu almoço lá. Saio daqui e vou almoçar lá, daqui a pouco.

 

P/1 – Agora eu queria conversar com você sobre a Playpen. Como a sua mãe conheceu a escola?

 

R – Antes da Playpen eu estudei um pouco no Ponto Ômega, que era numa rua paralela à [Alameda] Gabriel Monteiro da Silva, que dava na Marginal [Pinheiros]. Eu estudei muito pequenininho, no berçário, eu acho que era no Ponto Ômega. 

Quando eu comecei a andar, que eu era pequenininho, fui pra Playpen. Eu não sei como a minha mãe viu, mas saíram do Ponto Ômega, por exemplo, a Sofia também, o Danilo, então eu acho que foi o grupo de pais. O pai da Luna, que era o Ramon, o pai da Sofia, o Urbano, da Virgínia, eram amigos da minha mãe e do meu pai, então eles conversaram e colocaram todos os filhos na mesma escola. E foi assim que eu entrei na Playpen. Desde pequenininho. 

Como a escola era desde de manhã até de tarde, a maior parte das brincadeiras quando eu tinha [com] menos de doze anos era na escola, porque chegava em casa de tarde [e] dormia, não tinha fôlego pra brincar. E a mãe também, quando você é pequenininho: “Ah, vai dormir...” Quando fiquei maiorzinho a gente ficava na rua até um pouquinho mais.

 

P/1 – Você era bem pequeno, mas você lembra do começo na Playpen?

 

R – Eu lembro. Lembro quando eu era muito pequenininho porque meu cachorro tem quinze [anos], não era tão pequeno quando ganhei o cachorro. Eu lembro de uma árvore que desde pequenininho…. Tinha umas raízes estranhas. Desde que eu entrei que olhava a árvore assim… Até a sexta série, sétima série, eu via a árvore pequena e ela nunca saía do lugar. Depois que destruíram, então, tudo bem. 

Eu lembro do playground, que era um lugar que a gente se acabava. Era de terra vermelha. Eu chegava em casa toda a vez sujo, marrom. Eu tenho até hoje camiseta sem lavar, assinada. Todo fim de ano a gente assinava. Marrom, assim, pequenininha. Devia ter trazido, esqueci!

 

P/1 – E você lembra das brincadeiras no playground?

 

R – [No] playground a gente, quando era bem pequenininho, brincava com as tias. Depois você podia ir pro playground um pouquinho maior, que é o que tinha quadra, teleférico que descia. Depois a Guida cortou porque a gente se machucava, mas tinha o teleférico e era superlegal. 

Tinha uma árvore no meio do pátio, que existe, eu acho, até hoje, bem grandona. A gente subia na árvore e ficavam umas dez pessoas. E a quadra, né? Jogava bola, brincava de pique bandeira, bastante, com o professor lá na quadra. Deixa eu ver que brincadeira... Brincadeira de molecadinha.

 

P/1 – E como eram divididas as atividades da escola? Vocês tinham uma atividade, tinha lanche, almoço?

 

R – Você chegava de manhã, aí tinha aula, intervalinho, aula, almoço e depois tinha aula à tarde de novo. A gente ficava a maior parte do dia no colégio. Eu lembro [que] quando a gente era bem pequenininho tinha uma jabuticabeira no meio do pátio. Quando era época de jabuticaba vinha todo mundo, as salas, pegavam jabuticaba, distribuíam por salas. Era superlegal. 

Tinha a casa da Marinalva, que trabalha e mora lá até hoje. De manhãzinha a gente chegava e o galo estava cantando. Tinha galo dentro da casa dela, tinha cachorro. Era engraçado. Eu e o Caio, a gente entrava sempre na casa dela, sentava e tomava um lanchinho escondido, com bolachinha e leite, lá na mesinha. Era legal. O Caio sempre foi gordinho e a gente ia sempre lá comer. Eu sempre fui magro de ruim, porque sempre comi demais. 

Lembrança de quando a gente era pequeno era perder aparelho, jogar fora, e tinha que ficar revirando lixo lá do refeitório. Toda manhã eu usava aparelho móvel, o Caio, então a gente embrulhava no guardanapo e jogava tudo fora. As mães ficavam bravas. Minha mãe ficava. Era um aparelho por mês.  

 

P/1 – Como era a comida do refeitório, vocês gostavam? E o lanche, como era?

 

R – O lanchinho, quando a gente era menor… Sempre vinha a Marinalva, trazia a bandeja com bolacha, fruta, suco. A gente foi crescendo e mudou. Fizeram a aquisição da casa do balé, acho que era quinta ou sexta série, os últimos anos que fiquei lá. Ainda tinha o lanche, a Marinalva levava umas bolachas. 

A gente não podia levar lanche de casa. A gente levava uns lanchinhos com mais sustância pra comer, porque dava mais fome. Levava escondido. Daí tinha a sala dos colchões; a gente lembra que a gente levava e comia uns salgadinhos - não podia comer salgadinhos. Tinha lanche, almoço, comida saudável. A gente ia comer salgadinho! Não podia. 

 

P/1 – Você e o Caio?

 

R – É, a gente levava os salgadinhos escondidos. Era legal. Mas a comida, teve uma época que eu lembro que a gente entrava na cozinha e tinha uns azulejos azuis, todos trabalhados; era superlegal a cozinha, com uns armários de madeira, bem antigona, mesmo. Aí tinha a Conceição, que fazia a comida; ela era meio brava e a gente não gostava muito dela. Eu gostava de lasanha, quando tinha. Sempre pedia pra Marinalva, ficava rezando pra ter lasanha. 

 

P/1 – Tem alguma outra comida da Playpen que você lembra, da infância?

 

R - Purê de batata, que era uma... Nossa! Eu lembro exatamente a cena: eu sentado na mesa, peguei o purê de batata, virei e ele não caía de jeito nenhum. Aquele purê parecia uma massa. Ficava assim e não caía. E todo mundo: “Ah, o purê não cai!”

Eu comia muito arroz, feijão e banana amassada. Tudo amassado, junto. Eu fazia uma massaroca; era aquele prato de vidro, pirex, pra não quebrar. 

Eu comia, quando era pequenininho, arroz, feijão e banana amassada - quando não tinha macarrão, porque se tivesse, comia só macarrão. Massa, macarrão, macarraozão. 

E a gente fugia da sala. Mas não é hora de contar? 

 

P/1 – Não, pode contar. 

 

R – Quando a gente era pequeno a gente fugia da sala. Eu não sei até hoje se a professora descobria na hora, se isto era mais tarde, mas a Playpen tinha um jardinzão na frente com umas moitas, antes de construir a primeira fase do prédio, antes de comprar o prédio do balé. Eu lembro que a gente pulava a janela da sala; era térrea a escola, era bem pequena. A gente jogava a mochila e pulava pra fora: eu, Danilo, Caio A, Caio B, os pestes. E a gente saía correndo, se escondia atrás da moita e rezava pro porteiro não ver; passava pela secretaria e ia lá pro playground, ficava lá brincando. A Guida vinha andando e: “Gabriel, Caio, Danilo! Podem voltar pra sala.” A gente escondido dentro da lata de lixo, em cima das casinhas. A gente era uma peste; fugia da aula. Era sempre assim: fugia da aula. 

 

P/1 – Vocês fugiam pra brincar? 

 

R – Pra brincar. A gente não aguentava. Eu, até hoje… Até na faculdade, de vez em quando: “Ah, preciso sair da aula”, porque eu não aguento ficar muito tempo sentado. Naquela época já era assim: jogava a mochila pra fora e pum, pulava. 

Eu lembro que a gente tinha campeonatinho. Tinha uns livrinhos, que um período do dia era só inglês e a gente ficava copiando da lousa, do blackboard; quem terminasse de copiar antes os exercícios, a professora carimbava e você podia sair. A gente fazia uma competição, todo mundo, um olhando pro outro, pra acabar mais rápido e você podia sair. Lembrei disso agora!

 

P/1 – Como foi entrar numa escola numa escola bilíngue, começar a ter contato com o inglês? Você já tinha contato com a língua antes?

 

R – Não. Quando eu era bem pequenininho, no berçário, você nem fala nada. Quando eu comecei a falar foi na Playpen, então já foi legal. Comecei a falar inglês. Tinha aula de ciências em inglês, tinha aula de inglês, biologia. Algumas aulas eram em inglês e algumas em português. Foi bem legal, me ajudou muito, porque meu tio foi morar nos Estados Unidos e falou: “Bom, você quer ir morar lá?” Eu falei: “Eu quero.” “Porque você já sabe falar inglês.” 

Foi bom que eu entrei em uma escola bilíngue. Se eu não soubesse falar inglês como eu ia morar, estudar lá, de cara, na sexta, sétima série. Eu já sabia falar. Foi muito bom, tanto que eu quero que meu pai ponha a minha irmã no Playpen. Mas ele fala que é muito longe de casa, o trânsito, a logística fica difícil. Eu falei: “Tá bom”, mas futuramente eu acho que ele vai pôr. 

 

P/1 – E você se sentiu estranho no começo com o inglês? Você falava inglês em casa com seus pais? 

 

R – Pra gente era normal. Desde pequenininho a gente estudou no colégio, ficava a maior parte do dia no colégio. Todos os meus amigos eram mais do colégio, do condomínio tinha também, mas todo mundo estava no colégio; pra mim, eu cresci no meio. Nem sei, pra mim sempre foi normal ter metade do dia de inglês e a outra, não. 

Foi estranho quando eu tive só inglês, lá nos Estados Unidos. Fui estudar lá e eu fui bem. Eu entrei num colégio normal, eu lembro, e acompanhava a matéria deles. Só redação, literatura, que era muito mais puxado, mas deu pra acompanhar, tudo certinho. História, apesar da História aqui... Você aprende lá só a História dos Estados Unidos. Deu pra entender tudo, foi o que me propiciou uma experiência legal na minha vida, que foi morar lá fora. 

 

P/1 – E os professores mais marcantes da Playpen?

 

R – Ah, a Rosana, professora muito marcante. Foi a Rosana, o Rafael, que me deu aula lá, o Ricardo, de Educação Física, o Douglas Vieira, meu professor de… A Yasmim, professora de artes; hoje a mãe dela trabalha lá. Maria Laura, a Daniela... Se eu for falar, todos, porque era a nossa casa ali; era pouca gente, a gente cresceu lá. 

Era um familiona! Todo mundo foi muito importante ali, da portaria até... Porque a gente ficava ali esperando os pais chegarem. “Ah, Gabriel, seu pai chegou!” Meu pai, quando ia me buscar, ia sempre às cinco horas da tarde. Todo mundo saía às três e meia e eu ficava até às cinco horas, aí fazia judô. O meu pai era síndico do prédio, então todo dia de manhã eu chegava atrasado, porque [ele] parava pra conversar com o zelador, e eu: “Pai, pai, vou chegar atrasado.” Todo dia. Desde pequenininho, a gente sempre ia correndo pra escola e ele: “Vamos, vamos, entra no carro.” E chegava rapidinho, mas atrasado. 

 

P/1 – Como eram as aulas? Você lembra das atividades que você fazia nas aulas?

 

R – Aula do quê? Tinha muita atividade. [Nas] aulas de artes a gente brincava muito, fazia milhares de coisas com argila. [Na] aula de biologia tinha alguns experimentos que eram legais. [Na] aula de inglês tinha coisas práticas. Eu adorava esta parte. Não gostava muito de matemática, nunca gostei muito de matemática. Quando precisava estudar tinha que estudar e fazer a prova. Nunca gostei. Eu gostava mais de artes. Lembro mais de atividades de aula. 

 

P/1 – E as festas da escola? Conta sobre o halloween, a gente viu as fotos.

 

R – O halloween era superlegal. A gente aguardava o ano inteiro o halloween; se preparava lá na escola, encontrava todo mundo, entrava no ônibus, ia direto pro Shopping Iguatemi e ficava cantando lá: “Trick or treat, trick or treat, give us something sweet to eat. Give us candy, give us cake, give us something sweet to taste.” 

Era isso. A gente ia e ganhava. Voltava com um monte de balas. O pessoal das lojas dava. 

Eram superlegais as festas do colégio. Festa junina... 

 

P/1 – No halloween você lembra de alguma fantasia que você foi?

 

R – Eu fui de caveira uma vez - tem uma foto - usando uma máscara de caveira e uma roupa que era toda de caveira também. E a outra vez que eu lembro foi com uma capa de monstro, sei lá. Só lembro dessas duas, que é o que tem na foto, senão nem me lembrava. 

 

P/1 – E as lojas recebiam vocês bem?

 

R – Se não dessem balinha a gente: “Uuuuuuuu”. E como era muita gente, pô, eram quarenta crianças, a gente causava no Shopping Iguatemi. A gente ia nas lojas e se não davam balinhas a gente “uuuuuu”, “uuuuu”. E todo mundo que tava no shopping olhava para aquela loja. 

Tinha loja que você via que a pessoa saía correndo pra comprar um negócio nas lojas Americanas, pra dar um saco de pirulito pra gente. Era legal. Halloween era superlegal. 

E as viagens do Caio, do aniversário do Caio. Chegava perto de outubro, do aniversário dele, a gente já ficava na expectativa, esperando o convite. A gente ia pra Itu, num hotel, São Rafael; a Silvana fretava junto com o Rodrigo. O pai do Caio já é falecido, mas o Rodrigão levava a gente, fretava um ônibus, levava a gente pro São Rafael [pra] passar um fim de semana: sexta, sábado e domingo, e segunda voltava. Era demais!

 

P/1 – O que vocês faziam lá?

 

R – Ah, tinha os tios da Papa Eventos. Tinha todas as brincadeiras do hotel, só que com a nossa turma. Só que o pessoal do hotel, as poucas crianças que tinham, não se juntavam com a gente. E a gente dominava: tinha brincadeira na água, tinha brincadeira do chacal, que o tio se vestia de monstro e a gente tinha que procurar. Tomava vários sustos! E almoçava todo mundo junto. 

Na hora de dormir, ficavam quatro pessoas por quarto e o quarto era conjugado, então tinha guerra de travesseiro planejada. Era superlegal. Viagem demais.

 

P/2 – E os acampamentos?

 

R – Acampamentos... Deixa ver pra onde a gente foi com a Playpen. Quando eu era pequeno... Acho que não teve acampamento, não. Que eu me lembre. Eu não lembro de acampamento nenhum.

 

P/1 – Mas tinha alguns passeios que vocês faziam com a escola?

 

R – Ah, passeios tinha. A gente ia pra museus, ia visitar parques. De educação física - essa é legal, eu vou lembrando devagarinho – a gente ia no parque Burle Marx, aquele parque que tem do lado ali, entre a escola e o Hospital São Luiz – então a gente ia no parque fazer educação física, correr, depois de estarmos um pouquinho maiores. Instituto Butantã, a gente foi. No teatro, no Espaço Unibanco, lá na Rua Augusta. Eu lembro que a gente foi muito pequenininho na Augusta. A gente achava que era muito longe... Onde eu estou? No Espaço Unibanco. E hoje eu passo na Augusta de vez em quando para encontrar os amigos, tomar uma cerveja, ver um filme. E eu lembro, é que mudou um pouco o Espaço Unibanco, mas eu lembro da gente parando o ônibus lá e vendo filme. Eram muitos colégios juntos, então dava pra... Acho que ainda existe isso no Espaço Unibanco, com os colégios. 

 

P/1 – Você lembra das dormidas na escola?

 

R – Nossa, é verdade! Dormidas na escola. Era legal, fazia uns dez anos que eu não lembrava disso! 

Nós levávamos sleeping bag e dormíamos todos na sala só. Era superlegal. Eu lembro que a gente dormia e tinha umas vinte pessoas dentro da mesma sala, todo mundo com sleeping bag. E brincava de noite no colégio. 

Nunca que você vai pensar que vai dormir no seu colégio. Foi bem legal.

 

P/1 – Você lembra de alguma brincadeira que vocês faziam nas noites que dormiam na escola?

 

R – Ah, não lembro se eram desse dia. Verdade ou desafio, consequência, essas coisas. Não lembro muito bem.

 

P/1 – E as olimpíadas?

 

R – Eu não lembro direito das olimpíadas. Eu lembro mais das olimpíadas quando eu era mais velho, do Pueri Domus. As olimpíadas da Playpen? Não lembro. Vamos conversando que daqui a pouco eu lembro.

 

P/1 – Tá bom. Eu queria te perguntar: e o uniforme da escola, vocês gostavam de usar?

 

R – Ah, eu nunca tive problema com uniforme. Era uma calça vermelha. Eu adorava. Qualquer coisa que não fosse a sua roupa normal. “Ah, uniforme do colégio.” Minha mãe falava: “Com o uniforme você pode fazer o que quiser!” Ela punha joelheira de couro vermelha porque a calça era de um tecido sintético, eu não lembro, e com uma faixinha amarela do lado. E essa calça rasgava porque a gente ficava no ajoelhado na terra, jogava bola. Rasgava, então todas as minhas calças, a maioria, tinha uma joelheira. E era uma camisa branca com o símbolo do triângulo, a bola e o quadrado, mas bem simples. Depois que foi evoluir pra calça de moletom. Mas a blusa sempre foi branca, ou não? 

A época que eu mais gostei lá, que eu lembro, era aquela calça vermelha, com as joelheiras, que eu gostava e que eu podia cair na quadra de joelhos e não arrebentava a calça. E eu saía do colégio, de vez em quando ia pro Shopping Iguatemi com a minha mãe, esperava o meu pai pra jantar, cheio de terra do play[ground]

Pra mim não tinha tempo ruim, nunca teve. Acordava e já ia vestido pro colégio pra não atrasar. E lembro todo dia de manhã ouvia: “Vão bora, vão bora.” “Agora vou dormir um pouco” porque pra ir sempre foi trânsito. E até hoje é trânsito, e muito mais do que antigamente. Eu pensava que era muito trânsito, agora é muito mais. Eu tenho até dó. 

De vez em quando fica uma fila de carros na hora de pegar, ali pra fora, que todos os pais iam pegar os filhos. E era grande ali, era um pouquinho maior, eu acho que o espaço que tem hoje cabia mais carros estacionados. Tinha um bambuzal na frente. 

 

P/1 – Como era… O judô era no período da escola, era uma atividade extra?

 

R – Era depois da escola. 

 

P/1 – Como era a aula? Eram só os meninos que faziam? 

 

R – Não, eram meninos e tinha umas meninas também. As aulas, a gente adorava. A gente ia lutar de vez em quando. O Douglas levava a gente pra lutar em outros lugares, no Ibirapuera. Era superlegal. A gente adorava. 

A gente aprendeu muito com o Douglas, foi muito legal. Gostava muito do judô. Quando eu saí, parei de fazer judô e fui fazer natação. 

 

P/1 – E como era a cerimônia de mudança de faixa? Tem uma foto ali. 

 

R – Ah, era legal porque vinham os pais, tinha apresentação, a entrega da faixa. A gente começou [com a] branca, cinza, azul clara, azul escura, amarela. Eu parei na verde porque lutei mais um ano com a verde e não tinha idade pra passar pra roxa, então eu parei. Depois que saí da Playpen, parei de fazer judô. 

Ia meu pai, minha mãe. Lembro que eles ficavam todos orgulhosos com a faixa. Faixa nova, bem durinha! E todo mundo, os menores: “Ah, eu quero.” Legal.

 

P/1 – Você falou que seus pais se separaram. Eles se separaram enquanto você estava na Playpen? A escola te deu uma ajuda, um apoio?

 

R – Sempre deu apoio. O que você precisasse, tinha. A Guida estava sempre lá, a sala com a porta aberta, as professoras... Eu me sentia em casa. Nunca tive problemas.

 

P/1 – Como era a relação da escola com os pais? Tinha reunião?

 

R – Tinha reunião. Lembro, quando a gente era pequeno, que tinha reuniões. Tinha as mães. Foi aí que a mãe do Caio e a minha mãe se conheceram. Até hoje elas são amigas e sócias, faz dez anos. Foi nas reuniões de colégio. As reuniões eram importantes - pra gente, pelo menos. 

 

P/2 - Você lembra dos livros que vocês liam na escola? Vocês liam muita coisa?

 

R – Ah, tinha biblioteca, a gente lia bastante livros. Tinha bibliotequinha, no começo era pequena, aí quando mudou de prédio aumentou, foi aumentando. Tinha uns livros e a gente lia. De vez em quando sentava e lia bastante. Uns livros pequenininhos, em inglês, na maioria; a gente tinha para praticar. Tinha aula de música, teve uma época que teve aula de música. 

 

P/1 – Deixa eu te perguntar agora da Quinta Dimensão.

 

R – A Quinta Dimensão foi legal. Eles fizeram a Quinta Dimensão quando o prédio do balé se juntou. No térreo tinha a sala de vidro - a gente tinha aula na sala de vidro. Era superlegal; era uma sala um pouquinho maior que esta aqui, o dobro do tamanho. Tinham oito, dez, quinze, pouca gente. Tinha um jardinzão. Era superlegal, a gente adorava. 

Atrás da sala tinha a Quinta Dimensão. A biblioteca, a futura Quinta Dimensão. Eu lembro que a gente estava sentado tendo aula e chegaram os computadores, os IMacs, que na época... Nossa, é verdade! Antes já tinha uma salinha de computador, que era do lado da entrada da casa da Marinalva; tinha quatro Macs daqueles antigos, com mouse quadrado com botão, era uma telinha pequenininha. A gente já tinha aula de computação há muito tempo. E tinha quatro computadores; chegaram mais uns oito, daqueles novos, verdes. 

Eu sempre gostei de fazer estas coisas, então eu fiquei... Saía da aula e ia lá, ajudar a instalar os computadores da Quinta Dimensão, que permitiu uma outra... A gente cresceu noutro nível. Foi legal pra caramba. Era um espaço que a gente ficava muito, depois [da aula]. [Tinha] as cadeirinhas e todo mundo lá ficava mexendo no computador. Era tudo novo, não tinha um computador daquele em casa. A gente adorava. Fazia projetos no computador, imprimia. Era muito legal.

 

P/2 – E tinha um golfinho?

 

R – É, era um golfinho. E daí veio a Eva, que cuidou lá da Quinta Dimensão. Professores americanos, estrangeiros. Sempre teve, até hoje tem. 

 

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho. Você falou do Halloween; eu queria que você falasse da festa junina, da festa de final de ano, aniversário na escola. O que você lembrar.

 

R – A festa junina era no pátio, eu lembro. No pátio? Em todo colégio. Era superlegal. Lembro que no calor tinha dias que a gente podia tomar banhos de mangueira lá no play, também. Tinha o dia do brinquedo, que a gente levava bicicleta. Era superlegal, tinha de tudo. 

Jogava beisebol, de vez em quando. Jogava bolinha no vizinho, o vizinho não devolvia mais. 

Tem coisas que não to conseguindo lembrar. Festa junina, o que eu lembro era que todo mundo fazia... Halloween também, o colégio inteiro ficava decorado, tudo. E tinha as visitas da Tomie Ohtake, que a Tomie Ohtake foi lá na Bienal. Eu até fiz um quadro igual o dela. 

No outro ano teve um outro artista que já faleceu. A gente foi na casa dele, no estúdio. Foi super legal, a gente foi com a Pen. Até ia trazer essas fotos, mas eu não achei. 

 

P/2 – Como que era a preparação para a Bienal? O artista ia, vocês estudavam a obra dele?

 

R – Eu lembro que a gente dava uma estudada. A Tomie Ohtake foi lá. Eu fiz uma obra pra ela, entreguei pra ela. Não sei o que ela fez. Ficou legal. Eu fiz uma outra releitura, e eu era pequenininho. 

Eu também fazia fora da escola, quando eu estudava na Playpen ainda, curso de desenho e pintura, então eu sempre gostei muito de artes. Eu adorava fazer muitos quadros. Eu lembro que eu fiz uma escultura na aula de artes de um cara no toalete, perfeitinho. Até com o papel assim, enroladinho, caído. Na aula de artes. Adorava.

 

P/1 – E nessa casa antiga tinha um ateliê, uma sala específica de artes? Onde era?

 

R – Tinha uma época que era no fim do corredor... O que eu lembro era que era no fim do corredor, à direita. Podia ter umas fotos da escola, aí eu ia lembrar muito mais coisa. Da sala da diretoria…

Eu lembro que uma vez machuquei o braço porque o menino me passou uma rasteira, o Jonathan. Fiquei puto. Uma vez a gente foi suspenso, tomou advertência porque ficou rindo na aula de música, não lembro o motivo. Queria lembrar. E daí: “Quem foi? Por que vocês estavam rindo?”. “Não vamos contar.” “Vocês não vão contar, então vão tomar uma advertência.” 

Era um motivo que... Eu acho que até sei, não vou falar. 

 

P/1 – Fala!

 

R – Não posso. Era muito engraçado, não dava pra não rir. A gente riu demais este dia. E éramos todos pequenininhos.

 

P/1 – E como era a relação com esta sala? Vocês eram todos amigos? Vocês passaram vários anos juntos.

 

R – Era todo mundo muito amigo. Lembro uma vez que a gente foi viajar, eu fui junto com as meninas viajar, aí foi meu pai, o Urbano, o pai da Sofia. Até hoje a gente vai comer pizza, eu e o Urbano. Eu ligo pra ele: “Urbano, vamos comer uma pizza?” A gente vai comer uma pizzinha. É legal. 

O Caio é meu irmaozão até hoje. A gente se vê sempre e a mãe dele é sócia da minha também, não tem como fugir. E ele conhece alguns amigos, tem contato. Eu tenho contato com outros da Playpen, a gente junta todo mundo. 

Outro dia encontrei a Paula num restaurante. A amizade continua. A Lílian, que eu não vejo há mais de dez anos, vou olhar e vai ser do mesmo jeito que aconteceu com a Paula, com a Sofia. Quando a gente se encontrou: “Nossa, não acredito!” E sempre… Eu acho que as pessoas que estão mais próximas hoje são as mesmas que eram mais próximas, com exceção de uma ou outra. A maioria são as mesmas pessoas e as pessoas não mudam. Engraçado.

 

P/1 – Vocês tinham aula de teatro também?

 

R – Eu não fiz teatro, se teve. Ou não lembro. Devia ter aula de teatro, mas não lembro. Quando eu era pequeno era mais envergonhadão. Eu aprontava muito, mas era meio envergonhado. Agora, se tivesse uma aula, eu faria. Não é o caso, mas eu não lembro de fazer aula de teatro. Acho que fazia outra aula. 

Podia escolher. Fazia judô. Eu acho que teatro era depois.

 

P/1 – Você chegou a ir na viagem da Quinta Dimensão que um grupo foi pra Califórnia?

 

R – Não fui, por que eu não lembro. Eu acho que na Quinta Dimensão eu estava na sexta ou quinta série e já estava morando lá, só que em outro lugar, então não fui pra esta viagem.

 

P/1 – Como foi ir morar com seu tio? Como você decidiu?

 

R – Decidi porque... A gente estava lá no Tatuapé. Meu tio morava no Tatuapé e trabalhava na Brastemp. E a Brastemp, a ______, que é dona da empresa, o chamou pra trabalhar lá. Eu lembro que fui almoçar um domingo lá e ele falou: “Quer ir morar comigo?” “Quero.” “Daqui a um mês a gente vai.” Eu falava inglês mesmo...

Fui no Fórum, autorizou a minha ida, eu assinei, aí fui morar lá. 

Tinha o meu quarto. A gente morava numa casona! Em Dayton, Ohio. Eu ia pra escola de ônibus, que passava na rua. Ia de Yellow School Bus. 

Eu lembro que a minha prima ia no banco da frente e eu era mais velho, ia mais pra trás. Uma vez esqueci a minha prima no ônibus, porque o ônibus mudou o caminho e ela não viu que era a nossa casa. Ela sempre descia antes, correndo, e já entrava na garagem, então pra mim eu fiz igual a sempre. Olhei, não a vi e pensei: “Já entrou correndo.” 

Entrei e veio a minha tia: “Cadê a Débora?” “Não sei, deve estar escondida.” Procura, procura e: “Meu Deus, ela ficou no ônibus!” Aí a hora que a gente abriu a porta estava ela andando no gramado, porque o ônibus deu a volta e a deixou de novo. Chorando, pequenininha. E um puta gramadão. Lembro dela pequenininha. “Você não sai correndo antes e hoje esqueceu?”. Ainda bem, né? Imagina, Estados Unidos? 

Uma vez fui fazer um trabalho na biblioteca. Saí da escola, a gente foi fazer um trabalho na biblioteca municipal; saímos e fomos ao Mac. Tudo de bicicleta. Levei a minha bike daqui pra lá; eu gostava de andar de bike, então andava tudo de bike

A gente saiu do Mac e foi a uma loja de doces comprar umas bugigangas. Vieram uns caras querendo arranjar briga com a gente. E eu nos Estados Unidos! “Nossa, que vou fazer agora? Eu tô com a minha bicicleta. Mal conheço esses moleques. O que está acontecendo?”. Peguei e: “Vamos zarpar daqui!” “Quê?” “Vamos zarpar daqui!” Peguei e puxei um pela camiseta, aí o que era maior falou: “Vai, vai!” Consegui despistar. 

Cheguei em casa e o meu tio não estava em casa. Como as janelas eram blindadas, não ia conseguir entrar em casa e a minha casa tinha umas trinta janelas. Fui em todas tentando abrir, uma só que estava aberta. Entrei, liguei pro meu tio e falei: “Nossa, tio, acabei o trabalho antes. Já tô em casa.” 

A gente ia ficar a tarde inteira, daí saí um pouquinho antes, malandrinho, fui ao Mac e arranjei confusão… Pra casa. Nunca passei tanto medo na minha vida, eu acho: fora do Brasil, sem meu tio, sem celular, sem nada! Os caras correndo atrás de mim e eu de bicicleta. Este foi marcante. 

Cheguei no outro dia, o Jean estava com o olho roxo, no colégio. Até lá nos Estados Unidos chamavam a minha atenção: “Mister Pavan, be quiet!” Eu sempre ouvi isso, a minha vida inteira: “Gabriel, dá pra ficar quietinho?” “Oh, desculpe, professor.” Sempre foi assim. Até no Pueri Domus, a professora de Biologia falava: “Você quer dar uma volta?” “Posso, não posso?” Eu ia bem na matéria dela. Eu gostava de biologia, ia bem, só que não conseguia. Ela estava falando um negócio que eu já sabia, aí queria fazer alguma coisa, desenhar, criar alguma coisa. Aí eu olhava e a professora: “Vai”. Aí ficava no pátio, na boa, porque senão atrapalha a aula. Era muita energia, tinha que dissipar. 

 

P/1 – Quais as diferenças desta escola dos Estados Unidos para a Playpen? O ambiente era parecido?

 

R – É que a cultura americana é totalmente diferente. Eu não me adaptei muito bem. Gostava de morar, mas as pessoas são muito indiferentes, não querem nem saber. Não tinha muitos amigos igual tinha aqui, você tem um ou outro. As pessoas são mais desconfiadas. Onde eu morei era tudo muito bonito, muito lindo. Morava numa puta casa, num bairro legal. Pra mim era fantástico morar lá, mas por eu estar morando na calçada a pessoa te vê e atravessa a rua. Não quer nem saber. Não te conhece, vai cruzar com você pra quê? Esta foi a diferença. 

Você aprende o inglês aqui. Eu pratiquei lá, me dei muito bem, mas a diferença de cultura é grande. Na escola as professoras gostavam de mim, todo mundo, porque eu era muito aberto. Entrava na sala da diretora. Ninguém entra na sala da diretora lá. Você é chamado no colégio, toda sala tem altofalante: “Mister Gabriel!” Todo mundo: “Eh eh…”  “Qual o problema? Eu vou lá conversar. Fui lá na hora do almoço, queria conversar com ela e ela não estava”. Eu ia, conversava com professor, fiz a maior amizade. Mas aí voltei. 

 

P/1 – Você sentiu falta da Playpen neste período?

 

R – Ah, senti. Não tem como não sentir. Era muito nossa casa lá. Escola particular é igual aula particular. A gente conversa como a gente está conversando aqui. Não é uma coisa igual na faculdade, [que] é indiferente você estar na sala ou não. O professor não quer nem saber. Se você não estiver até melhor, gasta menos a voz dele. E a gente não, a gente tinha a nossa aula particular. Ficava todo mundo... Maria Laura cantava música: “Tem fé no teu sonho um dia” (canta) E aí toda a classe: “Um dia, um dia de chegar.”  Era legal. A gente cantava pra acalmar. “Vamos nos acalmar!”

 

P/1 – E como foi quando parou de ser só aula de inglês e entrou português também?

 

R – Foi normal, porque eu já falava português, então estava esperando a aula começar. “Uma hora vou ter que ter português.” E eu gostava mais das matérias em inglês, que eram as matérias mais legais. Gostava do inglês. Foi muito bom. porque eu entrei no colégio e vi que o inglês de colégio era pouco. Eu falava: “Eu aprendi isto quando estava na pré-escola”, então você vê que é muito fácil. 

A gente ia na aula de inglês… Quem estudou no Playpen - o Roberto também, que também estudou no Pueri Domus - a gente ficava no nível máximo, não tinha nem aula de inglês. A gente ficava só conversando na aula de inglês. Eu lembro que sempre arrumei, criei… Queria ter aula no retro[projetor] e a gente não queria, aí soltava um fiozinho e o retro não funcionava. Quer ver que eu vou ser o herói? E a professora: “Quer [que] eu arrume?” Era engraçado!

 

P/1 – Como foi quando você voltou? Você quis voltar por Playpen?

 

R – Mas aí já não tinha mais jeito, então fui direto pra outro colégio. Se tivesse colegial eu faria no Pen. Ia ser legal.

 

P/1 – E como foi no Pueri? Você sentiu muita diferença do Pueri pra Playpen?

 

R – Não muita, porque eu saí da Playpen [quando] era muito pequeno e fui estudar lá fora num colégio público - público não, era uma escola católica. Toda sexta de manhã tinha aula de religião lá, tinha que ir vestidinho com calça, cinto, camisa pólo.

Outra história: mudou da água pro vinho, aí do vinho pra cerveja. O colegial era outra coisa. No colegial eu já comecei... Já tem quarenta pessoas na sala; você dá uma escondida, o professor nem sabe que você está lá, aí você vê a diferença. Você fala: “Pô, me sentia em casa.” Mas eu consegui, da mesma forma que no Pen, chegar perto dos professores, da coordenadora e fazer a maior amizade. Ia à sala da Maria Odete, ela nem estava lá e eu sentava na mesa dela, fazia um desenho e enfiava embaixo do vidro. “Bom dia, Maria Odete!” Ela chegava na escola, abria a porta: “Bom dia, hein?” 

Eu sempre fui muito amigão de todo mundo pra poder ter umas regaliazinhas. Eu gostava muito de conversar. Eu não fico parado, então eu saía da sala e tinha um bedel ali, eu ficava amigo dele. Só que quem eu não gostava nem chegava perto. Tinha uma mulher lá, que eu lembro que o sapato dela dava pavor na gente: clec, clec, clec. Porque no Pueri Domus já era um prédio maiorzão, com um puta corredor, e a gente querendo sair da aula, aí você ouvia: clec, clec, clec, e o rádio; gruuu, gruuu. “Nossa, ferrou! Vamos sair correndo.” 

No Pueri Domus você levava uns ‘come de rabo’ também, mas era mais tranqüilo. Na Playpen a minha mãe ia conversar direto nas reuniões, porque a gente ficava fugindo da sala, não parava quieto. E no Pueri Domus eu fiquei amigo da diretora. Ela me adorava. A gente até fez uma turma e se encontrou num bar aqui em São Paulo, e eu liguei para a Maria Odete. Eu falei pras meninas: “Alguém tem o número dela?” Aí eu liguei: “Oh, Maria Odete, é o Gabriel Pavan, que está aqui te esperando.” Aí a pus pra falar com todo mundo da nossa turma, a tirei da cama! “Quem vai ligar pra ela dez e meia?” Eu: “Dá aqui que eu ligo”. Ela: “Nossa, não acredito que vocês estão ligando.” 

Eu sempre tive esta relação com os professores e eles adoravam. Pra mim era professor, mas tudo bem, pode ser meu amigo. E eu ia lá, conversava, sentava, ficava desenhando. “Vai pra sua sala, vai. Já passou o tempo. Eu já vi que você tá aqui, tá curtindo, desenhando, mas você precisa estudar um pouquinho.” “Ah, tá bom, vai.” Era assim, por isso que no Playpen a gente fugia. A gente queria era fugir. E o legal era fugir sem ninguém ver. 

Depois a Guida ia lá; eu olhava pra Guida e falava.... Pô, ela me pegava pequenininho no pátio porque eu estava fugindo da sala. E por acaso ela estava no batizado da minha irmã, quando a minha irmã foi batizada ali na igreja, na Avenida Brasil. Foi ali que ela ficou sabendo que eu tinha uma irmã. E depois de muitos anos eu a reencontrei.

 

P/1 – E no colegial, você já pensava no que queria fazer da vida? Tinha alguma ideia?

 

R – Quando eu era mais moleque eu queria ser inventor. Até hoje eu quero ser e vou ser. Vou ter a minha casa com meu galpão e fazer as minhas coisas. Eu gosto, eu faço em casa. Faço movelzinho. Precisa pôr som no meu carro? Eu faço as caixas.

Você vai crescendo e vai vendo que não vai ser o que você imagina, então fui cair na Engenharia, fui fazer Engenharia Mecânica. Nunca gostei de matemática e fui fazer Engenharia Mecânica iludido que eu ia mexer na mecânica, mexer no carro. Tudo bem, aquela teoria lá, mas depois eu ia poder construir meu carro. 

Sempre gostei, de pequeno… Ia lá na Marinalva e fuçava na cozinha, queria ajudar, fazer os brigadeiros. Eu sempre gostei de cozinha e falei: vou fazer Gastronomia. Aí fiz Gastronomia, Confeitaria e Panificação. Agora quero fazer um MBA, alguma coisa voltada pra gestão empresarial. Trabalhei já em corporação, tive esta experiência. Legal, mas não é o que eu quero pro resto da minha vida, trabalhar numa corporação. Quero colocar as minhas ideias em prática cem por cento, não com o dedinho de alguém, então tô trabalhando, já trabalhei em bastante coisa. Tudo que me aparece eu quero fazer pra aprender. mas agora vou ter que fazer uma pós pra aprender a parte financeira, administrativa. 

Capitalismo a gente precisa ganhar dinheiro de algum jeito. Precisa fazer o que gosta. Precisa ganhar dinheiro.

 

P/1 – Neste período de escolha do que você queria fazer, o que você mais gostava de fazer nas horas de lazer, de sair?

 

R – No Pueri Domus? O que eu mais gostava, o que eu mais gosto e queria fazer de profissão, além de criar as minhas coisinhas ali, um movelzinho, minha casa... O dia que eu puder ter minha casa eu vou criar do zero, projetar tudo. 

No Pueri Domus - acho que os dois, três anos que estudei lá - meu pai andava de kart e eu também, então o meu sonho é voltar a andar. Corro atrás de patrocínio, tô aprendendo a mexer com design, fotos, pra poder fazer umas fotos e um portfólio, montar uma apresentação pra conseguir um patrocínio de qualquer jeito, porque o “paitrocínio” acabou. 

Toda terça e sexta o mecânico passava no Pueri, me pegava e a gente ia treinar. Ficava a tarde inteira andando de kart, porque a minha paixão é carro. Isso me marcou muito a minha adolescência e queria muito ter continuado. Um dia vou voltar a andar de carro, vocês vão ver! Eu ainda tenho muitos sonhos, quero fazer muita coisa. Até hoje eu não sei.

 

P/1 – Esta paixão pelos carros vem desde pequeno, né? Porque eu vi que tinha um carrinho no seu bolo de aniversário.

 

R – Desde pequeno, desde muito pequeno. Com dez anos de idade eu já dirigia o fusca que eu tenho até hoje, que era do meu avô. [Com] dez anos de idade eu ficava pondo ele pra frente e pra trás da garagem. Depois que eu aprendi tiveram só… Atrás do cemitério, lá no Morumbi, [tinha] o Getsêmani, aí o meu avô me levava lá e eu ficava dirigindo o carro só na reta. Pequenininho, nem alcançava o carro de pé. Com onze anos, doze, já levava a minha avó na feira. 

[Sou] apaixonado por carro e tenho este carro até hoje, que é o meu fusquinha. Tá guardado lá. Meu avô morreu, dá aqui que eu vou reformá-lo, então ele tá zero bala. Guardadinho. E carro é a paixão, então se eu puder largar tudo, correr de carro e me manter, eu faço isso. 

Pra mim é o ápice da felicidade, ser piloto. Mas é difícil, precisa cair na graça de alguém com muito dinheiro pra te dar patrocínio. Precisa procurar. Não pode desistir, né? É um desafio. Isso que é o bom. 

Eu acho que parti pra este lado de não querer trabalhar mais em corporação porque tem seus desafios, mas você criar um projeto, um restaurante, por exemplo, do zero, e por pra funcionar e ver que funciona, ninguém paga isso. Superar um desafio ou um objetivo que você propôs pra você mesmo. “Eu vou abrir um restaurante.” 

No ano que vem quero ter um negócio meu, mesmo. Acredito que não tenho muita experiência pra ter, mas já trabalhei. Desde os dezesseis anos, no Pueri, eu já fazia uns eventinhos. Aparecia um pessoal mais velho: “Vai ter um evento aí de café, você quer fazer?” Aprendi, virei barista, já dei curso de barista. 

Desde pequeno já vou trabalhando pra ganhar experiência. Eu já trabalhei em restaurante, em cafeteria, em multinacional. Eu aprendi bastante e já sei mais ou menos o que quero para o ano que vem. Se der certo, uau, vou ficar bem feliz, porque se der certo um, vai dar certo outro. Tem que ganhar dinheiro, gosto de dinheiro, quem não gosta, né? Não adianta. 

Eu até quero ter um filho, ter uma vida legal, mas acho que se eu não ganhar muito dinheiro não vou nem ter filho, porque tudo custa muito caro. Eu não vou querer pôr em qualquer escola, quero pôr na Playpen; daqui a dez anos, quanto você acha que vai estar uma escola? Eu acho que pra dar o bom, do melhor, igual o meu pai fez comigo, preciso ganhar dinheiro. 

Foi bom, como tudo que me aparece. Fui pra Mogi agora, o pai do meu amigo vai começar a fabricar barcos. Eu já falei: “Se precisar de uma ajuda, me chame.” Eu quero aprender como faz barco, tenho que aprender. 

Agora, na cozinha, vou trabalhar na cozinha: o confeiteiro faltou, já sei. Dá a receita que eu sei todas as técnicas. Sou formado em Confeitaria e Panificação. Fui outro dia na Daslu visitar os meus amigos que trabalham no restaurante e no final da noite estava eu trabalhando lá na cozinha. 

Eu adoro! São estes desafios, então é aprender. Vai aprendendo um pouquinho com cada um, junta tudo e tomara que dê certo.

 

P/2 – Você falou que gosta de dinheiro. O que você fez com o seu primeiro salário?

 

R – Gastei tudo. Torrei. Nem lembro. Meu primeiro dinheiro acho que ganhei em evento. Foram cinquenta reais que ganhei da Isabela, pra fazer evento de café. E foi assim. Quando comecei a ganhar o meu primeiro centavo e estava trabalhando falei: “Que delícia!” Eu odeio pedir dinheiro pra minha mãe, nunca gostei. Eu acho que: ergh! Mas de vez em quando, agora, por exemplo, que eu tô trabalhando na empresa, extrapolei, gastei um pouco a mais. Tive que pedir um empréstimo. Mas é um empréstimo, depois eu pago. Coisa de moleque, não pode acontecer. Foi um deslize. 

 

P/1 – Onde você trabalha?

 

R – Trabalho na nossa empresa. Tô dando uma ajuda. O Caio não quer trabalhar com a mãe. Eu falei: “Eu vou.” E vi que é bem difícil. Eu quero agora, em vez de trabalhar pra fora, ter o meu, mas aí tem o dedo do meu pai, que [dá] ajuda financeira. Graças a Deus que ele vai poder dar uma ajuda. 

Com a minha mãe estou ajudando, porque a gente abriu um café no aeroporto de Congonhas. A gente tinha em Guarulhos, abriu em Congonhas. Agora, no fim do ano, tem muito movimento e vou dar uma ajuda. É hora de ganhar dinheiro e fazer a empresa crescer.

 

P/1 – Você acha que esta sua coisa de querer fazer várias coisas, ser bem prático, tem a ver com um pouco do que a Playpen deu, do que você aprendeu na Playpen?

 

R – Eu acho que desde pequeno as pessoas se conhecem, tem muitos amigos. Quando você é pequeno não percebe, mas depois que cresce você vê que a sua formação ali, quando foi muito pequeno, foi essencial pra você saber o que é certo e o que não é. Pelo menos no meu ponto de vista foram essenciais as aulas, as lições que, por exemplo, a Maria Laura passava pra gente, o Douglas Vieira, no esporte. A disciplina, o respeito com as pessoas. Você era muito bem guiado na Playpen, o jeito de enxergar as coisas... Eu sempre gostei muito de conversar, de coisas novas, mexer, de enxergar as coisas de formas diferentes e lá era legal, porque você podia chegar pra professora, falar uma coisa diferente do que a outra pessoa tá pensando e ela te dar atenção e falar: “É verdade, você está olhando de outro ponto de vista.”

Eu fiquei muito feliz de meu pai ter me colocado no Playpen pra estudar desde pequeno, porque as amizades que eu fiz lá eu tenho até hoje. Amizade ruim acaba rápido. A amizade do Caio, eu conheço o cara [desde que] eu não sabia nem falar, então foi essencial, a Pen foi essencial na vida. Por isso que eu quero que a minha irmã estude lá também, pra não crescer no meio de um monte de trouxa. Porque quando você é pequeno é a sua formação. Eu fiquei muito feliz de ter feito na Playpen.

 

P/1 – E como foi o seu período de faculdade?

 

R – Faculdade? Na FEI eu entrei e fiquei seis meses, pouco tempo, porque não aguentei. Fui estudar na Anhembi-Morumbi, fiz Confeitaria e Panificação, sempre trabalhando. Sempre. Até a minha avó falava: “Pô, ganhou um carro!” Ganhei um carro, tenho muita sorte. Minha avó me deu o carro e eu não parava mais em casa porque não consigo ficar quieto. Saía às sete horas da manhã pra ir trabalhar; trabalhava o dia inteiro, saía às quatro horas - isso com dezoito anos - ia pra faculdade lá na casa do cão, em São Bernardo. Fiquei seis meses indo pra São Bernardo. E daí vim fazer Gastronomia, pegava a Avenida Radial Leste todo dia, chegava em casa à meia-noite, porque a faculdade acabava às onze e meia. Gastronomia, tem que limpar cozinha. Não é igual fechou o livro, põe na mala e vai embora. Até hoje, se você vai trabalhar em restaurante. 

Eu quero ter um restaurante, só que de segunda a sexta, almoço executivo, que é uma coisa menos cansativa e você está mais focado no que você quer fazer. Porque restaurante dá muito lucro se souber administrar, só que eu não quero também entrar [às] nove da manhã e sair [às] três da manhã todos os dias, igual a gente faz quando trabalha pra alguém num restaurante, então quero tentar. Se não tentar ser empreendedor nunca vai ser. 

[Na] Cacau Show, o cara aceitou uma encomenda e hoje tem um império de chocolate. Tudo começa assim, alguém vai arriscando. Eu acho que a Pen falou: “Você tem uma... Sabe, cresce e usa a sua cabeça. Você sempre pode usar a sua cabeça e você viu que dá certo. Os projetos? Faz do jeito que você quer. Quer criar um negócio, cria aí. Quer ajudar a montar sala? Ajuda, dá opinião.” Sempre deixou a gente fazer, quer dizer, trabalhou sempre doutrinando a gente num certo ponto, mas liberando, sabe: “Cria aí, faz o que vocês quiserem.” Acho que foi essencial. 

 

P/1 – Você acompanhou a reforma da escola de fora, porque você já não estava mais. Como foi pra você? Você viu a escola sendo demolida, chegou a passar na frente?

 

R – Como eu já trabalhava, não tinha como. Quando você começa a trabalhar... Eu adoro, se eu fico no escritório da nossa empresa eu fico meio afobado, tenho que sair. Vou até o aeroporto, levo mercadoria, faço alguma coisa. Eu sempre gostei de trabalhar: com dezoito anos trabalhava no Havana, no Empório Santa Luzia, fazendo café desde manhã até de tarde, daí ia pra faculdade. Não tinha tempo. Trabalhava sábado e domingo também. 

Não tive muito tempo de visitar a reforma. Eu visitei uma vez, quando estava reformando esta daqui eu fui a uma casa, naquela casa pequenininha que eles ficaram por um tempo enquanto a obra estava com problemas, mas foi isso. Eu só visitei depois de pronto, porque eu passei lá e estava vazia. Eu falei: “Eu vou passar, não tem ninguém. Vou subir lá pra conhecer.” Só que não tinha nada. Eu só lembro de subir a rampa, dar uma olhadinha: “Nossa, mudou muito. Agora virou um colégio mais moderno.” É estranho, mas tudo bem. 

 

P/1 – Foi legal pra você ir ao dia do workshop?

 

R – Foi. Na hora que eu entrei e vi a Guida, os professores, a Marinalva que ainda tá lá, foi muito legal. Eu pensei que ia ser só eu. Um monte de gente, as pessoas olhando pra você: “Gabriel, como cresceu!” 

 

P/1 – Eu queria que você fizesse uma comparação geral da Pen com as outras escolas que você estudou.

 

R – Ah, não tem. A Pen foi minha casa. Ponto. As outras escolas foram as outras escolas lá, que você tinha que ir. Tinha a chamada lá, “Gabriel”. Pen tinha chamadinha. Eu olhava assim... Eu me sentia muito em casa. Esta é a palavra da Pen, me sentia à vontade no colégio. [No] Pueri Domus você tem que ficar mais na sua; é muita gente, você não tem a liberdade que tinha antes. 

 

P/1 – Como você avalia o impacto do seu tempo na Pen na sua vida pessoal, na sua vida profissional?

 

R – Pra mim foi essencial. Foi a base que eu sou, basicamente. Do jeito que eu penso de conseguir ser criativo, pensar do jeito que penso, ter minha opinião. Foi tudo criado quando eu era pequeno na Pen, foi essencial na minha vida, porque depois você vê que as coisas não mudaram muito o seu modo de pensar. Depois que você já se formou, até a sexta série, que eu estudei lá, sétima, sexta… Na sexta eu já lembro muito mais coisas, então não mudou. Eu já comecei, de lá eu já tinha um caminho que eu já tinha aprendido na Pen. Foi o essencial.

 

P/1 – E quais que foram os maiores aprendizados de vida que você teve estudando na Pen?

 

R – Ah, deixa eu ver. O maior aprendizado? Não tem um. É um aprendizado. Não sei explicar. O maior aprendizado foi o aprendizado que tive lá. Pronto. (risos) 

 

P/1 – E pra gente encerrar eu queria te perguntar o que você acha da Pen comemorar estes trinta anos por meio de um projeto de memória que envolve todas as pessoas que participaram?

 

R – Eu acho sensacional, porque se eu tivesse um filho agora ele já estava estudando na Pen. Não por causa dos trinta anos. Ainda mais depois de agora, que você vê que o conceito é o mesmo. A Guida não quer aumentar. Eu até entendo porque ela não quer aumentar, ter colegial. Eu também acho que se aumentar vai mudar muito. Eu acho que a formação essencial da criança, do adolescente, é até a oitava série, que você já começa a ter sua opinião. Depois você muda. E os aspectos são muito comuns em qualquer lugar. Eu acho que tem que ser até oitava série, senão vai mudar. E eu, se eu tiver um filho, vai estudar lá. 

 

P/1 – E o que você achou de ter participado desta entrevista?

 

R – Eu fiquei... Gostei! (risos) É legal. Gostei mesmo, foi foi muito bom porque eu sempre gostei muito e acho que foi muito importante na minha vida, a Pen. Ter sido chamado foi legal porque pra mim é muito importante a Pen, foi bom ter ajudado um pouco vocês.

 

P/1 – Então de novo eu gostaria de te agradecer em nome do Museu e da Pen. Super obrigada, Gabriel!



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