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História de: Afonso Celso Montesanti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/09/2017

Sinopse

Nascido em 1964, Afonso Celso Montesanti guarda boas lembranças de sua infância, inclusive das ladeiras que até hoje marcam o bairro de Perdizes, em São Paulo, onde cresceu. Por aquelas subidas e descidas, ele conta já ter passeado todo feliz a bordo de uma inesquecível bicicleta de dez marchas que ganhou da avó quando tinha 12 anos. Foi também na juventude que, estimulado pela família, Afonso revela ter se empenhado nos estudos para seguir a carreira de economista; mais tarde, já formado, ele traçou uma trajetória de sucesso na área, chegando a ser vice-presidente financeiro da Colgate. Por meio dessa multinacional, Afonso teve a chance de viver, com a mulher e os dois filhos, na Argentina e na África do Sul. São marcantes as histórias que ele conta dessas duas enriquecedoras temporadas e também de seu recente retorno ao Brasil.

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História completa

 

Eu me chamo Afonso Celso Montesanti, nasci em São Paulo, em 16 de dezembro de 1964. Nós morávamos num bairro onde eu tinha vários amigos e em que a atividade principal era ou jogar futebol no próprio colégio em que a gente estudava ou andar de bicicleta ou brincar no edifício com diversas atividades, que podiam ser jogos de War ou Banco Imobiliário, que são coisas que me remetem à infância. Eu era feliz da forma como a gente vivia à época e dentro das condições que existiam, em termos de atividades, e que são muito distintas das atividades do dia de hoje.

 

Eu sempre sorrio pra vida, principalmente pelos encantos da vida. A gente sabe que a vida, ela não é fácil na sua essência, na medida em que o mundo se converteu num ambiente muito complexo, mas, para quem tem oportunidade de fazer bom uso da vida e ser agraciado com momentos de felicidade, realmente você pode sorrir. Entre vários deles, eu lembro, por exemplo, um, quando eu tinha 12 anos. Talvez vocês até se lembrem quando a Caloi lançou a Caloi Dez aqui no Brasil. Caloi Dez era uma bicicleta que tinha dez marchas, porque até então não existiam marchas. E eu ganhei da minha avó. Eu fui o primeiro menino no prédio a ganhar a Caloi Dez. Então, é a mesma sensação de você ganhar um carro, de quando você chega com o seu carro. Na hora que eu cheguei com aquela Caloi Dez lá, os meus amigos olharam, aquela cara de espanto (risos) e todo mundo querendo andar na Caloi Dez, e eu falei: “Não, não, ninguém pode tocar na bicicleta.” Eu lembro que a gente andava muito de bicicleta em Perdizes, e Perdizes, pra quem não conhece, é um morro, tem muitas ladeiras e subidas. E, com a Caloi Dez, em função das marchas, eu subia aquelas ladeiras e os meus amigos ficavam assim: “Espere, por favor!” (risos) Era uma sensação que eu jamais esqueci, daquele dia em que chegou a minha Caloi Dez.

 

Eu nasci em 64, quer dizer, ali no berço do AI-5, na ditadura militar. Eu lembro, já nos idos de 75 a 80, que eu perguntava: “Mas por que as coisas têm que ser dessa forma?”, e se falava abertamente de política em casa, no bom sentido, de entender o momento. A partir dos anos 80, eu já tinha uma leitura, vamos dizer, ácida e diária sobre temas políticos, até para poder entender o contexto do Brasil. Em 80, eu já fazia o colegial técnico, fui fazer Contabilidade, no Mackenzie era técnico, eu optei por Contabilidade e, entre as muitas disciplinas, dentro do curso técnico, tinha Economia. Sempre foi a parte mais agradável das leituras ler sobre política e ler sobre economia, e tentar ver como o político e o econômico conseguem conviver.

 

Desde pequeno, como eu te falei, eu sempre tive, vamos dizer, essa formiguinha dentro de mim dizendo: “Você tem que olhar ao longe, você tem que pensar no amanhã, você tem que pensar no amanhã.” Então, eu sempre vislumbrava o que eu queria fazer anos à frente. Quando eu comecei a carreira de Economia, a universidade, eu já trabalhava, mas eu sabia que eu tinha que fazer a universidade, concluir a universidade e entrar num programa de trainee numa grande multinacional. Bingo! Aconteceu, eu me formei, entrei numa empresa sueca, fabricante de rolamentos, que é a SKF, e, logo que eu me formei, entrei num programa de trainee, onde, dentro da empresa, eu fui muito bem treinado, né? E lá fiquei oito anos trabalhando. Foi quando a Colgate me chamou, e aí eu estudei um pouco a Colgate, eu falei: “Não, essa empresa, ela é uma empresa que investe nas pessoas.” E, realmente, quando eu comecei a trabalhar aqui, eu já comecei a vislumbrar também quais seriam os meus próximos passos.

 

Uma vez treinado, eu cheguei à posição de assistant controller, quer dizer, eu estava a um passo de ser diretor, quando aí eles me expatriaram como diretor lá para o Cone Sul, que era Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai. Eu fui montar esse hub da Colgate, fazendo a união dos quatro países e morando na Argentina. Foi a primeira expatriação, e com filhos, né? Então, foi realmente um choque cultural pra família, que havia concordado e que falou: “E agora, como é que é?” E doeu mesmo no começo, eu sempre sabia que crescer ia doer, eles cresceram com essa dor, mas dentro de um ambiente que permitiu que também eles crescessem como pessoas. Se você escuta hoje a minha filha falando espanhol, parece uma argentina, é uma portenha. Meu filho é outro. Então, eles falam três línguas fluentes, sem nenhum tipo de sotaque, entre o inglês, o espanhol e o português eles mudam como se fossem native speakers, como língua materna.

 

De lá, eu fui pra África do Sul. E foram dois anos bárbaros, a qualidade de vida lá é excepcional, nível de segurança melhor do que São Paulo, eu diria, apesar das histórias de que se fala, do problema que existiu do apartheid, que não existe mais. Mas é um país maravilhoso sob o ponto de vista cultural, onde existe muito respeito entre as pessoas. O Mandela fez um trabalho excepcional lá, no sentido de apaziguar tensões e apaziguar desentendimentos do passado, para que as pessoas, a partir de determinado momento, vivessem em harmonia.

 

E existe um feriado, feriado não, um dia especial que é comemorado lá na África do Sul, que é o Dia da Raça, quando se comemoram todas as raças – é que existem muitas etnias também dentro da África do Sul. Foi engraçado porque, nesse Dia da Raça, a minha secretária – que, inclusive, a cada dia vinha com uma peruca de uma cor, o que é muito comum na África do Sul, as mulheres usam perucas de cabelos lisos e às vezes coloridos –, no dia anterior, falou: “Olha, você tem que vir vestido simbolizando mais ou menos a sua raça, a sua cultura.” Eu falei: “Bom, eu, brasileiro, o que eu vou fazer? Ah, vou pôr a camisa do Brasil, né?” E pus a camisa do Brasil. Na hora em que eu chego no escritório, as pessoas estão vestidas a caráter, as mulheres e os homens, com aquelas vestimentas de tribos, com chapéu, com vestido todo colorido. Eu me senti um peixe fora d’água (risos) com aquela camiseta do Brasil, e me olhavam e falavam: “Mas é esse o seu conceito de raça?” Porque, pra eles, o Dia da Raça era exteriorizar de uma forma bastante forte, sob o ponto de vista de vestimenta, sob o ponto de vista de atitude, de gestos. Foi interessante esse choque que eu tive de cultura nesse Dia da Raça.

 

Eu fiquei dois anos lá, deveria ter ficado mais, mas, em 2014, por conta dos eventos políticos e econômicos aqui no Brasil e da companhia; eles pensaram que eu talvez estivesse mais preparado diante do momento político e econômico para estar aqui do que talvez um outro expatriado. E aí tive a grata felicidade de poder voltar por algum tempo aqui ao Brasil, como expatriado, não sei até quando eu fico ainda, mas, enquanto eles necessitarem, eu vou estar aqui. E aí vim pra cá, estou há três anos já. Eu cheguei em 2014, eu lembro até hoje, no jogo do Chile com o Brasil, na Copa do Mundo (risos). Saí do avião, e o jogo estava acontecendo. Ainda bem que não foi no da Alemanha.

 

Eu sou vice-presidente financeiro da Colgate Brasil. Chegar onde eu cheguei exigiu muito sacrifício da minha parte. É como eu sempre falo para as pessoas: as pessoas às vezes só veem as pingas que a gente toma, não veem os tombos que a gente leva, né? O que eu sempre disse para as pessoas é o seguinte: “Você tem que fazer algum tipo de sacrifício pra você conseguir alguma coisa”, na medida em que você ou não nasceu em berço de ouro ou não ganhou na loteria. Então, qual é esse sacrifício? O sacrifício é estudar e trabalhar muito. E eu tive a satisfação de ver que não foi em vão um pouco do sacrifício que eu fiz pra poder estar naquele momento, já que o cavalo selado não passa duas vezes, quer dizer, você pega aquele lá ou não vai.

 

Meu sonho hoje é poder ver os meus filhos se desenvolverem como eu me desenvolvi e sem os percalços que eu tive que passar. Isso me faz sorrir, vendo que eles podem aproveitar e se desenvolver até de uma forma um pouco mais ampla, sabendo que muitas das dificuldades que eu tive eles não vão ter que ter. Então, isso me faz sorrir, porque eu vejo que não foi vão o meu sacrifício em função daquilo que eu vislumbrava pra mim, isso me faz sorrir bastante. O que me faria muito feliz é ver que o mundo tem mais oportunidade, e, se eu puder colaborar com oportunidades pra outros que estão ao meu redor, eu sempre vou colaborar. Mas eu acho que isso me faria sorrir ainda mais, sabendo que a gente caminha pra um mundo um pouco melhor.

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