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História

Flávio Guedes: Bauru pelas lentes fotográficas

História de: Flávio Soares Guedes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/03/2021

Sinopse

Flavio Guedes vem de uma família que está na quinta geração de fotógrafos, desde os irmãos Giaxa. Contou um pouco da loja do seu pai. Loja de Fotografia. As invenções que realizou: baterias secas e máquina de slides para diminuir o tempo de espera da revelação. Qualidades das lentes das máquinas fotográficas. Batista de Carvalho como centro de Bauru. A explosão da avenida Nações Unidas. Fases da fotografia, da foto preto e branco/colorida. Marcas famosas como a Kodak e Fujifilm. Fotos aéreas e álbuns de casamento. Pai trabalhou com a perícia fazendo fotos policiais. As filmagens eram feitas em rolos de 8mm com três minutos disponíveis. A ascenção da fotografia digital e declínio das revelações em filme. Redes sociais. Vitrine como point de eventos, casamentos onde as pessoas se reuniam para saber das novidades em Bauru. Apelido do pai. 

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História completa

          Sou Flávio Soares Guedes. Nasci em Bauru, no dia 28 de março de 1958. Meu pai: Ivan Pereira Guedes. Minha mãe: Maria de Lourdes Soares Guedes. O meu pai também é fotógrafo, e minha mãe trabalhava na agência do Correio. Mas o meu pai já veio com uma tradição, porque eu sou o quarto, quinto fotógrafo da família. O primeiro foi o Tio Carlos, que veio de Mairinque; ele e o irmão se estabeleceram em Bauru.

          O tio Carlos foi o primeiro que entrou na profissão, auxiliando o primeiro fotógrafo de Bauru. Após o falecimento dele, tio Carlos comprou o estabelecimento na Rua Batista de Carvalho, na frente da Pernambucanas, e acabou abrindo uma loja com o irmão. E logo em seguida, meu pai foi trabalhar como aprendiz do tio Carlos. E o tio Carlos se tornou, praticamente, o fotógrafo da região. Todas essas fotos antigas que a gente vê de Bauru são deles. Naquela época, era costume de todo fotógrafo marcar embaixo: “rua tal”. Marcava com nanquim e uma caneta bico-de-pena. Aquilo lá, ele marcava com a pena, com nanquim, no negativo, não era na fotografia. Ele marcava no negativo e ampliava. E eu vejo em praticamente quase 80% dessas fotos, a caligrafia do meu pai. Apesar de estar Giaxa ao lado, mas eu falo: “Essa foto é do meu pai”.

          Eu nasci em 1958, no fundo da loja do meu pai, na Batista de Carvalho, 7-15. Naquele tempo era costume, o comerciante morava no fundo. Apesar de ser uma rua comercial, a maioria das pessoas morava atrás. Antigamente, o centro de Bauru era movimentado! Passava uma carroça... um carrinho... a carroça do bucho... eu me lembro plenamente da carroça do bucho. O que era a carroça do bucho? Era um senhor que vinha com uma carroça, trazendo carne. E ele vendia aquelas carnes salgadas, na rua. Mas era comum.

          E nossa diversão era o quê? O quintal era a Praça Rui Barbosa. Mas não a Praça Rui Barbosa de hoje. Era aquela Praça Rui Barbosa que ainda tinha o coreto, que tinha banda, tinha pipoca, tinha o jacaré - o famoso jacaré -, tinha os cisnes que ficavam no lago. Em frente à praça, na Rua Primeiro de Agosto, tinha o Automóvel Clube, que era um point naquela época.

          Existia aquele comércio de estúdio, por causa da dificuldade de levar as máquinas e as coisas pro evento. As pessoas iam ao estúdio fotográfico. Então, você vê fotos antigas de Bauru, de casamento, mas o fotógrafo não ia até a igreja. Ao contrário, os noivos saíam da igreja e iam tirar fotografia no estúdio. Foto de carnaval tem muitas. Por ser a rua Batista de Carvalho o local do corso antigo, os carros, as pessoas com alegorias e tudo o mais, elas fiavam paradas na frente do Photo. Sempre na frente do estúdio, porque antigamente, ao ar livre, que era mais fácil tirar fotografia. E é lógico, também tinha as fotografias pra mostrar a cidade em si, as vistas, as fotografias de vistas, que eram vendidas como fotografia. Uma pessoa passava por Bauru, ela ia lá no Photo e escolhia.

          Naquele tempo havia os grandes bailes de Bauru. O meu pai ficava lá fotografando, e ficavam alguns funcionários no Photo. Aí ele cismou que tinha que vender as fotos mais rápido. Ele tirava as fotos - era um filme de 12 fotos só -, dava o filme pra mim, que era moleque, e eu descia a Gustavo Maciel, entregava pro laboratorista. Ele fazia a provinha, eu voltava com a provinha pronta. Então eu ficava no vai e volta, vai e volta, vai e volta. Chegava às quatro horas, cinco horas da manhã, o meu pai estava com todas as provinhas prontas, e as pessoas encomendando as fotografias.

          Mas eu nunca fui muito de loja. Eu gostava mais de trabalhar nos bastidores, no laboratório. Então eu passei a mexer na parte química. As lojas que vendiam os insumos ficavam concentradas na Rua Conselheiro Crispiniano, em São Paulo. Você ia àquelas três quadras da Conselheiro Crispiniano, e ali começava o footing do fotógrafo. Então, você via fotógrafo do Brasil inteiro. Ali é onde começou a Cinótica, onde começou a Fotóptica. E eu tive esse privilégio de conhecer todos, praticamente todas aquelas pessoas, porque o meu pai tinha uma influência muito grande perante o Sindicato das Empresas Fotográficas.

          Até hoje eu faço eventos. Eu faço eventos comerciais, tiro a fotografia, o cara chega pra mim - da empresa lá de São Paulo ou de outro lugar - e fala: “Manda pelo web transfer”. “Tá bom”. Quer dizer, hoje eu nem gravo mais CD, porque hoje não existe mais.

          O comércio de fotografia foi uma coisa muito doméstica. Os grandes fotógrafos passavam de geração pra geração. Então, você vê aqui em Bauru: Fogo Guedes, família Guedes; Foto Cherry, família Kosaka. Em Jaú: Foto Grossi, família Grossi; Foto Cantarelli, família Cantarelli. Kobayashi em Campinas, família Kobayashi. Em Ribeirão Preto, Miyasaka, família Miyasaka. Foto Estrela em Ribeirão Preto, o José Eduardo. Eram empresas de família e acabaram sucumbindo com isso daí. Acabou. O comércio de fotografia acabou. Mas se eu der uma máquina pra um pseudofotógrafo, uma máquina de 1970, ou do começo da década de 80, eu duvido ele tirar uma fotografia!

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