Busca avançada



Criar

História

Filha, irmã, prima, esposa e mãe de presidente do Gato

História de: Roseni Lima de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2021

Sinopse

A família de Roseni Lima de Oliveira vivia na favela do Esqueleto, que tinha esse nome porque era no esqueleto da obra UERJ. Quando foi implantado o programa de remoção das favelas, a maior parte dos moradores do Esqueleto foram removidos para a favela Nova Holanda. O pai de Roseni, Adevanir de Oliveira sempre foi liderança na favela Nova Holanda e junto com amigos fundou o bloco “Unidos de Nova Holanda” que depois passou a se chamar “Mataram meu Gato”, na década de 90 virou escola de samba com o nome “Gato de Bonsucesso”. O Roseni foi filha, irmã, prima, esposa e mãe de presidente do “Gato”. Como carnavalesca e autora dos enredos “O mundo encantado da criança” e “O Gato conta e encata com a Estrela, Renato Lage”.


Tags

História completa

Eu sou Roseni de Oliveira, nasci no Rio de Janeiro, no dia 21/12/1957, mas oficialmente fui registrada no dia 26. Eu fui criada pela minha avó, eu fui primeira filha, primeira neta, primeira sobrinha. A minha mãe na época acho que tinha 18 anos, e o meu pai tinha 20 anos quando eu nasci e eles eram um casal jovem, mas que viviam os conflitos da maioria dos casais jovens que não tem uma estrutura de vida estabilizada. Nessa história toda sempre eu ia para casa da minha avó. E minha avó na época falou assim: olha ela não sai daqui,porque vocês não têm juízo. E eu fui criada pela dona Sebastiana de Oliveira. Eu descobri que a família da minha avó tinha o sobrenome Oliveira, porque era o nome do senhor da fazenda em que eles eram colonos. A minha avó e a mãe dela não foram escravos, mas eram colonos, trabalhavam nas fazendas, não eram nem registrado, os patrões registravam, era que um resquício da escravidão. Depois de grande eu fui descobrir que a minha avó não era da família da qual ela nasceu, porque ainda existia prática dos donos das fazendas abusarem sexualmente das empregadas, também um resquício da escravidão. 

O meu pai lá no Esqueleto era feirante, ele não tinha uma renda fixa determinada oficial, e aqui as pessoas não iam pagar nada, porque a Nova Holanda como...e acho que a Cidade de Deus e a favela de Ramos, foram construídas mais ou menos dentro dos mesmos moldes, eram centros de triagem com que as pessoas vinham para cá, e iam sendo construídos vários conjuntos habitacionais, e que as pessoas iam ter o direito de escolha de acordo com o seu poder aquisitivo ao padrão de casas ou apartamentos na época. A gente era pobre, não tinha condições de ter uma moradia regular, mas a gente tinha fruta à vontade em casa. E eu sempre andei igual uma bonequinha, porque eu era a única criança da família. Eu vivi a minha vida toda na favela, mas eu nunca passei necessidade de nada. Se algum momento a minha família teve uma dificuldade, alguma coisa, eu fui poupada, eu não cheguei nem a perceber.

A primeira vez que eu visitei a UERJ, eu entrei por uma portaria que eu não reconheci, mas quando eu saí, eu saí por um lugar que tinha um pátio enorme, tinha umas pilastras redondas enormes, e quando eu cheguei ali eu falei: gente eu já estive aqui! E quando eu cheguei em casa eu perguntei a minha avó: vó eu estive em um lugar assim que eu tenho certeza que eu já fui lá, que eu reconheci aquelas pilastras, que eu brincava. ”Onde é que você foi?” Aí eu falei: fui lá na UERJ. Ela: O que é a UERJ? “É a Universidade Estadual do Rio de Janeiro”. Ela falou: a gente veio de lá. Aí eu falei: como assim? “É porque a obra ficou parada muito tempo, então a obra abandonada, as pessoas com necessidade de morar, a favela do Esqueleto, o nome Esqueleto porque era o Esqueleto da UERJ”.

Eu sei que eu cheguei aqui, aí quando eu olhei era um barraco de 02 quartos.O casamento da minha madrinha foi o primeiro casamento que aconteceu na Nova Holanda. 

A minha mãe eu ia visitar, a minha avó me pegou para ela, porque a minha mãe continuou trabalhando em feira, como camelô, às vezes ela não tinha dinheiro para comprar mercadoria, ela trabalhava ajudando algum barraqueiro, e eu tenho memórias de eu e a minha outra irmã dentro de um caixote debaixo de uma barraca, por isso que a minha avó me tirou da minha mãe, porque ela dizia assim, “você com uma filha só é mais fácil se virar.

Aqui existia um galpão que era da Fundação Leão XIII, foi quem administrou essa coisa da mudança, da remoção. O meu tio, o meu padrinho e o meu pai, trabalharam na construção dos barracos da Nova Holanda

Aqui era precário de água porque a princípio era só o pessoal do Esqueleto, mas depois começaram a trazer pessoal de Macedo Sobrinho, Praia do Pinto, alguns lugares que eles provocavam certas catástrofes para trazer as pessoas, inclusive incêndios, essas coisas, e a água não dava conta, quem tinha um pouquinho mais de condições, começou a colocar bomba de puxar água, então quem não tinha bomba não tinha água. Mas tinha lugares que você tinha que pagar para pegar água. 

Aqui é uma área super nobre, é uma área que você tem ali Avenida Brasil, condução para tudo quanto é lugar, você está aqui a 20 minutos do centro, e você está a 10 minutos do aeroporto, a 10 minutos também da UFRJ. Então, isso aqui é um lugar a nível imobiliário muito valorizado, não foi uma favela de invasão, foi uma favela de remoção

Logo que eu vim para cá, aqui não tinha escola, aí eles construíram uma escola que é a escola Clotilde Guimarães.

Meu primeiro colégio foi lá em Honório Gurgel, porque a minha madrinha se casou e quando chegou a época da escola, como não tinha escola aqui, minha madrinha me matriculou lá, então eu fiquei morando com ela para poder estudar lá

Na escola da Nova Holanda a época que eu vim, eu já estava mais ou menos acho que com 9 para 10 anos, fiz o de ginásio, fiz segundo grau. Eu fiz o ginásio até a terceira série que foram quatro anos de ginásio no Mendes Morais. depois eu fui para o Colégio Dilermando Cruz porque eu cismei que eu queria trabalhar. Nessa época foi instituído segundo grau técnico e eu tive qualificação para escolher qual  técnico que eu queria, eu escolhi Processamento de dados que eu não sabia nem o que era, mas era uma novidade e que ia trabalhar com computador, aí eu fui para o Paulo de Frontin e fiz o primeiro e o segundo ano lá. Quando eu terminei o sexto ano, o meu avô: bom, agora ela já terminou os estudos e a gente vai ter que pensar um trabalho para ela. Eu falei: eu quero fazer ginásio, quero fazer científico e quero fazer faculdade. Aí meu avô falava assim: e você não vai viver com homem nenhum, porque homem não atura mulher que sabe mais do que ele. Eu não banco mais nada!

A questão do carnaval já foi depois que eu me separei, porque quando eu me casei eu fui para fora daqui. Eu me casei com o pai do meu filho mais velho, José Souza de Oliveira Mendes, a gente se conheceu aqui no sexto ano primário. Um dia meu pai descobriu uma cartela de anticoncepcional no meu guarda-roupa, “é um absurdo, tem que casar! Casar não caso, mas a gente pode morar junto, a gente vive junto e se não der certo, vai cada um para o seu lado. Porque não era o meu projeto de vida casar, eu só pensava em casar e ter filhos depois que eu tivesse uma independência. Vivemos juntos acho que 3 anos, em um ano e pouco que estávamos vivendo juntos eu mudei o anticoncepcional, só que esse anticoncepcional falhou. Quando eu descobri a gravidez eu já estava com 3 meses.

José Mendes, que ele tinha o mesmo nome do pai, ele era aquele cara, ele trabalhava em 02 empregos, botava as coisas dentro de casa, mas ele tinha mulher aqui, outra mulher ali, de vez em quando ele viajava, passava 03 dias, sabe? Eu falei: não dá certo! A primeira coisa quando a gente foi viver junto, “mulher minha não trabalha”. Quando ele começou nessa de arrumar coisa daqui e ali, eu brigava, eu cobrava e eu expulsava ele da minha cama, aí começou aquela coisa da questão da violência de que o homem pode tudo.

Eu voltei para cá, vim para morar com a minha avó e o meu pai. Ele desde sempre era envolvido nessa de liderança comunitária, que aqui existia uma escola de samba que era Unidos de Nova Holanda, o meu pai foi presidente dessa escola, e de vez em quando ele levava a gente lá, escondido da minha avó, eu e a minha irmã. Aí minha irmã caía lá no samba, “eu sei sambar, você não sabe. Aí eu falei: eu sei estudar, você não sabe! 

Eu tinha uma admiração pelo meu pai, porque o meu pai era essa liderança desde essa época em que eu era pequena, que eu cresci vendo, meu pai fazia excursões, meu pai organizava festas juninas e toda essa coisa aqui lúdica de dentro da comunidade. Aí o meu pai um dia chegou lá em casa e falou assim, “eu queria que você escrevesse um negócio para mim''. Eu falei: o que? Aí ele falou: eu queria que você escrevesse um histórico de carnaval, tipo uma redação que você vai falar contando uma história de uma coisa que vai ser apresentada”. Aí eu falei: tipo uma peça de teatro? Ele: é, mais ou menos por aí, porque o carnaval é isso, uma peça que vai acontecendo. “Está bem”. Escrevi! Ele foi dando aquelas orientações, porque ele era envolvido no carnaval há um tempão. Ele falou: e agora você faz uns desenhos de como se você fosse fazer uma peça de teatro, as roupas que o pessoal vai usara para poder montar essa história. Falei: pai, eu desenho, mas eu não tenho o dom de desenhar, mas eu tenho um amigo que desenha. “Então chama ele”. Fizemos os desenhos, meu pai levou isso e apresentou em uma reunião do ‘Mataram meu Gato’, porque tinha outros temas que estavam na mesa, e o nosso tema ganhou para ser o enredo do carnaval. Era o Mundo Encantado da Criança, foi o primeiro carnaval que eu fiz. acho que foi em 1980.  Eu tinha saído de um casamento e eu estava meio que deslumbrada com aquilo, fui me envolvendo em fazer aquilo, mas para mim, eu estava fazendo uma coisa para o meu pai, entendeu? Porque o meu pai era o presidente do bloco na época. E por fim eu estava fazendo a contabilidade, administração, a documentação, tudo do Gato. Quando a gente pegou o Gato, o Gato era o penúltimo na colocação de grupo. Surgiu na época uma vaga para trabalhar como agente comunitária de saúde, e eu concorri a essa vaga e passei. Então eu comecei a conviver mais, a me apropriar da margem, do meu lugar. A gente conseguiu trazer a comunidade, o Gato virou um ponto de referência e de união das pessoas. Seu Manoel de Jesus que fundou o ‘Mataram meu Gato’. Aí tem essa história: o pessoal que ficava fazendo batucada embaixo da janela da mulher, a mulher vivia brigando com eles, jogava água, e eles sumiram com o gato da mulher, e aí que a mulher tomou bronca mesmo e eles fizeram esse samba que “Mataram meu Gato, tiraram o couro, meu Deus do céu, que desaforo. Não tiveram pena de mim. Meu Deus do céu, porque eu sofro tanto assim”, mas era para implicar com essa moça, isso foi crescendo, tomou essa proporção, virou um bloco de embalo, mas o seu Manoel de Jesus registrou o bloco na Federação de Blocos Carnavalesco da cidade do Rio de Janeiro.


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+