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História

Filha de Maria

História de: Anadyr Fernandes de Andrade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/01/2016

Sinopse

Em seu relato, Anadyr relembra momentos de sua infância na roça, onde plantava para ajudar a família, sua ida para o colégio de freiras, onde trabalhava, estudava e se afeiçoou a religião, chegando até, mais tarde, a ganhar o prêmio “Filha de Maria” que significava: ser piedosa, cumprir o dever, ser virtuosa e pura. Fala também sobre sua vinda para São Paulo, seus planos para o futuro e a luta contra a depressão.

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História completa

P/1 - Dona Anadyr, eu queria que a senhora falasse seu nome completo, onde e quando nasceu.

 

R - Anadyr Fernandes de Andrade, nasci em 1931, 11 de junho.

 

P/1 - E onde a senhora nasceu?

 

R - Em São José dos Campos, município de Montes Claros.

 

P/1 - E os pais da senhora nasceram onde?

 

R - O meu pai nasceu também em São José dos Campos, município de Montes Claros.

 

P/1 - Como ele chama?

 

R - Antônio Marciano de Araújo.

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R - A minha mãe nasceu em São José dos Campos, município de Buquira.

 

P/1 - E como era a casa da senhora, quando a senhora era pequena?

 

R - A minha casa era de barro coberta de sapé.

 

P/1 - Como eram as relações familiares. O que vocês faziam?

 

R - A gente trabalhava na roça e a noite a gente voltava fazia janta, jantava, rezava o terço e ia dormir.

 

P/1 - A mãe da senhora contava histórias?

 

R - Não contava. Meu pai contava histórias, mas era muito pouco.

 

P/1 - Que histórias eram?

 

R – Assim...Era da estrada quando ia passando que via um pau na estrada, o cavalo empacava, não queria andar mais, ele contava assim. Meu avó também contava muito essa história da estrada. E outra vez meu pai contou também dos pais dele, dos meus avós, que estavam dormindo e na sala tinha onde pendurar os arreios dos cavalos. Então, diz que mexia fazia barulho tudo, né, quando ia ver estava tudo caído no chão, mas não via ninguém. Diz que era alma de outro mundo que vinha isso contava para gente.

 

P/1 - E a senhora e seus irmãos brincavam?

 

R - Ah! Não brincava, não tinha tempo para brincar. Todo mundo bem pequenininho trabalhando.

 

P/1 - Trabalhava em quê?

 

R - Na roça plantando feijão, arroz, milho, cana, mandioca, batata, tudo quanto é tipo de plantação.

 

P/1 - E a senhora saiu de Montes Claros?

 

R - Eu saí com a idade de quinze anos de lá. Fui para Guaratinguetá, onde eu fiquei morando com as irmãs.

 

P/1 - A senhora foi fazer o quê?

 

R - Ah! Eu fui para a escola trabalhar e estudar com as freiras.

 

P/1 - A senhora queria aprender?

 

R - Queria a prender a ler porque os meus pais não deixavam ir na escola na fazenda porque nós mulheres não deixavam caminhar na estrada, só os meninos que podiam. Nós não. Mulher não.

 

P/1 - E a senhora foi para Guará. Como é que foi?

 

R - A entrada lá foi assim: nós fomos para Aparecida com meus avós. Daí nós fomos passear em Guará para conhecer o colégio que eu queria ficar estudando. Daí nós fomos no orfanato. No orfanato que era só para órfãos não podia, nós tínhamos pai e mãe. Então fomos caminhar para outro colégio, Colégio Carmo, colégio muito bom. Lá eu comecei a trabalhar e estudar.

 

P/1 - A senhora trabalhava com o que no colégio?

 

R - Até os seis meses eu trabalhava na mangueira, lavava a roupa das alunas. Lavar e passar. Tinha cento e setenta internas. Depois dos seis meses, a irmã precisou de uma refeitoreira, refeitoreira seria cuidar, servir as alunas, por mesa e tirar mesa o dia todo. Aí eu fui fiquei até os treze anos servindo lá. Mas eu era muito querida pelos meus alunos. Só alunos que a gente tinha. Depois tinha passeio nas fazendas, aqueles piqueniques gostosos que até tenho saudade.

 

P/1 - Como é que eram os passeios? Vocês faziam o quê?

 

R - Os pais no Domingo, a Segunda de páscoa e a festa da diretora, que hoje não tem mais aquela festa gostosa, festa de arromba mesmo que chamava mesmo. Aí a gente ia, os pais traziam todos lanches para as alunas. Então a assistente geral das alunas, como eu era do refeitório, junto, ajudava a servir, abria a lata de doce, refrigerante, vinha com os abridores, sabe? E ajudava e era gostoso. Ajudava a tomar conta das criançadas, sabe? Depois voltava, a noite, ia guardar toda a sobra dos comestíveis delas cada um com seu número e eu decorava todos os números de cada lugar das cadeiras das alunas, sabe? Era gostoso, ali ficava os treze anos. No Domingo quando acabava a visita das alunas e eu ia buscar a cestaiada de mercadorias para guardar. Eu ficava 9 horas da noite do domingo guardando as mercadorias delas.

 

P/1 - E as meninas recebiam dos pais?

 

R - Dos pais, levavam, eram tudo fazendeiros, né? Levavam muita coisa, fruta, doce, e até leite condensado cru, eu tinha que por com a latinha no finzinho, tinha que por com a latinha virada, com a latinha que elas não acreditavam quando acabava, sabe? (risos) Era tão gozado, mas era gostoso, viu?

 

P/1 - E depois a senhora mudou de colégio?

 

R - Eu enjoei de lá. Como eu vinha nas férias, a diretora, antigamente... As irmãs, não viajavam sozinhas, sempre acompanhadas. Então como era férias a diretora sempre me trazia. Ela fazia parte do capítulo, da reunião daqui da madre.

 

P/1 - Aqui em São Paulo?

 

R - São Paulo. Nessa casa mesmo que ainda é a casa província. Então ela me trazia e eu aqui fiquei conhecendo as irmãs, o trabalho e até a Icona. Aí a tesoureira gostava muito de mim, que eu saía, eu aprendi até a ler em São Paulo, sozinha, antes de morar aqui, tomava o bonde ia para a Praça da Sé, ia para São Bento, tudo, fazia compra. Depois, um dia, eu disse: “Sabe, eu tenho vontade de morar aqui”. “Ai, eu estou precisando de uma...” Como é que chama? Office-boy que chamava aqui, mas eu não era. Eu saía na rua, fazia compra. Então, aí eu queria sair de lá. Aí eu conversei com as irmãs de lá. “Ah! Se quiser é à vontade, à vontade se quiser.” Ah! A Icona foi me buscar em Guará, foi de perua me buscar. Aí eu vim tudo na hora da despedida lá, chorei um pouco, senti, né? Que treze anos e meio..

 

P/1 - Claro...

 

R - Aí eu vim, cheguei aqui, num instantezinho acostumei. Já fiquei ajudando a outra irmã no barzinho. Era um botequinho que vendia as coisas, não era uma lanchonete como agora. Eu ajudava quando eu estava em casa. Ajudava a vender no barzinho. Aí quando eu estava para a rua ela se virava sozinha, mas quando eu estava eu que ajudava a vender.

 

P/1 - A senhora veio trabalhar aqui no colégio Santa Inês? 

 

R - É. Eu ajudava, saía na rua, ajudava na dispensa, aprendi a fazer sorvete, tudo, com a irmã da dispensa. Todas as minhas horas de folga, era na dispensa que eu ficava.

 

P/1 - E como que era mais o dia a dia do colégio? O que mudou?

 

R - O que mudou agora?

 

P/1 – É. De antes para agora.

 

R - Ah! Mudou muita coisa, não sei. Tem menos irmãs, a gente não tem muito contato com elas como era antigamente. A tinha gente os boas noites que eram tão gostosos. Tinha a noite dos diretores, das madres.

 

P/1 - Como que eram?

 

R - Boa noite? Dar boa noite era dar quinze minutos dos avisos e falava bastante coisa...

 

P/1 - Mas tinha oração?

 

R - Tinha oração. A gente rezava antes de dormir. No dormitório reunido, sabe? Aí, quando eu vim para cá, eu pedi que não queria ficar no meio delas, eu não queria ficar no meio das meninas, que tinha setenta domésticas que estudavam e trabalhavam. Então eu vim, fiquei numa repartição que tinha três de idade. Duas mineiras que chamavam dona Cecília e dona Eliana que já foram para o céu que eu sinto até hoje. Gostava muito delas. Elas também tinham muito carinho comigo, porque eu era nova aqui. Então, elas me tratavam muito bem. Tinha uma outra também que se chamava Buena e também já morreu. E eu ficava mais junto com ela. Quando acabava, fora do meu horário eu ficava lá embaixo com ela, nesse quarto onde tinha o dormitório e tinha um salãozinho onde a gente comia a refeição, fazia a refeição, vinha as travessas e a gente fazia a refeição. E no Domingo a gente saía, aí na missa. Agora missa a gente ia todo dia, era obrigada. Agora, não, agora a gente é livre.

 

P/1 - Não é mais obrigatório?

 

R - Não, mas antigamente era obrigatório ir à missa todos os dias. E era cedo. A gente começava a trabalhar, a gente ajudava também a cortar pão aqui. Tinha 360 alunas. Então eu levantava cedo, cortava todos aqueles pães, ajudava a passar manteiga. Tinha as meninas, eu ensinava que lá no outro colégio eu fazia isso também, né, cortava pão e passava manteiga e punha na mesa. Ali tinha que fazer a manteiga que o leite era das fazendas, então tinha muita nata. Então, a gente fazia a manteiga para passar no pão. Aqui, não, era manteiga comprada. Mas eu trabalhava junto com as outras moças. Aí, as meninas do refeitório que servia, que punham na mesa, tudo, sabe? acabava e a gente ia para a igreja rezar. Quando voltava eu ia procurar a minha...A Icona para ver se tinha que sair para rua ou não, tinha farmácia, outra hora eu ia ajudar na rouparia, passar a saia de lá das alunas, que marcava muito bem. Fazia aquele ponto cruz. Marcava todos os uniformes delas. E também das irmãs. Eu marcava todas as roupas das irmãs. Delas também eu marcava, que cada um tinha seu número.

 

P/1 - E onde foi que a senhora aprendeu?

 

R - Com as irmãs. Eu aprendi a fazer tricô, crochê, bordar...

 

P/1- E nos domingos a senhora ia passear?

 

R - Ficava ali no colégio, não saía. Às vezes saía. Ia no cinema, sabe, no Liceu.

 

P/1 - Como que era São Paulo nessa época?

 

R - Ah! São Paulo era mais calma. Não era tão agitada como é agora, sabe? O nosso cinema é no Liceu, porque a gente não ia no cinema aí fora. E alugava muito filme também. Aqui tinha uma cabine, passava filme, sabe?

 

P/1 - Que tipo de filme passava?

 

R - Ah! Filme bom, sabe? Não filme escandaloso. Só filme que podia passar para as alunas e para a gente também, né? A gente assistia. Eu é que ia alugar os filmes ali na General Osório, na rua do Triunfo, ali que eu ia...

 

P/1 - A senhora que ia alugar?

 

R - Ia alugar o filme e depois eu ia entregar. Eu era responsável. A irmã falava, dava o nome do filme, eu ia lá, alugava, pagava e trazia de volta.

 

P/1 - Dona Anadyr, a senhora nunca teve vontade de seguir a carreira religiosa?

 

R - Não, nunca tive vontade. Acho bonito, mas nunca tive vontade. Acho que a gente para ser uma religiosa não precisa fazer... Pode ser religiosa consigo mesmo.

 

P/1 - E nunca teve vontade de se casar também?

 

R - Também não. Nunca tive vontade de casar. Vou servir assim. E nunca procurei ninguém. Não é o meu feitio.

 

P/1 - E a senhora vai para Montes Claros? Vai visitar a família?

 

R - Ah! Vou visitar minhas primas lá, vou. Tem minha família, só que o nosso lugar da casinha já caiu porque aquela fábrica...como é que chama aquela fábrica que planta eucalipto? Tem um nome. Ah! Esqueci o nome... Comprou todinho, então não tem nem o lugar mais da casinha, acabou. Nem nosso engenho de fazer farinha, tanto de milho, quanto de mandioca, sabe? Que a gente fazia muita farinha. Quando clareava o dia já tinha um saco de farinha torrada. Quando o meu pai era negociante, além do horário de roça, nós fazíamos farinha para levar para a cidade, que nós éramos tudo pobrezinho, não tinha nem um sapato. Nosso sapato meu pai fazia de madeira, pegava um pano, comprava prego e pregava. Era nosso tamanquinho de roça.

 

P/1 - Até hoje ele faz isso?

 

R - Não, agora não faz mais. Nossa roupa era feita de chita. Nossa mãe costurava na maquininha.

 

P/1 - E hoje, dona Anadyr, a senhora continua trabalhando?

 

R - Continuo trabalhando bastante, nunca tive preguiça de trabalhar desde antigamente. Meus quinze, nove anos de serviço.

 

P/1 - E a senhora é voluntária na Igreja Dom Bosco?

 

R - Sou voluntária.

 

P/1 - Qual é o trabalho da senhora, conta para gente.

 

R - Na igreja eu vou às seis e meia da noite, eu abro a igreja, preparo o altar para a missa e nos domingos que eu tenho minhas folgas eu cozinho para os padres quando não viajo para São José dos Campos. Eu faço almoço para eles, faço bolo, faço sobremesa que eu aprendi a fazer, essa coisas, torta...

 

P/1 - Tem alguma receita especial que a senhora faz?

 

R - Tenho.

 

P/1 - O que é?

 

R - O pavê que eu faço.

 

P/1 - Conta para a gente como é que é esse pavê.

 

R - O pavê é assim: 1 litro de leite, 4 colheres de maizena e 1 lata de leite moça e um pouquinho, umas gota de... Ai esqueci o nome de... Não tem necessidade.

 

P/1 - Baunilha?

 

R – Baunilha, isso, e duas gemas. Aí você põe no fogo e vai mexendo até ficar um mingau. Depois você pega o biscoito champanhe, põe no pirex. Aí você pega, primeiro você abre uma lata de pêssego, com a calda você encharca bem a champanhe no pêssego e vai pondo no pirex bem arrumadinha. Depois de bem encharcadinho, você pega aquele creme e põe por cima, depois você pica o pêssego, pica ele em pedacinho, põe tudo em cima de ladinho no pirex. Depois de pronto você pega a lata de creme de leite, tira o soro e a clara do ovo, você bate bem ela. Aí você joga o creme de leite bate com... Acho que com três colheres de açúcar, quatro, uma coisa assim, aí você põe por cima, cobre ela. Aí você pega aquela uva passa e chapisca por cima. Daí, põe na geladeira. É uma delícia, viu? (risos). A sobremesa que mais eles gostam. Depois tem outra também a torta de abacaxi. A torta de abacaxi de cor assim eu não sei, só fiz só uma vez. Mas sei que faz o mingau também. Faz o mingau e põe no pirex e aí você pega o abacaxi cozido faz aquele doce também põe tudo assim enfileiradinho. Aí você pega um pacotinho de gelatina de abacaxi, desmancha ela na água e põe com um copo de água, aí põe por cima, aí tem que fazer a massa. A massa, parece que é dois ovos, uma colher de fermento em pó e mistura bem a massa. Aí, você pega uma forma e abre ela bem deitada. Na beiradinha da forma você põe o creme. Põe o creme, o abacaxi e põe no forno para assar. Depois de assado você tira e põe a gelatina de abacaxi também com o mesmo sabor e põe na geladeira. Essa torta de abacaxi, de maçã.

 

P/1 - E a senhora aprendeu a cozinhar com as freiras?

 

R - Ah! Eu pego a receita com elas. E o bolo também, faço bolo de fubá.

 

P/1 - Qual o doce, salgado que a senhora mais gosta de fazer?

 

R - Ah! Eu gosto, a torta de frango também eu gosto demais de fazer no liquidificador.

 

P/1 -  Como é que é?

 

R - É assim você pega uma xícara de óleo, uma pitada de sal e três ovos, bate no liquidificador, depois de batido você pega uma colher de fermento e põe, aí você mexe bem põe na forma, só para cobrir a forma. Aí você pega o recheio de frango com batata cozida e ervilha, põe o recheio, torna a cobrir ela com aquela batida que eu deixei sobrar. É uma torta muito gostosa.

 

P/1 - Dona Anadyr, e as festas, como é que são as festas para senhora, a senhora participa com as festas de natal, ano novo, páscoa do colégio ou a senhora passa com a família?

 

R -  Natal eu passo as noites aqui no colégio.

 

P/1 - E como é que é?

 

R - É gostoso tem missa às 9 horas depois da missa a gente vai fazer a ceia, aí encontra os presentes cada um no seu lugar com seu nome... É gostoso. Depois toca o disco, põe para tocar o disco.

 

P/1 - Que disco? Música que vocês colocam para tocar?

 

R - Noites de Natal, Noite Feliz, tudo sobre coisa de menino Jesus, sabe?

 

P/1 - As famílias não vêm para cá?

 

R - Não, não. Depois, no outro dia, eu vou para casa passar o dia de natal, o almoço é com meus pais, com minha família, com meu pai e com minhas irmãs. Depois de tarde eu venho embora, quando cai durante a semana, que daí no outro dia já tem que trabalhar, né?

 

P/1 - Que outras festas tem no colégio que a senhora passa?

 

R - A páscoa geralmente eu passo em casa. Geralmente eu vou assim na sexta-feira santa ou na quinta-feira. Geralmente é na sexta-feira de manhã que eu vou, passo a páscoa em casa.

 

P/1 - Mas o colégio tem outras festas que a senhora participa?

 

R - Tem.

 

P/1 - Quais são?

 

R - A festa da madre que vai ser agora.

 

P/1 - Como que é esta festa?

 

R - A festa vem todas as diretoras, vem os colégios. Tem as reuniões, a missa solene, tem o salão onde todos os colégios trazem presentes para ela, sabe? Trabalho e também participo. É costume desde que eu cheguei no colégio que a gente participa, assim... Não todo mundo, sabe? Mas eu acostumei então eu faço sempre uma lembrancinha, um paletozinho, um joguinho de nenê, uns panos de prato. Aí ponho na exposição para ela. No natal ela distribui para o pessoal.

 

P/1 - Dona Anadyr, o que foi que mais transformou na sua vida? O que mais mudou?

 

R - Ah! Nem sei, viu?

 

P/1 - De Montes Claros para cá?

 

R - Montes Claros para cá mudou que...Lá a gente não ia na igreja. Rezava o terço mas não tinha missa, só de cada seis meses que o padre ia nessa igrejinha pequenininha de São Bom Jesus que a gente ia, meus pais às vezes eram festeiros, tinha uma casinha que o padre ficava hospedado, a gente cuidava dele, né, servia ele, tudo, sabe? O vigário, que agora já faleceu. E quando meu pai era festeiro a gente ficava direto, uns três dias com o padre nessa capelinha, a gente ficava lá também.

 

P/1 - A senhora falou que o pai da senhora era festeiro. O que é ser festeiro?

 

R – Festeiro? A gente... Organizava toda a festinha lá. Ainda tem festeiro. Continua a mesma coisa. Tem a missa depois tem o leilão de gado. Meu irmão dois anos atrás, meu irmão foi festeiro e nós fomos ajudar. Tinha... Depois da procissão da missa, tinha os leilões, sabe, saí puxando, gritando leilão, sabe? E o pessoal arrematava quem dava mais, até chegar num ponto que ninguém dava mais aí era o último. Até a última vez agora meu irmão arrematou um bezerro por 100 mil cruzeiros, foi de graça. Foi de graça, né? (riso). Está lá no pasto.

 

P/1 - Barato mesmo. O que foi que mais marcou na vida da senhora?

 

R - O que mais marcou foi quando eu recebi minha fita azul de Filha de Maria. Para mim foi uma emoção muito forte, viu? De participar de tomar parte de uma associação, foi para mim uma coisa que tocou muito o meu coração, sabe?

 

P/1 - Conta para gente um pouquinho o que é ser Filha de Maria.

 

R - Filha de Maria? A gente recebe toda... A gente vai no altar, a gente é preparada pela Irmã, lá no cargo que eu recebi. Ela ensinava o quê que é ser Filha de Maria, ser piedosa, cumprir com o dever, ser virtuosa, ser pura, sabe? Não ter... O que tem no mundo aí (riso). Essas coisas que não é bom e eu continuo até hoje, né? Tenho minha fita guardada lá. A gente vai servindo na paróquia. Só que eu não vou nas reuniões porque eu não tenho tempo, né? Porque às vezes é no domingo e eu viajo sabe, então não dá. Então nem vou. Mas quando tem a reunião, tem a missa dela, assim...Eu vou com minha fita no Sábado, às três e meia, eu vou na missa.

 

P/1 - Como foi que a senhora recebeu?

 

R - Essa fita?

 

P/1 - É.

 

R - Foi assim, a gente foi no dia 8 de Dezembro, no dia da Imaculada Conceição.

 

P/1 - De que ano?

 

R - De 1948. Aí tinha aquela turminha, toda ajoelhada no altar, tendo que ler a consagração de Nossa Senhora. Depois a diretora que foi pôr a fita no pescoço e a gente beija a fita, né? Depois teve aquela festinha de todos que receberam a fita, teve um lanche à noite e depois eu continuei. Lá tinha uma vez por mês tinha reunião, eu participava da reunião e tinha que rezar ofício também, é assim.

 

P/1 - Qual o sonho que a senhora ainda tem? Que a senhora gostaria de realizar?

 

R - Agora? Eu não sei. Não tenho sonho mais não, já realizei o sonho... Tudo que eu tinha. Agora eu peço a Deus que no fim da minha vida que eu vá para o céu, onde que vou acabar. Se for no asilo. Acho que morar com a família não é bom. Quanto mais longe melhor é. Que tem muitos problemas, a gente tem muito problema em família, quando eu vou para casa eu volto pior, eu tenho muita depressão agora. Estou em tratamento com psicólogo, muito bom, toda a terça-feira e estou tomando remédio que eu andei muito ruim com depressão que eu tive um aborrecimento muito grande e eu estou custando para superar. Eu fiz uma operação há três meses e depois disso eu tive depressão muito grande. Porque antes disso eu fazia companhia para mãe de minha madre, 8 anos, que não contei, e quando ela foi embora para o Rio, que ela ficou com 80 anos, ela já não dava mais conta, eu mudei para cá, aí desde esta vez não tive mais, assim... Qualquer coisinha eu fico sentida... Sou muito sentimental, sabe? Qualquer coisinha que os outros me falam me dói muito no coração, corta muito. Então eu sinto muita solidão, sabe? Parece que os outros não me querem bem mais, tudo isso, e quando eu vou em casa eu vejo muitos problemas na família, então parece que quando eu vou em casa, eu vou só uma vez por mês, já falei para minha família. Eu vou uma vez por mês porque quando venho para mim é pior. Aí, eu tenho que ficar tomando remédio e vou no psicólogo e eu choro demais, então eu acho que não sei. É melhor não ir.

 

P/1 - Se a senhora fosse falar alguma coisa para as gerações mais jovens, para o pessoal ali do colégio, o quê que a senhora falaria?

 

R - Olha, eu aconselho a aproveitar a vida, mas não nesse mundo, não nesses bailes, nessas boates que não presta, sabe? Procurar uma coisa boa, um divertimento que seja mais sadio... Não o que não presta, as coisas boas só. Que tem muita coisa boa. Esses filmes que se aluga são uns filmes que não prestam, viu? Que outro dia me chamaram para assistir um filme lá, olha, eu saí porque eu vi que não era coisa; apesar que a pessoa que estava passando, não falo dessa pessoa porquê... Não quero falar, ele controlou um pouco, ele...Mas a gente viu que não é coisa boa para um jovem assistir. Eu aconselho isso, a não assistir essa coisa, viu? Que não presta. Que alugue filme bom, que tem muito filme bom para assistir, para assistir no vídeo, não esses filmes escandalosos que isso aí só traz coisa que não presta. Procurar a igreja, umas reuniões, grupos de jovens, essas coisas, que nossa paróquia está precisando muito de jovem, sabe? Que está muito fracassada. A paróquia de Nossa Senhora Auxiliadora está muito fraca. As pessoas que sejam mais fervorosas, que vão mais na Igreja. Porque, às vezes, à noite, eles marcam missa, o livro de intenção está cheio, mas vai um pingo de gente. “Seu padre porque que eles marcam se não vem? Então não marca”. Outro dia, o padre fez uma pequena celebração porque não tinha gente suficiente para celebrar uma missa, o padre disse: “Eu não vou celebrar mais uma missa porque eu já celebrei duas missas hoje. Para que vou celebrar três? Então vou fazer uma celebração”. Ele fez uma celebração tão linda, tão bonita, sabe? Até teve uma senhora, uma francesa, que não gostou. “Quê? Eu quero missa”. O padre disse: “Mas é uma celebração, é a mesma coisa.” Deu a comunhão, a Eucaristia. A mulher saiu revoltada da igreja. Gente curta que não entende, gente de idade. Eu tenho 61 anos, mas eu gosto de participar do jovem, da juventude, eu gosto muito da juventude, aí no colégio como eu gosto dessas alunas, vocês vão ouvir depois que é demais, viu? Quero muito bem às alunas, aos alunos. Tem hora que eu fico até brava que eles gritam muito no meu ouvido (riso). “Nadyr!” Digo não é assim não, mas eu sei que eles me querem muito bem, viu? (riso)

 

P/1 - A senhora acha que é importante a senhora ter contado a história da sua vida para gente, ter registrado isso?

 

R - Eu acho importante.

 

P/1 - Porque a senhora acha importante?

 

R - Eu acho importante para saber que a vida foi boa, trabalhando bastante, nunca deixei de trabalhar. Toda vida dei toda a minha força que tive e dou até hoje. A força que eu tenho ainda dou, e ainda pretendo dar. Enquanto eu tiver força vou trabalhar e vou trabalhando, quando não der mais, aí eu vou procurar um asilo, nem que eu me aposente, falta acho que dois anos para aposentar, se me quiserem no Santa Inês eu continuo, quando ver que não der mais eu vou procurar um asilo e eu pretendo, gosto muito das irmãs que tem, sabe onde? Em Itaquera, na Quarta Parada, não é Quarta Parada que chama. Ai meu Deus, esqueci... É para lá de Itaquera. Umas irmãs, um asilo lá no alto assim, um lugar tão gostoso. Eu fui com o padre lá, ele foi celebrar uma missa, além de Itaquera, ai meu Deus! Lá em uns conjuntos lá que eu esqueci o nome. E depois na volta o padre foi deixar essa freira lá no asilo. Eu gostei demais das irmãs, achei umas irmãs muito alegre, um asilo formidável, sabe? E até eu quero passear lá mais vezes para eu conhecer as irmãs, as irmãs eu já conheço, conhecer as pessoas que estão lá dentro, o ambiente, sabe? Em São José dos Campos tem um asilo que é do Monsenhor Luís Cavalheiro, que mandou fazer. Tem um hospital onde eu fui operada agora em Julho que eu gostei demais, fui muito bem atendida, as irmãs da Maria Imaculada são formidáveis, mas eu acho que é muito perto da família, não sei se vai ser bom que eles moram tudo ali pertinho. Não sei ainda, vou pensar onde eu vou ficar, se aqui em São Paulo ou em São José dos Campos, não sei.

 

P/1 - A senhora gostaria de falar mais alguma coisa para gente? Contar mais alguma coisa, alguma coisa diferente que a gente não tenha perguntado?

 

R - Ai, não sei. A vida de roça que morei até os 15 anos, que eu trabalhei até os 15 anos, foi uma vida gostosa, levantar 4 horas da madrugada para torrar farinha, para lavar milho naquele riacho. Uma vez eu estava lavando milho no ribeirão quando vi no mato verde uma coisa deste tamanho, grandão, verde. Eu pensei que fosse uma cobra. Sabe o que era? Era uma... aquele peixe, uma traíra, era uma traíra. Eu consegui pegar com o balaio. Eu peguei, subi no manjolo e disse: “Pai do céu, olha o que eu peguei!” Era grandão, o peixe deu para todo mundo de nossa família, deu mais de uma refeição (riso). Aquilo foi a maior alegria da minha vida. Aquele sol quente, o bichinho assim na beira d’água, andando e eu peguei aquilo com tanto... Mas não sei como é que eu consegui pegar aquele peixe, viu?

 

P/1 - Quantos anos a senhora tinha?

 

R - Tinha meus 13 para 14 anos. Mas já era pequena, eu era muito doente, sabe? Era e é, eu não tenho muita saúde. Eu era muito doente naquele tempo, eu era muito magrinha. Estou magra agora porque estou fazendo tratamento, tomando remédio para melhorar da depressão que eu tenho, quase não como. Mas eu vivia doente, vivia em tratamento, tive pneumonia duas vezes. A primeira vez que tive pneumonia eu tinha 13 anos, eu não contei. Eu fui ajudar meu pai botar fogo na queimada, então meu pai desceu de um lado, eu desci do outro. Quando chegou em baixo tinha um musgo, não sei se você conhece? Eu não vi que era água, que tinha brejo, eu pisei naquilo. Na mesma hora fiquei cega, não sei como que fui para casa. Era pertinho, como daqui até o colégio. Não sei. Fiquei 40 dias na cama, caiu todinho meu cabelo, as pernas descascaram todinhas, depois eu escutava a minha mãe, meus pais. A minha mãe chorava no pé da cama, eu escutava tudinho o que falava, mas eu não enxergava e nem falava. Fiquei 40 dias assim. Minha mãe fez promessa para Nossa Senhora Aparecida e eu consegui sarar. Depois comecei a voltar, a vista voltou e eu comecei a falar. Eu fiquei pele e osso na cama porque eu não comia, na roça. Meu pai ia na cidade, ele falava pro farmacêutico, explicava como eu estava. Ele dava remédio e ele levava a cavalo seis horas para ir, seis horas para voltar. Ele voltava e dava remédio, ia dando, ia dando. Depois que comecei a melhorar aí comecei a querer comer peixe, camarão, então meu pai ia pegar camarão no riacho, pegava camarão com a peneira, levava e fazia para eu comer. Aí eu fui voltando, fui levantando devagarinho da cama, mas eu levei mais de 60 dias para eu poder conseguir andar outra vez. Depois disso tive outra vez, aí tive no colégio, Colégio do Carmo. Aí fiquei 20 dias na cama, aí foi mais fraco, pela segunda vez foi pneumonia também, mas não fiquei cega não, desta vez não fiquei cega e nem perdi a fala. Aí, a irmã lutou, lutou, lutou até médico, chamava médico, aí eu consegui, salvar...

 

P/1 - Melhorou.

 

R - Mas eu fui muito fraquinha, sabe? Uma vez também meus pais estavam pescando e me deixaram na beira do barranco, assim, pegando meu irmãozinho de 6 meses. Você sabe que o pequenininho deu uma balançada lá fui eu com criança e tudo no meio do riacho. Meu pai estava perto quando viu eu tava lá bem no fundo d’água e ele conseguiu tirar, eu agarradinha com a criança no braço, caiu nos dois no fundo, mas não morremos não, deu para salvar (riso). Tudo é aventura. E as outras aventuras...Caçar tatu, pegar tatu para comer, sabe? Matar porco, pegar juruti, fazer aquela esteira para caçar passarinho. Juruti não sei se você conhece?

 

P/1 - Não. Como é que é?

 

R - É um pássaro grande, do tipo de uma pomba. Você tem que observar. Você faz uma esteira de taquara e bota comida ali, e você vai cevando o bichinho, sabe? Aí você faz uma casinha, do tipo de casinha de sapé, coberta de sapé, você entra lá e deixa só um buraquinho para você enxergar o bichinho lá dentro e põe uma corda, arranja uma corda e você arma aquela esteira com pau e você entra lá dentro, e fica lá vigiando de manhã cedinho, que ele vai lá para comer, que ele tá bem cevadinho, né? Então você vai lá, naquela casinha escondidinha lá, não pode nem espirrar, você ele corre. Quando tem uma meia dúzia lá você puxa a esteira, você perde alguns, mas uns três, quatro fica lá dentro. Aí você vai e aperta bem. E o meu irmãozinho tinha uns 8 anos, ele foi junto comigo... Aí ele foi junto, me lembro como se fosse hoje, ele morreu com câncer, coitado. Aí ele foi me ajudar a apertar, então ele apertou, não apertou direito quando ele levantou a esteira o bichinho saiu correndo. Aí ele disse: “Ai Nadyr, apertei, apertei o bichinho capou”. Ele falou “capou”, não sabia falar direito, né, porque o bichinho escapou. A gente comia mais era passarinho, sabe. Meu pai cevava muito porco também, a gente comia muita carne de porco, muita sopa de mandioca, essas coisas. Às vezes minha mãe não tinha tempo nem de socar um arroz, sabe, no pilão. Então ele fazia a sopa de mandioca, às vezes cozinhava quirela de milho para fazer no lugar de arroz para gente, muita canjica, muita pamonha. Pepino a gente comia no meio do arrozal, melancia também.

 

P/1 - Que bom! (risos). Dona Anadyr a gente agradece muito seu depoimento, a sua contribuição.

 

R - Tá, tá bom.

 

P/1 - Muito obrigada mesmo.

 

R - De nada.

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