Busca avançada



Criar

História

Filha das carrancas

História de: Maria da Cruz Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/03/2008

Sinopse

Em seu depoimento, Maria da Cruz Santos conta sobre sua família, principalmente sobre seu pai, que nasceu cego, e sua mãe que se tornou uma artista famosa. Fala sobre com foi sua educação em plena ditadura e métodos de ensino da época. Aborda também sobre sua faculdade de Pegagogia e como, ainda hoje, segue o rumo da mãe nas artes.

Tags

História completa

Meu nome é Maria da Cruz Santos, nasci aqui em Petrolina em 2 de maio de 1956. A minha mãe é Ana Leopoldina Santos e o meu pai José Vicente de Barros, meu padrasto, que eu considero como pai, o pai que eu conheci. Minha mãe nasceu em Santa Filomena, Pernambuco, e papai nasceu em Itainópolis, Piauí. Mamãe foi de Santa Filomena pra Picos fugindo da seca porque lá em Santa Filomena era muito, era não, é muito seco e ela foi, pra ver se melhorava a situação pra lá. E lá conheceu meu padrasto. Já era viúva, casou com ele, que ele é cego de nascença, é deficiente visual, ele não tem nem o globo ocular. Mas ela gostou da forma dele, do jeito dele e terminaram se casando os dois.

Minha mãe trabalhava com cerâmica com modelagem em barro. Ela começou aos sete anos, ela aprendeu esse ofício com a mãe dela. Só que antes ela confeccionava utensílios, pote, panela, que eram usados na época. Depois, aqui em Petrolina, já no ano de 1963, ela começou a modelar as carrancas no barro.

É a gente mesmo que vai pegar o barro, final de semana, lá no rio, a gente já retira um barro que ele já foi retirado pra fora pra fazer lagoa de estabilização, lagoa de tratamento de água, aqui no rio. Eles tiraram o barro, colocaram numa parte, aquela sobra que já foi retirada é o que a gente está utilizando. A gente traz, coloca durante três dias umas vasilhas de pneu de carro que tem, durante três dias fica a infusão. Depois desses três dias, a gente coloca numa lona e ele amassa o barro com o pé. Vai amassando, amassando, amassando, fica igual a uma massa de modelar, aquela massinha que criança brinca na escola, daquele mesmo jeitinho. Ele amassa, depois que ele amassa ele ainda fica tirando todos os fragmentos. Todo fragmento que tem, pedrinha, raiz, é ele quem retira.

Quando ela já começou a fazer as carrancas, quando ela pegou encomenda pra doutor Oso, doutor Geraldo, quando ela terminou dez eu já consegui fazer uma sozinha. Ela ficou maravilhada, muito contente, porque eu já estava tentando ajudar ela com a peça que eu fazia, começava, eu mesmo terminava, não era necessário que ela me ajudasse. E era tanto que minha irmã mais velha, a mais velha do que eu, ela sabe fazer utensílio, mas não sabe fazer carranca, porque na época que minha mamãe começou a trabalhar nas carrancas minha irmã casou, foi morar na casa dela, foi cuidar dos filhos dela. E eu não, fiquei em casa ajudando ela, pronto, eu me dediquei mais, tanto ao estudo quanto às peças, à confecção das peças, tanto que hoje eu que dou continuidade ao trabalho. Eu e minha irmã adotiva.

Era assim: no meu tempo, porque antes era a professora que batia, o aluno errava uma pergunta, porque antigamente era muito, como eles chamava arguição, como um questionário. Eles davam um questionário, a gente estudava, era pra gente saber, vamos dizer, dez perguntas. Você tinha que acertar todas, se você não acertasse o pau comia. Então no meu tempo já era diferente, era aluno contra aluno, porque parece que teve uma lei que o professor já não podia bater. Foi baixada uma portaria, alguma coisa desse tipo, que o aluno, que o professor não podia bater. Eles colocavam aluno contra aluno. O aluno me perguntava, se eu errasse o aluno me batia, e assim vice e versa, sabe, era desse jeito.

Porque eu faço mais, eu sei fazer rosto humano, máscara, eu faço utensílio. Mas aqui no Centro eu direciono mais meu trabalho pras carrancas, porque é o que é mais procurado é as peças que mamãe fazia. Então o pessoal vem querendo as peças que ela fazia, a gente faz, eu faço mais as peças que ela fazia. Já a minha irmã, Ângela, ela faz outros trabalhos diferenciados. E eu considero ela não artesã, mas como artista plástica, só que ela não foi na Academia, não foi na Universidade ela não fez Belas Artes, mas o trabalho dela ela faz peças únicas. Eu faço mais peça em série. Como mamãe fazia. Ela faz carranca pequena, grande, média. Assim, carranca, mais carranca. As feições a gente muda porque não é uma fôrma, é da cabeça da gente que imagina e coloca, sai, caras diferenciadas. É uma carranca, mas ela não é igual, porque ela não é fôrma, não é feita em fôrma. É assim que trabalha.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+