Busca avançada



Criar

História

Fica a memória, ficam os traumas

História de: Rose Nogueira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Lembra-se do comércio se fechando e das lágrimas do irmão, que lamentava: “O Brasil acabou!”. O Golpe Militar que se consagrava diante de seus olhos, são hoje fonte para seu luto, mas também de luta. Recorda-se dos dias que, ao lado dos companheiros, foi cruelmente torturada, a ponto de sofrer sequelas físicas permanentes. Embora penosa, sua história é, até hoje, símbolo de resistência contra o autoritarismo.

Tags

História completa

P/1 – Rose, gostaria que você falasse o seu nome completo, por favor.

 

R – Meu nome completo é Rosemeire Nogueira.

 

P/1 – E a data e o local de nascimento.

 

R – Eu nasci em Jacareí, em 12 de fevereiro de 1946. Estou com 58 anos, sou de Aquário e fui presa aos 23 anos.

 

P/1 – No dia do Golpe onde você estava?

 

R – No dia 31 de março de 64 eu já trabalhava. Eu tinha 18 anos, estava no centro da cidade, e todo comércio, tudo, se fechou, e eu fui pra casa. Na verdade eu fui ver um emprego na Editora Abril, na Revista Intervalo. E aí fechou tudo e ele disse: “Vai pra casa, vai pra casa”, tomei o ônibus. Quando cheguei em casa, eu me lembro bem, não tinha nada pela TV, que eu me lembre, ou não estava ligada, mas pelo rádio a minha mãe, que gosta muito de política, estava escutando no Rio de Janeiro uma transmissão do Carlos Lacerda, horrível, que dizia: “Almirante Aragão, Almirante Aragão”, que estava rebelado o navio que não aceitava o Golpe, um almirante da marinha. Ele dizia: “Venha aqui porque você não passa”. Eu me lembro que eu me choquei muito, e chorei muito junto com meu irmão mais velho, achando que ia ser, realmente... Eu tinha 18 anos, estava conhecendo a política, e aí ele me disse: “O Brasil acabou! O Brasil acabou”. Ele chorava, e eu chorei junto com ele.

 

P/1 – E qual era o clima no Brasil, em São Paulo, antes do Golpe?

 

R – Antes do Golpe? Bom, nós somos esse povo lindo, alegre, gostoso, né? Ele vinha disso. Aqui hoje está o Zé Celso Martinez Corrêa, meu Deus, que tinha feito tanta coisa. Quando a gente vinha do CPC, dos Centros Populares de Cultura, o teatro no Brasil estava crescendo muito, a gente tinha uma alegria por ser brasileiro, impressionante. Tinha nos anos 50, eu era bem criança, mas me lembro da alegria de Brasília. Eu me lembro do meu pai em casa falar sempre assim: “É impossível construir uma cidade em cinco anos”. E agora a gente sabe que ela foi construída em três anos e meio. Aqueles desenhos de Brasília, a gente fazia no caderno, e quando ia pra praia, que ia em Itanhaém, via nas casas, eles colocavam aquela coluna de Brasília do Niemeyer. E era gostoso de ver, dizia: “Olha lá a casa de Brasília, a casa de Brasília”. A gente via, como criança, a vida brasileira acontecendo e já se reproduzindo. O Brasil era muito alegre. Foi a minha adolescência. E era uma delícia ser brasileiro. Ao mesmo tempo, eu estava no ginásio ainda, no colégio, quando o Jânio renunciou. Eu me lembro até do suicídio do Getúlio, que não teve aula e nós ficamos brincando em casa, com o uniforme mesmo, e acabamos brigando com a mãe, aquelas coisas. Me lembro perfeitamente: “O Getúlio se matou”, nem sabia o que era se matar. E aí, na renúncia do Jânio, eu me lembro perfeitamente de uma professora de Geografia que eu tinha, chamava Dona Elizabeth, eu era de colégio de freiras, ela ficou arrasada, arrasada. Eu me lembro perfeitamente, ela ia conosco no ônibus do colégio, o ônibus deixava ela em casa também. Ela ficou arrasada, dizia que não queria conversar, nem nada. E ela era hiper janista. Eu cheguei em casa, contei e meu pai falou assim: “Bom, isso também não ia dar em nada”, meu pai era contra o Jânio. Eu tive essas duas vertentes políticas no mesmo dia, na minha casa e na minha escola com a minha professora. Me lembro perfeitamente da história do Café Filho. Por quê? Por causa do nome dele, teve muita piada. Esse meu irmão mais velho era muito engraçado, e ele fazia piada: “café, cafezinho”. Me lembro também que teve alguém, que eu creio que ocupou a presidência da República por um dia ou dois, ou por um período muito pequeno, que chamava Carlos Luz. Eu espero que esteja falando isso, vou ter que conferir, porque estou tentando me lembrar dessas coisas, da minha vida na Vila Olímpia, um bairro aqui de São Paulo.

 

P/1 – Esse período do Jango no governo, como é que foi?

 

R – Do Jango? Aí, como meu irmão era muito interessado em política e era de esquerda − mas não creio que ele fosse militante de partido, que a gente soubesse... Do Partidão, nem nada −, fez muitos comentários em casa: “Agora vai, agora é das classes populares, vão sair as reformas de base”. Me lembro perfeitamente. E ele me ensinou que era muito bom pensar no coletivo.

 

P/1 – Nesses primeiros anos do golpe você já tinha uma atividade profissional dentro do jornalismo.

 

R – Sim, já estava começando no jornalismo.

 

P/1 – Como é que a imprensa reagiu?

 

R – Reagiu muito mal, tinha muitos companheiros que eram de esquerda. Acontece que a mídia sempre foi de direita, as empresas eram de direita. A gente fala “os jornalistas”, sempre achando que são aquelas pessoas que têm o grande poder. São pouquíssimos que têm isso, o dono do jornal tem o poder, e naturalmente ficaram a favor. Eu me lembro dos Diários Associados. Bom, eu fui trabalhar numa revista de programação de televisão, pequenininha, que chamava Intervalo. Não tinha muito a ver, mas a Editora Abril nessa época ficava na Rua João Adolfo, do lado do Largo da Memória, naquela ruinha que dá no Largo da Memória. Eu subia, e eu era muito foca, jornalista no começo é ridículo, eu queria ir conhecer os jornalistas mais velhos, de verdade (risos), então eu ia sempre nos Diários. Fora que lá funcionava a antiga TV Cultura, que pertenceu aos Diários, Canal dois. Então lá eu ia também colher a programação. E tinha a fila, se vocês consultarem a imprensa da época agora, forem ver os arquivos, a fila da turma do “Deem ouro para o bem do Brasil”, aquelas senhoras... A fila dobrava, pegava a Rua Sete de Abril inteira, dobrava aquela primeira rua... Como é o nome dela? Não sei, acho que é Conselheiro Crispiniano, ia lá até o Teatro Municipal. Todo mundo levando obturação de dente, aliança, anelzinho, levando as crianças para dar seu brinquinho. Ouro para o bem do Brasil, Assis Chateaubriand. Isso eu já vi como jornalista.

 

P/1 – E dentro da sua atividade profissional, de que forma o golpe agiu nessa carreira?

 

R – Foi terrível, porque veio a censura, muita gente foi embora, muita gente tinha medo. A censura nos jornais imediatamente foi muito grande, embora seja verdade o que muita gente diz, a ditadura foi pior a partir de 68, depois do AI-5, aí é que foi bravo mesmo. Porque ainda tinha certa coisa, e a imprensa, afinal, a imprensa era contra o Jango, então veio o Golpe, ela ia fazer o quê? Mas na verdade foram setores conservadores, a elite desse país aliada aos americanos, aos interesses americanos que fizeram a ditadura, e uma ditadura tão assassina. Porque aqui começou... De vez em quando a gente escuta assim: “Na Argentina”. Mas na Argentina morreram 30 mil, como se a dor de perder, de falar em número de pessoas. Não, eles se aprimoraram aqui, depois foram pra lá, depois foram pro Chile, pro Uruguai, Bolívia. Na verdade, era um grande plano pra dominar a América Latina. Eu acho que quando as ditaduras... Se a gente perceber bem, no início dos anos 80, quando a ditadura brasileira acabou, nós conquistamos a democracia, várias outras ditaduras já estavam acabando ou acabadas... Se bem que a do Chile começou em 73, mas tudo começou a ficar meio... Uma coisa esquisita. Por quê? Porque aquela ditadura podia ser substituída por outra, que é a econômica, que é a dívida externa. Em 83, o que se falou em dívida externa nesse país, a gente nem sabia que dívida, quem fez, como, tal. Agora se fala em dívida pública. Mas sempre o diabo da dívida, o diabo dos juros. Aí pagar juros, mas não paga a dívida, não amortiza a dívida, ela só sabe, agora ela está em dólar, o dólar não está legal. E nós continuamos pobres, como a gente é.

 

P/1 – Mas a carreira da senhora, teve alguma influência direta do golpe?

 

R – Você quer saber da carreira? Eu não posso me queixar, porque eu tive uma carreira linda, eu adoro jornalismo e acho que não tem profissão mais bonita (risos). Não é nem modéstia, eu acho ela bonita mesmo, acho a profissão mais bonita que tem, e graças a Deus, faz 40 anos que eu sou jornalista. Mas teve sim, eu fui presa. Eu fui do jornal Folha da Tarde. Depois, da Revista Intervalo eu fui trabalhar... Trabalhei lá uns três anos e eu fui para o jornal Folha da Tarde. O meu chefe de reportagem era o Frei Betto, era um deles. Tinha o Vicente Vicenbach, o Arlindo Mungioli. Eu era repórter de Variedades, porque eu vinha de uma revista de variedades, a Revista Intervalo, então eu fui cobrir Cultura e Variedades, que era o campo que eu conhecia mais. Lá eu me apaixonei pelo meu editor, que era o Luiz Roberto Closet. Nós já tínhamos uma militância legal, gostosa. Eu não posso dizer assim, sem muito aprofundamento, nós fizemos parte da base de apoio da ALN, Ação Libertadora Nacional. Antes de ir pra Folha da Tarde, ainda lá na Editora Abril, eu frequentei muitas reuniões do Partido Comunista Brasileiro. Depois, na ALN, eu fui encontrar muita gente que tinha saído de lá. Mas não é que eu saí, eu não fui uma militante, não posso dizer que tenha sido uma grande militante do Partido Comunista, eu só fui a algumas reuniões. Na ALN nós nos casamos e começamos a abrigar pessoas em casa. Fomos presos, inclusive algumas vezes o próprio Betto, o próprio Carlos Marighella, o grande cara desse Brasil que faz uma falta... O Marighella faz muita falta no Brasil. Bom, nós fomos presos no dia que morreu o Carlos Marighella, quatro de novembro de 1969, e eu tinha um bebê de um mês. O meu filho, que também chama Carlos em homenagem a ele, tinha 33 dias. Eu havia ficado 25 (dias?) no hospital, porque tive um rompimento de bexiga no parto, e foi uma coisa muito complicada. E aí, oito dias depois nós fomos presos pelo Esquadrão da Morte, pelo delegado Fleury e seus comandados. Fomos presos de madrugada. Quando o Fleury entrou no apartamento com uns dez, sei lá quantos, apontando revólver, espingarda − eles usavam umas espingardas − fui eu quem abriu a porta quando tocaram a campainha, porque naquele momento eu tinha ido à cozinha. Como eu fiquei 25 dias no hospital e tive essa cirurgia, eu tinha que completar com uma mamadeira pro meu filho, porque ele já saiu com uma receitinha. Foi de madrugada, tocou a campainha, eu abri a porta e foi isso que aconteceu. Bom, aí ele falou: “Vocês estão presos, vamos embora e tal”. Eu falei : “Não, porque eu tenho um bebezinho”. Ele falou: “Pensasse antes”. Eu falei: “De jeito nenhum, não vou com meu filho”. Ele falou: “Terrorista não tem que ter filho” “Não sou terrorista”. Ele falou: “O menino vai pro Juizado de Menores” “Não vai”. Ele disse: “Olha que eu vou usar a violência” “É o máximo que você pode fazer”. Até hoje eu me lembro como é que eu consegui ter esse diálogo com o Fleury. Até hoje. Eu acho que a única coisa que explica é o fato de você ter um bebê, o fato da maternidade. Mas eu consegui. E no fim ele falou assim: “Você vai”, eu falei: “Eu não vou!”. Ele tentou pegar no meu braço, eu vim pra traz, ele olhou pra mim e falou: “Tá bom! Então você fica, mas vão ficar dois aqui, e quem chegar aqui está preso”. Eu passei o resto daquela noite algemada numa cadeira, e quando o menino chorava eu podia ir ao quarto para dar de mamar. No dia seguinte eles vieram me buscar e fui levada pro DOPS [Departamento de Ordem Política e Social], onde meu marido já estava. Nós ficamos numa sala meio grande, subimos pra lá, inclusive eu vi o meu marido, tentei falar com ele, eles não deixaram. Subi e lá tinha vários companheiros, o Roberto Barros Pereira, o Bob, Manuel Moraes, tinha a Ana Vilma Penafiel, tinha vários. Tinha um que tinha o apelido de Marinheiro, não sei bem o nome dele. E aí o Fleury, de repente tocou o telefone, alguém atendeu e falou: “Ele entrou”. E aí, tinha uma vitrine cheia de espingardas, eles começaram a pegar aquelas espingardas e saíram correndo: “É agora! É hoje, é hoje, é hoje!”. E tinha inclusive duas moças sentadas no sofá, uma fez assim com a mão para a outra que estava tremendo, com medo. Por conta disso eu cheguei a achar que elas eram presas também. Não eram. Depois fiquei sabendo que eram policiais, e uma delas morreu na história. Saíram todos correndo, e o Fleury, que foi dos últimos... Foi uma correria, uma gritaria, ele dizia assim: “Leva eles, manda eles descerem, desce, desce”, quer dizer, pra gente ir pra cela. Ele virou pro Marinheiro e falou assim: “Onde é que tá Marighella?” e o Marinheiro falou: “Você não é macho? Vai buscar!”. Por conta disso eu vi a primeira pancadaria do DOPS. Ele arrebentou o Marinheiro de pancada, chutes e tudo, na nossa frente. Foi terrível. Ele falou: “Pois eu vou buscar ele, vou hoje, e a partir de hoje vocês não têm chefe, porque eu vou matar. Hoje é o último dia dele”. E saiu e matou. Então ele foi assassinado, o Marighella foi assassinado, e nós ouvimos isso, eles falando que iam matar ele aquele dia. E à noite, lá nas celas − eu fiquei numa cela chamada fundão com mais duas companheiras, a Ana Vilma e a Sebastiana − foi uma gritaria tão grande... Eles chegaram à noite. Batiam nas grades da cela, os policiais batiam, batiam, batiam dizendo assim: “Matamos o bicho! Matamos o bicho! Vocês não têm mais chefe, o Marighella morreu”. A cela que eu ficava era a última do fundão, e a daqui dava pra olhar da porta assim, o meu marido estava com um outro jornalista, que é o Zé Maria dos Santos. Eles estavam lá, eu cheguei na janela, desesperada, falei assim: “Mataram ele, mataram!”. Para me tranquilizar eles diziam: “Mentira, mentira! Não pode ter acontecido isso”. Fiquei no DOPS 50 dias, tive problemas muito sérios lá, passei por todas as coisas horríveis que todo mundo passou, inclusive levei uma injeção pra cortar o leite, porque um dos torturadores que me obrigava a mostrar os seios pra ele, ele dizia que atrapalhava. Era uma coisa terrível. Esses 50 dias eu fiquei sem tomar banho. Eu sangrava muito pelo parto, tinha a cirurgia da bexiga, teve isso e ficou junto comigo na cela uma moça chamada Vera Lúcia Nicoletti. Ela mora em São José do Rio Preto e eu tive a felicidade de encontrar ela esse ano passado. Eles quebraram a cabeça dela, ela tinha 19 anos e voltou da tortura desmaiada. Nós duas não sabíamos, nós nos correspondemos agora, nós não sabíamos qual de nós duas estava mais machucada. Nós não sabíamos, uma ajudava a outra. E um dia a Vera chegou desmaiada com a cabeça cheia de sangue. Era uma cela muito pequena, está lá ainda, agora virou museu, e eu nunca entrei, porque eu não vou entrar no DOPS nunca mais, eu nunca fui ver a peça de teatro lá, não vi nada. E tinha uma cama de concreto com um colchão de solteiro. Jogaram ela e ela estava inteiramente quebrada, mole, e a cabeça com muito sangue. Eu achei que ela tinha morrido, e comecei a gritar pros companheiros: “Ela morreu! Ela morreu!” e foi uma gritaria terrível. Eles vieram buscar ela daquele jeito e levaram embora, e eu nunca mais vi a Vera. No outro dia, nessas correspondências de e-mail, que vai o nome de um monte de gente, ela viu o meu nome e me escreveu assim: “Você é a Rose, aquela do DOPS?”. Eu quase morri, eu passei pra todos meus companheiros do Grupo Tortura Nunca Mais pros meus amigos, eu falei: “eu preciso dividir essa alegria, eu reencontrei a companheira que eu pensava que estava morta” (emocionada). Trinta e três anos depois a gente se reencontrou. E eu perguntava pra eles: “Cadê a moça? Cadê a moça?”, e eles diziam: “Ela está num quarto lá que é de descanso, dos investigadores”. E ela me contou, foi a única verdade que eles me falaram, ela ficou num quarto, depois foi levada ao hospital militar. E ela não sabe que anjo, ou o que aconteceu, que médico do hospital militar, não sabe quem, pegou ela e o marido que estavam arrebentados com muitas fraturas, colocou na rua, falou: “Vai embora, gente! Vai embora!”, e eles foram embora pra São José do Rio Preto. E agora ela se corresponde comigo. Vera! Que bom que ela está viva. Ela tem três filhos. Eu nunca mais pude ter filhos, eu fiquei estéril. Eu tive uma infecção puerperal. Também, aquilo tudo, aquelas sujeiras, torturas, eu nunca mais engravidei, tenho um só. Depois fui para o presídio Tiradentes, na véspera do Natal de 69. E aí tive prisão preventiva decretada, e o meu pai − que na verdade era meu padrasto e me criou desde os cinco anos de idade − foi me visitar. No Natal ele não foi, no Ano Novo ele sabia que eu não como bichinho (risos), até hoje. Eles tinham feito leitão assado, então ele mandou pras outras e pra mim levou um pedacinho de frango com umas farofas, ele adorava cozinhar. Ele já estava com problemas, o pessoal não me avisava. Quando ele soube da minha prisão, teve um enfarte. E quando ele foi me ver, no começo de março, ele morreu dois dias depois, não aguentou (emocionada). Então perdi meu pai também. A minha família ficou destroçada, e ainda fiquei quase um ano na prisão. Tive mais dois anos e meio para ser julgada. Eu saí num negócio que eles chamavam “menagem”. Vetaram essa palavra no Direito; existe, Lúcio? Menagem. O Lúcio é da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] e está aqui do lado. A menagem é assim, toda semana eu tinha que ir na auditoria, às sextas-feiras a uma da tarde, assinar um livro na auditoria militar. E não podia sair da cidade, não podia sair do estado, não podia viajar e não podia trabalhar. Eu trabalhava meio escondido, eu trabalhava numa revista que chamava Construção, em São Paulo. Construção, no Paraná, Construção, no Rio de Janeiro; fui trabalhar numa revista técnica para que não tivesse muito problema, exatamente na carreira, como você perguntou, para que não me achassem. Mas agora, pegando a ficha do SNI [Serviço Nacional de Informações], do atual Abin [Agência Brasileira de Inteligência], está tudo lá. Eles sabiam onde eu estava, tudo. E aí toda semana eu ia lá assinar. Uma vez eu viajei com a família do meu marido pra Ubatuba, eu fiquei nove meses, mas ele ficou um ano e oito meses, embora acusado da mesma coisa. E eu fiquei nessa menagem. Aí eu fui com a minha sogra pra Ubatuba, e com o bebê. Eu fiquei apavorada e quis voltar, porque eu falei: “Eles vão me prender de novo, eles vão saber que eu vim pra cá” “Mas como vão saber? Ninguém sabe, você está com sua família”. Foi terrível, terrível. Porque eu sabia que o fato de eu ir com a minha família até a praia em Ubatuba, com o meu filho, eu podia voltar pra cadeia. E voltar pra cadeia a segunda vez, todo mundo sabe o que representava, quase todo mundo morria. Eles diziam que você tinha fugido, que você tinha atirado, ou então você só desaparecia e pronto. E essa coisa foi, bom, eu fui julgada em 72, se não me engano, em novembro. E depois de tudo isso eu fui absolvida. Fui julgada, é o mesmo processo que os padres dominicanos, e que também falou da morte do Carlos Marighella. Depois disso eu fui absolvida, embora tenha passado por tudo isso. E eles faziam isso, eles diziam, pra não dar problemas futuros, afinal, você já estava condenada, você já estava lá, você continuava perseguido. No dia eu faltei no trabalho, durou três dias esse julgamento, foi muito noticiado pela imprensa, o Elio Gaspari usou as fotos no livro dele, falando. Eu faltei no trabalho, naturalmente, e saiu no Estadão, e tinha a minha foto lá no meio. Quando eu cheguei, o porteiro da Editora Pini, que fica no Bom Retiro, me disse: “Dona Rose, eu gosto muito da senhora, mas eu não posso deixar a senhora entrar” “Por quê?” “Eles disseram que a senhora é terrorista e estão correndo um grande perigo aqui. Se a senhora quiser entrar eu tenho que chamar a polícia”. Então um dia depois que eu fui absolvida, fui ameaçada por uma empresa onde eu trabalhei, e fui demitida na rua pelo porteiro, como terrorista. Essa perseguição prossegue na carreira. Depois eu acabei indo pra TV, fui trabalhar em várias coisas. Eu fui trabalhar na Editora Abril, depois disso foi a Revista Quatro Rodas que me chamou. De lá fui trabalhar nos fascículos da Abril, na enciclopédia Abril. Da Abril eu fui pra TV Cultura e fiquei lá até o dia que também mataram um dos meus maiores amigos, meu professor, que foi o Vladimir Herzog. Ele morreu e eu não voltei mais pra lá. Fui pra Campinas, tentei sobreviver lá − porque era a terra do meu marido −, mas não deu certo. Voltei, fui trabalhar na TV Globo. Aí na TV Globo eu tive a proteção do Carlito Maia, que era irmão da Dulce Maia, que ficou presa conosco também. A Dulce foi presa antes de mim, padeceu muito. Ela era da VPR [Vanguarda Popular Revolucionária]. O Carlito ia visitar a Dulce, portanto a gente se conhecia, além de tudo ele também era da Vila Olímpia. Quando eu cheguei na TV Globo, ele me protegeu muito. Tanto que eu cheguei procurando emprego... Porque eu morei em Campinas um tempo, não dava nem pra sobreviver, não tinha dinheiro, não tinha nada. Aí vieram me dizer, era no meio da semana: “Olha, segunda-feira você já vem e pode começar no Jornal Nacional”. Eu virei editora do Jornal Nacional. Na TV Cultura eu era editora de Internacional, com o Vlado. Cobri a Revolução Portuguesa, que também me deu uma grande emoção, cobri a Revolução dos Cravos. E aliás, depois um dia eu conto pra vocês histórias ótimas da imprensa na Revolução dos Cravos, porque foi a revolução mais alegre, coisa mais engraçada que alguém já pôde ter vivido, alegria de felicidade. E aí fiquei na TV Globo, e bastava que eu não falasse nada. O Carlito me falou: “Não dá entrevista sobre isso, não fala isso”. Os meus colegas sabiam, mas não passavam lá para a Globo no Rio, não passavam praqueles chatos. Como eu fui eleita para o sindicato, também tinha uma vida sindical, então o que eles fizeram? Me botaram na reportagem para eu ficar na rua. Eu era repórter especial. Eles que me falavam isso, porque eu era editora, eu ganhava um pouco mais do que os repórteres mesmo. E lá ia eu. A Helena de Grammont já trabalhava nessa época, o Monforte, o Tramontina, o Cabrini é dessa época, tem muita gente ainda. E eu fui ser repórter. Só que o chefe de reportagem sabia da história, e o que ele fazia? Ele era um cara assim: “Isso não pode, aquilo pode”, tinha autocensura. Bom, eu participei de todas as campanhas que existia do CBA, do Movimento Feminino pela Anistia, com a Terezinha Zerbini, que também é minha companheira de cadeia. O movimento começou na casa dela com a dona Zelda, mãe do Alípio e a dona Dinda, mãe do Manoel Cyrillo, que ficou preso dez anos. E como nós éramos vizinhas, ali perto do Pacaembu, ela veio lá em casa pra procurar assinatura, por acaso eu fui a quarta. Eu participei de todo movimento da anistia, mas aí teve um dia antes de chegar na anistia que a madre Maurina − vocês devem já ter ouvido falar − estava no México, era banida, resolveu voltar pro Brasil e ser julgada. Ela falou: “Eu quero ser julgada”. A madra Maurina era de Ribeirão Preto, foi presa com o pessoal de Ribeirão Preto. E eu então pedi a esse chefe de reportagem, eu falei: “Olha, você não me põe na cobertura da madre Maurina, troca o meu horário porque eu sou amiga dela e eu quero ver o julgamento dela, eu vou assistir como amiga”. Ele sabia.  Aí eu fui mandada pra cobrir o

julgamento da Madre Maurina, pela Globo. Eu tinha explicado: “Vocês sabem da minha vida, nós nos cruzamos na prisão”. E ela sabia que eu tinha leite, então ela recomendava. Eu estava numa cela e ela na outra − isso já no Tiradentes − encontrei a madre Maurina. Ela era enfermeira, e nós tínhamos uma leiteira, daquela que põe uma resistência dentro pra esquentar água. Então ela recomendava − porque eu fiquei com o seio todo empedrado por conta da injeção que eu tomei pra cortar o leite −, dizia assim: “Faz compressa com água quente”. Todo mundo ficava fervendo aquela água toda hora pra fazer compressa nos meus seios. Eu falei pra ele: “Eu não quero fazer isso”. Mas eu fui fazer a cobertura da madre Maurina, e ele ainda me deu uma outra matéria pra fazer depois, que era o fim da Salada Paulista, um bar que era muito interessante ali na Avenida Ipiranga com a São João, perto ali, mais na Ipiranga, onde serviam cachorro quente, umas coisas assim. E era um bar considerado folclórico, era o último dia deles e ia perder o bar pra um fliperama. A matéria chamava-se “Final dos tempos”. Eu tinha que entregar a fita pro motoqueiro lá na auditoria militar depois da matéria da madre. Ele levou a matéria pra Globo, era filme, não era VT ainda, acho que ainda era preto e branco, não tenho certeza, porque a Globo usava os dois. Eu entreguei a fita pro motoqueiro e fui pra matéria da Salada Paulista que ficou um horror, eu não sabia o que eu estava fazendo na Salada Paulista. Eu estava arrasada. Eu fiz lá uma droga de matéria e voltei para o jornal. Cheguei lá, tinha uma entrada na Globo aqui na Praça Marechal Deodoro, a porta assim dava direto para a sala da Moviola, porque era filme. Eu entrei e eu ouvia a minha pergunta pra madre Maurina. Era assim: “O exílio foi duro, madre?”, e volta. Era o Maurinho, o montador: “O exílio foi duro, madre?”. Eu entrei e falei: “O que é? É a minha matéria”. Aí esse chefe de reportagem falou: “Não, eu estou aqui escutando pra ver se você perguntou ou afirmou que o exílio foi duro, porque se você afirmou, são outros 500”. A essa altura eu já tinha uma boa situação profissional, eu fui na minha máquina de escrever e bati uma carta de demissão. Entreguei na Globo e daí uns três, quatro dias o Carlito Maia me ligou, brincando comigo: “Sua demissão não foi aceita. Você espera um pouco que nós vamos falar com você”. Acho que durou um mês, aí ele me ligou e falou: “Procura o Nilton Travesso no teatro”, Teatro era uma parte do lado ali da Globo, uma parte era jornalismo e a outra tinha um auditório onde antigamente fazia o Programa Silvio Santos, ele tinha saído da Globo e tinham que aproveitar esse espaço. “Procura o Nilton Travesso”, eu não conhecia. “Vai lá que tem um negócio novo pra você”. Isso o Carlito. O Carlito e o Sinval Itacarambi, que também foi preso comigo, que hoje em dia é dono da Revista Imprensa e trabalhava na Globo nessa época também. E o Carlito também protegia ele. Eu fui falar com o Nilton Travesso, sabe o que eu acabei fazendo? Ajudando a criar um programa que só me orgulha, até hoje estudado pela Comunicação, chamado TV Mulher. Entrou a Marta Suplicy no ar nesse programa pela primeira vez. O único programa onde o Henfil fez os seus cartoons animados. Eu era a editora, diretora, escrevi inteiro, fazia carta pra um, pra outro. Botamos a questão do Direito, da Cidadania, da Anistia no ar, porque, não que a Globo fosse boazinha, mas ela queria se desligar dos militares, ela era muito ligada, não diretamente aos militares, mas ao sistema. Então a ordem que eu tinha normalmente era assim: “Manda a ver”. E eu mandei ver mesmo. Foi a TV Mulher que eu fiz o maior prazer da minha vida, ganhamos não sei quantos prêmios, porque a gente fazia com uma felicidade... Éramos poucos, todo mundo que é de televisão sabe dessa história. Houve uma pesquisa que apareceu nessa época que dizia: “Mulher é de oposição”, então bota aí para as mulheres, o programa. Consegui fazer o meu segundo programa em termos de criação, acabei não dirigindo ele muito tempo, trabalhei bastante nele, que foi o Balão Mágico, talvez alguém aqui tenha crescido ouvindo as histórias que eu escrevia. E aí tive uma carreira, como eu já te falei, que eu não posso me queixar. Então eu fui presa, estava no jornal. O Vlado morreu no jornal. E na Folha da Tarde, nós tínhamos um grande, grande amigo, colega, chamado Luiz Eduardo Merlino. Ele foi um dos primeiros mortos, em 71, primeiro jornalista morto. Ele estava na França, quando voltou foi preso e morto. Então, até hoje − hoje faz 40 anos −, eu acho que essa gente faz muita falta. Eu acho que essa gente está fazendo muita falta, tem muita gente fazendo falta. Tem o Chael, tem o Laurizinho, tem o Fleuryzinho. Chamava Fleury, Carlos Eduardo Pires Fleury, tinha por acaso o mesmo nome do assassino. Teve tanta gente, teve o Eduardo Leite, Bacuri... Sabe o que aconteceu com ele? Ele estava no DOPS e deram pra ele o jornal, isso está no livro “Tiradentes, um Presídio da Ditadura”. Deram a ele o jornal que já noticiava a morte dele. Ele estava vivo, morreu dois dias depois. Ele leu a notícia da morte dele no jornal. A crueldade chegou num nível que nós até hoje temos essa herança nas delegacias. E muitas vezes, de gente que acha que é isso mesmo. Não gente, não é isso mesmo. O homem nasce bom, o homem nasce sozinho, mas é solidário. O homem é um bicho gregário, nós nascemos pra sermos felizes, não nascemos pra essa desgraça. Então eu, enquanto viver, até o meu último dia, eu vou estar batalhando pelos direitos humanos, não interessa onde, não interessa como, mas eu estou lá, certo? Então essa foi. Você perguntou da minha carreira, por isso que eu misturei, mas é que a prisão entrou na minha carreira. Até a parte legal, que foi a segunda fase da minha carreira na Globo tem a ver com a cadeia, porque foi o Carlito Maia... Eu devo a ele, poder ter feito a TV Mulher junto com as outras pessoas. A criação original é do Nilton Travesso, depois eu desenvolvi. Poder ter conhecido gente tão legal. E ele me protegia mesmo. A gente trabalhava dobrado, respondia trabalhando dobrado. Eu tive uma carreira muito feliz, depois passei por Record, Bandeirantes, fui diretora de jornalismo. Hoje em dia eu sou assessora de uma pessoa que eu considero importantíssima nesse momento, em todos os momentos, que é o Senador Eduardo Suplicy. Então eu me considero meio privilegiada. Estou aqui com 58 anos, meu filho está criado, esse menino que eles levaram lá duas vezes dizendo que iam quebrar a perna. Levaram meu filho com minha sogra duas vezes. Ele está criado. Ele tem 34 anos e é um grande brasileiro. Eu sou uma brasileira que acompanhou a história e vai continuar acompanhando, e diante de qualquer autoritarismo, para um animal, pra uma pessoa, que fira a dignidade, eu vou lutar. E acho que a gente tem que lembrar também que os torturadores, essas pessoas, quando fazem isso, elas estão se condenando, se machucando. São pessoas que precisam sei lá o quê. São mercenários, naquela época mercenários, e eu gostaria que vocês vissem o processo da ALN onde, depois da morte do Marighella, eles pedem promoção na polícia por mérito. E o Fleury foi condecorado por mérito. Ou seja, como a lei reconheceu que o Marighella foi assassinado, eles estão lá, são, portanto, assassinos confessos, são todos assassinos.

 

P/1 – Rose, muito obrigado pelo depoimento.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+