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História

Ferramenta de mudança

História de: José Eraldo da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

José Eraldo da Silva, mais conhecido pelo comércio ambulante do Brás como "Ferramenta", saiu de Itabaiana, Sergipe, para ganhar a vida Brasil afora. Foi vítima de regimes de trabalho escravo no interior de São Paulo mas, como sempre teve o gosto pela leitura, formou-se politicamente e aderiu a um partido comunista clandestino durante a ditadura, militância que o ajudou a sair dessa situação. Mudou-se para São Paulo definitivamente com dezenove anos e começou a trabalhar em feiras e como ambulante. Sua profissão é essa até hoje, e Ferramenta conta um pouco sobre os percalços e dificuldades de ser camelô na cidade grande. 

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História completa

Me chamo Antônio José Eraldo da Silva, sou nascido na cidade de Itabaiana, em 12 de agosto de 1940. Aqui no Brás me chamam de Ferramenta. Normalmente, no meio dos ambulantes ninguém se conhece por nome, é sempre por apelido. E ninguém sabe o endereço de ninguém. Eu vou dar meu endereço para quê? Só por curiosidade. Não precisa. Se houver a necessidade, tudo bem, eu levo até a pessoa em casa. Mas não tem precisão, não tem necessidade.

 

Da minha infância em Itabaiana tenho alguma lembrança: o quintal, a casa que era enorme. Aqui em São Paulo a gente passou a morar em um banheiro. Lá o quintal era enorme, a casa era enorme: tinha quarto, tinha corredor, tinha sala, tinha varanda. A cozinha tinha despensa. Nessa cidade onde eu morei essa casa era grande, tinha um terreno do lado, tinha uma porção de tipos de árvore: mangueira, cajueiro, mamoeiro. Eu via cantar passarinho, via flores, era um porção de coisa que a minha mãe cuidava. Até uma cabra para tirar leite tinha. 

 

Quando eu estava com cinco ou seis anos já vim embora. Mas me lembro de quando eu cheguei no Rio de Janeiro. Meu pai nos levava para passear. Eu conheci o Pão de Açúcar, o Corcovado, esses lugares no Rio de Janeiro. Muito bom de praia. Fomos a Santos também. Morei em Santos. Quero dizer, cheguei a morar em Santos. No Rio moramos no Méier e depois em Duque de Caxias. Até hoje minha irmã tem casa lá. Meu pai deixou [a casa] em São João, onde mora minha irmã e meu irmão. Depois eu voltei e fiquei em Aracaju. Saí fora da família, com catorze anos, e isso foi um problema porque meu pai e minha mãe ficaram preocupados. 

 

Mas eu saí fora porque eu não conseguia disciplina. Meu pai dava ordens, minha mãe dava ordens e eu não achava bom. Eu ficava sozinho. Fiquei sozinho. Então eu fui para lá. Em Aracaju morei com parentes e não deu certo. Depois eu vim para o Rio de Janeiro, aquela insistência, mas não me acostumei a morar com a família, só me acostumei sozinho. Eu sozinho consigo pensar, consigo saber o que fazer. Agora, se eu fico controlado... Eu não conseguia. Quando eu voltei para Aracaju, foi muito bom porque [tinha] uma pessoa que cuidava de mim, a Iolanda. Então eu pude ler um pouco mais, eu pude desenvolver o gosto pela leitura. Foi onde desenvolvi o gosto pela leitura. Eu trabalhava, mas a ajudava no serviço que tinha na livraria que tem em Aracaju, na rua Goiás. E o livro que eu queria eu pegava, encapava e lia. Ali mesmo eu conheci o espiritismo kardecista — apesar da livraria não ter nada a ver com o centro [espírita]. Vendiam todo e qualquer livro. Pela a convivência com pessoas diferentes eu mudei todo meu modo de pensar. Mudei meu modo de pensar porque eu experimentei fumar e imediatamente eu deixei de fumar. Fumei para ser homem, depois deixei para ser homem. Eu comecei a mudar e a inverter tudo. Tanto que eu digo que a coisa mais difícil é o homem ser homem, porque na formação física que a natureza fez, todos são machos. Mas na maneira de tomar decisão a maioria do povo não é. Eu li “O livro dos espíritos”, outros livros espíritas e coisas que ajudaram muito na minha formação. 

 

Mas a escola mesmo, eu entrei tarde, com catorze, quinze anos. Escola pública, noturna. A pessoa que cuidava de mim, lá em Aracaju, a Iolanda, falou assim: “Você não vá para o Rio de Janeiro nem para lugar nenhum”, porque lá o pessoal só falava do Rio, não falava de São Paulo. “Você não vai. Você primeiro estuda, faz o curso primário, aprende datilografia, fica quite com serviço militar. Ou serve ou pega o documento e vai embora. Você chega lá e ainda é menor, ninguém vai querer lhe dar emprego. Lhe dão emprego mas não registram na carteira”. Pela insistência da minha família eu vim para o Rio. Resultado: não conseguia emprego com carteira registrada, não consegui conciliar trabalho com estudo. 

 

Lá em Aracaju eu conseguia trabalho e estudo porque a cidade era pequena e tudo era perto. Eu só pegava condução para trabalhar e voltar se eu quisesse, senão tudo dava tempo. Eu podia ir em reunião porque lá eu tinha vida social, ia no centro, na Mocidade, ia para a praia. Tudo ficava perto, tudo fácil. Muito lugar em que a gente andava não tinha condução. Não precisava tomar condução. E não tinha tanta condução como deve ter hoje. Mas era fácil, eu conseguia conciliar as coisas. Aqui em São Paulo eu não consigo conciliar trabalho e estudo porque passa uma hora, uma hora e pouco dentro da condução, tem greve de condução, o salário e a moradia. Quando eu estava sozinho eu pensei: “Poxa, eu vou estudar”, mas então não estudei porque eu trabalhava nesse serviço, e ser ambulante é um serviço inseguro. Ficar correndo do “rapa”, perder mercadoria e tem e o prejuízo. Então eu inventei a ideia de casar. (risos) Namorar é uma coisa pesada, uma responsabilidade pesada. Aí é que não dá mais para estudar, de jeito nenhum. Fica complicado, em casa: “Precisa disso, falta isso, dá dinheiro para isso...”, parece que fura a nossa cabeça. Eu leio porque respirar é uma necessidade temos. Comer, se alimentar é uma necessidade, então ler para mim é a mesma coisa. Eu fico sem ler e me sinto depresso. Eu acho uma irresponsabilidade deixar de me alimentar ou querer não respirar porque eu vou morrer. Eu acho uma irresponsabilidade para mim não ler porque já tenho um conhecimento e o conhecimento é uma responsabilidade. Não posso deixar de ler.

 

Quanto a minha vida profissional de verdade, ela começou em 1959, quando vim para São Paulo pela primeira vez. No dia primeiro de janeiro de 1959 entrei em São Paulo. No trem conheci um miserável igual a mim que falou assim: “Você vai para onde, hein?” Ele me pegou e falou: “Ah, vamos para um albergue” Fomos para o albergue e nunca mais eu vi a pessoa. No dia seguinte eu fui para Imigração, na Rua Almeida Lima e fui para o interior. Imediatamente me mandaram para o interior.

 

Eu e mais vinte homens chegamos na estação, ficamos lá, e à noite vieram nos buscar. Esperamos o dia todinho. Uma pessoa já de tarde chegou, saiu de lá, e pediu para nos trazer café e pão. A gente tinha acabado de tomar café e chegou um homem para nos levar no caminhão para Fazenda São Pedro, no município de Irapuã. Propriedade de Manoel Pedro Reverendo Vidal, que dizia morar em São José do Rio Pardo. Mas não pagava ninguém.

 

Lá eles davam uma refeição e ainda diziam: “Quem quer mais, volta para buscar.” Esse trabalho da Imigração, ou particular ou por parte do governo, foi um negócio bom. Quando mandavam para fora cada um fazia o que queria. Sem experiência, eu aprendi muito como peão. Então eu aprendi que as pessoas não sabem tomar decisões. Porque o homem bravo ou seja lá o que for: tem que ser inteligente, tem que ser sabido. Não adianta ser bravo. Lá fora a gente era valente um para o outro, era bravo. Mas quando chegava naquele que mandava, que dava ordem, então não fazia nada. Saía de lá e apanhava. Trabalhei num lugar em que eu apanhava. Se eu fugia eles iam atrás, pegavam, traziam, batiam. Eu dormia amarrado. Não queriam que saísse. Era para trabalhar, não era para sair. Se saísse, eles iam atrás.

 

Se hoje em dia eu trabalhasse em lugares assim, iria procurar a autoridade certa para denunciar. Ainda hoje existe muito trabalho escravo. Eu até gostaria que o acaso, que as circunstâncias, me levassem a um lugar de trabalho escravo assim, onde eu já passei, que eu já vi na televisão, no jornal. Eu não tenho medo. Se eu saio procurar uma autoridade certa para denunciar. Como eu já procurei e já aconteceu. Eu trabalhava em um lugar, dava parte porque não recebia e me falavam assim: “Você já pegou o que é seu e saiu de lá? Se não pegou vá lá pegar e vá embora, porque se vier reclamação contra você, você vai ficar preso e vai apanhar”. E eu não recebia o dinheiro, eu ia agir. Eu li muito aquele livrinho de bolso de FBI. Eu li muito, e aquilo põe muita coisa dentro da cabeça da gente, muita minhoca. E a minhoca sai pulando no chão (risos). Então se eu caio em um lugar desses, eu não tenho medo! Vou falar a verdade e dou endereço.

 

Com dezenove anos eu me fixei aqui em São Paulo. Em outubro de 1970 eu parei em São Paulo. Aqui eu dormia sempre aqui no Brás, nas pensões aqui do Brás. Eu passei a morar numa vaga mensal na Vinte e Cinco de Março. E de lá eu vim pro Brás e fiquei. Eu também trabalhei e morei em São Bernardo, ficava vendendo na portaria da Volks. Fiquei uns quatro meses em São Bernardo, me mudei para Santo André e depois vim para cá e parei na Gomes Cardim. 

 

Eu ficava procurando emprego, ficava na Praça da Sé, na Praça do Patriarca, conversando, discutindo política. Neste mês uma pessoa chegou e me falou que eu tinha que trabalhar na feira, que ele me ensinava  a trabalhar na feira e que eu tinha que esquecer esse negócio de ir para o mato. Eu trabalhei com essa pessoa dois meses, depois eu passei a trabalhar para mim. A pessoa me pagava. Um dia, nas feiras. No outro dia, nas feiras livres, eu vendia bijuteria. Depois de bijuteria, passei a vender carteiras, limpeza em geral e ferramentas.


O interessante é que quando eu comecei trabalhar, o pessoal do “rapa” se concentrava no Largo da Misericórdia, na Rua Direita e na Praça Patriarca. A gente estava trabalhando e quando o “rapa” vinha os antigos já sabiam. Ficavam sempre na expectativa, tinha olheiro. Mas o olheiro nem sempre acertava. Os caras, imbecis mesmo... Desses que se dizem fiscais mas que não são bem fiscais, são ajudantes. Ficam no escuro à noite. De primeiro ficavam na cidade, no Largo da Misericórdia, na Praça do Patriarca, até dez, onze horas, porque não tinha perigo. Hoje em dia não dá, nem tem motivo para ficar mais. Eles se concentravam muito ali à noite, e eu também, então eu ficava conhecendo eles. E meu colega falou: “Olha, esse aí é o cara...” Eu ficava conhecendo os que iam a nossa feira e os que não iam, mas depois a gente acabava encontrando eles em outra. Quando eu entrei na feira, como era bijuteria, eu tinha meu jeito de sair fora, me safar. Quem já era conhecido deles... Eu levei uns dois meses ou quatro para ficar bem conhecido, e não fiquei muito conhecido em toda a feira. Então quando fiquei conhecido deles e eles vinham, eu saía fora. Às vezes eu passava por eles, carregava cigarro no bolso e um isqueiro, porque eu vendia cigarro. Mas não era pra acender, ele não acendia. Eles chegavam, eu estava com a mercadoria na sacola, no braço assim. Então eu parava na banca de fruta e perguntava: “Quanto é isso e aquilo?” Chegava, pedia para alguém, eles iam lá. Os caras até acendiam meu cigarro...

 

Se eu não trabalhasse nesse serviço já teria morrido de fome. Eu comecei a me interessar por política, comecei a ler. Lia jornal todo dia, lia um livro, ia na Biblioteca Mário de Andrade para ler. De 1984 para 1985 foi que eu me liguei num partido clandestino, o POC. Partido Operário Componente. Porque no partido eram as duas classes que produzem: a classe operária, que produz tudo o que todo mundo usa; e a classe camponesa, que produz o alimento. Sem essas duas classes, não tem nada, não temos nada.

 

Até hoje eu trabalho com a mesma coisa. Só que na feira, quando a Erundina entrou na Prefeitura, ela liberou o pessoal pra ficar na rua. Então não deu para ir na feira. Porque se ia à feira, não vendia nada. Então eu ficava na rua, porque na feira não vendia mais. O pessoal encontrava na rua. Está passando, está encontrando. Está mais fácil. Então na feira perdia tempo. Voltei ficar na rua novamente. 

 

Para escolher o lugar onde a gente vai ficar, a gente chega, olha e fica. Em frente ao Largo da Concórdia, umas duas vezes o “marreteiro” de lá me fez sair. A mercadoria é totalmente diferente. Uma vez eu abri um paraquedas no chão, que é um plástico de mercadoria, e me fizeram sair de lá. Na outra vez, eu estava com a mercadoria na mão, extensões, e me fizeram sair, mesmo mercadorias diferentes. Eles não querem, fizeram isso comigo. Eu tenho um amigo, um conhecido que vende milho e, quando não é milho, ele vende cocada. Atualmente está vendendo cocada. Puxaram o revólver para ele, para tirar o carrinho dele de lá. É a máfia dos poucos “marreteiros”. Só que nessa rua em que eu trabalho qualquer um chega e ninguém diz nada. As mercadorias a gente pega tudo na Vinte e Cinco de Março. Naquelas lojas da Vinte e Cinco. Hoje eu vendo carteira, cigarro, cortador de unha, cabo de gravador, extensão , esse tipo de mercadoria.

 

Ali no Parque Dom Pedro, antes de ter a Erundina como prefeita, a gente só trabalhava na feira e nas construções. Mas veio o desemprego. Por isso ela deixou ficar na rua, pelo desemprego. Porque muita gente que está trabalhando de vendedor é porque não tem emprego. Tem pessoas que têm profissões, mas não têm emprego, não acham emprego. Naquela rua mesmo, tem um que foi mestre de obra. Um que estava bem pra cá da loja da esquina, que falou comigo. Ele é mestre de obra, mas está trabalhando de vendedor ambulante porque não tem emprego. E assim é muita gente. Eu, por exemplo, na idade de sessenta anos. No Brasil começou cair cabelo branco ou passou de trinta anos, não tem mais emprego. Então vai fazer o quê? 

 

Temos que ficar num lugar onde a gente se mexa, faça alguma coisa que faça crescer. Então a gente vai ter imaginação, pensar, sair desse movimento agitado da cidade. Eu me sinto inseguro, sempre me senti, no meu trabalho. Não porque estou na cidade, mas pelo meu trabalho em relação à prefeitura. Falam que o camelô, o ambulante “é ladrão, é contrabandista, é contraventor, ele não paga impostos.” É nos jornais, o pessoal da política que fala que “não paga imposto, é ladrão.” Poxa, não tem condição. O sapo pula por necessidade. A pessoa precisa fazer alguma coisa. Vêm eles e impedem. 

 

Uma vez me propuseram tomar conta de um sítio. Eu não sei o tamanho dele, nunca perguntei, mas também não fui para lá. É de uma irmã minha que mora no Rio. Ela é professora, o marido é professor e me falou assim: “Você trabalha lá, toma conta. Eu registro a carteira, pago o salário mínimo e dou a cesta básica. E o que produzir lá fica dividido para a gente. Metade para você e metade para mim, e pelo estudo da sua vida a gente se responsabiliza. Lá tem escola perto. Eu ponho telefone lá e deixo o carro para você.”  Eu quero ir até hoje. Porque iria sair desse serviço que estou e achar um serviço em que eu ia me modificar. Garanto que eu ia ficar mais sabido e ia me renovar mais, ia aproveitar mais o tempo para ler, trabalhar. O negócio é o seguinte: eu vou trabalhar em que na cidade? No serviço meu não tem segurança. Hoje está trabalhando, amanhã perde a mercadoria e não trabalha. Como em no Ribeirão Pires, Mauá, Santo André, Suzano, São Caetano... O que eles fizeram é aquilo ali e depois não entra mais ninguém. Não deixam, é um serviço que não tem segurança. De uma hora para a outra eu viro um pedaço de ferro obsoleto no mundo. Se eu estou num sítio, está certo, é garantido.

 

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