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História

Férias na Grécia: Ninguém Aguenta!

História de: Emmanoel Anargyrou
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/06/2022

Sinopse

O entrevistado conta como, depois de enfrentar as agruras de duas guerras no país natal, migra para o Brasil com os irmãos e mesmo com grandes dificuldades impostas pela diferença cultural e pela língua, consegue fundar uma metalúrgica e depois outras empresas. Também constitui família.

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História completa

Eu nasci em Atenas, 1934, o nono filho. O meu pai  já trabalhava com táxi, ônibus, eu tenho fotografia com ele no primeiro ônibus de Omonia-Patissia, isso em 1934. Veio a guerra em 1940.

1942, 1943, eu já com nove anos. E uma passagem muito engraçada foi no Natal de 1942, o sindicato do meu pai, marinheiros, mandou uma lata com batata cozida, ela não chegou até a sala de jantar, no primeiro quarto, eu me sentei, peguei uma batata, descasquei, comi, quando fui pegar a segunda, “cadê as batatas?” Meu irmão perguntou, “que batatas? quantas você pegou?” “Peguei uma!” Mas porque uma?” “E que eu sentei, descasquei…” “Ah, você descascou? Nós comemos com a casca e tudo.” Mas nunca fui briguento, não era de reclamar . E foi assim, alguns anos de dificuldade, ficar deitado com o estômago vazio. Aí veio a morte pela fome do primeiro irmão, depois do segundo. E quando meu pai voltou em 1945, depois do fim da guerra, já tinham morrido pelo menos dois. Logo depois veio a guerra civil da Grécia, lá vai meu irmão servir no exército, foi pego lá na Ilha de Creta pelos Comunistas, levaram na montanha e numa dessas batalhas entre direita e esquerda, ele se feriu e preferiu atirar na cabeça para não ter que cair na mão dos comunistas, aí seria decapitação, muito pior, isso foi em 1947.

 

Com essa morte já saíram três. Aí um irmão com essas dificuldades todas, ficou doente e morreu também, aí foi o 4°. Resolvemos vir para o Brasil, os cinco irmãos restantes, porque 1949 eu estava lendo livros de psicologia para ver “no que eu vou trabalhar.” A única esperança era o serviço militar, então  me candidatei para a força aérea grega, eram 360 candidatos para 36 lugares. Eu tinha feito um pouco de inglês e esperava ser um dos primeiros colocados, quando chegou nos 40, faltava tirar quatro. Eu achando que  já tinha passado, não escrevi quase nada na última prova, que eu não lembro qual era. E quando  entrei para escrever geografia, ou inglês, que não era obrigatório, “Anargyros está eliminado.” Foi a única vez que eu chorei na vida, mas gostei de chorar, com lágrimas. Não chorei com a fome, não chorei com a morte dos irmãos, não chorei quando meu pai faleceu. Em 1952, eu já estava quase com 16 anos, 18. E desesperado, o meu irmão mudou para o Brasil, e sem saber o que fazer depois dessa eliminação desta prova, eu vim para o Brasil.  Comemorei os meus 20 anos no dia do desembarque em Santos, depois de uma viagem feliz entre outros imigrantes, com todas as esperanças, cantando, batendo palmas. Outros, vindos lá do Oriente Médio, Sírios, Libaneses e Gregos. Então foi uma viagem divertida, esquecemos um pouco as misérias e chegamos a Santos, primeira pergunta, “o que eu vou fazer? Tô com dois dólares, não tenho profissão, só sei falar grego, não tenho capital, o que eu vou fazer?” Meu irmão falou, já estava aqui há seis meses, “o que você quiser”. Imagina, depois de você ter procurado durante quatro anos, os últimos jovens, para ver o que eu vou fazer na vida, que era tudo difícil e impossível, chegar aqui e alguém te dizer, “você vai escolher o que você quiser.” Aí começou outra etapa. Abril de 1954, junto com outros imigrantes gregos, muitos amigos.

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