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História

Feng Shui da boa sorte

História de: Mestre I Ming
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2022

Sinopse

Nesta entrevista, I Ming conta sobre sua vida na China, a chegada ao Brasil, sua vida profissional e como se tornou consultor de feng shui.  

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História completa

P1 – Oi, senhor Ming, tudo bem com você?

 

R - Tudo bem. Obrigado pela entrevista!

 

P1 - Ah, imagina, obrigada o senhor. A gente começa pelo básico, que é: qual é o seu nome, o local e data de nascimento.

 

R - Tá. Meu nome é So Ching Ming. Data de nascimento, eu nasci em Taishan, Guangdong, na China.

 

P1 - E qual é o nome dos seus pais?

 

R - So Yuen Chung. Também são três sílabas.

 

P1 – E da sua mãe?

 

R - So Tam Fun Kai .

 

P1 - E o que eles faziam, de ocupação, de atividade, trabalho?

 

R - Ah, é uma história muito longa, tá? Meu pai, né, aí tem _____ com o partido… de política da China. A China era dominada por um partido, que se chama Partido Nacionalista. Aí, meu pai era funcionário do governo, desse Partido Nacionalista. Aí, depois, vem a revolução da China. Então, quem ganhou como governante foi o Partido Comunista. Meu pai era funcionário do governo, trabalhava na alfândega, tá? Minha mãe é dona de casa.

 

P1 - E seu pai era funcionário do governo desde criancinha? Desde que o senhor era criança?

 

R - É, meu pai ficou entre a revolução, aí, meu pai teve que fugir da China, eu tinha aproximadamente uns cinco ou seis anos de idade. Aí, estudei o primeiro ano primário lá na China e aí, com quase seis anos, tive que fugir pra Hong Kong. Hong Kong é uma ilha, sob o domínio do governo inglês. Aí foi uma vida muito difícil, porque era fugitivo, então nós tivemos que morar na rua, morar na favela, fazer barraco na montanha, pra poder morar. Então, foi mais difícil, muito dura a vida, quando eu tinha seis anos de idade.

 

P1 - E o senhor lembra da casa, o local onde o senhor morou, em Hong Kong, como é que era?

 

R - É melhor eu fazer uma comparação com as favelas aqui do Brasil. Comparação com aqui no Brasil, os sem tetos. É quase igual, só que a nossa barraca é menor, devido ao meu pai não tinha dinheiro pra comprar material. E a favela daqui é até maior do que a nossa favela.

 

P1 - E, mesmo nessa situação, o senhor costumava brincar, quando criança?

 

R - Brincar com outra criança?

 

P1 - Não. Quando o senhor era criança, tinha alguma brincadeira favorita, alguma coisa assim?

 

R - Eu era o filho mais velho, então não tinha muito o que brincar, mas eu gostava de brincar do meu jeito. Fazia bonequinhos, fazia papel, lia bastante gibi, desenho animado. Eu procurava brincar do meu jeito, independente do que estava acontecendo fora.

 

P1 - E, falando dos seus irmãos, quantos irmãos são?

 

R - Quando chegamos em Hong Kong, era só dois, eu e mais um. Aí, depois, meu pai e minha mãe, nasceram mais quatro. Então, somos seis irmãos. Em casa, são oito pessoas.

 

P1 - Então, como o senhor, quando foi pra Hong Kong, era o mais velho, você tinha que cuidar também de tarefas da casa, coisas assim?

 

R - É verdade. Eu, quando fui entrar no segundo ano do primário, terceiro ano, aí, quando chegou o quarto ano do primário, primeiro semestre, eu já tinha que parar de estudar, devido à situação da família, e tinha que ajudar meu pai. Meu pai vendia jornal e ele ficava em uma barraquinha... não é barraca, um espacinho pra vender jornal, em frente a um restaurante. Eu ajudava meu pai. E eu, quando… meu pai também tinha um local que ia entregar jornal, ou algum prédio. A minha função era entregar esse meia dúzia de jornais nos prédios. Aí, tem uma curiosidade, que até posso contar aqui. Então, na época, leite, leite em garrafa, em garrafa, que a pessoa entregava no apartamento, era coisa rara, não era qualquer um que podia beber leite. E só a pessoa que tem poder aquisitivo alto, nos bairros nobres, que a pessoa tem leite. E o leiteiro tem o costume de entregar leite, de ser na frente da porta. Aí, depois, os moradores abrem a porta pra pegar o leite. E eu tinha seis, sete anos e tinha muita vontade de beber aquele leite, tinha muita vontade. Aí, quando eu ia entregar jornal, eu via que não tinha ninguém do lado e abria a garrafa, aí bebia dois, três goles. Aí tampava a garrafa, largava lá e ia embora. Era uma coisa muito interessante, até hoje eu lembro disso, (risos) de roubar leite pra tomar, quando eu tinha seis, sete anos de idade. 

 

P1 - E, nessa época em que o senhor deixou de estudar, o que o senhor passou a fazer, trabalhar mesmo?

 

R - É, ia ajudar meu pai pra vender jornal, entregar jornal. Mas meu pai, né, como ele já tinha livro de estudo, de ginasial e aí a filosofia dos chineses, da China, o estudo é o mais importante de tudo. Embora eu não tivesse condições, mas também gostava muito de ler jornal. Procurava entender o que estava escrito no jornal. Então, quando eu tomava conta daquela banca de jornal do meu pai, aí eu ficava mergulhado, ficava procurando ler. Aí, não cuidava de vender jornal, aí meu pai me xingava muito. (risos) Cabeça só pra baixo, (risos) só lendo o jornal, o tempo todo. Aí meu pai me xingava: “Em vez de trabalhar, fica vendo o jornal”. Também era [uma] coisa engraçada.

 

P1 - E nessa época que o senhor vendia jornal, você já tinha ouvido falar do Brasil?

 

R - Ah, sim. Não tinha falado. Assim, eu sempre sonhava em sair da China pra outro país, sair de Hong Kong. Inclusive, até tentaram me vender para uma família rica que morava nos Estados Unidos. Tentaram me vender, porque tinha uma família que morava nos Estados Unidos que não tinha filhos, então eles queriam ir pra Hong Kong comprar uma criança e levar para os Estados Unidos. Até eu fui fazer entrevista, só que eu era muito magro, então não fui escolhido. Aí, não consegui sair do país. O nosso sonho era sair do país.

 

P1 - E qual foi… como é que vocês vieram pro Brasil?

 

R - Ah, sim, aí é longa história. Aí, essa longa história é muito legal. Eu tinha, né, depois que não conseguir estudar, fui em um treinamento de acrobacia, acrobacia musical e teatral, pra poder fazer a apresentação. Só que, depois de dois anos de estudo, não deu certo. Esse grupo, que era um grupo brasileiro, não deu certo. Aí, eu saí de lá. Aí também é interessante, a minha passagem. Então, lá em Hong Kong, na época, tinha alguma entidade que ajudava a pessoa pobre, como se fosse aqui, tá? Então, eles abriram cursos, curso de… aí eu fui ingressar nesse lugar, fazer sapato artesanal. Aí fui aprender a fazer sapato artesanal. O curso era de seis meses. Mas eu fui fazer esse curso, mas, quando fiz esse curso, eu já tinha outra atividade, fazendo artesanal de vasos, pássaro com fio de plástico, então… e esse fio de plástico, redondinho, aí usava esse fio de plástico e fazia artigo, fazia vasos, fazia pássaro, fazia dragão, fazia tigre, pra poder sobreviver. Eu já aprendi isso com uma pessoa, eu fazia e vendia. Aí, eu não precisava ajudar meu pai. Aí, eu fazia meus negócios, fazia entrega e recebia uma quantidade que dava pra sobreviver mais ou menos, não muito bem, mas dava. Aí, quando fui fazer curso de sapato, pensei em fazer meus artesanatos. Eu era artesão, comecei com artesanato, com quinze anos de idade. Aí, só que eu achei e fui descobrir, fazer sapato não tinha futuro, porque o preço de fazer um sapato era muito baixo. Então, não tinha onde estudar, se não… então, eu ia fazendo meu artesanato, que dava mais rendimento financeiro. Aí, não fui fazer, eu larguei a aula e fiquei em casa fazendo artesanato. Aí acontece uma coisa milagrosa: quem tomava conta dessa escola, esse grupo, era uma moça inglesa. Nem chinesa era, era inglesa. Ela foi pra Hong Kong lá, pra tomar conta, pra tomar conta pra tipo, ajudar os pobres. Aí, quando não fui [mais], aí ela foi, ela não fala chinês, mas ela trouxe uma secretária que falava chinês, uma secretária. As duas foram na minha casa, pra ver por que eu não fui aprender a fazer sapato. Aí, exatamente, quando ela foi, viu que eu estava fazendo artesanato. Aí, tal, eu estava nisso e a emocionou, né? Que eu não estava, assim, não fazia sapato, porque era preguiçoso, não estava, porque eu tinha outra atividade melhor. Aí ela perguntou: “Por que você não foi fazer sapato?”. Aí eu falei que não dava futuro fazer sapato. Aí ela perguntou pra mim: “O que é futuro pra você? Eu posso te ajudar, você faz um curso melhor”. Você vê que coisa milagrosa? Milagrosa. Então, pro chinês, se chama “amigo benfeitor”. Encontrei “amigo benfeitor”, se chama. Aí falei pra ela, né, que, na época, não tinha muito automóvel. Então, mecânico de automóvel era a melhor profissão. Aí eu falei pra ela: “Eu quero fazer mecânico de automóvel”. Aí ela falou: “Legal, eu te coloco lá”. Aí ela arrumou o dinheiro. Parece que ela tinha dinheiro, não sei onde ela arrumava dinheiro. Aí me pagou um curso de um ano, mecânico de automóvel. Aí eu fui. Com isso, eu consegui ser um mecânico de automóvel, tá? Aí a vida melhorou bastante.

 

P1 - E aí, o senhor conseguiu viver por bastante tempo depois, como mecânico, quando terminou o curso e com seus artesanatos?

 

R - É, foi. Eu larguei o artesanato e mecânico de automóvel, e também trabalhei como motorista. Fazia carreto na rua. Até certo modo, eu consegui dinheiro e comprei uma caminhonete pequena e consegui ganhar uma renda muito boa, lá em Hong Kong. E por que eu vim pro Brasil, né? Mas nisso, assim, o nosso sonho não era pra ficar na China, é vai pra lá, vai pra fora, não importa onde que é, lá fora tudo é bom. Pra nós, a nossa crença, lá fora é, assim, encontra dinheiro na rua. (risos) Não tem sacrifício lá fora, lá fora seria fora da Ásia, né? Fora da Ásia. Na América. E aí, meu tio já estava aqui no Brasil. A esposa dele que estava em Hong Kong. Mas depois conseguiu ir pro Brasil. Então, aí, nós encontramos [um] meio. Se tivesse uma carta chamada, aí você poderia vir pro Brasil. Só que o que eu não tinha, ela tinha: a passagem. Aí, meu pai tinha uma ideia de falar com qualquer moça inglesa: “Quem sabe ela pode te ajudar?”, ele falou. Legal. Então, fomos lá no escritório dela: “Será que você pode ajudar a [pagar a] passagem pra nós irmos pro Brasil?”. Aí ela falou: “O senhor vai pro Brasil? Tá bom, eu vou tentar”. E sabe que ela conseguiu? Arrumou dinheiro com a igreja, a Igreja Batista. Eu pensei: “A Igreja Batista, evangélica, em Hong Kong, resolveu que ia emprestar dinheiro pra nós, pra família inteira, pegar navio [e] vir pro Brasil”. E com todo o dinheiro emprestado, nós não precisamos de nenhum centavo pra vir pro Brasil.

 

P1 - Em que ano o senhor veio pra cá, chegou aqui?

 

R - Porque eu tinha condições, porque era mecânico de automóveis e motorista. E, aqui no Brasil, precisava de técnico _____ (inaudível). Com o dinheiro pago, emprestado, com a Igreja Batista.

 

P1 - Em que ano o senhor…

 

R - (Risos) Também tem sorte, viu? (risos) Sem sorte, não se faz nada.

 

P1 - Em que ano vocês chegaram de navio, aqui no Brasil?

 

R - 1964.

 

P1 - Foi um ano complicado, né? Como é que foi a experiência, pra vocês?

 

R - Ah, foi muito bom. Foi muito bom aqui no Brasil, chegamos aqui, maravilha. Eu, a política é outra coisa, a gente não tem que se meter em política dos outros países, né? A gente trabalha com a nossa parte, né? Política tem outra pessoa que cuida, não somos nós que viemos pra cá, pra cuidar da política. Então, eu trabalhei, aí eu… [trabalhei] como pasteleiro. Na época, aqui, a maioria chinesa trabalhava com pastel. Aí fui trabalhar em uma pastelaria na Praça da Árvore, na Vila Mariana, e essa pastelaria ainda está lá, é a mesma pastelaria. Eu trabalhei um ano, aí só que eu descobri uma coisa boa nesse um ano de trabalho, um pouquinho a frente tinha um casal vendendo pastel com carrinho, na frente da Praça da Árvore, domingo. Tinha feira, domingo. Esse casal japonês vendia pastel com o carrinho. Aí, como eu também não sou muito assim retratado, né? Aí eu vi que, vendendo pastel com o carrinho, tem muita vantagem: você não precisa comprar um ponto, não precisa reformar, você só faz um carrinho. Pra fazer um carrinho, pra mim é fácil, eu já sou mecânico de automóvel. Eu só comprava uma chapa de ferro e mandava uma pessoa soldar, já sai. Eu, até mexer com torneiro mecânico, hoje, essa parte, pra mim, não tenho dificuldade. Aí eu resolvi vender o pastel. Fiz o meu carrinho, precisei comprar um carro, aí, com o dinheiro que trabalhei em um ano, já dava pra comprar um carro muito antigo, que era fabricação de 1929, 1929. (risos) Era a idade do meu pai, na época. Mas aí comprei, né, o carro mais barato da agência. Aí, também: "Está todo meio quebrado", "Pra mim não tem problema, eu conserto, tá? Conserto e arrumo", né? Aí eu, a partir daí... só que aconteceu um caso, pra eu ficar muito agradecido com o Brasil… Aconteceu na China, [quando] eu trabalhava com carretos. Aí, uma vez, levei... eu tinha dezenove anos, fazia carreto. Aí, uma vez levei algum serviço, alguém me ofereceu, me contratou pra levar as coisas pra uma obra, tá, uma obra. Só que, nessa obra, choveu e meu carro, minha caminhonete ficou atolada no meio da lama, não saía. E lá eu pedi à pessoa da obra: “Me ajuda, me ajuda a empurrar o carro pra sair da lama”. Só que a pessoa da obra me olhou com cara feia, falou: “Por que eu tenho que te ajudar?”. Na China, em Hong Kong. Aí eu fiquei muito triste, porque não saía. Aí, depois, tinha que negociar com ele, pagar uma certa quantia pra que ele empurrasse meu carro. Era [na] China, em Hong Kong. Aí, quando eu cheguei aqui no Brasil, eu arrumei meu carro, né? Estava... quebrou, aí eu arrumei. Só que a bateria, na época, não era coisa boa, né? Bem coisa falha. Então, precisava empurrar. Mas você sabe o que aconteceu, pra eu mudar todas as minhas ideias com o Brasil? Tem uns dois, três vizinhos, tá, ele viu que a minha… o meu carro, a bateria, não queria pegar, sabe o que ele fez? Veio pra cá, pegou no ____: “Você não quer ajuda, pra eu empurrar seu carro?”. (risos) Eu fiz: “Nossa Senhora!”, porque eu tinha aquela imagem antiga da China, né, pra pedir pra pessoa empurrar carro, ninguém tem a obrigação pra te empurrar. Mas aqui no Brasil a pessoa já vem me oferecer pra empurrar o carro. Então, daí, eu fiquei 'amado' com o Brasil. Esse é um dos motivos, né, que aqui as pessoas são amorosas, que ajudam a outra pessoa, né? Não tem, assim, de pensar duas vezes. Então, é um fato muito interessante.

 

P1 - E o senhor, aqui no Brasil, voltou a estudar?

 

R - Ah, sim. Porque, quando, lá na China, uma vez meu pai começou a perguntar pros filhos: “Quando você crescer, quer o quê?”, né? Aí, quando eu tinha oito, nove anos, eu também não sei porquê apareceu na minha cabeça, eu falei que queria ser engenheiro, falei pra ele. Aí isso já marcou na cabeça. Quando cheguei no Brasil, aí eu com 21… mas quando tinha 27 anos, seis anos depois, eu já tinha uma… financeiramente, muito [bem] estabelecido. Eu cheguei no Brasil com a família, né? Quatro, cinco anos depois, já compramos uma casa. O percurso [foi] muito rápido, né? E essa casa ainda está aqui, na estação Vila Matilde, está lá na Vila Esperança, chama Rua (removido para preservar a privacidade). Ainda está lá. Eu já comprei uma casa. E eu já tinha uma pastelaria e tenho sete, oito funcionários, lá na Rua Brigadeiro Luís Antônio, em frente da TV Record. Com 27 anos, eu já tinha uma estabilidade financeira. Aí, só que eu, com educação, com a nossa filosofia, que eu aprendi na China, eu não achei essa situação financeira uma coisa boa, porque precisava [de] estudo. Sem estudo, não se completa. Aí, eu resolvi e comecei a estudar, porque eu já tinha condições, né, financeiras. Aí eu fiz o Mobral e, na época, tinha um sistema que se chama Madureza, não sei se você conhece. É como se fosse o supletivo de hoje. E, pra trocar nome, o nome era Madureza. Aí eu fiz supletivo, fiz a Madureza e fiz o Mobral, né? Aí, com um ano e meio de estudo, aí eu consegui, né, terminar o ginasial, primeiro ginasial e colegial. Eu fiz [uma] boa prova, né? Embora a segunda prova, que era a matéria de História e matéria de Geografia, eu não consegui passar aqui em São Paulo. Eu tive que ir ao Rio de Janeiro pra prestar exame, aí passei lá. Aí, com isso, eu consegui de ser um secundarista [e] entrei em faculdade. Aí eu, primeiro ano, entrei na Faculdade Mogi das Cruzes. No segundo ano, eu fiz a transferência para a Faap. Aí, em 1978, me formei como engenheiro civil na Faap. Mas já tinha uma idade, aproximadamente, 38 anos. Me formei como engenheiro civil.

 

P2 - Eu queria que o senhor contasse, então, sobre as obras importantes que o senhor fez. O senhor estava comentando. Queria que o senhor retomasse um pouco.

 

R - Então, quando me formei na Faap, em engenharia civil, 1978, aí fui trabalhar em uma empresa de estrutura metálica, em São Bernardo do Campo. E ali eu ajudava o dono, que era descendente de português, o senhor Augusto, pra empresa dele. A empresa dele já era muito tradicional, sabe? Tem mais de trinta, quarenta anos. Mas eu entrei lá como engenheiro. A minha função era cálculo estrutural. Depois de um ano de trabalho lá, a empresa, financeiramente, não deu certo. E atrasava o pagamento. Não foi culpa minha, porque ela já estava devendo muito dinheiro, a empresa. Aí, saí de lá. E nem o dinheiro de rescisão trabalhista não me pagaram. Aí eu montei a minha empresa, porque pra arrumar emprego não era muito fácil, na época, em 1979, 1980. Eu, em 1979, trabalhei como empregado e [em] 1980 tive que sair, a empresa fechou. Aí eu tive que sair, né? E não era muito fácil arrumar emprego. Aí eu resolvi trabalhar por minha conta, fazer estrutura metálica, que eu sabia fazer, né? Eu conseguia, digamos, desenvolver. Aí eu fiz duas obras, acho que marcantes. Uma, a obra, é no Centro de Cotia, ainda está lá, né? É um posto de gasolina no Centro de Cotia, do lado do cemitério, que era uma área de seiscentos metros quadrados e só foi feito com duas colunas. Então, foi uma obra marcante. Aí, a outra obra marcante, [foi] pro SBT. Então, na época, o SBT, o Silvio Santos estava mudando do Canindé para a Anhanguera, quilômetro dezoito. E ele... esqueceram, talvez esqueceram, né, que tem ali a rota de avião. Então, pra fazer gravação, os barulhos de avião podem prejudicar. Então, não foi muito fácil. Aí eu desenvolvi um sistema construtivo mais rápido e mais barato, usando chapa de aço e concreto por cima. Aí eu fiz uma obra muito grande, quinze mil e setecentos metros quadrados, aliás, dezessete mil e quinhentos metros quadrados, enfim. Então, são duas obras marcantes.

 

P1 - E até quando o senhor trabalhou com essa sua empresa, antes de passar a ser um consultor de feng shui?

 

R - Ah, quando tinha uns quinze, dezesseis anos, lá em Hong Kong, meu pai e meu avô tinham uns amigos que trabalhavam com feng shui, né? Feng shui é uma atividade que a pessoa, quando quer fazer uma ‘sepultação’, ou comprar uma casa, ou reformar [a] casa, ou abrir uma loja, tem que comprar assim, [de um jeito específico]. Tem que ser vizinhança assim, né? E que dia tem que inaugurar, né? E muitas vezes mistura com astrologia, pela data de nascimento e sabe o que que precisa, precisa. A tua pessoa, se combina, não combina. Casamento. Relacionamento amoroso, com sócio. Tudo trabalha com essa forma, tá, forma mística, ou forma de espiritualidade. É por meio de cálculo astrológico, por meio de visualização e por meio de espiritualidade, parte psíquica desse _____, a parapsicologia. Então, é uma atividade não convencional. E aprendi. E aqui no Brasil, eu utilizo disso, né, pra que eu tenha uma sorte na minha vida. E a minha empresa ia muito… em 1998, aí, aqui no Brasil, de repente, uma coisa surgiu, que é o Feng Shui. Que antes ninguém falava disso, porque é uma atividade não convencional. É uma parte… tem pessoas que acham que até é macumba chinesa, então não trabalhavam [com isso]. E aí, em 1998, veio uma turma, né? Veio um livro, literatura, dos Estados Unidos. Os Estados Unidos e americanos,, a pessoa americana, Los Angeles, pessoas de lá, começam a enviar essa sabedoria aqui no Brasil, né? Apareceu na televisão. Aí, depois, na época, em 1999, ou 2000, aqui virou febre. As pessoas começarem a querer aprender como que vai fazer isso. E como eu já sabia disso, né, eu já entendo disso, então, eu… aí, eu também comecei a trabalhar, comecei a trabalhar. Curiosamente, em 2007, 2006, aí eu resolvi que não trabalharia mais com a fábrica de estrutura metálica. Resolvi mudar o rumo da minha vida. Aí, a minha fábrica, né, de estrutura metálica, não era pra vender pra outro fácil. Aí, o jeito é só me… os funcionários. Tinha quatro funcionários, minha secretária, encarregado de produção, a vendedora, representante, né? E essas quatro pessoas que ficaram com a minha empresa. O galpão, maquinário, continuam sendo meus, mas eles ficaram com a empresa, pra trabalhar. Aí eu consegui ficar livre, livre, né? Livre. Aí, trabalho até hoje. Aí escrevi dois livros: um é “Feng Shui da Boa Sorte”, outro é “Arte da Guerra Sun Tzu”, como [se] fosse yin e yang. Um é guerra, o outro é moradia. Então, fiz dois livros. E tô vivendo até hoje, né? Trabalhando, tô… continuo trabalhando. Eu formei a Sociedade de Feng Shui, daí eu já tenho bastante alunos, né? E esses alunos estão trabalhando muito bem, tá? Estão atendendo o público pra ajudar pessoas. E a pessoa recebe benefício da nossa consultoria, é uma atividade muito satisfatória pra mim.

 

P2 - E essa associação fica em São Paulo, senhor Ming?

 

R - É, isso, a associação, digamos, a Junta Comercial, né? Está marcado, ainda, com o endereço de Cotia, onde tinha a fábrica, antigamente. Mas em São Paulo nós temos aulas aos domingos, pra quem quiser e temos treinamento para os consultores, na terça-feira e sábado, né? Uma hora só, né? Mas mantém essa pra treinar pessoa, pra pessoa fazer consultoria de feng shui.

 

P2 - Certo. E, mudando um pouco de assunto, senhor Ming: o senhor viveu até os 21 anos em Hong Kong. O senhor tem algum costume, alguma tradição familiar, algo assim…

 

R - Com relação de Hong Kong, né, eu não tenho nenhum, digamos, lembrança. Nem ruim, nem bom. Porque eu tô aqui no Brasil, [desde] 1964, né, já há muito tempo aqui no Brasil. Inclusive, mais ou menos, é até engraçado: eu e minha esposa, a minha esposa é brasileira. E ela gosta muito da China, Hong Kong nem tanto, mas gosta mais da China. E ela - nós temos uma casa na China -, que fica na China, não vem pro Brasil, né? Tem os motivos dela. _______, mas eu não prefiro morar na China.

 

P2 - Então, eu tinha perguntado, né, se o senhor mantém algum costume da cultura chinesa no seu dia a dia.

 

R - Ah, sim. Costume chinês, né? Eu praticamente mantenho quase tudo: o modo de pensar, a filosofia chinesa. Isso não sumiu. A comida, eu não vejo diferença da brasileira ou chinesa, não faz nenhuma diferença. E praticamente, né, eu tenho a mente, tenho o costume de duas nações, a chinesa e a brasileira. Então, eu não sinto nenhuma diferença.

 

P2 - E o senhor acha que tem alguma semelhança entre a cultura chinesa e a cultura brasileira?

 

R - São muito, as diferenças são muitas. Os chineses, né, têm uma filosofia, tem uma atitude mais rigorosa. Por exemplo: os chineses têm o costume deles mais rigoroso. E aqui no Brasil é mais flexível, mais flexibilidade. Aí, só cabe cada indivíduo que atua conforme a situação, conforme a ocasião. Então, isso, muitas vezes, é o aconselhamento que eu dou pros meus ‘patrícios’. Então, você chegar num local que tem costume diferente, mas não precisa recusar, não precisa… também não precisa perder seu costume, não é oito ou oitenta, mas sim o Yin e Yang. A filosofia do Yin e Yang é: os dois se contrariam, mas os dois se encontram. Então, a gente tem que aproveitar o que é ‘rentoso’, o que é benéfico de adotar um costume e adotar outro costume. Então, essa é a minha opinião.

 

P2 - E agora a gente está indo pras perguntas finais, senhor Ming. Primeiramente, quais são as coisas mais importantes pro senhor, hoje em dia?

 

R - Então, nós temos, né, a filosofia, um gera dois, dois gera três, três gera o restante. Então, é um tripé que nós precisamos ter. Não pode só ter um, nem dois, mas três. Mas sempre é o um que puxa outros dois, mas precisa ter três. Então, atualmente, na minha idade, o primeiro é saúde. Mas isso também não quer dizer que os outros dois podem ser largados. O segundo é financeiro. Então, eu não posso jogar dinheiro fora. Tenho saúde, mas também não posso jogar dinheiro fora. Financeiro. O terceiro é a minha, digamos, atividade profissional. Então, a minha atividade profissional é que me traz satisfação, me traz alegria. Também não posso dispensar. Mas o que é mais importante na minha idade é a saúde. Agora, para uma pessoa de trinta anos, né, não deveria ser saúde, deveria ser satisfação profissional primeiro. Então, esse é o ensinamento do feng shui, a filosofia.

 

P2 - Certo. E quais sonhos o senhor tem pro futuro, senhor Ming?

 

R - Meu sonho? Ah, é muito boa a pergunta sua. Meu sonho é, aqui no Brasil, que muitas pessoas possam utilizar feng shui para se beneficiar. Isso é uma forma que encontrei para agradecer o Brasil, que me acolheu.

 

P2 - E a última pergunta então, é: o que o senhor achou de contar um pouco da sua vida pra gente hoje?

 

R - Ah, eu fico satisfeito, de que posso colocar as palavras, a minha experiência, do fundo do meu coração, pra que todo mundo saiba, né, que existe alguma coisa do outro lado do Brasil.

 

P2 - Então, em nome do Museu da Pessoa, eu agradeço muito, nós todos aqui agradecemos muito o seu depoimento.

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