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Feminismo na pesca

História de: Maria Aparecida Mendes (Cida Pescadora)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/05/2010

Sinopse

Em seu depoimento, Maria Aparecida Mendes fala sobre sua infância e como desde jovem esteve envolvida com a pescaria. Conta sobre sua luta para ser uma pescadora em uma sociedade machista e como, pouco a pouco, foi conquistando direitos para si e para as colegas de profissão. Aborda sobre histórias e mitos de sua região, além das próprias mudanças do Rio São Francisco ao longo dos anos. 

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História completa

Maria Aparecida Mendes, meu nome completo. Data de nascimento, 30 de setembro de 1961, nascida em Alagoas, Batalha. Meu pai é Antônio Mendes da Costa, sempre foi pescador. Minha mãe é Maria Eunides dos Santos, ela era agricultora. Com idade de sete anos já pescava com meu pai, pra ajudar na despesa de casa. Já tinha a responsabilidade de vender, negociar aquele peixe, fazer feira e trazer pra casa.

 

A gente precisou, pra preservar o surubim, a espécie, fazer um trabalho de conscientização dentro das colônias. Eu fui uma das pioneiras nesse trabalho, porque eu, como pescadora, sempre estou lá junto com o pescador e vejo as falhas que eles cometem até por inocência, por ignorância. Acha que porque foi Deus que fez nunca vai acabar.

 

A gente morava perto duma vila e esse pessoal da vila, era uma vila de funcionários. E sempre que a gente pescava o peixe eles compravam. A gente pegava o peixe, a gente beneficiava ele cá no rio, limpava tudo direitinho. Já as quantidades certas das pessoas eu pegava, botava tudo na bacia, botava na cabeça e ia entregar nas casas, já ia certo.

 

Isso é uma coisa que hoje me faz muita falta, foi o estudo que eu não aprendi na escola, que eu passei a aprender em casa com as colegas, com professoras que me viam, e ela queria. Ela dizia: “Essa menina é muito inteligente, eu vou ajudá-la”. E iam muitas delas lá pra casa dar aula particular sem compromisso nenhum, por pura amizade. E aprendi assim, porque só cheguei a estudar até a quinta série, dentro da escola mesmo.

 

Como eu tenho essa facilidade de saber qual o sabor, qual o peixe com sabor de cada uma espécie. esse amigo meu me ajudou: vamos ampliar esse seu conhecimento. Vamos lhe ajudar ampliando, você vai fazer o beneficiamento. A pesca e beneficiamento. Você fazendo o beneficiamento vai agregar valor no produto que você pescou. Grande parte dos cursos eu fiz aqui, mas eu já fiz curso em Salvador, já fiz curso em Recife, em Belo Horizonte, onde tinha um curso que eles mandavam eu ir. Até hoje eu só não sei beneficiar o couro, mas o resto, todo tipo de beneficiamento de peixe eu sei fazer.

 

Do filé, fazer a linguiça de peixe, a linguiça de peixe é uma delícia. Fazia sardinha caseira, pega o peixe, o peixe de baixo valor comercial e fazer dele uma sardinha numa panela de pressão. É uma delícia! Você agrega valor no produto, pode fazer pra uma equipe de trabalho, que eu também dou curso de beneficiamento pras famílias carentes de pescador nas localidades que tem pescador, que eles não sabem aproveitar o trabalho que tem. Eu sou chamada pra dar um curso pra mulheres e filhos de pescadores. Eu vou lá, chego lá ensino eles a fazer a sardinha daquele peixe que tem menos valor comercial, pegar o que tem valor e agregar valor em cima do produto deles. O que eu faço? O beneficiamento e o aproveitamento.

 

Olha, eu vou te dizer, viu! Não foi fácil, porque na verdade hoje tem muitas mulheres que já pescam, mas eu acho que eu fui a primeira mulher a enfrentar a pesca. É tanto que quando passa uma mulher num bar logo alguém diz, lá vai Cida. A história da mulher pescadora. Isso foi uma bandeira que eu levantei em defesa da mulher pescadora, porque o homem pescador sempre teve direito a documento de pesca, a mulher não.

 

A mulher pescadora não tinha nem sequer direito a registrar um barco. Se ela comprasse um barco, no meu caso, eu tinha um barco a motor e eu tinha que documentar esse barco na capitania no nome do meu irmão ou do meu pai. Não tinha mulher que poderia registrar um barco de pesca no nome dela. Muito menos uma carteira, um documento de pesca, jamais, não poderia, mulher pescando, não. Que conversa, não existe! E eu sempre estive dentro do rio. Eu comecei a ver a coisa assim, como eu sempre falei, eu sempre fui muito curiosa. E se a mulher pode dirigir, se a mulher pode fazer tantas outras atividades que o homem faz, por que não pescar? E por que ela não pode ter direito, se ela pesca? E a gente enfrentava, eu particularmente enfrentava um tipo de preconceito entre os pescadores. Ah, mulher no rio! Oxente, mulher no rio, isso é conversa. A gente pescando lá no rio com uma mulher lá dentro, não pode! Não pode! E quando foi um dia, eu fui chamada pra levar uma equipe de pescadores, trinta pescadores, eu tinha uma caminhonete, eu sou motorista, peguei minha caminhoneta, eles fretaram minha caminhoneta pra eu levar eles pra fazer um curso da marinha, em Santo Sé. Quando cheguei lá, eu perguntei: “Quem é o capitão que está dirigindo esse curso aqui? Um rapaz disse, é esse homem aí. Eu cheguei perto dele e disse: “Com licença, bom dia”. Ele: “Bom dia!” Eu digo: “O senhor é o capitão?” Ele disse: “Sou”. “O senhor é o capitão da marinha?” Ele disse: “Sou”. “Então é o senhor quem vai dar esse curso aqui pro pessoal, quem vai monitorar o curso?” Ele disse: “Sou eu”. Eu disse: “Eu queria falar com o senhor. E minha conversa é um pouquinho longa, eu queria saber se o senhor tem tempo pra me ouvir um pouquinho”. E ele escrevendo ali. Eu digo: “O senhor, não existe mulher pescadora pra marinha”. Ele disse: “Não”. Eu disse: “Olha, capitão da marinha, eu queria pedir ao senhor um favor especial. Eu sou pescadora, comecei a pescar com idade de sete anos com meu pai. Eu era tão pequena que eu não podia puxar uma rede nos locais fundos do rio. Eu só podia puxar rede nas partes mais rasas, de tão pequena que eu era. Sempre pesquei, não tive a oportunidade de estudar, não tenho na minha casa um diploma de nada. Sou pescadora e não tenho direito a ser documentada no que eu faço? O senhor me desculpe, capitão, mas eu acho isso uma tremenda injustiça. Se um país é pra todos, se o Brasil é nosso como vocês dizem, por que que eu não tenho direito a ter um documento que diga o que eu sou, que prove o que eu sou?” Ele parou de escrever, começou a me olhar, porque até ele não tinha olhado pra mim ainda não. Ele estava ali só escrevendo. Eu disse: “Eu acho uma injustiça e só um homem como o senhor pode ajudar eu como pescadora, uma pobre pescadora, simples, que vive lá dentro do rio, analfabeta. De certa, eu perto do senhor sou uma completa analfabeta, mas  o senhor pode me ajudar, o senhor pode ser o primeiro capitão da marinha a fazer a primeira carteira de pesca da primeira mulher”. E ele me olhando. Eu disse: “Olha, o senhor está vendo esses trinta homens que estão dentro da sala pra fazer esse curso, eu duvido que eles saibam pescar mais do que eu. Eu duvido. Eu pego aposto com o senhor como tem deles aí que não sabem fazer uma tarrafa, que não sabem fazer uma rede, que não sabem remar um barco direito. E eu sei fazer tudo isso. Eu sei pescar, sei construir a minha tralha de pesca, sei reformar a minha tralha de pesca, coisa que muitos deles não fazem, eles pagam pra eu fazer. Então quem é realmente o pescador? É o que só pesca, só o que explora o rio, ou aquele que constrói o seu próprio material de trabalho? Eu queria que o senhor visse essa questão com muito carinho, porque o documento do pescador homem é o primeiro documento de marido que a esposa não tem direito e nem os filhos”. Eu disse: “Olha, meu amigo, o varredor de rua, gari, que trabalha na prefeitura pra varrer rua, e quando ele morre a esposa dele tem direito a uma aposentadoria pela profissão dele. Pescador não, pescador hoje se morrer, a viúva ou ela arruma outro pescador pra dar de comer aos filhos dela, ou ela está ferrada”. E eu disse: “Senhor, isso de consciência limpa, porque eu sou pescadora e sei o que eu estou lhe dizendo, eu não estou inventando conversa, não. Eu estou dizendo ao senhor a realidade da pesca. E só cabe ao governo, à justiça, um homem que nem o senhor e que nem muitos outros que têm por quem ouça, escute o que a gente tem a falar e tome uma decisão. Porque não sou eu, hoje é eu que estou aqui conversando com o senhor, mas amanhã tem centenas de mulheres de pescadores que precisam de um documento, que precisam de se aposentar porque o mundo, a legislação só modifica, só se aperfeiçoa. E nós cada vez mais estamos ficando lá pra trás, a mulher do pescador não tem direito a uma carteira de pesca, portanto ela não tem direito a contribuir com o INSS, ela não tem direito uma aposentadoria, ela não tem direito a nada, só de lavar a roupa do pescador que chega, suja de lama e fedendo a peixe, e cuidar bem dos filhos do pescador, tratar o peixe. Ele disse: “Quer dizer que a senhora pretende com isso tudo tirar uma carteira de pesca?” Eu digo: “É exatamente isso que eu pretendo, uma carteira da marinha, uma do IBAMA, foi documento que caracterize quem eu sou, eu quero. Se eu sou pescadora, eu quero ser uma profissional documentada”. Eu disse a ele: “Quando eu fui tirar minha carteira de motorista, eu fiz, sinalização, legislação, meia embreagem, exame de rua, tudo que pediram eu fiz. E tenho minha carteira de pesca, de motorista. Por que que o senhor não faz a mesma coisa comigo, me leva pro rio, manda eu ir entrar lá dentro pra ver se eu sou pescadora, faça a mesma coisa”. Ele disse: “Eu vou enfrentar um problema, mas a senhora entre pra essa sala que eu vou fazer seus documentos, sua carteira de pesca”.

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