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História

Feliz no ramo da confecção

História de: In Sung Cho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2005

Sinopse

Identificação. Atividade do pai. Infância na Coreia e costumes. Imigração e primeiras impressões do Brasil. O processo de adaptação. Os imigrantes coreanos e a ajuda aos que estão chegando. O trabalho no supermercado do pai. Casamento. O início de sua confecção e a montagem de uma padaria. O Fashion Center Luz e o trabalho como síndico. A clientela do shopping e as dificuldades para gerenciá-lo. Viagem à Coreia e os campeonatos de tiro ao alvo. Avaliação da imigração no Brasil. Descrição da Coreia. Os filhos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome em coreano é Cho In Sung. Lá chama o sobrenome primeiro e depois chama nome, e aqui chama nome primeiro e depois sobrenome. Aqui chama In Sung Cho e eu nasci em Seul, Coreia do Sul, em 28 de fevereiro de 1956. O nome do meu pai é Myung Ho Cho.

ATIVIDADE PROFISSIONAL DOS PAIS

Ele tinha uma empresa de exportação e importação e veio pra cá. A empresa era de manufaturado, por que naquela época a Coreia ainda não estava tão desenvolvida que nem está agora. Naquela época a Coreia estava tão fechada quanto o Brasil, importava quase nada e mais exportava. O governo incentivava mais exportar do que importar. Meu pai abastecia um tipo de restaurante, com artigos palito de dente, decoração, guardanapo, guarda-chuva de coquetel.

EDUCAÇÃO NA COREIA DO SUL

Na Coreia, eu era estudante, estava terminando o terceiro colegial, vida de estudante, mais estudava e fazia algumas ginásticas, não tinha muita variedade que tem hoje, jogos eletrônicos. Estudo lá é rígido, todo estudante tem o objetivo de entrar na universidade, então é estudo, estudo. Levanta às seis horas e até oito, nove da noite era estudo. Folga era praticamente domingo. Domingo faz lição atrasada. E realmente estudante lá sofre. Às vezes, vê pelo noticiário do Japão que há suicida que não acompanha o estudo.

INFÂNCIA NA COREIA DO SUL

Meu pai trabalhava, minha mãe era do lar e meus irmãos era tudo estudante. Às vezes, ia no zoológico, parquinho, essa era única diversão que tinha.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL

Em 1976 o amigo do meu pai emigrou para o Brasil. Em 1974 não tinha a inflação que tem hoje e ele achou que aqui era um paraíso, tinha frutas tropicais, o café tomava à vontade, não tinha tanto assalto na rua, o pessoal andava na rua tranquilo. Ele teve uma visão de paraíso e combinou com meu pai: "Vamos lá pro Brasil, lá tem futuro." Meu pai concordou com o conselho do amigo e veio pra cá. Pra mim pegar um avião e ir para outro país era um sonho, uma parte de cinema, então eu não me preocupei tanto. Eu só tinha esperança, eu vou entrar num avião, vou ver em cima das nuvens, era a viagem em si, não o destino. Vou comer, vou comer banana à vontade, abacaxi, essas coisas. Eu não estava pensando: vou chegar lá, vou ter dificuldades de me expressar, vou ver um costume totalmente diferente. Só conhecia o Brasil da aula de geografia, que a capital era Rio de Janeiro e mudou para Brasília. Aqui, eu não me sentia muito estranho, na cidade de São Paulo. Me sentia mais numa cidade do meu país, não sentia muita diferença, eu não sei porque, mas imaginava muito daqueles hotéis grandes, na praia do cinema, do 007, dessas coisas. Eu passava em frente ao Mercado Central, via monte de sujeira, e a casca de laranja, então essas coisas não me expulsavam. Eu imaginava muitas imagens de limpeza, cidade grande tipo Nova York, essas coisas, mas aqui é diferente. Então eu não sentia que aqui era outro país.

DIFERENÇAS CULTURAIS ENTRE BRASIL E COREIA

Aqui fazia tudo contrário. Quando vai no barbeiro, na Coreia, primeiro corta cabelo, depois lava. Aqui lava primeiro e depois corta. Tem muitas coisas que faz o contrário. O tamanho é completamente diferente. A Coreia em si cabe dentro do estado de Pernambuco. E os costumes. A primeira impressão que senti é que quando atravessava a rua eu tinha muita dificuldade, muita pessoa não respeitava sinal, e eu tinha até medo de velocidade dos carros, então ficava perdido. Por onde atravesso? Será que o carro vai me pegar? A dificuldade era isso e tomar ônibus errado.

APRENDENDO PORTUGUÊS

Lá na Coreia eu tive aula de três meses, o básico. Mas até hoje eu tenho dificuldade de separar o masculino e feminino, às vezes eu troco tipo: o foto. Depois, perto da onde eu morei tinha um colégio de freiras. Queria estudar, mas como eu já tinha 18 anos eu não podia entrar no primário. A diretora entendeu minha situação: "Você pode assistir aula, como ouvinte." E como era colégio de freiras, era tudo uniformizado, eu era o único que não usava uniforme. Os estudantes me olhavam estranho e depois eu fiz o curso Anglo para estudar a universidade, mas no meio eu parei.

ESTUDOS NO BRASIL

Parei o curso Anglo por questão econômica. [Mas a universidade] não era o meu desejo, eu escolhi um caminho diferente, aí meus amigos falaram que eu ia gastar durante quatro anos de faculdade, depois não ia ter retorno. Então já que o negócio é comércio, eu vou partir pra comércio. Pra vender roupa não precisa ser engenheiro. Lá na Coreia o pessoal faz mais carreira, entra em firma grande para subir até chegar no topo. Aqui é diferente, aqui imigrante. Pela dificuldade de língua, essas coisas, parte mais pra comércio e tem mais facilidade de estabilizar economicamente no comércio do que fazendo carreira.

IMIGRAÇÃO COREANA EM SÃO PAULO

Na época em que eu vim tinha uns dez mil coreanos na cidade. Agora estão falando em 40, 50. A comunidade tem um tipo reunião, eles ajudam o recém-chegado até ele se estabilizar. Forma tipo um consórcio, é bem parecido com consórcio de carros, só que em vez de carros é dinheiro. A maioria começa assim. Por não conhecer, ou por não concordar, tem pessoa que não entra, não é todo mundo que chega aqui e entra nesses clubes.

TRABALHO DOS PAIS

Como meu pai tinha dificuldade de língua, ele ficou uns seis meses procurando qual o negócio mais fácil para ele, sondou até posto de gasolina, mas no fim acabou comprando um supermercado no Imirim.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO

Eu gerenciava a loja do meu pai. Ele também trabalhou, mas como eu tinha mais facilidade de atender as pessoas, acabei ficando como gerente. No começo eu tinha muita dificuldade de lembrar nomes, o freguês chegava e perguntava: "Tem tal produto?" Eu não conhecia, já procurava, pra começar decorando pouco a pouco. Comecei 1977 e fui até 1980. Em 1980, casei com minha esposa, aí parti pra confecção, por que a família dela tinha confecção.

NAMORO E CASAMENTO

Fui apresentado à minha esposa por uma amiga da minha mãe e em questão de seis meses já estava casado. Conheci ela num jantar, saí duas vezes com ela, conversei depois. Isso também deve muito à cultura, que aqui é mais livre, namorava, noivava quantas pessoas quiser. Aqui troca namorado como se trocasse um carro. Lá não tem essa liberdade e se conhece uma pessoa, vai até o fim. Meu pai me aconselhou: "Você não pode ficar andando com moça pra lá e pra cá e mostrando pra todo mundo e você simplesmente não gostou e largar." Me aconselhou noivar com ela. Depois que noivou, já estava meio amarrado quase, fiquei preso.

ABERTURA DE CONFECÇÃO

Eu vi que no ramo de supermercado o lucro era muito pouco. Muitas coisas tinham sido tabeladas. Em 1980 começou ter inflação e começou faltar mercadoria, foi bastante problemático. Parti pra confecção que era mais fácil. Comecei a fazer as malhas. Comprava linha, fazia o tecido e confeccionava. Tinha loja e a fábrica no fundo da loja. Era no Brás.

LOJA DE CONVENIÊNCIA

Na frente da loja fazia vendas. No fundo confeccionava e assim ia pegando o conhecimento da confecção. Confecção tem muitos altos e baixos, tem temporada que vende, temporada que não vende. Esses altos e baixos me deixaram meio preocupado. Às vezes, guardava um pouco de dinheiro e na entressafra gastava tudo e ficava sem nada. Eu queria ter uma estabilidade, começou a crescer filho, entrou na escola também. Comecei a procurar uma atividade que seria paralela. Procurei várias coisas, mas cheguei na comida, o pessoal tendo ou não tendo dinheiro, tem de comer. Fui arrumar uma atividade de comestíveis. Procurei em revistas, cheguei numa franquia de Pão e Companhia, em Belo Horizonte. Fiz contato e tive que ir até Belo Horizonte ouvir seminário deles. De início, achei um bom negócio, era pouco capital investido, eles tinham linha de financiamento e voltei com o peito cheio. Vou ser o primeiro coreano padeiro. Mas calculando, vi que não recuperaria o dinheiro que tinha investido. Passou uns seis meses, fiquei um pouco desesperado. Apareceu um ponto em Perdizes, era uma casa simples, derrubei e fiz uma loja, investi dinheiro. Fiz uma loja de conveniência com padaria, deve ser a primeira do gênero, cheguei a ter 30 funcionários, era uma dor de cabeça. Percebi que esse ramo era pra português e não pra coreano. Vi que ninguém da colônia coreana entrou, eu queria ser um diferente, mas acabou não dando certo.

VOLTA AO RAMO DA CONFECÇÃO – FASHION CENTTER

Quando eu estava na loja de conveniência, uma vez por dia eu falava: "Eu era feliz e não sabia." Minha esposa continuava com confecção, minha esposa e meu pai também. Já era no Fashion Center Luz, que foi aberto em 1988. O Fashion foi o primeiro de atacado. As lojas não têm ar condicionado, não tem elevador de panorâmico, luxos, em benefício têm preço baixo. 90% dos lojistas são coreanos. O Fashion Center tem uma característica diferente dos outros shoppings. Em outros shoppings a administração tem todo o poder, a administração aluga e qualquer desobediência, lavra multa e até expulsão. O Fashion Center Luz é formado por proprietários, a administração não tem muito poder. Tem essa dificuldade e a ideia de não pagar luva na rua era boa, até benefício para próprio proprietário e cliente, mas para administração esse ponto não é bom. [Além disso,] por não ter clube dos lojistas, o shopping é deficiente em propagandas. Então, às vezes, vamos fazer tal promoção, tem pessoa que concorda: "Ótimo", tem pessoa que não: "Na minha loja não participo." Nosso Fashion Center Luz leva vantagem de ser shopping de fabricantes, e está localizado no centro da cidade, em volta de todos os hotéis. E a ideia era vender só atacado, mas de 1988 para cá tivemos bastante crise de vendas, então o pessoal começou a abrir a porta para varejo também, tipo sábado.

COREANOS E MUDANÇAS NA CONFECÇÃO EM SÃO PAULO

Os coreanos mudaram a forma de vender. A confecção em si desenvolveu muito. Quando eu cheguei aqui, o tipo da roupa era muito atrasado das modas da Europa e até própria Coreia. Era no fundo do quintal que fabricava e entregava. Esse desenvolvimento de modas foram os coreanos que trouxeram pra cá, a concorrência fez crescer muito o tipo de corte, os detalhes, essas coisas. Muitas pessoas viajam duas vezes, três vezes pela Europa, até na Coreia eles vão buscar modelo novos.

LAZER

Fui à Coreia do Sul uma vez em 1987, por uma competição de tiro ao alvo que teve lá. Todo ano, na Coreia, tem competição entre coreanos, aí eu tenho o direito de participar como imigrante para o Brasil. É como se fosse um estado Brasil, é estado do Japão, Estados Unidos, Canadá. Aqui no Brasil eu treino duas vezes por semana, terça e quinta, e eu participo competições aos domingos. Fui campeão paulista de 1989 e 1990. Modalidade pistola livre e pistola de ar. Treino no Clube Hebraica. Em 1987, eu fiz um curso de defesa pela Federação Paulista de Tiro ao Alvo. Fui até revelação do ano no Clube Tietê e o pessoal viu que eu tenho capacidade e eles me convenceram a entrar no tiro esportivo. É modalidade olímpica e eu não tinha que fazer muito esforço. E tem aquela sensação de acertar no centro, essas coisas que me atraem. Pratico mais como hobby do que como esportista.

DESENVOLVIMENTO DA COREIA DO SUL

A Coreia desenvolveu muito, mais do que eu imaginava. Fui visitar uma cidade próxima de Seul, era uma estação de trem, era simples, uma estação de interior. Mas quando eu visitei até assustei, virou uma cidade. Tem tudo parafernália de eletrônica, coke machine, põe moeda e sai Coca, café, chá, suco de laranja.

RELIGIÃO

Sou cristão. Na Coreia, até eu sair de lá, a budista era mais maioria da religião, mas agora inverteu, é cristão. Não sou expert em religião budista, mas o templo do budismo fica dentro da montanha, isolado da cidade. Com a atual tendência de trabalho, essas coisas, o pessoal não vai procurar a religião dele lá no meio da montanha. A igreja é formada no centro da cidade, junto com população, então tem mais facilidade de pegar adeptos. SONHOS O futuro é ganhar bastante dinheiro e viver feliz. Eu não me adapto bem em comércio, porque eu sou um pouco tímido, eu não tenho o dom de comerciário. A minha esposa tem e eu gostaria mais de ser projetista, o que eu me adapto bem é mexer com projetos, com desenhos, arquiteto. Mas agora que já está no comércio não posso correr e começar tudo de novo.

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