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Feliz Natal: a história de Jair Delcorso - parte 5

História de: Jair Delcorso
Autor: Isabella Delcorso
Publicado em: 07/03/2019

História completa

 

Capítulo 6 – SERVIÇO MILITAR

 

Junho de 1954 – convocação para o serviço militar. O trem dos recrutas vai passar às 18h em direção à cidade de Bauru. E na manhã seguinte, partida para Mato Grosso. Éramos uns 15 jovens de Cafelândia que embarcariam naquele leiteiro. A cidade estava agitada, a estação ferroviária abarrotada de pessoas: pais, irmãos, amigos, namoradas e até autoridades municipais nos desejando boa viagem. Que espetáculo! Que emoção... Mais duas horas e estávamos no pátio da CRM (Circunscrição Regional Militar) respondendo à chamada e recebendo o número para embarque. Formalidades terminadas: onde iríamos dormir? Resposta: se virem! Vocês já são soldados e soldados não se apertam. Algumas pensões, bancos de jardins, pátios da delegacia e qualquer outro lugar desde que às 5h da manhã estivéssemos todos na estação para responder à chamada e embarcar.

 

Oito vagões, todos de segunda classe, bancos de madeira, cantando o hino nacional. O trem apitou longamente e lá vamos nós, ao encontro de desconhecidos. O trem parava no desvio de todas as estações, afim de não atrapalhar o fluxo de outros trens e passageiros ou de carga. O primeiro almoço aconteceu exatamente na nossa cidade: uma fila enorme de jovens interrogativos para receber a primeira ração, ração mesmo! Era o termo usado na época: ração ou etapa. Assim foi a viagem, todos cantando, rindo, jogando baralho, contado história, enfrentando as filas para café, almoço e janta, lamuriando, e na tarde do terceiro dia, chegamos a Campo Grande.

 

O comboio militar (trem de recrutas) estacionou em um desvio ferroviário em frente a um quartel. Vamos desembarcar. Já começaram as filas. Cada um com sua bagagem. Anteriormente, ainda lá na nossa cidade, já fomos orientados a levar o mínimo de roupa, pois em alguns dias receberíamos o fardamento militar. Formação militar em frente a um refeitório e responde primeiro à chamada. Que confusão! Que barulhão! Um mar de jovens ressabiados e falando ao mesmo tempo. Os oficias não conseguiam implantar o silêncio para organiza a bagunça, vem o corneteiro e toca o toque de silêncio e as coisas vãos e ajeitando. Ali já começara a repartição dos recrutas para os diversos quartéis.

 

Nessa época, existiam 9 quartéis do exército em Campo Grande. Eu e mais alguns amigos de Cafelândia fomos designados para aquele quartel: o décimo grupo de artilharia a cavalo. 10º GACAV. Foi-nos indicado o alojamento para passarmos aquela primeira noite. Suítes com cem camas só com colchão, e que repartiríamos com mais alguns colegas, que ainda não tinha destino. No dia seguinte, a maioria deles embarcou para quartéis da fronteira, como Corumbá, Cáceres e Bela Vista.

 

Terceiro dia: começava aqui nova etapa de novas vidas, já fomos encaminhados para os devidos alojamentos, e recebemos além da cama, um armário que seria nosso guarda roupa. Aquele pessoal que foi pra fronteia é que foi sozinho, pra divisa do Paraguai e da Bolívia, eu ainda tinha uns amigos de Cafelândia.

 

Nosso quartel tinha 3 alojamentos e abrigavam soldados de 3 baterias (nome militar). Primeira, segunda bateria e bateria de comando e serviço – BCS. Nessa bateria estavam alojados todos os soldados que exerciam alguns serviços burocráticos: enfermaria, almoxarifado e tantos outros. A rotina do dia a dia era assim: alvorada 5h. café 5h30. Educação física das 6 às 7h. instrução e serviço militar até às 11h. em seguida, almoço, descanso, e depois, às 13h recomeço das atividades. Os prestadores de serviço iam para as repartições e os demais voltavam para as atividades militares. Quando chegamos ao quartel, a turma anterior já havia dado baixa, isto é, voltado para suas casas. Alguns serviços eram sumamente importantes e não podiam separar – sentinela de guarda 24h por dia, enfermaria, cozinha, etc. Foram selecionados alguns soldados para executar essas funções até que a rotina voltasse ao normal. As sentinelas no portão de entrada, onde revezávamos a cada duas horas. Eram cruéis para quem estava acostumado a dormir direto em casa, na cama gostosa.

 

Mas as coisas foram se ajeitando com o passar do tempo. Vale salientar que Campo Grande era, nessa época, uma cidade comum, com quartéis e número enorme de soldados. Não éramos muito bem quistos pela população, e muito menos pelas moças mato-grossenses, que não queriam nada com soldado. Isso foi muito marcante em nossa relação ao modo de viver que tínhamos em nossa cidade. Toda aquela alegria que o sistema de vida nos proporcionava foi radicalmente modificado.

 

A saudade de tudo aquilo me torturava, mas também fui compreendendo a transformação normal da juventude para a díade adulta. Pensava muito no que fazer quando retornasse à vida de cidadão comum. Retornar a vida profissional, progredir, constituir uma família e a sequência de uma vida adulta.

 

Disse anteriormente que estava cursando o 3º ano na escola técnica e as provas semestrais no final de junho é que não consegui postergar, e isso ameaçava a conclusão do curso. Falei com meus superiores e responderam que eu não poderia viajar porque o noviciado militar não me permitia sair para fora da cidade. O que fazer?! Era o meu problema e de mais um colega. Falei com o tenente, meu superior, e lhe disse que não era justo perder um ano de estudo. Consegui que fôssemos conversar com o comandante maior. Reposta: como vocês vão viajar se ainda não sabem nem fazer continência? Argumentei: nós vamos embarcar no trem aqui e só descer na nossa cidade, o senhor, na pior das hipóteses pode nos despachar como mercadoria militar ao prefeito, delegado ou juiz da nossa cidade, e que depois dos exames, nos devolverá como mercadoria ao nosso quartel. Ele falou: rapaz, eu não sei se você é muito atrevido, muito inteligente ou até muito humilde. Foi terrível, palavras ásperas de todo o lado, mas conseguimos que embarcaríamos com uma carta de autorização para transitar até nosso destino – ida e volta. Assim conseguíamos participar das provas escolares do primeiro semestre.

 

Voltei ao quartel, rotina cotidiana normal. Iniciamos o curso para cabo, e 90 dias após, fui promovido a cabo burocrata. Meu soldo/salário passara de 100 para 800 cruzeiros, uma grana considerável para a época, e isso já proporcionava algumas extravagâncias: cinema, lancheteria na cidade e começar a guardar algum para levar para casa, além de conta de roupa nova para o retorno a vida anterior. A vida no quartel foi melhorando gradativamente. Todos nós tínhamos um número pelo qual respondíamos às chamadas, recebíamos o serviço, éramos chamados pelos superiores, etc. O meu número era 318 ou 3-18 como soava melhor. Em seguida a primeira promoção, passei a fazer o curso para sargento. Em paralelo a isso, alguns de nós lecionávamos para muitos colegas, haviam muitos analfabetos e também alguns com noções escolares que conseguíamos classificá-los como aptos ao segundo, terceiro e quarto ano primário. Poucos tinham frequentado o ginasial. Era divertido e sumamente prazeiroso poder transmitir alguns conhecimentos aos colegas de farda. Isso também nos ajudava a fortalecer a amizade que grassava entre todos. É evidente que acontecia sempre amizades mais fortes entre alguns colegas. Tinham os meus amigos, junto dessa camaradagem, começa evidentemente a brotar amizades mais fortes que nos proporcionava conversas mais calorosas e até confidências. É evidente que a família, as namoradas, nossa cidade e uns outros tantos assuntos povoavam o dia a dia da nossa vida. Também as gozações faziam parte das brincadeiras diárias e, às vezes, até fatos interessantes acabavam acontecendo.

 

Numa tarde de quarta-feira, que era a nossa folga semanal para cuidar do uniforme, armário, ou mesmo ir até a cidade, um dos colegas cismou de comentar sobre tatuagem. Não era novidade para ele, pois a sua família era de descendente de árabes. Nas conversas mais apimentadas começou-se a selecionar quem seria homem o suficiente para topar uma tatuagem. O processo era bem simples, mas sumamente dolorido. Três agulhas amarradas, tinta nanquim. E o primeiro candidato não aparecia... era o começo da gozação. Eu ainda não havia me manifestado. O nome do colega tatuador era Salim, e eu falei pra ele: “vem cá Salim, risca aqui no meu braço um protótipo de um túmulo, onde eu vou enterrar todo o orgulho dos machões que estão aqui. Alguém quer ser o primeiro no meu lugar?”. O silêncio foi geral. E eu falei ao Salim: “pode começar.” E doía bem mais do que eu pensava. E depois de umas cento e tantas furadas, lá estava eu, orgulhoso, do meu feito de macho maior do grupo. Tantos apertos de mão e o que veio na sequência foi uma porção de cruzinhas tatuadas que tinha meia dúzia de furadas (deles). Essa tatuagem durou no meu braço uns 10 anos. Quando vim pra são Paulo, já casado e já com os filhos e íamos muito à Santos, as queimaduras do sol e a consequente descamação da pele foi tirando a tatuagem, que um dia desapareceu por total. Meus pais acharam estranho, cheguei em casa de cabelo curto, tatuagem, meio “malhadinho”, vim meio machão. Hoje eu não faria essas tatuagens coloridas porque elas são muito fictícias, não são reais, né...

 

Os oficiais eram todos moços assim. Os senhores, não tinha muita gente de muita idade, gente inteligente, estudada. Mas de sargento pra baixo o pessoal era tudo semi-ignorante e você tinha que prestar contas, às vezes, com aquele pessoal que te esmagava. Não tinha amistosidade nenhuma. Era tudo um tacamo . E aí eu fui me decepcionando, não com o exército, porque eu queria tudo aquilo lá, queria ser cabo, sargento, e eu vim pra academia de Agulhas Negras porque eu já estava apto a promoção de sargento e tinha o curso que equivalia a curso superior, faculdade, e eu vinha direto, mas o pessoal me xingou, me humilhou, falando que “vocês paulistas são umas bestas, focinho de porco”.

 

Por que ficar? Os que ficavam lá para fazer carreira na tropa é muito difícil, você não é promovido de um cargo pra outro com facilidade. Era difícil, a hierarquia era muito grande: soldado, cabo, terceiro sargento, segundo sargento, primeiro sargento, subtenente, segundo tenente, primeiro tenente, capitão, major, mais 3 de coronel e um de marechal. Você tem 14 cargos e a vida inteira. Você não consegue escalar tudo isso.

 

Sargento tinha bastante. O instrutor de tropa mais forte (segundo ou terceiro sargento) os instrutores do dia a dia. Depois, tem subtenente alguns só. Segundo tenente tem bastante porque tem muito estagiário. Primeiro tenente tem menos, capitão alguns. Major no meu quartel só tinha um, que era o subcomandante. Um major, um tenente e um coronel.

 

Eu fiquei onze meses e 23 dias. Entrei como soldado raso NE e sai como cabo apto a promoção de terceiro sargento. Por exemplo, hoje eu sou terceiro sargento da reserva. Tenho o certificado de reservista e ainda tenho.

 

Era bastante interessante quando íamos acampar fora do quartel para treinamento no campo e na selva. Passávamos três dias por lá, acampados em barracas, montadas para duas pessoas. Chuva, frio, cobras, aranhas, mosquitos e todas as normalidades de uma jornada no campo a céu aberto. Era o que enfrentávamos para aprender as táticas de guerra. À noite, eram escolhidas duas turmas para treinamento de batalha noturna. Uma turma atacava e a outra se defendia até que houvesse uma rendição e um vencedor, evidentemente. Era apreensivo pelos tiros de festim (sem bala) mas era bastante divertido. Vale salientar que tudo isso (locomoção, estadas, patrulhamento, etc) eram feitos montados nos nossos cavalos que nos foram destinados logo que chegamos ao quartel. Cada um cuidava do seu animal.

 

Em paralelo a toda essa atividade, continuávamos participando do curso para sargento. Após 90 dias de aulas e treinamentos, fui aprovado para promoção, que seria concedida mais a frente. Era preciso que prolongasse o tempo no exército para receber as divisas do cargo. Não estava nos meus planos esticar a estada no exército, mais dois meses, quase no final do nosso tempo de quartel, recebemos eu e mais dois colegas que tinha também curso colegial, ou equivalente a um convite para ir a escola de oficiais de Agulhas Negras, em Rezende, Rio de Janeiro. Mais 2 anos de escola e sairia segundo tenente do exército: um belo cargo e um futuro garantido. Mas também isso não me entusiasmou. Eu queria voltar para a minha cidade, voltar a morar com a minha família e também formar um novo lar.

 

Tempo de farda comprido. Liberação da primeira turma a deixar o quartel e lá estávamos a maioria de nós, já com a farda, mala pronta, vestidos com roupas novas, um pouco de dinheiro no bolso e seguimos para embarcar de volta às nossas casas. Despedida emocionante. Íamos deixar uma porção de amigos para trás, com certeza a maioria não encontraríamos mais. Nossos estados e nossas cidades eram bem distantes e cada um seguiria o seu caminho. Mais 2 dias de viagem, pois também o trem de volta, dos soldados, tinha que priorizar os trens de cursos normais. A alegria da volta era total: cantoria, piadas, afanos de lanches dos colegas e as despedidas de cidade em cidade, quando ficavam alguns de nós.

 

Que 11 meses providentes que passamos lá no nosso Mato Grosso, na Campo Grande querida, e no 10º GACAV que tanto acrescentou na minha vida. Quanto aprendizado sobre o viver, o suportar, o repartir e o projeto da vida futura, também coisas boas da vida. Deixei o trem na cidade de Araçatuba e passei 3 dias na casa de meus tios Eduardo e Aparecida que lá moravam. Fazia bastante tempo que não os via.

 

 

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