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Feliz Natal: a história de Jair Delcorso - parte 3

História de: Jair Delcorso
Autor: Isabella Delcorso
Publicado em: 07/03/2019

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História completa

 

Capítulo 3 – NA CASA DA MINHA TIA

 

No início de 1943 eu fui para a casa de minha tia, irmã do meu pai, que morava na cidade de Cafelândia. Fui para cursar o meu primeiro ano escolar. Foi um ano complicado. A distância era grande, os meios de locomoção também eram raros e difíceis. A saudade tornava-se angustiante e nas raras vezes que meu pai viera me visitar chorávamos os dois abraçados. A família de meus tios (tia Pina e tio Hermínio) era numerosa e o sistema de vida bastante rústico e, consequentemente eu tive que me adaptar ao modo de vida família.

 

Tinha uma coisa interessante: às vezes nós íamos pra escola, eu, duas primas e mais um primo, e quando meu tio amanhecia bravo ele falava: “ninguém vai pra escola. As crianças vão pra lavoura pra ajudar”. Porque na época de colheita, tinha que ajudar a colher café, porque tinha um sistema de limpar o tronco, e as crianças que entravam debaixo do pé do café pra afastar os pés que estavam juntos, pra ficar fácil de ser varrido, rastelado.

 

Tinha um priminho que era garotinho ainda e ele gostava muito de comer goiaba com semente e tudo, e comia até goiaba verde, e às vezes ficava mal do intestino. E aí precisava fazer um “pito” nele, uma rodinha, um cigarrinho de papel com óleo pra por no ânus dele pra amolecer e facilitar a evacuação e falava com voz chorosa: “mãe, não consigo cagar, põe o pito”.

 

Eu me dava bem com eles porque depois da janta, assim, almoçávamos todos juntos, porque a família era grande e eles conversavam muito em italiano, e eu não entendia quase nada, daí uma vez eles gozaram com a minha cara porque falavam em italiano e o molequinho “soldo de rizo” (dinheiro e comida, arroz), porque tinha uns tios da minha mãe que eles eram muito caipiras mesmo, lá do fundão do interior, que tinha o meu tio Tiquinho, que era caolho, e eu sofria, era gozado, me faziam chorar. Aí aumentava a saudade de casa.

 

 

Capítulo 4 – OS ESTUDOS

 

Minha primeira professora foi a dona Nenê, leiga, uma negra brava, exigente, mas com uma enorme capacidade de ensinar. Nossa classe era mista de primeiro e segundo ano escolar. No início do segundo semestre a maioria de nós do primeiro ano já conseguíamos ler o livro dos colegas do segundo ano. Aquela negra cheia de amor, de atenção, serenidade e dedicação nunca me saiu da lembrança. A dona Nenê, pretinha (como era chamada na cidade), continua sendo uma das tantas mulheres que povoaram de maneira positiva a minha infância e adolescência.

 

No final desse ano [1943], minha família mudara-se para a cidade, pois meus irmãos também precisavam de escola. Voltou meu pai a exercer a sua profissão de pedreiro. Esse período foi relativamente curto. No final de 1944 fomos para um vilarejo, a Vila Simões, onde ficamos por um período mais longo. Foi lá, no começo de 1945, que comemoramos o fim da Segunda Guerra Mundial. A passeata dos homens empunhando a bandeira brasileira, cantando hinos cívicos, fogos de artifício e muita alegria, comemoravam as forças unidas. Eles saíram e, quando recebeu a notícia, já era perto da festa junina, então, as casas de comércio já tinham fogos para vender, então foi aquele foguetório na vila os homens, meninos, indo embaixo, voltando e cantando: “viva o Brasil!”.

 

Lá na vila a vida foi muito boa. Meu pai montou uma pequena padaria que produzia, logicamente, pães, doces dos mais gostosos, e até sorvete com máquinas manuais ou movimentados por motores de carros. Não havia eletricidade. Não tinha eletricidade, então as máquinas eram um motor que faziam girar as máquinas para produzir os sorvetes. Tinha um sorvete natural que faziam, porque mandava vir gelo da cidade, e aí punha o creme numa vasilha cheia de gelo em volta e ia batendo, com uma pazinha, até virar aquele sorvetão cremoso e gelado. Aí saiam vendendo na rua. O que eu mais gostava era o de chocolate, que era coisa rara para nós, o chocolate, maçã e água prata, era tudo medicamento vendidos na farmácia. Até chocolate que tinha valor curativo. Maçã era pra quem tivesse problema de intestino. Água prata e maçã. Porque lá não tinha pra comprar na cidade.

 

Futebol, nadar nos rios, caçar passarinhos e brincadeiras de rua era que movimentava nossa infância. Brincadeiras de rua tinha duas brincadeiras: “palha ou chumbo” – formavam-se dois grupos e eram escolhidos no par ou ímpar a sorte pra ver quem selava. Ficávamos inclinados como se fosse um trenzinho e ia pulando e ficando lá, um em cima do outro, aí ou os de baixo caia e começava tudo de novo, e os de cima caiam e iam selar e montar. Brincávamos também de “salva”. Eram duas turmas: uma escondia e outra ia pegar. Pegavam e ficavam. Se alguém viesse escondido e batesse salva, ia correr todo mundo outra vez. Se pegasse e ninguém fugia, aí trocavam-se os papéis. Às vezes, a brincadeira acabava em tapa, mas no outro dia estava todo mundo brincando junto outra vez.

 

Quando precisei fazer o 4º ano primário, tive que buscar uma escola em outro vilarejo, pois na vila em que morávamos só havia classes para até o 3º ano primário. Infelizmente, isso já limitava bastante as crianças a concluir o curso primário, que na época se findava com a conclusão do 4º ano, quando se recebia festiva e solenemente o primeiro diploma escolar.

 

Mais algumas professoras (era raro homens que lecionassem para o primário) povoaram esses meus anos: dona Fosca, Dirce, Pierina, Nildes, Elinar e o Senhor Carrijo, diretor bravo, foram as pessoas que com paciência severa nos transmitia os primeiros conhecimentos para a vida. Tenho todos eles bem presentes na minha lembrança, sempre agradecido por tudo isso.

 

Terminando o curso primário, logicamente vinha o ginasial, e lá vou eu novamente para casa de algum parente na cidade. A casa do meu tio João, irmão de minha mãe, foi onde aterrisei. Meu tio era um lutador, motorista de caminhão, trabalhava em uma empresa que beneficiava o café para ser exportado para outros países. A esposa dele, minha tia Dionísia, era também uma lutadora e uma pródiga mãe, com sete filhos, um por ano: José, Aparecida, Maria do Carmo, Maria de Fátima, Antônio, Flora e João. Era uma turma boa. Casa pequena, renda familiar menor do que a casa, mas a bondade dos meus tios suplantava tudo isso. Nunca vi ou ouvi minha tia cobrar o marido por nada e ele também nunca reclamava da situação. Me tratavam igual aos filhos.

 

Foi mais um ano de dificuldades e saudades. No ano seguinte, já na 2ª série ginasial, fui morar na casa de um casal de primos, a Zenaide e o Pedro, parentes por parte do meu pai. A casa deles, embora pequena, era mais espaçosa, pois tinham somente dois filhos, a Veralice e o Pedro Hermínio (que era o nome de seus dois avôs), pequenos ainda.

 

A vida no ginasial era bem diferente do primário, havia um professor para cada matéria, entre elas Português, Matemática, História, Geografia, Ciências, Francês, Latim, Desenho, Religião, Inglês e Educação Física, três vezes por semana, além do futebol que praticávamos durante o recreio entre as quatro ou cinco aulas diárias. Nossa escola era só masculina. Quase que normalidade naquela época. Somente na quarta série ginasial é que frequentei classe mista.

 

 

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