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Quando o bom texto jornalístico fica na memória

História de: Angelo Brás Callou
Autor: Angelo Brás Callou
Publicado em: 21/07/2019

Sinopse

Sobre a memória dos bons textos jornalísticos e literários.

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História completa

Quando o bom texto jornalístico fica na memória

 

Por Angelo Brás Fernandes Callou

 

Haviam-se passado quase trinta anos e parecia que eu só tinha me dado conta hoje, quando li, na Folha de S.Paulo, a longa entrevista concedida a Nelson de Sá, pela jornalista e escritora recifense, Marilene Felinto, Prêmio Jabuti 1982. Deu-me saudade de sua coluna semanal na Folha, no início dos anos 1990, quando ainda morava em São Paulo.

 

Eu admirava a excelente qualidade dos textos jornalísticos de Felinto e a maneira ferina com que defendia questões políticas à esquerda, de gênero e raciais. “Sou meio maldita”, se exprime ela na entrevista. A Folha era comandada pelo jovem talentosíssimo jornalista e dramaturgo Otavio Frias Filho (1957-2018), cuja fama me levou a assistir a duas peças suas, Típico Romântico (1992) e Rancor (1993).

 

Marilene era amiga de Frias, mas se desentende com ele, quando o jornal dá uma guinada à direita na linha editorial e seus textos passam a ser censurados internamente. O estopim parece ter sido o seu belíssimo É proibido comemorar, publicado em 29 de outubro de 2002 (vide texto no link abaixo), no qual comenta a primeira vitória de Lula à Presidência da República. Ela não aceita as condições impostas e bate em retirada da Folha de S.Paulo, para nunca mais voltar. Grande Marilene! Uma carta contundente sobre esse período foi publicada no Brasil de Fato, em 2014, no qual rememora sua saída do jornal (https://www.brasildefato.com.br/node/30156/).

 

Em certo momento, tive um abuso da jornalista, quando, de maneira antipática, procura desancar, na Folha, o romance Humana, demasiado humana (Rocco, 2000), sobre Lou Andreas-Salomé, da escritora pernambucana Luzilá Gonçalves Ferreira. Como leitor e admirador da obra histórico-literária de Luzilá, fiquei indignado.

 

Mas, ao ter contato com Obsceno abandono: amor e perda (Record, 2002), único livro que li da escritora Marilene Felinto, me redimi comigo mesmo. O livro é lindo. É um mergulho na alma humana, ou femininamente humana. Neste aspecto, ouso dizer que ambas as escritoras - Marilene e Luzilá - se assemelham e se reúnem à grandiosa Clarice Lispector.

 

Os anos se passaram, de fato, mas há mulheres que lutam toda a vida. Marilene Felinto faz parte desta máxima de Brecht.

 

São Paulo, 5 de julho de 2019.

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