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Feiras, bancas e negócios

História de: José Arnone Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/10/2016

Sinopse

Nesta entrevista, José Arnone nos fala sobre suas raízes italianas, a mudança de sua família para o Brasil e sua infância no bairro da Bela Vista/Bexiga. Depois, fala sobre o emprego de seu pai em uma fábrica de chapéus e da entrada da família Arnone no comércio feirante. Nesse meio, descreve a vida no Bexiga, a festa de Santa Achiropita e suas lembranças da feira. Numa época em que "tudo estava começando", seu pai e seus tios foram bem sucedidos e se mudaram para a Zona Cerealista, ampliando seus negócios. Assim, Arnone fala de sua formação de advogado na PUC, sobre a ditadura militar, a militância política estudantil e seu envolvimento com a região da Rua Santa Rosa. Em seguida, ouvimos sobre as mudanças nos negócios, sua passagem pelo SAGASP e a bancarrota de seu negócio, nos anos 90. Por fim, faz um balanço de sua vida, fala da experiência de ser síndico do Edifício Itália e nos apresenta seus sonhos para o futuro.

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História completa

Falar disso, são 30 anos, é uma vida! Quase tudo que eu tenho na minha vida, as minhas filhas são grandes profissionais, de onde veio? Como é que eu consegui todas essas faculdades? Pagar tudo? Saúde das minhas crianças… na zona cerealista. Agora, veja bem, todo mundo, todos os que eu falei, foi muito trabalho. Chegava quatro e meia, cinco horas da manhã, ia para casa sete, oito, nove horas da noite. Sábado, não tinha horário, sábado, três, quatro, cinco da tarde se trabalhava. Então, sempre todo mundo trabalhou muito na zona cerealista, era muito trabalho, mas compensava, era uma coisa gratificante. E as amizades, né? Todo mundo… a grande vantagem desse comercio que não é de gabinete, né, não é de escritório é esse, porque as lojas eram todas abertas, os balcões eram odos ali, todo mundo ficava na loja, ninguém ficava nos escritórios, a não ser na hora de fazer banco, aquela coisa toda, então todo mundo circulava na rua. Café, você tinha que tomar pelo menos uns 30 por dia, mas você não tomava Nespresso, ia no boteco tomar, passava o… o Isobata era na nossa rua, mas mais para cima, ele vinha: “Jorginho, vamos tomar café”, para o meu irmão, taça tomar café. Aí vinha o Dadá: “Zé, vamos tomar café”, vamos tomar café, então, todo mundo… era a manhã inteira, à tarde menos, porque à tarde, depois do almoço, pessoal já tava meio cansado, ia fazer suas contas. Mas de manhã, era incrível, todo mundo se cruzava e no almoço, né. E aí, surgiram as grandes amizades… ah, e no final do dia, no final da tarde, começo da noite, happy hour nos armazéns, a maioria das vezes era sempre no que tinha mais, mas ou era no meu, ou no Clovis Marchetti, ou era do Dadá, tinham lá as garrafinhas de whisky, as cervejinhas e todo mundo sentava para beber junto, conversar. Saiam negócios, além de que jogava-se baralho, coisa maravilhosa… dava-se risada, jogava-se muito truco e enfim, então também, a gente se reunia no fim do dia, antes de ir para casa para tomar um whiskynho juntos. E era todo mundo conversando com todo mundo, passeando junto, andando junto. Eu, todo dia, ia bater ponto no armazém do Dadá, ele vinha bater no meu, a gente ia no outro, no ceboleiro, ia no Ortega. Bárbaro! O que favorecia ser comércio de rua, né? Dadá estava na Benjamim de Oliveira, nessa época, do lado dele tinha depósitos, não era empresa, La Pastina, que é a famosa La Pastina, ele já tava lá com o imóvel dele, grande, bonito. E tinha do lado do Dadá os depósitos do La Pastina, um armazém fechado e o La Pastina sempre trabalhou com muita bebida, muito vinho, muito whisky, muita coisa e aqueles armazéns lotados de mercadoria e por razoes, acho que, de espaço, ele tinha mercadorias, às vezes, quando vinha a época que no era de chuva, ele punha até embaixo desses tablados, ele punha caixas de bebidas e tudo mais, quando chegava época de chuva, tirava e punha para cima e veio uma dessas enchentes bravas e tal, aí um dia, nós estamos lá fora, tal, ele falou: “Pô, meu armazém encheu de água lá, molhou um monte de bebida, tô tirando, tal”, tirou, depois vendia no varejo a garrafa, o que não estragou, pode vender. Passados uns dois anos dessa enchente, acho que foram dois anos, Dadá sabe melhor, ele falou: “Zé, vem aqui”, me ligou: “Corre aqui”, ele falou: “O La Pastina encontrou no fundo lá desses tablados, umas dez caixas de Whisky Haig que molhou na enchente e ele me deu um e falou: ‘Dadá, experimenta esse whisky, você que é conhecedor e vê se você gosta’, vamos experimentar hoje à noite?”, eu falei: “Vamos, ué”, fomos e abrimos uma garrafa do tal Haig, que foi olhado pela chuva de dois anos. Era um licor whisky, o whisky virou um licor, uma coisa de um sabor, de um aroma, toda manchada a garrafa, uma coisa assim, ele falou: “Você tá sentindo o que eu tô sentindo?”, eu falei: “Eu tô” “Vamos comprar?” “Compra tudo”, arrematamos todo o lote do whisky molhado do cara depois de dois anos, dividi com o Dadá, a gente deixou também para beber lá, a gente chamava de cheirosinho: “Vamos tomar um cheirosinho hoje?”, pergunta pra ele, eu nunca tomei um whisky tão bom na minha vida, arrematamos por preço de banana o whisky molhado lá, Haig, nunca me esqueço. Eu sei lá qual foi a reação química daquela água, depois ficou dois anos parado lá, secando, não sei. Sei que virou um licor, pena que acabou, tomamos tudo. “Dadá, tem cheirosinho pra tomar aí ainda?”.

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