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História

Fé sem fronteiras

História de: Jorge Davi Barros Parra
Autor: Ana Paula
Publicado em: 19/06/2021

Sinopse

Nascimento e breve histórico familiar. Causas da migração do Chile. Experiência na Argentina como refugiado político. Primeiras impressões do Brasil. Dificuldades enfrentadas na imigração. Importância da fé em sua vida. Aprendizado do português. Opiniões sobre regiões brasileiras. Reflexões sobre migração, volta ao Chile e união de países da América Latina. Mensagem final.

História completa

Projeto Memória e Migração Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Jorge Davi Barretos Parra Entrevistado por Cláudia Leonor São Paulo, 10 de dezembro de 1991 Código: MM_HV024 Transcrito por Beatriz Alvarenga Bonella de Araújo Revisado por Isabela Borges Vidal Polido Lopes P/1 – Museu da Pessoa, 10 de dezembro de 1991, entrevista com Jorge Davi Barretos Parra, por Cláudia Leonor. Eu gostaria que você me dissesse o seu nome completo, quando você nasceu e em que lugar, que cidade, que país. R – Jorge Davi Barretos Parra, nasci em Temuco, Chile, em 19 de dezembro de 1954. P/1 – Certo. E qual é o nome dos seus pais? R – Meu pai é Luis Barretos, minha mãe é Maria Parra. P/1 – E onde eles nasceram? R – Em Temuco mesmo, no sul do Chile. P/1 – No sul do Chile. E a origem do seu nome, do nome da sua família, você conhece? Tem alguma coisa a ver com Parra, a família de músicos? R – Não, não tem. Parra é um sobrenome comum no sul do Chile. Então, não tem nada a ver com Violeta Parra. Mas a música deles tem corrido o mundo, então... o sobrenome ficou famoso, né? Mas eu sou mesmo Barretos, paterno. É que no Brasil o materno fica no final. Aliás, se utiliza mais o materno. No meu caso o paterno é Barretos. P/1 – É. E você chegou no Brasil quando? R – Cheguei em 18 de outubro de 1977. P/1 – E por que você veio para o Brasil? R – Bom, meus pais estavam aqui na época e eu estava na Argentina. E naquela época havia muita repressão política na Argentina, todo chileno era considerado marxista. E não havia outro lugar melhor para ir e meus pais estavam aqui. Meu pai me disse: “Aqui é bom, vem pra cá”, então eu vim. Foi um pouco por acaso, né? P/1 – Por que seus pais escolheram o Brasil? Você sabe? R – Bom, naquela época a situação no Chile era muito crítica, né? O golpe de Estado foi muito violento, e depois a economia liberal golpeou muito a todo mundo. Meu pai tinha uma pequena indústria de confecções de roupas, e já ninguém mais comprava roupas, porque o pouco que todo mundo tinha era pra comer. Então meu pai começou a vender as máquinas, começou a vender as mercadorias que ele tinha estocadas. Ao final, tinha que vender a casa, mas ninguém comprava a casa, porque ninguém tinha dinheiro. Então pra onde vamos? Tinha que sair, ir pra qualquer lugar, né? E como não tinha muitos bens, um lugar na Argentina era uma situação terrível na época, eu estava lá e dava as notícias. Então, uma alternativa era vir para o Brasil, ainda que ele não conhecesse o Brasil. P/1 – E por que você escolheu ir para a Argentina? R - Porque era o país mais perto, e também eu não tinha condições econômicas de ir muito longe. Eu juntei dinheiro muito dificilmente durante um ano, vendendo garrafas, vendendo jornais, de qualquer forma, assim, para poder sair e poder me manter, ainda que fosse um mês fora, né? Argentina historicamente foi um lugar de muita imigração chilena. Então depois do Golpe o primeiro país onde foram muitos chilenos foi a Argentina. Só que quando eu cheguei lá, em 1976, houve o Golpe militar na Argentina, de Jorge Rafael Videla. Então, houve uma repressão política muito forte. Naquele tempo havia muitos Tupamaros do Uruguai lá também. A repressão política golpeou muito a nós que estávamos lá. P/1 – Certo. E o que que você fazia na Argentina, qual era a sua atividade? R – Eu saí com o intuito de estudar. Eu estudava Direito no Chile e queria continuar lá na Argentina. Mas quando eu cheguei lá, houve o Golpe de Estado e as universidades fecharam. P/1 – E pra sobreviver, como você fazia? R - Aí foi um sofrimento muito grande, porque eu estava lá como turista apenas. E depois o visto acabou e eu fiquei ilegal. E ilegal, então, não tem direito a nada, né? A qualquer momento eu poderia ser preso e colocado na fronteira ou investigada minha vida política, isso foi uma _____. P/1 – E o que você imaginava que ia encontrar quando você veio para o Brasil? Quais eram suas perspectivas? R – Na verdade, a perspectiva nossa lá de todos os refugiados políticos, e dos que não estavam como refugiados políticos, era sair da Argentina naquela época, especificamente de Buenos Aires. Porque não haveria coisa pior que estar lá naquele momento. Sem perspectiva nenhuma e com uma insegurança latente, porque havia muitos allanamientos militares, prendiam refugiados, prendiam chilenos e uruguaios. E matavam muita gente, né? Assim, a sangue frio. Então qualquer perspectiva era melhor. Alguns embarcavam, assim, em algum navio grego ou de outra nacionalidade para fazer qualquer coisa. Muitos morreram assim porque se escondiam nos porões, né, e era muito arriscado. Qualquer lugar do mundo era melhor. Então, eu estava ilegal. Houve em 1977 uma anistia que o governo argentino deu para todos os estrangeiros que estivessem ilegais, e no outro dia eu saí da Argentina. Depois... Um dia que eu nunca vou esquecer, 17 de outubro, dia do peronismo lá. Eu me senti em um dos dias mais felizes da minha vida, quando eu pude sair de lá e pude chegar aqui e andar tranquilo na rua, sem perigo de que alguém vá me pedir os documentos inexistentes [música de fundo]. P/1 – Certo, Jorge. E quais foram as primeiras impressões que você teve do Brasil quando você chegou aqui? R – Foi de liberdade, porque lá naquela época na Argentina a gente tinha que andar muito na escuridão, né? Tinha que trabalhar clandestinamente, tinha que não se expor. E não havia... Eu estava morando numa igreja, pra mim foi uma sorte, né, que a Igreja Evangélica lá em Buenos Aires me acolheu. Muitos não tiveram essa sorte, ficavam nos hotéis aí, expostos. Então, quando eu cheguei aqui, foi uma sensação de muito alívio, de andar tranquilo na rua. Eu podia correr tranquilamente e ninguém ia me prender. Lá se eu andasse um pouco mais rápido que o passo normal das pessoas na rua, já era suspeito. P/1 – Existia algum tipo de associação para receber os chilenos aqui no Brasil? Para ajudar, encaminhar, dar alguma assistência? R – Bom, eu quando saí do Chile, chegando na Argentina tratei de chegar em alguma comunidade evangélica, né, porque eu pertencia à Igreja Evangélica no Chile, e eu saindo sabia que a única forma de sobrevida seria eu no meio da comunidade, porque eu não tinha bens, nem tinha ajuda de ninguém. Então, só os irmãos da comunidade que poderiam, de alguma forma, me garantir sobrevida e condições de eu poder estudar como era meu objetivo, terminar meus estudos. P/1 – E como que eles te ajudaram? R – Ah, se eles não tivessem me ajudado, eu não sei o que teria sido. Desde a própria defesa física, porque uma vez eu fui preso lá na Argentina e a própria Igreja reclamou. E se ninguém tivesse reclamado, eu não sei se eu estaria vivo, porque naquele tempo todo chileno era marxista. Então, eu era marxista, era perigoso para o governo. P/1 – Mas aqui no Brasil eles te ajudaram de alguma maneira mais...? R – Aqui no Brasil politicamente não havia problemas quando eu cheguei, já não havia ditadura militar. Então, foi mais no plano econômico, né? P/1 – Sua família tinha algum tipo de costume do Chile que vocês continuaram a manter aqui no Brasil? R – A fé, a fé em Jesus Cristo, né? Essa fé que me tem mantido até agora vivo. Porque conhecia muitos lá na Argentina, inclusive aqui, que sem fé nenhuma e perdendo toda a perspectiva de vida... Quando você sai de seu país sem perspectiva e sem fé, o homem cai em vício, se degrada. E lá na Argentina e aqui no Brasil eu conheci muitos assim. Então, o centro da minha existência é a minha fé. Porque me sustentou e me sustentará ainda. P/1 – Você acha importante manter esse costume? R – Não, não é costume. É fé mesmo, né? Pra mim foi vital. Foi vital. P/1 – É. Havia algum bairro que você veio... Para qual bairro você veio em São Paulo? R – Eu cheguei na Lapa. P/1 – E como era sua vida? O que acontecia no seu cotidiano, no seu dia a dia? R – Bom, inicialmente para mim, a minha vida foi muito acessória. Porque eu cheguei, eu queria estudar, mas naquela época na universidade eu não tinha possibilidade de estudo. P/1 – Por quê? R – Porque na universidade pública eu não podia entrar sem ser regularizado no país, né? Eu não podia trabalhar, porque não tinha carteira de trabalho. Então, minha vida foi ajudar minha irmã que estava estudando, estudava Ótica no Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial], eu me lembro. Nós estávamos numa casa que a Igreja Evangélica Batista da Lapa comprou e que estava demolindo para construir um templo, e nós morávamos lá provisoriamente. Eu cozinhava pra minha irmã e preparava as coisas para ela estudar. Depois ela se formou e foi embora pro Chile e eu fiquei sozinho. P/1 – E aí você se naturalizou? ____? R – Não. Aí eu queria trabalhar, mas eu não podia trabalhar. Porque não tinha carteira de trabalho, né? E eu era turista e os vistos venciam, me davam visto por dois meses. Eu tinha que sair para o Paraguai, que era o lugar mais perto, e renovar o visto. E eu como não trabalhava, não tinha dinheiro. Então, se não fosse meus irmãos na fé, eu não teria podido me manter, sobreviver. E essa foi a experiência de muitos, muitos que chegaram naquela época também, inicialmente. E a situação de ser turista, de querer trabalhar, mas não ter carteira de trabalho. P/1 – Você é advogado, né? R – Sou advogado. P/1 - Você fez faculdade onde? R - Bom, eu comecei a estudar no Chile, na Universidade Católica. Depois estudei na Argentina, mas em virtude da minha situação lá, eu não pude continuar estudando, e eu ganhei uma bolsa de estudos aqui na FMU [Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas], que a Igreja Metodista conseguiu para mim lá nessa FMU, e eu pude terminar os meus estudos aqui no Brasil. P/1 – E aí você começou a exercer a profissão de advogado? Começou a advogar? R – Bom, foi muitos anos depois que aconteceu isso, né? Até lá, até eu estar regularizado aqui no Brasil, passaram dez anos. Então foi toda umas peripécias de sobrevida durante esses dez anos para eu trabalhar primeiro, para me manter e poder estudar, que eu queria. P/1 – Nesses dez anos você trabalhou em quê, exatamente? R – Bom, fiz de tudo, né? Eu me lembro que, desde a Argentina, a gente aprendeu a dizer que a gente tem que fazer qualquer trabalho, desde lavar o chão, limpar vidros dos prédios, até fazer trabalho de eletricidade, de jardinagem... o que vier. Isso eu aprendi lá na Argentina, de um amigo chileno que estava mais tempo lá, perguntou: “Jorge, você faz eletricidade?” e eu falei “Olha, eu nunca fiz e tenho medo disso”, “Mas você nunca pode falar isso. Você tem que falar ‘Eu tenho experiência nisso, e eu vou fazer, pintura, qualquer coisa’”. Então, chegando aqui ao Brasil, eu já tinha essa experiência lá e fiz de tudo, desde varrer o chão de escritório, até trabalhei de vendedor ambulante, de vendedor de loja, de vendedor de livros, de discos, qualquer coisa que aparecia eu fiz, fazia. P/1 – Certo. E a experiência de aprender português, como é que foi isso? R – Ah, quando eu cheguei aqui, não sabia nada, não entendia nada. Porque lá no Chile nós temos muito pouco contato com o português, ao contrário de vocês aqui que têm muito contato com a fala castelhana, né? Então, quando eu cheguei, não entendia nada. Eu ia na igreja e aprendia lá, aprendia nos cultos, nos sermões, perguntava para amigos, para amigas na igreja: “Como se dice isto?” e, assim, aos poucos, eu praticava, lia, escrevia em casa... e assim eu fui aprendendo aos poucos. Quando eu cheguei na faculdade, minhas notas eram horríveis, eram dois, três. Eu lembro que eu fui falar com a minha professora para que tivesse um pouco de paciência comigo, e aí ela me disse: “Não, você tem que se igualar aqui, tem que elevar o seu nível, né, eu não posso descer meu nível”. E isso foi muito bom para mim, porque eu estudando Direito deveria me expressar bem oral e na escrita também. P/1 – Claro. E São Paulo, como que era São Paulo na época em que você chegou aqui? R – Bom, para mim... Eu sempre morei em cidades grandes, né? Lá no Chile, Santiago é uma cidade muito grande. Em Buenos Aires, eu morei no centro. Então quando eu cheguei aqui, achei bom, agitado. Não saiu muito do meu ritmo de vida. P/1 – Certo. E você leciona em Araraquara? R – Leciono em Araraquara atualmente. P/1 – E como é pra você Araraquara, interior do estado? R – Bom, depois de muitos anos eu fui para Araraquara, né? Primeiro eu fui para Uberaba, porque surgiu depois de eu me formar. Fui trabalhar num escritório de advocacia e depois fiz pós-graduação, comecei a pós-graduação e surgiu uma oportunidade de trabalho lá na universidade de Uberaba. E eu fui pra lá, antes de Araraquara. Então em Uberaba, em Minas, eu passei cinco anos. P/1 – E como é que foi em Uberaba? O que você achava da cidade? R – Foi muito bom, muito rico. Pra mim, assim, o Brasil desde o Rio Grande do Sul até a Amazônia tem muita riqueza, e eu me adaptaria em qualquer lugar. Então, eu fui pra Minas, e foi muito bom, iria de novo ou iria para Mato Grosso, sem nenhuma dificuldade, né? P/1 – Que tipo de comida você come na sua casa? Tem alguma coisa típica do Chile? R – Não, minha mulher é gaúcha, então assim... Pratos de questão culinária eu sou mais gaúcho do que chileno, né? Mas de qualquer forma gosto muito de empanadas, que são muito gostosas lá no Chile. P/1 – Hoje, se você tivesse que migrar rapidamente, o que você levaria com você? R – Bom, eu acho que na questão da migração, se não houvesse alguma razão vital, ninguém sai do seu país. Eu saí do Chile pela questão de perspectivas de vida, e muitos saíram enxotados politicamente, né? Então, se eu tivesse que sair de novo, eu me prepararia, assim como eu me preparei para sair. Sabendo que não voltaria tão cedo, se voltasse. E qualquer um que sai do seu país para ficar muitos anos no estrangeiro, para ele não sofrer tanto, ele tem que se preparar psicologicamente para não sofrer, para não se desiludir e não morrer de pena, no exílio... como muitos que eu conheci morreram lá na Argentina. A fé de muitos era poder chegar em algum outro país onde não fossem perseguidos. E, depois de muitos anos como professor universitário, eu quis fazer uma pesquisa daqueles refugiados que foram para a Europa, chilenos, uruguaios naquela época, mas infelizmente eu não tive apoio econômico, ainda que eu pedi. Mas eu creio que seria um resgate histórico seguir a zaga daqueles exilados políticos, político-econômicos, que saíram em 1973 do Chile, e na mesma época do Uruguai, da Argentina, até a redemocratização, que é um trabalho que ainda não foi feito, e um pouco esse depoimento serve para isso, para deixar marcado esse vazio que existe na historiografia contemporânea. P/1 – E você voltaria para o Chile hoje? R – Chegou um tempo que eu voltaria. Todos os que saíram politicamente naquela época chegaram em um momento em que estavam em cima de um muro histórico: ou voltar sabendo que tinham passado muitos anos e profissionalmente já não se encaixariam, nem politicamente, seus amigos já não estariam, etc... ou ficar no lugar onde estavam e continuar a vida. Yo decidi essa segunda opção, porque quando eu decidi voltar, no Chile eu já era considerado velho com 30 anos. E profissionalmente aqui eu já era advogado e já era professor em Uberaba, na universidade de Uberaba. E já tinha casado e já tinha filhos aqui. Então eu decidi essa segunda opção. Mas muitos, muitos voltaram da Europa e daqui mesmo da América Latina. E eu não voltei ainda também porque eu não sei se sou "argentino-uruguaio" ou “mexibiano-colombo-chileno-guatemalteco”, né, porque eu tenho uma profunda fé na unidade latino-americana. Eu tenho uma profunda fé na integração latino-americana e na riqueza que nós temos aqui, na diversidade de regiões. Cada um tem a sua singularidade, mas, por outro lado, cada um sabe que tem raízes comuns, sangue comum, que tem sido enriquecida por sangue de muitos lugares do mundo. Então, temos uma identidade muito peculiar, a despeito de nossa diversidade. E eu creio que ficando aqui, poderia contribuir um pouco com o meu “ser chileno”, o meu ser um pouco nerudiano, porque eu me identifico muito com Neruda quando ele fala de Temuco, do sul do Chile. E ao mesmo tempo eu tenho sido muito enriquecido pelo “ser brasileiro”, pelo “ser gaúcho”. Por tudo isso eu creio que ficando aqui eu contribuo para o “ser latino-americano”, porque as fronteiras são muito artificiais, e eu tenho sentido isto desde que eu saí do meu país. As fronteiras devem ser superadas. P/1 – Você acha que os latinos deveriam lutar por isso? R – Eu creio que sim. E estão muito atrasados nisso, né? Os europeus olham para nós e dicem: “Por que vocês, que não tem guerras internas como os europeus tiveram na sua longa história de lutas e de guerras, não são mais unidos?”. E um pouco por isso que vocês já também sabem: nós temos vivido de costas uns aos outros durante esse tempo todo de nossa história. E temos que conhecer-nos mais e temos que integrar-nos mais. Creio que esse decênio que nós iniciamos agora será um pouco o decênio do maior conhecimento dos latino-americanos e da maior integração, não somente cultural, mas também econômica e política. Deve ser uma integração política. P/1 – Certo. E quanto ao seu futuro, o que você espera dele? R – Bom, eu me sinto muito novo ainda, a despeito de no Chile já ser velho. Em geral, o capitalismo selvagem e o liberalismo econômico que hoje vigoram no Chile usa muito do jovem, né, e o homem enquanto ser que pode ser sugado e depois jogado fora, como chupar uma laranja e jogar o bagaço fora. Então eu lutei no Chile por uma sociedade mais justa, igualitária, sin exploração do homem pelo homem, por uma vida em que se valorizasse mais o homem. Eu continuo lutando por isso e vou continuar lutando até morrer por essas mesmas coisas. E enquanto professor aqui eu trato nas minhas possibilidades de passar isso para os meus alunos. O Brasil tem muita coisa para ser feita. Aliás, Latino-América toda. Há muita desigualdade, há muita injustiça social, há muita marginalização de indígenas, de negros, de pobres, de todo o tipo material e espiritualmente. Eu continuo acreditando e vou continuar acreditando na redenção total do homem, tanto de alma, de espírito, como econômica e politicamente. Eu continuarei lutando por isto. P/1 – E para os seus filhos, o que você espera para eles? R – Que sejam felizes e que possam ver essa terra mais unida e um país mais justo, né? Que sejam lutadores, porque não se consegue nada sin luta. A vida é luta, como dizia o poeta. E a luta deve ser política. Uma das coisas que me chama atenção aqui no Brasil é que o povo luta pouco politicamente e não se organiza. E nós aprendemos na nossa juventude lá no Chile que para fazer qualquer coisa é necessário organizar-se. E eu gostaria, então, que meus filhos fossem organizadores de alguma coisa que promovesse o homem integralmente. Na mensagem evangélica total. Por exemplo, agora estamos perto do Natal, o consumismo é uma coisa que dá lástima. Então, nós podemos lutar por um Natal que tenha sentido realmente espiritual, que tenha sentido... como o Natal é, Deus conosco. Esperança e vida e não pacotes de presente, consumismo e que acaba tudo naquela noite mesmo. Eu espero passar um pouquinho disto. P/1 – O que que você falaria, qual mensagem você deixaria para uma pessoa que está passando dificuldades políticas, financeiras e que está procurando por uma vida nova? R – Eu creio que a vida nova começa no próprio homem. Com o golpe de Estado no Chile, que foi muito dolorido para mim e para todos que lutamos pelo socialismo à la chilena. E agora com a queda de todos os regimes que se diziam socialistas na Europa oriental, isso tem sido muito dolorido não somente para mim, mas para todos que idealizávamos esses regimes, né? Então, para no morrer junto com tudo isto e manter a fé ainda na justiça, nós temos que pensar em mudanças mais radicais ainda. No basta mudar as estruturas, tem que mudar o homem, porque enquanto no mudarmos o homem, as estruturas que podem ser justas, podem durar uma década, podem durar alguns anos mais ou menos, mas depois vem outra geração e a geração se corrompe, o próprio homem se corrompe. Deve ser um engajamento pessoal, de mudança íntegra, primeiro no próprio coração do homem, tem que ser uma mudança de dentro para fora. O homem novo pode construir estruturas novas, mas o homem velho vai construir estruturas velhas ou que se corromperão no decurso do processo. Já Jesus Cristo dizia: “Temos que colocar vinho novo em odres novos e não vinho novo em odres velhos”. A minha proposta hoje é de mudança integral minha primeiro, porque dessa forma eu poderei passar não sermões para os meus filhos, mas vida. E hoje o mundo está carecendo de lideranças, né, a começar pela família, pelo Estado. Os homens estão esperando uma liderança autêntica, e os homens estão corrompidos por dentro, por isso tanta corrupção e tanto desmando, porque tudo isso nasce do coração do homem. Então, hoje, ainda que nunca perdi minha fé bíblica, mas hoje, mais do que nunca, eu unifico minha fé política com a minha fé espiritual. Tem que haver mudança primeiro do meu ser interior, porque senão eu, chegando em alguma posição de destaque, vou ser um corrupto como muitos que estão aí. Tenho que pedir para que Deus primeiro mude minha vida e eu com essa vida puedo transmitir para os outros, porque ninguém pode transmitir o que não tem. Podem enganar um pouco de tempo, mas não todo o tempo. P/1 – Entendi. Obrigada, Jorge! R – Muito obrigado a você! ---FIM DA ENTREVISTA---
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