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História

Fé e vida

História de: Tadeu Freire Pontes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/01/2022

Sinopse

Tadeu recorda a sua infância em Ipueiras (CE) e lembra que foi alfabetizado aos doze anos. Relata episódios de bullying que sofreu quando matriculou-se na escola formal. Migrou para o Distrito Federal em dezembro de 1984 e foi morar com a família em Taguatinga. Em 1991 foi admitido como professor da rede pública do DF por meio de um contrato temporário. Logo envolveu-se com as Comunidades Eclesiais de Base. Filiou-se ao SINPRO-DF tão logo tornou-se professor efetivo. Dali em diante dedicou-se à carreira de professo e à militância sindical.

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História completa

Eu fui alfabetizado aos doze anos. Eu tenho uma irmã mais velha que sabia ler e escrever e ela alfabetizou a nós, os irmãos todos e as pessoas do lugar. Quando chegou no nível em que a gente não tinha mais condição de continuar estudando em casa, é que eu fui para cidade. O meu primeiro registro escolar formal, numa escola, foi na quinta série. Na minha casa também tinha aula de Mobral [Movimento Brasileiro de Alfabetização], eu lembro como se fosse hoje: no início da década de 1970, minha irmã dava aula nesse Mobral e minha mãe dava aula de catecismo. Nós viemos [de mudança para Brasília] de ônibus, ônibus comum, e foram dois dias e meio: saímos de lá uma quinta-feira ao final da manhã e chegamos na madrugadinha de sexta para o sábado aqui. Então viajamos quinta à noite, sexta o dia todo e uma parte da noite. Chegamos na antiga rodoviária em 21 de dezembro de 1984, lembro como hoje: chovia e fazia frio. Foi o primeiro contato com a escada rolante, com esse mundo que a gente não conhecia nada, semáforos, essas coisas minimamente urbanas. [Fui admitido como professor na rede pública do DF] no segundo semestre de 1991. Entrei como contrato temporário. Como eu já estava no terceiro semestre da universidade, já estava me preparando para terminar a licenciatura curta, já tinha um pré-estágio, e aí eu fui para uma escola pública. Quando cheguei em Brasília eu comecei a dar catequese na igreja católica. Eu já tinha uma vivência de relações humanas, de formação de identidade com a juventude, participei das Comunidades Eclesiais de Base, já militava politicamente desde o interior do Ceará com os trabalhadores rurais, na resistência. Eu não tinha uma compreensão intelectual de formalizar a luta da classe trabalhadora. Quando cheguei a Brasília tudo isso convergiu, e aí entrou o sindicato também na minha militância educacional e política. Eu sempre li Leonardo Boff, Frei Betto, Marilena Chauí, a história dos militantes. Eu tinha conhecimento da ditadura, o que tinha sido a ditadura, o ano de 1968, li a biografia do Che Guevara, do Fidel Castro, dos brasileiros que lutaram, eu conhecia já alguns expoentes. Conheci o Lula em 1978, ouvindo falar dele no rádio, quando ele foi preso nas primeiras greves. Então eu já tinha um pensamento mais com viés de esquerda, de repulsa à ditadura. Brasília consolidou a minha formação política a partir dessa efervescência, educação, igreja. Eu sempre fui para igreja progressista, nunca gostei dessa igreja que só canta, só reza. Nunca separei fé da vida. Assim que assumi como efetivo na Secretaria de Educação, já me sindicalizei. Eu tinha três dias de secretaria, já fiz a minha primeira greve. Lembro de vários companheiros que passaram pela direção, inclusive lembro dos companheiros que me sindicalizaram, que visitaram a escola. Fortalece você ver a unidade dos trabalhadores com todas as divergências, nunca é unânime. Aquela primeira greve consolidou o meu desejo de militância e eu nunca furei uma greve. O sindicato tem 42 anos, eu sou um dos professores que fez greve de fome, sete dias dentro da catedral [de Brasília], já me algemei, já ocupei aquele anexo do [palácio do] Buriti várias vezes em momentos de greve, vi companheiro enfartar, ser carregado nos braços, companheiro ser preso no Eixão. Quando eu estudava na escola pública no ensino médio, eu tinha uma professora que me levava para a frente do Buriti: eu ajudava jogar bola de gude para derrubar o cavalo da PM, quando eles partiam para cima dos professores. Eu era estudante ainda. Isso me ajudou muito a ter todo o encantamento com os educadores. Quem não milita, quem não participa, se sente fragilizado. Conheço a luta da classe trabalhadora desde o século 18, início do movimento sindical, a luta das mulheres, a história do sindicato para firmar democracia aqui em Brasília. [O SINPRO-DF] sempre foi um sindicato atuante, que combateu o militarismo, antes do sindicato ser sindicato, quando era associação. Estive na direção do sindicato por três anos, mas sempre fui delegado sindical antes de ir para direção. Atualmente eu sou delegado sindical na minha escola. Nunca me distanciei da luta, porque não tem vida sem resistência, sem luta, no sentido etimológico e político da expressão. [Meu sonho] é ver este país com dignidade, com educação para o filho do trabalhador, para o filho do ribeirinho, para o indígena, com respeito às minorias, aos negros, aos homossexuais, à população de rua, com geração de emprego, com educação de qualidade, com consciência política. Que ninguém nunca mais testemunhe o retrocesso que nós estamos vivenciando na história política deste país.

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