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História

"Fazendo o que gosta, não se vê o tempo passar"

História de: Carlos Cleber Coelho Olovate
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/02/2021

Sinopse

Ascendência uruguaia e ucraniana. Infância em Santana do Livramento. Faculdade de Engenharia Química em Santa Maria. Casamento e paternidade. Primeiro emprego. Ingresso na White Martins. Desenvolvimento da carreira e mudanças de cidade. Ida para Argentina. Segundo casamento e nascimento do filho. Trabalho no Cone Sul. Impactos da crise argentina nos anos 2000. Retorno ao Brasil. Gerência da fábrica de Carbureto de cálcio. Aplicação de gases no dia a dia. Logística e sistema de transporte. Aniversário de cem anos da White Martins.

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História completa

 

P/1 – Primeiramente, Cleber, obrigada por ter vindo, obrigado por disponibilizar o seu tempo para a gente.

 

R – Obrigado a vocês pelo convite.

 

P/1 – Imagina... E bom, primeiramente, para começar eu queria te pedir para falar seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Meu nome é Carlos Cleber Coelho Olovate, sou natural de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, nasci em 18 de maio de 1964.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – O nome do meu pai é Mirosval Olovate é a minha mãe Sueli Coelho Olovate.

 

P/1 – E dos seus avós, você sabe?

 

R – Meus avós paternos, era Simão Skibinski Olovate, a minha avó era Anastácia Olovate, e dos meus avós maternos era Virgílio Coelho e Hormecinda Coelho.

 

P/1 – E seus avós vieram para o Brasil ou não, você chegou a conhecê-los?

 

R – É uma mistura, a minha avó materna é uruguaia.

 

P/1 – Olha.

 

R – E meus avós paternos, ambos nasceram num navio quando os pais deles vieram da Ucrânia para o Brasil em 1900 mais ou menos.

 

P/1 – Olha, então, na verdade, foram seus avós que vieram para o Brasil?

  

R – Foram meus avôs…

 

P/1 – Avós…

 

R – Meus bisavós que vieram para o Brasil em protesto de paz, e meus avós nasceram nesse navio e por parte de mãe, aí não, são daqui do Sul.

 

P/1 – Uhum.

 

R – Se bem que minha avó era uruguaia, nascida numa cidade que é fronteira com o Uruguai, é uma fronteira, uma rua só....

 

P/1 – (Risos)

 

R – Que divide.

 

P/1 – E você nasceu nessa, é…

 

R – Em Santana do Livramento.

 

P/1 – E, como os seus pais se conheceram, você sabe dessa história?

 

R – Olha, pelo que eu soube, foi quando... O meu pai, meu pai, ele era alfaiate e relojoeiro.

 

P/1 – Hãm…

 

R – É, ele era nascido no Paraná, em União da Vitória no Paraná, e aí ele foi fazer serviço militar lá para o sul do país e acabou conhecendo minha mãe numa dessas viagens, depois que ele saiu do serviço militar, ele foi exercer a profissão de alfaiate lá e aí conheceu a minha mãe lá em Livramento.

 

P/1 – É dali começaram…

 

R – É dali, aquela época de antigamente né, de namoros controlados…

 

P/1 – (Risos)

 

R – Namorinho que a gente vê hoje em filme de sessão da tarde…

 

P/1 – (Risos)

 

R – E acabaram casando em Assunção na década de cinquenta, por aí mais ou menos.

 

P/1 – E quantos irmãos você tem?

 

R – Eu tenho um irmão por parte de pai.

 

P/1 – Uhum.

 

R – E acabou que a minha mãe é o segundo casamento do meu pai.

 

P/1 – Uhum.

 

R – Eu tenho quatro irmãos, entre pais e mães digamos assim.

 

P/1 – Então a família é grande…

 

R – É.

 

P/1 – (risos). E conta um pouquinho para gente como era esse convívio, né, teve convívio também com os avós, conta um pouquinho das atividades deles...

R – Era muito bacana porque meus avós maternos moravam lá em Livramento, e meus avôs paternos, na verdade, eu fui conhecer eles aos doze anos, eles moravam no Paraná.

 

P/1 – Ham…

 

R – Então foi tudo uma surpresa. Nossa primeira viagem lá do sul ao Paraná na época, década de setenta, com péssimas estradas…

 

P/1 – (Risos)

 

R – Era uma aventura aquela viagem naquela época, eu lembro que a gente foi numa rural velha que nós tínhamos, fizemos uma viagem de carro até do Rio Grande do Sul ao Paraná, e aí chegamos lá numa família de ucranianos, nós éramos gaúchos, bem da fronteira.

 

P/1 – Uhum.

 

R – E foi até um choque cultural porque a família do meu pai, alguns, a minha avó mal fala Português. Então aí continuava, eram nove irmãos por parte do meu pai, todos eles naquela... Eu me lembro como se fosse uma colônia de ucranianos.

 

P/1 – E seu pai fala o idioma?

 

R – Meu pai é falecido já…

 

P/1 – Não, mas na época ele…

 

R – Ele falava alguma coisa, ele também cresceu na colônia só falando Ucraniano…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Ficou alfabetizado lá pelos catorze anos.

 

P/1 – Você aprendeu então um pouquinho de Ucraniano.

 

R – Muito pouco porque, às vezes, a gente puxava com ele também, eu não sei se ele, ou não gostava de falar…

 

P/1 – (Risos).

 

R – Não queria falar, foi muito pouco que ele passou para gente de Ucraniano.

 

P/1 – E isso…

 

R – Para você ver, quando nós voltamos lá, quando nós fomos conhecer os familiares paranaenses, entre eles falavam uma coisa “esquisita”...

 

P/1 – (Risos). Hoje você tem algum contato com a cultura ucraniana?

 

R – Não, não, muito pouco, alguns primos que ficaram no Paraná, esse irmão que a gente tem do primeiro casamento do meu pai que mora em Curitiba também, mas um é contato bem esporádico.

 

P/1 – E como que era a convivência dentro da tua família mesmo, quatro irmãos, uma casa grande já, né?

 

R/ 1 – Aquela bagunça de antigamente, né, a casa não era tão grande, minha família era humilde, meu pai trabalhava como relojoeiro, minha mãe era professora pública numa escola lá no Livramento também. Eu morava em uma cidadezinha pequena, cidadezinha de sessenta, setenta mil habitantes, né…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Todo aquele convívio de cidadezinha do interior, então as brincadeiras... Tudo na rua, ia à escola que era pertinho, as amizades de todo quarteirão em volta de jogar bola na rua, de... Era muito bacana. Advento da televisão naquela época, então a nossa família foi uma das primeiras a ter televisão no bairro, então era o bairro inteiro lá em casa vendo televisão... (Risos) Eu lembro, inclusive, que era grande e ficava a janela aberta, porta aberta para que os vizinhos fossem para olhar a televisão.

 

P/1 – Aham. E do bairro, assim, o que você lembra dele, tem algum lugar predileto para brincar? Alguma brincadeira predileta?

 

R – O bacana dele é que tinha uma escola, embora fosse uma escola pública, mas era uma escola muito grande, muito bem conceituada lá nos livros de setenta…

 

P/1 – Aham.

 

R – Que as nossas escolas públicas eram muito boas no interior, no Rio Grande do Sul principalmente, e a vida de criança em função dos vizinhos e colegas na escola, que, na verdade, eram todos vizinhos da escola, que ficava duas quadras de casa, então a brincadeira toda era o ir para a escola, o voltar da escola…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então acho que isso me marcou bastante, a proximidade de casa, enxergava a escola, ficava no alto, então era um negócio bacana que ficou bem marcado…

 

P/1 – Aham.

 

R – As amizades naquela época até hoje eu consigo ir cultivando…

 

P/1 – Bacana.

 

R – Alguns amigos em Porto Alegre, outros soltos pelo mundo, mas foi muito marcante, coisa que a gente guarda para sempre.

 

P/1 – Algum programa de televisão que você lembra que…

 

R – Sabe que na época quando pintou a televisão lá... Como isso está a uns quinhentos quilômetros ao sul de Porto Alegre, não chegava o sinal de TV brasileira, então os canais que a gente via eram uruguaios.

 

P/1 – Uruguaios. (Risos).

 

R – A gente via todo programa de televisão em Espanhol, então eu lembro de “Bonanza”, “Chaparral”, os programas de “Bang Bang”...

 

P/1 – Em Espanhol... (risos).

 

R – Tudo em Espanhol, “O gordo e o magro”, “Os patetas” tudo em Espanhol também, então isso forçava muito mais ainda a gente a mistura de idiomas…

 

P/1 – Com certeza.

 

R – Na verdade, ali é um Portunhol institucionalizado.

 

P/1 – (Risos). Vocês chegavam a conviver com alguns uruguaios? Mais com a sua avó, também?

 

R – Eu, embora a escola eu fizesse no Brasil, eu estudava Inglês no Uruguai e estudava violão no Uruguai também…

 

P/1 – Olha. (Risos).

 

R – Então acabava que ia fazer aula de Inglês, mas a professora explicava em Espanhol o que queria te dizer em Inglês, então isso ajudou bastante.

 

P/1 – Bom que você já saiu com três idiomas, né? (Risos)

 

R/ – La Coroña, acabava trazendo tudo…

 

P/1 – (Risos). Falando já um pouquinho de idioma, você comentou que sua mãe era professora também, né? Você chegou a ter aula com ela? 

 

R – Tive aula com ela…

 

P/1 – É mesmo? Do que que ela dava aula?

 

R – Ela me deu aula de Matemática e de Ciência, não lembro agora em que série foi, mas foi tipo na terceira, quarta ou quinta série, no Primário que eu tive aula com ela uma vez de Matemática, no outro ano aula de Ciência.

 

P/1 – E tuas lembranças da escola, assim, né? As aulas que você teve com a sua mãe ou com outros professores, que matérias mais te chamavam a atenção?

 

R – Não eu, eu sempre gostei, acho que até por isso eu decidi, eu acabei fazendo Engenharia Química porque sempre gostei das Ciências Exatas, de Ciências, de Química, de Matemática, então não sei se tem a ver o lado da mãe pelo fato de ter aula de Matemática, de Ciências com ela…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Acabei gostando da Química e da Matemática também. Mas defini no final pela profissão de Engenheiro Químico, acho que teve uma influência aí da infância.

 

P/1 – Uma influência mesmo dela. Você lembra do primeiro dia de aula?

 

R – Sabe que eu tenho memórias assim de professores do Primário, mas são vagas memórias, então fica mais marcado lá da quinta à sexta série em diante.

 

P/1 – E você continuou estudando lá em Livramento mesmo?

 

R – Eu lembro que nessa primeira escola, a época que lembro, a escola primária ia até a quinta série. E aí houve uma reforma de ensino que aí o Primário ia até a oitava série, então a nossa turma foi a primeira nessa escola pública que abriu a sexta série, sétima e a oitava, então a escola passou de um ano para o outro do nível cinco para oito séries, ela tinha até quinta aí, tipo nesse ano abriu a sexta, nós fomos a primeira turma, quando nós concluímos abriu-se a sétima, nós fomos a primeira turma da sétima de novo…

 

P/1 – Vocês foram abrindo todas.

 

R/ – Nós acabávamos sendo os mimosos da escola…

 

P/1 – (Risos).

 

R – Nós conhecíamos todos os professores, éramos os mais antigos da escola…

 

P/1 – Aham.

 

R – Muitos eram filhos de professores que lecionavam lá, a gente fazia um pouco de tudo.

 

P/1 – Sua escola também era pequena, né?

 

R – Não, era uma escola até grande…

 

P/1 – Era?

 

R – Devia ter mais de quinhentos alunos lá, uma escola de três andares, enorme…

 

P/1 – Olha, e atendia então tanto as pessoas de Livramento quanto um pouco do Uruguai também?

 

R – É, mas tinha um monte, embora seja uma cidade pequena do interior, devia ter duas ou três escolas públicas…

 

P/1 – Olha.

 

R – Então a influência era muito grande, e o pessoal sei lá, gaúcho no interior tem até um negócio: “Vou colocar o filho na escola desde pequenininho”...

 

P/1 – Bacana.

 

R – Então a maioria, o índice de alfabetismo... Na cultura do sul realmente era enorme a quantidade de crianças que tinha na escola, era impressionante, eu me lembro eram três andares e de cada série tinha cinco ou seis turmas…

 

P/1 – Caramba.

 

R – Então era um monte de gente.

 

P/1 – E, com essa diversidade toda, como eram as festas da escola, tinha comemorações?

 

R – Ali, você sabe que em função do câmbio…

 

P/1 – Hã?

 

R – Às vezes o real estava mais forte ou o cruzeiro ou o cruzado, a moeda que fosse na época, e a moeda uruguaia era mais fraca, então era mais barato comprar no Uruguai…

 

P/1 – (Risos).

 

R – A gente ia encher os supermercados, ia abastecer o carro, ia nos bares, nos restaurantes, nos cinemas no Uruguai, aí davam, naquela época, o governo manipulava a moeda, então a maxidesvalorização é uma mínima desvalorização ou valorização, aí invertia a situação. Estava muito, muito caro no Uruguai e muito barato no Brasil, então era sempre os uruguaios vindo para o Brasil, aí era um boom nos supermercados, de lojas, aí trocava de governo, mudava o câmbio de novo... Então existiam colegas que estudavam no Brasil que eram dos uruguaios. Depois, por exemplo, minha sobrinha, ela era a mais recente. Ela estuda, é brasileira, mas estuda no Uruguai…

 

P/1 – Aham.

 

R – O estudo lá hoje está melhor, o estudo está mais barato, os preços estão mais baratos e é uma questão de andar três quadras para cá, anda para lá…

 

P/1 – Anda para lá. 

 

R – E atravessou a fronteira.

 

P/1 - Que bacana. Mas e as comemorações nas escolas seguiam mais assim…

 

R – Não tem muito lá, sabe por quê? É, tem uma particularidade, por exemplo, quem mora ali, a gente convivia muito com o Uruguai, só que você fala em Português e eles te respondem em Espanhol…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Não, é que nem você fala em Espanhol nem eles Português, tratam de te responder e se mantêm os dois idiomas, mas se entendem perfeitamente. Então o brasileiro falando Português e o uruguaio falando em Espanhol, e o próprio jornal, que tem o jornal local, metade está em Português e a outra metade está em Espanhol, então você tem as notícias do Uruguai ali... Continua sendo assim, a cidade cresceu um pouco, mas não juntou as duas cidades, tem uns cento e cinquenta mil habitantes, mas é setenta de cada lado. Então tem muito essa mistura hoje, por exemplo, essa cidade é freeshop então lá é cheio do pessoal que vai de Porto Alegre para as cidades das redondezas para comprar perfumes, eletrônicos e tudo lá, porque virou uma grande zona de compra lá, livre de impostos do lado do Uruguai... Só do lado brasileiro não. Então você vai lá hoje, por exemplo, o combustível é muito caro, não tem posto de gasolina do outro lado, você tem do lado de cá, isso já era desde antigamente... Meu avô tinha um armazém que ficava lá, eles chamam a fronteira de linha divisória…

 

P/1 – Hãm…

 

R – É uma avenida que divide as cidades, uma mão no sentido do trânsito brasileiro e o outro sentido é uruguaio…

 

P/1 – (Risos).

 

R – É, ele tinha o armazém dele do lado brasileiro, então ele comercializava o que estava na época mais beneficiado por causa do câmbio, então ele vendia produtos para o Uruguai... Não existe entre as duas cidades uma inspeção, então você pode comprar coisa no Uruguai e trazer para o Livramento, comprar de Livramento e levar para fronteira... Que não é considerado contrabando, então existe livre comércio na área urbana das duas cidades e meu avô tinha um supermercado na fronteira lá, na linha divisória…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então minha mãe conta, na época, quando já estava nascido, que muito comércio fez-se se entre brasileiros e uruguaios em função dessa variação do câmbio.

 

P/1 – E nessas cidades assim tão marcadas pelo comércio, como vocês se divertiam, o que que tinha?

 

R – A vida noturna lá como é…

 

P/1 – Não só noturnas…

 

R – A diversão de dia era ir para as fazendas, andar a cavalo…

 

P/1 – Tinha muito?

 

R – Era pescar, caçar, ir acampar ou ia passava as férias muitas vezes na fazenda de um amigo ou na chácara de outro ou no sítio de outro…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Lá é muito campo, tem uma zona lá em que a região é muito plana, quase não tem montanha, então eram aquelas grandes fazendas de gado. Então, as férias, a maiorias delas era passada indo para o campo.

 

P/1 – Uhum. Você gosta de campo até hoje?

 

R – Não, eu acho que foi bastante já…

 

P/1 – (Risos).

 

R – Eu já tive bastante de campo, de cavalo, de ovelha, na época de infância e de adolescência. Depois eu saí de lá, morei em várias cidades grandes em torno de Marajá, hoje me identifico mais com as cidades maiores do que o campo, vou muito pouco lá.

 

P/1 – Mas com toda essa diversidade, o que que te marcou mais na adolescência? O que se acha? Pensa em adolescência e te…

 

R – Eu acho que mais do que nada é a liberdade, pelo fato de ser uma cidade pequena onde todo mundo se conhece, onde não existia risco de assalto…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Risco de atropelamento, onde o trânsito era mínimo, então você tinha uma liberdade tremenda, você tinha uma segurança muito grande, então você saía e todo mundo te conhecia... Não tinha telefone, não tinha celular naquela época, mas você sabia a hora que tinha que sair, você sabia a hora que tinha que voltar, então você fazia tudo a pé, a cidade era pequenininha. Mas eu acho que o mais me marcou, principalmente comparando com a atualidade, é o sentido de liberdade, de segurança, que você tinha, o fato de conhecer todo mundo, ter um conhecido em cada esquina…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então eu acho que isso é o legal daquela época.

 

P/1 – Naquela época, você pensava em alguma profissão? Tinha algum sonho assim de “quando eu crescer”?

 

R – Olha, eu tentei, eu queria era ser piloto de avião... Eu até tentei fazer, fiz um curso para uma escola preparatória que tem em Barbacena, em Minas Gerais.

 

P/1 – Sei…

 

R – Mas não passei... Então, como estava também na época em que eu estava terminando lá o Segundo Grau, estavam começando a construir um polo petroquímico lá, a Copesul, lá de Porto Alegre…

 

P/1 – Tá.

 

R – E como eu gostava de Matemática, de Química e tudo... Comecei a fazer Engenharia Química para trabalhar no polo, essa foi a minha decisão. Até eu acho que em segundo, na época do vestibular tinha primeira opção e segunda opção, a primeira opção era Engenharia Química a segunda era Farmácia, então eu estava voltado para o lado da Química.

 

P/1 – E seus pais?

 

R – Tinha uma professora de Química no Segundo Grau que me influenciou bastante.

 

P/1 – Hum. E seus pais, assim, eles aceitaram, incentivaram?

 

R – Sim... Assim, o meu pai, ele não tinha, ele tinha só o Primário, ele foi alfabetizado como eu comentei, no Paraná, na colônia ucraniana, eles falavam Ucraniano, ele só foi estudar Português aos catorze anos quando, na época, já a garotada saía para trabalhar, e ele não se comunicava em Português, então aí ele foi estudar…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então ele sentia muita falta do estudo, então sempre foi um grande incentivador nosso, e pelo o que ele comentava, um dos motivos que ele se aproximou da minha mãe, que acabou se apaixonando, era que ela era professora, como ele tinha pouco estudo, ele achava ela o máximo…

 

P/1 – (Risos).

 

R – Então a família sempre deu muita força, todos nós, os quatros irmãos, acabamos entrando em universidades federais e fazendo faculdade…

 

P/1 – Desculpa, tinha faculdade em Livramento?

 

R – Não tinha em Livramento, então você tinha que fazer tudo lá fora…

 

P/1 – É isso que eu queria chegar... Você foi o irmão mais velho, teve alguém, algum irmão que saiu antes de Livramento?

 

R – Tinha uma irmã mais velha, tenho uma irmã mais velha... Quatro anos mais velha que eu, ela foi a primeira a sair e foi fazer Engenharia Eletrônica em Porto Alegre.

 

P/1 – Tá.

 

R – Depois saiu o meu irmão que é dois anos mais velho e foi fazer Engenharia Florestal na Universidade Federal de Santa Maria, e eu já fui o terceiro a sair…

 

P/1 – (Risos).

 

R – Que tem uma diferença de dois anos entre os três primeiros, ai fui, passei em Engenharia Química na Universidade Federal de Santa Maria, e aí fui morar com ele lá, ele já morava em Santa Maria, minha irmã morava em Porto Alegre, minha outra irmã em Santa Maria, e eu fui para Santa Maria.

 

P/1 – Todos engenheiros assim?

 

R – Não, minha última irmã acabou ficando em Livramento, essa não foi federal, acabou ficando lá e fazendo Pedagogia.

 

P/1 – Tá, uma das Humanas, né?

 

R – Essa foi... A menorzinha ficou em casa…

 

P/1 – (Risos). E como foi essa transição assim... Santa Maria é uma cidade maior do que Livramento, como foi essa transição, sair daquele ambiente com bastante natureza ao redor... Santa Maria já era um pouquinho maior…

 

R – Santa Maria já era uma cidade universitária…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Tinha indústrias, mas para mim foi muito bacana, porque foi o início fora de casa, morar sozinho, dezessete anos que eu tinha quando terminei o Segundo Grau, e então os primeiros seis meses era muita festa.

 

P/1 – (Risos).

 

R – Pouco estudo... Depois tive que repensar a minha... Meu comportamento lá, mas foi muito bacana a parte de morar com o meu irmão também…

 

P/1 – Uhum.

 

R – E com os outros... Nós morávamos numa república de seis rapazes... Todos lá de Livramento.

 

P/1 – Nossa, todos se conheciam.

 

R – Então todo mundo se conhecia, a maioria deles era ex-colegas de Segundo Grau, então a gente foi, passou o Segundo Grau e foi morar todo mundo junto.

 

P/1 – Como funcionava a organização dessa república?

 

R – Você já imaginou seis homens…

 

P/1 – (Risos).

 

R – Num apartamento de dois, três quartos, a bagunça que era…

 

P/1 – Vocês aprenderam?

 

R – Tinha que sair e estudar na garagem do prédio porque dentro de casa não conseguia.

 

P/1 – Mas vocês aprenderam a cozinhar, a lavar roupa? (Risos).

 

R – Tinha que fazer de tudo, tinha uma escala de trabalho colada na geladeira, todo dia fulano cozinhava, fulano limpava.

 

P/1 – E aí quando começou o estágio, quando?

 

R – Não, aí aconteceu algo muito importante…

 

P/1 – Hãm…

 

R – No segundo ano de faculdade eu engravidei minha namorada e me casei…

 

P/1 – (Risos).

 

R – Então no meu segundo ano de liberdade…

 

P/1 – (Risos).

 

R – Acabei antecipando os fatos e casei logo no segundo ano de faculdade, continuei a faculdade, não parei, e trabalhava à noite, então acabaram-se as festas, aí era faculdade de manhã e de tarde e trabalho à noite.

 

P/1 – Uhum. E ela também era da faculdade?

 

R – Ela morava lá antes, em Santa Maria, num internato em Santa Maria, e estava fazendo ainda o Segundo Grau, eu tinha dezenove anos e ela tinha dezessete na época, eu tenho uma filha que está com vinte e dois e tem outra com vinte e seis anos…

 

P/1 – Que foi a primeira?

 

R/- É, que foi a primeira, é…

 

P/1 – É, aí então, na república você montou uma casa?

 

R – Aí na república, tive que sair da república, aí fui morar com a minha esposa, ai fui cuidar da minha filha... Suar para terminar os estudos.

 

P/1 – Mas era mais organizado, né, daí tinha uma mulher... (Risos).

 

R – Mais ou menos, porque a gente continuava a ser estudante, né, continuava sendo estudante, a casa vivia sempre cheia de gente também.

 

P/1 – Uhum. E esse trabalho noturno era ligado à Química?

 

R – Não, fui trabalhar no que pintou... Fui trabalhar lá de escriturado no Itaú, ficava separando cheque, carimbando cheque, fazendo compensação de cheque, até porque é de noite, né... Fechava as agências e aí tinha que trocar cheque, fazer compensação de cheque.

 

P/1 – E de manhã você voltava para Química? 

 

R – De manhã e de tarde eu tinha faculdade, eu estudava de sete da manhã até às cinco da tarde, entrava às seis no banco até meia noite.

 

P/1 – Nenhum momento essa coisa comercial lá de Livramento, agora bancário nenhum momento?

 

R – Não, mas o banco pintou por necessidade mesmo, casado precisava, meus pais estavam me bancando enquanto eu estava estudando…

 

P/1 – Hum.

 

R – “Ah você vai casar, então se vira”, aí eu tive que trabalhar.

 

P/1 – Aí acabou a faculdade...?

 

R – Mas aí já estava de boa, estava com o pé empurrando o carrinho da minha filha e ao mesmo tempo fazendo desenho de projeto…

 

P/1 – (Risos)

 

R – Foi um começo bacana.

 

P/1 – E terminou a faculdade?

 

R – Eu terminei a faculdade, fiz meu baile de formatura num sábado e entrei na White na segunda.

 

P/1 – Como assim, como foi esse processo?

 

R – Foi meu primeiro, digamos... Eu fiz, trabalhei num frigorífico fazendo estágio, trabalhei numa adega de vinhos, numa vinícola lá em Livramento, na Almadén, assim em época de férias, então férias da faculdade ou férias do trabalho eu ia para casa dos meus pais, mas aí ficava fazendo estágio trabalhando lá, e quando eu me formei, antes de me formar, porque entre terminar as aulas e o baile de formatura levava trinta dias, nesse período eu me candidatei numa vaga na White, fiz entrevista e me acertei com a White e disse: “Olha, eu só posso começar depois da formatura”.

 

P/1 – (Risos).

 

R – Aí foi o baile de formatura no final de julho, eu tinha me formado no início, tinha concluído no início julho e entrei na White no dia sete de agosto de 1992.

 

P/1 – 1992. E em que cargo?

 

R – Na primeira segunda-feira depois do baile de formatura.

 

P/1 – Direto assim, recém-formado mesmo? (risos)

 

R – Recém-formado mesmo.

 

P/1 – Em que cargo você entrou?

 

R – Eu entrei como encarregado de produção lá em Cruz Alta, que é uma cidade próxima de Santa Maria, também lá eles tinham uma, tinham não, tem uma filial lá e, antes de eu ir para lá, nasceu minha segunda filha. Então ainda durante a faculdade eu tive outra menina... Foi quando eu mudei para Cruz Alta já para trabalhar, já fui eu, minha mulher e duas filhas.

 

P/1 – Em Cruz Alta como era? Tinha também uma fábrica da White?

 

R – Tem, tem uma unidade da White Martins lá, na verdade, lá é processado só os produtos da White, não fabricado, eles fabricam lá no polo petroquímico, na Copesul, e lá processa, leva em granel e faz o fracionamento dos produtos…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Esse foi o meu primeiro trabalho lá de carteira assinada já como engenheiro trabalhando na White Martins.

 

P/1 – É como que era a estrutura da fábrica?

 

R – É muito bacana, imagina você recém-formado... Engenheirinho…

 

P/1 – (Risos).

 

R – Cheio de vontade, cheio de projetos, aí você chega num negócio em que tudo é novo... Tinha uma das pessoas que trabalhavam lá... O Saulo, ele era o meu colega de faculdade também, não tinha sido o meu colega de faculdade, ele tinha entrado na faculdade um ano antes do que eu e ele já estava trabalhando lá na White Martins, o Mário Simas que hoje é um dos diretores da empresa também, foi meu colega de faculdade, entrou junto e ele se formou em cinco, porque eu acabei fazendo Engenharia em cinco anos e meio, pelo casamento, pelas festas…

 

P/1 – (Risos).

 

R – O Mário entrou na White também, então eu já era o terceiro da Engenharia Química de Santa Maria a entrar na White Martins lá em Cruz Alta…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então você chega numa empresa nova, mas já com pessoas conhecidas da faculdade lá dentro, isso ajuda.

 

P/1 – Com certeza. E como que foi esse primeiro dia? Reencontrar os colegas... Ver ali essa nova…

 

R – Nossa é uma ansiedade…

 

P/1 – Lembra?

 

R – Nesse período que eu estava entre formado e fazendo testes e entrevistas para conseguir emprego, eu já tinha sido aceito para trabalhar numa empresa que fazia alimentos lá perto de Porto Alegre. Na verdade, era alimento dissecado que usam para fazer merenda escolar, que depois você hidrata ele e aí faz a merenda. Só que era uma empresa local, familiar, mas eu precisava trabalhar, então já estava acertado para trabalhar em Taquara perto de Porto Alegre, mas continuava tentando entrar na White Martins. Aí, quando eu recebi a confirmação da White Martins, eu tive que cancelar o outro, até me xingaram, disseram: “Pô, você tá começando muito mal, engenheiro que fica trocando de emprego...”. Eu disse: “Não, mas é que é uma multinacional, uma grande empresa, tem capital americano...”, um dos meus sonhos era conhecer os Estados Unidos... “Não, eu vou trabalhar na White Martins. Eu acho que é melhor na White Martins, mas, mais por isso, do tamanho da empresa, ter matriz no Rio de Janeiro e de estar ligada aos Estados Unidos...”.

 

P/1 – Uhum.

 

R – Melhor do que uma empresa pequenininha ali, perto…

 

P/1 – (risos)

 

R – Eu acho que foi uma boa decisão na época.

 

P/1 – E essa imagem da White de que você está falando, grande e ligada ao capital estrangeiro... O que mais chegava assim da imagem da White no Sul?

 

R – A White foi durante muito tempo uma empresa líder, como se fosse líder do mercado... Mas, na época, tinha um marketing alto, mais de noventa por cento no Sul, então só existia a White Martins como empresa de gases, de tecnologia…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Que estava dentro do polo petroquímico. Eu nas minhas visitas de universitário, a gente foi fazer viagem de estudos visitando o polo e tinha conhecido a White Martins lá... Tinha achado muito legal, achamos o oxigênio líquido, o nitrogênio líquido a cento e oitenta graus abaixo de zero. Então aquilo, como estudante, impactou. E o fato de que eu estudei muito Inglês, em Livramento eu fiz oito anos de Inglês, né?

 

P/1 – (risos)

 

R – Então, “meu Inglês tem que servir para alguma coisa, tô trabalhando numa empresa americana”. Então tudo já vinha, digamos que somando esses anos da infância com o que eu vinha fazendo, como eu vinha me preparando... A outra era uma empresa de descendência de alemães e tal, então eu não tinha nada, estava sem nada, me preparei para Inglês e não me preparei para aquilo e caí para Engenharia que era eu ir Estados Unidos, então a White Martins…

 

P/1 – É lá…

 

R – É o casamento ideal…

 

P/1 – E como que era o cotidiano nesse teu primeiro cargo, qual era o cotidiano do trabalho?

 

R – Ah, o cotidiano, lá também era uma cidade pequena, eu morava perto e a minha função lá de produção era enchimento de cilindros. Então são aqueles cilindros que você vê no hospital, de alta pressão. Então chegavam, vinham do mercado nos caminhões vazios, alguns vinham de helicópteros para evitar contaminação e preservar integridade do cilindro, faziam enchimento controlado... A gente trabalhar com pressões. A gente sempre faz a comparação na White Martins de que você está lá e o gás está comprimido dentro do cilindro, e isso é um risco... Para você ter uma ideia, um pneu de carro fica duro que nem uma pedra com 28,30 libras, um cilindro tem duas mil e 400 libras de pressão. Então você já imagina se o pneu fica duro como uma pedra com 28, imagina com duas mil e 400. Isso é que vai dentro de um cilindro, tem a pressão realmente muito alta, muito perigoso. 

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então esse processo de controlar pressão, controlar temperatura, controlar integridade do cilindro era a minha função lá.

 

P/1 – Então já começou com segurança assim, né... nesse sentido.

 

R – Sim, sim. Bastante segurança. Primeiros dias de White você não põe a mão na massa, você não trabalha, você tem treinamento de segurança.

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então somos informados sobre o que é a empresa, o que ela produz, quais são os riscos na atividade, quais são os riscos no uso dos produtos. Mas é isso, sempre foi um zelo por segurança muito grande.

 

P/1 – E como eram os colegas no trabalho? Você tinha falado que alguns você já conhecia e os outros?

 

R – É, alguns eu já conhecia. O Saulo que trabalhava na parte de Logística e distribuição e o Mário que trabalhava na parte comercial, na fábrica.

 

P/1 – Uhum.

 

R – E eu tinha entrado como produção, então na verdade…

 

P/1 – Não tinha, né…

 

R – Complementava, eu produzia, o outro descrevia e o outro vendia. Então nos víamos muito. Eu vivia muito com o Saulo, trabalhava no mesmo lugar e com o Mário era um pouco menos. Mas é a simplicidade de pessoas do interior, aí tornava, sempre foi... O recebimento foi muito bom, a empresa tinha lá dentro, lá tinha o clubinho, então a gente, final de tarde, jogava sinuca e sentava lá para bater papo um fim de semana às vezes, gaúcho adorava fazer um churrasquinho…

 

P/1 – (risos).

 

R – ...Um vinha com a carne, outro vinha com a bebida, outro vinha com a salada, então era uma grande família também. Era uma unidade pequena, umas vinte pessoas, então ficava muito fácil de se sentir bem.

 

P/1 – Uhum. Vinte só na produção?

 

R – Não, não, vinte em tudo. Na produção devia ser em torno de dez pessoas, depois entra o administrativo... Talvez um pouco mais, vinte, trinta pessoas.

 

P/1 – E a maioria era…

 

R – Mas aí que foi tudo aquilo, né, minha primeira viagem de avião foi pela White Martins, quando eu tive que sair de lá de Cruz Alta para vir para o Rio de Janeiro para uma reunião. Aquele caipira do interior, de toda faculdadezinha perto de casa, que depois entrou para trabalhar ali na mesma região, aí na hora que pega grana e vai para o Rio de Janeiro que você tem reunião…

 

P/1 – (risos).

 

R – Mas foi muito bacana.

 

P/1 – E quando que você, até quando que você ficou lá no Sul, quando que você veio... Veio direto para o Rio de Janeiro?

 

R – Eu entrei lá no Sul em 1992, depois eu fiquei lá uns dois anos, não fiquei um ano na produção, depois eu passei para a Área de Vendas, Técnico de Vendas. Aí, fiquei mais de um ano ou dois anos Técnico de Vendas, mudei de cidade... De Cruz Alta fui morar em Santo Anjo, uma cidade que ficava no meio da região que eu tinha que cobrir como representante, minha função era dar assistência aos clientes que consumiam os produtos da White Martins, desenvolver aplicações dos gases, visitar hospitais... Então aí eu mudei para essa cidade de Santo Anjo, coincidência ou não, aluguei lá um apartamento do pai do Mário que tinha sido meu colega de faculdade, que já era de Santo Anjo.

 

P/1 – (risos).

 

R – Isso aí sempre esteve relacionado, essa relação de faculdade, de amizade, sempre foi um enorme contato. Ai eu mudei para Santo Anjo, fiquei ali uns dois ou três anos e depois eu voltei para Cruz Alta. Passei para área de Distribuição, Logística. Fiquei também mais de um ano por lá, depois fui transferido para Joinville.

 

P/1 – Tá…

 

R – Nessa transferência para Joinville eu me separei, fui sozinho para Joinville porque estava em conflito com a minha esposa. Fiquei em Joinville uns dois anos, depois fui para Curitiba porque não tinha jeito, fiquei na distribuição também, distribuição e produção, depois eu fui para Curitiba aí eu passei para a Distribuição de Líquidos. No meu caso, a Distribuição de Granel. E de lá, aí foi no ano de 1992, entrei em 1987, no ano de 1992, a White Martins comprou uma empresa na Argentina…

 

P/1 – Hum…

 

R – Então, quando eu soube da notícia, eu falei com meu chefe: “Se precisar de mim, eu sei falar Espanhol, conte comigo!”.

 

P/1 – (risos).

 

R – Passaram alguns dias ele disse: “Carlos, gostaria de ir para a Argentina?”. Eu disse: “Eu? Que horas sai o avião?”.

 

P/1 – (risos).

 

R – “Não, mas você não quer saber em que condições?” Eu disse: “É bom pra mim?” “É.” “Então pode contar comigo, eu vou para a Argentina.”

 

P/1 – (risos)

 

R – E assim foi, fui para Argentina, negociei com a minha ex-esposa, consegui a guarda das minhas filhas…

 

P/1 – Sim…

 

R – E fui de pai solteiro para a Argentina, eu e minhas duas filhas. Uma com quatro anos e outra com oito anos.

 

P/1 – Nossa, pequenas!

 

R – Pequenas, as duas. E aí começamos a salvar essa empresa comprada na Argentina, e se tornou em torno de uma participação de sessenta por cento da empresa, setenta por cento da empresa, depois foi comprando os outros trinta por cento.

 

P/1 – Tá…

 

R – E lá na Argentina eu fiquei um bom tempo, treze anos.

 

P/1 – Treze anos? Caramba…

 

R – Voltei a casar, tive outro filho com uma brasileira, mas um filho argentino. E lá foi muito bom, porque lá a gente tinha que desenvolver a empresa na Argentina. Que de ser líder no Brasil, nós fomos para Argentina tendo dois por cento do mercado. Então foi um grande desafio, foi excelente na época, minha esposa dava total apoio, nós investimos muito, crescemos muito, abrimos filiais e eu era um pouco responsável de produção, distribuição, instalações, então participei da abertura, quer dizer, abri várias filiais, comprei terrenos para instalar fábricas novas. Então foi uma época de muito trabalho. Até levantamos a empresa de ser a última do mercado a ser a segunda do mercado.

 

P/1 – Olha!

 

R – Então, quando eu voltei ao Brasil, a empresa já era a segunda de cinco ou seis participantes. 

 

P/1 – E quando que você voltou?

 

R – Eu voltei... E nessa época inclusive, ela era, existia já, a White saiu, White com essa expansão dela primeiro comprou essa empresa na Argentina. Depois acho que comprou uma na Colômbia. Depois teve a aquisição da Liquid Carbonic a nível mundial, então com a aquisição da Liquid Carbonic de forma num nível mundial a White passou a ter operações que eram da Liquid no Chile, Paraguai, na Bolívia, no Peru, na Venezuela e no Uruguai.

 

P/1 – Tá…

 

R – Então a nossa região era a região de Cone Sul, que incluía o Uruguai, Argentina, Chile, Paraguai e Bolívia. Como eu já conhecia o Uruguai, então lá fui eu para o Uruguai também para ajudar a abrir filial lá ou para transformar empresa lá Liquid em Praxair. Estive no Chile também com outros brasileiros que foram para Argentina e depois acabaram indo para o Chile, e eu passei lá pela Área de Produção, Distribuição, fui Diretor Comercial, Diretor de Produtividade, só não estive na área financeira lá, informática... Mas fiz de tudo um pouco.

 

P/1 – É sobre isso que eu ia perguntar... Você saiu do Brasil na parte da produção, você passou para distribuição, né, e depois lá…

 

R/ 1 – Passei de produção para vendas, no Brasil, depois para distribuição…

 

P/1 – Para distribuição....

 

R – Distribuição de varejo, digamos assim, que é o mercado de cilindro, depois para distribuição de líquido, que é mercado de granel e aí, quando eu fui para Argentina, eu voltei para produção de líquido, e reitero sendo segundo de líquido e produção.

 

P/1 – (risos).

 

R – Então éramos quatro brasileiros lá, um que era presidente, o que era o diretor comercial, um o diretor financeiro, eu na parte de Produção e Logística, e outro brasileiro na parte de Tecnologia, Desenvolvimento e Novos Clientes e Novas Aplicações.

 

P/1 – Hum…

 

R – Um quarteto de brasileiros, todos nós fomos em 1992 para lá.

 

P/1 – E vocês quatro que atuaram no Cone Sul?

 

R – É, depois começaram a ir mais pessoas…

 

R – A aumentar, né…

 

R – Entrou a Liquid, aí vieram muitos funcionários da Liquid, então teve mais brasileiros indo para lá. Esses três já não estão mais no emprego, dos que foram com a gente. Eu passei dessa parte de Produção de Distribuição, ainda na época, eu fui Diretor Comercial e depois eu passei para diretor de Produtividade quando a empresa assumiu, e esse diretor de Produtos era de todo Cone Sul, dos cinco países. A parte comercial era Argentina e dava suporte para o Chile, para Bolívia, para o Uruguai…

 

P/1 – Agora eu queria saber um pouco mais da sua história da Fórmula 1... Como que…

 

R – Ah é, isso também é bacana… Estive olhando algumas fotos, estive procurando ontem e muitas de Bariloche da Argentina, mas a maioria é pessoal e tem as que envolvem a empresa, tem algumas até que eu vi ontem, mas que não estavam muito bacanas... De tendas de produção que a gente tem, por exemplo, lá no deserto lá na Argentina.

 

P/1 – Olha!

 

R – Então eu fui visitar lá, existem vários postos de petróleo na zona dos Andes, na Argentina. E um desses postos de petróleo não deu para tirar, levou o gás.

 

P/1 – (risos).

 

R – Então a Liquid conseguiu na época a concessão desses postos que tem no meio do deserto, um poço que sai gás carbônico. Então presenciava uma planta de purificação lá, e eu fui visitar, que bacana... Na época que eu estava para distribuição, então a gente ia fazer rotas pelo interior, normalmente eu ia para conhecer a rota.

 

P/1 – Aham.

 

R – Já fui de caminhão atravessar o deserto, tinha um túnel, foi muito bacana. Até chegar no poço que a gente tinha no meio do deserto.

 

P/1 – E como foi criar... Construir essa planta no meio do deserto?

 

R – Pois é, isso foi uma coisa da Liquid…

 

P/1 – Ah sim.

 

R – Quando comprou a Liquid já tinham, na verdade, a planta é muito pequena. Era um poço de petróleo, um buraco no chão que saía CO2. Então isso aí, inclusive, para você ter uma ideia, quando eu cheguei lá tinha um tanquinho pequeno e um tanque enorme. O tanque grande era carbono e no outro o que que tem? A gasolina. Gasolina para o gerador? Não, a gasolina que a gente tira para não contaminar o gás carbono.

 

P/1 – (risos).

 

R – Então isso era o subproduto que a produção valoriza. Era impossível, a gente tinha um poço ali e joga fora gasolina? Não, eles têm que devolver para o Governo do Estado, pela concessão é do Estado, então a gasolina retirada ia para o Estado.

 

P/1 – Lucrou, né... (risos).

 

R – Mas você perguntava da Fórmula 1... A Argentina teve enquanto, na época que a gente estava lá, dois anos seguidos o emprego de Fórmula 1. E na época a gente conseguiu o contrato para fornecer os gases para Fórmula 1, foi usado o nitrogênio para encher os pneus, usado para acionar aquelas ferramentas pneumáticas que o cara tira o pneu rápido quando o carro entra no Box... Aquela maquininha que faz (‘bizz, bizz’), aquilo lá é acionada com o nitrogênio para não ser acionada com eletricidade, para evitar faísca, para não pegar fogo no carro porque ele era abastecido também, né.

 

P/1 – Uhum.

 

R – O cara colocava combustível nele e botava os pneus então, eles evitam qualquer ferramenta elétrica, as ferramentas são pneumáticas, né, acionadas a nitrogênio. Fornecíamos oxigênio, acetileno para soldar... Fornecíamos oxigênio para hospital, montava um hospital de campanha para atender emergência e primeiros socorros, e eram muitos, né, tinha hélio para encher balão... E o legal era que a gente ficava com esse Welding Center no centro de folga lá dentro. Então ficava entre onde estão os carros e mecânicos. E na Rua dos Box a gente fazia a entrega dos cilindros, então tem fotos com o Schumacher (Michael Schumacher), com o Alonso (Fernando Alonso Diaz), com o Barrichello (Rubens Barrichello). Então era muito bacana, estava ali trabalhando, entregando cilindro, não podia faltar cilindro para ninguém, mas todo era mundo atendido, nós saíamos para bater fotos com os pilotos ali... Era muito bacana.

 

P/1 – (risos). Aí tem algumas coisinhas que eu queria entender assim. Nesse exemplo da Fórmula 1 tinha vários tipos de gases que eram vendidos?

 

R – Uhum…

 

P/1 – Você falou também nos Andes, principalmente no Cone Sul, você trabalhava com a distribuição dos tipos de gases especiais, gases medicinais e como era essa divisão? Havia uma divisão, setor tal fica mais com nos gases medicinais, setor... Ou não?

 

R – É, basicamente ela tem essa logística de distribuição, para nós ela é muito clara, a divisão que tem entre o que é granel, ou seja, o transporte de um produto líquido como o oxigênio líquido a cento e oitenta graus abaixo de zero, o nitrogênio, o argônio, todos, o gás carbônico, são gases que transformam e transportam em grandes tanques isolados criogênicos, então esse produto você consegue, como que eu vou dizer... Contrair ele. E ele na forma gasosa, a gente perde muito, ocupa muito volume. Então, para conseguir exportar grandes quantidades num volume menor, você tem que fazer... Então é que nem pegar vapor e transformar em água, então a gente pega um gás e transforma num gás liquefeito. Então esse transporte é um transporte criogênico, transporte a granel. O outro transporte que é a logística de package, logística de cilindros, você tem ele no estado gasoso em cilindros de aço pressurizados ali dentro. Então, para você levar grandes quantidades de gás ali, você tem que colocar ele sob pressão. Então ou você resfria e aí leva grandes quantidades liquefeitas ou você leva quantidades menores e sob pressão. Então é uma logística de package que a gente chama, que é essa logística de muitos cilindros, então. E a outra logística de granel, de líquido, são carretas criogênicas. E isso é em todo mundo assim. Na Argentina tinha essa, aqui no Brasil como as operações são muito grandes, tem o responsável pela produção de líquido, hoje eu sou gerente da Logística de Líquido aqui, e existe outro Gerente para package. Como as operações nos outros países são menores, normalmente, o gerente tem as duas coisas, tudo é Logística, ele só transporta um produto no estado líquido e outro no gasoso.

 

P/1 – Uhum…

 

R – Então era o que a gente tinha lá também, tinha que usar as duas estratégias, as duas camisas, trocava o capacete só. 

 

P/1 – Aham (risos).

 

R – Trocava o de Logística de Líquido, colocava os gases, produção também, na verdade nosso prédio acompanhou o transporte... Também lá era tudo pequeno, então tudo para mesma pessoa.

 

P/1 – Mas as fotos eram completamente... Bom, até a demanda era diferente né, então…

 

R – Sim, é que depois você acaba segregando em grandes clientes Onsite…

 

P/1 – Sim…

 

R – Alguns clientes até têm uma planta instaladas neles. Os grandes clientes que são atendidos com líquido, e pequenos e menores são atendidos com cilindros.

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então, hoje, a empresa, as diretorias da White Martins estão divididas em de negócios, diretor Onsite, diretor de negócios líquido e diretoria de package. Então hoje a gente está segregado pela forma de entregar os produtos aos clientes.

 

P/1 – Eu queria entender um pouquinho esse mapa como era, a gente pensa nos centros urbanos, acho que pensa basicamente em Buenos Aires, mas que servia, né, daí o Chile, servia Uruguai... Como que era essa distribuição, como que era essa divisão aí?

 

R – Quando a gente comprou a empresa em 1992, ela existia basicamente em Buenos Aires e em Córdoba, que é uma das capitais…

 

P/1 – Uhum…

 

R – Da província de Córdoba no interior. Depois, a gente expandiu para Rosário, Santa Fé, Mar Del Plata, Bahia Blanca, Tucumán, Salta, Mendoza, Posadas, Neuquén... Então tudo que eu estou falando são capitais de estados argentinos, províncias argentinas. E aí foi muito legal também, aconteceu, não no histórico, mas é legal porque passa e a gente gosta de lembrar…

 

P/1 – (risos).

 

R – No meu segundo casamento, estava de lua de mel já marcada, em dezembro eu ia casar e em plena cerimônia de casamento falei com meu chefe: “Tô indo de lua de mel”. Vinha para Búzios, aí tudo certo, certo, vim, passei dois dias em Búzios, me liga meu chefe e diz: “Cleber, caiu a planta de produção, você tem que vir urgente pra cá porque você é o responsável por produção e por distribuição e a planta tá parada, e vai dar um caos e nós vamos deixar de atender clientes... preciso que você volte”.

 

P/1 – (risos).

 

R – Aí eu falei: “Cara, mas eu tô no meio da minha lua de mel...”. “Não interessa, nós somos poucos e você tem que estar aqui.”

 

P/1 – (risos).

 

R – Aí falei para minha esposa: “Olha, teve mudança de planos... Vou voltar pra Argentina”. Aí voltamos pra lá, aí um, dois dias depois a gente arrumou a planta que tinha quebrado, tudo, voltou a trabalhar normalmente, aí eu disse: “Posso continuar minha lua de mel?”. “Não.”

 

P/1 – (risos).

 

R – “Você tem que ficar aqui, porque a planta recém-voltou, está meio instável, a gente não sabe como vai ficar...”

 

P/1 – (risos).

 

R – “Mas você aproveita e vai lá pro interior, lá pra Corrientes...”, que é uma outra capital, “...e vai entrevistar gerente lá porque a gente tá abrindo uma filial, então tem que escolher um gerente, leva tua esposa... Fica num hotel lá... e aproveita a lua de mel...”

 

P/1 – (risos).

 

R – “Primeiro eu ia pra Búzios, depois eu ia pra Cancun, como é que o senhor me faz...” “Não, o senhor fica tranquilo, vai pra lá que o senhor estando perto da planta aqui, se quebrar o senhor vai estar por perto pra ajudar.”

 

P/1 – (risos).

 

R – Aí, no final das contas, eu passei mais uns dias lá, entrevistei uns gerentes, escolhi um candidato aí. “Posso voltar pra minha lua de mel?” “Agora você pode voltar pra sua lua de mel.” (risos)

 

P/1 – (risos).

 

R – Diante dessa expansão, você vê que até em plena lua de mel tive que estar lá para fazer a planta voltar a funcionar, para entrevistar gerente, para abrir filial... Mas era muito bacana porque a gente se sentia totalmente responsável pela operação. 

 

P/1 – Uhum.

 

R – Embora seja funcionário, a White te dava uma liberdade para trabalhar, você se sente “pô, aquilo lá é meu!’, se sente parte desse processo, então a gente está crescendo graças aos nossos esforços. Então é meio anedótico esse negócio, mas minha esposa não tem boas recordações desse momento…

 

P/1 – (risos) Mais alguma coisa assim ainda desse período do Cone Sul, algum outro desafio, você comentou agora dessa planta que teve problema, né, teve mais algum problema assim nessa...?

 

R – Não, tudo isso foi enquanto nós ainda estávamos no local original, que a gente tinha comprado a empresa que fica na cidade de Avellaneda, que fica do lado de Buenos Aires. Mas não tem nenhum, que a gente comprou que era onde estava a empresa, não era modelo das instalações da White Martins. Então aí era outro projeto legal que foi, que o presidente me incumbiu: “Cleber, acha um lugar”. Nós estávamos crescendo em direção à Campana, que era uma região das siderúrgicas de lá, tínhamos fechado contrato com uma siderúrgica e eles se instalaram lá com a planta de produção e com sessenta quilômetros à oeste de Buenos Aires. E nós estamos muito aqui dentro da zona urbana, num local pequenininho que não é padrão da empresa, então: “Ache um terreno pra aquele lado de lá e vamos construir o nosso novo centro de operações”. Então saí rodando por toda Buenos Aires lá até que encontramos um terreno, estava semiconstruído uma autopista grande lá, que eles chamam uma grande rodovia, que ia ligar Buenos Aires às cidades do interior. E também um corredor no transporte rodoviário aqui no Brasil. Aí consegui esse terreno e ele falou: “Foi uma mudança sim”. “Ó, tá aqui o terreno.” Aí sentamos para ver como que nós vamos fazer o projeto, vamos construir a operação desde o zero. Ai foi superlegal porque eu participei da negociação, da compra do terreno, do projeto, e instalação do que hoje chamam lá de COBA, Centro de Operações Buenos Aires. Então, só que o pessoal estava do outro lado de Buenos Aires, então você imagina você no Rio de Janeiro e sair de Niterói para Barra, mais ou menos isso, a filial era em Niterói e eu vou comprar um terreno na Barra. Aí esses funcionários lá no Rio iam ter que mudar para lá. 

 

P/1 – (risos).

 

R – Mas eu acho que foi muito bacana porque foi realmente junto com essa construção desse novo centro de operações lá, o outro foi desativado... Ver a planta nova de produção também, ver a compra da Liquid Carbonic, então, provavelmente, deu um salto assim de três a quatro vezes o tamanho dela.

 

P/1 – Uhum…

 

R – Para você ter uma ideia, nós na Argentina éramos noventa funcionários, aí a empresa comprou a nível mundial a Liquid que eram quinhentos funcionários. Então, nós na Argentina éramos noventa funcionários…

 

P/1 – De repente…

 

R –... Assumindo uma empresa de quinhentos funcionários, então foi um grande salto que coincidiu com essa nossa mudança de construção, desse novo site. E foi um ano e meio de projeto de Engenharia, que a ideia era levar o que existia best in class para começar um investimento muito mais tecnologizado e com últimos avanços de controles de segurança.

 

[Pausa]

 

P/1 – Estava falando então da Alcova de 1975, né, então foi criada... Como que foi um pouquinho é... Já tinha uma estrutura grande? Longe da cidade, mas tinha estrutura... Como foi daí comprar a Liquid? Como que foi essa administração aí, né, de uma coisa pequena para uma...?

 

R – É, não, para nós, para nós foi ótimo, né. Porque, se bem que a gente não pode dispensar que a aquisição foi feita a nível global…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Não foi só no Brasil, surgiu daqui a intenção de comprar o projeto... A aquisição foi feita nos Estados Unidos e nós soubemos as tratativas finais e quando se anunciou lá que a White queria a tal empresa e agora vamos visitar as operações que elas têm aí e para ver como é que funciona. Então você imagina a cara dos quinhentos argentinos lá…

 

P/1 – (risos).

 

R –... Quando chegou quatro malucos brasileiros dizendo: “Nós somos agora os novos representantes dos donos aqui”.

 

P/1 – (risos).

 

R – Teve um suporte, um direcionamento global todo para essa fusão, mas, localmente, lá a gente tinha que entrar conquistando as pessoas com a simpatia, com a chegada que os brasileiros têm, muito mais descontraídos do que o formalismo Argentino. Então houve, a princípio, um choque de culturas, mas com os compromissos, as metas e os objetivos e tudo também, a gente não tem muito tempo para ficar tratando de detalhes. Houve alguma troca de diretoria, mais ou menos, e de gerência, de vice-presidência, mas a operação continuou. Então aí foi, cresceu bastante, para nós foi ótimo porque a gente tinha o objetivo de crescer, crescíamos a taxa de trinta, quarenta por cento ao ano. Aí a gente compra uma empresa que é um faturamento três vezes maior do que o nosso, então foi aquele pulo de faturamento, de tamanho, de novos negócios, novos produtos, um gás diferente, foi bacana a experiência. A gente vinha fazendo um trabalho muito bacana, um trabalho com crescimento, com muito investimento, com capacitação de pessoas, também com cuidado de segurança, que investiam no emprego, aí depois que você que você pega uma Liquid Carbono, que já era uma multinacional, que já atuava em vários países, então a gente aprendeu muito com eles também. No Brasil foi mais simples porque a White era muito maior que a Liquid, mas, lá na Argentina, a White era menor do que a empresa adquirida. Então essa fusão aconteceu muito bem, e vários diretores permaneceram depois na empresa até se aposentar. 

 

P/1 – E a parte de logística da distribuição de líquidos? Mudou completamente?

 

R – Mudou, na época do projeto, eu já era administrador comercial... 

 

P/1 – Não era mais, ah…

 

R – Eu já tinha deixado a Logística, já estava responsável... Quando começou isso de abrir filiais e contratar gerentes e buscar expansão territorial das operações, eu assumi a Diretoria Comercial…

 

P/1 – Tá…

 

R – Então aí eu era responsável já pelas filiais e tinha uma parte responsável pela distribuição.

 

P/1 – De qualquer forma aumentou também, né? As tarefas... (risos).

 

R – Aumentou as tarefas, responsabilidade, o salário. (risos)

 

P/1 – (risos)

 

P/2 – Só posso fazer uma pergunta antes? Como que você encarava essa coisa da responsabilidade da distribuição... Essa coisa da responsabilidade, da importância do gás…

 

R – É, isso aí, ele realmente é... Distribuição é algo que a gente roda vinte e quatro horas. A gente abastece hospitais, hospital você precisa entregar sábado, domingo, feriado, de manhã, de tarde, de noite; se não entregar, podem morrer pessoas, então tem que ter. Não existe: “Ah, não vou entregar hoje, vou entregar amanhã…”, entendeu? Hoje tem que entregar até às cinco e meia… Se não for até às cinco e meia, você vai ter problemas. Ou parentes seus que podem estar lá dentro podem ter problemas. A mesma forma um polo petroquímico que inertiza todos os processos lá com combustíveis... Faz com nitrogênio... Se faltar nitrogênio, aquela inertização deixa de funcionar, você pode ter explosões, reações indesejadas, então tem uma série de fornecimentos ali que são obrigatórios. Não pode: “Ah, não deu”. Esses dias, eu estava entrevistando um candidato, para trabalhar conosco, que trabalhava numa empresa de bebidas, aí eu perguntei para ele “e se ele atrasar um caminhão”. “E se não aparecer motorista, o que é que você faz?” “Ah não, reprogramo para o dia seguinte.” “Se vira meu amigo, isso dá morte na hora.” “Se o motorista que entrega oxigênio no hospital não aparecer, o senhor trate de colocar outro motorista ou fazer a entrega com cilindros porque você não pode deixar de entregar o oxigênio no hospital.” Imagina você ligar para o hospital: “Ah, tira todos os pacientes porque eu não vou poder entregar oxigênio hoje, eles que morram então...”. Então assim, a rotina, o compromisso, a responsabilidade da distribuição é enorme, não pode deixar de entregar os produtos.

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então, até quando você sai da Área Comercial são outras obrigações, outras responsabilidades. Mas chegou cinco horas, seu cliente vai embora, você não tem com quem negociar mais então, você consegue, a responsabilidade é grande, mas você descansa depois do trabalho. 

 

P/1 – Uhum.

 

R – Na distribuição, você está com aquele fogo ligado sempre, você está com a operação que está funcionando. Você vai para casa, mas tem motorista chegando para trabalhar, tem pessoal entrando no plantão, então aqui roda vinte e quatro horas. 

 

P/1 – E aí você saiu, voltou para o Brasil como, teu último cargo na Argentina foi Diretor Comercial?

 

R – Não, depois eu passei a ser Diretor de Produtividade, quando a empresa implantou as ferramentas do Seis Sigma Lean para buscar melhorias contínuas e evitar perdas e desperdícios. Que o trabalho seja reduzir o custo dela, então eu assumi, na época, junto com o Brasil, eu assumi a responsabilidade de implantar isso no Cone sul. Então tinha que escolher os Black Belts, que são os especialistas…

 

P/1 – Uhum.

 

R –... No Seis Sigma, treiná-los e começar a desenvolver projetos, metas de trazer alguns milhões de redução de custo para a empresa. Então eu fui durante os últimos quatro anos, na Argentina, eu era o Diretor de Produtividade do Cone Sul. Então foi depois disso que daí eu vim para o Brasil, mas aí foi o plano de dois eventos lá, aí nasceu o meu filhote em 2003, e aí eu fui assaltado uma vez de carro com a minha filha, à mão armada roubaram o carro... Aí depois eu fui assaltado uma segunda vez em 2006, aí eu pedi para voltar... “Gente, tá ficando muito violento, não é mais o que era...” E aí, na época, o Murilo Mello era nosso Diretor, aí eu me manifestei para ele lá: “Quando tiver uma possibilidade de voltar para o Brasil eu gostaria, porque eu não vim pra cá para... Cumpri meu círculo aqui, mas poxa está ficando muito perigoso. Para mim e para minha família”. Minhas duas filhas já tinham sido assaltadas também... Foi depois que saiu o Menem, acabou o plano do um peso um dólar, veio um grande movimento sindical e um pouco da queda social…

 

P/1 – Uhum.

 

R –... Da classe média na Argentina e tudo mais... A violência aumentou bastante. Então aí a gente, eu resolvi voltar. Contra toda família, minhas filhas queriam ficar lá, minha esposa queria ficar lá, mas eu estava decidido a voltar... “Não, não... não vou ficar não.” Aí surgiu uma oportunidade de trabalhar aqui no Brasil no negócio de carbureto de cálcio, então eu fui convidado para cá e assumi a Gerência Geral no negócio de carbureto de cálcio.

 

P/1 – E aí, então, você voltou para o Brasil em 2006, mais ou menos né?

 

R – Foi.. Em janeiro de 2007 que eu assumi aqui. Final de 2006 que eu comecei a negociar minha volta para cá. 

 

P/1 – Uhum.

 

R – Mas foi no dia oito de janeiro de 2007 que eu voltei para White Martins.

 

P/1 – Antes de entrar no carbureto, antes de entrar no Brasil, eu não resisto em perguntar (risos), como o senhor falou da crise da Argentina, como que... Isso de alguma certa forma refletiu assim, estava falando na questão social da sua família, mas e na fábrica? Assim, com toda essa crise na Argentina…

 

R – Não sei se vocês lembram, mas em…

 

P/1 – 2004, né?

 

R – Não, 2001, final de 2001 a gente já teve seis presidentes…

 

P/1 – É verdade…

 

R – Que saiu o Presidente que estava, o de La Rúa, aí assumiu o Vice-Presidente, aí saiu o Vice-Presidente, assumiu o Presidente do Congresso, aí saiu o Presidente do Congresso, assumiu... Então tiveram seis Presidentes em questão de um mês. Aí realmente o país parou, os bancos não funcionavam, não sabia quanto que valia a moeda, porque a paridade um peso um dólar acabou, então você tinha dívidas em dólar, eu tinha contas a pagar em dólar ou a receber em dólar, e o cara queria te falar com peso. Então no dia anterior um peso valia um dólar, no dia seguinte um dólar passou a valer quatro pesos.

 

P/1 – (risos).

 

R – Não tinha mais critério para estabelecer crédito, a gente foi... Aí que eu passei para produtividade, porque a nossa estratégia comercial, que nós vínhamos adotando de conquistar clientes, ganhar clientes, crescer, muitas vezes você tem que ser flexível no crédito que o negócio é convencer os clientes a vir trabalhar com a gente, a vir comprar com a gente. Aí deu essa bagunça toda na economia, na política, mais na economia que acabou bagunçando política também, e nós precisávamos de discurso comercial. Agora, negócio de crescer e dar crédito e ganhar cliente passou a ser: “Não, pô, não vende, mas cobra, não dá crédito, vende à vista”... Então eu disse: “Poxa, mas eu vou ter que mudar totalmente meu discurso? Melhor eu mudar o profissional!”.

 

P/1 – Uhm…

 

R – Então aí passou um cara que era Gerente Comercial, ele era gerente de novas aplicações e CO2, que era antigo Gerente da Liquid, ele passou a ser Diretor Comercial e eu Diretor de Produtividade. Mas tivemos que refazer toda política de crédito, houve uns dois meses de instabilidade, de indefinições... Tinha mês que a gente não sabia como é que a economia ia caminhar, quem ia governar o país... O país tinha acabado de decretar calote em todos os credores externos, né, que não ia pagar dívida externa.. Então foi um momento tenso na Argentina. Época que tinha manifestação todo dia, corte de rua todo dia, panelaço como eles chamam. A classe média apagava as luzes e ficava batendo panela na sacada em protesto, que foi um dos movimentos que acabou com a queda do presidente de La Rúa, né…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então essa crise social toda, eu estava lá e vi esse negócio lá no final de 2001, e foi algo marcante para economia, marcante para o país e para as famílias como um todo. Uma economia que estava artificialmente controlada e estável, enquanto o país privatizava tudo que ele tinha, privatizou gás, privatizou luz, privatizou água, privatizou estradas, privatizou correio, privatizou petróleo, privatizou os portos, então é como a Argentina dizia, Menem vendeu as joias da vovó, estava pagando as contas, vendendo todas as propriedades do Estado. Quando acabou isso, ele viu que ele continuava gastando mais do que ele arrecadava, e aí só podia quebrar. Aí ele disse, né: “Ó, não tenho dinheiro pra pagar não, não vou pagar a dívida externa, vou ver, arrumar uma parede primeiro”.

 

P/1 – Uhm…

 

R – Aí foi um momento interessante, interessante. Dentro da White isso impactou muito nos negócios lá, mas a empresa manteve a estratégia ali, né, muitas empresas naquela época saíram da Argentina... A empresa manteve a estratégia, manteve nossos contratos, todos contratos com prazo, com siderúrgicas, com petroquímicas, com complexos químicos e é um grande país, né? Na verdade, depois do Brasil, é a maior economia da América. Então a gente sabia que eram altos e baixos e se, estrategicamente, a empresa decidiu continuar lá, era a questão de abafar essa nova situação e aprender a viver nela. 

 

P/1 – Uhum... E como você saiu em 2006, como que estava a situação, já estava mais estável ou...?

 

R – Já, já estava sim. A economia lá, cara, continuaram, a economia argentina mudou bastante daquele um a um, passou por essa convulsão toda, depois começou a acertar com seus credores externos... Mas continuou, é muito difícil para Argentina competir com o Brasil, por exemplo, porque eles têm... Tudo no Brasil é cinco vezes maior que a Argentina, começando pela população, pelos títulos de futebol... (risos).

 

P/1 – (risos).

 

P/2 – (risos).

 

R – Eles têm dois nós temos, nós temos sete. Mas a economia brasileira, o PIB brasileiro é cinco vezes maior do que a Argentina, a população é cinco vezes maior do que a Argentina, a fábrica da Volkswagen é cinco vezes maior do que a fábrica da Volkswagen lá... Então essa relação, de cinco para um, econômica e, e até social, sociopolítica é fato. Então existe muito mais possibilidade, a Argentina estava devagar, nessa retomada do crescimento e o Brasil tinha começado a crescer muito, crescer muito, né, de 2006 para cá no início do Governo Lula ele subiu, na época do segundo mandato do Lula, a economia começou a reaquecer. Eu via que existia muito mais possibilidades, oportunidades no Brasil e tive esse problema pessoal lá de violência que afetou a mim e a minha família. Então aí a nossa decisão, a minha decisão de voltar para cá e acabei depois arrastando a família. A minha esposa queria permanecer no sistema, trabalhava lá, trabalha na aeronáutica, então estava numa boa posição profissional lá também, minha filha maior já estudava na faculdade, trabalha ainda hoje lá numa empresa química grande, também está bem colocada. As duas minhas filhas estavam na faculdade, quando eu vi foi voto meio vencido, mas era voto contra a família.

 

P/1 – (risos).

 

R – Ia acabar não... Mas acabei perdendo, mas família continuou unida.

 

P/1 – Que bom, né.

 

R – Minha filha agora vem passear, adora o Rio de Janeiro, o marido dela adora o Rio de Janeiro, então entrei num processo de convencimento de trazer meu genro para cá também.

 

P/1 – E quando você voltou aí, vocês voltaram, você assumiu a fábrica de Carbureto de Cálcio, que é no interior de Minas, não é isso?

 

R – Isso, é em Iguatama.

 

P/1 – E como que foi sair de Buenos Aires, e ir para... Trabalhava com líquido aí vai para Carbureto...?

 

R – Carbureto para nós era matéria-prima, é matéria-prima do acetileno, que era um dos gases que a gente comercializava lá. A única fábrica de carbureto da White no mundo, na América, no Brasil. Então, quando eu vim para cá, “Cleber, você tem uma experiência”, acredito que foi um pouco por aí, que lá mesmo sendo um pequeno negócio é administração, é uma administração nacional, então você tem que cuidar de caixa, cuidar de produção, cuidar de estoque, você tem que cuidar de leis trabalhistas, tem que cuidar de físicos, tem que cuidar de vendas e contabilidade, de produção, de logística, então, embora sendo uma operação menor, é uma operação completa e complexa, porque é uma empresa toda em um país inteiro. “Então, como aqui a área de carbureto...”. Antes de eu vir para cá, elas fazem uma parte, com um site, uma parte com área de package, uma área industrial, então estava o negócio de carbureto, a parte comercial era feita por package, a parte de produção era feita pela Área Industrial, a parte de clientes estava com a Área Onsite. Então, na verdade, o que me pediram é integrar todo o negócio do carbureto, nós queríamos separar a Área de Carbureto e tratar ela como um negócio…

 

P/1 – Uma só…

 

R – Um negócio completo. Aí ser responsável deles de desde a produção, comercialização, administração, contabilidade, a cobrança, os investimentos... Então tratar ela como um negócio separado. E foi muito bacana, um desafio muito grande. Eu decidi morar no Rio e viajar à Iguatama…

 

P/1 – Ah tá…

 

R – ...Todos os meses, então todos os meses eu ia e passava uma semana, duas semanas lá, mas fiquei morando no Rio até porque tinha muita interface com as áreas... E continua tendo interface com as áreas financeiras, tributárias, administrativas, de produção e comercial, e as pessoas que decidiam estavam aqui. Então eu falei: “Eu vou ficar aqui para fazer toda essa interface com eles, e os nossos vendedores estão no Brasil inteiro, tinha a gente de vendas no Sul, em São Paulo, no Rio, em Minas, no Nordeste, no Norte...”. Só a fábrica, a produção estava em Iguatama. Então eu: “Não, eu tenho que cuidar mais do que a produção, então eu vou ficar aqui no Rio”.

 

P/1 – Uhum. E como que era isso de produza ir para o Brasil, paro mundo todo assim, né?

 

R – Quando assumiu o negócio do carbureto, ele vinha também em 2006 de um resultado ruim, aí, quando as coisas estão ruins, ou você melhora ou sai fora... Então, mais ou menos, o objetivo era esse; ou a gente melhora o negócio do carbureto ou então avalia a venda desse negócio. Aí eu vi que, poxa, era um produto que o principal cliente era a própria White Martins. É um produto que nos somos únicos fabricantes no Brasil. Únicos fabricantes dentro da White Martins do mundo... Então a gente não pode estar mal... Alguma coisa está errada... (risos). Então, realmente, como esse trabalho não tinha uma área comercial própria, eu tive que formar uma área Comercial, ou seja, quando eu assumi, a Área Comercial estava dispersa, nós éramos uma linha de outros lá no budget no orçamento das outras áreas de negócios, então a gente passou a ter uma área comercial própria... ahm... Uma das matérias primas da fábrica é o carvão vegetal, então nós tínhamos vinte e cinco mil hectares de fazenda de florestas de eucalipto, essa é outra particularidade do negócio de carbureto, nós tínhamos as nossas próprias florestas... Então tinha uma parte de fazendas e tinha a parte de fabricação. Mas reestruturamos então essa parte comercial e demos a volta, melhoramos o negócio, começamos a exportar muito. O dólar estava a dois e trinta, nossa participação no mercado internacional é muito pequena, então até um pouco essa minha experiência lá fora, de viver com outros países e comprava produtos do Brasil e vendia produtos para o Uruguai, exportava CO2 para o Chile, então já existia lá dentro da logística... A gente via nossas operações como se fossem regiões diferentes, não de países diferentes. Então da onde é melhor abastecer o Chile com CO2, é da Argentina? Então leva o CO2 da Argentina para o Chile. Às vezes, a gente pinta uma coisa muito complicada exportar e importar e, na verdade, não é. Existe uma burocracia no meio do caminho, que é a fronteira, mas quer dizer, mesmo assim não é tanto. Mesmo assim nunca foi burocrático…

 

P/1 – (risos).

 

R – Então a gente só tem que cumprir o que a legislação diz, mesmo sendo exportar carbureto. E isso melhorou bastante, conseguimos botar a fábrica em pleno funcionamento, conseguimos contratar mais gente, conseguimos melhorar os resultados, o faturamento, o lucro. Foi muito bacana também.

 

P/1 – Eu queria entender um pouquinho é... O carbureto, ele é para fazer o acetileno, né, ou seja, extremamente importante. E se era aqui a única no Brasil, da onde que vinha – porque demanda tinha –, então da onde que vinha antes e por que que..., era só uma questão mesmo que a gente não tinha, ligado ao processo industrial assim…

 

R – A fábrica do Carbureto, ela tem sessenta anos de existência na White, a primeira fábrica de carbureto foi aqui no Rio de Janeiro, em Barra Mansa... Depois essa fábrica ficou pequena, porque lá é usado o carbureto, ele é a matéria-prima, você olha para ele e parece uma pedra, então, diferente do resto dos produtos, que um é líquido o outro é gás, ele já é uma pedra. Uma pedra que é na verdade você, num alto-forno, tipo aqueles fornos siderúrgicos, um forno, para você ter uma ideia, do tamanho de um prédio de sete andares, o nosso forno lá. Aquele forno, ele tem treze eletrodos, ou seja, são três túbulos com um metro e vinte de diâmetro onde ali se consome energia de uma cidade de duzentos e cinquenta mil habitantes mais ou menos, para vocês terem ideia. Aqueles treze eletrodos, eles fazem um curto circuito entre eles e eles fundem o cal com o carvão, que a gente joga lá dentro. Então, se a gente joga lá naquele forno carvão vegetal e cal, e bota lá dois mil graus de temperatura, mil e oitocentos graus de temperatura mais ou menos, ele, ao invés de queimar, se funde; o iodo reage na verdade e fica tudo um líquido, aquilo fica numa fusão, numa poça de fusão muito grande, fica aquele vermelhão, aquele negócio... E a gente depois vaza aquilo, como se fosse aço fundido, você vaza o carbureto e ele solidifica e vira uma pedra. E essa pedra, a gente quebra ela, brita, quebra, peneira, separa por diferentes tamanhos... E é uma pedrinha que, se você jogar na água, ela gera acetileno. Então, ela é na sua química, eu não vou confundir com a química, mas na reação química do carbureto com a água se gera o gás acetileno…

 

P/1 – Tá…

 

R – Então é uma pedrinha que, se você pegar e botar dentro de uma garrafa com água e tapar explode a garrafa, ou se você jogar na água, pega fogo…

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então esse é usado como matéria-prima para produção de acetileno. Nossas usinas de geração do oxigênio recebem o carbureto, jogam no reator, põe água e, na reação dessa pedra com a água, o gás que sai é o acetileno, que é o gás usado para solda.

 

P/1 – Era isso que…

 

R – Esse gás é usado desde 1900 quando se construíam navios ao invés de fazer manutenção, ou maçarico para fazer aquela solda se usa ou o butão, que é o gás de cozinha, ou o gás natural, ou o acetileno ou o hidrogênio, são os quatro gases combustíveis principais que se usa para isso.

 

P/1 – São…

 

R – Então, a primeira fábrica de carbureto surgiu sessenta anos atrás ali em Barra Mansa, depois colocaram uma segunda fábrica em Barra Mansa. Depois, as duas ainda eram pequenas, aí resolveram construir uma grande, e essa grande foi construída lá em Iguatama. Então levaram para Iguatama, e por que Iguatama? Porque lá tinha cal, jazidas de cal que vem do calcário, estavam ali na região de Iguatama. Então a empresa comprou um terreno, uma jazida de cal, comprou as fazendas e então passou a produzir o seu carbono, a extrair do solo o seu calcário para o cal e juntar os dois e fazer, fez a fábrica lá em Iguatama. Lá era perto também da represa de Furnas, usina de energia elétrica, então foi o local adequado, mas aí teve toda história de vinda do carbureto que, para mim, com minha vinda para cá, era tentar integrar essa operação que estava dividida, industrial para um lado, comercial para o outro, administrativa e financeira para o outro... A minha função foi essa... Continua sendo um produto, a White consome um terço quase da produção para produzir seu próprio acetileno... Nós, por sermos o único fabricante no Brasil, fornecemos também esse produto comercializado para os outros fabricantes de acetileno no Brasil, vendemos muito para indústria siderúrgica, onde ele é usado para purificar o aço. Então, para você tirar o chumbo do aço, para tirar oxigênio do aço, você joga o carbureto também dentro do forno quando você está fundindo o aço. E uma parte desse produto ainda é exportado.

 

P/1 – Ou seja, o mercado ainda…

 

R – O mercado vem bem diferente do que era o de gases né..

 

P/1 – Uhum…

 

R – É um produto que é necessário para produzir gases, então, hoje ele é responsável, se você somar o que a White vende com o gás que ela produz do carbureto mais o carbureto que é vendido, é um negócio de duzentos milhões de reais por ano.

 

P/1 – Uhm…

 

R – Então é uma fábrica que, hoje, ela tem em torno de duzentos e sessenta funcionários lá, trabalha vinte e quatro horas também; consome – falei para vocês – energia de uma cidade de duzentos e cinquenta mil habitantes, é única no Brasil e gera para a White Martins em torno de duzentos milhões de reais por ano.

 

P/1 – Antes de, já mudaram as perguntas aqui, mas eu queria... Ainda nessa questão do uso dos gases, você falou do acetileno, toda a sua trajetória, como você consegue, você relaciona direta e indiretamente a sua atuação com a utilização cotidiana desses gases? O acetileno, embora a gente não veja, você explicou que para a indústria é essencial.

 

R – Às vezes a gente não está acostumado, mas, poxa, você olha que aquela lâmpada que tem lá, deve ter argônio ou xenônio lá dentro, a câmera está cheia de plástico que pode ser produzido com acetileno, uma reação do acetileno, que na verdade ele é um retileno, um etino, você produz o etileno e o polietileno, e o polietileno é plástico.

 

P/1– Uhm.. 

 

R – Então, na verdade, você pode produzir plásticos do acetileno, em uma lâmpada você tem gases, no o ar condicionado você tem gases, que são os gases refrigerantes, você tem na bebida o gás carbônico, você tem na fabricação do vidro do copo, você usa o oxigênio, na fabricação do alumínio você usa o oxigênio, e usa argônio também para refinar o alumínio. Então, às vezes, a gente não percebe, mas está rodando, o tecido, o processo de mercerização de tecidos é feito com gás carbônico, e por aí vai... São tantas aplicações de gases... Adoro comer congelados... A maioria dos congelados é congelado ou com gás carbônico ou nitrogênio. 

 

P/1 – Uhum.

 

R – Mcdonald's é um dos grandes clientes nossos, congela batatinha. Batatinha congelada do Mcdonalds é congelada com gás carbônico ou com túneis de congelamento de nitrogênio ou com câmaras frias que eles podem ter como a Coca-cola, bebida que a gente bebe naqueles dispensers, nada mais é que um xarope sem gás, água sem gás e gás carbônico. Então eles fazem um tubinho de gás carbônico, gaseifica, o cara ioniza aquela água, mistura com o xarope e sai refrigerante.

 

P/1 – (risos).

 

R – Então sei lá, hospitais, todo uso que a gente tem para o oxigênio, ou seja, um paciente hoje, qualquer deficiência, ele vai ficar entubado, como chamam, respirando oxigênio, anestesiar, anestesia com óxido nitroso, que é aquele gás que faz você rir... E, na verdade, é um gás anestésico, um gás produzido pela gente que é o óxido nitroso. Cirurgias, cirurgia de laparoscopia é feita com gás carbônico, extração de verruga, você congela a verruga com gás carbônico e tira.

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então, a aplicação de gases no dia a dia da gente é impressionante.

 

P/1 – E como transportar todos esses? Acho que já chega na sua atuação hoje, né?

 

R – É, aí é a minha atuação a partir de abril desse ano.

 

P/1 – Olha!

 

R – É, eu saí do carbureto para assumir a Gerência Nacional de Logística, então, hoje, eu sou responsável pela distribuição do líquido no país inteiro. Então assim, é uma frota de quinhentos e quarenta veículos mais ou menos, e a gente roda uns três milhões e meio de quilômetros por mês.

 

P/1 – (risos).

 

R – São uns mil motoristas trabalhando com a gente. Então, hoje, atendemos tudo o que é cliente de granel da empresa e a própria empresa, a gente atende todas as unidades da White Martins que enchem os cilindros, a gente atende cem por cento dos hospitais, que são para as pessoas com oxigênio, indústria petroquímica, estaleiro, indústria química, metalúrgica, metal-mecânica, todo cliente que tem um tanque de líquido ou a usina da White que precisa do líquido para transformar em cilindro, pressurizar em cilindro é a nossa responsabilidade de hoje. Além de também, às vezes, exportar para o Uruguai, Argentina, Paraguai, o Peru, a gente faz exportação de argônio líquido via porto do Rio de Janeiro para o Peru, então é interessante. Voltei a perder o sono nos fins de semana…

 

P/1 – (risos).

 

P/2 – (risos).

 

R – Mas é algo que ficou no sangue, eu acho que a minha vida profissional começou pequenininha com a Logística, embora minha formação seja Engenheiro Químico, usei a Química bastante agora no carbureto, mas sempre a minha tendência foi para parte de negócios, sempre gostei da parte de negócios. E a Logística também foi um grande aprendizado dentro da White, hoje sei misturar logística de um produto com características físicas diferentes... É muito bacana.

 

P/1 – A gente está falando de toda essa dinâmica, esse movimento e eu fico pensando nas nossas rodovias, e você tinha comentado toda questão do perigo do acetileno, toda a explosividade dele, como conciliar tudo isso, né? Nosso transporte é basicamente rodoviário…

 

R – A grande vantagem nossa é que a gente não está acostumado com boas rodovias (risos), eu cresci e aprendi Logística dentro da América do Sul, talvez estranhasse se fosse para o Canadá, para o Estados Unidos, aqui é tão diferente. (risos)

 

P/1 – (risos).

 

R – Mas realmente aqui no Brasil nosso maior desafio dentro da Logística hoje é evitar acidentes graves, então a gente imagina, a gente roda três milhões e meio de quilômetros por mês, três milhões e meio de quilômetros por mês…

 

P/1 – Nossa senhora…

 

R –... Muitas voltas na Terra é o que a gente roda. E a gente está tendo nosso objetivo, é que não tem tombamento de veículos, não tem acidente fatal, ficamos agora esse ano quase um ano sem ter nenhum tipo de tombamento, infelizmente tivemos um em junho, mas, hoje, toda nossa frota de veículos, ela está monitorada via satélite, então tem um sistema de posicionamento, o GPS (Global Positioning System), que me diz onde é que o caminhão está em todo momento. Só que esse sistema de monitoramento não é só para dizer onde ele está, ele tem sensores em toda carreta, todo o veículo. Eu sei quando o motorista abre a porta, quando ele põe o cinto, eu sei quando ele liga o motor, eu sei quando ele vira para direita, quando ele vira para esquerda, quando ele acelera demais, quando ele freia demais, eu recebo sinais quando ele está freando muito, tem um sistema anti-tombamento, a gente chama RSS que é o Roll Stability System, que me diz quando uma roda está girando mais do que a outra, então eu sei se ele teve uma aceleração lateral para direita ou para esquerda, isso é um alarme para o motorista também. E nós balizamos as ruas por onde ele anda, então ele, antes de chegar uma curva, a gente diz: “Ó, vai devagar porque lá...” , ou seja, o sistema tem uma mulher que fica falando com ele no painel ali que já fica dizendo: “Ó, devagar na próxima curva, você deve entrar a quarenta por hora...”. Quando ele para e abre a cabine lá atrás do caminhão para descarregar, a gente recebe um sinal que ele abriu a cabine, quando ele aciona a bomba recebe sinal de que acionou a bomba... Então a gente sabe o que ele está fazendo, como é que ele está dirigindo. Existe um sistema de pontuação e de premiação aos motoristas que dirigem melhor, existe um sistema de penalização para os que dirigem pior, então a gente trata isso, a lei da confiabilidade da entrega e a segurança da pessoa que está dirigindo, comanda um produto perigoso, então pode não só danificar a nossa propriedade, causar uma injúria ao motorista, sendo que não é preciso, né.

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então a gente trata de fazer o máximo para garantir a segurança dessa operação.

 

P/1 – Até porque nesse sentido, a segurança, enquanto valor da White, está mais visível para comunidade, né?

 

R – E se você olhar hoje os princípios da White Martins, nenhum deles, ninguém está obrigado àquilo que não se sinta seguro. Segurança numa condição de empregabilidade, então tem que trabalhar com segurança e, se não trabalhar com segurança, pode perder o seu emprego. Segurança e responsabilidade de todos lá, a pessoa que está fazendo uma atividade é responsável pela sua segurança, então é preciso, além da segurança, uma responsabilidade de linha, ou seja, ela não está em cima, ela está em quem está operando. E se você não está seguro para fazer uma operação, você pode não fazer, isso é o princípio da empresa, está em tudo que é cartaz lá na White Martins, você vê então por aí. E a nossa preocupação com os... Um motorista nosso, para sair, para viajar, ele passa por três meses de treinamento. Ele fica noventa dias em treinamento teórico, prático, depois ele sai, mas acompanhado de um motorista instrutor. E só depois de meses, depois de noventa dias é que ele faz a primeira viagem sozinha. Então é uma grande preocupação com segurança, e ele não é só o motorista, ele é um operador, ele entra no hospital, ele descarrega produto no hospital, ele vai dentro de uma universidade, ele vai dentro de uma siderúrgica, então ele é um operador criogênico que também é motorista. Além disso, ele emite nota fiscal, entrega, quer dizer, ele é.. Ele anda com um computador, nosso sistema de faturamento do cliente é o OBC, On-Board Computer, então ele tem ali, né, no computador todos os dados do cliente, então ele chega no cliente, digita tudo ali, uma impressora no caminhão já imprime a nota fiscal, no momento que ele fez isso, ela está comunicada, tem um chip de PRS (Package Radio Service) que manda essa informação e a gente sabe online onde que ele está, o que que ele descarregou e que nota fiscal que ele emitiu.

 

P/1 – Caramba…

 

R – Então é bacana... A gente fica pensando, é transporte, né... Mas tem uma tecnologia embarcada hoje, você imagina. Por enquanto, são oito sensores que a gente tem no caminhão, mas a gente, às vezes, tem carro que não tem ABS (Anti-lock Braking System), todas as nossas carretas têm que ter ABS, então hoje você vê um caminhão da White Martins, a gente não quer ver ele arrastando pneu depois de uma freada, ele tem o sistema ABS que vai travando as rodas, que é muito mais eficiente, ele tem esse sistema de controle de rolamento, ou seja, ele começa a fazer uma curva muito forçada para cá, que essa roda está sendo mais acelerada que a de fora, o sistema avisa ele e aciona os freios da carreta.

 

P/1 – Automaticamente...?

 

R – Não é nenhum motorista que controla a carreta, é o sistema antirrolamento. Coisa que eu acho que é meio exclusivo nosso aqui no Brasil, somos uma das primeiras empresas a adotar esse sistema. Tanto que, outro dia, a Petrobras esteve nos visitando para ver como era feito.

 

P/1 – (risos).

 

P/2 – E Cleber, como que vocês lidam com os fenômenos climáticos e contratempos, desabamentos...?

 

P/1 – (risos).

 

R – Você imagina que, ou seja... Eu entrei em abril desse ano, antes de entrar, em março, eu estava numa reunião de negócios aqui em Angra e uma grande chuva vinda de Curitiba fez desmoronar toda Br101, boa parte da Br101 que liga Joinville à Curitiba. Nós temos a planta de produção em Joinville e leva produto para uma siderúrgica em Curitiba, para hospitais, para tudo, né.. E não dava para passar, estava tudo caído, ou com barreira e não dava para passar. Então era procurando vias alternativas, faz uma volta lá pelo interior do estado para tentar chegar, ou a gente pede à Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, se, no momento que puder passar, a prioridade é da gente, porque a gente tem que atender hospitais. Então nosso departamento jurídico tem contato com a polícia rodoviária pedindo uma autorização de prioridade de passe. E isso que, abril para cá, aconteceu ali de Joinville para Curitiba, depois inundações lá em Alagoas, muita chuva lá em várias ruas fechadas, teve a queda de uma ponte... Nós atendemos, por exemplo, o Amapá. E para atender o Amapá, o produto sai de Belém e vai de balsa até chegar do outro lado, atravessam a ponte. Nós levamos argônio de Camaçari para Manaus, então são dois mil e cem quilômetros até Belém e depois sete dias de balsa subindo o rio Amazonas até chegar em Manaus. Para abastecer a Honda, para abastecer a Coca-cola, para abastecer clientes importantes nossos lá em Manaus... E o produto sai da Bahia.

 

P/1 – Nossa…

 

R – Então, às vezes, cada viagem, a viagem entre ida e volta dura uns vinte dias, vinte e cinco dias. E envolve a parte rodoviária, uma parte de balsa no mar, nos rios, e uma parte no Rio Amazonas. Tem transporte ferroviário que a gente tem também, a gente tem trens de gás carbônico que levam, por exemplo, da planta de Curitiba até Porto Alegre, então boa parte do gás carbônico ali é carregado. Então é multimodal, tem ferroviário, rodoviário, tem de balsa, tem exportação marítima, então é bem completo. Mas esses fenômenos naturais, é, quando começa a chuva muito forte em alguns estados, a gente já começa a: “Olha, vamos acelerar o enchimento ou vamos passar para o outro lado, está subindo o rio aqui”. “Passo logo aí para o outro lado para abastecer os hospitais.”

 

P/1 – (risos).

 

R – E aí também, a Polícia Militar, a Defesa Civil, a gente sempre trata de estar em contato com eles para que eles facilitem ou priorizem a passagem principalmente daquilo que é medicinal, porque é nesses momentos de catástrofe que mais gente é hospitalizada.

 

P/1 – Claro.

 

R – Então não são só coisas ruins, né, agora mesmo estão entregando gás carbônico no Rock In Rio... Então esses eventos especiais, como os meteorológicos, tem os festivos também. Então nós estamos fazendo o abastecimento do gás carbônico para cerveja da Heineken no Rock in Rio. 

 

P/1 – (risos).

 

R – Então de madrugada, na janela que eles dão para a gente abastecer, lá das seis da manhã às oito da manhã, e é só nesse intervalo, nosso caminhão tem que ir lá abastecer oito dispensas lá, oito tanques de CO2 para abastecer a galera do Rock In Rio.

 

P/1 – Caramba…

 

R – São os eventos festivos. Carnaval é um problema... Porque a gente não consegue passar, né, às vezes, para atender um hospital. E, às vezes, o índice de pessoas hospitalizadas aumenta nessa época. Então você tem que estar preparado para... “Ah, tem um feriado muito longo”, então a gente já adverte os motoristas: “Olha, no feriado tem aquele motorista urbano que vai viajar, o cara não sabe dirigir direito, então vocês tenham cuidado...”. A gente passa a reta para os motoristas: “Vem um grande feriado pela frente, olha quem vai descer para o litoral de são Paulo, tomem cuidado que está cheio de motorista amador agora na estrada...”. Ou Réveillon, fim de ano, que o pessoal, mesmo com lei seca, bebe e sai dirigindo... Então, como os nossos motoristas são profissionais, “Vocês têm que estar preparados, vocês têm que dar o exemplo, têm que estar preparados para evitar esses problemas”.

 

P/1 – Então janeiro e fevereiro são meses assim... Pela chuva, pela acessibilidade…

 

R – É... Fim de ano, época de chuva, época de festividade, manifestações quando a gente sabe que vão existir, a gente sempre tem que mudar as rotas, buscar rotas alternativas que evitem passar por aglomerações. Algumas manifestações que às vezes cortam as estradas, para o pessoal não se envolver em problemas e evitar passar por ali e contornar todas as regiões... Por isso que eu digo, a gente controla.

 

P/1 – (risos).

 

R – A gente controla... Nossa central de monitoramento tem que estar sempre atenta, trabalha vinte e quatro horas, né?

 

P/2 – O que eu queria te perguntar, vocês lidam com uma margem de risco nos abastecimentos?

 

R – Hoje, você imagina... Nós temos nos clientes nossos um tanque, uma quantidade x de líquido, então, quando esse líquido vai consumindo, seu nível vai descendo, quando chega em determinado nível, que a gente chama nível de reposição, nós temos que ir lá e encher de novo. Então ele fica nesse entre o máximo e o nível de reposição e ele pode variar... Chegou no nível de reposição, tem que encher de novo. E como que a gente sabe quando é que está nesse nível de reposição? Então nós temos sistemas de monitoramento, tem aí o RTU (Remote Telemetry Unit) que nós chamamos, que é um aparelhinho instalado lá no cliente que vai me indicando o nível e me avisando por celular para nosso Centro Nacional de Controle de Distribuição como é que está o nível do cilindro. Então, hoje, isso está instalado em todos os clientes medicinais. Então eu entro no computador na minha casa ou aqui no BlackBerry e aí eu sei, posso ver o nível do hospital tal, eu sei se ele está cheio, ou pela metade ou no momento de repor. Então, hoje, estão monitorados os principais, principalmente o abastecimento de vida que a gente chama que é o abastecimento aos hospitais. Aí tem aqueles clientes de consumo errático, um consumo que varia muito, então, às vezes, o cliente passa dois, três dias sem consumir, tipo empresas de porto que usam o nitrogênio para inertizar aqueles navios que chegam com combustível ou produtos químicos. Então, às vezes, nós temos tanques em Macaé, por exemplo, na Petrobras, toda vez que chegam barcos petroleiros lá, eles consomem um monte de nitrogênio, porque descarrega o óleo, descarrega o petróleo do barco, mas, naquele espaço onde antes tinha petróleo, não pode entrar ar, porque o ar tem oxigênio... Oxigênio com combustível pode acabar gerando uma combustão, então tem que entrar nitrogênio, nitrogênio é inerte. Então, quando eles esvaziam o tanque do navio, tem que completar aquele espaço vazio com nitrogênio e não com ar. Então, os nossos tanques que estão instalados no porto, às vezes não tem barco e eles ficam cheios esperando, aí chegam dois, três barcos e “shiiiu”. Então é o tipo de cliente que você olha lá o nível do tanque dele, e está cheio, está cheio, está cheio... Aí no outro dia já está quase vazio... Então o que aconteceu de um dia para o outro?

 

P/1 – (risos).

 

R – Chegaram quatro, cinco barcos e a gente não foi avisado, então corre para mandar caminhão para lá para repor. Porque também não é uma questão de processo de vida, mas cada dia de navio parado no porto sai em torno de duzentos a quinhentos mil reais. Então você imagina, a carga sai cinco mil e a inexistência do nitrogênio pode gerar o prejuízo de quinhentos mil.

 

P/1 – Uhm... E aí? Para conseguir…

 

R – Cada maluco tem suas peculiaridades…

 

P/1 – (risos).

 

R – É algo... Eu me considero uma pessoa calma, tranquila, porque senão…

 

P/1 – (risos). Tem que ser. (risos).

 

R – Porque senão você fica doido, são muitos programas diferentes acontecendo ao mesmo tempo…

 

P/1 – Imagino…

 

R –... Aí você tem um problema com a balsa, aí outro com caminhão, aí outro com trem, e o outro com navio... É bacana. Mas temos uma equipe muito boa, são cento e sessenta pessoas trabalhando na distribuição que coordenam isso.

 

P/1 – Mas eu ia te perguntar disso assim, como, não tem praticamente um final de semana, feriado, festa de final de ano... Como é conciliar isso, toda equipe?

 

R – A tática acontece que, nem sempre acontece em todos os lugares ao mesmo tempo, então às vezes alguém não tem fim de semana, talvez o outro não tem uma noite tranquila, às vezes os outros dormem no sábado e não dorme no domingo... Mas a gente trabalha para antecipar, para nos anteciparmos dos problemas.

 

P/1 – Uhum…

 

R – Então esse monitoramento dos tanques, a gente dificilmente é pego de surpresa com algum tanque, algum cliente que ficou sem produto. O saber onde estão os caminhões é muito importante, se alguém me questiona: “Poxa, o caminhão era para ter chegado às oito, nove da manhã...”, eu entro no sistema e olho lá no mapinha do globo o sinal do nosso caminhão andando, “O caminhão está a três quilômetros daí”, “Ah como é que você sabe?”, “Eu tô vendo o caminhão aqui pela internet” (risos). Então eu acho que a tecnologia ajuda muito, é um investimento grande, é um controle rígido, mas sistemas de comunicação podem falhar, às vezes deixam de transmitir, às vezes pega numa região de sombra do satélite, às vezes... ahm... Existe algum problema de conexão porque um caminhão que está nessas estradas ruins nossas, que treme muito, que trepida muito, então, às vezes, os contatos também em todo sistema eletrônico podem falhar... Mas a gente tem bons índices de confiabilidade.

 

P/1 – Uhum... Essa tua carreira... Abrangeu vários tipos de atividades, né? Começou com Logística né, voltou para Logística nesse termo supermega amplo... (risos)... Que lições da tua carreira toda, ao longo da White Martins, você acha que você tirou assim? Ou as maiores lições, né, se não tem tantas…

 

R – Eu acho que a maior lição é que você tem que gostar do que você faz.

 

P/1 – (risos).

 

R – Se você não gosta do que você faz troque logo, não espere... Tem que gostar do que você faz. Eu acho que é uma recompensa, você tem que buscar um nível muito grande, são muitos candidatos para poucas boas oportunidades... Então você tem que trabalhar muito, você tem que estar acima a média... Se você fizer o que a média faz, você vai ser a média, estar na média. Se você fizer igual ao seu antecessor, você vai ser igual ao seu antecessor. Então, se você gosta do que está fazendo, que eu acho que é o fato principal, então faça bem, faça legal, faça diferente, faça mais. Eu acho que isso que é o importante, se a gente quer crescer profissionalmente, e se realizar como profissional. Manter a família sempre por perto, e ser feliz. Eu tenho minha esposa, trabalha com... Deixou de ser Analista de Sistema, quando ela disse que viria contra vontade para o Rio era para ser dondoca…

 

P/1 – (risos).

 

R – “Eu vou ser dondoca, não vou trabalhar.” E eu disse: “Tá bom, a condição é essa, muito bem”. Mas ela trabalha, faz artesanato e trabalha com vitrais... Ela fez uma caixa para mim com o símbolo em Japonês da felicidade, então acho que, poxa, meu lema de vida é ser feliz. Fazer o que eu gosto, fazer bem, estar próximo dos meus amigos, dos meus familiares... Acho que isso para mim é felicidade.

 

P/1 – Uhm... É... Para você o que que significa a White Martins completar cem anos?

 

R – Eu tenho um quarto desse século. Ajudei a construir essa companhia. Já tenho vinte e quatro anos de companhia... É, eu acho que minha família, minha irmã mais velha aposentou num emprego na Caixa Federal, ela era Engenheira Eletrônica. Meu irmão que faz Engenharia Florestal trabalha num instalado lá em Porto Alegre, e a minha outra irmã mais nova trabalha na Prefeitura lá em Livramento. Então os três são funcionários públicos, e aí, quando eu entrei na White Martins, até logo nos primeiros anos eles: “Você é maluco! Você trabalha numa empresa multinacional, amanhã ela te demite... Você não tem garantia de emprego...”. Eu falei: “Gente, hoje eu vou fazer vinte e quatro anos de White Martins...”. Eu digo, você tem que matar um leão por dia, e um dragão por mês, mas se você estiver bem com seu trabalho, se você não se acomodar, estiver sempre disposto a fazer bem e fazer melhor, isso te dá estabilidade. Então eu acho que os cem anos da White Martins no Brasil mostra isso, uma empresa que veio para ficar, uma empresa que cresce mais de dez por cento ao ano. Então são poucas as empresas em qualquer setor da economia que tem essa velocidade, essa continuidade, essa consistência no crescimento.

 

P/1 – Uhum.

 

R – E o quadro da empresa no jornalzinho, na revista mensal da empresa de uma página, já passou para duas páginas... As duas últimas que avisam o aniversário de casa, e se vocês olharem lá está cheio de gente fazendo trinta anos, fazendo vinte e cinco anos, fazendo trinta e cinco anos de casa. Então é uma multinacional, não tem estabilidade de emprego? Não... Mas está demonstrado pela experiência, pela antiguidade dos funcionários que são aqueles que fazem bem, fazem mais... 

 

P/1 – Uhum... 

 

R – Eu acho que é um investimento no país que a empresa fez, na América que a empresa fez. Saiu de ser uma empresa brasileira para ser uma empresa multinacional, mas hoje segue sendo gerenciada no Brasil exclusivamente por brasileiro, exportou muitos profissionais, nós temos vice-presidente nos Estados Unidos, brasileiro... Nós temos Vice-Presidente no México, nosso presidente no México é brasileiro, vice-presidente mundial é brasileiro, presidente da Europa já foi brasileiro, que agora está como presidente na área de negócios dos Estados Unidos... Então está cheio de funcionários da empresa que foram como eu fui para o exterior, tive uma oportunidade, cumpri meu ciclo, voltei, a empresa me recebeu, continuo tendo desafios... Eu acho uma ótima empresa para se trabalhar.

 

P/1 – O que você achou dessa ideia de contar do desenvolvimento industrial, dos terrenos da White na tua história de vida? Vir para cá, gravar...     

            

R – Eu achei legal... Quando passaram primeiro a comunicação interna nossa que ia ser feito esse trabalho, mas não falaram quem seriam as pessoas que fariam a entrevista. Eu disse: “Pô, eu tenho muita coisa pra contar, já com tanto tempo de empresa, ter sido meu primeiro e único emprego desde que eu me formei, então eu acho que dá bastante história…”.

 

P/1 – (risos). Entendo…

 

R – E realmente para mim é uma experiência de vida, eu não penso hoje... É claro a empresa é dona dos nossos destinos, né? Mas eu continuo preparado para aposentar no emprego…

 

P/1 – Uhum…

 

R – Eu também penso: “Eu não me vejo trabalhando num concorrente”, posso até sair para tentar o próprio negócio porque isso a gente sempre sonha quando começa a chegar depois dos quarenta. Mas eu gosto do que eu faço, acho que é o principal... O dia que eu deixar de gostar, aí não tenho medo de perder o emprego não, mas eu gosto do que eu faço.

 

P/1 – (risos). O que você achou de ter participado, de ter dado entrevista para a gente, o que que você achou da entrevista?

 

R – Eu achei bacana, né... Tem que ter cuidado até para não se emocionar, porque começa a falar tanto de família, começa a falar de coisas que passaram... Eu até, ontem eu fiquei procurando fotos, né, aí eu vi fotos da minha esposa, fiquei atrás de fotos que me liguem à White nesse tempo. Aí parece uma caixa do passado, falei: “Caramba, eu passei tanto tempo...”, a gente fazendo o que gosta não vê o tempo passar. Então eu vejo, morei treze anos na Argentina, fiz curso no exterior, fiz curso para lá nos Estados Unidos, conheci o mundo inteiro por conta da White. Fiz não só meu primeiro voo, mas até cartão de milhas diamante, de tanto andar por aí. É muito bom poder dizer isso para o Museu da Pessoa, estar aqui sendo entrevistado, acho que é muito bacana.

 

P/1 – Ótimo... Cleber, muito obrigada... (risos)

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