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História

Fazendo nossa história no Brás

História de: Matheus Rodak
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2016

Sinopse

Em sua narrativa, Matheus Rodak nos conta a história de seus avós que, "sozinhos no mundo", fugiram dos conflitos da Armênia e do Líbano para imigrarem para o Brasil. Em seguida, fala do métier de alfaiate de seu avô e de sua infância no Brás. Nessa parte, nos conta como foi viver num ambiente extremamente coletivo, onde podia-se jogar bola na rua, brincar de pega-pega e se divertir sem maiores preocupações. Também fala da história da formação do bairro, de seu valor cultural e econômico, além de relembrar dos cinemas, teatros, carnavais e outras festas que agitavam a região. Adiante, nos fala de seu serviço militar, sua passagem pela TUP (Torcida Uniformizada do Palmeiras) e de sua carreira na empresa de dublagens Álamo, por onde se aposentou. Então, Matheus nos conta como a partir de uma pesquisa sobre a Igreja do Brás se envolveu com a Associação São Vito, da qual hoje é seu presidente. Concluindo a entrevista, Matheus fala sobre suas perspectivas para o futuro do Brás e de seu próprio.

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História completa

São Paulo ficava com cara de uma cidade europeia com o bonde. Se a gente olhar São Paulo que cresceu desordenadamente, ela foi feita pra ser uma cidade europeia. No meio do caminho desistiram e falaram: “Não, vamos fazer uma cidade americana”. Ficou uma cidade sem forma definida. É linda a arquitetura de São Paulo mas ela é estranha porque é tudo misturado. Fizeram pra ser uma cidade europeia e depois queriam fazer uma cidade americana. No fim não ficou nem de um jeito e nem do outro. Acho que no começo, fim dos 800 e início dos 900 se idealizou uma cidade: “Vamos criar uma cidade europeia no meio dos rios”. Se pudesse até usar os rios como meio de transporte. Depois lá pelos anos 30 resolveram: “Não, vamos mudar, vamos fazer uma cidade americana criando edifícios altos, muito vidro, sem beleza estética”. Porque se você olha os prédios antigos do centro da cidade, a arquitetura, é uma coisa maravilhosa. Era uma cidade europeia, uma cidade italiana, espanhola, portuguesa. Depois começaram a levantar prédios de vidro, criar avenidas largas, esqueceram os rios, os rios viraram depósito de lixo, jogaram todo lixo pra dentro do rio. E aquilo que serviria pra meio de transporte fluvial se tornou um depósito de lixo. E esqueceram disso tudo, foram fazendo avenidas largas, criaram uma cidade pros carros, quiseram dar força pra indústria automobilística, fizeram a cidade ser uma cidade que tivesse fluxos. Se destruiu tanta coisa bonita através desse pensamento. Dos anos 30 até os anos 70 quanta coisa não foi destruída? Passavam por cima de tudo, edifícios históricos, não queriam nem saber, iam derrubando tudo. Você vê o próprio Brás. O Brás onde morava muita gente, onde existiam muitas casas. O Brás foi um bairro que foi, quem morava no Brás? Eram chácaras. A cidade de São Paulo simbolizava só o centro da cidade, a Praça da Sé e as ruas adjacentes. Quando se deu a abolição da escravatura tiveram que chamar os imigrantes. “E onde nós vamos colocar esses imigrantes?” “Olha, eles vão ser obrigados a ficar ali, do lado esquerdo do rio Tamanduateí. E eles que não passem pra cá, pro centro”. Só que era tudo brejo, aquele lugar que tinha aquelas chácaras era tudo brejo. O que eles tiveram que fazer? Aterrar o bairro do Brás. Então contam que foram buscar terras nos morros da Mooca, chamaram-se os moradores do Pari, da chácara de Nicolau e de São Miguel Paulista pra vir aterrar o bairro do Brás. E ali se começou a lotear, a criar ruas, isso em 1880, 1890. Criaram ruas, pronto, aí se criaram as casas, logo veio a indústria e com a indústria mais trabalhadores, mais imigrantes. Só que esses imigrantes tinham que morar, né? Então vinham pra morar na casa de um parente, de um amigo, um indicava o outro pra vir morar na casa. Na década de 60 tinha mais italianos aqui do que em Roma. Tinha mais italianos e seus descendentes aqui do que em Roma. Existia gente aqui, lógico, de outras nacionalidades, mas a maioria era de italianos, que construíram isso. Quando as autoridades perceberam que estava se formando um gueto e que logo esse gueto estaria comandando a cidade com seus direitos eleitorais, então eles resolveram: “Os imigrantes podem morar onde eles quiserem, não precisam ficar confinados a morar e trabalhar no bairro do Brás”. Mas o progresso de São Paulo passou todo pelo Brás. O que o Brás começou a arrecadar com o comércio, com a indústria, com tudo aquilo que tinha, passava tudo por aqui, passava tudo por aqui. E até hoje é isso, né?

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