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História

Fazendo a diferença

História de: Beatriz Calderari de Miranda
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/08/2014

Sinopse

Beatriz é uma mulher que faz a diferença onde trabalha. Em seu depoimento, ela relembra a infância vivida em fazendas experimentais onde o pai trabalhava e como essa vivência no campo a marcou profundamente. Fala da paixão pelos livros, do período da faculdade, do tempo em que morou fora do país e dos trabalhos que empreendeu ao longo de sua carreira. Lembra o trabalho da Oficina das Artes do Livro, empresa que criou junto com o artista gráfico Otávio Roth. Recorda sua passagem pelo Projeto Aprendiz e como começou a trabalhar no Instituto Sou da Paz, gerenciando o Espaço Criança Esperança, na Vila Brasilândia. Por fim, fala de sua paixão pelo trabalho.

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História completa

Meu nome é Beatriz Calderari de Miranda. Nasci em Curitiba, Paraná, no dia 26 de outubro de 1964. A família da minha mãe é de Curitiba, meu pai é de uma família que veio do Nordeste, foi descendo desde Pernambuco até o Paraná e foi tendo filhos em todos os lugares, meu pai nasceu no Rio de Janeiro. Na minha infância eu morei em uma fazenda experimental. Eu deixei de morar em fazenda aos 13 anos. Essa fazenda no Paraná era uma fazenda incrível, grande, a casa era super bacana. Eu tinha um irmão mais velho, três anos mais velho, mas ele morreu jovem. Comecei a estudar acredito que foi com cinco a seis anos. Porque a gente ficou na fazenda, da fazenda levava pra um colégio ainda em Curitiba. A gente ia com uma perua da fazenda que disponibilizava pra levar as pessoas na cidade. Evidentemente, clássico, os operários, que eram os peões, eles iam pras escolas rurais, a gente ia pra escolas particulares na cidade. Então a gente ia pra lá, e depois a gente mudou eu tinha quase sete anos, quando eu cheguei em São Carlos, no interior de São Paulo. Fui pra um colégio de freiras em São Carlos, mas também morava numa outra fazenda experimental.

Eu lia muito livro, caminhões de livros. Então eu lia os caras mais chatos: “Camilo Castelo Branco”, ninguém aguentava, eu li todos. Eu fui uma pessoa a vida inteira muito curiosa. Então, pra mim, estudar era um grande prazer. Eu morei em São Carlos até 18. Quando eu fui fazer faculdade... Fui fazer o cursinho, e fui fazer o cursinho da USP, que é o CAASO, e quem eram os professores do CAASO eram os alunos da universidade, que muitos deles já eram meus amigos, e eles eram os professores.  Prestei o vestibular em Comunicação, Editoração mais especificamente.  O Sérgio, meu marido, fazia publicidade. A gente voltou a se falar no fim do primeiro ano, porque eu estava na fila da matrícula pra matricular pro ano seguinte, que ele volta a surgir dizendo que era ele aquele cara da biblioteca. A gente voltou a ser amigo de novo e começou a namorar. No primeiro ano fiz a ECA. No segundo ano, naquele mesmo ano prestei vestibular pra Letras no ano seguinte. Então no primeiro ano não conhecia ele, estava lá fazendo nada nem estava na Letras, estava lá estudando, sei lá o que eu estava fazendo. No ano seguinte que eu fui fazer Letras. Passava o dia, fazia estágio, peguei estágio. Cheguei em São Paulo para morar com uma das minhas primas de Santos, que fazia Odonto. Então eu vim pra casa dela, a gente ficou seis meses morando no Sumarezinho. Depois, deu tempo de fazer amigos, montei uma república em Pinheiros. Morei lá, viajei pra Europa, voltei, a casa estava lá ainda, voltei pra esse mesmo lugar, desmontamos a casa, montei um outro apartamento em Pinheiros, me formei, comecei a trabalhar. 

Tranquei um ano da faculdade e fui com o Sérgio para a Europa. Mochilamos. Quando cheguei, fui trabalhar na Companhia das Letras, uma editora que na época tinha 12 funcionários trabalhando. Essa minha super amiga de Editoração já estava trabalhando lá dentro e falou: “Bia, vem”. Eu fui fazer uns frilas com eles e fui contratada. Eu trabalhei na Companhia das Letras por muitos anos. Saí pra montar uma editora de livros artesanais com um artista plástico que chama Otávio Roth, que já morreu. Um cara muito bacana. E a gente montou um ateliê de artes aqui na Vila Madalena, só de livros feitos aos moldes do Gutenberg. Então a gente fez papéis de algodão, tipografia, a gente montou uma tipografia. Ele era artista plástico, então ele tinha um circuito de artistas plásticos, a gente fazia com livros-objetos, livros de artista. Oficina das Artes do Livro. O Otávio morreu, eu herdei a esposa dela de sócia, ela me herdou, a gente ficou super amiga, nós demos muito bem. Depois a gente foi mudando a Oficina, porque ele era o carro-chefe, ele era o cara que tinha esse circuito dos artistas. A gente construiu essa itinerância. A gente punha num caminhão, e a gente começou a fazer isso em escolas particulares, e pra fazer em escola particular eu punha um condicional que eles tinham que financiar isso pra uma escola pública. Eu falei: “Não, a gente faz aqui, mas custa sei lá, quinhentos reais pra gente fazer isso aqui, trazer o caminhão, montar o cenário, fazer com todos os meninos a história do livro, todo mundo provar, vai fazer livro”. A gente tinha acrílicos, com todas as réplicas de todos os suportes, de escritas de todos os lugares do mundo. Então era livro de pedra, livro de bambu, livro de folha de palmeira, livro de todos os lugares do mundo. A gente fez todas as bibliotecas do estado de São Paulo, tinha um projeto com a prefeitura. A gente viajou, era chamado pra curso de extensão nas universidades. A gente ia pra uma escola particular pra levar a história. Depois a gente apresentou pra prefeitura, na época, pra fazer nas bibliotecas, deu certo. A gente fez nas bibliotecas. Era anos 90. A gente foi chamado pra outras prefeituras. Os caras que estudavam isso sabiam muito mais que a gente, porque a gente não tinha nenhuma pretensão acadêmica, mas a gente tinha muita ludicidade, a gente tinha muito prática, a gente tinha didática.  A gente começou a montar projetos sensacionais. Então a gente fez vários projetos com as indústrias de papel. E a gente ia fazendo isso. Aí uma hora a gente falou que não ia dar mais. Aí o Aprendiz estava começando. O Aprendiz aqui na Vila Madalena. O Gilberto disse “Traz a oficina pra cá, porque a gente vai começar”. E vinha a onda de ter que fazer trabalhos sociais, muito pobres, nas características assistencialistas, e o Gilberto vinha trazendo uma nova toada. Naquela época, hoje não sei mais nada do Aprendiz, não sei mais o que ele faz. Mas naquela época... O Gilberto falou: “Vocês vem trabalhar e faz o que quiser”. Imagina. A gente com carta branca pra fazer o que quiser com um monte de dinheiro, que a gente tinha, com projeto social. A gente, nossa, a gente se divertiu muito. Fizemos projetos incríveis. Do fim de 90 a começo dos anos 2000.

O Sou da Paz apresentou uma vaga. Falei: “Putz, vou lá”. Porque eu já tinha acabado o mestrado também, porque não faço coisa só, faço quatrocentas, fazia mestrado, já tinha filho. Porque eu estava no Aprendiz quando eu tive minhas meninas.  A vaga era para coordenador do Criança Esperança. Já tinha um ano na Brasilândia, já tinham passado outros coordenadores. O Criança Esperança é uma campanha da Globo, é assim que se faz, o dinheiro cai na conta da Unesco, a Unesco faz os repasses, a prefeitura é o parceiro estratégico de estrutura local de trabalho. E quando eu chego, sou apresentada integralmente, até então não sabia, não tinha a menor ideia, eu nunca tinha assistido Criança Esperança. Eram 23 pessoas comigo. Então tinha educador em tudo quanto era lado, circulava, dava aula fora, dava aula dentro, vamos fazer aula em algum lugar pras pessoas verem dar aula, tinha muita formação, eram pessoas muito bacanas, trocamos equipe porque foi preciso trocar, contratamos pessoas muito porretas, grandes educadores, muitos entraram no seu primeiro emprego e se formaram educadores nesse lugar. E o projeto foi crescendo e ficou. Tinha aulas, todo dia, das 8 da manhã às 6 horas da tarde, ou, às vezes, tinha turma da noite e tinha, às vezes, turma no sábado. Aberto ao público. De capoeira, dança, esporte, todas as modalidades, grupo de jovens mobilizados, atendimento às famílias, terapias comunitárias, tudo, assim, um projeto social mega grande, gigante. O clube tem três mil metros quadrados, então você ocupava aquele espaço inteiro. A gente conseguia ter por dia, naquele espaço todo aberto, acho que a gente chegou no máximo a 600 meninos por dia.

Do final de 2006 até o meio de 2011 fui coordenadora do Espaço Criança Esperança em São Paulo. Quando eu saí a gente começou a virar o final de 2011 com a proposta de “Vamos tentar uma coisa que não é o que todo mundo faz”. E eles toparam, foram parceiros bacanas, toparam, a Globo topou, a Unesco topou. E a gente fez essa experimentação. Agora está chegando no momento onde a gente sabe que isso vai fazer independente de ser Espaço Criança Esperança ou não. Eu saí dessa coordenação de frente e estou uma coordenação de bastidores. Da área de prevenção da violência, porque é onde a gente então cola no poder público, então essa é a parte, colei no poder público na periferia quando a gente estava lá na Brasilândia. Pra essa articulação acontecer como projeto, eu colo em outra instância, agora, pras articulações serem necessárias pra que gente possa discutir a efetividade das políticas públicas.

Eu gosto de trabalhar. Sempre fui uma pessoa que fez quatrocentas coisas ao mesmo tempo. E reconheço no meu trabalho uma relevância muito significativa. Não estou de passagem pra brincar, sabe? Eu levo tudo muito a sério, não estou brincando de fazer isso. Preciso ter resultados efetivos. Eu não acho aceitável as pessoas estarem morrendo e se matando, eu não acho aceitável isso. Então, pra mim, faz muita diferença trabalhar numa área considerando o terceiro setor, considerando o Sou da Paz, que trabalha diretamente com isso que, meu, isso é inaceitável, isso não pode ser. Não é possível um avião por dia de pessoas morrendo, quando cai o avião, dói, todo mundo: “Ó”, mas a gente mata por dia isso de gente, porque que tudo bem, não está tudo bem, está ruim demais. Então, pra mim, isso tem uma relevância muito grande, eu não saio de casa pra brincar, eu saio de casa pra fazer diferença mesmo.

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