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História

Fazendeiros, me escutem!

História de: José Alves de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2008

Sinopse

José nos fala de como o trabalho com carvão reciclável, realizado pela Cooperativa para a Dignidade contribui na luta contra o trabalho escravo contemporâneo, uma das frentes de trabalho do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia.

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História completa

Eu tinha um irmão desaparecido. Já tinha uns dez anos que ele tinha saído do Piauí pra trabalhar no Maranhão. Ficamos sem contato, sem nada. Aí eu e outro irmão mais velho resolvemos sair à procura desse irmão. Encontramos! Ele ficou muito feliz! Porque ele saiu de casa ainda um adolescente, quando chegamos ele já tava bem adulto, Então ele teve a ideia da gente ur buscar a família toda pra morar aqui no Maranhão e a gente fez isso, né? Aí fomos buscar o outro que morava em São Paulo também, que tava também um bocado de tempo sem contato. E aí agora estamos aqui, todos reunidos aqui. Pertinho.

 

Meu primeiro trabalho no Maranhão foi roçar, depois passei a ser pedreiro, muito tipo de serviço… Até chegar na carvoaria. Lá onde a gente morava, no Piauí, não tem esse tipo de serviço e eu achei muito estranho, muito pesado, muito diferente. Eu trabalhei por três dias e pedi pro patrão: “Rapaz, eu vou embora que eu não aguento.” Ele disse: “Nada! Você não tá acostumado”, mas aí eu me acostumei mesmo, só que é uma coisa muito pesada. Eu tinha 20 anos.

 

Eu carregava as toras no caminhão, tirava do forno, enchia o forno, ia pegar água pra apagar o forno, entrava no forno quente, descalço… Eu passei muito mal. Trabalhei em várias: um mês em uma, depois dois meses em outra… E sempre saía deixando metade do dinheiro porque nunca que eles pagam tudo. A maioria das carvoaria não paga tudo completo. E nem sempre eu conseguia sair. Em uma eu fui cobrar o que tinha pra receber aí fui ameaçado. Vim embora a pé, dormi na estrada, andei 30 quilômetros a pé, caminhando, depois pra chegar na pista, no asfalto, andei mais 72 aí cheguei em casa, com fome, pé inchado de andar e triste.

 

Ah, minha vida mudou muito depois que eu comecei a participar da Cooperativa Para a Dignidade. Hoje já tenho lugar, já tenho muitas amizade, mudou muita coisa. Na cooperativa cooperativa tem que cooperar, né? A gente paga os custos tudo direitinho e divide as sobras em partes iguais, né?

 

Eu queria dar um recado pras pessoas que continuam trabalhando nesse tipo de trabalho… Um trabalho escravo, que afeta muito a região do Maranhão, do Pará e de muitos outros lugares. Eu queria pedir uma conscientização primeiramente dos fazendeiros, pra que não fizessem esse tipo de coisa. Isso é uma desumanidade, é uma coisa que magoa muito nossas pessoas de baixa classe, de baixa renda, isso é uma coisa que eu gostaria que eles observassem mais, olhassem mais de perto, aquele trabalho digno que a gente trabalha pra conseguir o pão e pensasse melhor nas suas crianças também que poderá a qualquer momento passar por isso. Ter aquela dignidade, aquela consciência de pagar direitinho, tudo organizadinho, uma boa alimentação, um bom lar pra dormir porque a coisa pior que tem é você trabalhar, ficar cansado do serviço pesado, chegar tarde e não ter um lar pra você relaxar o corpo pra amanhã retomar o trabalho, é só dormir no sereno, dormir no relento, não ter um lugar exato pra você tomar banho, tudo fora de norma. Nós, seres humanos, acho que nós não merecemos isso porque a escravidão passou! Podia não ter mais isso, podia acabar, mas está parecendo aquela corrente no pé de antigamente. Nós tamo aqui numa vida emprestada, então mais tarde a gente tem que ir lá em cima conversar com o homem lá e ver se nosso nome tá lá no livro de ponto lá e vamo lá.

 

Sempre a gente tem um sonho de ser alguma coisa, só que muitas vezes o sonho muda, às vezes pra melhor, às vezes pro básico… E aí tô aguardando quando essa luz brilhar, né?

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