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História

"Favela não é laboratório, é incubadora!"

História de: Regina Tchelly
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/01/2021

Sinopse

Nascimento em Serraria, na Paraíba. Alimentação e culinária da infância. Saída de casa, para João Pessoa. Mudança para o Rio de Janeiro. Trabalho como empregada doméstica. Estudos e profissionalização. Favela Orgânica. Ciclo do alimento. Sustentabilidade. Consumo ético e consciente. Idealismo. Desenvolvimento da favela.

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História completa

P/1 – Meu nome é Rosana, eu trabalho no Museu da Pessoa, esse projeto é uma parceria do Museu com a Trip, que está fazendo a Casa TPM, e a diferença dessa entrevista é porque essa história vai ficar guardada no Museu. O Museu da Pessoa é um museu de histórias de vida, a gente coleciona histórias de vida. Tem mais de dezoito mil histórias de vida e sessenta mil imagens.

R/1 – Que lindo!

P/1 – Então, tem história de presidente da República à catador de papel, de músico de churrascaria à Nando Reis. Então tem uma diversidade, uma gama de pessoas que contam a história do Brasil dos últimos dois séculos. E aí a sua história a gente vai ter o privilégio de integrá-la ao acervo do Museu da Pessoa.

R/1 – Ai, que legal!

P/1 – Ela vai passar por um tratamento e vai ficar disponível no nosso acervo. Depois a gente vai compartilhar com você isso.

R/1 – Que linda! Então vamos fazer bem linda, bem emocionante!

P/1 – Vamos fazer bem linda! Regina, vou pedir pra você respirar, fechar os olhos.

R/1 – Hum, hum. Estou melhor assim?

P/1 – Você está ótima! Regina, eu vou pedir pra você fechar os olhos um pouquinho...

R/1 – Está fechado.

P/1 – Respirar fundo e tentar lembrar, se conectar, agora, com esse momento seu do passado, como se fosse um funil do tempo, e pensa em alguma imagem, a mais antiga, mais remota que te vem à cabeça, da sua infância, quando você era pequena. Pensa nessa imagem. Tenta ver que elementos te trazem, quem estava presente ou que sensação ela te traz. Agora eu vou pedir pra você ir voltando aos poucos e abrindo os olhos. Que imagem que te veio à cabeça, Regina?

R/1 – Me veio uma imagem eu tirando foto com meu pai.

P/1 – Quantos anos você tinha?

R/1 – Eu acho que uns oito anos, por aí.

P/1 – Então vamos falar desse momento já, já. Regina, eu vou começar de uma maneira muito tradicional: qual o seu nome, local e data de nascimento?

R/1 – Eu me chamo Regina Tchelly, tenho 38 anos, [nasci em] quatro de agosto... Trinta e nove [anos], sou de 1981. Sou de Serraria, da Paraíba, mas moro no Rio de Janeiro há dezenove anos.

P/1 – Seus pais são de Serraria, Regina?

R/1 – Sim, são. Se chama Joserildo, e minha mãe Maria Aparecida, chamada, conhecida muito como Cida, e meu pai como Josa.

P/1 – Regina, você conhece a história da família da sua mãe e do seu pai?

R/1 – Um pouco.

P/1 – Vamos falar um pouco da história da família da sua mãe, seus avós maternos. Quem eram?

R/1 – Hum, hum. A melhor avó do mundo não está mais nesse planeta. Eu carrego muito ensinamento, que ela me ensinou, agradeço muito a ela por essa pessoa que eu sou. É uma pessoa que me ensinava a plantar e a colher, que sempre falava de comida ao redor da mesa, sempre fazia a melhor carne. Já salivo só de lembrar dela, de pequenininha. E ninguém consegue fazer isso. Meu avô eu não consegui conhecer, porque ele morreu quando eu tinha nascido, já. Minha mãe... Minha avó sempre muito carinhosa comigo. Minhas irmãs falam que ela dizia que ela era o meu xodó e que eu era o xodó dela. Ela me chamava de Dinha, Dindina, Gigina. Ela botava esses apelidos carinhosos e era brava que só Jesus na causa! E a gente sempre estando junto, pra fazer as coisas acontecerem.

P/1 – Regina, ela era dessa mesma cidade que seus pais nasceram?    

R/1 – Sim, de Serraria. Morava num sítio. Nunca quis morar na cidade, morreu ainda na casa dela – ela tinha muito orgulho da casa dela.

P/1 – Como era o sítio dela? Você ia sempre para lá ou ela vinha em sua casa, em Serraria?

R/1 – Sim. Ela não gostava muito de ir para a cidade. Ela era, realmente, da roça. Era grande, um quintal maravilhoso. Tinha uma cacimba – que é um olheiro, né? Cacimba a gente chama um olho d´água, que as pessoas tinham no sítio, pra tomar. Era uma água gelada, que benza Deus! Uma delícia! E tinha muitos pés de árvores, animais. Ela fazia muito balanço pra gente. As crianças, antigamente, brincavam com tudo, com as coisas mais simples, e a gente era muito mais feliz. Hoje as crianças estão muito... (risos) é outro mundo, outro ‘rolê’. E era muito gostoso. Ela fazia vassoura de marpão, eu adorava varrer aquele quintal enorme – que a gente chama terreiro –, gigante. Para mim era um divertimento. Eu brigava com as minhas irmãs pra ver quem varria mais rápido. Era muito legal. Aprendi a pegar água na cabeça, que ela ensinava. Era muito gostoso. Meu momento com ela foi muito bom. Com meus tios, a família...

P/1 – Como é que você aprendeu a pegar água na cabeça?

R/1 – Minha vó fazia uma rudia, um pano e... Como é que fala? Ah, inclusive, minha vó fazia um negócio que eu amava, que eu vou fazer aqui pra vocês. Calma aí, que você vai gostar.

P/1 – Eba!

R/1 – Quando era colheita – aqui, ó – do feijão e a gente pegava para debulhar. Aí ficava todo mundo sentado e conseguia tirar. Deixa eu ver.

P/1 – Puxa um pouquinho mais para cá.

R/1 – Abria e a gente fazia meio que uma competição de quem catava mais. E esse feijãozinho foi do Raízes do Brasil, que é baiano, pra remeter à minha infância. É muito bom quando a gente pode voltar ao nosso passado. E hoje eu deixei o feijão... Nem imaginava que ia ser tão gostosa a nossa entrevista! E aqui a gente catando. Olha que coisa! Tu é uma danada, hein?

P/1 – (risos) Querida! E aí você aprendeu a debulhar com ela?

R/1 – Com ela. Ela ensinava pra gente debulhar e depois, ó, fica assim. Ela sempre pegava... Por exemplo: essas vagens mesmo, que estão um pouco mofadinhas, ela deixava secar – umas dez vagens, eu me lembro como [se fosse] hoje – pra poder plantar. Por isso que se chama semente crioula, semente da paixão, para passar de geração para geração. Por isso que a gente sempre tem essa cultura. Por exemplo, aqui, eu posso pegar um pouco desse e dar pra vizinha, pra vizinha plantar, pra gente não perder a essência da semente, a história da semente. Minha mãe também plantava, mas a minha vó gostava mais, assim. Era muito legal. Ó, a gente debulhava, pegava arroz, sabe... A gente plantava arroz, mas ela só deixava a gente bater o arroz vermelho, que é muito gostoso. A gente pegava, botava pra secar e começava a bater, ‘pa, pa, pa, pa’, depois peneirava aquilo tudo. Isso era a nossa brincadeira de antigamente, e era a coisa mais gostosa.

P/1 – Quem participava dessa brincadeira?   

R/1 – Eram meus irmãos, meu tio Fernando – que está vivo, mas tio José não está –, minha mãe e meus irmãos. E quando era tempo de farinha, que a gente arrancava macaxeira – que chama mandioca, né? – para fazer a farinha. A mandioca, mesmo, que faz a farinha de mandioca, a farinha de mesa. Aí, o que a gente fazia? A gente pegava... Era muito legal, porque a gente ia pra casa de farinha, e todo mundo ficava de noite com aquelas luzes de garrafa – lamparina que chama. Ficava lá, era muito legal quando a gente se juntava pra fazer a farinha, a goma. Eram muitas histórias, era braçal, sabe, assim, e as pessoas ficavam felizes: “Caramba, foram trinta sacos de farinha!”. Aí vinham os vizinhos dos outros sítios... Era muito bonito. Eu tenho muito orgulho da minha infância.

P/1 – E seus irmãos são mais velhos, mais novos? Quantos são?

R/1 – São cinco: quatro mulheres e um homem. Eu sou ‘encostada’ à mais velha, que está com quarenta anos – e eu estou com 38, já vou fazer 39, aí tem toda uma escadinha. Minha mãe teve tudo um atrás do outro.

P/1 – Quantos são?   

R/1 – São cinco: um menino e quatro mulheres.

P/1 – Quatro mulheres?

R/1 – Cada uma empreende. Já são todas mães e pai, também. Eu já sou avó! (risos) É, menina, fazer o quê?

P/1 – Regina, e como é que era Serraria?

R/1 – Uma cidade que nem no mapa estava, está agora, há pouco. É uma cidade onde todo mundo... Cinco horas o sol já está se pondo, escurecendo, todo mundo nas suas casas. Uma cidade pequenininha, onde todo mundo sabia de todo mundo. Se você desse uma bufa numa esquina, na outra já estava sabendo, tipo assim. Mas é uma cidade onde as pessoas se uniam através do alimento, da nossa cultura de união. A gente era mais solícito. É bem diferente daqui do Rio de Janeiro. Eu gosto muito. É uma cidade muito pequenininha, onde o que é a gente fazia final de semana? Ia pra missa e feira, era o nosso divertimento. E as festas comemorativas.

P/1 – Quais festas comemorativas tinha?

R/1 – Era São João – é a mais forte –, final de ano, e a padroeira da igreja, né, que é Coração de Jesus.

P/1 – Quem é a padroeira?     

R/1 – É Coração de Jesus a padroeira de lá.

P/1 – E como era essa comemoração?

R/1 – Ah, todo mundo, assim... Todo mundo querendo sair de casa. “Vamos pra igreja”. Mas muita gente ia pra paquerar na igreja, tá? Eu era uma delas. Então, tipo assim: era pequenininha... Pequena, eu já estava com uns catorze anos. Digo: “Vou pra missa”, e, como todo mundo se conhecia, a missa sempre foi um tudo pra nós. E quando era festa dos padroeiros, dia de coração de Nossa Senhora Aparecida, 31 de maio, a gente vivia, do primeiro até o 31, de casa em casa, ia na madrugada. E minha mãe: “Bora que eu já estou cansada” “Vamos”. Quando a gente fazia romaria, minha filha, de uma cidade pra outra, então, era interessante.

P/1 – Como é que era a romaria?

R/1 – Tipo assim: era de noite, pra andar a madrugada, assim, cinco horas de caminhada. Não sei quantas cidades eram: serra, sobe, serra, sobe; todo mundo ia, levava seu lanche, sua água, suas coisas pra lá.

P/1 – E a festa de São João?

R/1 – Ah, essa é boa demais! Quadrilha, milho verde, pamonha. Todo mundo faz a fogueira. Só não gosto de uma coisa: sapo. Uma coisa que eu vou falar, que ninguém sabe, que eu conto para as pessoas mais íntimas e vocês vão saber desse babado forte da minha infância: foi que eu pisei num sapo. Não é que esse sapo foi como daqui... Ai, meu Deus, muito longe, assim, uns cinco, seis metros. Foi na casa do Franklin, que era uma venda, uma mercearia, até na minha casa. O sapo veio correndo atrás de mim. Todo mundo fala que eu tô fantasiando, mas não foi, ele pulou, pulou, pulou, e eu correndo, correndo, correndo. Cheguei, fechei a porta e o sapo ainda ficou arranhando a porta. E foi verdade, mesmo. Minha mãe: “Pare de conversa” “Mãe, foi”. Eu não saí e fiquei com trauma. Até hoje, assim, se tiver sapo... As meninas: “Vamos pra roça?” Eu digo: “Tem sapo? Se tiver, não me chame”. Então, assim, o sapo também, minha filha, sapo, perereca, rã, ou que danado for, estou fora desses bichinhos! Ô bichos danados! Eu sei que eu fiquei com um medo danado, fiquei com medo desse sapo. Aí todo mundo: “Para de ‘caô’, isso não existe”. Eu falei: “Não existe pra vocês, mas pra mim existiu”. Só o sapo pra botar eu pra casa, em tempo de chuva. Aí o sapo engolia brasa, aí é que eu ficava mais desesperada. Se ele engole brasa, o que ele não vai fazer comigo, né? – Na minha cabeça. Por causa das fogueiras, lá tinha muita fogueira.

P/1 – A fogueira atrai sapo?

R/1 – Não, é porque, quando lá é frio, é sapo pra moléstia, viu, minha filha? É assim: você dá um salto, tome sapo; dá um salto, tome sapo. ‘Tô’ fora! Eu andava até de bota, pra não ver esse sapo. Era cada bichão, ai! Tem umas mangas, assim, gigantes. Isso é guandu, tá? ‘Guandu’, pra vocês. Traz aí. Me dá um aí pra eu mostrar pra ela. Eu ganhei guandu também, de uma produtora. Minha vó mandava demais guandu! É gostoso. Olha a diferença desse! É uma delícia! Ai, eu amo! Não, só assim, igual feijão. Olha aqui, vem ver! É que aqui a gente vai aprendendo junto, tá? Olha, é guandu.

R/2 – Pode fazer salada, né?

R/1 – É. Por isso que eu trouxe. Eu vou te dar uma folhinha, uma vagem dessa, pra tu plantar lá na Bibi, tá? A gente ganha e a gente dá.

P/1 – Regina, e como era a sua casa em Serraria, a casa que você morava?

R/1 – Então, era uma das casas mais bonitas. Meu pai era mestre de obras, e o povo ficava doido quando ele chegava em casa. Vinha de carro naquela época, vinha com o carro cheio, e todo mundo saía das suas casas pra ver o que meu pai estava trazendo. Meu pai sempre foi barriga cheia. Lá em casa, graças a Deus, nunca faltou comida, nunca faltou nada, e sempre a gente fazendo as coisas direitinho. Ele tinha muito orgulho de levar a gente. Pra você ter noção, quando ele chegava, ele cortava laranja, cenoura, beterraba e limão, fazia nossa mãe fazer o suco toda vez pra gente tomar, pra comer o que ele ia trazer. Era regra. Quando ele chegava: “Todo mundo vai tomar isso. Bota uma pedrinha de gelo que fica ótimo!” E a gente tomava. Então alimentação saudável sempre foi uma coisa bacana lá em casa. E assim, minha casa tem três quartos... – dos meus pais – ..., dois banheiros, um terraço, duas salas, uma cozinha boa, uma área de serviço maravilhosa e um quintal, que minha mãe está terminando de fazer a horta dela de novo – o que eu achei ótimo. Falei que ela tem que voltar a plantar.

P/1 – Quem exercia autoridade lá na sua casa, seu pai ou sua mãe? 

R/1 – Eu acho que os dois, né? Mas como meu pai viajava e vinha pra casa de quinze em quinze dias, ele tinha que... Como é que diz? Ele precisava da minha mãe. A gente tinha um ‘medo da moléstia’ da minha mãe. Virgem Nossa Senhora! Que ela pegava o cipó e a vassoura pra nós.

P/1 – Cipó e a vassoura?

R/1 – Não, o cipó. Se a gente não obedecesse, ela atacava na gente. E minha mãe me bateu muito, né, porque eu sempre tive uma cabeça muito... Gostei de falar com pessoas que ninguém dava muita atenção.  

P/2 – Regina, deu uma travadinha na conexão. Só repete um pouquinho, antes, o que você estava falando, por favor. Você falou que sua mãe te batia e depois não deu pra entender o que você falou.

R/1 – Tá.

P/1 – Sua mãe te batia porque você falava com pessoas que ninguém falava.

R/1 – É. Tipo assim: eram aquelas meninas... Só porque eram namoradeiras, o pessoal ficava dizendo que elas eram putas, isso e aquilo. Porque tinha um gay e eu gostava de conversar com ele, porque eu achava essas pessoas tão autênticas, tão felizes. Porque a gente vive... Olha a minha cabeça, gente! Acho que eu só tinha uns dez, oito anos. Eu fugia de casa. São muitas histórias! Aí eu falava com essas pessoas e gostava de conversar. Elas não falavam nenhuma safadeza, mas só o fato delas terem o sorriso largo no rosto, de tudo rir, isso já me dava uma felicidade, de estar perto dessas pessoas. Porque imagina uma cidade daquelas, o pessoal: “A Regina está se misturando com quem não presta”. Tome cipoada. Eu digo: “Ai, que coisa horrorosa! Vocês não vivem dentro da igreja? Deus fala pra gente amar todas as pessoas e como se fossem a gente. Como vocês fazem isso?” Aí minha mãe ‘pá, pá’, metia o cacete em mim, porque eu respondia lá em casa, eu sempre respondi muito às pessoas. Eu sempre me impus. Tanto quando eu era criança, na escola, minha ‘fia’, eu era virada nos cem, na escola. Teve uma vez que um menino veio tirar onda comigo, eu peguei todas as cadeiras, a mesa, taquei nele. Ligaram pra minha mãe. Ligaram não, mandaram ela vir pra reunião: “Meu Deus, que Regina é essa? Não sei o que”, porque como eu nunca... Na época, não era inteligente pra estudo, assim. Meu cérebro não é muito bom pra ler, essas coisas. Eu aprendo com você. Com você, minha ‘fia’, eu estou falando aqui e daqui a pouco nós já montamos um projeto, já fizemos tudo. Mas eu não sou da leitura, eu estou aprendendo isso. Aí, o que acontece? Eu era muito brigona na escola, sabe, porque eu era mais velha. Como eu não acompanhava as pessoas na data, mesmo, do estudo, eu sempre era a ‘bodona’, que a gente chama lá, a cavalona. Ah, a grandona da coisa, né? Aí eu digo: “É nisso que eu vou”. “Você é a maior, a mais velha”, e eu digo: “Então, por isso mesmo! Tem que me respeitar, senão vai levar um cacete”. Aí vinha as mães falarem com minha mãe, que não sei o que, que não sei o que. E quando eu não saía escondida da casa da minha mãe... Eu tenho certeza que eu já nasci empreendedora: eu fugia da casa da minha mãe. Quando eu fugia de casa, antes da escola... E a mulher: “Regina, vai levar minha filha na escola?” Eu fugia de casa, levava escondido da minha mãe a menina, pra ter meu dinheirinho, viu? E quando ela descobriu: “Você não precisa disso”, eu digo: “Eu preciso, eu quero meu dinheirinho”. Tanto que, com doze anos, eu aprendi a fazer unha sem nunca ter visto ninguém fazer e sem eu ter feito curso. Mas eu sou uma pessoa muito abusada, mesmo. Quando eu falo que eu nasci pra causar... Eu digo: “Não, eu acho que faz isso”, comecei a fazer na minha. Quando eu vi que eu não fiz nenhum ‘bife’, botei um vermelho reboco, um café e abafou, eu digo: “Vou ganhar dinheiro com isso. Aí, com o dinheiro, eu pedi: “Pai, faz isso”. Às vezes a gente chama de painho: “Painho, faz isso: compra uns esmaltes pra mim?” “O que é isso, menina? Você, com doze anos, vai ficar...” “Faz, deixa eu fazer, faz”. Ele comprou uns esmaltes, tudo que era de unha da época, e eu comecei a fazer a unha do povo. Era três reais, me lembro como hoje. Fiz da primeira dama, fiquei falada. Tinha uma senhora que era manicure, e eu, pequena. Depois que eu comecei, ó, encheu lá. Então, no fundo, no fundo, eu sou uma motivadora de empreender, tá bom? É isso.

P/1 – Com doze anos você fez a unha da primeira dama? 

R/1 – É. Da primeira dama não, foi da... Como é o nome dela? Da Severina. Aí depois foi... Ai, meu Deus, como é o nome dela? Eu não me lembro. Que era mulher do vereador de lá, Antônio Bie, Severina. Aí ela começou a passar para as pessoas e as pessoas começaram a fazer. Aí tinha assim: as patricinhas, que chama, né, começaram a fazer... Eu fiz até catorze, quinze anos, e com quinze anos eu fugi de casa pra ficar com o antigo namorado e fui pra João Pessoa, que é a capital, porque é vizinha lá de Serraria. Fiquei um tempo lá, depois de um ano eu engravidei, aí me separei, e vim para o Rio de Janeiro depois de dois anos.

P/1 – Regina, vamos voltar um pouquinho? Quando você estava na escola, com doze anos, um pouco antes, o que você mais gostava na escola? Gostava de ir pra escola, de estudar?

R/1 – Eu gostava de ir pra escola, mas eu gostava da sopa das cozinheiras, da comida, e gostava de fazer festa e coisas pra animar a escola, mas estudar, mesmo, eu não gostava, não. Aí, como foi que eu fiz pra aprender a gostar de estudar? Eu comecei a pegar feijão – na Matemática – e milho e começava a fazer minhas continhas com isso, aí eu aprendi. No modo convencional, bem, não foi. Eu digo: “Eu tenho que aprender”. E foi assim que eu fui aprendendo,  eu pegava dez feijões. Quando era cem feijões: “O que você quer fazer com tanto feijão?”. Aí eu: “Espera aí que eu estou estudando” “Que estudo sem futuro!”. Eu digo: “Mas pra mim tem muito futuro, é assim que eu estou aprendendo”. Aí eu colocava. Quando as pessoas também jogavam picolé fora, aquele pauzinho, eu juntava tudinho, aí eu ia riscando com lápis em cima dele. Foi a maneira que eu encontrei de me identificar com o estudo. Não estou dizendo? Mas isso tudo vem da minha cabeça, mulher! Eu sou muito intuitiva. É muito doido isso tudo, sabe? Eu digo: “O quê?” Se você me ensina um bolo, minha filha, eu já vou é fazer um pão. Parece que eu vou sempre na escola, né? Como é que fala? Quando eu estava na escola, geralmente o pessoal que... “A é o grupo azul e B é o rosa”, e eu digo: “E o amarelo, aonde é que vai?” Eu sempre dava opção para as pessoas entenderem que tinha outra coisa e, quando era pra fazer festa dos professores, as meninas: “Vamos fazer assim”, eu digo: “Por que a gente não faz assim?” Eu fui, sempre, muito animada em unir as pessoas, né? Isso, falando contigo, assim, está me voltando, realmente, ao passado e à pessoa que eu sou hoje. É bem interessante. E, na escola, eu gostava muito na hora do recreio, pra ficar conversando com as merendeiras. Eu queria lavar louça e não podia, aí a gente ficava conversando. Eu sempre gostei, assim. Lembro de todas as cozinheiras que passaram pela minha vida, as merendeiras, que, para mim, são xodós, são as maiores chefs de cozinha, chefe de casa, chefe da escola, que toma conta de tanta gente, diário. E a comida é o resgate.

P/1 – De quais merendeiras, assim... Umas que te vêm à cabeça, o nome...

R/1 – Mocinha. É muito animada, fala alto. Socorro, Zefinha, Leda... Ah, tem um monte! Muito legal, assim.

P/1 – E você aprendia as receitas com elas?

R/1 – Não, porque nunca usava. Eu só gostava do carinho que elas davam pra gente, fazia filinha... Como é que fala? O carinho: “Não pode jogar fora. A gente dá de novo, mas não joga fora”. Quando era leite com achocolatado, ‘loccccc’, eu não gosto de leite, eu não tomo leite, digo: “Misericórdia! Perdoe. Pra que eu vim pra fila?” E elas faziam: “Não, Regina, tem um suquinho aqui pra você”. Era muito legal.

P/1 – E de professora, Regina, você lembra de alguma?

R/1 – Sim. Eu quase... Não tive tantos professores, porque lá, cada ano, na minha época... Era  Leda, uma pessoa maravilhosa, que eu devo muito a ela. Ela fica muito orgulhosa quando eu vou lá em Serraria. Eu vou visitá-la, sabe? Eu vou, porque eu gosto, eu falo com ela. Tipo assim: porque ninguém... Acho que muita gente lá em Serraria não dava muito... Nada comigo, assim, porque eu era brigona, danada, o oposto de todo mundo, assim, digamos. Agora lá está virado de cabeça pro ar, mas (risos) tudo bem. Vir para uma cidade dessa foi um desafio. Voltando: teve a Leda, que eu gostei muito dela; a Arlete, muito querida. Eu não entendia as coisas, ela desenhava pra mim. Eu digo: “Minha filha, esse seu desenho tá fraco” – ela morreu, até – “desenha direito, porque eu não estou conseguindo entender, minha filha”. E sempre... Tem coisas que, desde pequena, quando eu não entendo, eu peço socorro: “Não estou entendendo, minha filha, então me bota zero, porque se eu não estou entendendo, você tem que me ajudar, não é, professora?” E era muito atenciosa comigo, muito querida. A Dona Lourdes! Nossa, era brava demais. Todo mundo ficava bravo com ela, mas comigo a gente sempre se deu bem. Assim, ela era muito brava. Todo mundo: “Ih, tu vai ver o que é uma professora!”, não sei o que lá. Era uma das mais antigas, da quarta série. Mas foi muito boa. Ela não dava mole, mesmo, não. Com ela eu aprendi um bocado também, e lá os professores puxavam mesmo a gente, sabe? Diziam assim: “Como vocês não tiram nota boa? Que trabalho vocês estão fazendo? Gente, o estudo ultrapassa” – esse nome – “barreiras”. Eu me lembro de muito cedo esse nome.

[Atende telefonema].

R/1 – Desculpa. (risos)

P/1 – Imagina!

R/1 – É que a gente está fazendo... Só pra você entender: hoje começam as seiscentas marmitas por semana, distribuídas pra duas comunidades, favelas, que estão abaixo da pobreza e da fome. Aí a gente faz com alimentos orgânicos. É a primeira vez que eles estão trazendo na favela, então a gente tem que ficar meio com um contatozinho. Vou até abaixar aqui, pra não atrapalhar nossa entrevista. Pronto! Vamos!

P/1 – Você disse que tinha essa professora que falava pra você que o estudo ultrapassava as barreiras.

R/1 – Hum, hum. Que, se a pessoa quisesse até ficar em Serraria, precisava ter um estudo pra que pudesse ter um futuro melhor – tanto na cidade quanto fora da cidade, porque o estudo era muito importante. A pessoa sem estudo não tinha muito para onde ir.

P/1 – Quando você tinha essa idade, era pequena, você tinha alguma coisa assim: “Quando eu crescer, eu quero ser tal coisa”?

R/1 – Sim. Desde pequena – essa é uma história bem engraçada – eu queria ser muito famosa. Tinha, na época, Zezé di Camargo e Luciano; tinha Leandro e Leonardo, Roberta Miranda. Eu ouvia as músicas deles... Olha a cabeça da... ‘Minha mãe’! E eu nem sabia que existia compositor, mas eu achava: “Eu ainda vou fazer a minha música”. Eu queria ser cantora. Mas quando eu abria a minha boca pra cantar, todo mundo corria e me deixava sozinha. Essa história é legal. Eu comecei a escrever trechos das coisas, e eu começava. E minha mãe é muito curiosa e foi lá nos meus cadernos: “Você está apaixonada por quem?” Desse jeito. Eu digo: “Oxe, eu não posso escrever uma música, mais? Eu vou ser muito famosa, muito rica. Vocês vão ver. Eu ainda vou dar muito o que falar. Vocês vão estar babando”. Minha mãe ainda fala isso até hoje, pra todo mundo, assim. E eu queria, né? Porque cozinha, na época, minha irmã mais velha que gostava muito mais. Minha mãe a deixava ir mais pra cozinha, e eu não. Então, assim, eu gostava muito de comer e era curiosa e, como eu tive que trabalhar pra me sustentar, eu amei o contato com a cozinha, com quinze anos. Assim, eu não queria outra vida. Ninguém me ensinou cozinhar, assim: “Faz isso”. Foi impressionante! Foi muito intuitivo. Quando eu fiz o feijão, digo: “Nossa Senhora! Que feijão bom! Que arroz bom!”, não sei o que. E depois fiquei vendo, via as pessoas fazendo. A pessoa dizia como ela queria quando eu não sabia. Eu digo: “Tá”. Aí, do meu jeito, eu fazia e dava certo. E assim foi. Tanto que em Serraria eu acho que eu tinha dezoito anos, eu fiz uma lasanha de berinjela, ninguém tinha conhecido. Até hoje essa lasanha de berinjela o povo fala! Quando eu vou, querem que eu faça. Eu digo: “Eu faço, ensino vocês a fazer, mas vocês lavam a louça”.

P/1 – ... Com quinze anos, de ir pra cozinha?

R/1 – Porque eu fugi de casa com o namorado, na época, aí eu tinha que aprender, não sabia fazer nada de cozinha. Porque uma vez que eu fui fazer um arroz em casa, eu botei um litro de óleo e um colorau, minha mãe fez eu comer tudo, porque ninguém (risos)... Um litro de óleo, né: “Menina, você não pode fazer isso”. Porque ela saiu e deixou a gente em casa, aí eu queria fazer uma surpresa pra minha mãe. No que foi que deu? Nada, né? E outra vez que eu e meu irmão pegamos seis ovos que tinha, com a farinha de mandioca... Porque eu a vi fazendo omelete e a gente foi fazer, e não prestou de jeito nenhum. Ela deixou a gente no sol quente: “Vocês vão comer isso”. Ai, que nervoso! “Vocês vão, pra nunca mais vocês pegarem nada sem pedir”. Aí foi isso. Outra coisa que é bem importante: minha mãe, mesmo ela sendo rígida –e dava uns cascudos de vez em quando –, sempre procurou que a gente tivesse honestidade. Uma época, lápis hidrocor era muito, muito raro alguém ter em Serraria. Tinha uma menina que descia comigo, ela ganhou e eu peguei dois, que era o verde e o amarelo. E eu disse que não tinha pegado. Aí a mulher foi lá em casa e eu disse mentira pra minha mãe. Minha mãe, nesse dia, não me deu uma surra, ela me deu um sermão, e eu levo isso pra qualquer lugar. Ela fez: “Filha, quem pega duas canetas, pode pegar qualquer coisa, e a confiança de você entrar na casa da pessoa e estar com a pessoa não tem dinheiro no mundo que pague. Não faça isso, que você sempre vai ser apontada por ladra, por isso, por isso, por aquilo. Pode devolver. Quando a gente tiver dinheiro... Você nem chegou a pedir para a gente”. Ela falou pro meu pai, meu pai trouxe um muito maior do que o da menina. Ela falou que quando a gente pega as coisas que não são da gente, é muito feio, que a gente tem que aprender a viver com o que se tem. Então, isso eu passo muito para as minhas filhas, e hoje eu fico com isso como exemplo pra minha própria vida. É isso que a gente precisa, né, tipo assim, de pequena, porque se você for ver, se você não cuidar dos seus filhos e não os corrigir nos mínimos detalhes, como ele vai ser uma pessoa adulta no futuro? Então isso foi, assim... Doeu muito mais quando ela falou comigo dessa maneira do que uma pisa de cipó.

P/1 – Regina, com quantos anos você começou a namorar? Sua primeira paixão.

R/1 – Cara, eu acho que eu tenho paixão, agora, com trinta e poucos anos, quando eu dei vários orgasmos. Paixão, não. De coisa, não. Queria era sair de casa, queria era ganhar o mundo. Tipo assim: amar, amar, amar, eu amo a mim, a minha vida, minhas filhas, porque relacionamentos a gente acha que ama naquela hora, depois que sai, a gente quer distância. Mas eu tenho um carinho por uma pessoa muito linda, muito especial até hoje, que é um italiano – mas cada um na sua vida. Mas foi uma pessoa que me fez muito bem, muito feliz. Uma pessoa que pensa nos ideais como eu, pra vida.

P/1 – Esse namorado que você fugiu com quinze anos, quem era? Como é que foi?   

R/1 – Era uma paixãozinha, né, mas eu queria, mesmo, sair lá de casa, pra conhecer a realidade do mundo, engravidar, tentar manter a vida. Então, escute, minha gente... Como é que fala... A minha experiência, que eu falo: “Quando os pais falarem com vocês, gente, prestem muito bem atenção, deem ouvidos, porque eles já viveram mais do que a gente”. Então, assim, uma paixão que tinha, foi bom enquanto durou, mas não tinha uma cabeça muito adiante, então não deu certo.

P/1 – Mas como é que foi? Com quinze anos você fugiu de casa... Conta como foi essa história.   

R/1 – Como fala? Ele chegou na cidade, a gente se encontrou, com quinze dias eu me mandei. Foi isso.

P/1 – Onde vocês se conheceram?

R/1 – Em frente à minha casa.      

P/1 – Ele estava passando?  

R/1 – Estava passando de cavalo, bem. Digo: “Vamos embora”. Eu já queria, realmente, ver o mundo, assim. Eu acho que a minha cabeça era muito evoluída para aquele tempo, né, assim, conversando. E a gente foi, ficamos, engravidei. Ele queria me dar uma vida que eu não queria. Minha mãe falou que me ajudava com a minha filha mais velha, eu não pensei duas vezes, vim pro Rio de Janeiro. Foi isso.

P/1 – Mas espera aí, vamos voltar: você disse que com quinze anos você subiu no cavalo...

R/1 – Não. Não subi no cavalo, não. Eu o vi num cavalo. Viajou de ônibus, mesmo.

P/1 – Mas você disse que você foi pra Paraíba primeiro?

R/1 – Não, eu já morava na Paraíba. Aí a gente foi pra João Pessoa.

P/1 – Você foi pra João Pessoa com esse namorado, com o pai da sua filha?

R/1 – Sim, a mais velha. Cada uma tem um pai.  

P/1 – Mas aí você engravidou, primeiro, lá em Serraria, e depois é que você foi pra João Pessoa?

R/1 – Não. Eu demorei, foi um ano. Eu fugi com ele, a gente ficou, ficou, e depois de um ano eu engravidei. Depois eu engravidei, ela nasceu e a gente não continuou, como a maioria de vários casos. Aí eu fiquei com minha filha, a amamentando, trabalhando, fui vendo que ela precisava de muito mais coisas... Porque eu ganhava oitenta reais na Paraíba, pra trabalhar de segunda-feira à sábado. Era numa cidade vizinha, a cada quinze dias. Depois voltei de novo pra João Pessoa, eu queria ganhar cento e vinte, eu resolvi dar uma vida melhor pra minha filha, por isso que eu vim pro Rio de Janeiro.

P/1 – E como era ser mãe aos quinze anos? Era normal, na época, outras meninas engravidavam?

R/1 – Eu fui [mãe] com dezesseis. Não, eu engravidei com dezesseis para dezessete. Eu a tive com dezessete anos. Ah, sim, mas eu achava que era uma boneca, não tinha noção. Naquela época não se falava bem, pra mim, como se fala hoje ,claramente, os pais falando pra gente, né, hoje. É diferente.

P/1 – E como você trabalhava? Quem a olhava? Como é que você conseguia conciliar o trabalho e a filha?

R/1 – Minha mãe ficou com ela, ficava com ela. Aí eu vim pro Rio de Janeiro. Então, assim, na Paraíba, eu fiquei até os dezenove anos, aí o resto da minha vida é pra cá.

P/1 – Como era? Em que casas você trabalhou?   

R/1 – Trabalhei na casa da Janice e da Edilma. Foram duas casas que eu trabalhei. Uma em João Pessoa e outra em Solânea.

P/1 – Como era o serviço de casa? Como você era tratada pelas patroas?

R/1 – Elas eram muito legais comigo, mas lá era muito trabalho, era muito puxado. É bem diferente o tratamento das mulheres lá com a que eu tive aqui no Rio de Janeiro. A minha melhor patroa, mesmo, que fez eu sonhar meu sonho e realizar foi a Dona Tereza, daqui do Rio de Janeiro.

P/1 – Mas qual era a diferença? As de lá eram como?

R/1 – É que lá a gente trabalhava muito, né? Tipo assim: as pessoas acham que a gente tem que trabalhar direto, estar disponível 100% para elas, e é bem diferente daqui do Rio de Janeiro. Tinha hora pra entrar, hora pra sair, hora de eu estudar, de eu fazer meu curso. A daqui sempre me botava pra avançar. E os filhos dela, um é cineasta e o outro é músico, e eu fiquei famosa primeiro do que os filhos dela. A gente é muito amiga. Ela cozinha pra mim, entendeu? Ela lavava uma louça pra mim. E tipo assim, era muito, muito serviço, de lavar roupa na mão. Aí eu fui botando na balança os valores do dinheiro e eu tinha que ver minha filha de quinze em quinze dias, de oito em oito dias. Eu falei: “Não, então eu preciso ganhar melhor”. Tipo assim: não dava.

P/1 – Tem algum episódio nessas casas, quando você estava lá na Paraíba, que tenha te marcado?

R/1 – Me marca, assim, que eles gostavam muito da minha comida, isso é muito legal, de estar com isso tudo. Assim, o trabalho era pauleira, mesmo, de muitas dizerem que se a pessoa não tivesse – algumas, né... Se eu não tivesse celular, eu não estava bem de vida; se eu não tivesse um sapato da Arezzo ou uma roupa Triton ou um vestido não sei de que, eu não estava bem. Assim, quem podia é que podia fazer isso. Tipo assim, tem muita gente que não tem dinheiro e quer ser patroa, aí, o que acontece: quando eu vim pro Rio de Janeiro, meu salário, o que eu comprei de Arezzo, de Triton, de não sei o que, um celular novo, eu digo: “Agora eu sou rica”. Quando eu fui ver que essas coisas são todas fúteis, estou fora.       

P/1 – Por que você decidiu sair da Paraíba para ir para o Rio de Janeiro? Por que Rio de Janeiro?

R/1 – Porque eu conheci uma mulher que estava caminhando na praia lá em João Pessoa e ela queria uma pessoa... Ela queria contratar uma pessoa pra trabalhar com ela. Não era nada daquilo que ela falou pra mim, foi bem diferente. Aí, nessa época...

P/1 – O que ela tinha falado?

R/1 – Tipo assim: era muito trabalho, muito mais do que na Paraíba, muito mais. Muito mais, muito mais. Aí, como é que fala? Ela era ‘natureba’, era uma casa de granja, com três crianças. Ela me botava pra limpar o teto, e tipo assim, eu digo: “Meu Deus! Jesus amado!” Aí, minha irmã trabalhava na casa da Dona Tereza e eu vim para o Rio de Janeiro porque eu tinha irmã aqui – tenho –, e também porque foi a oportunidade que eu tive, eu não pensei duas vezes e vim, e foi muito difícil, assim, logo no início, porque só porque as pessoas pagam um pouco a mais, querem muito desfazer das pessoas, sabe? A minha irmã fazia faxina pra Dona Tereza, a Dona Tereza também estava vindo para o Rio de Janeiro, e aí ela me contratou pra ficar de segunda à sexta-feira, e foi o melhor presente da minha vida! Como patroa, como chefe, como ser humano. Como ela me tratava bem! Como ela falou: “Não, você tem que estudar ___________ (55:13) me ensina.” Não. Ela tirava da minha hora de serviço, me colocava na mesa e fazia estudar, me fez fazer um supletivo, um curso no Senac, de cozinha, porque eu queria ser uma cozinheira muito famosa e ela sempre investindo em mim: “Não, você vai fazer isso, vai fazer isso”, e foi acontecendo.

P/1 – E a sua filha, quando você trabalhava, ficava com quem?

R/1 – A Duda [ficava] na escola, fazia cursos, e tinha uma pessoa pra levá-la. E eu tive a outra [filha] depois de nove anos. A do meio, que tem doze, ficava na creche, aí eu levava e buscava quando terminava meu trabalho. Então, Dona Tereza sempre se adaptou ao que eu estava precisando.

P/1 – E como foi a sua relação com o pai das meninas?    

R/1 – ‘Afe’ Maria! Do primeiro sumiu na vida. A gente não deu certo, nem ele procurou e nada. Mas o segundo é maravilhoso.

[Trecho retirado a pedido da entrevistada]

P/1 – Daí do Rio de Janeiro?

R/1 – Da Paraíba.

P/1 – Você teve lá a segunda?

R/1 – Aqui. A gente se encontrou aqui. Ele... A gente era vizinho de lá.

P/1 – E como era essa casa que você veio trabalhar no Rio? Como é o nome dessa que foi sua patroa?

R/1 – Dona Tereza.

P/1 – Que bairro que era?     

R/1 – Dona Tereza Dulce, veio morar no Leme, e minha irmã morava no Leme. E eu fui ver uma feira no Leme e vi o grande serviço _______ (57:36). Tudo é Leme. Depois ela se mudou para a Lapa, aí eu continuei com ela, fiquei com ela durante onze anos. Em todas as casas que eu trabalhei sempre fiquei muito tempo.

P/1 – E lá você cozinhava, fazia tudo?

R/1 – Sim, cozinhava, passava, lavava, fazia todo o serviço de uma dona de casa.

P/1 – E esse curso de cozinheira que você fez, o que aconteceu no curso? Onde é que foi?

R/1 – Foi em Niterói. Ela foi lá comigo, me ensinou, fez a inscrição, me ajudou a pagar, como pagava... Porque eu não sabia nada dessas coisas. Eu ia de barca e ela controlava, assim, meu horário: “Esse dá pra você fazer isso, isso você dá isso”. Então foi sempre uma relação muito boa, porque como eu queria ser uma cozinheira famosa, ela fez: “Então vai fazer um curso. Se der uma oportunidade e tiver que sair, pode ir, minha filha. A gente torce muito por você. Pode ir”. Olha só que coisa mais boa, né? Ela pegou e eu disse... Aí, menina, quando eu terminei o curso, que vieram me oferecer, na época, quatrocentos reais – eu ganhava, com ela, seiscentos –, ela: “Você não vai mesmo. Só vai daqui para um negócio bom”. E foi o que aconteceu.

P/1 – E o que você aprendeu no curso, o que te despertou?

R/1 – Eu não gostei muito não. O cozinheiro não sabia cozinhar muito. Hoje eu tenho uma experiência... Eu percebi que muita gente faz esse curso pra ocupar a cabeça, e eu via a cozinha, eu lembrava como era minha vó, aquela comida de resgate, das pessoas saberem a história do alimento, e eu vi que ser chef de cozinha não era aquilo que eu estava pensando. Porque eu achava a roupa muito bonita.

P/1 – O que é a história do resgate? O que é a cozinha de resgate?

R/1 – Aquela que vai passando de geração em geração, que tem um segredinho que é aquela mão. Você pode fazer a receita do mesmo jeito e às vezes não fica aquele sabor, né? Continuar, por exemplo, com a comida de resgate de memória. A nossa comida, do Brasil, virou padrão em todo Brasil: ou é churrasco, ou é comida japonesa, ou é pizza e feijoada. Antigamente a gente ia nos lugares, sabia o que era daquela região. Cada vez mais está se perdendo. Então, quando é uma cozinha que a gente senta pra falar de comida... Por exemplo, agora mesmo eu postei: “Estou fazendo um xarope lambedor”, porque xarope é lambedor – um que a gente faz em casa, caseiro –, e eu postei nas minhas redes sociais. Gente, eu recebi mais de trezentas pessoas de São Paulo, de Curitiba, de Porto Alegre, da Paraíba, de vários lugares, pedindo a receita. Tipo assim: aqui na Babilônia, Chapéu Mangueira também, olha o interesse: “Minha vó fazia isso, minha mãe fazia”. Como é lindo fazer o que tu está fazendo agora, fazer refletir o nosso passado, o que a gente vivia. Antigamente não tinha esses tantos remédios, dor pra isso, dor para aquilo. Teve uma dor, já tem o medicamento. Só não tem para o coronavírus.

P/1 – Esse remédio, esse xarope, você aprendeu com sua vó?

R/1 – Sim, é natural. Minha mãe.

P/1 – Como é que é a receita?

R/1 – Tem vários que ela faz. Ela fazia com tudo que tinha na frente. Mas o que eu fiz foi: louro, cebola com a casca – corta em quatro –, açúcar mascavo ou rapadura – eu usei açúcar cristal, que era o que eu tinha –, cravo, canela e alho. Aí põe, bota, dá uma fervura; subiu aquele cheiro, bota quatro dentes de alho e vai fervendo, fervendo, deixa uma hora fervendo em fogo baixo. Aí desliga e dá uma engrossada. Liga de novo e desliga depois de meia hora. E assim vai, até ficar um lambedor, mesmo, melzinho. Tem gente que come a cebola. Fica bom todo, minha filha, pra tosse, pra gripe, pra catarro, pra moléstia que tiver. Vai tudo nas fezes, boca, por onde tiver buraco, vai sair. (risos)

P/1 – Aí você saiu dessa casa que você ganhava seiscentos reais. Por que você saiu?

R/1 – Não. Depois eu ganhava dois salários mínimos lá e mais um de noite, como acompanhante. Eu trabalhava de manhã e de noite, e eu saí pra viver meu sonho.  

P/1 – Mas te ofereceram? Qual oportunidade que você teve? Por que você saiu?

R/1 – Porque 2010 foi um ano difícil na minha vida. Dizem que quando você está na casa dos 29, 39, tudo nove... Eu cheguei na casa da Dona Tereza com dezenove, vinte – dezenove pra vinte. Saí de lá com trinta e pouco. Com 29 veio o projeto que chama Agência de Redes Para Juventude, para a Juventude aqui da Babilônia, Chapéu Mangueira, pra que a gente pudesse desenvolver um projeto que viesse trazer benefício à cidade, à favela. Aí eu não pensei duas vezes que eu queria ser uma cozinheira que pudesse resgatar o que antigamente... Que fizesse a gente refletir sobre a comida, a nossa essência, tudo que é bom da vida. E isso foi acontecendo, né? Aí eu estava na data limite, que era 29 anos... Era dos quinze aos 29, porque isso foi em março, e em agosto eu já fazia trinta, então eu fui selecionada e fui apresentar o projeto. O que é o Favela Orgânica? É um projeto que trabalha com o ciclo da vida, que é a gente se amar, se respeitar, se valorizar, pensar no nosso consumo, na sociedade, nesse país, nesse planeta, que é a nossa casa, de maneira mais orgânica, mais sustentável, ética. Aí, se a nossa cabeça está boa, fica mais fácil a gente aproveitar até o talo, até o caroço, até a semente, as folhas, e aí por diante. E fui apresentar o projeto pra essa banca avaliadora... Porque eu trabalho contra o desperdício de alimento, com o aproveitamento integral, democratizando a comida de verdade, pra todo mundo, sem classe social. A proposta é devolver para a terra o que a terra nos dá e pegar o alimento e fazer cinco pratos diferentes; o que eu não usar, fazer compostagem, e essa compostagem virar um adubo e devolver aí pra hortinha. E a gente sempre está no ciclo, dando continuidade. E aí, o que acontece? A gente pegou... Agora que eu olhei as bandeirinhas aqui. Faz um ano que essas bandeiras estão aqui, (risos) de São João. E, com essa correria toda que a gente estava fazendo, eu fiz e apresentei para a banca avaliadora, que era pra ganhar dez mil reais. Ganhei o melhor ‘não’ da minha vida, foi trinta de agosto de 2011. Botei na minha casa dia 24 de setembro de 2011 o projeto pra funcionar, com seis famílias, e foi crescendo, foi crescendo, crescendo. Com um ano estava na Europa, dando palestra pra seiscentas pessoas. Eu voltei, ainda trabalhava como empregada doméstica. Dona Tereza, muitas vezes, mandava eu ir pra reunião e eu deixava pias de louças; quando eu voltava, a louça já estava lavada, e ela mandava eu vir pra casa. É por isso que eu devo muito a ela. É uma pessoa que sempre que eu posso falo dela, estou com ela. Uma pessoa muito generosa. Aprendi muito. Eu fui pra casa dela com dezenove anos, aprendi a ser mais gente do bem. Muito bom quando a gente começa a estar no meio de pessoas que pensam no bem comum, nas pessoas, em tudo, porque aí fica muito mais fácil pra todo mundo, né?

P/1 – Regina, vamos voltar: como é que foi essa apresentação do seu trabalho? E você disse que teve um ‘não’: conta como é que foi.

R/1 – É bem legal, mesmo, tu ter pedido pra voltar. Porque a gente tinha que desenvolver um projeto que trouxesse benefício pra favela e pra cidade, que eu sou da Babilônia, Chapéu Mangueira. E tinha uma banca avaliadora, com quatro pessoas – quatro ou três, acho que foram três –, e tinha que ver o projeto. Então, eu tinha seis minutos. Eu fiz uma oficina, ensinei a fazer a farofa do amor, apresentei o projeto, dei uma degustação e ainda ganhei um ‘não’? Aí eu só, simplesmente, falei: “Pois é, vocês não me conhecem, não sabem onde eu quero chegar”. Porque o projeto é muito redondinho, muito bonito, muito incrível, muito gigante, porque geralmente as pessoas trabalham ou só com a compostagem ou só com horta, ou só com gastronomia. E a gente... Eu trabalho com todo ciclo do alimento. Então, isso não tem, quase, em lugar nenhum. Acho que nem tem isso. Não sei, assim, que trabalha dessa maneira, como favela orgânica, eu não conheço mesmo. Eu sei que tem reaproveitamento, horta, compostagem, mas todo esse ciclo, eu, particularmente, não conheço. Eles acharam um projeto muito complexo, por isso que eles mandaram melhorar. E depois que eu fiquei famosa, eu ganhei. Isso foi em agosto, em dezembro eu ganhei.

P/1 – Em agosto você foi reprovada?   

R/1 – Sim.

P/1 – Regina, como é que você criou esse projeto completo, que envolvia horta, a compostagem e a gastronomia? Como você pensou isso? Como é que foi essa formulação?   

R/1 – Quando veio esse projeto pra gente desenvolver aqui, eu queria trabalhar toda a reciclagem, tanto o orgânico, como o seco. Aí eu vi que são duas coisas gigantes, que você não domina, e resolvi optar pela comida, porque lá na Paraíba é comum, tudo que eu faço... É porque lá na Paraíba tinha isso, na minha vida, no meu cotidiano. Porque eu não comia com a casca, dava para os animais domésticos, e o que não dava para os animais domésticos, eu fazia uma compostagem, senão jogava em cima das plantas. Porque lá é tão quente, o sol de rachar, que já virava um adubinho pra planta e, tipo assim, plantar. Então esse conceito do aproveitamento integral dos alimentos a gente, do nordeste... Até sem ser no nordeste, de pessoas em interiorzinho, fazem isso. Tem muita gente que faz, no Brasil, esse conceito. E vir para uma cidade grande e ver essa quantidade de desperdício de alimentos e ninguém fazer nada e tanta gente dizendo que trabalhava com aproveitamento integral, eu fiquei assim: “Como assim?”, não sei o que lá. Então eu disse: “A Regina Tchelly tem que causar”. Aí eu fiz de uma linguagem simples, eficaz, amorosa, respeitosa, e dando autonomia para as pessoas pensarem no seu consumo e se responsabilizarem, né?

P/1 – Aí, quando você tomou um ‘não’, assim, o que você fez, depois disso?

R/1 – Eu chorei. Ainda falei: “Pois é, boca de peste, vocês não sabem quem eu sou e como eu quero chegar”. Aí eu liguei, fiquei, falei para as meninas... Porque sempre eu vou ter uma data na minha vida, eu digo: “A história vai começar dia 24 de setembro. Vai começar”. Aí eu, com uma pia... Adoro lavar louça! Adoro, não, mas quando tem uma pia grande, eu gosto de lavar, porque vai vindo muitos projetos, parece que vai lavando minha alma, minha concentração, alguma coisa do tipo. Aí eu disse: “Não”. Lavei [a louça] e disse: “Gente, eu preciso botar esse projeto pra acontecer. Eu não vou deixá-lo barato, assim”. Aí eu entrei. A vizinha do Paulo, que era meu patrão, eu liguei, bati lá e falei pra ela: “Eu não tenho dinheiro, não tenho um centavo, não tenho material, nada, mas é o seguinte: eu queria dez aventais, dez touquinhas, e eu não tenho dinheiro”. Ela riu, assim, um pouquinho: “Ah, Regina, como que tu quer? Se você me trouxer isso até amanhã, se você ainda me entregar hoje” – era meio-dia – “até cinco da tarde, eu consigo fazer pra você, porque eu estou com muita encomenda de palhaço pra fazer”. Ela costurava com um pessoal famoso. Mas menina, eu comecei a ligar pro porteiro, (risos) pros meus amigos, até pro Paulo: “Paulo, me apadrinha aí, meu filho”. Era entre dez e cinco, eu botei uma meta. Aí consegui 140 reais, fui no centro da cidade, comprei o tecido pra dez aventais e dez toucas. Com o restante do dinheiro, comprei dez tábuas e dez facas, e aí começou o projeto dentro da minha casa. Tipo assim: foi menos de quatro dias pra tudo acontecer.

P/1 – Você fez o projeto. Quem eram as pessoas que estavam com você?

R/1 – Foram as mães de família, seis amigas minhas mais próximas. Elas foram, mas quando elas viram as comidas e que ainda rendeu tanto... Eu nem tinha os ingredientes direito, cada uma eu pedi pra levar. Quando elas viram que ficou gostoso, que elas levaram pra casas delas, comeram bem e ainda levaram, elas ficaram doidas. Na outra semana tinha dez, depois já tinha quinze, depois já tinha quarenta pessoas. Cresceu muito.

P/1 – Foi assim que você formou a Favela Orgânica?

R/1 – Isso. Foi muito imediato. Com dois meses parei na Rede Globo pra fazer uma entrevista; com seis meses, BBC Mundo, com Rio+20. Aí fiquei muito conhecida. Com onze meses ganhei o prêmio nacional de mulheres empreendedoras de comunidade do Brasil, com um ano eu estava na Europa.

P/1 – Vamos voltar um pouco: como surgiu o nome Favela Orgânica?

R/1 – Porque ‘favela’, eu adoro esse nome! Mostrar que a favela, a gente, não é um laboratório, e sim uma incubadora. Adoro esse nome! E orgânico de organização, organizar a nossa vida, nosso consumo, as nossas ideias, nossos ideais. Orgânico, vida, que somos nós. De organização.

P/1 – Aí já tinha dez mulheres e vocês cozinhavam pra quem? Como é que era? Como é que foi pensada essa estrutura?

R/1 – A gente cozinhava pra elas mesmas, pra economizarem dentro de casa e fazerem o próprio negócio. Tanto que com dois meses eu já fiz bufê com o projeto.       

P/1 – Como foi esse bufê? Como funcionou? Pra quem era?

R/1 – Foi bem engraçado. Foi pro próprio morro, pra favela, por conta de cultura. O Alvinho contratou. Foi muito engraçado. Ele me deu um ‘não’ na banca avaliadora e depois me contratou pra fazer o bufê. (risos) Isso que é a vida! (risos)

P/1 – Que ano que foi isso, Regina?

R/1 – Isso foi em 2011.

P/1 – E como é que o projeto foi se sustentando financeiramente?    

R/1 – Olha, até hoje, sempre se sustentou fruto do meu próprio trabalho. Só que agora a gente está montando produtos, que falam, pra venda: muita palestra, capacitação, muito curso que eu vendo, muita coisa. Com essa pandemia agora eu estou com um time bom, e eu disse pra todo mundo que as pessoas têm que me ajudar, ajudar a gente a botar esses projetos pra rua. Então ele funciona com parcerias que vêm. Quando tem dinheiro é remunerado, quando não tem, a gente faz do mesmo jeito. Mas a gente, agora, está se organizando pra que todo mundo receba, porque é impossível ficar trabalhando nessa dimensão sem grana, né? Inclusive eu. Aí tudo que eu ganho, divido com a minha casa e com o projeto. Agora cansei disso, quero ter meu salário, tenho que arrumar um jeito que o projeto se mantenha financeiramente e que a sociedade consiga enxergar que o projeto é uma maneira de dar autonomia para as pessoas aproveitarem melhor os alimentos, ter uma economia local, gerar mais comida sem gastar mais, que as pessoas valorizarem mesmo o alimento como um todo.

P/1 – Pensou também administração, gerenciamento?

R/1 – Hum, hum. É porque é muito trabalho, minha filha. O povo não aguenta, não.

P/1 – Você pensou o funcionamento da Favela Orgânica, mas tem todo um gerenciamento das pessoas no modo de operar...

R/1 – Tipo assim, tudo sou eu que direciono. Eu digo como eu quero e, graças a Deus, a equipe está conseguindo entender como precisa ser executado. Estão pegando a causa pra si, é muito bom isso. Tipo assim: eu tenho as ideias, eu penso como executar, e passo adiante.

P/1 – Regina, teve algum dia que você pensou, entre o não que você recebeu e dar essa virada: “Vou desistir”? Algum dia?

R/1 – Eu acho que não. Uma menina que sai de casa, né, com quinze anos, pra ganhar a vida, encarar um Rio de Janeiro desses... Eu sempre fui a minha melhor inspiração, desde sempre. Eu sou muito valente, peço muita orientação a Deus, um caminho certo. Então eu, como sempre falo, ainda que eu não falei por aqui: “Eu nasci estrela, virei uma constelação e agora sou uma galáxia caminhando pra ser universal.” Não da igreja. Nada contra, mas é isso, entendeu.         

P/1 – Regina, você teve esse ‘não’, foi construindo. Aí como é que você teve o ‘sim’ outra vez? Como é que foi?      

R/1 – Ah, mostrar pra sociedade, como eu mostro até hoje, que é possível fazer. Quem é você para me dar um ‘não’? Quem é você para dizer o que eu não tenho que fazer? Minha fia, hello, a vida está aqui, vamos fazendo, fazendo! Toda hora mostrando pra sociedade a importância do Favela Orgânica na sociedade. Independente do Favela Orgânica, a importância do ciclo do alimento. É fundamental você entender o ciclo, porque muita gente é cozinheiro, fica falando de alta gastronomia, mas não sabe o ciclo de uma banana, de um tomate, não sabe nem do buraco da galinha que o ovo saiu. Tipo assim: quer falar, quer ter uma linguagem falando na favela, sem estar dentro da favela, quer chegar com projeto pronto. Como tem muitas nutricionistas que querem passar receita e não sabem nem cozinhar, entendeu? Nem sabem a história do alimento. Como assim? Quando a gente se apropria de um assunto fica muito mais fácil levar, e um não quer, o outro quer; quando pensa que não, vinte já quiseram; fica ‘vai, não vou’, quando pensa que não, já está dentro. Então, a maneira que se comunica, acho que é isso que foi o ‘sim’.

P/1 – E como é que surgiu esse convite pra você viajar, que você disse que, do ‘não’, você foi e acabou no exterior?

R/1 – Na Rio+20 eu conheci o fundador do Slow Food, Carlo Petrini – a gente é muito fã um do outro, ele é louco por mim e eu por ele, a gente admira demais o trabalho um do outro –, e ele falou: “Eu quero você na Itália”. Eu digo: “Pagando, estou lá”. Num evento, Terra Madre. A cada dois anos tem um evento mundial, que o mundo se reúne para falar da gastronomia local. É lindo! É lindo, lindo! Quando eu cheguei lá, já estava mais conhecida do que chuchu, que dá em todo lugar, viu? O povo foi lá me ver, não sei o que. Aí, quando eu voltei, fiquei muito famosa. É impressionante! As emissoras... Aí eu deixei de ser empregada doméstica e fui me dedicar ao projeto.

P/1 – Quando você foi pra Itália, você era empregada doméstica, ainda?

R/1 – Sim. Trabalhei um ano ainda com o projeto e empregada doméstica. Por isso que eu sempre falo que Dona Tereza que foi minha maior patrocinadora.

P/1 – E aí, quando você voltou, como você se organizou pra sair de lá e ir para o projeto?

R/1 – Cara, eu saí sem dinheiro na conta e falei: “Deus, tu me deste a missão, tu não vai me desamparar”. E Deus foi tão bom, que o primeiro bufê que eu fiz deu pra me sustentar por três meses e, em cima disso, eu fui multiplicando, há nove anos, oito anos.

P/1 – Regina, quando você chegou na favela, como é que era a realidade?

R/1 – Aqui mudou muito, porque veio a prefeitura, deu outra mudada, ficou muto bonito. Mas aqui eu sempre gostei muito porque... No início, eu saía de manhã e chegava de noite, eu não tinha contato com muita gente, não tinha contato com a comunidade. Eu nunca gostei de sair, de ficar passeando. Toda vez que eu saía para passear, eu ficava mais quebrada do que fazer uma faxina, então eu desistia. Cada um sabe...

P/1 – Por que você ficava quebrada?

R/1 – Menina, de sair de casa, de pegar carro, de ver as pessoas, de às vezes ficar cansada: “Se eu estivesse dormindo, estava tão melhor o meu divertimento!” (risos) De cansar de sair. As pessoas são muito estressadas na cidade grande, sabe? Eu nunca fui muito de sair. E o trabalho que eu faço é... Tipo assim, tinha gente no meu meio que falava cada coisa fútil! Eu falei: “Meu tempo não é pra isso!” Eu não tinha paciência de ficar falando leseira. Eu digo: “Não, não, não, não, não, não”. Eu sempre gostava do meu cantinho, de fazer as coisas, e sempre fui muito comunicativa. Aí eu comecei a fazer umas coisinhas que pudessem me dar prazer. E foi aí a comida.

P/1 – E o que mudou, de quando você chegou aí, pra hoje, na favela?

R/1 – Ah, mudou muita coisa! O que mudou quando eu cheguei pra agora? Nossa! Mudou muito, muito. Eu acho... Tenho certeza que a Favela Orgânica fez uma grande diferença também para o crescimento da comunidade, de conhecimento. Essa semana eu falei com uma senhora de 94... É Dona Olinda?

R/2 – Noventa e seis.

R/1 – Conversei com Dona Olinda, 96 anos, que eu estou fazendo um projeto, uma pesquisa pra fazer xarope e chás com antiguidades da Babilônia, Chapéu Mangueira, moradores. Liguei pra ela, ela pegou e falou: “Nossa, não acredito que você me ligou! Você é tão famosa! Menina, você é do Orgânico!” Olha que bonito, né, essa sensibilidade dela! Foi muito legal, fiquei bem feliz!

P/1 – Como é que você trabalha, aí na comunidade, isso que você falou: fazer um resgate de xarope na favela da Babilônia? Como é que você faz esse trabalho? Que dinâmica você usa pra ensinar?

R/1 – Antes eu ia nas casas e ficava batendo papo pra saber o que elas faziam. Só que agora é um projeto específico, aí a gente está fazendo uma pesquisa com elas, vai anotando, conversando: “Você conhece isso?” Eu digo: “Não, mas serve pra quê?”, não sei o que, você vai conversando, conversando: “Cara, você tem isso?” “É, eu tenho ora-pro-nóbis que está assim, que não sei o que”. Elas ficam muito contentes.        

P/1 – Regina, e quais são seus planos de futuro?

R/1 – Ah, meu plano de futuro é ter uma escola do ciclo de alimento do Favela Orgânica, onde a gente possa estar atendendo 120 crianças, que elas passem cinco anos com a gente pra trabalhar a favela, a escola e os pais em conjunto, pra ter uma economia e um pensamento mais sustentável, econômico, educacional, humanizado. Esse é um dos meus grandes sonhos.

P/1 – Regina, sua vida é tão rica, a gente falou pedaços dela, mas dentro do que a gente conversou e olhando pra trás, na sua trajetória de vida, se você tivesse que mudar alguma coisa, você mudaria?

R/1 – Acho que não, viu? Tudo foi um quebra-cabeça pra eu ser essa mulher incrível e maravilhosa que eu sou. Graças a cada chinelada da minha mãe, que me fez dar um impulso na minha vida. Até hoje, graças a Deus, eu saí de casa e nunca precisei pedir nada à minha mãe. Sempre quis muita autonomia, nunca dei dor de cabeça pra ninguém. Minha mãe diz que eu era danada, assim, por ser isso, né? E elas acham, até hoje, que eu sou muito complexa, porque eu tenho uma maneira diferente de pensar, agir. Eu não tenho tempo pra fofoquinha, pra ‘disse me disse’. Eu tenho tempo pra amar a vida e fazer as coisas crescerem, evoluírem. Meu tempo é muito precioso, que Deus me deu, então eu tenho que fazer alguma coisa nesse exato momento, que eu não sei se eu estou aqui amanhã. É fazer o meu melhor em cada instante.

P/1 – Regina, o que você achou da experiência hoje de contar a sua história de vida e, ainda, pro Museu da Pessoa?

R/1 – Ah, achei bem legal! Eu acho que vocês têm uma missão bem bacana, bem incrível. Bacana, não; incrível, mesmo. Porque a gente está tão na nossa correria, que a gente não se conecta, realmente, com o nosso passado, nosso eu, né? Eu só tenho 38 anos, mas quantas coisas! Eu poderia ser uma menina bem revoltada, assim, uma menina com algumas coisas, né, que aconteceram na minha vida. E eu pego isso como uma ferramenta pra eu ser um ser humano melhor e a gente se conectar com nosso passado. A gente para e pensa: eu já vivi 38 anos, e quantas coisas já aconteceram e eu fiz diferente, né? É incrível! Passado, futuro e presente, juntos. Se você for ver, tudo que eu fazia pequena, parece que ainda continuo fazendo. Você fez essa ligação comigo, minha força de vontade: do tamanho de nada e peitando a sociedade, que [antes] era a minha mãe e aqui a sociedade, pra entender o trabalho que eu faço.

P/1 – Nossa, que entrevista maravilhosa! Tem mais alguma coisa que você queira deixar registrado que, evidentemente, a gente não falou? Porque dá pra ficar com você aqui por dois dias, falando. Quando eu for no Rio, eu vou te visitar aí.

R/1 – (risos) Tá bom. Todo mundo fica doido, quando fala comigo, as entrevistas. Ninguém quer soltar. Eu digo: “Agora chega, cansei”. O que eu quero deixar (risos), é que a gente comece a acreditar mais na gente, nos nossos sonhos, que a gente não deixe responsabilidade na nossa vida em governo, nas pessoas. Cada um tem sua responsabilidade e papel, sim, na sociedade, mas eu acho que eu, que você, temos muito mais. Eu acho que a gente é agente transformador, pessoas inspiradoras. Se você não tem luz, aprenda a ter. Se você está apagada, se acenda, acredite. Eu quero deixar uma coisa bem legal pra vocês. Eu sempre falo: “Eu sou a minha melhor autoestima, meu melhor antidepressivo. Está com dor de cabeça? Está estressada? Está triste? Tome um chazinho com alecrim, manjericão, que te acalma e, se quiser direcionamento, usa sálvia, um chá. Se você está carregado com olho de urubu, meu bem, cheira uma folhinha de louro, queime, cheire e faça oração, sua fé. Pede muita força à Deus, muita perseverança, ame, se ame, dê, não dê, abrace, cheire, puxa a orelha, se precisar. Seja você”. É isso que eu quero deixar.

P/1 – O que é para ‘carrego’? Cheira o louro e queima?       

R/1 – Não. É o louro, você pega, queima e cheira, inala. Está com dor de cabeça, dor de garganta, não está se sentindo bem, está se sentindo pesada? Toma um chazinho, que também é bom. Quem me disse isso foi um índio, há muito tempo. 

P/1 – Obrigada, querida! Queria muito agradecer a entrevista maravilhosa, um presente para os próximos anos ficar alto astral. Do seu lado não tem como não ficar.

R/1 – (risos) Que bom! Então, um cheiro, viu? Tchau, obrigada!

P/1 – A Ane falou pra vocês das fotos?  

R/1 – Falou. Eu vou procurar e vou te mandar, mas eu tenho poucas, visse? Vou logo te dizendo.

P/1 – Não faz mal.

R/1 – Eu tenho mais agora. 

P/1 – Pra fazer a historinha da foto também. Super obrigada, Regina!

R/1 – Antigamente eu não gostava de tirar foto, agora eu me amarro! Esse sorriso lindo, cheio de luz.

P/1 – Vou tirar uma foto sua, fazer uma selfie nossa. Vou ficar aqui do seu lado.

R/1 – (risos) Tá bom, então. A gente vai se falando, tá? Eu vou procurar as fotos e te mando, ainda hoje. Um cheiro. Que nos abençoe, Nossa Senhora passe na frente! Amém! Aleluia, irmão! Tchau!

P/2 – Obrigado, Regina! Tchau!

P/1 – Curtiu a entrevista, Rogério?  

P/2 – Oi.

R/1 – Ô abestalhado, gostaste da entrevista?

P/2 – Oi, gostei muito.

R/1 – Tu gostou?

P/2 – Muito.

R/1 – Se não gostou, era o que tinha pra agora, tá, meu bem? I love you today!

P/2 – Tchau!

P/1 – Maravilhosa!

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