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Faria tudo de novo

História de: Jorge Bachir Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Jorge Bachir Filho não mudaria nada na sua vida, inclusive seu trabalho na Vale. Morador de Vitória desde criança, conta como era a cidade antes e depois da Companhia Vale do Rio Doce. Na adolescência, andava de bonde e ia ao cinema. Sua vida se interliga com a história da Vale desde 1966 até sua aposentadoria em 1995. Esteve presente na inauguração do Porto de Tubarão, e passou por vários cargos na área da secretaria. Jorge conta vários causos de quando estava em ativa na empresa.

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História completa

P/1 - Seu Bachir,  por favor seu nome e local e data de nascimento.

 

R - Meu nome é Jorge Bachir Filho, eu nasci em Castelo, município do Espírito Santo, em 7 de fevereiro de 1947.

 

P/1 - E o nome dos seus pais?

 

R - Jorge Bachir e Maria José de Oliveira Bachir.

 

P/1 - E o senhor se lembra o nome dos seus avós?

 

R - Não lembro não, o do meu pai por parte de pai... Não!  Por parte de minha mãe é Teófilo. Bom eu não sei, não decoro.

 

P/1 - O que o seu pai fazia?

 

R - Meu pai era comerciante 

 

P/1 - Ele tinha o quê? Loja?

 

R - É comerciante, ele mexia... Vendia madeiras e bebidas. Ramo de bebidas, né? Alcoólicas.

 

P/1 - Ele era brasileiro?

 

R - Era sírio.

 

P/1 - Ah era?

 

R - Era sírio procedente, ele chegou vindo da França. Ele estudou em Sorbonne na França e veio para o Brasil.

 

P/1 - Ele estudou o quê, o senhor sabe?

 

R - Ele estudou línguas lá.

 

P/1 - E ele veio ser comerciante?

 

R - É, comerciante e foi professor de francês, deu aula de francês em alguns estabelecimentos aqui de Vitória,  mas depois abandonou e ficou só com o comércio.

 

P/1 - O senhor sabe em que data ele veio para o Brasil?

 

R - Eu acredito que por volta de 1943, 1942  por aí.

 

P/2 - E a sua mãe, ela era de onde?

 

R - Mamãe é cari... é do estado do Rio, de Niterói.

 

P/2 - E eles se conheceram aqui?

 

R - Se conheceram aqui no Espírito Santo, em Alegre, próximo a Cachoeiro e Castelo. A minha mãe morava em Alegre.

 

P/1 - E o senhor se lembra como é... 

 

P/1 - E o senhor se lembra como era Vitória quando o senhor era pequeno?

 

R - Vitória era uma cidade muito tranquila, né? Eu tenho pouca... lembro de Vitória porque na época utilizava-se muito bonde, né ? Era o meio de transporte mais utilizado de Vitória, era o bonde, cortava a ilha aqui total, né ? Os principais bairros de Vitória eram atendido por bondes.

 

P/1 - E o senhor brincava na rua? Como é que era?

 

R - Brincava, pegava de bonde, o maior passatempo nosso era o bonde, quando chegava no bairro era aquela farra, pular de um trilho, de um coiso pelo o outro, né? De um estribo pro outro, correr do trocador,  passar pra frente, o trocador tá atrás a gente vinha pra frente, ele vinha pra frente a gente ía pra trás, aquelas brincadeiras de criança.

 

P/1 - Sei!

 

R - Era muito divertido!

 

P/1 - Que mais o senhor se lembra de Vitória?

 

R - Vitória cidade muito, Vitória era, assim uma cidade muito pacata, né, muito tranquila, onde todo mundo se conhecia, né, Vitória era uns bairros muito próximos, né, entendeu? Aqui, essa área aqui era tudo mato ainda, não existia, né. Então pra resumir seria a praia do Canto, que depois foi aterrada e era tudo água, né, a beira mar também era. Então era muito pequeno, depois Vitória foi crescendo, foi havendo, entendeu?

 

P/1 - Foram aterrando?

 

R -  Foram aterrando, a maior parte de Vitória é aterrada, entendeu?

 

P/1 - É mesmo?

 

R - Vitória é aterrada.

 

P/1 - Por exemplo, essa região aqui de Tubarão teve aterro?

 

R - Não, Tubarão não teve aterro. Ali na praia do Canto tivemos, nós tínhamos uma praia linda aqui na praia do Canto onde passa a principal aqui depois de né? Depois da ponte lá, na praia do Canto, ali era tudo água, tudo mato, é, água pura, depois foi aterrado.

 

 P/1 - E tinha só uma ponte na época?

 

R - É isso, só uma ponte. Ponte Florentino Avidos. É aquela ponte lá, cinco pontes né?

 

P/1 - A primeira ponte?

 

R - A primeira ponte.

 

P/2 - E antes das pontes, como as pessoas faziam pra...

 

R - Ah, vinha de barco, era barco o transporte, de canoa, vinha do interior, trazia café do interior, tudo na base de canoa. Assim o meu sogro contava muito, fazia muita travessia, né? De canoa.

 

P/1 - Mas que o senhor tenha visto construir que ponte que foi? Qual ponte o senhor viu construir?

 

R - Ah, vi já essa terceira ponte, né? Terceira ponte, a primeira quando eu nasci, quando fui me entender como gente já existia.

 

P/1 - E a segunda?

 

R - A segunda, a segunda e a terceira eu cheguei a ver, conhecer.

 

P/1 - O senhor estava falando que aqui onde tá Tubarão era tudo...

 

R - Mato, aqui era mato puro, mato, mato!

 

P/1 - Conta sobre isso.

 

R - Inclusive eu trabalhava no centro, lá onde eu trabalhava na companhia de seguros, lá próximo à nossa companhia de seguros tinha uma imobiliária, única imobiliária que tinha aqui em Vitória, então o pessoal oferecia lote aqui em Camburi, aqui em Camburi e e gente falava “poxa, aquele mato, comprar lote lá no meio do mato? Tá doido”, não sei o quê. A gente morava no bairro e quando vinha aqui pra Camburi fazia excursão pra vir à praia de Camburi. É excursão a gente fazia, alugava-se um ônibus ou caminhão e vinha fazer excursão, era uma e meia, duas horas de viagem de onde a gente morava e hoje a gente faz em quinze, vinte  minutos. Era uma e meia, duas horas de viagem, entendeu? A estradinha pequena de chão. Agora era uma viagem. Se a gente tivesse noção que isso aqui ia valorizar tanto, teria ficado milionário só em comprar, e preço barato, entendeu?

 

P/2 - E fazia picnic também?

 

R - Fazia picnic, pra vir à praia de Camburi, né? Fazia picnic.

 

P/1 - E aqui não tinha nada em Tubarão?

 

R -  Não tinha nada, era mato puro! Não tinha nada, nada, nada.

 

P/1 - O senhor sabe porque chamava Tubarão aqui?

 

R - Porque dava muito tubarão aqui na praia, muito tubarão que aparecia na região.

 

P/1 - O senhor ouviu contar alguma história?

 

R - A gente ouvia contar muita história de tubarão, né? Muita história.

 

P/1 - Tipo o quê por exemplo, conta uma.

 

R - Aparecimento de tubarão, muito tubarão que aparecia aí. Tanto é que o nome deu-se por causa disso.

 

P/2 - Mas chegou a comer alguém?

 

R - Não!  Nada, nada, chegou nada.

 

P/1 - E aqui, essa terra era uma fazenda e como é que foi...

 

R - Isso daqui foi desapropriada, isso aqui tinha vários nomes, né? Só que na época foi um preço assim muito pequeno, né? O que se fazia? A Vale arranjava um local pra essa pessoa construir uma casa e dava uma determinada quantia e a pessoa ia sobrevivendo daquilo. Mas era um ato puro também, não tinha como a pessoa, os donos fazerem alguma coisa, só mesmo uma empresa de porte como a Vale pra fazer o que fez, né?


P/1 - Quem foi desapropriado não é que recebeu grande coisa?

 

R - Não, não recebeu. Recebeu o valor avaliado na época, né? Pelo valor que não era lá grandes coisa, né? Um local quase que inabitado, né? Totalmente inabitado, sem condição nenhuma, matagal puro.

 

P/2 - Seu Bachir, antes da gente entrar em Tubarão eu queria perguntar um pouquinho mais pra trás, o senhor tinha dito que nasceu em Castelo, né?

 

R - Nasci em Castelo, uma cidade ao sul do estado, próximo à Cachoeiro do Itapemirim.

 

P/2 - E com quantos anos o senhor mudou pra Vitória?

 

R - Eu vim ainda, vim de colo, vim com... no mesmo ano que eu nasci eu vim de colo pra cá.

 

P/2 - Ah, pequenininho! Certo. E como é que era assim na sua casa, como é que eram seus pais?

 

R - Meus pais, segundo a minha mãe conta, minha mãe é viva até hoje, tá com 86, 85 anos, é de 1916, tá com 85 anos, tá lúcida, faz o crochezinho dela, tricot, não pára um minuto, faz um quibe que é coisa de louco, vejo meus amigos sempre comendo muito quibe, assim, não faz pra vender, faz uma cortesia, né? Minha mãe faz um quibe que é uma delícia!

 

P/2 - Ela aprendeu com quem?

 

R - Com o meu pai, que eles faziam quibe pra fora, né, uma época pra bares. E era muito procurado.

 

P/1 - De que cidade eles eram da Síria?

 

R - Meu pai era da Síria. Minha mãe era aqui do estado do Rio, né?

 

P/1 - O senhor lembra a cidade dele?

 

R - Não, não lembro não. Eu tenho a certidão dele lá em casa, podia ter trazido. Na certidão tá nascimento: Síria, só. Tá Síria.

 

P/2 - E aí quem é que era a autoridade na sua casa?

 

R - Era o meu pai. Meu pai era muito rígido, inclusive com relação à limpeza, higiene, né? Ele fazia questão depois de... os velhos costumes de antigamente, lavar a mão com sabonete e levar e mostrar, pra gente cheirar pra mostrar que realmente tinha lavado, então essas coisas. Cigarro, meu irmão mais velho fumava e um dia teve que botar o cigarro dentro do bolso, meu pai não admitia fumar na frente dele. Se ele pegasse um filho com cigarro na mão era um tapão na cara que não tinha jeito. Então meu irmão com muito medo e respeito pegou o cigarro aceso e botou no...

 

P/1 - Aceso?!

 

R - Aceso, segurando, né? Um sufoco! Mas meu irmão fumou desde, fuma até hoje, ele sempre fumou.

 

P/1 - Quantos irmãos são?

 

R - São quatro irmãos.

 

P/1 - Todos homens?

 

R - São quatro homens e uma mulher.

 

P/1 - Todos fumam?

 

R - Não, só tem eu e esse meu irmão que fumamos.

 

P/1 - Teria algum costume sírio na sua família?

 

R - Tem, a comida árabe, minha irmã, minha mãe faz muita comida árabe, né? Pra uso, costume, pra uso mesmo.

 

P/1 - Que mais costumes eles trouxeram, eles tem na sua casa, árabes?

 

R - Nada, só a comida mesmo!

 

P/1 - Religião não?

 

R - Nada, religião nada. Mamãe inclusive foi irmã de Maria. Muito católica, minha mãe fazia parte da congregação de Maria e é muito religiosa. Depois com o tempo ela foi se afastando, hoje nem em igreja vai mais, né? Pela idade.

 

P/2 - E os filhos tiveram educação religiosa?

 

R - Todos. Todos religiosos. Todos católicos, apostólicos, praticantes.

 

P/2 - E orientação política, tinha na sua casa?

 

R - O meu pai era muito, na época eu lembro que meu pai era lacerdista doente, era um lacerdista doente, fanático pelo Lacerda, Carlos Lacerda. Mas eles não influenciavam nada, entendeu? Curtia do modo dele sem...

 

P/1 - O senhor começou a trabalhar com quantos anos?

 

R - Quatorze anos.

 

P/1 - Onde o senhor começou?

 

R - Começei lá na Western Telegraphic Company, empresa americana. De telegrama à cabo, entrega de telegrama.

 

P/1 - E o que o senhor fazia lá?

 

R - Fazia entrega de telegrama. Tipo mensageiro,né? Mensageiro.

 

P/1 - Ficou lá até quantos anos?

 

R - A minha função realmente era mensageiro, fui admitido como mensageiro.

 

P/ - Ficou lá quantos anos?

 

R - Eu fiquei um ano e logo em seguida passei para a expedição de seguros. Aí na companhia de seguros eu trabalhava na área de seguros gerais, né? Prediais, residenciais, seguros de um modo geral. Inclusive cheguei até a fazer resseguro também, né? Aprendi a fazer resseguro que é uma área muito nobre, na época pouca gente sabia, no estado só tinha um ressegurador no estado. E eu aprendi com as pessoas a fazer resseguro, coisa muito importante na época, me deu muita responsabilidade, muito orgulho de fazer um serviço que pouca, um só fazia em todo o estado.

 

P/1 - E tinha muitos clientes?

 

R -  Tinha, tinha muito cliente! Era empresa grande, com a matriz em São Paulo e diversas filiais, né? Empresa grande.

 

P/1 - E quando o senhor tinha de fazer serviço militar como é que ficou?

 

R - Não eu fui dispensado. Excesso de contingente na época, né?  Excesso de contingente e eu fui dispensado.

 

P/2 - Seu Bachir o senhor começou a trabalhar bem cedo né?

 

R - Trabalhei bem cedo, quatorze anos e já estava trabalhando.

 

P/2 - E a escola?

 

R - Foi aí que começou a pegar, começou a pegar pelo seguinte, era muito sofrimento, tá, eu quase não tinha tempo pra nada, que hoje, pulando um pouquinho na frente, hoje tem ônibus com ar refrigerado esperando, tem hora, naquela época seis horas a gente tinha de sair de casa pra pegar a condução, às seis e meia pra tá no Tubarão às sete horas. Sete horas começava o expediente.

 

P/1 - Mas aí o senhor está falando da Vale.

 

R - Ah, mas é lá no outro, né?

 

P/1 - No outro.

 

R - Lá a gente fazia, o expediente normal era de oito, né, de casa de bonde, fazia o trajeto de bonde, tinha tudo programado direitinho, né? Agora, dali ia pro colégio à noite.

 

P/2 - Ah, estudava à noite?

 

R - Estudava à noite, sempre estudei à noite. Foi quando justamente eu passei a fazer o segundo grau, aí foi que começou a pesar muito, por que eu fazia o ginásio lá em Santo Antônio, lá onde eu morava, era perto. Mas quando fui fazer o científico já era noutro bairro. Tinha que pegar condução, entendeu? Aí chegava em casa meia-noite, meia-noite e meia pra tá de pé cinco e meia, seis horas, entendeu? Era muito, então eu dei graças a Deus que eu conclui o meu científico, por que um emprego na Vale dava uma certa tranquilidade de vida pra pessoa, muita tranquilidade.

 

P/1 - E como foi que o senhor veio trabalhar na Vale?

 

R - Eu trabalhava na empreiteira em Tubarão, na obra do primeiro píer, entroncamento do primeiro píer na Christian Hansen, uma empresa multinacional muito poderosa Chr. Hansen fez obras em todo o país, inclusive o Maracanã, foi uma das construtoras do Maracanã, é uma multinacional de renome. E a Christian era uma empresa de grande porte aqui no estado, e ela veio pra Tubarão e meu irmão foi a primeira pessoa a fichar nessa empresa e dali chamou o outro meu irmão e depois o outro meu irmão me chamou e foi aquela escadinha, né? Aí da Christian, que a Vale tinha uma vantagem, a Vale quando via potencial numa pessoa da empreiteira, a Vale tchum! Por isso que a Vale é grande hoje. Por que a pessoa destacava na empreiteira a Vale tchum, passava a mão. Isso aconteceu com muita gente. Muita gente, profissionais bons, a Vale não perdia tempo, passava a mão, cê entendeu? Então é por isso que a Vale hoje é uma potência, que ela soube investir naquelas pessoas certas.

 

P/2 - O senhor tinha parentes já que trabalhavam na Vale?

 

R - Eu tinha um irmão que trabalhou, depois saiu e indicou o meu irmão, aí meu irmão me indicou.

 

P/2 - E tinha concurso de seleção, como é que era?

 

R - Não, não tinha não. Não existia concurso. Emprego, era muita facilidade, tinha muitas empreiteiras, muitas empreiteiras, tinha “n” empreiteiras em Tubarão. Tinha empresa de terraplenagem, empresa de montagem, tinha empresa de construção, tinha muitas empresas mesmo, então Tubarão era uma cidade, era gente pra caramba, muito grande. Então a oferta era maior que a procura!

 

P/1 - A oferta de mão de obra?

 

R - De mão de obra, era muito farta, pessoa chegava com a carteira fichava. Principalmente um profissional, né? Profissional chegava com a carteira, tinha emprego pra todo mundo, tinha com certeza.

 

P/1 - E era geralmente pessoas de que nível, de todos os níveis?

 

R - De todos os níveis, de todos os níveis.

 

P/1 - Isso era mais ou menos em que ano, a Vale tava pegando?

 

R - Essa época mesmo de pique foi em 1967, 1968, 1969 por aí, nessa época.

 

P/1 - A que o senhor atribui essa época ser assim tão farta de empregos?

 

R - À quantidade de obra que tinha no Tubarão, né?

 

P/1 - Estavam construindo?

 

R - Estavam construindo Tubarão.

 

P/1 - Então, conta como foi, como é que o senhor viu essa construção? Como ela alterou o ritmo da cidade, das pessoas?

 

R - Houve uma movimentação muito grande de pessoal e veio muita gente de fora, de empreiteira, muito peão de trecho, que se dizia na época, muito peão de trecho, que as empresas geralmente conservam aqueles bons empregados, então ela corria o Brasil inteiro. Mas só que a maioria desses ficaram em Vitória e aportaram e não quiseram sair mais, muitos deles, muitos da gente ficou e bebeu dessa água, tomou água dessa fonte não sai! Muita gente ficou, inclusive muita gente passou pra Vale, muitos de empreiteira passaram pra Vale.

 

P/2 - E o senhor passou pra Vale assim?

 

R - Passei, eu trabalhava na Christian Hansen, só que a Christian fazia o entroncamento do primeiro píer, primeiro o entroncamento para depois fazer o píer, tava na obra do entroncamento quando eu comecei na Christian Hansen. Ali eu trabalhava na área de escritório, ali era pau pra toda obra, ali a gente fazia de tudo, trabalhava na área de contabilidade, na área de secretaria, na área de compras, na área de transporte, na área de tudo lá. Na área de pessoal, tinha na hora de envelopar pagamento a gente ia lá pra agilizar, entendeu, dava uma mãozinha em tudo, cada um dava uma colaboração. Na Christian Hansen era um pessoal muito unido. Ela já tinha aquela convivência do pessoal já fixo dela, né? De lidar o Brasil inteiro, então ela tinha muita facilidade de lidar com o pessoal.

 

P/2 - Essa era a empresa americana?

 

R - Essa americana não...

 

P/2 - Essa não era americana.

 

R - Americana foi a Western Telegraph, a de telegrama. Essa aí era uma empresa, Christian

 acho que era sueca se não me engano.

 

P/2 - E como é que foi quando o senhor viu o primeiro píer sendo construído?

 

R - Eu comecei a trabalhar, a gente trabalhava na Christian mas sempre sob a fiscalização da Vale, a Vale que fiscalizava todo o serviço nosso da Christian então tinha pessoal da Vale que estava lá constantemente, então essa pessoa via potencial em quem trabalhava, entendeu? Então quando a Christian saiu tinha um chefe na Vale, era um cara muito poderoso na Vale, João (Saider), ele hoje tá no Rio, ele mora no Rio num triplex, tá muito bem de vida, João (Saider) foi um pioneiro na área de Tubarão, então ele gostava muito de mim, que ele via a minha facilidade de trabalhar e fazer as coisas com, né, capricho, então ele falou: “Bachir, um dia eu vou te levar, sempre falava, um dia eu vou te levar pra Vale.” “Ah, tudo bem.” Quando acabou, aquilo ali era etapa, a Vale ia pegando ordem de serviço, né, então quando eu fui admitido na Christian eles falavam logo de cara: “Ó, não confia muito em ficar muito tempo por que aqui a gente depende da Vale. Deu serviço a gente tá continuando, não deu, fazer o quê?” “Não tudo bem.” Aquilo ali ficou, aquilo foi um ano e dez meses que eu fiquei na Christian e só fui demitido por término de obra mesmo, inclusive ficaram eu, o chefe de escritório, que depois veio a passar para a Vale do Rio Doce e aposentou pela Vale, Paulo Moçoró, é lá do Rio Grande do Norte, o apelido dele era Paulo Moçoró. Paulo Lopes Alves, ficou ele que era o chefe de escritório, eu que era o escriturário e o engenheiro da obra. Aí o engenheiro da obra teve que ir embora, aí ficou eu e o Paulo. “É  Bachir, não tem jeito, vou ter que te mandar embora.” Eu disse: “tudo bem, não tem problema não.” Eu sei que ele ia me mandar embora, fiquei mais uns dois meses aqui no Tubarão, aí João saiu e falou: “Ó, vou te levar lá pra Vale, cê quer ir?” Falei: “vou.” Mas só que quando ele falou que ia me levar pra Vale esse engenheiro que ficou lá me arranjou no banco na cidade. Um banco que tava inaugurando aqui em Vitória, esse Marcos Murah, família tradicional aqui de Vitória, falou “Bachir cê vai trabalhar lá, procura seu fulano, me deu um bilhete, vai no banco procura seu Wilson que ele vai te admitir lá no banco.”

 

P/2 - Que banco que era?

 

R - Banco... Ele existe até hoje na Praça Oito ali na cidade, eu não lembro qual. Aí o João (Saider) falou: “Você vai trabalhar na CCI.” A CCI é uma empresa de mão de obra contratada que tinha, o pessoal que trabalhou na CCI trabalhou diretamente pra Vale através de mão de obra contratada, MOC, né? Então esse pessoal, inclusive eu, esse tempo foi computado pela Vale do Rio Doce, a efeito de pró-tempo de tudo, licença-prêmio, as vantagens que a Vale dava foi incorporado.

 

P/2 - Era MOC isso, mão de obra contratada?

 

R - Mão de obra contratada.

 

P/2 - E CCI era o quê?

 

R - A CCI era a empresa que prestava esse serviço de mão de obra contratada. Então a maioria oriunda desse pessoal da Vale era oriunda da CCI. A CCI era seu (mão de terra?). Aí fiquei naquela, João (Saider) falou que ia me trazer pra Vale, através dessa CCI, o engenheiro me arranjou lá no banco e a Christian queria me mandar pra Salvador. Mas como eu era muito novo ainda, tava cursando o científico, aí fiquei matutando, poxa vida e eu tinha um irmão que já tava correndo trecho pra Christian ele adorava a Christian Hansen, ela pagava muito bem, valorizava muito o funcionário, o salário dele era muito bom, tanto é que quando eu saí da Christian pra entrar na CCI eu saí ganhando menos do que eu ganhava na Christian, meu salário baixou, entendeu? Eu ganhava mais na Christian, por que lá todo mês a gente tinha aumento. O regime...

 

P/1 - Parece que havia uma competição no mercado de mão de obra, não é isso?

 

R - Existia!

 

P/1 - Quer dizer, todo mundo pagava bem lá fora por que se não pagasse já vinha pra cá.

 

R - Com certeza! Então a pessoa ía pra onde pagava mais.

 

P/1 - Não, não, eu perguntei o contrário! Se o pessoal pagava mais senão vinha todo mundo pra Vale.

 

R - Nesse caso aí da CCI é que o pessoal visava trabalhar na Vale. Todo o sonho da pessoa é passar pra Vale, tanto é que eu sabia que um dia eu ía passar pra Vale. Da CCI era um trampolim pra Vale, com certeza!

 

P/2 -  E o senhor foi fazer o quê na CCI?

 

R - Trabalhava na área administrativa, dentro da Vale, no escritório da Vale, com o pessoal da Vale.

 

P/1 - Ah, me diga uma coisa, porquê trabalhar na Vale, a gente imagina o porquê mas eu gostaria que o senhor dissesse. Por que trabalhar na Vale era o máximo pra todo mundo?

 

R - Era o máximo porque só com a camisa da Vale você entrava numa loja, você não precisava de avalista, a própria camisa era o seu aval. Você entrava em uma loja em Vitória, poxa você comprava até a loja toda, entendeu? De tanta credibilidade que tinha um empregado da Vale. Por que a Vale pagava bem, era um dinheiro certo e quem trabalhava na Vale do Rio Doce não precisava nem cursar faculdade, tava bem, né?

 

P/2 - O senhor chegou a ver a inauguração do Porto de Tubarão?

 

R - Participei!

 

P/1 - Conta como é que foi! Tudo , tudo!

 

R - Foi uma festividade muito bonita, né? Foi muito bonito, foi o Castelo Branco que inaugurou o Porto de Tubarão. Veio muito segurança antes, muita rigidez na época, né? Acho que foi uma semana antes, Tubarão ficou empesteada de militar, cara armado e revistava as pessoas, né? Muita segurança. Mas foi bonita a festa, a gente ficou de longe vendo passar o carro presidencial, foi muito bonito!

 

P/1 - E tinha festa pro povo também?

 

R - Não, era tudo ali no palanque só, inaugurava e ía embora.

 

P/1 - Não teve festa, música, nada?

 

R - Não teve nada, nada.

 

P/2 - Seu Bachir, o que mudou na Vale depois da construção do porto? Em termos de crescimento?

 

R - O desenvolvimento foi muito grande, a Vale expandiu depois do porto, ela teve um impulso. Que aquilo ali já era esperado, já se previa isso da Vale. Um impulso, não assim tão repentinamente, ao longo prazo. Só que esse longo prazo foi diminuído, a bem curto prazo. Um crescimento muito rápido. E esse projeto já era traçado e todo mundo já vislumbrava esse projeto como grandioso. Mas não assim tão repentinamente. Veio muito rápido.

 

P/1 - O senhor achava que ía demorar mais?

 

R - Eu achava que ía demorar mais!

 

P /1 - E ao que o senhor deve esse negócio, por que correu tanto?

 

R - Eu acho o seguinte, a eficiência do pessoal que trabalhava na Vale. A mão de obra especializada, um pessoal muito capacitado. Os engenheiros da Vale, o pessoal, o modo como a chefia, eles trabalhavam e valorizavam o ser humano. O ser humano em si era muito valorizado. Isso aí dá um progresso muito grande, o pessoal trabalhava com prazer e sabendo que o retorno viria. E a amizade também, isso é muito fundamental , a amizade que existia entre chefia e subordinado foi muito primordial, excelente!

 

P/1 -  E o senhor acha que isso foi mudando depois?

 

R - Foi mudando. Hoje, eu não posso dizer como está hoje, eu sinto uma diferença muito grande em relação ao que era a Vale. Era uma união muito grande. Com certeza era muito grande a união. A festa de confraternização de final de ano era uma coisa linda, linda, linda. Não havia discriminação, todo mundo coeso, uma coisa linda!

 

P/1 - Como era a festa, onde era?

 

R - A festa geralmente era nos setores, eles tinham uma verba que a Vale destinava uma determinada quantia, o setor comprava os ingredientes pra festa e depois se prestava conta anexando as notas. E aí com o advento da AERT, esse clube recreativo aqui de Tubarão, as festas passaram a ser aqui na AERT, a associação esportiva aqui de Tubarão.

 

P/2 - Quando é que e AERT foi construída? O senhor lembra?

 

R - A AERT deve ter mais ou menos uns... ah, não lembro a data exata, mas é nova.

 

P/2 - E essas festas eram do quê, de natal assim?

 

R - Festas de natal, de dia das crianças, a Vale promovia muitos shows, muitos eventos a Vale patrocinou ali na AERT, muitas coisas. Sorteio no final de ano, sorteio de carro inclusive.

 

P/2 - O senhor chegou a ganhar alguma coisa?

 

R - Não. não cheguei não, na Vale não!

 

P/1 - O senhor me contou, eu não queria esquecer, o senhor dizia aqui embaixo...

 

R - É, esse Hélio Ferraz, o prédio Hélio Ferraz, o nosso início de Tubarão foi aqui, era uma barraco de madeira onde agrupava ali almoxarifado, seção de custos, apropriação, tudo um aglomerado. Um barraco de madeira onde começou a trajetória de Tubarão aqui.

P/2 - Era aqui que o senhor trabalhava então?

 

R - Não, eu não trabalhava aqui, eu trabalhava na Christian 

 lá no píer lá embaixo que tinha um escritório de madeira da Christian. Depois quando eu fui trabalhar na CCI eles já tinham construído outro barraco de madeira mais confortável, com a sala dos engenheiros, a sala de apropriação, sala de secretaria, entendeu? A sala de reunião. Um barraco envernizadinho. Hoje é terminal de ônibus, próximo à usina 1 da CVRD, lá em cima. Então aqui deu o início, eu vinha muito aqui.

 

P/1 - E os navios, eram grandes, pequenos?

 

R - Eram grande, sempre foi navio grande. Depois com a construção do Praia Mole passou a vir navio de maior porte.

 

P/1 - E o que é o Praia Mole?

 

R - É o porto de Praia Mole. Tem o porto de Tubarão e o porto de Praia Mole.

 

P/1 - E qual é a diferença?

 

R - Os dois estão, um próximo ao outro. São dois portos que tem, Praia Mole e Tubarão.

 

P/1 - E como é que foi a transição daquele Porto de Paul pra este?

 

R - Aquilo ali veio gradativamente, que ali ficou mais com granel, a parte de Paul, aqui foi só minério…

 

P/1 - E lembranças assim das pessoas contarem, coisas da ferrovia?

 

R - Não, não tem não, ferrovia eu tinha pouco contato.

 

P/2 - Seu Bachir, nessa época da construção do porto que outras instalações a Vale tinha aqui em Vitória?

 

R - Aqui no porto?

 

P/2 - Em Vitória.

 

R - Em Vitória? Só tinha lá em Porto Velho que era a estrada de ferro Vitória-Minas, a estação de trem, o edifício Fábio Ruschi que era a parte administrativa no centro de Vitória, que agora recentemente vendeu pro governo do estado. O edifício Fábio Ruschi era onde aglomerava o maior número de pessoas, administrativa, ali funcionava a jurídica, vários setores administrativos lá, no Fábio Ruschi no centro de Vitória.

 

P/2 - Então era Porto Velho...

 

R - Porto Velho, é, era lá onde funcionava a estradista, a estação Pedro Nolasco, a estação ferroviária Vitória-Minas.

 

P/2 - E aí o porto aqui. O prédio, o porto velho e o porto de Tubarão.

 

R - Porto de tubarão e a sede que é lá em Vitória no edifício Fábio Ruschi.

 

P/2 - O senhor está então funcionário da CCI, prestando serviço pra Vale.

 

R - Na verdade sempre fui funcionário da Vale, só que através do regime de mão de obra.

 

P/1 - Como é que era essa relação de trabalho?

 

R - Era bom. A chefia muito boa, entendeu? Eles tratavam a gente como funcionário da Vale. A gente trabalhava como se fosse funcionário da Vale. Tanto é que depois reconheceram esse tempo e incorporou como tempo de Vale. A Vale reconheceu!

 

P/2 - Mas tem um momento que o senhor passa a ser funcionário da Vale?

 

R - Nós trabalhávamos sob comando de funcionários da Vale, nós não éramos da Vale mas éramos comandado pelo pessoal da Vale.

 

P/2 - E depois disso não foi contratado pela Vale?

 

R - Depois nós fomos contratados pela Vale.

 

P/2 - Em que época que foi essa transição?

 

R - Eu fiquei de 1967 até 1971. Em 1971 eu fui admitido na Vale efetivamente. Aí prestei concurso, por que a Vale nunca admitiu sem que se prestasse exame, tá. Todos que entravam na Vale tinham que prestar exame. Fazer exames regulamentares, psicotécnico, no geral. Inclusive teve amigo meu que ficou reprovado, entendeu?

 

P/1 - Eram difícieis?

 

R - Era difícil, era muito puxado!

 

P/1 - Que tipo de exame?

 

R - Português, matemática e psicotécnico. Mas não era muito fácil não, era bem puxado!

 

P/1 - Todas as hierarquias faziam?

 

R - Todas hierarquias faziam!

 

P/1 - Eram muitas que funcionavam aqui?

 

R - Eram!

 

P/1 - Ía desde...

 

R - Desde servente até chefe geral.

 

P/2 - Seu Bachir, como é que o senhor ficou sabendo desse concurso?

 

R - Eu já trabalhava, só faltava efetivar pra Vale.

 

P/2 - Era uma convocação interna.

 

R - Então a Vale indicava as pessoas boas pra fazer o concurso, ela não botava qualquer um. Muitos aposentaram pela CCI, saíram da CCI mas não entraram na Vale, tinha que ter condições de entrar na Vale, não era qualquer um que entrava. Então eles pegavam assim, Bachir tem condição, fulano tem, fulano não tem, sicrano tem. Aí fizeram um grupo de dez, aí fazia uma carta pro superintendente, que aqui era subordinado ao Rio, aí fazia solicitação para processo de admissão. Aí autorizava, aí começava a fazer os exames.

 

P /1 - Eram quantas hierarquias? Muitos degraus?

 

R - Era muita hierarquia, a gente tinha o chefe de escritório, o chefe do chefe do escritório, tinha depois o gerente de divisão, gerente de departamento e aí por diante e o chefe geral, o chefe do grupo executivo do auto porto, né?

 

P/1 - E se reportavam em última análise à quem? Quem era o chefão?

 

R - O superintendente.

 

P/1 - E como é que todo mundo se dava entre si?

 

R - O relacionamento era muito amigável, muito bom, cordial, muito bom! Não tinha negócio de passar a perna no outro, nada. Era uma ajuda mútua, o pessoal se ajudava muito, cada um sabia da dificuldade do outro e procurava entender, ajudar da melhor maneira, muito bom.

 

P/1 - O chefe não era um bicho papão? 

 

R - Tinha alguns chefes que era assim muito... tem uns que são mais afoitos, mais chegado à empresa, puxar muito pro lado da empresa.  Todos nós somos, mas tem uns que são mais fanáticos, mas a maioria , pessoas muito dadas.

 

P/2 - Seu Bachir, e o fato da empresa ser uma estatal trazia assim que tipo de benefícios e que tipo de desvantagens?

 

R - O benefício era a credibilidade que tinha num todo, em qualquer segmento você tinha uma credibilidade muito grande. Só de falar Vale do Rio Doce já era sinônimo de credibilidade.

 

P/1 - Como é que era o relacionamento do pessoal da ferrovia, do porto...

 

R - Não tinha convívio dia a dia, era muito difícil. Por exemplo na parte de obra nós estávamos  muito ligado à nós ali da obra. A nossa turma era muito unida, muito unida mesmo! Era uma família muito grande!

 

P/1 - A obra o senhor diz?

 

R - A construção, né?

 

P/1 - A construção do porto?

 

R - A construção do porto. Muito, muito unida.

 

P/1 - E como o porto está muito próximo da história e depende de trazer o minério como é que...

 

R - É porque na construção de Tubarão não existia ainda essa divisão, depois que foi criada a superintendência de pelotização do porto, entendeu? Da estrada. Tubarão era um todo, não tinha essa divisão, depois que foi fazendo as divisões. Depois de formado o complexo portuário de Tubarão, depois de construído aí é que se foi dando forma às coisas, foi dando superintendência tal, superintendência tal! Porque antes não tinha, era tudo obra, tudo construção. Era um setor só. Depois de construído o prédio Hélio Ferraz aí foi criada a superintendência do porto, a usina, a primeira usina, a segunda, a terceira, a quarta usina, veio a usina Nibrasco, a usina Itabrasco, aí criou-se a superintendência de pelotização. Então cada um tinha um chefe específico, um superintendente pra cada área, entendeu?

 

P/2 - Como é que esse crescimento, diversificação alteravam o ritmo de vida e a estrutura da cidade?

 

R - Vitória aportou muita gente de fora, veio muita gente de fora mesmo. Houve muita migração, muita mesmo, tá? De outros estados. Inclusive o Tubarão era conhecido como o maior porto do mundo. Então isso chamava muita gente. Pessoas, essa bolsão de pobreza, essas invasões, criou-se muita invasão aqui próximo à Tubarão, tá? Próximo à CSD que veio depois. Aí criou-se esse bolsão porquê? Esse pessoal vinha de fora sem estrutura nenhuma e ía se acomodando nos lugares.

 

P/2 - Explodiu?

 

R - Explodiu, deu aquela explosão demográfica!

 

P/2 - E de onde eram esses trabalhadores em geral?

 

R - De toda a parte do Brasil. A maior parte mineiro. Cê vê Vitória hoje, a maioria é mineiro.

 

P/1 - Desceram a serra e pronto!

 

R - E pronto, tem muito mineiro, muito mineiro em Vitória!

 

P/1 - Agora por falar em Minas, nessa sua narrativa tá me fazendo falta, eu gostaria de entender melhor a história da ferrovia que pareceu ausente da sua história.

 

R - Não, eu não trabalhei, eu...

 

P/1 - Mas ouviu contar, de que maneira isso tocava o senhor, os seus companheiros?

 

R - Tem uma pessoa que vai chegar aí que é mestre nisso, que é o Pipa, o Norton. Ele trabalhou na parte de obras com a gente depois foi pra ferrovia. Eu não tinha amigos na ferrovia, muito poucos. Eu andava muito de trem, viajava, passe livre, né? Todo funcionário da Vale tinha passe livre. Inclusive aposentado tem direito à passe livre.

 

P/1 - E o senhor ia pra onde?

 

R  - Ah, ía viajar Valadares, essas partes Conselheiro Pena e tal.

 

P/1 - E como é que era?

 

R -  Era muito boa viagem. De trem é maravilhoso.

 

P/1 - E desde quando o senhor viaja?

 

R - Desde quando eu me entendo por funcionário da Vale eu sempre viajei. Inclusive a última vez a viagem que eu fiz, nós fizemos um programa até meio pesado. Pegamos um trem aqui em Vitória, fomos pra Valadares, chegou em Valadares encontramos mais dois amigos nossos, um aposentado da Vale e o outro amigo dele. Também funcionário da Vale, tava na ativa. Daí fomos daqui pra Valadares de trem, de Valadares fomos pra São Paulo de ônibus, aí de São Paulo fomos pra Curitiba de ônibus e de Curitiba pra Florianópolis, tudo de ônibus. Uma viagem linda, linda de trem.

 

P/1 - E como é, conta pra nós.

 

R - Uma viagem maravilhosa. Você vê umas paisagens muito bonitas, trecho daqui à Valadares. E os trens confortáveis, esses trens modernos da Vale hoje tem toda a...

 

P/1 - O senhor viajou nos antigos?

 

R - Viajei, viajei.

 

P/1 - E qual a diferença?

 

R - Tinha um restaurante. Hoje tá diferente, era mais popular naquela época. Mas hoje está mais sofisticado, tão bem mais light

Eu não vejo diferença, pra mim é tudo a mesma coisa de trem. Muito bonito! Agora a ferrovia, sinceramente eu não tenho como falar muito de ferrovia que eu não “manjo”, não é ‘minha praia’.

 

P/2 - Seu Bachir, trabalhando aqui na Vale, existiam associações, tipo associações de funcionários, vocês se reuniam, enfim?

 

R - Associação não. Depois criou esse clube aí AERT, esse clube recreativo aí a AERT.

 

P/2 - O clube congregado...

 

R - Congregado aos funcionários da Vale. Aos funcionários e aos familiares. Mas antes não tinha associação não.

 

P/1 - Quais funções o senhor passou?

 

R - Eu passei como escriturário-datilógrafo, depois fui passando pra outras funções, encarregado, supervisor simples, supervisor geral e gerente técnico por último.

 

P/1 - E aí se aposentou?

 

R - Aposentei no gerente técnico. Mas o interessante quando eu entrei na Vale, o pessoal já antigão de Vale, eles tinham um status. Por exemplo, um encarregado de carpintaria, pessoa sem instrução nenhuma, mas mantinha aquela pose de funcionário da Vale. Tinha. Já tinha seu carro, sua casa própria. E um padrão de nível não tão elevado mas que dava condição dele viver bem. Não era lá grandes coisas mas, era funcionário da Vale! Então às vezes eu ficava olhando, “Puxa vida esse cara encarregado de carpintaria com carro e tal.” Então sente que era muito bem remunerado.

 

P/2 - E essas funções que o senhor exerceu, que senhor falou eram feitas?

 

R - Por merecimento, por indicação da chefia, tá? Não prestava concurso, era indicação.

 

P/2 - E o que era o GENP que a gente estava falando?

 

R - GENP é Grupo Executivo Novo Porto. A sigla do Grupo Executivo Novo Porto.

 

P/2 - O senhor trabalhou lá?

 

R - Trabalhei no Grupo Executivo Novo Porto. Ele começou aqui ó!

 

P/2 - Que atividade?

 

R - Eu comecei como escriturário, foi quando eu saí da Christian e entrei na CCI.

 

P/1 - Não, começou aqui desse prédio o senhor fala?

 

R - Começou aqui, mas eu não trabalhava aqui, eu fui trabalhar no novo barraco quando foi construído. Eu vinha muito aqui que eu trabalhava na Christian e vinha sempre aqui.

 

P/2 - E o (Diext?)?

 

R - (Diext?) divisão de obras. Tinha a superintendência no Rio e aqui era a divisão de obras, subordinado ao Rio. (Diext?).

 

P/2  - E aí o senhor trabalhou nisso?

 

R - Trabalhei na (Diext?). Ela era também um pedaço da superintendência.

 

P/2 - E como é que foi a experiência?

 

R -  Começou como GENP, depois passou pra (Diext?), depois pra SUEN, superintendência de engenharia, então mudava muito a sigla da (AMPAE?), havia muita mudança de siglas. Depois eu passei a trabalhar na COPEO, Coordenadoria de Programação de Pesquisas Operacionais, no fim. Já saí da parte de obra, já tinha concluído a parte de obra. Fui pra coordenadoria dos projetos de obra.

 

P/2 - Era uma experiência diferente?

 

R - Diferente, um outro serviço, totalmente diferente.

 

P/ 2 - Como é que era lá na COPEO?

 

R - Era diferente a atuação dos profissionais, mas o meu serviço era o mesmo, secretaria. Sempre lidando com o pessoal, comandando o pessoal, distribuindo tarefas, serviço de apoio administrativo, abrangendo várias áreas. Transporte, segurança, essas coisas todas a gente mexia. Era muito diversificado, a gente tinha muito prazer que era muita coisa. A gente podia diversificar, entendeu? E trabalhava bem. Toda área a gente atuava bem! Tinha as pessoas que trabalhavam bem também. As pessoas muito boas. A gente tinha uma equipe muito eficiente. Nós tinha um problema no Tubarão que não tinha mulher que trabalhava aqui na parte de escritório. Mulher era só na parte de telefonia. Só telefonista.

 

P/1 - Mulher? Mas em que ano isso?

 

R - Ah, isso no tempo da Vale até 1975, era só homem, mulher tinha uma ou outra que trabalhava. Até que veio uma menina do Rio, que o marido dela foi transferido pra Vitória, Maria Margarida, que foi uma datilógrafa que eu nunca vi igual na minha vida! Eu que era um bom datilógrafo me considerava um bom datilógrafo. Essa menina quando veio do Rio, falei: “essa aí é perfeita, essa é o cão!” Mas ela fazia um serviço que era brincadeira!

 

P/2 - Era rápida?

 

R - Rápida e eficiente. Não tinha erro. Cê dava um “catatau” assim de datilografia pra ela e ela “tirava de letra.” Rapidinho.

 

P/2 - E elas eram geralmente trazidas do Rio?

 

R - Não, essa daí veio por que o marido dela veio do Rio então ela foi ser lotada na minha secretaria.

 

P/1 - Lembra o nome dela?

 

R - Maria Margarida de Melo Manhago. Hoje ela é advogada. Inclusive se formou dentro da Vale do Rio Doce, tem o curso de advocacia e está atuando como advogada.

 

P/1 -  Manhago?

 

R - Manhago! Maria Margarida de Melo Manhago. Quatro nomes.

 

P/1 - E chegou a mulher e depois?

 

R - Aí pronto, começou a admitir mulher e foi crescendo, crescendo e pá, como tá hoje. Hoje tem mais mulher do que homem.

 

P/1 - Tem muitas?

 

R - Tem muita mulher.

 

P/1 - Seu Bachir, e o senhor chegou a estudar enquanto estava trabalhando?

 

R - Estudei até o científico, depois não aguentei mais não! Era muito pesado mesmo! O expediente de Tubarão era pesadíssimo. Tirava o couro. Não tinha folga, não dava tempo de você descansar, não tinha tempo, era muito serviço!

 

P/2 - Como é que era o seu cotidiano de trabalho?

 

R - Era muito puxado. Eu sempre trabalhei na área, secretaria, que dava suporte a todas as áreas, tanto a fiscalização de campo, como a parte interna, _________ os engenheiros. Isso sem contar as coisas particulares também que tinha. Era muito abrangente, então era muito estafante! E outra, o volume de documento que chegava através de malote, do Rio e de Belo Horizonte, porque geralmente as empresas projetistas eram de fora, do Rio ou Belo Horizonte. Era Cobrac no Rio e a Iesb em Belo Horizonte. Então as empresas mandavam muitos desenhos e a gente tinha de conferir um por um, aquelas coisas todas. Dar entrada, carimbar, registrar! Era muito complicado, muita coisa. Eu quando entrei naVale tive um problema, mesmo baixando o meu salário eu entrei com o salário equivalente aos melhores funcionários da época, na secretaria. Então eles começaram a me boicotar, foi até interessante, eu era um cara tão eficiente na Christian e chega lá eu tava perdido! Era um serviço totalmente diferente da Vale do Rio Doce pra Christian Hansen. Então ninguém  ensinava nada. Me botaram na mesa lá um monte de carimbo e eu sem saber como é que funcionava aquilo, como é que era o esquema da Vale. Aí o chefe começou a dar “esporro”, um chefe muito carrancudo esse Júlio Ferrosa, inclusive muito meu amigo. Aí, pá, pá. Aí eu cheguei um dia lá aborrecido e falei: “ó”, já fui com a carteira no bolso, aquela época emprego, você saía aqui entrava ali na frente, não tinha problema. Eu não tinha responsabilidade nenhuma, assim em termos, não tinha família. Aí botei a carteira no bolso, muito aborrecido, ninguém falava comigo, do setor ninguém falava não, aí antes dele falar comigo, eu cheguei tarde já pra dar motivo dele falar e já fui direto pra cantina, tinha uma cantina, fui lá tomar um cafezinho. Mas quando ele me viu, que ele já veio pra me dar um “esporro” eu já peguei a carteira e aí: “Ó doutor, tá aqui a carteira e pode mandar dar baixa.” Aí ele: “Não, que isso!” Mudou de assunto. “Que é que está havendo?” Aí eu expliquei o que estava havendo. “O pessoal não está passando o serviço pra mim, ninguém está me explicando como é que é. Eu tô totalmente perdido.” “Como é?” “Eu estou totalmente perdido. Na Christian eu era o “bamba”, agora aqui eu tô totalmente perdido!” Aí ele chegou lá, chamou o pessoal e deu um “esporro”, ele já gostava de dar “esporro”. Aí pronto, os caras passaram a ser meus amigos, e somos amigos até hoje. Um inclusive foi padrinho de casamento meu. Esse rapaz, ele era teletipista e ninguém sabia mexer no telex e eu aprendi rapidinho. E aí ficou eu e ele como teletipista. Eu além de trabalhar na parte de escritório ainda mexia com telex. Nessa época o telex era o setor, tipo, mais confidencial, mais importante da empresa, por que tudo vinha através de telex. Tanto é que tinha uma cabine, era reservado. Não tinha acesso, ninguém podia ver o que chegava. A mensagem chegava, entregava logo pra chefia. Tinha um buraquinho e a gente passava logo pra eles, ninguém podia ver.

 

P/2 - Era sigiloso?

 

R - O telex vinha muito assuntos confidenciais. E eu aprendi o telex sem fazer curso, sem nada! E já dei férias pra esse rapaz. “Puxa vida Bachir, que bom, agora eu vou poder sair de férias tranquilo!”

 

P/2 - Como operava o telex?

 

R - O telex era uma máquina tipo o telefone. Você disca, aí dá o sinal, você aperta, grava a fita primeiro, você grava a mensagem, aquela fita vai picotando, tá tudo gravado, aí cê bota no ponto de partida. Aí chama como se fosse um telefone. Disca e a máquina dá o sinal lá se tiver livre. Se ela tá ocupada, ela dá o sinal de ocupado lá. Igual ao telefone. Aí dá livre ela acende. Aí você dá um sinal que vai mandar a mensagem e manda. Aí dá o recebimento, tchum!

 

P/2 - Tipo um fax hoje?

 

R - Tipo um fax só que mais rápido, muito mais rápido. E a mensagem saindo lá!

 

P/2 - E o senhor que digitava a mensagem?

 

R - Eu digitava, picotava. Você faz primeiro a picotagem. Às vezes a mensagem grande, tipo uma carta. Pá, pá, saía a fita.

 

P/2 - O senhor sabia de tudo ali na Vale!

 

R - Às vezes quando era mensagem pequena nem picotava, já mandava direto! Discava, acendia lá, a máquina tava livre, aí cê dava o sinal de mandar a mensagem, aí tchum! Mandava já no dedo, sem gravar sem nada.

P/2 - Então todas as decisões importantes passavam de alguma maneira pelas sua mãos?

 

R - Tudo passava pela mão do teletipista. Inclusive cê tinha uma cabine lá. Quando eu dei férias a ele, aí botaram uma outra pessoa no meu lugar e eu fiquei só no telex. Aí fui ser teletipista mesmo! Mas era bom, a gente aprendia muito. A gente conversava com o pessoal de toda a Vale do Rio Doce. Batia papo, era muito bacana.

 

P/2 - Seu Bachir, o senhor sai da Vale quando?

 

R - Eu saí em 1995. Eu entrei na Vale em 1967. Através da CCI foi incorporado esse tempo todinho. Saí em 1995. Mas já tava no Tubarão desde 1966, final de 1995. Fui admitido em janeiro de 1996, de 1966! Pela Christian.

 

P/1 - O senhor saiu aposentado?

 

R - Eu saí aposentado.

 

P/1 - E depois o senhor foi fazer o quê?

 

R - Eu depois fiquei uns tempos parado. Depois me convidaram pra formar uma parte numa cooperativa de trabalho. Aí eu fui nomeado como diretor administrativo financeiro dessa cooperativa. Com um pessoal ligado ao grupo CVRD, aqui da Vale de Tubarão, CST, tinha algumas pessoas da CST. Depois, agora tô parado.

 

P/1 - Não tá mais nesses grupos?

 

R - Não.

 

P/1 - Mas eles continuam?

 

R - Não, está encerrado. Tão em processo de liquidação.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Houve uma atuação muito severa do Ministério do Trabalho, ela atuou firme, condenando a atitude, não aceitando o tipo de serviço por ser multidisciplinar. Ela entende que cooperativa deve atuar num ramo só. Cooperativa de enfermeiro, cooperativa de transporte, única.

 

P/ 1 - Qual era a finalidade dessa cooperativa?

 

R - Essa cooperativa não tinha fins lucrativos, era afim de agregar pessoas experientes e dividir os lucros entre os associados, nos contratos em que houvessem lucro.

 

P/1 - De trabalho?

 

R - Contrato de trabalho. Pessoas trabalhavam como autônomo, agora devidamente registrados no INSS, nas prefeituras onde tava lotado, totalmente regularizado, a empresa tinha o cgc, hoje cnpj, tinha ______ na receita federal, tinha alvará de funcionamento, totalmente legalizada, totalmente dentro dos conformes. Tudo legal. Mas só que o ministério do trabalho entendeu de outra forma.

 

P/1 - Quer dizer, objetivava estender a vida útil de vocês, de todo mundo?

 

R - Estender a vida útil, não deixar tão ociosa e proporcionar trabalho.

 

P/1 - E os salários eram divididos?

 

R - Não, a pessoa tinha a sua remuneração fixa. Agora nos contratos em que havia lucro, esse lucro era dividido.

 

P/1 - Mas não era mão de obra contratada?

 

R - Não, esse aí não. Esse aí era cooperativa de trabalho, agora, depois de aposentado.

 

P/1 - Pois é, mas quem vai trabalhar vai ganhar um salário?

 

R - Vai ganhar um salário fixo, como autônomo.

 

P/1 - Que vem pra cooperativa?

 

R - Não, é dele. A cooperativa presta um serviço. De determinado valor, tal. Mas na planilha constava o salário que essa pessoa ia ganhar. Já tudo embutido ali, entendeu? 

 

P/2 - Seu Bachir, e o que representou pro senhor trabalhar na Vale durante todo esse tempo?

 

R - A Vale do Rio Doce pra mim representou tudo, tanto é que eu abdiquei dos estudos, por que tava muito pesado, realmente não dava pra conciliar, não vou dizer... eu tentei vestibular, mas só que era incompatível eu prestar um exame - inclusive no primeiro vestibular que eu prestei pra odontologia, eu já tava na Vale do Rio Doce, um professor de biologia meu era funcionário da Vale, doutor Marcelo Morgado Horta, era aposentado da Vale. Então eu fiz vestibular pra odontologia, na época não era múltipla escolha, era teste escrito. E eu identifiquei minha prova de português e de inglês e fui eliminado nas duas matérias. Era um ano que eu estava preparado e era fácil, tinha pouco concorrente, tanto é que estávamos lá pra saber o resultado, eu praticamente já sabia que estava eliminado com dois zeros. Eu identifiquei minha prova. Tinha uma senha. E toda dissertação minha eu ia embaixo, aí eu “levei ferro.” E aquilo ali me deixou muito triste, tá?

 

P/2 - O senhor não passou por causa disso?

 

R - Eu não passei, nas duas provas eu fui eliminado de português e matemática. Português e inglês! Eu fiz uma excelente prova, de química, física e essas não contavam pontos. Nessas eu tirei zero. Na época a gente tava lá esperando e tinha dois Jorge. Quando chamou Jorge eu ainda fiquei na expectativa, sabe que a esperança é a última que morre. Chamou Jorge, aí o outro!

 

P/2 - Aí o senhor resolveu não prestar mais?

 

R - Não, e hoje a minha filha está fazendo odonto e deve se formar no ano que vem. Ainda bem que ela fez o que o pai ia fazer. É que eu já tenho na família um primo e uma prima que são dentista já, e a minha filha quis...

 

P/1 - O senhor tem outros parentes que trabalham na Vale ainda?

 

R - Não. Eu tenho um irmão que aposentou na Vale, lá em Nova Era. Trabalhou na Vale e está aposentado. Irmão mais novo, abaixo de mim.

 

P/2 - E quais são sua atividades hoje?

 

R -  Eu costumo dizer pros outros que eu hoje sou comerciante. Tô mexendo com “ar marinho”. Tem ar marinho na praia de Camburi, lá na praia da Costa, tem uma lá em Guarapari. “Pô, mas tá bem hein?” Pegando aquele ar marinho bicho, tem que estar bem! (risos). Tem lá em Camburi, em Jacareí, que minha mãe mora em Jacareí, amanhã eu tenho que ir pra lá. Ar marinho, tô mexendo com ar marinho. Vou pra praia, dou uma caminhada na praia, mas só que agora vou ter que fazer, inclusive dia 16 tem uma cirurgia de câncer de pele, diz a médica que é câncer de pele. Vou ter que fazer biópsia, tirar um pedaço aqui! Levar ao laboratório pra fazer, é muito sol que eu tomo. Até o médico falou: “ Tem que evitar sol.” Então vou botar um chapelão na cabeça ou então botar bastante protetor solar. Só que onde eu moro tem uma varanda, o sol da manhã, eu fico lendo jornal, aí depois eu venho da praia, dou uma caminhada, ai volto, começo a ler, aquele solzinho gostoso! Mas agora eu vou parar que o médico falou que vai ter que tirar um pedaço bem acentuado.

 

P/2 - Quais são as suas principais atividades de lazer?

 

R - Eu gosto muito de futebol, me distraio muito vendo partida de futebol, caminhar, entendeu? Jogar um dominó, uma bisca. Essas coisas de...

 

P/2 - O senhor gosta de ver futebol ou de jogar?

 

R - Eu parei, eu jogava bola, agora não dá mais não! Agora só vê. Eu sou presidente de um clube amador de Vitória, dá uma garotada, a gente vai lá sempre.

 

P/2 - Como é que chama o clube?

 

R - É João Neri. Inclusive nós fomos campeões da Copa Gazetinha. Tem uma copa muito famosa aqui, tipo aquele torneio lá…

 

R - ...nacional, disputamos com o próprio Vasco. E tamo aí, a gente vai levando a vida.

 

P/ 1- O senhor tem netos?

 

R - Não, não tenho não. Minha filhas ainda tão namorando e meu filho, tá trabalhando aqui no Tubarão, tá aqui no CPD, numa empresa. Tá estagiando na área de informática.

 

P/2 - O senhor é casado, né?

 

R - Sou casado, pai de dois filhos, um casal de filhos.

 

P/2 - Conta um pouquinho da sua esposa, como o senhor a conheceu?

 

R - A minha esposa inclusive é de uma religião diferente da minha. Ela é batista, inclusive eu casei na igreja batista pra satisfazer a vontade dela, eu sou católico, não deixei de ser católico, ela vai na igreja dela e eu vou na minha. agora os filhos são mais católicos. Acredito que eles vão ser católicos, eles vão mais à igreja católica.

 

P/2 - E o senhor a conheceu onde?

 

R - Eu conheci lá no bairro onde eu morava, Santo Antônio, inclusive tava vindo de uma outra paquera, de uma outra menina. Tinha deixado em casa. Aí tinha costume, o pessoal lá depois da missa, do culto religioso, passear na avenida até um determinado horário. Por exemplo, oito horas, até às nove horas, era costume antigamente. E a gente ia acompanhando, ia seguindo. Aquilo lá era muito normal, em tudo quanto é bairro existia isso. Principalmente aqui em Vitória, não tinha nada pra se fazer, nada, nada. Nem televisão tinha, né? Então era aquilo, a gente ia pra lá, esperava o pessoal sair da igreja pra ficar mexendo e tal. E num belo dia eu mexi com essa minha esposa, tinha deixado uma namorada num bairro, tinha ido pra casa. Aí cheguei lá fui tomar um refrigerante num bar. Não tinha copo de beber, tomei um refrigerante. Nisso passou ela mais duas irmãs e eu mexi e chegou lá na frente que ela olhou pra trás e riu. Ai eu falei “essa tá no papo” aquele lance. Ai não deu outra, quando voltou eu já fiz sinal, aí foi. Pronto, começou.

 

P/2 - Como é que mexia na época, como é que era essa paquera? Hoje é totalmente diferente.

 

R - A gente mexia, dava um alô, mexia: “Ô coisa linda!” aqueles negócios, piscada. Só que ela, geralmente as mulheres quando gostavam, olhavam! Só que ela lá na frente olhou. Pronto, aí não teve jeito. Aí depois tinha que terminar com a outra, a outrazinha lá, tinha outra no colégio. (risos). Vitória é muito pequeno, as coisas que você fazia em Vitória era descoberto, era uma ilhazinha muito estreita depois que expandiu muito com Camburi, não existia Camburi, não existia Jardim Datena. Não existia esse bairro aqui do lado. Não existia nada disso, tá? Se restringia tudo muito ali no centro da cidade e mais nada.

 

P/2 - E o que tinha de opção pros jovens aqui em Vitória?

 

R - Vitória? Cinema, inclusive eu era fanático por cinema. Não perdia um filme que passava em Vitória. Inclusive eu anotava numa agendinha o roteiro do filme, os protagonistas, tudo como era, fazia uma descrição completa do filme. Depois com o tempo a gente vai esquecendo, vai começando a mudar de hábito.

 

P/2 - O senhor tem até hoje essa cadernetinha?

 

R - Ah, não tenho não!

 

P/2 - E era um cinema só?

 

R - Em Vitória tinha muito cinema. Não tinha outra opção a não ser ir ao cinema.

 

P/ 2 - Quais eram os filmes preferidos?

 

R - Troca de gibi, naquela época levava gibi, do fantasma, fazia troca. Domingo à tarde era o dia da troca. A gente comprava, lia depois trocava por um que não tinha lido, já usado. Fazia aquele troca-troca.

 

P/2 - Era onde o encontro pra troca, na praça?

 

R - Não, não, na própria fila do cinema, cada um ia com um bolinho de coisa trocar, aquilo ali era um hobby danado. Aquilo ali era sagrado, todo domingo, troca de gibi.

 

P/2  - Quais os filmes que vocês preferiam assistir?

 

R - Ah, gostava de qualquer tipo de filme. Principalmente na época, gostava muito de filme nacional. Um dia desse estava vendo o programa da Hebe revivendo o Mazzaropi, parece que eu tava lá vendo. Passou uns trechos, poxa, eu não perdia um filme do Mazzaropi, adorava. Eu falo pro meu filho: “vocês hoje não tem o que a gente tinha na época.” Na nossa juventude, por exemplo, os Beatles, a Jovem Guarda. Nós curtíamos de uma maneira diferente, era mais amor! Hoje é essa gritaiada toda, você vai num show desse, pelo amor de Deus! Cê ia ver um filme dos Beatles, poxa, parecia que a gente tava com eles lá na tela! Era tão gostoso! Só o fato de você enfrentar aquela fila pra ver, era muito bom. Vitória mais era filme. Cinema, cinema, cinema.

 

P/1 - E esporte na praia?

 

R - Praia era muito difícil, a gente ia muito na praia do Canto, depois acabou o bonde começou a ficar difícil, a condução. Ônibus era muito pouco, vem uma lotaçãozinha, depois vem um ônibus, era muito difícil. O bonde não, você atravessava a ilha todinha de bonde. Saía da ponta lá de Santo Antônio e vinha até a praia do Suá, praia do Canto, rodava a cidade todinha de bonde. Era muito bom, aí depois foi crescendo, crescendo. Daí veio ônibus, acabaram com o bonde aí... E quase não falamos da Vale, falamos? 

 

P/2 - Falamos!

 

R - Tem muitos casos pitorescos da Vale.

 

P/1/2 - Ah, então conta!

 

R - Por exemplo, esse Hélio Ferraz, hoje é o prédio que dá nome a ele. É um engenheiro formidável. Morreu tragicamente em desastre de carro. Às duas e meia da manhã, sem movimento na cidade, choque com um carro de táxi. Pessoa maravilhosa, ele era super atencioso com as pessoas, humildes principalmente. Doutor Hélio chegava assim, nós tínhamos aqui um restaurante em Tubarão que fornecia comida pro pessoal da Vale, nesse restaurante que minha mulher trabalhou, “Panela de Barro”, esse restaurante tinha duas alas, ala A e ala B. A ala A era sofisticada, área de prato e a B era prato único, um prato só, não tinha variedade. Na ala A cê tinha três variedades de comida, classe A. E a classe B tinha lá o pf hoje. A gente ia na ala A, tinha condições. Rapaz, quando doutor  Hélio chegava no restaurante, aqueles garçons ficavam tudo ouriçado. “Doutor, uma mesa aqui!” Doutor Hélio entrava, olhava, tinha um lugarzinho, pessoal de capacete, peão mesmo! Ele: “com licença, posso sentar aqui?” Rapaz, os caras ficavam com um carão desse tamanho, os garçons. Ele chegava e procurava o lugar mais humilde e sentava! Coisa linda! Ele era formidável, não tinha frescura com ele. Gente finíssima, conheci muito Hélio Ferraz. Conversava com todo mundo, principalmente peão, dava muita atenção. 

 

P/2  - Tem algum outro caso que o senhor lembra da história da Vale, que está registrado?

 

R - Tem muitos casos. Nós tivemos aqui no Tubarão uma pessoa, folclórica até, um senhor, tem até filho dele na Vale atualmente, seu Ernesto Ferraz. O irmão dele era um graduado na Vale lá em Belo Horizonte, ele era contador geral da Vale, tinha um status de superintendente, esse irmão dele. E seu Ernesto veio trabalhar na empreiteira, CCI. Então teve uma ocasião em que houve uma fusão, a Vale foi obrigada a admitir um pessoal da CCI, acabar com mão de obra contratada e admitir um pessoal da CCI. Nessa altura eu já estava na Vale há muito tempo, só que esse pessoal alimentava o sonho de trabalhar na Vale, todo mundo que trabalhava na CCI, o sonho era trabalhar na Vale. Mas só que naquela época a Vale tinha um limite de idade pra admissão. O seu Ernesto e mais uma turma de uma meia dúzia mais ou menos, na idade acima de 49 anos, a Vale não admitia. Então ele por ser um ex-combatente, embora a gente fazia muita brincadeira com ele, ex-combatente por que nunca saiu de Vitória, figura super folclórica, ele andava fazendo versos pra telefonista, o setor que tinha mulher ele ia lá e fazia versos, poesia e daí começou a botar na cabeça que ele era poeta, até que ele editou um livro com umas poesias, mas ele era entusiasmado. E seu Ernesto ficava rondando, perturbando e ninguém aguentava, que ele não deixava ninguém trabalhar. Ele ia na secretaria, mandava tirar um xerox daqui, ele era um cara que pela idade todo mundo tinha respeito à ele, que também já estava com mais de 60 anos, cabelo branquinho, né? Aquele cara sofrido! E seu Ernesto tinha aquele brasão de ex-combatente, embora não tenha ido, ele tinha realmente ele era ex-combatente, desfilava em 7 de setembro. Ele não saiu, ficou à disposição do exército mais nunca saiu de Vitória. Então a Vale não admitia esse pessoal com a idade avançada. Então o quê que ele fez? Uma carta, na época o presidente se não me engano era o Costa e Silva, pedindo admissão dele e dos demais, por estarem trabalhando a mais de dez anos na Vale, ter dado o suor, ter dado a alma pra Vale, fez a carta e mandou. Sabe que o Costa e Silva mandou uma carta pra Vale, mandou admitir imediatamente todos eles! Todos eles iam pra rua!

 

P/1 - Todos eram ex-combatentes?

 

R - Não, só ele que era o ex-combatente. Aí pronto, aí pronto. Quando ele foi admitido aí que danou a fazer verso. Ele não deixava ninguém sossegado, mas não trabalhava. Aí um determinado dia o nosso chefe, o chefe do Grupo Executivo Novo Porto, doutor José Jaques Coelho chamou o engenheiro eletricista, doutor João Aparecido Fratin, que era chefe da elétrica, que vinha a ser chefe desse seu Ernesto também, do escritório de campo, fiscalização de campo. Aí ele chamou o Fratini lá. Falou: “Fratini, a gente tá precisando dar um jeito nesse seu Ernesto, ele tá perturbando, fica lá na secretaria tirando xerox, usando a margarida pra datilografar poesia, não deixa ninguém sossegado, vamos dar um jeito nesse homem, dar um trabalho pra esse homem, pô.” Esse Fratini é paulista. “Ih, é parada doutor, como é que nós vamos fazer?” Aí Fratini falou: “Pô Jaques, tenho uma ideia rapaz!” “Quê que é?” “Cê lembra aqueles desenhos que nós temos da usina 1? Pô vamos mandar o Ernesto catalogar aqueles desenhos, empilhar direitinho, numerar, fazer uma pilhazinha bonita.” Aí o doutor Jaques: “Pô, rapaz, sabe que você deu uma boa ideia? Inclusive a gente pode falar com ele que futuramente vai servir pra ampliação de qualquer usina e tal, como trabalho de vulto. Bachir liga pro seu Ernesto fala pra ele dar um pulinho aqui.” Peguei o telefone e “Seu Ernesto, o doutor Jaques tá pedindo pro senhor dar um pulinho aqui na sala dele.” “Perfeitamente, já estou indo!” Lá estou eu, doutor Jaques e doutor Fratini esperando o homem chegar. Aí chega o seu Ernesto, tirou o capacete, ele era todo empinadinho, ex-combatente. Aí ele entrou: “Sim senhores, em que posso ser-lhes útil? Estou à disposição dos senhores.” “Senta aí seu Ernesto, faça o favor.” Aí o doutor Jaques, chefe do grupo falou: “Seu Ernesto, tava conversando aqui com o Fratini e ele me deu uma boa ideia rapaz! Nós estamos com um problema, nós precisamos botar em ordem, organizar aqueles desenhos da primeira usina, tem muito desenho lá na sala. É justamente isso Ernesto, eu tô querendo ver se dá pra você organizar tudo pra nós, que aquilo ali futuramente vai ser muito útil para poder, amanhã ou depois fazer uma ampliação, uma reforma nas usinas e vai depender dessa usina 1. Então a gente queria que você catalogasse bonitinho, botasse numerado, ordenado, direitinho.” Seu Ernesto olhou, olhou. “Perfeitamente doutor, soldado num batalhão quer serviço e eu tô aqui pra servi-lo, eu tô à disposição do senhor. Eu faço esse serviço sim, mas eu vou precisar de três auxiliares!” (risos). Doutor Jaques coçou a cabeça, olhou pro Fratini. “Tá Ernesto, faz o seguinte, você tá dispensado, vai embora, depois a gente conversa, volto a falar contigo.” Aí começou a rir. “Olha, não tem jeito, esse homem não tem jeito, tem que largar pra lá!” Três auxiliares, ele ia pegar, botar os caras pra fazer e ele ia continuar na mesma coisa.

 

P/2 - Seu Bachir, só confirmando, essa pessoa que conversou com ele é o doutor Jackson?

 

R - Jaques Coelho. José Jaques Coelho. Um dos chefes do Grupo Executivo Novo Porto. Ele hoje tem uma empresa de consultoria aqui em Vitória com outros funcionários da Vale. Nós tivemos aqui na realidade três chefes do grupo executivo, da criação, construção de Tubarão. José Clóvis Ditzel, que depois foi pra Bélgica, depois veio José Jaques Coelho e José Krauser Martins. Todos José. Os três José. Três jota!

 

P/2 - Então seu Bachir a gente tá quase caminhando pro final...

 

P/1 - Tem alguma coisa que o senhor lembra que queira ainda acrescentar? Alguma história que o senhor quer contar ainda?

 

R - Tem, eu tenho uma interessante. Quando funcionava aqui o escritório de campo, era muita movimentação de engenheiro, de pessoas no almoxarifado pegando material e tinha um documento próprio pra retirada de material, era o BG 51 que eles chamam na Vale. Chegou um belo dia, chegou lá um senhor com o BG, entregou no balcão, o cara olhou. “Queim,queim,queim, até porco nós temos aqui na obra!” E Era o próprio, doutor Leitão. Luis Fernando de Melo Leitão, ele vinha do Rio. Ele foi pegar o material, naquela época, engenheiro atuava muito em obra, não era engenheiro de escritório, de sala não. Ele era o chefe e botou, autorizado por Leitão, bem grande. Aí “queim, queim, queim, até porco nós temos na obra agora!” Aí saiu pra pegar o material. Aí diz que vai o colega de serviço atrás dele: “Rapaz, você entrou na maior fria, esse cara que tá aí é que é o doutor Leitão. Falou: “não brinca não, atende lá o homem que eu estou na rua!”

 

P/1 - Ele foi posto fora?

 

R - Foi nada, levou na esportiva. Doutor Leitão. Gente boa!

 

P/1 - Então a gente tá encerrando agora a entrevista, tem mais alguma coisa?

 

R - Teria muitos casos, coisa corriqueira, coisinha de passagem.

 

P/2 - E seu Bachir, tem algumas perguntas que a gente faz pra todos os entrevistados.

 

R - Pode fazer, com certeza!

 

P/2 - Fazendo uma avaliação da sua vida, se o senhor tivesse que mudar alguma coisa, o que o senhor mudaria?

 

R - Eu voltaria pra Vale do Rio Doce. Continuaria tudo de novo. A Vale foi meu ganha pão, foi o que me proporcionou tudo que eu tenho hoje. Como eu disse a camisa da Vale era um avalista. Só a camisa já assinava pela gente. Já nos abonava como bom credor. A Vale era muito creditada no mercado.

 

P/2 - E quais são os seus sonhos?

 

R - Os meus sonhos? Ganhar na loteria e viajar um pouco. Meu sonho agora é esperar meus filhos se formar, casar e tocar a vida, esperar. Paciência, né?

 

P/1 - E se o senhor pudesse mudar alguma coisa em sua vida não mudaria nada?

 

R - Não mudaria não, ficaria na Vale. Voltaria pra Vale, até estou em disponibilidade, se quiser me pegar, tô aí. (risos)

 

P/2 - O que o senhor achou de ter participado do projeto Vale memória e de ter dado o depoimento?

 

R - Gostei, achei muito útil, inclusive estava sentindo até falta, que há dois anos eu tinha participado aí nunca mais tocaram no assunto! Será que não gostaram do meu depoimento? Não sei, foi tão rápido, às pressas.

 

P/2 - Aquela vez?

 

R - Eu contei alguns casos, até outros casos, tipo pitorescos, coisas assim do dia e dia nosso. As meninas riram muito, gostaram, mas eu senti que elas estavam com muita pressa, não foi nem 10 minutos, foi rapidinho. Aí saímos, fomos na sala de memória, elas tinham hora marcada de vôo! Coincidência foi quando eu liguei pra esse amigo meu que trabalhou no setor de comunicação. “Alcir, nunca mais aquele projeto do Museu da Pessoa, nunca mais voltaram. Parou.” “Vou perguntar à Bernardete” depois no dia seguinte me ligaram, a Bia de São Paulo. Coincidência danada, parece até que veio um “transmimento de pensamento.”

 

P/1 - Então muito obrigada pela entrevista.

 

P/2 - A gente queria agradecer, foi ótimo o seu depoimento!

 

R - Eu me coloco à disposição pra qualquer outra informação que for necessária, se quiser minha presença a qualquer hora, estou disponível. Estou em casa, você tem meu telefone, é só ligar que eu virei com o máximo prazer.

 

P/1/2 - Muito obrigada seu Bachir!

 














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