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História

Família são-paulina

História de: Domingos Antonio D´Angelo Jr.
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2013

Sinopse

Ao contar sua história de vida ao Museu da Pessoa, Domingos D`Angelo Jr. recorda as experiências profissionais do pai, primeiramente como jornalista e posteriormente como advogado. Fala como escolheu o time de coração: o São Paulo Futebol Clube, influenciado por um tio. Recorda os cinemas que existiam no bairro do Jabaquara e como conheceu sua esposa Vera, em Jundiaí, quando servia o Exército. Relembra a Copa do Mundo de Futebol de 1970, quando o Brasil sagrou-se tri-campeão. Por fim, relata sua experiência como conselheiro do SPFC e do grupo que ajudou a fundar sobre Literatura e Memória do Futebol, cujas reuniões são no Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu. 

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História completa

Eu nasci no dia 6 de maio de 1938, em São Paulo, capital. Meu pai se chamava Domingos Antonio D’Ângelo Neto, ele nasceu no dia 28 de outubro de 1905 em São Paulo. A minha mãe chamava Alice Campana D’Ângelo, nasceu no dia 17 de abril de 1905 em Jaú, no interior do Estado de São Paulo. O meu pai foi jornalista, depois se tornou advogado, era uma pessoa que tinha uma fluência verbal grande, uma facilidade para escrever muito grande, escreveu alguns livros ligados mais à área de religião, na vida dele. Era uma pessoa com origem italiana bem alegre, mas bem firme no tratamento com os filhos. E a minha mãe era prendas domésticas. Eu sou o caçula. Na verdade nós éramos quatro irmãos, dois já faleceram.

 A primeira parte da vida dele ele trabalhou em jornal e eu sei que ele foi um dos fundadores do jornal O Esporte. E esse mesmo jornal, o Esporte, depois criou um jornal mais sensacionalista chamado A Hora, mas meu pai já tinha saído. Ele trabalhou num jornal chamado A Noite, que era um jornal de propriedade federal. Depois ele deixou o jornalismo e passou a ser só advogado mesmo, teve um escritório de advocacia razoavelmente grande. Na minha adolescência eu trabalhei nesse escritório de advocacia, fui lá office-boy, recepcionista, até que deixei de trabalhar lá.

Meu pai foi diretor do Palestra Itália, mas por volta de 1939, um ano após eu ter nascido, ele deixou o futebol, não gostava, não queria mais saber do meio. Eu acho que a televisão apareceu por volta de 1950. E eu me lembro da gente ouvir a Copa do Mundo que o Brasil perdeu, estava todo mundo bravo, menos meu pai, que achava que isso era a coisa mais natural do mundo, mas o resto do povo estava tudo bravo lá. A minha casa era uma casa onde eu vivo até hoje, porque acabei ficando com essa casa. Quando a gente mudou para lá, que eu calculo que seja por volta de 1945, 46, a casa não tinha muro, era cerca de arame farpado, um jardim na frente e a rua era de barro, nessa rua eu joguei futebol muito tempo. É uma casa boa que eu moro até hoje no Jabaquara, onde a gente passou por tudo, desde a época de pegar um ônibus para descer na Praça da Sé e depois, com a construção do metrô, que as avenidas foram todas interrompidas.  Eu me lembro de andar de bicicleta e jogar futebol. No bairro, desde essa época sempre teve um clube que existe até hoje, se bem que hoje ele só tem quadras, mas na época tinha um campo de futebol, hoje tem um conjunto habitacional e eu jogava muito futebol nesse campo, quer dizer, jogava futebol no colégio também. Eu jogava de zagueiro.

A única coisa que tem na minha cabeça é que meu tio João me levava no Pacaembu para ver os jogos do São Paulo, depois o meu irmão passou a me levar e depois eu, quando mais adolescente naquela época, você ia para o estádio sozinho, sentava no meio das torcidas misturadas, sem nenhuma dificuldade. E eu fui ficando são-paulino, em determinado momento fui sócio do clube, na verdade eu sou sócio do São Paulo desde 1954. Hoje eu sou Sócio Olímpico do São Paulo, não por compra de título, mas por compra da cadeira cativa. Eu me lembro de algumas coisas que ficaram na minha memória, por exemplo, quando o meu tio me levou no Pacaembu, depois, posteriormente, quando adolescente, mas já em 1957, eu me lembro da estréia do Zizinho no São Paulo, que eu fui assistir sozinho no Pacaembu. Esses dois jogos que ficaram mais, o restante não ficou. Na verdade eu não sou um cara muito bom de memória, não.

Eu acho que entrei na escola com sete anos. Como eu nasci em 38, deve ter sido em 1945. Era numa escola bem simples, no Jabaquara, na Cidade Vargas. Depois, em 47, o meu pai me colocou num outro colégio que chama Grupo Escolar Marechal Floriano Peixoto.  Me formei no primário lá e no primeiro ano ginasial eu fui para o Ginásio Jabaquara, que não existe mais. No quarto ano meu pai entendeu que eu tinha que ter uma situação, nível de estudo melhor, me pôs no Mackenzie. E eu sofri, passei e fiz o antigo Científico, os três anos no Mackenzie.

Eu ia no Cine Estrela da Saúde, que ficava ali no bairro, Cine Fênix, que hoje é um Bradesco, Cine Cruzeiro, que hoje é um Pão de Açúcar, era nesses cinemas, no domingo à tarde era esse programa. No Cine Santa Helena tinha o prédio Santa Helena, onde foi o primeiro escritório do meu pai, que tinha uma pequena sala e eu estudava de manhã e já começava de tarde ir tomar conta quando meu pai saía, ficava anotando os recados de telefone, essas coisas. Eu falando em 1947, tinha uns dez anos, nove anos. Eu sei que eu me lembro de ir de tarde lá. E uma coisa marcante, que eu me lembro também, é que um dia que eu estava à tarde, o meu irmão mais velho chegou com uma bola e uma camisa do São Paulo e eu me lembro de vestir no escritório a camisa do São Paulo, ficar vestido com a camisa do São Paulo.

Nessa época, em 58, eu estava fazendo CPOR e o jogo foi num domingo. E eu fui ao CPOR, que naquela época não tinha essa história que a cidade parava não, eu fui de ônibus. E na volta eu me lembro que eu era o único no ônibus que tinha o radinho de pilha e eu escutava o jogo e o Brasil estava ganhando. Quando eu cheguei no Jabaquara estava uma festança.  O jogo foi contra a Suécia, 1958. Em 62 já tem uma diferença, em 62 eu me lembro que nessa época a gente morou um ano na Brigadeiro. Então neste ano o apartamento era muito perto da sede onde era a Federação Paulista de Futebol. Me lembro muito bem de ver passeatas na rua, de noite.

Sem dúvida a Copa de 1970 me marcou. Porque já tinha televisão, então eu assisti na televisão, com amigos. Eu me lembro da gente reunir, eu tenho três amigos, o Alfredo, Elcio e Ataíde, então a gente ia assistir o jogo ou na casa do Elcio ou na casa do Ataíde, ou na casa do Alfredo. Tiro o Pelé fora como ídolo, pelo fato dele ter sido o maior jogador, mas eu não tenho jogador, eu tenho seleções. Por exemplo, a seleção de 58, depois de 62, que era praticamente a mesma, e a de 70, essas três seleções, e não tem um ídolo isolado, você tem Gerson, tem Rivelino, tem Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto, era um time como um todo.

Quando eu me formei no Mackenzie começou uma vida meio atrapalhada, porque eu pretendia fazer engenharia. Fiz vestibular, não passei para Engenharia do Mackenzie. E eu fui trabalhar mesmo no escritório do meu pai, era período integral. Era tipo, assim, um gerente administrativo. Eu que cuidava da parte de finanças com os empregados. Em 63 eu fui para Lacta. Tinha uma vaga lá, auxiliar de pessoal, conhecimento de legislação trabalhista. Comecei a minha carreira na Lacta, em 63 e só fui fazer faculdade cinco anos depois, em 68. Fiz teste para FMU em Administração de Empresas e entrei, porque eu percebi que numa empresa você não tendo diploma você não ia adiante. Quando eu saí da Lacta eu já era Assistente da Gerência. Eu trabalhei cinco anos na Lacta, 63 a 68. Quando eu saí da Lacta eu fui para Comasp e eu fui ser Chefe de Departamento da Comasp. Eu trabalhei dez anos, 68 até 79.

Fui pra Jundiaí fazer estágio. Eu conheci a Vera em Jundiaí, terminou o estágio, eu vim embora para São Paulo, mas já namorando com ela. E eu comprei um ônibus da Cometa, porque ia e voltava de Jundiaí toda hora.  Eu casei em 65. O casamento foi gozadíssimo, porque meu pai gostava de festa, era com ele mesmo, então teve duas festas, uma festa em São Paulo, foi o casamento no civil, e depois teve uma festa em Jundiaí, que foi o casamento no religioso.  Um ano depois nasceu o Marcelo, em 66. Nesse ano ela estava no último ano da faculdade, eu esqueci de falar que foi PUC Campinas que ela fez. Ela se formou em história. A família toda torce para o São Paulo Futebol Clube, os três foram bem orientados, conscientizados, que não poderiam torcer para outro time. Na verdade, dos três, dois foram bom jogadores. O único que não é lá essas coisas é o Renato.

Hoje o São Paulo vive uma situação política e eu estou à vontade, porque hoje eu faço parte da situação. Mas, na verdade, o Juvenal Juvêncio é um homem de uma competência, o pessoal critica porque ele tem aquele jeito todo folclórico dele, mas ele é um cara muito esperto, muito inteligente, muito político, e ele conseguiu uma maioria no São Paulo que eu acho que não foi benéfica para o clube.  São 240 conselheiros, 160 são vitalícios e 80 eleitos, eu estou entre os eleitos, eu não sou vitalício, apesar de ter 50 anos de clube. Há uma assembleia geral do clube que elege esses 80 conselheiros. Esses 80 se somam aos outros 160 e elegem o presidente.  O mandato do presidente é de três, o do conselheiro é de seis. A cada dois meses tem reunião. Dentro do futebol, dentro do São Paulo existe o que nós chamamos de partidos políticos. Não sei direito contar para você, acho que são cinco. E eu faço parte de um partido político que chama Vanguarda Tricolor. É um grupo de conselheiros vitalícios, conselheiros eleitos e sócios que se unem para fazer um movimento político dentro do clube. Tem toda uma composição, não foge muito à situação de governo estadual, quando o presidente assume cada partido fica com uma diretoria, faz uma composição, é mais ou menos assim que funciona a coisa.

Participo também do Conselho Regional de Administração, junto aos administradores de empresas, eles são grupos de excelência, então, tem um grupo chamado Grupo de Administração Esportiva, que eu frequento esse grupo, que é um grupo que busca aperfeiçoar a administração profissional dos clubes, tem feito algumas palestras, alguns simpósios.  Fora isso eu faço parte de um grupo chamado Grupo Literatura e Memória do Futebol, Memofut, que é um grupo que tem como objetivo promover as atividades culturais do futebol, tipo literatura, cinema, teatro e preservar, resgatar a memória do futebol. Esse grupo é de 2007, vai para seis anos, sete.

Na verdade, eu que idealizei e criei esse grupo porque como eu trabalho em Recursos Humanos, é muito comum os grupos informais onde tem intercâmbio de informações. Comecei a ter a ideia, falei com um, dois amigos que eu conhecia, o Celso Unzelte, o Afif, Alexandre Andolfo, e eu fiquei um ou dois anos mastigando essa ideia. Também tem uma livraria em Campinas chamada Livraria Pontes, que é uma livraria que tem um acervo de futebol muito grande, eu falei com o proprietário para ele mandar um aviso para quem quisesse fazer parte. Alugamos um salão num hotel aqui no Paraíso, compareceram 16 pessoas e criamos o grupo. Inicialmente, a minha ideia, quando eu inventei o grupo, era criar um grupo sobre literatura do futebol. Só que essas 16 pessoas, que tinham jornalistas, escritores, autores de livro e tal falaram: “Não, não é só sobre literatura, temos que falar sobre história do futebol, sobre a cultura do futebol”. Então, ficou Grupo Literatura e Memória do Futebol, Memofut, que fundamentalmente hoje tem uma preocupação muito maior de preservar a história, resgatar a história, mas que trata também um pouco de literatura do futebol. Este grupo se reúne uma vez por mês, sempre num sábado de manhã, no Museu do Futebol. A composição do grupo é uma composição, uma certa diversidade, porque tem desembargadores, advogados, engenheiros, professores, escritor, jornalista, pesquisadores, curiosos como eu e outros, são cerca de 50 pessoas com uma frequência média de 30 por reunião. E tem uma lista que é um grupo maior de 170 pessoas.  É um grupo informal, não tem personalidade jurídica, isso abandonou.  Qualquer pessoa pode entrar, é só pedir para fazer parte, há um processo de inscrição, mas as reuniões do grupo são abertas.

Eu não gosto muito de ser chamado de colecionador, porque colecionador dá assim uma imagem de velharia, apesar de eu saber da minha idade, 75 anos. Tem o professor Alcides Scaglia, que é um homem ligado à área de Psicologia e Pedagogia do Futebol, escreveu vários livros sobre isso com o João Batista Freire, e uns dois, três anos atrás ele foi escrever alguma coisa e me chamou de bibliófilo, eu gostei, então eu sou bibliófilo. Na verdade é uma coleção de livros, tem uma biblioteca, deve ter hoje dois mil e 83 livros. Na última semana entraram uns 14 novos, porque só esse ano já foram publicados 166 livros, eu faço um levantamento, hoje a internet te permite tudo isso. Então eu tenho um levantamento que eu faço em conjunto com o bibliotecário, o Museu hoje tem uma biblioteca do futebol, foi inaugurada uma biblioteca que já está com mil livros.  A minha biblioteca tem uma classificação, têm livros de gestão esportiva, administração, de marketing esportivo, pouco. Tem muita biografia, isso é a maior parte, tem muita história de clube, então Corinthians e Flamengo é o que tem maior número. História de clube é duas prateleiras do tamanho de um bonde. História de campeonato, de Copa do Mundo, seleção brasileira. Ficção, romance tem pouco, mas tem uma coisa também. Então a biblioteca, apesar de eu ser são-paulino, tem história do Santos, do Palmeiras, do Corinthians, do Flamengo, Fluminense, Botafogo, de time do interior, não tem nenhum viés clubístico.

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