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História de: Florival Amado Barletta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2013

Sinopse

Em seu depoimento, Florival Amado Barletta nos conta do amor de sua família pelo Santos Futebol Clube, abordando a trajetória de seu pai, Murilo Amado Barletta, como dirigente do clube. Em seguida, detalha sua própria atuação no clube santista, descrevendo a estrutura diretiva da equipe. 

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História completa

P/1 – Boa tarde, senhor Barletta. Eu queria começar a entrevista pedindo que o senhor fizesse sua identificação, dissesse seu nome, data e local de nascimento.

 

R – Meu nome é Florival Amado Barletta, nasci em Santos, 15 de Outubro de 1936.

 

P/1 – E quem são os seus pais?

 

R – Sou filho de Florival Barletta, falecido, e Marília Amado Barletta.

 

P/1 – O senhor é filho único?

 

R – Tenho dois irmãos, Lucília Barletta Polaqui e Murilo Amado Barletta.

 

P/1 – O senhor podia falar um pouco da origem da sua família?

 

R – Perfeitamente. A minha família é de origem humilde. Eu sou Amado pela minha mãe, de avós portugueses, que tinham um comércio na Rua São Bento, no tradicional Bairro Chinês, ao lado da Igreja do Valongo e da estação, uma estação maravilhosa, perto do cais. E meu pai é Barletta de origem italiana, meus bisavós eram italianos. Meus avós, evidentemente, filhos de italianos e nascidos em Extrema, em Minas Gerais, e passaram grande parte da mocidade em Bragança Paulista, onde meu pai, durante um período muito longo, por lá permaneceu, vindo para Santos, onde começou a trabalhar no café, numa firma exportadora de café, junto com Constâncio Figueiredo – me falta o nome agora. Já, já eu darei a vocês – e, posteriormente, casou-se com minha mãe, que era filha de Manoel Amado, português. Portanto, minha origem é uma origem bem humilde. Minha família é simples, porém de raízes bem fincadas na cidade, e de tradição e de muita vivência, de muita doação, por Santos e pela cidade de Santos.

 

P/1 – E o seu pai, ele teve um papel muito importante na história do Santos. Então, essa primeira parte da entrevista a gente queria pedir que o senhor falasse um pouco sobre o seu pai. O que é que ele era, o que é que ele fez pelo Clube, que cargos que ele ocupou, como ele influiu aí na evolução do clube, como ele contribuiu pra isso.

 

R – Pois não. Meu pai realmente foi um homem muito dedicado, em quem eu me espelho e tenho muito orgulho de ser seu filho. Evidente que se nós tivéssemos feito essa entrevista ontem, era exatamente no dia do nascimento dele. Ele nasceu a dois de Fevereiro de 1912. E morreu em quatro de Junho de 1990. Ele trabalhou no comércio cafeeiro durante muitos anos e, por ser um homem atuante, foi político, sendo vereador por quatro gestões, candidato a vice-prefeito e deputado estadual, e exercendo atividade no comércio cafeeiro, onde por muitos anos foi diretor da firma Lima Nogueira S/A Comercial Exportadora, que foi uma das principais exportadoras de café do Brasil. Na sua vida clubística, que é realmente o que interessa nesse depoimento, ele, além de ser um participante ativo em toda a comunidade, ele no Santos Futebol Clube se identificou e deu muito de si. Desde a época de 36, 37... Quando ele casou-se com minha mãe em 1935, logo em seguida já começou a ser dirigente do Santos, trabalhar pelo Santos. Então, ele teve uma vida toda dedicada: na tesouraria do Santos, como dirigente em todos os setores, dirigente esportivo, chefiou várias delegações do clube a diversos países, culminando, evidentemente, com a vice-presidência e presidência do Conselho Deliberativo e vice-presidente e presidente em exercício na gestão Milton Teixeira. Era o vice-presidente de Milton Teixeira. Não foi presidente eleito, mas ocupou por um bom período a presidência, substituindo o presidente Milton Teixeira. Portanto, em todas as campanhas nas épocas áureas do café, o Santos se dirigia ao comércio cafeeiro para solicitar uma ajuda, tendo em vista que do comércio cafeeiro saíam recursos não só para aquisição de jogadores, pagamentos de bichos, como também para construção de arquibancadas e até da iluminação.

 

P/1 – Então, continuando após a nossa interrupção, o senhor estava contando a história do seu pai, a trajetória dele.

 

R – Exatamente. Inclusive me recordei que o nome da empresa que ele trabalhou era Ferreira da Silva. Uma firma do seu Oswaldo Ferreira, e que ele tinha como companheiro Constâncio Figueiredo, que hoje ainda vive e tem 93 ou 94 anos e ainda trabalha na Rua Quinze. Essa era uma das pessoas interessantíssimas, um indiano. Mas...

 

P/2 – O senhor estava falando sobre o relacionamento da praça cafeeira, e depois que do café se emprestava dinheiro...

 

R – Isso. Então, continuando, já disse que meu pai exerceu todos os cargos e inclusive já declinei até que culminou com a sua indicação para presidente do Conselho. Vice-presidente, presidente do Conselho, vice da diretoria e vice de Milton Teixeira, e ocupou interinamente a presidência do Santos por várias vezes na ausência do presidente Milton Teixeira. Evidente que recordar a trajetória do meu pai seria difícil, porque ele acompanhou o Santos durante 30 ou 40 anos, em todos os setores, todas as grandes conquistas esportivas e sociais, os carnavais que tinham sempre nas sedes antigas, até uma ajuda da família em termos de decoração. Quer dizer, nós temos pelo Santos um amor muito grande, uma dedicação imensa. E sempre tivemos, o Santos faz parte da nossa vida. É realmente um, vamos dizer, um filho que ocupa um lugar de destaque entre todos os outros filhos. Evidentemente com amores diferenciados, porém com amor bem grande.

 

P/1 – Bem, então pra gente entender um pouco mais do seu pai o senhor poderia descrever como era o temperamento dele?

 

R – O meu pai era um homem muito bondoso, um homem caridoso, um homem que trabalhava pra comunidade. Era um homem de personalidade forte, não se deixava abater pelos problemas, nunca levou nenhum problema para minha casa, problemas gravíssimos que ele atravessou na sua vida comercial. Atravessou problemas gravíssimos e em hipótese alguma deixava transparecer isso em casa. Deixava a família sempre tranqüila porque ele tinha um espírito muito forte. Ele resolveu estudar advocacia com 55 anos, prestou vestibular e se formou advogado com 60. Faleceu com 78 anos e exerceu advocacia, evidentemente que num ritmo não tão acelerado quanto um jovem, porque a capacidade de discernimento, de entendimento de leis e de estudo já pra um homem de 60 anos não é a mesma coisa que pra um jovem. Mas ele teve realmente uma participação muito interessante na parte advocatícia, em que ele exerceu o cargo de advogado por muito tempo. Aliás, o cargo, não, ele exerceu a advocacia por muito tempo e se saindo até muito bem pela idade.

 

P/1 – E isso é muito interessante, esse dado. O senhor participou, o senhor incentivou?

 

R – Ah, não há nem dúvida. Ele começou a estudar em Itapetininga, e um grupo de estudantes, ele o vovô da tropa, saíam de Santos num carro e costumeiramente se revezavam. Um dia era o carro de um, um dia era o carro de outro, e fizeram o curso todo em Itapetininga... Todo não, quase todo, porque no segundo ou terceiro ano meu pai conseguiu a transferência para Bragança Paulista, que era, inclusive, a terra onde ele viveu a mocidade, onde meus avós vieram de Extrema e ficaram em Bragança muito tempo. E, posteriormente, meu pai veio para Santos, onde ele se fixou e formou a sua família trazendo meus avós, principalmente os paternos, que naquela oportunidade tinham uma pensão na Praça dos Andradas, onde minha avó servia refeições para os grandes comerciantes de café da época. E meu avô materno, como eu disse, português, tinha uma loja de armas e munições, artigos de armas e munições, caça e pesca, na Rua São Bento, no famoso Bairro Chinês, que, naquela altura dos acontecimentos, a praia era um matagal só. Ninguém queria saber da praia. Então, o lugar chique da cidade era o Bairro Chinês e todas as festas, os cursos, eram efetuados na Praça Rui Barbosa, antiga Rua do Rosário, Largo do Rosário, hoje Praça Rui Barbosa, com o cinema Paramount. Então, a mocidade foi vivida pelo meu pai neste local, onde ele conheceu minha mãe, casou-se e teve os três filhos. Casamos na Igreja do Valongo, que é uma igreja tradicionalíssima, hoje santuário tombado pelo CONDEPHAAT, e está sendo reestruturada, restaurada, melhor dizendo, e é uma igreja maravilhosa, talvez uma das mais bonitas de Santos. E é onde todos nós casamos, batizamos e comunhão etc., etc. e crisma, enfim... Temos pela Igreja do Valongo um carinho excepcional dos padres franciscanos e hoje há um frei muito importante ocupando a chefia daquele santuário, frei Rosântemo, que tem até um estilo jovem como o padre que hoje arrebata... O padre Marcelo Rossi. O mesmo estilo, que ele já inclusive utilizava na modernidade da Igreja. Então, evidentemente que a vida do meu pai foi uma vida repleta de grandes atividades pela cidade, e, como eu disse a vocês, foi vereador por muito tempo e ocupou...

 

P/1 – De que partido que ele era?

 

R – PTB. Na época do Getúlio Vargas, naquela época de Benedito Neves Góes e outros petebistas famosos. Inclusive ele perdeu uma eleição pra vice-prefeito de Santos, quando o prefeito e o vice tinham votos independentes. Vocês poderiam votar somente a vice-prefeito. E naquela época houve uma coligação do PTB com o PSP. E o PSP, infelizmente... Eu era um dos chefes da campanha do meu pai, eu descobri na sede do PSP, na Praça dos Andradas, folhetos do candidato Sílvio Fernandes Lopes, que foi prefeito por duas vezes – aliás, brilhantíssimo – acredito até que ele não tenha participado diretamente deste incidente que eu detectei. Havia um candidato a vice, concorria contra meu pai, chamado Jaime Perez, era um radialista famoso, tinha um programa popular, e os partidos se coligavam e gastavam o dinheiro para os panfletos, para as faixas, para os comícios etc., etc. E eu localizei, então, folhetos, ou panfletos, Sílvio Fernandes Lopes/Jaime Perez, porque, para arrebatar mais votos para Sílvio Fernandes Lopes, o PSP quebrou aquele pacto que havia feito com o PTB e proporcionou essa atitude absolutamente antiética, que foi por mim detectada e na mesma hora dado um grito de alerta. Mas já estava acontecendo. Perdeu a eleição por muitos poucos votos, mas teve um papel preponderante na campanha de Sílvio Fernandes Lopes, ajudando-o a ser o prefeito que foi, por duas vezes reeleito, depois secretário de obras do governo Adhemar de Barros e um homem público de grande personalidade não só na cidade, não só em âmbito nacional como federal. Deputado federal por várias vezes, estadual, federal, secretário de obras de Adhemar de Barros e hoje presidente da Constran. Então, meu pai teve uma vida pontilhada de sucessos e insucessos na sua vida comercial. A firma que ele trabalhou teve duas concordatas, e esses terrenos que hoje uma parte deles pertence ao Santos, naquela época a firma Lima Nogueira adquiriu da Companhia União todos esses terrenos. Na entrada de Santos, ao lado do cemitério. É União de Transportes. E com o tempo, com a concordata, isso passou para a União. Depois, no governo de Paulo Barbosa, os terrenos foram doados à prefeitura, posteriormente ao Santos, depois uma fatia foi dada à Cooperativa dos Portuários. Depois, foi feito o IML, uma outra parte foi invadida por posseiros e tem, hoje, o Santos deve ter lá uns 40 mil metros ainda. E, naquela oportunidade, uma fatia desses terrenos – as metragens eu não me recordo bem, para não entrar em números –, uma fatia desses terrenos foi doada à prefeitura e a União, por sua vez, por interveniência do presidente Marcelo Teixeira, eles conseguiram para o Santos Futebol Clube os terrenos da Codesp, aqui onde é o atual CT. Mas na origem disso tudo tinha um Florival Barletta nesse caminho, porque meu pai era dono de 33% de todos esses terrenos que ocupam uma área extraordinariamente grande e que hoje o Santos tem uma fatia, os portuários têm uma fatia, o IML tem uma fatia, a prefeitura tem uma fatia, o Santos tem uma fatia ainda desse terreno imenso. Mas o terreno originalmente era todo do Lima Nogueira e, conseqüentemente, 33% era do meu pai. Então, ele foi dirigente de vários clubes da cidade, entidades, clubes, foi rotariano, foi da... Como se diz, esse pessoal que trabalha meio no anonimato, essa turma de... Ah, meu Deus... esse pessoal que um ajuda o outro?

 

P/1 – Maçom?

 

R – Os maçons. Maçonaria. Na maçonaria, ele ocupou um cargo de status junto com um tio meu, que foi o último grau da maçonaria. E ele ocupou cargos no Clube XV, que eu também tive a honra de presidir. Meu pai foi diretor muitos anos do Clube XV, do Conselho, foi do Conselho do Jabaquara, enfim, da Portuguesa... Seria realmente muito longo esse depoimento e talvez não atingisse o seu desiderato. Mas para falar do meu pai, de toda a sua vida, evidentemente que talvez a minha mãe até pudesse dar depoimentos mais precisos. Mas realmente foi um homem muito interessante, um homem que deu a Santos... Escolheu Santos como a sua cidade, porque você quando nasce não escolhe o lugar, o lugar que sua mãe estiver é o lugar em que você nasce. Mas depois, na hora que você está no uso das suas faculdades, você decide a cidade que você quer escolher, e evidentemente ele teve a sorte, Deus o ajudou e ajudou a todos nós de escolher Santos, que é a terra da caridade, da fraternidade, da liberdade. É uma cidade extraordinária e que ele amou profundamente, como nós da família também amamos. Eu não sei se isso atinge o seu objetivo, mas se você quiser fazer alguma pergunta a mais que eu vá me lembrando de algum dado...

 

P/1 – Então, olha, como o senhor falou que ele teve uma participação na conquista para o Santos, onde hoje é o terreno que hoje é o CT…

 

R – Não, eu não digo que ele tinha participação. A origem desse terreno teve uma origem Barletta. Posteriormente, este terreno foi perdido pela empresa Lima Nogueira numa concordata para a União. Não quer dizer com isso que ele teve alguma... Apenas ficou... Um pedaço dele ficou ali e ele está feliz porque ficou para o Santos uma grande fatia, porque ele perdeu 33% desse terreno que, sem dúvida nenhuma, se hoje o mantivesse, todos nós, a família inteira, estaria aposentada. Deu pra você entender, não? (risos) Seria a aposentadoria da família inteira. Era um terreno extraordinariamente grande e de um valor incomensurável.

 

P/1 – Mas dentre todos os cargos que ele teve, o senhor poderia colocar, assim, conquistas, benefícios que o Santos obteve...

 

R – Bom, veja bem, declinar nas épocas em que ele esteve como dirigente do Santos, realmente só consultando os arquivos e a minha memória não está... Ela está muito boa, mas eu não me lembro com absoluta tranqüilidade, então eu poderia falar alguma besteira. Mas garanto a você que chefiou muitas delegações do Santos vitoriosas, participou de todos os campeonatos, de todo esse período áureo do Santos ele teve uma participação ativa. Como dirigente e como grande colaborador de todas as diretorias. Ao meu pai não havia no Santos Futebol Clube... Historiar as conquistas do Santos ficaria muito fácil, você tem aqui um cabedal de notícias aqui que você poderia historiar. Mas tenha certeza absoluta que na campanha de aquisição de sócios, de benemerência, de campanha para feitura de arquibancada, iluminação, roupas de jogadores, sempre teve em Florival Barletta talvez o seu defensor mais intransigente e o baluarte dessas conquistas, com certeza absoluta. Foram inúmeras, mas eu prefiro me manter nessas que me parecem ser as de maior envergadura para o Santos.

 

P/1 – Tá. Então vamos agora ir um pouquinho para a vida do senhor, tá? Então, o senhor podia contar um pouquinho como era Santos na sua infância?

 

R – Olha, meu amigo, falar de Santos é a coisa mais fácil do mundo. Nós, santistas, somos bairristas por excelência e em hipótese alguma declinamos do orgulho e da honra de ser santista. Tivemos uma infância absolutamente saudável, uma infância esportista, uma infância que eu, já com 15 pra 16 anos – portanto 1952 –, eu já fui vice-campeão santista de voleibol, disputando a final contra o Atlético Santista e recebendo a medalha no Roof Belmar aqui, perto do Clube XV. Depois, tive a oportunidade de ser treinado no basquetebol por Fumanchu, que era um técnico famosíssimo, que viria a ser um dos maiores técnicos de basquete do Brasil das equipes inferiores. E joguei voleibol no Santos em 52 com Ciro Costa, que foi um homem importante na vida do Santos, já falecido, administrador do Santos por muitos anos, e com o Chiquinho Ferrari. Uma equipe com José Gonçalves, Pona, Rui Müller e Wallace. Enfim, uma rapaziada! Talvez tenha morrido somente um, os outros estão todos aí, graças a Deus. Então, a minha infância foi realmente uma infância muito agradável, e até os 16, 17 anos... Aliás, até os 15 para 16... Nesses 16, 17 anos já mudei pra São Paulo, onde fui cursar o Mackenzie. Mas vinha todo fim de semana. Fiz o Científico, me preparei para a Engenharia do Mackenzie, fiz o cursinho Anglo Latino por um ano, fui reprovado no exame de física oral, que naquele tempo você tinha que enfrentar aqueles homens de avental branco, sentados, você tremia todo na hora de fazer a prova. Hoje, a prova me parece que, se você tiver um conhecimento médio, você poderá, com sorte... Porque são perguntas, são questões onde tem as respostas “a”, “b”, “c”, ou “d”. Então, essas perguntas, uma pessoa de sorte, com pouco estudo, muitas vezes consegue. Não quer dizer que as pessoas não tenham que estar preparadas, mas era muito mais difícil na minha época. Então, a minha infância foi assim. Eu, logo em seguida, vim pra Santos... Quer dizer, vim pra Santos não. Morando em Santos disputei os campeonatos de praia pela equipe do Náutico, me tornando um dos atletas laureados pelo Náutico. Uma grande equipe de futebol de praia, onde eu joguei de 1954 até 1968, quando operei o joelho. Pelo Náutico todos os títulos foram conquistados.

 

P/1 – Em que posição que o senhor jogava?

 

R – Jogava, e razoavelmente bem, de quarto zagueiro. Beque central, quarto-zagueiro. Mas nós tivemos todos os títulos: Cidade de Santos, A Tribuna, Incentivo, primeiro e segundo, fomos vice-campeões paulistas, enfim... O Náutico teve uma trajetória brilhantíssima na praia. Fomos os primeiros campeões noturnos quando eu, capitão do time, junto com Norberto Moreira e o governador, se não me falha a memória, Carvalho Pinto, inauguramos a iluminação nas praias de Santos, com o prefeito ao lado. E disputamos o primeiro torneio, já nessa altura de veteranos, com 30 e poucos anos, e ganhamos invictos o torneio, com o Náutico mais uma vez brilhando. E o Náutico continua brilhando até hoje, embora minha geração tenha deixado muitas saudades. Então, a minha vida de esportes foi na praia, mais dedicada ao futebol... Aqui joguei no Santos, esqueci de falar, joguei infantil e juvenil antes de ir pra São Paulo.

 

P/1 – Juvenil no Santos?

 

R – É, cheguei a ser juvenil, mas depois, logo em seguida, tive que ir-me embora para São Paulo. Fui treinado pelo Lula e, no final da história, acabei me dedicando ao Mackenzie, onde disputei pelo Mackenzie duas vezes a Mack-Dante e a Mack-Rio. Mackenzie x Dante Alighieri e Mackenzie x Rio Branco, sendo que fomos campeões por duas vezes. As finais de futebol disputadas no Parque Antártica, no campo do Palmeiras. Eram competições maravilhosas, só suplantadas pela Mack-Med, que eram as competições entre os alunos da faculdade. E este Mack-Dante e Mack-Rio eram para os alunos do curso Científico e Preparatório ao curso Superior. Depois, em Santos, nós jogamos por 14 anos no Internacional, uma equipe famosíssima, onde ficamos invictos mais de dez ou doze anos no campeonato do minicampo, no Inter. E até hoje jogo o meu futebol no Master do Milionários Praia Clube, no Canal Zero, tendo disputado há alguns anos atrás, já numa idade bem avançada, torneios pelo Vasquinho, uma equipe extraordinária. Do IARI eu tenho grandes recordações, que é no terreno da Santa Casa. Joguei várias vezes no Cunha Moreira, joguei muitas vezes no Morro de São Bento, disputei dois campeonatos, joguei dois anos no Itararé Praia Clube, em São Vicente. Que hoje, infelizmente, o prefeito Márcio França na reurbanização não poupou o campo do Itararé e eu fico muito triste, embora o Itararé talvez tenha merecido, porque não cuidou daquele patrimônio como devia. E perdeu, hoje tem lá um parque, tem venda disso, daquilo, daquilo outro, e os campos de esporte vão se acabando cada vez mais, como acabou recentemente na Aparecida, onde será erguido um shopping muito grande. Três campos de futebol... Centro Comunitário, por sinal, mais uma vez lembrando meu pai. As coisas vão se aproximando: ele foi um dos que ajudou a construir todo o galpão para aulas e vestiários do Centro Comunitário no Bairro da Aparecida.

 

P/3 – É aí onde tem os campos de…

 

R – Tinha, todos os campos. No Trabulsi, onde jogava o Jabaquara... Mas esses campos do Centro Comunitário jogava o Ipiranga, Centro Comunitário e Castelo Branco. Eram três campos grandes. Hoje vai ser o Shopping do Armênio. Então isto... Meu pai foi o homem... Inclusive, nós participamos de uma solenidade onde eles homenagearam a minha mãe, inaugurando um retrato e uma sala com o nome dela no Centro Comunitário, que hoje não vai existir mais. Mais uma das passagens da vida do meu pai misturadas com a minha. Então, como dirigente do Santos, eu ocupei o cargo de segundo secretário e, depois, com o falecimento do primeiro secretário, primeiro secretário. Morreu o Costa Pinto.

 

P/1 – Isso foram as suas primeiras participações na vida política do Clube?

 

R – Na vida política, como segundo secretário. Porém, eu vivia muito o Santos e viajei com o Santos toda a sua época de ouro, para todos os lados. Não só o Santos como eu também vi quatro Copas do Mundo in loco, não é? Poderia até dizer cinco, mas uma eu vi um pedaço dela. Mas quatro eu vi intactas. Mas no Santos eu comecei como dirigente em... Diretor na parte executiva, né? Em 1965, onde eu fui segundo secretário. Em 66, primeiro secretário; segundo secretário em 65. Primeiro com o falecimento de Costa Pinto, em 66. Em 67 e 68 fui diretor geral de esportes do Santos, tendo a satisfação de presidir a primeira equipe de futebol mista, que eram os profissionais com contratos de gaveta. São os juniores, que já recebem do Clube, evidentemente estão todos contratados, uma excursão para disputar o torneio do Lago de Constance, promovido pelo governo alemão, onde o Santos sagrou-se terceiro colocado e ganhou o título do mais disciplinado... E eu exigia uniformes, etc., Fomos recepcionados com uma altivez, uma recepção extraordinária. Tudo já na “Era Pelé”.

 

P/1 – Senhor Barletta, chefiar uma delegação é um trabalho enorme, não é? Como é que é uma viagem assim?

 

R – A viagem é o seguinte. Primeiro eu tive a oportunidade e a sorte de viver a “Era Pelé” toda, intensamente. O Pelé é meu amigo particular, no nascimento dos meus filhos visitou minha senhora no hospital. A minha avó era palmeirense fanática e ele ia em minha casa na véspera, antevéspera dos jogos e brincava muito com ela dizendo: “Olha, vó Lavínia, domingo não tem jeito, vou fazer dois gols no Palmeiras.” E ela então xingava o Pelé de tudo o que era nome e ele saía rindo. E nós temos uma amizade muito grande... Então, chefiar uma delegação do Santos é uma honra pra qualquer pessoa que tenha realmente uma... Vamos dizer, seja como eu, no mesmo estilo meu. Ou seja, disciplinado, trazendo os relatórios e cuidando da parte organizacional e dos atletas. Eu levei uma equipe em que se destacaram vários jogadores que ocuparam lugar no cenário futebolístico do Santos e nacional.

 

P/1 – Você poderia citar algum exemplo?

 

R – Posso citar todos. Por exemplo, a minha equipe... Eu vou dar os jogadores que se destacaram nessa oportunidade: Hermes, Orlando Amarelo – que hoje infelizmente sofreu uma queda, está com problema de hemiplegia, mas está passando, creio que ele vá se recuperar... Da meia-cancha para a frente, eu tinha grandes craques: Léo, Nenê, Manoel Maria – que veio de Belém do Pará e foi pra Seleção Olímpica do Brasil, viajou comigo pra Alemanha –, Luís Werneck, Douglas – excelente jogador –, Picolé, Gaspar – ponta-esquerda –, Fito, Osni, Almiro... Jogadores, todos eles, que foram titulares do Santos durante muito tempo. E tiveram... O Orlando Amarelo foi da Seleção Brasileira, foi pra Itália, não é? O Léo jogou em equipes famosas, jogou no Bahia, excelente jogador. O Nenê, que era o nosso técnico até há pouco tempo, foi um jogador extraordinariamente bom, terminou a sua carreira jogando no México. Esteve do lado do Santos durante muitos anos, formava uma dupla impecável, jogou com Pelé, enfim... Essa equipe toda formada pelo Ernesto Marques, que era o nosso treinador, que viajou para o torneio no Lago de Constance em 68. Nesse mesmo ano, eu chefiei a delegação profissional do Santos para a disputa do Torneo Octogonal de Verano, em Santiago do Chile, onde se reuniam equipes do mais alto gabarito do futebol mundial, torneio hoje impossível de se realizar pelos altos custos das cotas que as equipes cobrariam nesta oportunidade. Então, o Estrela Vermelha, Nacional, equipes argentinas, equipes européias e chilenas e o Santos.... E essa delegação foi por mim chefiada juntamente com o Clayton Bittencourt Espinhel. Éramos jovens, eu tinha 32 e o Clayton devia ter talvez uns 37, 38 anos, ou 40. E o Nicolau Moran Vilar, que era o nosso padrinho e o nosso superior hierárquico, viajou conosco dizendo que ia apenas nos dar uma força, porque lidar com profissional era diferente das equipes menores.

 

P/1 – Só um parênteses. Você podia explicar quem era Nicolau Moran para o público leigo? 

 

R – Lógico. Nicolau Moran Vilar, além de um exímio jogador de futebol, foi um homem que tinha uma companhia transportadora de café e foi um dos dirigentes mais atuantes do Santos. Um homem apaixonado pelo Santos, vice-presidente, um homem de larga ascendência sobre os jogadores de futebol, que o respeitavam muito pela sua postura, e ocupou vários cargos de destaque no Santos Futebol Clube. Não foi presidente, mas foi vice-presidente de futebol durante muito tempo. E Nicolau Moran Vilar chefiou esta delegação. Aliás, foi nessa delegação para nos auxiliar caso nós tivéssemos algum problema pela nossa juventude. Não pela nossa falta de capacidade, pela nossa juventude. E nós tivemos a infelicidade de que ele veio a falecer nessa excursão. E coincidentemente eu estava presente na hora do seu falecimento, e o diretor plantonista, no hospital. E eu vim trazer o corpo junto com a viúva, que chegou na quarta-feira, não deu nem tempo de ver o marido vivo. E eu voltei na Varig trazendo o corpo, onde fiz uma exposição ampla no plenário do Conselho...

 

P/1 – Ah, o velório foi...

 

R – O velório foi aqui na Vila Belmiro. Aliás, o corpo foi lá na Santa Casa e, depois, por pedido da família, passou em torno de Urbano Caldeira para receber as últimas homenagens.

 

P/1 – Será que você podia falar a causa que o Moran morreu?

 

R – Olha, eu posso contar a vocês o seguinte: rapidamente. Vai ser um fato até histórico. Encontrava-me eu, o grande meia-esquerda Pelé e o repórter chileno. E o Pelé com seu violão dedilhava uma de suas composições para que esse repórter ouvisse e gravasse, com um gravadorzinho de mão. Estávamos no último andar do hotel onde nos concentrávamos, quando sai do elevador – a porta era exatamente de frente para o sofá onde nós nos encontrávamos – e o Nicolau Moran Vilar saiu desse elevador não amparado, mas um pouco abatido, com o Macedo, que foi nosso massagista durante muito tempo, e eu perguntei: “Presidente, o que é que o senhor está fazendo aqui?” Ele disse: “Olha, Barletta, eu estou me sentindo mal, e vou dormir esta noite com o Macedo, caso eu tenha algum mal-estar, ele me atenderá.” Eu notei uma manchinha de sangue no seu pijama. Como ele sofria de cálculos renais, eu até achei que ele deveria, ao expelir uma pedrinha, ter machucado a uretra, certamente. E realmente talvez tenha sido isso que houvesse acontecido, até notei. Nessa mesma noite, ele levantou-se  sozinho – ele era teimoso -, foi ao banheiro. Lá ele teve um mal-estar, desmaiou, foi socorrido pelo Macedo. Até bateu a cabeça, mas não houve problema. O que ele teve realmente foi uma hemorragia interna ocasionada pela ruptura da veia principal do corpo. Parece-me que é a aorta, não sei, é uma veia que, segundo dizem os médicos, parece uma mangueira do Corpo de Bombeiros. Então, ele foi internado, e você sabe que em 1968, no Chile, o atendimento médico era muito fraco. Até as viagens eram duas por semana. Quando ele começou a entrar num pré-coma e depois num coma, nós já chamamos a esposa e só tinha avião na quarta-feira. Nós já avisamos na segunda, e quando ela chegou, na quarta-feira, ele já havia falecido. A delegação inteira rumou ao aeroporto, nós a trouxemos para o velório no hospital, ele foi formolizado – eu tive até a oportunidade de assistir a essa formolização do corpo do Nicolau Moran. E outra coisa que me surpreendeu, que já era comum e rotineira, e é, nos países saxônicos, o velório fecha às seis horas, não tem que passar a noite com o falecido. Nós, latinos, somos muito mais emotivos e não aceitaríamos nunca isso. Hoje está até se aceitando, algumas vezes até por medo de violência, que andou tendo... Hoje há realmente uma postura melhor, caso haja uma solicitação, até se faz um policiamento, mas os necrotérios hoje muitas vezes ficam poucas pessoas, podem até sofrer algum problema. Mas hoje a Santa Casa e a Beneficência estão dando absoluta tranqüilidade e nós, por exemplo, não aceitaríamos nunca o falecimento de uma mãe, de um pai, de um irmão, de um filho, de uma filha, enfim, dizer: “Olha, fecha a porta, vocês vão pra casa.” O brasileiro, como sangue latino, não aceita. E o saxônico, mais frio, aceita. Inclusive eu assisti, recentemente, numa viagem que fiz aos Estados Unidos, uma família judia, depois de enterrar um seu ente querido, sentada num restaurante... Há um costume... Comendo normalmente, em silêncio, sem festa, sem nada. Como assisti também em New Orleans um enterro onde todos aqueles cidadãos de New Orleans tocam música para levar o falecido à sua última vivenda. Então, realmente, o Nicolau Moran Vilar, neste 1968 foi uma... Este é um depoimento interessante, que eu acho que até deve ser preservado porque ele bateu bola conosco, jogou, teve uma participação ativa. Nós tivemos uma briga muito feia em Viña del Mar, eu me desentendi com nosso falecido técnico Antoninho, meu particular amigo. Eu era um pouco esquentado também, tivemos um arranca-rabo meio feio, mas ao chegar em Viña del Mar, depois, com a participação do Moran – que é por isso que ele disse que ia, exatamente para acalmar o ímpeto da juventude –, então foram feitas as pazes com o Antônio, meu grande amigo Antoninho Fernandes, e o Santos foi campeão invicto do Torneo Octogonal de Verano, no Chile. E nos anos seguintes, por mais uma ou duas vezes o torneio foi realizado, até que ele se tornou impossível de ser realizado pelos altos custos, e passou a chamar-se Torneo Octogonal Nicolau Moran Vilar. 

 

P/1 – Nos anos seguintes ele mudou o nome?

 

R – Mudou de nome, ao invés de Torneo Octogonal de Verano, Torneo Octogonal Nicolau Moran Vilar. Para você ter uma idéia, nessa excursão, o meia-direita Negreiros, que era um atleta nosso aqui da casa, fez a sua estréia fazendo uma meia-cancha com Clodoaldo. Então, todos esses eram atletas do meu juvenil.

 

P/2 – Como era jogar, uma equipe  como o Santos, num lugar desses?

 

R – Você não faz nem idéia do prestígio, você não pode imaginar. Você hoje vê o Pelé, um homem com 57 anos, um mito, um jogador extraordinário. Você imagine o Pelé com a equipe do Santos, com craques famosos, ganhando tudo que era título que aparecia na frente, como você era recebido. Nessa delegação juvenil eu fui recebido em todas as prefeituras, em Baden-Baden, em Constance, o que você possa imaginar, com todas as honrarias que recebe, não digo um chefe de Estado, mas um visitante ilustre, onde me davam a chave da cidade, me condecoravam, eu fazia um discurso na prefeitura. Tinha um intérprete me traduzindo e depois um tradutor do alemão para mim, onde, emocionados, recebiam o “Santos do Pelé”. Evidente que o Santos não é só o Pelé, mas ele era realmente o paradigma, era o carro-chefe de todas as grandes conquistas do Santos. Não podemos deixar de destacar toda a equipe, seria uma injustiça. O Pelé sozinho não faria nada, mas é realmente o maior atleta do século. É o atleta do século. Então, a ida do Santos a qualquer parte do mundo ocasionava transtornos seríssimos. Os hotéis... Recentemente, o Pelé almoçou comigo aqui num restaurante aqui na Rua Quinze, eu, ele e o Samir. As portas do restaurante tiveram que ser fechadas! Nós tínhamos pelo menos 500 pessoas querendo entrar no restaurante. (risos) E o Pelé já parado. Imagine moço. Eu não fui, mas pessoas que viajaram... Não sei em que país, porque a África mudou tanto, sofreu tantas mutações, não me recordo exatamente onde, mas na Nigéria parou uma guerra para ver o Santos jogar. Essa sesta que os mexicanos fazem depois do almoço, que é o descanso deles, há foto até aqui na Vila Belmiro em que há um mexicano com seu chapéu, com seu sombrero, dizendo: “Olha, por favor, não me acorde. Vou descansar porque esta tarde o Pelé vai jogar.” Então, é uma coisa extraordinária. A vida do Santos depois do apogeu da Era Pelé foi uma coisa extraordinária. Você não faz a mínima idéia da forma, do orgulho como as pessoas recebem, recebiam o Santos. Hoje ainda tive oportunidade, como diretor que sou da Santa Casa, de numa reunião nossa de diretoria, conversar com o doutor Confotti, médico cirurgião, que ao receber a visita de um cirurgião italiano, mandou ciceroneá-lo. Ele quis vir ao Santos e quando entrou aqui começou a chorar.(risos) E agora ele voltou à Itália, levou a camisa do Santos, quando entregou para um dos maiores cirurgiões cardíacos infantis do mundo. Pediu a camisa do Santos, ele levou, o homem recebeu em Roma e começou a chorar. Então, o Santos realmente é uma coisa que não existe no mundo, não existe nada igual.

 

P/1 – Continuando, a gente está tentando então resgatar sua trajetória como dirigente, então a gente está ainda lá nos anos 60. E depois?

 

R – Bom, veja bem. A minha vida comercial sempre foi uma vida muito dura, eu sou corretor oficial de café. Você sabe que corretor oficial de café é como médico, dentista etc., é um autônomo. O médico tem que operar, o dentista tem que clinicar, cirurgia, e eu tenho que vender café. E se eu largar mão do meu escritório para me dedicar ao Santos, eu colocaria em risco a minha família. Então eu, por esse motivo, não aceitei ocupar cargos de destaque no Santos desde 1968 em diante, aonde eu praticamente parei com a parte diretiva, só me dedicando ao Conselho Deliberativo. Porque o Conselho dá menos trabalho, e eu não aceito em hipótese alguma tocar um clube como o Santos Futebol Clube, da forma como eu sou, absolutamente duro, inflexível com as coisas do Santos, onde eu tenha que vir – sem falar nada de má-fé – vir a comer na mão dos outros. Não aceito, porque eu tenho que ficar aqui full time, e não posso, porque não ganharia o meu dinheiro pra o sustento da minha família. Então, apaixonado que era do Santos, vinha sempre ao Santos, participava, mas não efetivamente. Então, como dirigente, fui quatro anos diretor do Santos, conforme já declinei anteriormente, conselheiro há mais de 40 anos, ou 37 ou 38 anos, e, agora por último, eu resolvi depois de velho assumir a vice-presidência do Conselho com o presidente Edmon Atik, aonde eu fui seu vice durante quatro anos e hoje sou presidente do Conselho, com maior orgulho. Evidente que convidado fui em outras épocas, para ser até presidente do Santos numa dissidência que havia, numa briga. Eu seria o candidato de conciliação. Época do Modesto, Rubens Quintas Ovalle, Carvalhinho, Modesto Roma, enfim, santistas famosíssimos, e eles sempre se lembravam de mim. Todos os presidentes, com raríssimas exceções, me convidaram sempre pra ocupar cargos executivos de relevância: vice-presidente de Futebol, de Patrimônio, de não sei quê, esportivo, e me ofereceram mil chefias de delegação. O Presidente Samir me convidou várias vezes para chefiar delegação do Santos e eu em hipótese alguma aceito, porque não quero a mistura dos poderes. É evidente que somos amigos, mas há uma independência total que me obriga a prestigiá-lo, como eu estou fazendo e faço, mas não quero que ninguém, e não vou admitir, venha me dizer amanhã, por qualquer problema que surja no Conselho, que eu favoreci ou vou favorecer quem quer que seja porque recebi uma chefia pra ir a um país qualquer do lado. Eu tenho condições de viajar por minha conta e já viajei com o Santos muitas e muitas vezes por conta própria. Somente quando chefiei que fui por conta do Santos.

 

P/1 – Para o público que não conhece a estrutura interna, o senhor poderia explicar então como é a divisão política, como se estrutura então... Existe a Presidência e existe o Conselho...

 

 

R – Exatamente. Veja bem, são dois poderes absolutamente distintos. Conselho com 350 conselheiros, 300 membros efetivos e elegíveis (entre efetivos, elegíveis e natos) e 50 suplentes. E a diretoria, que sofreu algumas mutações, porque a diretoria nós tivemos época em que o Santos tinha sete ou oito vice-presidentes:  Patrimônio, Jurídico, Finanças, enfim... Hoje há somente um vice-presidente. Então, os poderes são interligados pelas responsabilidades que a diretoria executiva tem de prestar contas ao Conselho, que em última análise é o órgão gerenciador das contas do Santos em termos de previsões orçamentárias, de balanço, fiscalização, comissão fiscal. Evidente que nós, ao recebermos uma previsão orçamentária, que hoje é grande, a diretoria vai gastar dentro daquela previsão e não há porquê chamá-la. Se ultrapassar, ela tem que dar explicações. Nós não vamos interferir nem usar nenhuma pressão da compra e venda de jogadores. Eu acho que o presidente do Conselho seria como um juiz de futebol bom, ou seja, ele não aparece no jogo. Então, a minha função dentro do Conselho é exatamente fazer com que os estatutos sejam respeitados - e eles o são, com certeza absoluta -, comandar 300 cabeças heterogêneas, dando a elas todos os direitos que o estatuto lhes confere, para que elas emitam seu ponto de vista, com as interrupções estatutárias do regimento interno, comandando a reunião com o tempo certo, usando a letra fria dos estatutos e procurando levar a bom termo a vivência do Conselho e da diretoria. A diretoria tem uma parte muito mais ativa e o Conselho, na minha gestão, eu particularmente, a minha mesa também é muito coesa, não gosto de ficar dando muita entrevista, aparecendo na mídia, só em último caso. Prefiro mesmo não ter nenhuma ingerência, porque, evidentemente, como eu sou duro e inflexível, eu não gostaria de ter qualquer dissabor com qualquer membro do futebol, que hoje as coisas estão muito mudadas. Então, para evitar choques que não levam a nada, só prejudicam o Santos, eu me mantenho na minha posição. Porém, dentro da minha posição, todos virão a me respeitar, com certeza absoluta, isso não tenha dúvida. Então o Santos, você me perguntou, a correlação que existe é a seguinte: o presidente do Conselho deve trabalhar harmonicamente com a diretoria, não criar empecilhos; porém, agir forte e firme na hora que se fizer necessário. Então, a estrutura do Santos, enquanto nós não tivermos a Lei Pelé totalmente aplicada no Clube... Vários comentários surgem de que o Santos é isso, de que vai ser aquilo, aquilo, aquilo outro... Não. Eu acho que os dirigentes devem ser profissionais, receber. A época do amadorismo acabou. Não pode o dirigente ficar no seu escritório. Eu li uma reportagem de Armando Nogueira, grande cronista, onde, finalizando, ele dizia: “E aí o presidente sai do seu escritório com o seu paletó às costas, com uma mancha de café na camisa, vem para o Clube, senta-se à sua mesa, chama a secretária e então colocam em frente dele mil problemas e mil cheques para serem assinados.” Uma cabeça que trabalhou o dia inteiro na sua atividade principal e à noite ele tem que ficar tranqüilo pra poder despachar bem. Então, ele deve ser remunerado. Essas mudanças serão feitas, a minha comissão de estatuto está estudando, consultando um escritório em São Paulo, o presidente está nos auxiliando, e evidentemente que tão logo mude a fisionomia do Clube será gerenciado por profissionais. Então, as coisas vão mudar de figura, você pode começar a cobrar. No momento, você exige do presidente um respeito aos estatutos, com os balanços, com a previsão orçamentária... Tudo aquilo que determina a lei. E essa diretoria vem cumprindo fielmente. Evidentemente que você vai dizer: “Ah, comprou o fulano, o sicrano, beltrano, por um milhão, por dois, por três, não fez, vendeu..." Não vem ao caso. Ele compra por um milhão, contabiliza, mostra o recibo, tá tudo muito bem, não há problema nenhum. Não há má-fé, o Conselho não está aqui pra encontrar chifre na cabeça de cavalo nem pêlo em ovo, mas sim pra ajudar a diretoria a que ela leve o Santos aos seus mais altos desígnios. Não adianta você ficar... A cada instante o presidente do Conselho poderia chegar na imprensa e todo dia eu daria uma notícia: “Ah, mas por que contratou o fulano?”; “Por que pagou tanto para o sicrano?” Aí vai começar a polemizar, que é o que a imprensa quer... São verdadeiros... Eu não posso falar porque aí de repente fica gravado, mas são homens que procuram a notícia... É aquela história que é urubu que fica em cima da carniça, não é isso? Então, o jornalista não tem interesse em entrevistar o presidente do Conselho. E eu deixo bem claro que também não tenho nenhum interesse em dar entrevista à imprensa. Por quê? Porque quanto menos eu falar é melhor. Eu tenho que ser um magistrado, para tentar acomodar e resolver os problemas do Clube. Quando os meus conselheiros me solicitarem, eu sou o funcionário deles sem carteira, sem remuneração. Quando as minhas comissões solicitarem, qualquer problema com a diretoria executiva, o presidente entra em ação e as coisas andam mesmo. Então, não há o porquê da imprensa me entrevistar e não há o porquê de eu procurar a imprensa. Eu só procurarei a imprensa para uma notícia que fosse benéfica ao Santos. Todos os assuntos do Santos e todas as eventuais roupas sujas que eventualmente existam têm que ser lavadas na sala do Conselho. Eu já falei isso de público, pedi aos meus conselheiros que não falem. As notícias vazam e nós não podemos, num Conselho heterogêneo, impedir que nós tenhamos dentro desse Conselho advogados, dentistas, médicos, cronistas, repórteres, isso e aquilo. Todos têm o seu direito de serem conselheiros. Então, se cada um tem... e eu estou lutando para essa reforma estatutária, para o enquadramento dentro da Lei Pelé, também a formação de uma comissão, que deve ser mantida, de inquérito e sindicância acrescentando... e ética, para que nós possamos eventualmente julgar os conselheiros que eventualmente faltem com a ética ao se manifestar em assuntos que devam ser debatidos exaustivamente, exauridos no Conselho, publicamente. Então certamente ele sofrerá alguma sanção.

 

P/2 – Deixa eu aproveitar essa sua experiência como dirigente e falar de fases. Você falou um pouco dessa fase futura, profissionalizada. Então vamos voltar um pouquinho no tempo do café, você começou a falar um pouco sobre como a praça cafeeira de Santos ajudava o time. Isso marca uma fase. Dá pra você falar um pouco sobre isso? Como é que era?

 

R – Olha, eu até disse anteriormente que a praça cafeeira marcou uma época na vida do Santos porque o auxiliou em tudo aquilo que o Santos necessitou. Até no início de minha entrevista eu deixei claro que o café foi realmente um dos alicerces. Posteriormente, depois do advento dos planos econômicos, toda a economia brasileira pereceu e todos nós empobrecemos. Tivemos nosso patrimônio reduzido drasticamente e a nossa liquidez praticamente sem possibilidades. No momento, o café não está auxiliando muito o Santos, como ninguém está auxiliando ninguém. O Santos tem que andar com as suas pernas e hoje o café ajuda parcimoniosamente o Santos, mas bem modicamente. Hoje há um completo divórcio da praça cafeeira com o Santos, quando havia antigamente uma casamento e uma lua-de-mel perene.

 

P/1 – Seu Barletta, eu creio que, assim como o futebol tem dois tempos, nós vamos ter que fazer um segundo tempo da entrevista, onde a gente possa abordar mais alguns aspectos do lado dirigente, mas também o senhor, que foi uma testemunha ocular dos anos de ouro do Santos. Indicou até um pouco de partidas que assistiu, e bastidores…

 

R – Não, e tenho inclusive assuntos assim, engraçados...

 

P/2 – Podemos falar do Parque Balneário?

 

R – Lógico. Para você ver, eu tenho aqui, por exemplo, você quer ver? Só pra você ver, fiz uma pequena... Veja bem, o Parque Balneário foi polêmico, não é? O Parque Balneário foi polêmico, mas foi realmente uma... Quando eu rabisquei aqui eu achei só os rascunhos. Em 1965, o Athiê Jorge Coury na Presidência, o Santos adquiriu o Parque Balneário Hotel. 1960, há 34 anos atrás.

 

P/2 – Isso é a sede social do Clube?

 

R – E na época contratou a Companhia Brasileira de Empreendimentos Sociais, de triste memória, que Deus a tenha... (risos) para o lançamento de uma campanha para pagamento e manutenção do patrimônio adquirido. Por sérios problemas dessa empresa não foi possível manter o Parque Balneário adquirido à Família Fracarolli, e, em 69, foi o mesmo vendido para o grupo Donet, Arena e Elacap. Por último, por uma dissidência entre esses três grupos, o empresário Cláudio Donet ficou com todo esse patrimônio e construiu aquele shopping maravilhoso e o hotel. Mas, apesar da beleza do Parque Balneário, hotel hoje moderno, nada se comparava com a beleza, com a magnitude da estrutura do Parque Balneário Hotel quando era dos Fracarolli e do Santos Futebol Clube e que, infelizmente, como nós temos muito pouca lembrança e não cultuamos, não cuidamos das coisas lindas de Santos. Isso devia ser, absolutamente, já naquela época pela prefeitura tombado, isso seria uma coisa extraordinária. Nós tentamos fazer o carnaval do Santos Futebol Clube lá no Parque Balneário, mas não tínhamos... Uns salões maravilhosos, não colocávamos 50 pessoas porque o associado do Santos era um associado de origem mais humilde e que gostava mais dos carnavais aqui na Vila Belmiro. Aqui enchiam os salões e lá nós tivemos que parar. Era uma fase maravilhosa... e ao Santos, eu já disse, e me incluo nesse meio, porque o futebol sempre tem um estigma de ser comandado por pessoas que não eram lá grande coisa sob todos os aspectos, porém, isso realmente não é a definição de todos os homens que dirigiram o Santos. A grande maioria foi heróica, estóica, e deu muito de si ao Santos. Alguns não tiveram o mesmo sucesso e por diversas razões. Eu não vou declinar nenhuma delas, porém a frase que mais me fica na cabeça é a seguinte: Ao Santos Futebol Clube, na “Época Pelé”, ao Santos somente faltou uma coisa: homens de grande visão empresarial, homens de grande envergadura, homens que se dedicassem ao Santos. Mas como o futebol, já desde aquela época: “O futebol é o lugar que as pessoas se misturam, não sai lá grande coisa...” Então, os grandes empresários, as pessoas de bem, as pessoas que poderiam dar uma visão empresarial maior, sempre com aquela desculpa, que eu também dei, por não ter tempo, se afastavam e o Santos ficou em mãos de alguns homens de visão e algumas vezes de pessoas que não deram o deslanche necessário para aproveitar toda aquela época maravilhosa do Pelé.

 

P/2 – Para fazer o depois, né?

 

R – Para fazer o depois, isso. Hoje nós estaríamos talvez numa sala magnificamente, com quadros de Calixto, sentados, conversando, com obras de arte, com salões de mármore do Parque Balneário, que era uma coisa extraordinária. Eu presidi, eu até esqueci de falar, eu presidi o Clube dos Corretores de Café e os jantares famosíssimos do Clube eu os fazia no Parque Balneário e na Bolsa de Café, hoje recuperada pelo governador Mário Covas, nosso conselheiro, que aqui no Santos é subordinado a mim. Ele é o meu chefe no governo, mas aqui no Santos quem manda nele sou eu.(risos) Nosso querido Zuza, grande homem, grande personalidade e que eu espero que ele se restabeleça logo, e de repente vai ser nosso presidente da República.

 

P/1 – Bem, então nós vamos encerrar o nosso primeiro tempo agradecendo a sua participação e paciência com esse depoimento que vai fazer parte do Museu, e semana que vem a gente retoma aí a nossa conversa.

 

R – Realmente eu fiquei muito honrado por ter sido convidado, a família Barletta é lembrada. Eu até acho que com um depoimento talvez mais sucinto vocês até devam, para efeitos de datas, consultar minha mãe. Caso não seja possível, esse meu depoimento... Não sei como é que ele vai ser usado no Museu porque é uma coisa nova para nós do Santos, né? Não é comum, nós não estávamos cultuando a memória e com a presidência do Samir... e eu também gosto muito, né? Então eu acho que nós temos que dar o devido valor a todos aqueles que deram um pouco de si ao Santos. Cultuá-los, rememorar, e a todos os atletas, a todos os homens, os feitos dos grandes funcionários do Clube, todos aqueles que dirigiram o Clube largando as suas famílias, nós devemos evidentemente cultuá-los, para que seus filhos, netos e bisnetos tenham no Museu do Santos um pedaço, ou melhor, a vida do Santos, senão toda, pelo menos uma grande fatia, e com que orgulho meus netos entrarão amanhã no Museu do Santos e lá, apertando um botãozinho, ouçam um pedacinho do depoimento do avô, ou do bisavô, e saiba que ele está lá na chácara Nicolau Moran Vilar, numa placa de bronze como um dos homens que comprou a chácara, na época, em 67 ou 68, não é? E está perpetuado aqui quando, junto com o presidente Samir, com o seu filho Gabriel, puxou simbolicamente a chave da inauguração dos refletores. Tem o seu nome perpetuado no Conselho como presidente, como vice-presidente, e tem o seu pai já perpetuado em diversos lugares, como os senhores viram aí. Então, como a minha vida clubística também foi muito profícua no Clube XV, se amanhã tiver o Museu do Clube XV vocês terão que me ouvir certamente não por uma hora, por dez horas. (risos) Porque esta foi uma fase extraordinária da vida social de Santos, que eu tive a honra de presidir o Clube XV, o Clube mais velho do Brasil, talvez, sendo eu o presidente mais jovem de todos os tempos.

 

P/1 – Então, muito obrigado.

 

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