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História

Família, psicologia e política

História de: Arnaldo Lev
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Filho de imigrantes de origem judia, mas não praticantes, Arnaldo se estabeleceu com a família e cresceu no bairro do Bom Retiro. Da família herdou também o interesse político, tendo se envolvido com isso em várias etapas da vida. Sua história nos traz episódios importantes da história política brasileira, do comunismo no Brasil e de momentos de perseguição do Governo. Sempre ligado à família, apesar de sua independência, conta sobre episódios com os irmãos e um tio muito querido que vivia no Rio de Janeiro. Fala também sobre sua paixão por cinema, seus empregos, sua formação e atuação na área da Psicologia e sobre o trabalho com mulheres encarceradas. 

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História completa

P/1 – Arnaldo, a gente começa perguntando o nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Meu nome é Arnaldo Lev, nasci em 20 de novembro de 1940, em São Paulo, capital.

 

P/1 – Então a gente vai voltar agora lá na história, contar um pouco dos seus pais, o nome deles, o que eles faziam, a história.

 

R – Certo, meu pai, ele... o nome era Abraão Lev, ele veio da Polônia por volta, entre 1927 e 1930, é o que a gente sabe, né, e veio fugido, né, das perseguições. Ele já era, assim, já veio, como se diz, politizado, né, porque era comum na Europa, né, as pessoas, os judeus eram mais de esquerda pelos governos, né, que eram de muita perseguição, então havia uma tendência. Então meu pai já veio assim com essas ideias dele. A minha mãe veio da Bessarábia, que hoje é Romênia, já mudou muitas vezes de nome, conforme o país que invadia ele passava a ser Rússia ou não, mas na época chamava Bessarábia, e era uma cidadezinha pequena, então veio ela, a mãe, dois irmão, o pai já estava no Brasil, né, então eles já vieram por causa disso.

 

P/1 – E como que eles se conheceram aqui, os seus pais?

 

R – Então, meus... Segundo eles me falaram, eles estavam num comício em 1935, né, em plena intentona, e começou a haver um tiroteio e minha mãe disse que meu pai passou em frente a um bar onde ela estava e ela puxou ele pra dentro e ai passaram a se conhecer, né, coincidiu de serem judeus, né, pura coincidência mesmo e foi assim que eles ficaram juntos.

 

P/1 – O quê que eles faziam?

 

R – Então, meu pai, ele era operário, passador de roupa, e ele fazia questão de ser operário, ofereciam algum cargo maior de tomar conta, ele queria ser operário, então meu pai era operário e ganhava muito pouco como passador, né, minha mãe não trabalhava.

 

P/1 – E na intentona o que o seu pai estava... qual era o... O que ele tava articulando lá, politicamente?

 

R – Não, ele não, com a intentona ele não teve nada a ver, é que era a época, né, foi depois da intentona, houve... Mesmo assim o pessoal queria fazer comícios, o movimento era grande, foi por isso, ele foi lá só pra assistir um comício, né, que era geral, não era da comunidade não, né?

 

P/1 – E ai um pouco antes, o seus avós, o senhor conheceu eles?

 

R – Então, os avós paternos, quer dizer, a mãe do meu pai, ela foi com a irmã para os Estados Unidos e ele queria ir também, mas fecharam a cota, o pai morreu já na Polônia, quando ele era ainda criança. De parte da minha mãe o pai dela veio pro Brasil acho que em 1920 e pouco, depois ele trouxe toda família, como eu já disse, né?

 

P/1 – Mas o senhor conheceu ele?

 

R – Conheci, o nome dele era Samuel e o nome da minha avó era Brana, agora o nome dos avós paternos eu desconheço.

 

P/1 – Você sabe, o seu pai, então, ele queria ir pros Estados Unidos e acabou vindo pro Brasil por causa da cota, e a sua mãe, qual foi o motivo da escolha do Brasil?

 

R – É, a gente não sabe bem porquê que o... Geralmente um puxa o outro, então o pai dela veio bem antes, ai ele foi juntando dinheiro, que era comum, né, juntar dinheiro pra trazer a família, e então foi o que ele fez, né? Agora o meu pai de fato aconteceu isso, mas ele, assim, ele veio pra América do Sul e quando chegou em Santos, ele tava indo pra Argentina, porque todo mundo dizia que a Argentina tava bem e quando ele chegou no porto o pessoal falou pra ele: “Ó, não vai que a Argentina tá numa crise forte”, mas ele é gozado, ele achou que havia alguma coisa por trás e foi pra Argentina, onde ele passou muita dificuldade, né, de ficar andando na rua, depois ele foi pro Uruguai e ai acabou vindo pro Brasil. Ele não tinha conhecidos aqui no Brasil, ele veio mesmo por conta dele, né?

 

P/1 – Eles vieram pra São Paulo direto?

 

R – Vieram pra São Paulo, Santos. São Paulo, né?

 

P/1 – E ai foram morar aonde, seu pai e sua mãe?

 

R – Olha, primeiro, por exemplo, quando eu nasci eles moravam na Vila Guilherme, meu pai vendia, ele era ambulante, ele vendia louças, panelas, essas coisas, né, depois eles vieram pro Bom Retiro, onde tinha a concentração do pessoal e ai eu acredito que meu pai já ficou trabalhando na profissão dele, né, de passador de roupa.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos?

 

R – Tenho dois irmãos, Samuel e Marcos, o Marcos faleceu agora, em dezembro do ano passado.

 

P/1 – Mais velho, mais novo?

 

R – São mais velhos, o Marcos tinha quatro anos mais do que eu e o Samuel um ano a mais do que o Marcos, né?

 

P/1 – E como que era a sua casa na sua infância, você lembra? Essa do Bom Retiro já, né?

 

R – É, do Bom Retiro eu lembro sim, essa da Vila Guilherme é um branco, mas do Bom Retiro era na Rua da Graça, né, que a gente foi morar, era uma casa, assim, muito simples e ela tava bem decaída. A casa era uma casa velha, o dono não arrumava, tinha um quintal grande, meu pai uma época passava roupa lá mesmo, né, ele montou uma oficina pequena, depois a pessoa pediu a casa, ai nós fomos morar numa vila também, na Rua da Graça, e foi, nessa parte do Bom Retiro foi assim. Depois chegamos a mudar na Avenida Rude, que é lá perto, também é Bom Retiro, mas é a parte baixa, até onde ficam mais a comunidade italiana. E lá a gente ficou uns dois e poucos anos e meu pai perdeu o emprego de passador, né, apesar que ele já trabalhava há dez anos na firma, entrou um outro patrício de sócio e achou que ele ganhava muito e foi uma época de muita crise. Ele quis montar uma oficina de passar roupa, mas tinha que nem o apagão da energia, então ele não conseguiu, ele voltou a trabalhar de... que a gente chama (____?), né, e vendedor ambulante, e era uma coisa que ele não gostava de fazer, cobrar as pessoas, né, ele ia vender em lugares que ele dizia que eram muito pobres e ele se endividou muito, então a gente teve que vender essa casa e ai fazer um outro caminho, né?

 

P/1 – Antes de chegar nesse caminho, só deixa eu entender um pouquinho, essas primeiras casas eram casas pequenas que moravam os três irmãos no mesmo quarto, como que eram essas casas?

 

R – Geralmente elas tinham dois dormitórios, né, um deles e um pra gente. e

Eram pequenas sim, tinha um quintal enorme, mas as acomodações eram pequenas, né?

 

P/1 – Como que o senhor lidava com os irmãos, era tranquilo, como que era o relacionamento com os irmãos?

 

R – É, era tranquilo, assim, a gente... O que eu me lembro, assim, eles, lógico, eles eram mais velhos, faz muita diferença, né, quatro, cinco anos, e eles tinham a turma deles, né, mas a gente, nós íamos os três juntos no cinema quando eu já tinha atingido uma idade, e a gente todo domingo ia no cinema juntos. Então, mas assim, o que eu me lembro é disso, eu mais ficava na cola deles, eu não lembro mesmo até de coleguinhas da minha idade até uns sete anos de idade. Não, é que depois vem uma fase, quando nós fomos morar mais perto, na rua, mais pra Rua da Graça, bem no miolo do bairro, então já existia o... a gente chamava o... as entidade juvenis sionistas, né, o movimento sionista juvenil, então era recreação, não era... Isso na época de 45 ou 46, 47, ainda a questão de Israel não tava muito forte, então eram clubes de recreação, que eu me lembro, né, e meus irmãos também frequentavam juntos. A nossa vida era muito, era toda no bairro mesmo, né?

 

P/1 – E quais eram as brincadeiras que tinham?

 

R – Olha, eles, o que esse pessoal fazia, eles eram... eles já vinham com uma finalidade de fazer sempre coisas em conjunto, porque havia, assim, aquela ideia da Aliá [Aliyah]. Aliá é um movimento de ida pra Israel, né, não acho que tanto em relação à gente, né, já os meus irmãos mais velhos já tinham outra finalidade pra eles, de falar um pouco mais dos assuntos de Israel, né, mas dessa parte eu me lembro só de muita recreação. Era uma coisa assim, meus pais, apesar de eles não serem sionistas, mas também não eram contra, ainda não havia, não houve aquela cisão, né, de progressistas e sionista, mas eles viam, assim, o grande medo era mesmo de a gente entrar no movimento e ir pra Israel, havia uma preocupação geral e então... Mas num determinado momento ai o movimento progressista, que era mais ligado para os adultos, né, era o Centro Cultura e Progresso, era mais de atividades de teatro, coral, não tinha pra gente, mas ai eles fundaram o clubinho, então o clubinho já era dirigido mesmo pras crianças, então ai eu passei a frequentar essa entidade, né, chamava Clube (____?).

 

P/2 – Quais eram as recreações que vocês faziam nesse clubinho, Senhor Arnaldo?

 

R – Então, o que tinha, assim, durante a semana era pingue-pongue, jogo de bola, mas eles tinham, o pessoal progressista justamente eles visavam muito a cultura e a parte intelectual, então tinha muito de ir ao teatro, de ir até em museus, né? Eu lembro que uma vez, a gente foi uma vez num museu que era a Sete de Abril, o museu de arte era lá no prédio das associadas, né, do Assis Chateaubriand, e nós fomos ver uma exposição que era do Lasar Segall e ele estava lá. E o que eu lembro até um pouquinho que ele ficou muito alegre de uma entidade de crianças progressistas estarem lá, porque o Lasar Segall, apesar de... de ele estar ligado a uma família Klabin, mas ele era mesmo uma pessoa também de esquerda, né, então isso eu lembro bem, quer dizer, as atividades, eles procuravam que a gente fizesse alguma coisa a mais, teatro infantil, né? Eu não participava muito, porque eu não tinha pique nem coragem, mas era bem... onde eles, por alguma coisa artística, intelectual, eles colocavam. Já o pessoal sionista não tinha essa preocupação.

 

P/1 – Como que era o bairro nessa época, Arnaldo, você pode descrever um pouco do Bom Retiro pra gente?

 

R – Então, o bairro é gozado, tinha, era como se tivesse, duas categorias: rico e pobre, né, tinha os que trabalhavam e os que tinham aquelas pequenas indústrias, ainda no começo. Pouquíssimas pessoas tinham carro, né, era uma pompagem (?), pra gente era uma vida muito difícil, existiam as entidades de auxílio, né, policlínica, remédios, a gente tinha uma certa... um certo amparo, não é, mas era bem uma divisão. Tinha... a gente chamava o riquinho, morava numa casa melhor, quer dizer, essa divisão, havia uma diferença grande mesmo, né? Foi, eu acho que até era o início de um pessoal começar a ganhar dinheiro, foi logo depois da guerra, pequenas malharias, pequenas confecções.

 

P/1 – As indústrias do bairro eram de confecções a maioria?

 

R – É, a maioria muito ligado, não sei porque os judeus se ligam muito ao ramo de malharia, né?

 

P/1 – E as lojas também até hoje, né, ali em volta?

 

R – É, as lojas acho que são outra etapa, né, no começo eles vendiam pra vender pra outras lojas, né, eu não sei como começou o movimento da tomada da José Paulino, mas ali já eram pessoas que já estavam bem estabelecidas, já a ponto de montar uma loja, mas a turma começava mesmo era em casa.

 

P/1 – Essa coisa da tradição na sua casa, de comidas, como que era? Vocês tinham como manter a tradição, comida judaica, como é que funcionava na sua casa?

 

R – Então, meus pais, eles eram ateus mesmo, definitivamente, então não se seguia, a comida era brasileira, não se comemorava como o judeu comemora o Shabat, né, de sexta-feira. Aliás, naquela época muito pouca gente seguia, mesmo as pessoas que tinham dinheiro, era raro ir numa sinagoga, tinha pouquíssimas, né, não era costume. A comida kosher, por exemplo, era uma raridade, era só mesmo os rabinos que seguiam, a grande maioria não seguia mesmo, o pessoal era... era uma vida normal mesmo. Tinha o rabino, o rabino Valter, ele era o tipo do chefe espiritual da colônia, né, mas é gozado, o pessoal mais pobre não tinha nenhuma ligação, quem tinha ligação era o pessoal que estava melhor, né, o pessoal... Eu não sei se pode por isso, o pessoal brincava, porque o rabino, ele resolvia questões trabalhistas e o meu pai dizia: “Bom, não adianta você ir lá no rabino resolver, que ele vai dar pra parte patronal que é quem mantém ele” (risos) Então era assim, a gente via ele, hoje os rabinos têm uma figura diferente, mas era o rabino, assim, elitista, né, a gente via como uma coisa de lá, então não se seguia nada.

 

P/1 – E a língua?

 

R – Meus pais falavam muito iídiche, direto, foi uma pena, porque eles queriam falar iídiche com a gente e a gente dizia: “Não, você ta no Brasil, fala português”, ai perdemos a chance de aprender o iídiche, quer dizer, bem ou mal acabou fazendo falta mais tarde, né, mas entre eles, justamente até pra falar coisas pessoais, falavam sempre em iídiche, eles com os tios, com os parentes, era todo mundo falava iídiche, que era essa a língua que veio da Europa, né?

 

P/1 – E como era se o senhor pudesse descrever a figura do seu pai e da sua mãe, como que eles eram pra você, a personalidade deles?

 

R – É, meu pai era uma... ele era uma pessoa muito tranquila, né, não era mesmo agressivo, eu não lembro de nenhuma vez, assim, de ter tomado alguma surra, ele era tranquilo, mas era uma pessoa justamente que ele lia muito, né, meu pai vivia lendo jornais, livros, livros em iídiche, né, que na época tinha muitos, né? Minha mãe também, ela era alfabetizada, ela lia, não tanto assim como ele, ela falava muito bem português, os dois falavam bem português já, mas a vida deles era assim: minha mãe da casa, meu pai, ele acordava muito cedo, e era gozado, ele ia fazendo café e já ia lendo, né, e depois ele ia pro trabalho dele. Mas era, não sei, pra mim acho que foi uma pessoa boa, que ele incentivava a gente a ler, né, procurava que a gente tivesse fazendo alguma coisa.

 

P/1 – E o senhor lia o quê? O senhor lia jornal também, lia livros?

 

R – Não, veja, até uma certa fase, só depois, eu acredito, só depois dos 1onze anos é que a gente, justamente com o clubinho, eu passei a me interessar mais. Agora, a partir, eu acho, eu tenho impressão, que a partir dos treze anos, porque era assim, o meu pai tinha uma... chamava Coleção Romances do Povo, que era do Jorge Amado, ele é que idealizou, então meu pai lia os livros, ou eram sobre a União Soviética, depois da guerra as glórias da União Soviética, filmes de heroísmo, ou era filme de muita pobreza, eram filmes sobre a Índia, Portugal, China, e eu fui lendo tudo aquilo, é gozado, eu gostava de ler esses livros, né, a gente foi meio que catequizado numa boa, não é, mas isso entrou mesmo, então era uma coisa assim, muito... depois acabei lendo também Monteiro Lobato, né, devagarzinho.

 

P/1 – Mas foi posterior?

 

R – É, foi assim também, a gente, numa determinada época, nós entramos na Biblioteca Infantil Municipal, na General Jardim, né, e ai eu passei a ir lendo outros livros também. A gente ia toda semana lá, eu e meus irmãos.

 

P/1 – Fora o bairro, por São Paulo vocês andavam bastante ou não saíam muito do bairro, como que era a convivência com São Paulo?

 

R – Não saía muito. É gozado, era... Primeiro eu ia sempre com os meus irmãos, até uma certa época eu ia junto com eles, mas a gente saía assim, pra ir na biblioteca. Meus irmãos, quando já foram... meu irmão foi estudar no Caetano de Campos, então ai ele já ia pra cidade, mas era, assim, uma coisa de ir a pé, não era, não se ia muito de um bairro pro outro a não ser visitar algum parente, né, eu ia com a minha mãe, mas a nossa vida era mesmo muito por lá.

 

P/1 – Nem viagens pra praia, outras coisas?

 

R – Viagem?

 

P/1 – Pra praia, pro interior, pra esses lugares, pegar trem, não tinha muito?

 

R – É, não tinha. O único lugar que depois a gente passou a ir muito foi pro Rio de Janeiro, eu tinha um tio que era até uma pessoa fora de série, era uma personalidade, assim, espetacular. Ele era militante do partido, aquela pessoa muito extrovertida, ele morou em São Paulo e numa determinada época ele foi pro Rio, pra nossa sorte, porque aí a partir de 1950, 50, foi a primeira viagem que eu fiz ao Rio de Janeiro. Eu lembro que nós fomos de avião, num DC-3 e a partir daí comecei a uma vez por ano, cada dois anos, a gente ia pro Rio, meus primos vinham pra São Paulo, ele tinha dois filhos, né, então era muito comum essas viagens, né? E no meio disso, surgiu junto com aquele clubinho, tinha a Colônia de Férias Kinderland, que era também ligado ao movimento. Eles, um grupo de senhoras, compraram um sítio lá perto do Rio de Janeiro, e essa foi realmente uma mudança muito grande da nossa vida, né, porque a gente ia pra lá e encontrava o pessoal do Rio de Janeiro. Para mim foi uma... Eu tava muito fechado, de repente eu tô no meio de sessenta crianças, né, meninas, meninos, e isso foi uma mexida grande, isso foi, começou em 50, depois 51, 52, e houve, assim, aí começou até uma interação Rio – São Paulo. Ai tinha até um amigo do Rio, passou, ele vinha pra São Paulo e eu ia pra casa dele, isso até hoje, durou. Então essa foi uma outra parte dessa colônia de férias, ela cobriu muita coisa, que a gente não tinha a possibilidade de viajar. Eu só lembro, assim, de uma viagem pra Lindóia, que fui eu, minha mãe e meus irmãos, era raro, era, não havia essa possibilidade.

 

P/1 – E lá pra Kinderland vocês iam como? Vocês iam de ônibus, vocês iam de trem, como vocês iam pra lá?

 

R – Não, era até uma coisa, foi uma coisa fantástica, a gente ia de trem noturno, trem leito, ia até uma determinada cidade e de lá o ônibus levava a gente. Quer dizer, também outra mudança, viajar, ia muita gente num leito só, não é, pra... não sei, era uma coisa muito fora, né, dos padrões.

 

P/1 – Mas os pais iam juntos?

 

R – Não, não iam, deixavam a gente na estação e a gente ia... era um desligamento mesmo, né?

 

P/2 – E como que era essa colônia de férias, esse lugar, o que vocês faziam?

 

R – Era colônia realmente, ela era um sítio, então já tinha algumas casas, não foi feito pra ser uma colônia, né, então tinha uma área pras meninas, né, um pavilhão, tinha pros meninos, e também muita atividade. eles faziam, a gente fazia, muita atividade artística, coral, eu mesmo participei do coral, tinha teatrinho, tinha palestra, eles tentavam sempre fazer trabalhos com a gente, né, mas  o que foi essa... eu acho que não só pra mim, pra todo mundo, foi essa ligação com pessoa de outra cidade, você ficar vinte dias juntos, né, e havia os namorinhos, né? Quer dizer, quando acabava a colônia era uma choradeira, era um negócio, assim, terrível, era um impacto, mas era uma coisa muito forte, né? Então a colônia era isso, era total, tinha os monitores, não é, tinha a hora de almoçar, a hora de jantar, a hora de lanche, era um pouquinho, mas era tudo junto, né, sempre em grupo, pra mim era uma experiência muito diferente.

 

P/1 – Era uma vez por ano?

 

R – Era uma vez por ano. Ela era até paga, mas uma das pessoas que organizaram era muito amiga da minha mãe, sabia que a gente não podia pagar, ela encaixava a gente pra ir, enquanto deu, né, daí teve uma época não deu pra ir mais, né?

 

P/1 – Arnaldo, só uma coisa, na época mais mesmo da guerra, como é que foi para os seus pais estarem aqui no Brasil?

 

R – É, o que eu posso... O que eu lembro, assim, porque a guerra pra mim não se falou tanto, eu, pelo menos, não absorvi eles falarem, até porque falavam muito em iídiche e meu pai depois soube que ele perdeu muita gente da família na guerra, até lá não se sabia de nada, né, então o assunto guerra... É gozado, a única coisa que eu lembro foi quando o zeppelin passou por São Paulo, foi, ai disseram que era alemão, não é, o zeppelin, quer dizer, que era nazista, mas a gente não tinha conhecimento desse assunto, eu acho que só, quer dizer, tudo começou a aparecer eu acho que depois de 47, 48 é que começaram, ou a gente, pela idade, não conseguia absorver o que aconteceu de verdade, meus pais sim, a gente notava uma preocupação, né?

 

P/1 – O senhor não viveu isso?

 

R – Não vivi, não consegui captar a guerra não, meus irmãos talvez, né, eram mais velhos.

 

P/1 – E aí o senhor lembra do primeiro colégio, os primeiros dias de aula? Como é que foram?

 

R – É, o primeiro, eu primeiro, assim, existiam as escolas judaicas, né, que era o Renascença e onde também, porque prevalecia muito essa questão, eram pagas, se você não podia pagar você ia lá, apresentava a sua situação, eu não sei, porque eu comecei a fazer o pré no Renascença, que seria muito bom, no meio mesmo da colônia, mas num determinado momento minha mãe tirou e a gente acabou acho que no Ideal, eles não ofereceram a bolsa e eu fui estudar no Grupo Escolar Marechal Deodoro. É um... não foi uma experiência boa de ensino, né, eu tive uma certa dificuldade, né?

 

P/1 – Mas o convívio com os colegas como que era?

 

R – Normal, a gente... Realmente essa parte de judeu, judeu não existia, não lembro de... Às vezes eu era um pouco perseguido, né, por algum moleque que cismava, né, com essa questão de judeu, mas não era generalizado, então era um contato normal mesmo, quer dizer, a gente só, quando tava no meio de um clubinho é que a gente tava lá, não estando nunca vi diferença nenhuma mesmo, nunca deixei de ter amizade com criança, até os melhores amigos não eram judeus, eu lembro, vizinho, né, tínhamos o vizinho de uma família italiana, né, que a gente se dava muito, muito bem.

 

P/1 – É, que é muito imigrante nessa região.

 

R – Muito imigrante, na verdade o Bom Retiro era metade italiano e metade judeu.

 

P/1 – E essa escola o senhor ficou por quanto tempo, até se formar, como é que foi?

 

R – É, eu fiquei, começou com sete anos, ai numa determinada época, eu acho que no quarto ano foi que a gente mudou pro Imirim, aquilo que eu falei que não deu certo, que vendeu a casa. Aí eu fui estudar numa escola, era uma escola técnica, né, e eu não sei, minha mãe fez de um jeito que eu pulei o quarto ano e entrei na admissão, então fiz um ano lá, depois voltamos ao Bom Retiro e ai eu fui estudar na Escola Tiradentes, era uma escola paga, né, e lá eu me formei, chamava curso básico, eu não sei como seria hoje.

 

P/1 – Com qual idade que é esse?

 

R – Isso daí foi acho que uns quatorze, quinze anos.

 

P/1 – Indo pro colegial, né?

 

R – É, eu acho que seria colegial, porque depois eu passei, eu fiz o curso técnico na Álvares Penteado e acho que seria o científico, né?

 

P/2 – Depois da Escola Tiradentes o senhor foi pra Álvares Penteado?

 

R – É, formei o básico.

 

P/2 – Na Tiradentes.

 

R – Na Tiradentes, que era no Bom Retiro, né, e ai como o meu irmão mais velho fez Álvares Penteado, tinha muito nome, ele achava que era importante, depois eu vi que não era, porque era muito sacrifício ter que sair do Bom Retiro toda noite pra ir até o Largo São Francisco, né, mas eu acabei indo, né, e não era misto, também isso eu acho que foi ruim, não é, estudar só em escola, só tinha só masculino, né, quer dizer, eu não sei, era muito rígido mesmo a Álvares Penteado. Eu falei, eu diria que não foi uma experiência boa pra estudante, né, a única coisa que eu lembro, isso já era, é gozado, foi um pouco da queda do Jango, que eu lembro que teve uma manifestação do... acho que teve um ministro do Jango que veio na... fica ao lado da faculdade de Direito, né, o Álvares Penteado, e a gente tava lá vendo, tentando ver, entrar na coisa, quando veio a PM, né, já com metralhadora, foi assim, uma... que eu lembro bem disso, né, dessa parte.

 

P/1 – O senhor estava dizendo agora há pouco do Kinderland, dos namorinhos, e agora do colégio, que era um colégio que não era misto. Como foi os primeiros namoros, essa época de adolescência?

 

R – Olha, então, era, assim, do grupo escolar não houve nada mesmo, no clubinho é que começava a surgir de ir junto no cinema, eu não sei se naquela época, a gente era bem diferente, bem devagar, né, mas era coisinha assim, de ir no cinema, que já era uma grande coisa, né? Não tinha, só depois é que houve essa... começou a haver mais de ir na casa do povo, ai tinha baile, né, mas até aquela fase, né, era coisinha, era muito simples mesmo.

 

P/1 – E o senhor gostava de cinema pelo jeito então?

 

R – É, eu gostava, era costume, né? Porque na verdade a única diversão era ir no cinema e a gente ia na matinê e era uma coisa maluca, né, passava dois trailers, cinco desenhos, depois vinha dois filmes e depois vinha um seriado. Quer dizer, a gente entrava acho que à uma e meia, saía quase sete da noite, era, você saía tonto do cinema, né, então o cinema realmente era tudo pra gente.

 

P/2 – Isso na sua juventude, assim, aos quinze, dezesseis anos?

 

R – Não, eu diria antes, porque isso começou, de ir em cinema, praticamente desde os dez anos, que é quando foi permitido, né, acho que era a idade mínima, acho que era dez anos pra ir num cinema, então isso veio desde essa idade e direto, né? Não mudou muito esse esquema, até os cinemas irem fechando, né?

 

P/1 – Quais eram os cinemas?

 

R – Era o Marconi, que era um dos mais antigos de São Paulo, nós temos fotos lá no arquivo. Era Cineteatro e o Cine Lupe, ele era enorme, ele foi feito pra ser um cinema pra dois mil lugares, eu nem sei como eles foram pôr o cinema lá, é que também era um costume vir muita gente da Casa Verde. Casa Verde era um bairro ligado que não tinha nada, então eu acredito que por isso que tinha gente de muito lugar, porque só pelo Bom Retiro, né, não daria conta, então houve esses dois cinemas. Fechou um, depois fechou o outro, o outro virou hoje o que é o Centro Comercial do Bom Retiro, é uma galeria, né, então esse foi o choque.

 

P/1 – O que o senhor gostava de ver?

 

R – Olha, por incrível que pareça, fora esses filmes, que muito americanizado, né, o que você falou da guerra, o que eu lembro muito, passava muito filme americano de guerra, sempre aquele heroísmo americano, eles venciam tudo, então isso foi uma fase mesmo, né, muito forte, o filme mais pornográfico que eu consegui ver foi Gilda, né, com a Rita Hayworth, então eu lembro que entrei meio escondido, né, foi difícil pra conseguir entrar, então eram mesmo aqueles melodramas americanos, até porque era assim: o filme só passava no Cine Marconi depois de cinco anos, quer dizer, depois que passou, primeiro passava na cidade, né, naqueles cinemas do Art Palácio, Marabá e Ipiranga, depois de anos é que passava, já o Lux era ligado ao Serrador. Agora, uma coisa que eu via muito, que a gente ficava esperando, eram justamente os filmes da Atlântida, chanchada, tinha uma atração muito grande, né, eu não via a hora que chegasse, o fim do ano, o começo do ano, acho que era antes do carnaval, eles passavam em aviso aos navegantes, todos aqueles filmes, né, eu não sei, eu gostava muito. Hoje a gente vê e a gente caçoa um pouco, né, mas era aquele lá, era uma história, mas cheia de música, na verdade não tinha história nenhuma, era uma música atrás da outra, mas era o que a gente via, né?

 

P/1 – Eram quase musicais mesmo, né?

 

R – É, musicais sim, os nossos musicais.

 

P/1 – E ai então o senhor ta com mais ou menos uns quinze anos, ai o senhor vai pra escola técnica, né?

 

R – Eu acredito que eu me formo em 59 no Álvares Penteado, então eu fui com dezesseis anos pra lá.

 

P/1 – Que era à noite?

 

R – Era à noite.

 

P/1 – E ai durante o dia o que que o senhor fazia?

 

R – Trabalhava já.

 

P/1 – Então conta.

 

R – Eu comecei a trabalhar, assim, acho que com quinze anos, né, quatorze, quinze, mas ai foi, era um emprego, assim, que meu pai arrumou pra mim, era um emprego, uma coisa muito simples, que eu acho que o cara me aceitou até meio que de favor, né? Depois a gente tinha o costume de ficar trabalhando entre patrícios, né, tanto eu como meus irmãos, então era assim: você saía de um emprego e perguntava onde estava precisando de auxiliar de escritório e então eu trabalhava sempre em firmas pequenas, médias no máximo. A gente não comprava o jornal pra ir atrás de alguma firma maior, né, a gente ficava naquele em torno, né?

 

P/1 – E nessa época o seu pai tava trabalhando de vendedor ou de passador?

 

R – É, meu pai é… assim, até onde deu ele montou uma oficina em casa, nós fomos morar numa casa onde ele pôde montar uma oficina de passar, então ele ia nas fábricas, pegava toda aquela confecção, passava, e eu que ia entregar, eu ajudava ele, punha tudo no ombro, né, aqueles terninhos e entregava lá nas lojas, nas fábricas do Bom Retiro. Isso foi até uma época muito boa, né, uma época tranquila, ai meu irmão já tava trabalhando, os dois, houve uma certa estabilidade, né, financeira.

 

P/1 – Os seus irmãos foram fazer faculdade, foram fazer o quê?

 

R – É, meus irmãos também, ele, o mais velho, fez o Álvares Penteado e o outro fez o Tiradentes, fez até o fim na Tiradentes, era técnico de contabilidade e era até meio assim... meu irmão foi trabalhar numa firma, saiu, colocou o outro irmão no lugar, lá na Rua do Seminário, mas aí esse irmão mais velho, ele... eu não sei como ele foi parar na Olivetti, trabalhar com vendas de máquinas, né, uma coisa, e ele se deu muito bem, não é, ele fez uma boa carreira. A Olivetti era uma firma muito boa, não é, então ele ficou no ramo de vendas. O outro irmão sempre como contador de uma firma pra outra, também nesse mesmo esquema que eu falei, nunca trabalhou numa multinacional, era sempre firma de algum patrício, né. E começar a rever tudo... esse meu irmão que faleceu, ele teve uma vida, até foi uma coisa que eu gostaria de tocar no assunto, né, é que ele teve uma atividade política muito grande, sabe? O Marcos, né, e várias vezes eu tive ideia de gravar, dele deixar um depoimento, não é, da vida dele e tudo, mas quando ele ficou doente, ele ficou com câncer no pâncreas, ai é gozado, a gente tinha receio de gravar e dar aquela impressão que é uma despedida, né, fiquei imobilizado. Uma vez eu levei o gravador, coloquei em frente, eu vi que ele olhou, eu acho que a pessoa quando está nesse estado acho que não sei se ela quer já gravar. Por isso que eu já deixei, graças a vocês eu já deixei o meu. (risos)

 

P/1 – Vamos, você saiu da Álvares Penteado, aí o senhor se forma lá no técnico e aí? Com o que, com dezoito anos mais ou menos sai de lá?

 

R – É, dezenove anos, né, foi em 59, é, 59. Trabalhava, como eu falei, eu gostaria de fazer um adendo do Marcos, né, porque é dessa fase, o meu irmão, o Marcos Lev, ele já foi muito politizado, né, eu não sei quem é que acabou levando ele, mas ele pertenceu à união da juventude comunista, ele era mesmo aquele militante simples, nada, ele não era também de assumir cargos, né, mas eu lembro que ele se dedicou muito a isso. Ele acreditava muito no comunismo, na União Soviética, eu lembro que ele fazia alguns cursos que, apesar de que nós estávamos numa era em que não havia perseguição, havia uma tolerância, né, como na época do Juscelino, quando era proibido o partido, as reuniões... mas havia tolerância, né, e meu irmão chegou a ter até reunião com o Marighela. Quer dizer, ele era muito focado na política e eu ia atrás dele, né, tinha uma manifestação e eu ia junto, eu lembro que a gente foi colher assinatura, quer dizer, não podia colher assinatura pela paz, contra a bomba atômica, né, quer dizer, eram as contradições, né, eu lembro que a gente tava pegando assinatura e veio um cara do Dops e falou: “Vocês esperam aqui que eu vou fazer não sei o quê”, a gente saiu correndo, ia esperar ele, mas era assim, eu ia a reboque dele, eu sou franco em dizer, eu nunca tive uma atividade como ele, né, mas ele sempre acreditou muito, participava, e hoje até me recrimino, porque depois que aconteceu tudo aquilo, né, da União Soviética, eu ficava muito que metendo o pau, desfazendo, né, e depois que eu percebi que aquilo era, foi a vida dele... sabe?

 

P/2 – Mas o senhor acompanhava o seu irmão?

 

R – É, mas eu acho assim, sabe, quer dizer, você acompanha um movimento, mesmo que não deu certo você tem que respeitar, né, você tem que ver, aquela fase era aquilo que valia, né, me arrependo um pouco. Ele também fez sua autocrítica, né, quer dizer, as coisas mudaram muito, mas isso é o que eu lembro bem dele, o irmão mais velho não participava, só de ouvir notícias, essas coisas, né, então era assim, foi essa parte dele que eu achei interessante, né?

 

P/1 – Mas ele não sofreu, assim, de ser preso, nada, ele não chegou a...?

 

R – Não, não, a gente... é gozado, tanto eu como ele, a gente só não foi preso porque a polícia era muito burra, porque a gente fazia a escrita da Livraria das Bandeiras, que era do partido. Tinha o Notícias de Hoje, tinha eu acho que a Editora Vitória, tinha no Rio e em São Paulo, e, milagrosamente, a gente a qualquer momento esperava que eles viessem em casa, que primeiro ele fez, depois eu fiz também, até quando parava qualquer pessoa em frente em casa a gente já tinha medo, né, mas é gozado, eles não perceberam, graças a Deus, essas firmas todas, né, então não chegamos a nunca ser ameaçados, né, não houve essa. Eu tive só um colega, né, que trabalhou comigo, ele era... Eu tive um escritório de contabilidade, no meio dessa confusão, meu irmão tinha um escritório de contabilidade no Bom Retiro, em casa, e depois ele foi trabalhar numa firma e passou pra mim o escritório, foi uma desgraça, eu detestava contabilidade, né, e era muita, eu justamente peguei a fase da revolução, onde entrou muitas leis, sabe, começou haver muita exigência, não é, quer dizer, foi uma coisa muito... a gente ficava de madrugada preparando o balanço, porque houve prazos, né, determinados, mas então o meu irmão, justamente ele foi para uma firma, eu fiquei com o escritório, eu não sei se eu to pulando muito, pra cá, pra lá.

 

P/1 – Não, já voltamos.

 

P/2 – Não tem problema.

 

R – É que a gente vai lembrando, né? E aí eu tive a brilhante ideia com um amigo de fazer uma livraria de livros raros e usados, porque ele dizia que ele entendia de livros raros, né, lá na... E foi até engraçado, eu achei uma loja numa galeria, na galeria lá na Barão de Itapetininga, que era uma loja que tava parada, né, era de uma corretora, era um ponto espetacular, mas não era pra ta vendendo livro usado, né, e essa loja ficava em frente à Calil, que essa era famosa, né?

 

P/1 – Até hoje, né?

 

R – É, a gente até brincava que ele era árabe, eu era judeu, e foi, quando a gente tava lá foi a guerra de 67 e o pessoal brincava, né, como é que vai ser, eu falei: “Eu vou lá, eu jogo um tijolo na vitrina dele, ele joga na minha”, mas a gente nunca, deixava pra lá, então era de frente ao Calil, mas o Calil era o Calil, ele era tradicional nesse ramo. Eu lembro que cheguei até a viajar uma vez pro Rio, porque disseram que tinha uma biblioteca muito grande pra vender e eu não sei, a gente tinha uma ilusão, porque não havia nem dinheiro pra comprar essa biblioteca, eu fiquei pensando em arrumar algum dinheiro, quando chegou no dia do leilão quem tava lá era o dono da livraria São José, o maior livreiro do Brasil, né, e ele... no primeiro lance a gente caiu fora, né, ele falou eu dou mil e já deu pra gente, né, então foi. E nessas, era engraçado, que a gente em vez de comprar livro em São Paulo, eu e esse meu sócio, a gente chegou a alugar um quarto em Copacabana, era turismo, né, (risos) pra fazer de conta que a gente ia comprar livros no Rio de Janeiro. Essas loucuras que não têm explicação, né, nem como psicólogo eu consegui explicar como é que a gente fazia isso, e ainda se dava o luxo de ir de avião (risos), quer dizer, não ia pra frente mesmo, né?

 

P/1 – Então, quer dizer que isso foi... Primeiro contabilidade, porque você recebeu nas suas mãos assim um escritório na época de 64, por ai, né, e depois resolveu abrir um negócio de livros.

 

R – É, isso foi até 68, mas foi, era um... ai eu pus até uma, pus duas moças pra tomar conta, pra passar pra elas, né, ver se eu me livrava do escritório. Essa que é a verdade, é difícil você se livrar, porque você precisa estar com tudo em ordem, as escritas, pra passar pra alguém. E nunca tava em ordem, né, faltava isso, faltava aquilo, bom, no final, e ai justamente, foi em 69, ai tinha o Jurandir Pereira, era um livreiro especializado em livros soviéticos, gozado, pouca gente sabe, ele importava livros da União Soviética pra Física, pra Engenharia, eram livros que no Brasil custavam, de uma editora normal, vinte reais, eram vendidos a três reais. O livro soviético era muito barato e ele justamente, ele, quando eu falei que eu queria desistir da livraria, ele se interessou pelo ponto, ai ele praticamente entrou de sócio, mas eu já tava esgotado, ai eu quis sair e eu passei pra ele, fizemos um acordo até muito bom e ai justamente eu fiz o meu sonho, que era ir pro Rio, porque ir pro Rio de Janeiro era uma coisa assim muito forte, fora aquelas viagens de coisa eu gostava do Rio, ai fui, morei um ano no Rio.

 

P/1 – Onde que o senhor morou?

 

R – Então, eu ficava alugando quartos, né, sempre zona sul (risos). Uma psicóloga disse que eu era megalomaníaco, acho que ela tem razão, quer dizer, ia morar em Copacabana, Ipanema, mas eram quartos, né, e foi e eu hoje, que foi muito interessante, né, essa mudança, e eu fui trabalhar num escritório de contabilidade do Rio, porque era o que eu conhecia, né? E quando eu cheguei nesse escritório, porque a gente tinha fama de que o paulista é trabalhador, ledo engano, mas o pessoal acreditava, tudo bem, mas de fato, quando eu cheguei eles faziam à mão a escrita e aqui em São Paulo a gente já fazia tudo, era um sistema ficha texto que era batido à máquina, então quando eu mostrei pro homem esse sistema ele me pôs lá pra tomar conta mesmo do escritório, eu tinha uma porcentagem, né? E fiquei lá um bom tempo, até na hora quando eu falei: “Bom, agora eu vou tirar férias”, ele disse pra mim: “Você não é funcionário, você é autônomo” e ai a gente brigou, lógico que eu tive que sair, né?

 

P/1 – Depois de um ano?

 

R – Depois de um ano. E ai é gozado, eu não consegui arrumar outra coisa, acabei voltando pra São Paulo (risos).

 

P/1 – Quando é que o senhor sai da casa dos seus pais e vai morar sozinho? Como que é essa passagem?

 

R – Então, meu pai tinha falecido justamente em 69, isso eu acho que também ocasionou uma... eu desconfio, o falecimento dele, eu tava com a livraria, meu irmão ainda não tinha casado, morava com a minha mãe, então eu acho que foi uma oportunidade de poder sair de casa, quer dizer, antes não sei, não havia essa... toda... quer dizer, o dinheiro que a gente ganhava era todo dado em casa, a gente, aliás, tinha esse costume de o salário era todo dado pro meu pai e ele é que ia dando quando a gente precisasse, né, mas com... eu não sei, o falecimento dele, a livraria, tava num meio, então foi fácil poder ir pro Rio, tinha o meu tio, né, e minha mãe aceitou bem essa parte, né, de poder ir pro Rio.

 

P/1 – Seu pai faleceu de quê?

 

R – De câncer no pulmão, né, fumava muito o meu pai.

 

P/2 – Senhor Arnaldo, então o senhor tava no Rio, voltou pra São Paulo, o seu pai faleceu ou não, foi antes?

 

R – Foi antes.

 

P/2 – Foi antes.

 

R – Foi antes, por isso que eu digo, houve uma coisa assim de querer sair fora das coisas, né, então foi depois.

 

P/1 – O senhor voltou e foi morar onde, quando o senhor veio pra São Paulo?

 

R – Então, voltei a morar com a minha mãe, ai nessas alturas a gente morou na Rua dos Andradas por dezessete anos, foi onde a gente fixou bem e, como eu tinha dito antes, foi uma fase em que todo mundo tava trabalhando, então a gente também ficou mais... ficou mais arraigado no lugar, não era casa própria, era uma casa alugada, né, então eu voltei e ai voltou a mesma história, meu irmão queria se livrar de uma firma onde ele trabalhava (risos), praticamente isso, e me colocou no lugar dele.

 

P/1 – Do quê que era a firma?

 

R – Era uma malharia de um judeu argentino, né, quer dizer, nunca ganhei tão bem na vida, mas era... ele era louco total, né, era um daqueles neuróticos de guerra mesmo, né, então meu irmão sempre arrumava isso, “aí tem um bom lugar pra você” (risos), porque o homem não deixava ele sair, deixou ele sair porque pôs eu no lugar, né, pra não ter que arrumar outro, enfim, eu fui trabalhar com essa pessoa, então era assim, ele respeitava muito, né, mas era, de novo, era pra mesma profissão e eu nunca me dediquei à contabilidade, de fazer faculdade, porque a contabilidade, ela é bem complexa, então eu só sabia, como se diz, feijão com arroz. Então eu nunca poderia mesmo querer ir pra alguma firma maior. Aí, sempre naquele esquema, e ele, nessas alturas, também é outro assunto, eu tinha ido fazer uma curso de cinema, né, com Márcia Dobarro, era um seminário de cinema, né, e depois do seminário, aí a Álvares Penteado fez um curso livre de cinema, que depois virou o curso mesmo universitário, então o que que acontecia, eu terminava o trabalho e queria ir pra aula e ele tinha um sistema, assim, na cabeça dele, que era assim: toda a roupa que era fabricada naquele dia tinha que ser faturada naquele dia, poxa, não entrava na cabeça dele que se não sair hoje sai amanhã, então a gente ficava até sete, sete e meia, sabe, as costureiras costurando, a gente esperando pra fazer a nota fiscal. Isso foi enchendo, né, foi se tornando uma coisa pesada, ele levava a gente pra ir jantar no Rubaiyat, ele tentava compensar de todas as maneiras essas loucuras dele. Até que chegou uma hora, eu nem sei como eu me livrei dele, acho que eu devo ter posto um outro no lugar, (risos) porque aí fiz esse curso, que foi muito interessante, e nesse curso uma vez veio dar palestra um produtor de cinema, o Maurício Rittner, né, e falando sobre um filme que ele tinha feito, e ai ele tinha um filme que faltava terminar a parte de contabilidade, eu falei: “Bom, agora pelo menos é um assunto” e ai eu perguntei pra ele se ele ia fazer mais alguma coisa, mais algum filme, que eu gostaria de participar, ai ele falou: “Não, nós vamos fazer um filme, estamos já fazendo o argumento, você vai poder participar desse trabalho”. Então ganhava muito pouco, né, também, tanto assim que eu ia trabalhar numa outra malharia, que era um outro lugar, que o meu irmão trabalhou (risos), parecia uma perseguição, mas ai não é que ele saiu, ele apenas me falou: “Seu Isaac ta precisando de um contador”, “Tá bom”, então eu fiquei lá e ficava...

 

P/1 – Qual era o filme?

 

R – Era “A árvore do sexo”.

 

P/1 – Ah, um filme famoso.

 

R – É, era um filme de um autor português, né, então foi legal, né, ter... ai eu podia participar, né, porque eu colaborava, então eu ficava cuidando da parte financeira, da parte da escrita...

 

P/2 – Do filme?

 

R – Do filme, então era interessante, porque esse filme foi feito em São José do Barreiro, que é entre Rio e São Paulo, então a gente tinha um acordo, né, com o Expresso Brasileiro, a gente tinha que pôr as pessoas no ônibus, conforme o nível dos artistas, é lógico, né, porque tinha o pessoal do Rio, era do Globo, era o Felipe Carone, Nádia Lippi, Nei Santana, tinha um pessoalzinho assim que já... então eles vinham do Rio e eu em São Paulo ficava, que nem uma vez tinha uma cena de um prostíbulo mesmo no filme, né, e a gente tinha que arrumar as figurantes, né, então a gente foi mesmo no lugar adequado, né, foi numa boate e já se conhecia uma moça que conhecia as outras, então a gente tinha que fazer isso, era eu e o Gozzi, né, que hoje é... coordena o curso da Álvares Penteado. Então era muito diferente, né, uma atividade meio maluca, pôr a turma no ônibus, os filmes, porque naquela época era assim: você filmava e ai você pegava o filme, mandava pra Líder, aqui em São Paulo, você tinha que pôr no ônibus, chegava na Líder, a gente levava, eles revelavam, a gente de manhã cedo colocava no ônibus, mandava, o diretor era o Silvio de Abreu, né, ai eles viam o filme, se ficou tudo bom, ai continuava fazendo a cenas. Hoje mudou tudo, né, a Jéssica sabe até melhor do que eu, hoje o diretor já ta vendo o que vai sair. Então foi muito, foi uma coisa muito boa, você ganhava pouco mas se divertia, como fala, então foi uma... é uma coisa assim, eu queria fazer cinema, então esse era, foi um jeito, de poder participar, né? Agora, o diretor, coitado, teve sérios problemas financeiros, né, e então quando a gente chegava lá e o ambiente já tava pesado, eles não tinham recebido, quer dizer, teve que lidar com tudo isso, né?

 

P/1 – Mas o filme ficou famoso no cinema, é um filme que ficou bem.

 

R – É, não é do assunto, mas o grande erro dele, que o sócio dele era a Cinedistri, o Massaini, ele brigou com o Massaini e o Massaini preferiu perder dinheiro e podar o lançamento do filme, então foi uma pena, né, era uma coisa que podia ir mais adiante, depois da experiência que eu tive, ir pro Rio atrás de todos os artistas para eles assinarem, pagar e assinar os recibos, então fui na casa de todo mundo, né, foi uma coisa assim meio maluca.

 

P/1 – Sempre tinha uma maneira de chegar até o Rio, né?

 

R – Sempre tinha maneira de... e foi nesse filme até, Kadu Moliterno, por exemplo, ele começou fazendo uma pontinha, aí uma das atrizes, ela puxou ele pra Globo e aí ele foi, né? Eu sei que foi gozado, depois desse filme todo mundo começou a se ajeitar, o Antônio Petrin, que tava aí meio parado, todo mundo começou a aparecer mesmo, né?

 

P/1 – Mas o senhor tava num lugar nesse filme, tava na Rua Prates, que era também um movimento buchicho, né, grande, político, né, até o Prestes ficou ali. O senhor tava no meio de um monte de coisa.

 

R – É, essa parte, você diz, a parte de... Porque isso foi em 76 já, aí, bom, aí eu morava com a minha mãe, os dois irmãos tinham casado, né?

 

P/1 – E o senhor tava morando com a sua mãe, era o senhor e sua mãe só?

 

R – É, aí era eu e minha mãe já e de fato meus irmãos tinham que ajudar, né, porque eu não tava bem financeiramente, né, não havia grandes ganhos, né, nessa parte.

 

P/1 – E ai esse filme encerrado o que que o senhor foi fazer depois, quando acabou?

 

R – É, o filme, por isso que eu digo, apesar de tudo ele não influenciava muito, né, porque eu não ficava lá o tempo todo, eu ficava mais acompanhando porque eu queria, né? Depois, deixa eu ver, assim, depois disso eu também tenho uma fase assim que eu fiz muita terapia, eu não sei, eu gostava muito de terapia, eu toda hora tava enfiado em grupo, eu gostava mais de fazer grupo e fui fazendo, fazendo, até uma hora que a Maria, a Soero, terapeuta, porque eu ficava, no final eu ficava quase que um observador do grupo, né, então ela falou pra mim: “Olha, Arnaldo, por que você não vai fazer Psicologia? Se você gosta, você saca”, ela achava que eu sacava: “Você saca já as coisas, só que isso já não é mais terapia, então vai”. E aí foi que eu fiz um vestibular na Paulistana, eu digo, milagrosamente que eu passei.

 

P/1 – Quando que era isso, Arnaldo? Só pra entender mais ou menos, quando que era no tempo isso?

 

R – Ah, isso era em 77 para 78, foi nessa fase, que eu tava afastado dos estudos, né, nunca mais tinha visto nada de nada e quando eu cheguei lá no meio de toda aquela meninada, né, eu falei: “Não vai ter a menor chance”, eu não sei como eu passei e ai eu então fui fazer o curso de Psicologia e nesse meio tempo, aí também meu irmão, ele me arrumou pra trabalhar na Adidas. Ele ia trabalhar lá, mas ele não quis, então fui eu no lugar dele e foi, lógico, uma época boa. Era uma firma, uma multinacional, né, então eu não era contador, existia um contador, quer dizer, eu tinha mais que preparar documentos pro Rio, então isso deixava mais tranquilo, né, eu era apenas uma pessoa de confiança, eu tinha uma procuração, quer dizer, era mais uma coisa assim, não exigia tanto, assim, aquela minha preocupação, né, da contabilidade. E então eu fiquei na Adidas até... eu fiquei até 1980, 81, aí eu tinha, justamente quebrei a perna, dei esse azar, eles tiveram que optar entre duas pessoas, optaram pela outra pessoa e eu saí.

 

P/1 – O senhor quebrou a perna como? O senhor caiu?

 

R – É, eu tinha justamente ido no enterro daquele tio que eu falei, do Rio, e na volta eu desci, a gente em vez de pegar um táxi, quis economizar, ir de ônibus e correndo na rua eu pisei num buraco e quebrei uma perna, não muito forte, mas quebrei, né? E me imobilizou num momento ruim. Mas é gozado que foi a melhor coisa que aconteceu, assim, de ter saído da Adidas, né, porque de fato como contador eu não via futuro pra mim, se eu saísse da Adidas eu não teria nenhuma outra opção, então o que que aconteceu? Eu saí da Adidas e dei uma pequena parada, aí eu ficava fazendo bicos, né, então tem os fiscais do Estado, por exemplo, eles vão fiscalizar as firmas, eles trazem os livros e na verdade eu que fazia o... eu ficava procurando os erros, né, as coisas, eu ficava um intermediário, fiquei um tempo nisso, porque era muito pro forma, né, não registrava, dava pra ganhar alguma coisa, né, dava para, vamos dizer, sobreviver. E quando foi em 82 minha mãe faleceu, né, foi em maio de 82, e coincidiu, né, porque, bom, antes disso, pra falar alguma coisa, não gosto de falar muito da questão de política, mas eu, como era contador, eu fui trabalhar com o Goldman, né, o Goldman tinha uma construtora normal, ele nem tava na política, né, pra mim ele é acima de qualquer suspeita mesmo, não do ponto de vista de ideologia, né, agora, mas ele era uma pessoa... então eu fui ser contador dele, mas ainda à nível de não trabalhar interno, né, e então eu fiquei um tempo, depois participei, ele foi deputado estadual e eu participava, né, porque ele era do partido, ele era da comunidade, havia aquela coisa, e aí ele resolveu montar o diretório do Bom Retiro e aí o filho dele veio em casa e nós montamos o diretório, eu acho que eu era tesoureiro e foi na campanha de 82, foi a campanha do Montoro, né, era Montoro, Maluf e eu, assim, entrei com tudo, como eu não tinha muita atividade a gente saía todo dia de porta em porta, eu fui fazendo a campanha inteira assim, porque primeiro, também aí é uma parte social, né, o pessoal que trabalhava com o Goldman era tudo de nível universitário, era gente muito cabeça, pra mim foi muito bom, porque eu conheci um monte. Para mim era social aquela atividade, não era tão política, né, foi uma maneira boa, assim, de estar no meio de um grupo, né, mas também havia essa coisa de derrotar o Maluf, quer dizer, a gente tava empolgado e quando entrou o Montoro, entrou o Goldman, né, o resto, o Tenório, entrou todo mundo, né, bom, nessas alturas eu também fazia um estágio na penitenciária do Estado, eu não sei até hoje como eu fui parar, porque que eu fui lá na penitenciária, porque eu não conhecia ninguém.

 

P/1 – Estágio de quê?

 

R – De Psicologia.

 

P/1 – O senhor tinha se formado já, se formando?

 

R – É, eu tava formando, tava no meio do caminho. Eu nem sei, acho que eu li uma reportagem, tinha um, aquele... um repórter policial famoso, e acho que eu li uma reportagem sobre a penitenciária e me impressionou aquilo lá.

 

P/1 – Eu posso só perguntar, segura rapidinho, só perguntar como é que foi esse período da faculdade, que o senhor não contou muito, a experiência, tal, só pra entender um pouco.

 

R – Ah, sim, como foi a formação?

 

P/1 – É, entrar, como é que foi essa coisa nova, depois de um tempo sem estudar?

 

R – É, veja, então, no começo foi mesmo, foi difícil, né, você voltar a toda noite ter aula, né, e do ponto de vista acadêmico não foi uma boa experiência, não foi uma USP, onde eu vejo, uma PUC, né, que eu vejo aquele ambiente, sabe, aquela faculdade onde todo mundo vai à noite cansado, né, então não havia, assim, muita interatividade, eu conheci muito pouca gente, do ponto de vista social, alguns trabalhos em grupo e então era aquela faculdade particular, com os professores razoáveis, né, um bom, outros nem tanto, então eu acho, assim, a minha formação, ela foi indo, sinceramente, aos trancos e barrancos. Era passar de ano, você não curtia muito, só tinha uma professora, a Marlene, que ela era muito cabeça, ela tentava levar pra um lado melhor, né, o resto era Fisiologia, era Comportamental, então eu sei que eu tinha que me formar e até com dificuldade. Cheguei a ficar com “DP” várias vezes, né. Então essa, quer dizer, eu gostava de Psicologia, mas essa Psicologia da faculdade ela não era o que era a terapia, tanto assim que no quinto ano era o ano que se fazia a parte clínica, né, eles tinham uma clínica, mas a gente era tão despreparado, né, que eu uma época resolvi que eu queria ser o terapeuta, que os outros ficavam no espelho atrás, né, e quando a pessoa entrou eu paralisei. Sabe, eu não sabia o que falar pra ele, a gente não tinha a menor noção, eu era bom pra dar palpite, quando o outro era terapeuta eu fazia, eu repetia o que eu fazia nas sessões, né, eu chamava a atenção dela: “Ó, ele quis dizer isso, ele quis dizer aquilo”, era bom, assim, nessa parte, mas eu não pude, assim, o que eu aproveitei foi depois mesmo, né, foi a terapia, a terapia sim, ela é tudo, você faz terapia e já ta absorvendo, então essa parte do estudo não tenho muito, assim, nenhuma grande coisa pra falar, né, foi uma faculdade feita e pronto, pra pegar o diploma, né?

 

P/1 – Aí o senhor em algum momento da faculdade achou esse estágio na penitenciária.

 

R – É, que foi, mesmo assim eu tive que pegar supervisão fora da faculdade, sabe, ai eu não sei, eu tinha a preocupação de tentar fazer um trabalho legal, saber o que estava fazendo, né, então a gente pegou, começou com os presos que entravam na penitenciária, então eles chamavam, eles davam um nome, o preso ficava dois meses isolado dos outros e você tinha que fazer um trabalho com ele pra mostrar pra ele a penitenciária, como era, e ai a gente começou a fazer grupo e foi uma... aí sim, que trabalhar com grupos foi uma experiência, como dirigir um grupo, como fazer um para... e toda aquela história, né, e aí sim, a gente pegou eu e a outra psicóloga e mais uma estagiária também e ai a gente pegou uma pessoa que trabalhava com o [José Ângelo] Gaiarsa e ficamos trocando ideias. Faz isso, faz aquilo, sabe, ele quis dizer isso, como manejar um grupo daquele e era uma coisa assim, os presos gostavam muito, porque eles estavam chegando na penitenciária, quer dizer, eles estavam acostumados com aquela coisa. Isso também, vamos abrir um parêntese, eu entrei na época do José Carlos Dias, quer dizer, ele foi, aliás, eu entrei por causa dele também, né, houve um acordo, ele e o Goldman para eu poder entrar, mas de fato eu fazia muita fé nele e queria dar a virada, aquilo que a gente lia nos artigos, aquela opressão, ele, o José Carlos Dias, ele, a cabeça dele era outra, a gente sabe. Então isso, e nisso aí houve essa mudança também no sistema, né, e depois que acabava o grupo, quer dizer, o pessoal fazia um tipo de uma avaliação e eles diziam que eles não esperavam encontrar uma coisa dessas, que realmente, mas era muito pouco em relação ao tamanho, né, então essa parte, ai depois desse, nesse estágio a gente tinha... o bom é que a gente era livre pra fazer grupos, fazer qualquer tipo de trabalho, nesse meio tempo foi que a fundação, eu entrei na Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso, através de todo esse esquema lá mesmo, aí você tem que fazer o que a fundação quer que você faça profissionalmente, né? Então eu ficava, eu colhia as penitenciárias, ela até funcionava bem, a fundação, a parte escolar, os presos davam aula, você levava o material, você via ele dar aula, você levava jogos, enfim, era uma coisa assim de ficar correndo penitenciárias, né. E aí nesse meio tempo começava a haver mudanças, quer dizer, de repente o José Carlos Dias enfraqueceu, entrou uma linha dura, sabe, aí você sentia, quer dizer, que mudou tudo e o pessoal da segurança odiava a gente, porque eles achavam que a gente tava lá pra passar a mão na cabeça de preso, eles aprontavam, às vezes punham a gente em situações até perigosas, mas, enfim, aí era preferível, depois cheguei à conclusão, fazer mesmo aquele trabalho da fundação, que era mais prático, né, porque tinha as oficinas de trabalho, então eu fiquei lá, fiquei uns dez anos, quer dizer, variando. Aí, bom, aí num determinado momento eu queria ir pra saúde, eu queria justamente ser psicólogo, né, aí também tem questões políticas. Eu consegui ir pra área da saúde, fui trabalhar lá em Perus, né, e aí sim, nessa nova área eu precisei de supervisão, porque é aquela história, você atende a pessoa, mas não absorve tudo, então a supervisão vai chamando a atenção, fui fazendo grupos de estudo, então foi uma fase, assim, eu considero boa, né, trabalhar na saúde.

 

P/1 – Aonde o senhor foi trabalhar?

 

R – Eu trabalhava lá em Perus, num centro de saúde.

 

P/2 – Centro de saúde. E na fundação o senhor era funcionário da fundação ou era funcionário do Estado?

 

R – Eu era funcionário da fundação, era uma autarquia, né, tanto assim que a gente era regido pelo INSS, não era funcionário público, era uma... agora é concurso, na época era mesmo indicações, né?

 

P/1 – Só dessa experiência que o senhor teve, só pra entender antes da coisa da saúde, umas coisas que ficaram, curiosidades, a sua mãe faleceu em 82 o senhor disse?

 

R – Foi 82.

 

P/1 – Do que que ela faleceu?

 

R – Ela, não. Foi infarto, né, foi uma série de problemas, né, que culminou com o infarto mesmo.

 

P/1 – Foi mais ou menos a mesma época que depois o senhor começa a fazer a campanha com o Montoro e entra no presídio?

 

R – É, porque foi até assim, né, quer dizer, por isso que eu digo, essa parte política não era como hoje, hoje o ambiente deve ser terrível, era uma coisa muito ideológica. Por isso que eu digo, as pessoas eram legais, então pra mim foi até um salva-vidas, né, quer dizer, de estar no meio de todo esse pessoal, então, quer dizer, o falecimento dela, é gozado, né, porque ela dependia muito de mim, ela tinha tido um pequeno derrame, nem chegou a derrame, eles falam uma isquemia, onde ela, se eu saísse ela já ficava desesperada, né, uma vez eu até fui, viajei pra Santa Catarina, coitada, ela entrou em pânico, então foi um ano assim, difícil, de muita dependência dela, não que eu digo graças a Deus, né, mas com o falecimento dela eu fiquei sozinho, quer dizer, de repente você não depende de nada, né, você só depende de continuar ganhando algum dinheiro, né, de... mas já não havia aquela, coitada, aquela dependência dela.

 

(Troca de fita)

 

P/1 – Depois que a sua mãe faleceu o senhor ficou naquela mesma casa? Como é que foi?

 

R – Era um apartamento, bom, aí houve, pra dizer a verdade houve algumas mudanças, né, a gente saiu daquela casa, porque ficou eu e minha mãe e era uma casa grande, cheia de problemas também, não é, então nós fomos mudar num apartamento no Bom Retiro e depois mudamos pra um... Até um senhor que eu conheci, ele morava numa cobertura lá na Guarani, no Bom Retiro, e sabia, né, que ele, eu tinha visitado ele, aí falei com o filho dele, a gente foi morar lá no... nós alugamos, né, não era da pessoa, era alugado, e fiquei lá com a minha mãe, foi, eu acho que foram alguns anos, viu? Então quando ela faleceu eu continuei, na verdade era pequeno, era quarto e sala, eu dormia na sala, né, montava lá a minha cama.

 

P/2 – Que ano ela faleceu?

 

R – 82, ela eu acho que tinha setenta, talvez setenta e um anos, né?

 

P/1 – E durante esse período que vem depois, que o senhor tava contando do trabalho com prisioneiros, tal, o Brasil mudou muito nesses dez anos que o senhor trabalhou ali, né, democracia, tal, como é que foi essa mudança, você foi acompanhando isso trabalhando lá dentro? Como é que foi pro trabalho do senhor?

 

R – Então, era, o sistema, bom, é que... veja, a gente começou com o Montoro, por isso que eu digo, quando você, até falar do PMDB, né, foi aquela fase de ouro, idealismo, mas todo mundo foi se encaixando na máquina, eu mesmo acabei sendo, indo pra fundação, o outro foi pra Secretaria de Planejamento e foi aí que foi perdendo a graça, foi deturpando, porque você está lá trabalhando, aí você é outra coisa, é gozado, não havia... Eles mandavam fazer boca de urna, já era sacrifício, sabe, era chato para o cara: “Vota nesse fulano”, não era como Montoro, era o Montoro e Maluf, aí você tinha tudo na mão, né, o Maluf servia até pra isso, né, pra você ter entusiasmo, né, de poder ir contra, então de fato... e o PT, lógico, foi o Suplicy até pelo PT, se não me engano, né. Então, depois disso o Goldman tinha um sistema que ele reunia as pessoas, debatia projetos e tudo mais, ele não tinha muita força, o Montoro, não, a força do Montoro era o Serra, o Fernando Henrique, eram o grupos da Associação Católica, não é isso? 

 

P/1 – Hum hum.

 

R – Parece que eles tinham um... eles eram de uma parte, os católicos progressistas, lógico.

 

P/1 – Aí foi pra fundar o PSDB, né?

 

R – É, depois foi, então aí que começou a cair a parte social, já não se reunia, né, quer dizer, aí você, a outra eleição você lutava, quer dizer, depois veio o Quércia, você lutava pra ele ser eleito e você continuar lá, porque eu acho até que não tinha outra alternativa, né, mas também era tudo ligado, eu digo até que eu dei tanta sorte, né, que a turma, quer dizer, passou o Quércia era PMDB, depois  veio o Fleury, quase por um triz, e no dia de, no último dia de apuração a gente tava louco, né, porque é lógico, a gente perdeu vai tudo no embrulho, vai emprego, infelizmente é isso, né, você acaba virando um, dependendo de, não é concursado, né, mas aí entrou o Fleury [Luiz Antônio Fleury Filho], depois entrou o Covas, né, parece, ai o Goldman já tava no PSDB, então tudo bem, continua, né, depois o Covas foi, eu não sei quando ele faleceu, acho que foi em 90 e pouco, 92, 93, né?

 

P/1 – Que o Maluf volta depois, né?

 

R – Não, não, o Maluf não volta, foi Covas, foi Alckmin, que também era tudo do mesmo grupo. Bom, aí foi quando eu saí, então, mas de fato a parte política infelizmente acabou totalmente, sabe, a gente, eu pelo menos não via a menor possibilidade, até porque era engraçado, né, porque quando o Goldman foi pro PSDB, então uma das assessoras dele falou: “Olha, Arnaldo, você mora em Pinheiros”, ai eu morei também, fiz um roteiro aí de São Paulo que...

 

P/1 – O que o senhor fez?

 

R – Que eu ficava alugando quarto, nossa, mãe, eu ficava mudando daqui pra lá, uns seis meses aqui, um mês lá e na época eu tava em Pinheiros: “Agora você vai pro PSDB de Pinheiros, vai lá no Diretório”, eles não deixaram entrar, então já não era um partido, eles eram, o pensamento de todos os partidos era assim: você ta no poder, quanto mais gente mais você tem que dividir, então eles não queriam que eu entrasse, nem eu nem ninguém, isso até o Goldman subir depois, né, mas aí a parte política ficou assim muito ruim, né, eu não penso mais como eles, né, não tem nada a ver com nada e então foi uma pena pra mim, porque era bom participar, né, mas não tinha mais nada.

 

P/2 – Até então o seu trabalho com política era voluntário? Era um trabalho voluntário, tinha lá o trabalho como psicólogo, mas o trabalho como militante era voluntário?

 

R – Olha, era assim, como eu falei, depois do Montoro eu não sei se era tão voluntário, você tinha que estar lá presente para se garantir, sabe, então uma época, por exemplo, o Serra, ele era secretário de planejamento, então o que que fazia, ele tinha assessor, ele convidava os diretórios e a gente ia lá pra fazer número, pra estar, dizer: “Ó, estou aqui, eu faço parte do grupo” e sabe, você pensando, né, você tem que pensar, eu pensava no futuro um pouquinho, né, então não havia, era voluntário que ninguém ganhava nada, mas havia um interesse, né, de que a pessoa ta te vendo, né, não querendo entrar em política, né, mas era, a gente sentia, era gozado. O Quércia, por exemplo, eu tinha uma experiência boa, sabe, quando você ia ver o Quércia ele tinha prazer em receber as pessoas, todo mundo, sabe, aquele político tinha prazer, sabe, não é aquele cara, o Serra não conseguia nem mesmo disfarçar a insatisfação de ter que falar com você, aquela cara assim meio... sempre aquela cara, então era uma coisa assim, você tinha que ir, não tinha outro jeito, você tinha que estar no meio do pessoal. O Goldman, aí já tava em outra esfera, ele tava em Brasília, então a gente não, tinha de vez em quando algum contato, alguma coisa, sabe, mas já não se fazia nada, né, então eu acho que foi uma perda grande não poder participar, né, de coisa, foi chato tudo isso.

 

P/1 – Arnaldo, só trazer um pouco dessa história que tá lá atrás, seus irmãos nessa época, 80 pra frente, o que eles estavam fazendo, trabalhando no quê? Estavam casados, o que eles estavam fazendo nessa época?

 

R – Certo. Então, o Samuel, como eu falei, ele sempre trabalhou em vendas, né, ele, depois da Olivetti ele foi pra chamada Dismac, porque é gozado, o ramo de vendas, ele tem uma particularidade, quando você trabalha em firma grande é gozado, quando o gerente de vendas, ele ia pra uma, que nem eles foram pra Sharp, ele puxava todo mundo, então era como um grupo que você ia trabalhar na Sharp: “Ah, agora vou pra Prológica”, aí puxava todo mundo na Prológica, então o meu irmão teve uma fase boa, assim, pegou uma fase da informática, né, ele, meu irmão teve uma fase boa e eu considero, né, um bom casamento, os filhos estudavam muito bem, né, estavam direito. O meu irmão Marcos, coitado, ele vivia um pouco naquele passado da política e ele, como eu, ele não desenvolveu a parte de contador, né, então ele trabalhou primeiro, ele teve uma fase boa de trabalhar com, eu lembro, o Senhor Lucin, era uma pessoa muito agradável, né, uma pessoa, você precisa ter essa sorte, depois ele foi trabalhar... ai tem uma coisa assim que a gente chama judeu sefaradi e ashkenazi, ashkenazi é o europeu e sefaradi é o judeu árabe e é uma diferença muito grande de pensamento, né, não é que um é melhor ou pior, sabe, a maneira de se comunicar é muito diferente, o judeu europeu é mais, assim, acessível, mais afetivo até, o judeu árabe, ele é muito seco, ele é, eles são, assim, muito objetivos, né, e meu irmão ficou trinta e poucos anos nessa firma onde eu sei que ele não tava bem, né, a mulher do dono trabalhava lá, ela irritava muito ele, coitado, o meu irmão, essa parte dele foi sempre... coitado, aquela queixa de estar num lugar onde ele não crescia nada, ele até que ganhava bem, o meu irmão, mas ele, não sei, ele, eu acho até isso: o fato de não ter mais política nenhuma pra fazer, ficou concentrado na família e no trabalho. Quanto à família eu não sei se a gente pode falar, quer dizer, eu acho que ele casou muito mal, né, quer dizer, meu irmão casou com uma pessoa muito problemática, né, bipolar, então, coitado, eu sentia que ele tinha uma vida, era muito, era muito agitado, porque a pessoa que não se trata, a pessoa que se trata, ela, pode ser o que for, eles chamam agora de transtorno de personalidade, eles não chamam mais esquizofrenia, nada, transtorno, mas a pessoa que se trata... e ela não se tratava, então eu vi meu irmão anos e anos, sabe, ele ligava pra mim todo domingo pra gente sair e então ele dizia pra mim, quer dizer, aquela instabilidade dentro de casa, a mulher chegava num pique que Deus me livre, a gente tava vendo televisão, ela entrava na sala falando, “eu to vendo televisão”, quer dizer, não adiantava nada, então essa parte do meu irmão, ele ficou... Por isso que ele recordava muito o partido, era aquela coisa, sabe, era o bom, tava lá atrás, mas era, ele era favorável ao PT, mas você não participa, né, com essa... eu não sei se alguém é do PT, mas é muito difícil hoje em dia de participar, é gozado, não querem que você participe, então meu irmão acho que ficou no ar, coitado. O Samuel, ele é aquele petista, mas só de simpatizante, tanto assim que ele não consegue enxergar nada, eu falo com ele, ele só vê maravilhas, né, da coisa, mas não participa, agora, o Samuel, justamente, ele, essa área de vendas é uma área, lógico, mais interessante, né, ganha mais. Nem sei, como eu falei, não sei se ganha mais, ganhava mais que o Marcos, mas é lógico, sair de casa e vender, e ele teve uma fase de ouro, que ele foi vender seguro americano, é um seguro que é feito, né, não é como feito aqui, é um outro, mas é uma área, assim, que se ganha muito dinheiro, né, aquela ingênua, enquanto eles estavam bem, ninguém esperava por tudo aquilo, né? Mas ai meu irmão teve uma fase que era assim: ganhava prêmios, viajava pra fora, uma hora eles iam pro Canadá, outra hora eles iam lá pra uma... esses lugares que a gente chama exóticos, né, essas ilhas não sei o quê, a firma pagava, né, então ele, o Samuel, deu uma virada, quer dizer, tinha chance de estar viajando pra Itália, pra cá, pra lá, tudo por conta, era um sistema da firma, você atingia a produção então você ia lá, ganhava a tua medalhinha e fazia aquela festa toda, né, então essa parte e os filhos estudando bem, a filha Direito na São Francisco, o outro na Fatec. Então o Samuel, ele teve mais sorte, né, e o Marcos, justamente chegou uma hora, assim, ele primeiro ficou muito doente, teve um problema, diabetes, né, que aconteceu, e ele ficou quase uns dois meses no hospital, quando ele saiu ele disse que não aguentava mais trabalhar e pediu pra eles mandarem embora e fazer um acerto, né, e isso foi assim, quer dizer, eu acho que não sei até onde influiu nessa doença, mas essa parte deles foi, o que eu posso dizer? Foi isso, né?

 

P/1 – Tá bom, eu queria então voltar um pouquinho, que você contasse esse momento em que você começa a circular por São Paulo alugando várias... qual foi esse momento, como é que foi essa experiência e até quando parou isso?

 

R – É, quando parou, é... Porque foi assim, bom, aí vamos, tem que falar o seguinte: em 95 eu tava lá no centro de saúde, aí voltei pra penitenciária feminina, mas aí fazendo laudos criminológicos, que era uma coisa muito chata, sabe, quer dizer, pegar aquelas meninas, ficar aplicando teste e você ou vai pra condicional ou fica onde ta, que era terrível, né, você dizer pra ela. Eu, pra dizer a verdade, não reprovava mesmo, eu tinha medo, mas, enfim, era um trabalho, assim, era uma coisa que era um faz de conta na verdade, quer dizer, não era trabalho, eu só tinha, assim, aos sábados elas faziam teatro e eu então me dispunha a ir na penitenciária e ficar com elas, precisaria que alguém ficasse, ai era legal, eu me dava muito bem, algumas eu já conhecia de outra penitenciária, né? E também eu tive uma fase boa, que eu ia toda semana pra feminina de Tremembé fazer um jornalzinho com elas, então era coordenar pro jornal sair, uma queria meter o pau na diretora (risos), ai você tinha que fazer um jeito que mudasse um pouco aquela conversa e a diretora querendo saber de mim, como é que elas estavam comportadinhas, você ficava no meio dos dois, né, no meio, autoridade e o preso. Então até que foi uma coisa, viajava, né, Tremembé é perto de Taubaté, então essa fase, mas depois quando eu voltei pra feminina, que eu tinha que fazer só laudo. Ah, nesse meio tempo aconteceu a rebelião do Carandiru, quer dizer, aí mudou tudo, né, quer dizer, aí já você sentiu que o ambiente gera confronto, né, não com a gente, mas a gente já também não era, sabe, você já não entrava lá tão sossegado. E foi uma coisa, assim, que contaminou muito depois, você perguntou uma hora sobre como eram as mudanças, então, as mudanças eram governo Fleury, né, linha dura, quer dizer, nada de reabilitação, quer dizer, então é um, foi um trabalho, assim, chato, né? Você não ta fazendo nada, né, daquilo que você pensa, que você podia fazer, então esse trabalho de laudo, né, eu tive uma época até, eu peguei aquela que sequestrou o Abílio Diniz, né, ela era de onde? Não é Canadá... Bom, eu sei que, por isso que eu digo, havia, não era assim uma coisa tão tranquilo. Tinha uma que falou, essa era do comando vermelho mesmo, ela falou pra mim: “Eu nem sei o que o meu marido vai fazer se eu não sair da condicional”, eu falei: “Por mim já tá lá fora, eu acho que você é ótima, você trabalha, você faz teatro, você é uma pessoa muito legal, se depender de mim...” (risos), um trabalho que nossa, mãe! Mas aí eu queria voltar pra fundação, interno, fazer aquelas visitas e coisa, mas eles não quiseram, eu acho que eles ficaram chateados, porque eu saí de lá e fui pra saúde, quer dizer, foi uma coisa que não se faz muito, né, você perder funcionário e ainda pagar pra ele, e aí eu resolvi pedir demissão, pedir pra ele mandar embora, que era a mesma diretora que me colocou. Eles não queriam mandar embora, então eu pedi pra ela, eu queria pegar o fundo de garantia e aí eu resolvi fazer uma coisa que eu queria há muito tempo, viajar pra fora, né, aí fui pra Itália, porque um amigo meu trabalhava lá. Ah, bom, um capítulo à parte é que eu trabalhei no O Hebreu, era uma revista onde eu fui falar pro homem que eu queria, que eu também queria fazer algum bico de trabalho até de escritório, ele falou, porque eu não poderia ser, se eu não queria ser jornalista, eu falei: “Mas eu nunca escrevi nada”, ele falou: “Não tem importância, você vai aprender” e aí foi gozado, o primeiro trabalho era de um senhor que era professor, né, e ele veio da mesma, lá da Romênia, da mesma terra que a minha mãe, quer dizer, ele escreveu sobre e eu tinha que dar um... transformar aquilo numa coisa, numa linguagem acessível, e ele era anticomunista ferrenho (risos) e eu tinha que, então ele falava: “Malditos comunistas”, eu fui tirando. Mas foi um trabalho, assim, engraçado, porque você lê e tem que, você tem que transformar. Foi uma experiência, né, numa linguagem pra pessoa ler, fora essa questão de tirar mesmo, essas coisas que ele falava e eu não poderia publicar, né, então esse foi o primeiro trabalho, transformar a entrevista dele numa coisa boa, sabe? Não era bem uma entrevista, era como um material que ele deu pra ser publicado. A partir daí, aí eu comecei a fazer, tinha um, era assim: o Hebreu e a Hebreia do mês, quer dizer, era alguém da comunidade ou que tinha muito dinheiro ou que fazia mesmo algum trabalho comunitário e aí foi interessante, né, porque você... Aí fiz, assim, um pouco isso que vocês fazem, né, porque eu chegava pra entrevistar, aí aquele negócio, são organizações pioneiras, são coisas de mulheres, de fazer trabalhinhos, trabalhos importantes também, né, mas era, é uma coisa assim, sabe, é puramente... eu não sei como dizer, não é uma coisa, assim, intelectual que elas faziam. Então eu me interessava era justamente na vida delas, de onde elas vieram, porque todas vieram, muitas vieram, aí é, aí eu até inverto aquela situação que eu falei de sefaradi e ashkenas. O sefaradi é gozado, ele te recebe em casa mil vezes melhor do que o europeu, é gozado, é uma tradição árabe, porque eles eram árabes, é uma tradição árabe de receber bem, é uma coisa que tá lá do tempo de Abraão, eles falavam que Abraão, você tem que, o hóspede é tudo, é um negócio assim, então era até gozado. Então ia na casa deles, mas aí eu procurava, assim, me interessava mais saber a história, como é que chegou no Brasil, o que que fazia lá, porque era um roteiro, coitado, era sair da Síria, aí vai pro Líbano, ah, tá ótimo no Líbano, daqui a pouco começa a perseguição no Líbano, aí eles vão pro Egito, aí vem o Nazer, vem aquela guerra da coisa, aí eles são expulsos e vem pro Brasil. Então era toda uma... sabe, é tudo refazer o tempo todo. Então essa experiência eu achei que foi boa, né, de estar escrevendo, né, e ter algumas entrevistas, são simples, outras eram mais... a pessoa tinha mais coisa pra falar, não é, então isso eu fiquei uns quatro anos, é isso que eu ligo justamente até com esse trabalho do arquivo, lá que eu fiquei vendo como é que a comunidade trabalhava.

 

P/1 – Mas era em paralelo com qual outro trabalho?

 

R – Eu tava na penitenciária.

 

P/2 – O senhor não pediu demissão, foi isso?

 

R – Não, isso foi bem antes, justamente foi antes, eu comecei a trabalhar na revista em 93, aí eu tava na... é porque a fundação eu trabalhava meio dia e quando eu fui na saúde também era meio dia.

 

P/1 – O senhor saiu da saúde por qual motivo, como é que foi?

 

R – É que foi municipalizado, a época da Erundina, que eu acho até que foi uma época boa, mas aí a gente teve que sair, porque já não era do Estado, aí eu fiquei um pouco numa creche, que era terrível, né, uma creche dos funcionários, que ninguém fazia nada com as crianças, eu tinha ido lá pra ver como as pajens trabalhavam e tudo mais e elas não trabalhavam, elas não faziam nada de nada com as crianças, e aí eu voltei, acabei voltando também por imposição da fundação. Aliás, acho que eu pedi pra voltar e ai: “Então você vai pra feminina, você vai ficar lá”, aí tudo bem. Então ficou esse trabalho paralelo, porque na O Hebreu não se ganhava muito, era pouco, era simbólico, o Elial Shultz (?), que era o dono, eu já conhecia ele de muito tempo, ele, a Dona Rosa... Então era um trabalho, assim, que satisfazia, né, era uma coisa interessante eu achei.

 

P/2 – Qual era a periodicidade desse jornal?

 

R – Ah, ele era, seria, uma vez por mês, aí atrasava. O certo era ser todas as doze edições, né, mas ele tinha uma luta de arrumar dinheiro, de conseguir papel, tudo, eu justamente às vezes ia entrevistar alguém que poderia ser também, ajudar, o que já ajudava, né, no caso da Suzana Feffer, né, então a gente, ele vivia, coitado, a luta dele era a revista sair e era uma revista que ela tinha em todos os estados, tinha alguém fazendo o que eu fazia, quer dizer, uma parte, assim, de notícias sociais. Não era o caso, mas entrevistas, então é gozado, você lendo, você lê hoje O Hebreu, você sabia tudo o que se passava na comunidade toda.

 

P/2 – Do Brasil?

 

R – Do Brasil todo, dos principais lugares, em Belém do Pará tinha uma comunidade, Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba, nos lugares assim, né?

 

P/2 – E esse jornal não existe mais?

 

R – Não existe mais, ele, não sei quando eles pararam, mas ele eu acho que ficou muito doente, ele faleceu uns meses atrás, né?

 

P/1 – E foi nessa época que o senhor começa a pular de vários quartos?

 

R – É, aí o dono do apartamento onde eu morava na Guarani, ele pediu o apartamento e eu cheguei até a alugar uma vez mais, mas eu achei que era muito custo, condomínio e tudo mais, e comecei a fazer essa experiência, aí também fui me livrando de muita coisa que eu tinha, então eu procurava alugar uma suíte ou um quarto, tentava achar um lugar sossegado, né, mas era muito difícil, né, você entrava de um jeito, depois você via que era diferente o lugar, né, então, mas foi uma... não sei porque que eu fiquei, que eu me mantive muito tempo, nossa, fui pra tanto lugar, se eu for fazer uma lista não dá.

 

P/2 – Arnaldo, esses quartos eram em casa de pessoas ou eram em pensões, como eram esses quartos?

 

R – Não, eram sempre pessoas, né, às vezes era uma pessoa solteira que queria alugar, nunca pegava entrar no meio de uma família grande, né, geralmente eram pessoas sozinhas que alugavam, né?

 

P/1 – E aí o senhor acha uma residência mais fixa onde depois?

 

R – É, teve um, ah, sim, depois fui morar com um primo meu, né, no Bom Retiro, ali eu fiquei praticamente um ano e meio, ai ele disse que já tava cheio, que ele queria ficar sozinho, ele faleceu agora até, em dezembro, e aí eu fui pra Pinheiros, um rapaz querendo dividir apartamento e foi muito bom, a pessoa tranquila, né, quer dizer, eu tinha uma suíte mesmo, lá fiquei mais um ano e meio e depois eu fui morar numa conhecida dele, que uma prima pediu o apartamento pra morar, aí eu fui num lugar que é muito maluco, né, porque tinha tanta gente, sabe, quer dizer, que eu não entendia. Começou bem, aí um morava em baixo da escada, o outro aqui, o outro ali, uma mãe com uma menina, quer dizer, foi um negócio assim bem doido, e aí eu resolvi mesmo alugar um apartamento, fazer um sacrifício, né, e aí aluguei esse apartamento e sosseguei.

 

P/1 – Que é aonde?

 

R – Na Alameda Barros, é Santa Cecília.

 

P/1 – Só pra então retomar, aí o senhor começa a fazer esse trabalho paralelo e depois quando que... 1995 que o senhor sai, quando que é que o senhor...?

 

R – É, em 95 eu saio da fundação, né, aí o Hebreu já não tinha, já não participava, e foi aí que foi um... eu não sei, tem umas ideias que você tem, aí eu pensei: “Eu vou montar um consultório”, porque trabalho de psicólogo, é gozado, pra dizer a verdade não me ocorreu de ir pedir de novo um outro cargo, né, nem pensei nisso, de recorrer de novo, de me encaixar em algum lugar. Aí eu achei de montar um consultório no centro, eu falei: “Pô, não tem ninguém no centro”, se a gente estudasse marketing eu ia saber porque que ninguém tem consultório no centro, né, porque as pessoas saem correndo e não vão fazer terapia, ninguém vai no centro, só eu, o Arnaldo, o único consultório da cidade, eu to sozinho e não deu certo mesmo, nossa, perdi muito dinheiro, né, perdi dinheiro mesmo pra montar aquilo, e aí fui ficando numa situação caótica mesmo de dinheiro, dinheiro todo acabou, tanto nessas viagens, não tanto, mas lógico que eu gastei muito, e aí eu fiquei no ar mesmo, né? Aí não era nem alugar quarto, era ir morar na casa de alguém, que se dispusesse, né, e aí começou de novo. E nessa correria toda eu já tinha operado do coração, em 87 fiz uma cirurgia aberta, né, e em 96, com esse estresse todo aconteceu de novo, de ter uma isquemia e precisar operar, então foi aí que eu me voltei pra Unibis, né, pro Einstein, em um convênio e fui operado, e pra minha sorte eu fui aposentado, foi um... eu brinco até que eu falei: “Deus, me ajuda a aposentar”, ele falou: “Então você vai operar e vai se aposentar”, porque de fato eu aposentei, né, isso é uma coisa boa, né, não o que merecia, mas uma boa aposentadoria, que eu fiquei dez anos na fundação, não é, então aí deu uma sossegada de vida, sabe, devagarzinho foi, o salário foi, vai subindo, né, então deu uma estabilizada. Mas aí eu sinto, assim, uma pena de ter parado totalmente com a psicologia, né, é uma coisa que hoje eu conformo já, mas às vezes eu acho que, quer dizer, todo aquele estudo, né, é um pouco perdido, não tem jeito, você, tudo que você aplicou e supervisões, né, paciência, né, então hoje eu... Aí eu fui trabalhar no arquivo, fui como voluntário.

 

P/1 – Como é que surgiu essa ideia?

 

R – Então, eu tinha um conhecido, um amigo no Hebraica, que ele, até acho que foi ele que sugeriu: “Por quê que você não vai no arquivo?”, mais ou menos foi por aí e aí ele me apresentou pra pessoa que dirigia o arquivo, pra ser voluntário, né, aí eu ficava escaneando fotos e aí eu não sei, me dei bem, aí eles resolveram que eu trabalhasse mesmo, né, que eu ficasse algumas horas, não precisava vir todo dia, mas depois a pessoa que tomava conta saiu e aí eu fiquei no lugar dela, aí eles aumentaram mais, mas eu, assim, nunca fiz questão tanto dessa parte, porque eu trabalho quatro dias, segunda, terça, eu dou uma parada na quarta, e quinta e sexta, então é bom pra mim, né, não é exigido tanta coisa. Estou lá até hoje.

 

P/1 – E quais as atividades suas agora, fora profissional, o que o senhor faz, assim, de lazer por São Paulo?

 

R – Então, a parte... bom, esse problema do meu irmão, não vou por toda a culpa nele, mas foram dois anos muito pesados, né, eu nem ia na Hebraica, sabe, a gente tava toda hora lá no hospital, na casa dele, foram dois anos direto, aí parou tudo mesmo, né, eu ia muito na Hebraica de fim de semana encontrar os amigos, ou ver cinema, mas e agora eu estou retomando devagarzinho, né?

 

P/1 – O cinema continua a paixão?

 

R – É, o cinema, eu vejo, eu procuro ver muito aqueles clássicos, né, quer dizer, eu vou numa locadora, eu até cortei a TV a cabo, né, que era uma coisa que tava justamente acho que meio que escravizando ver aqueles seriados, eu vi que eu não saía de casa, era só ver seriado, então eu cortei. E agora eu to no Facebook, né, agora (risos), é verdade, foi uma coisa engraçada, porque eu entrei, mas não dava bola, aí a Jéssica... A gente adiciona assim as pessoas, né, e tem uma menina que trabalhava no arquivo, que ela conhece e que pra dizer a verdade (risos) é a paixão, eu tava assim encantado com ela, né, mas nem dava bola, mas não tá nem aí mesmo, mal falava, mas aí através do Facebook ela ficava colocando, postando coisas e eu respondendo, pra Jéssica eu respondo com prazer, a gente tem mais interação, eu sei que isso é gozado, mexeu muito, né? Você tá entrando e comunicando e participando aí de abaixo assinado, de coisas, e agora até vou pegar uma pessoa para ensinar como eu me colocar, né, não adianta só ficar comentando coisas dos outros, né, quer dizer, é um negócio que fica, então eu quero ver se eu ponho fotos, se eu pego coisas de filmes... Eu acho que é uma maneira que eu vejo de fazer alguma coisa boa, né, eu acho que só isso já deu uma mexida, né, eu tava mesmo muito parado.

 

P/2 – Você falou um tempo atrás sobre uma viagem e não falou mais sobre isso, eu queria saber sobre essa viagem que você diz, que foi pra Europa, Itália... Foi Itália?

 

R – Foi, foi.

 

P/2 – Eu queria que você falasse um pouquinho sobre essa viagem.

 

R – É verdade, eu parei porque eu fui falar do Hebreu. É que eu fiz essa viagem com o Osvaldo, que era o redator, né, ele era da cidade de Luca e ele também tinha vontade de ir pra Itália, mas ele já tinha uma certa idade e tinha medo, aí eu falei que ia pra Nova Iorque, aí não sei, a agência falou: “Olha, se você vai pra Itália, vai pra Roma, Nova Iorque sai mais barato, a diferença é pouquíssima, por mais duzentos dólares você vai”. Aí eu pensei, bom, a Itália era uma coisa que tinha muito na cabeça, porque a gente assistiu muito filme italiano, aquelas canções italianas, eles venderam pra gente aquilo, de fato a gente... todo o neorrealismo italiano, Fellini, então nem se fala, né, então a Itália tava muito impregnado na cabeça, aí até assim que quando eu, a gente chegou em Roma, né, vai aqui, vai ali, ai eu queria ir pra Rimini, a cidade onde ele nasceu, queria ver aquele grande hotel que ele fala, falei: “Pô, vou ver”, mas não era fácil, sabe, a Itália é gozada, ela tem uma montanha no meio, você não atravessa do lado de lá, o trem... Aí eu vi que era complicado, você tem que reservar hotel, você tem que... aí ficamos, fomos, até fui com ele pra Napoli, aí depois ele ficou, ele foi ver a cidade dele, de Luca, onde tinha parentes e aí eu fui pra Nova Iorque. Quer dizer, Nova Iorque era aquilo, quinhentos livros sobre Nova Iorque, mas eu gostava muito mesmo, Nova Iorque eu gostava, porque meu pai esteve em 50, 50 ele foi visitar a mãe e a irmã, que ele não via há vinte e cinco anos e ele contava coisas pra gente, eu acho que aquilo mesmo de fato entrou na cabeça, fora que eu falei aquele monte de filmes americanos, mas não sei porque Nova Iorque é uma coisa, assim, obsessiva, bem obsessiva mesmo e aí de fato, né, poxa, quando você chega em Nova Iorque, atravessa, acho, não sei se é a Ponte do Brooklyn, qual daquelas, aí você vê o Empire State, né, quer dizer, é um negócio impressionante, aquilo lá que eu vi em fotos, em filmes, de repente tá lá, né. E foi assim, foi um pouco de maluquice, porque eu ia pra Nova Iorque e uma pessoa da comunidade iria arrumar a pensão de um rabino, mas ele não sabia onde era ainda, quer dizer, eu viajei sem saber e quando eu tava na Itália eu tentava falar, ele falou: “Não, você chega lá e liga, que a minha mulher vai te dar o endereço”. E eu sossegado, né?

 

(Troca de fita)

 

P/1 – Tava indo pra Nova Iorque...

 

R – É, então, foi uma coisa que não se faz, né, você chegar num país sem saber ainda onde vai ficar, e na alfândega eles perguntam, né, lá, “Onde você vai ficar?” E foi até gozado, porque na fila tinha uma funcionária coreana lá do setor deles, nossa, e era gozado, a mulher era bem nervosa, né, e eu, aí fui perguntar pra ela do jeito que eu pude, né, que eu não sabia onde eu ia ficar, tentei explicar que, ela falou: “Hotel Belvedere”, quer dizer, a mulher mesmo ensinando a mentir, com todo aquele esquema, né, foi antes do onze de setembro, né, lógico, se eu fizesse isso eu voltava na mesma hora, então ela falou Belvedere Hotel, me deu a dica, né, eu cheguei lá, o cara perguntou onde eu ia ficar, “Belvedere Hotel”. Aí eu cheguei no aeroporto, eu ligo, aí a Tetéia, a mulher dele, saiu de casa, saiu e não vinha e eu no aeroporto esperando, esperando, daí chegou uma hora, eu sabia que era, eu falei: “Sabe de uma coisa? Eu vou”, tinha aqueles ônibus, né, que levam até Manhattan, levam para o Brooklyn, eu falei: “Eu vou até Manhattan, de lá eu ligo”, né, entrei naqueles ônibus comuns, aí chegou lá, todo mundo foi descendo, descendo, descendo, quando ele parou no centrão lá, chama Penn Station, aí ele falou pra mim: “E aí, onde você vai?”, aí expliquei pra ele que eu não sabia onde eu ia, que eu não tinha o endereço. Ele desceu comigo, né, foi a um telefone público, aí achou a mulher, né. Então aí eu fiquei, o mais interessante é isso, né, eu fiquei num lugar que não era assim tipo Manhattan, badalado, era... chama County 8, é onde ficam os judeus ortodoxos, né, é uma comunidade só desse pessoal, ortodoxos ou conservadores, existe uma pequena diferença, né? Mas aí  você muda tudo, você sai na rua, você põe aquela quipá, e eu às vezes esquecia, entrava lá numa lanchonete deles, eles ficavam olhando, assim, naquela ansiedade, aí eu sabia que eu tinha esquecido. Parece que todo mundo tem que ser igual, se você não é judeu eles não te cobram, mas sendo judeu, se você não tá com a quipá, você não é religioso, e eu não era, sabe? Então aí foi assim, eles, esse meu amigo, a pessoa, né, que me arrumou tudo, né, eu conhecia o pai dele na verdade, aqui no Brasil, ele tinha aquele (____?), eu não sei se vocês já ouviram falar, é um rabino, que ele ficou... ele tinha, assim previsões, nada de milagre, mas eles consultavam ele pra tudo, ele ficou, ele criou toda aquela comunidade, ele mandou rabinos pro mundo inteiro, a missão deles era essa, até pra Rússia, ele ficava mandando, mandou pro Brasil, sabe, ele era, ele tinha um carisma e eu cheguei um ano, ele tinha falecido um ano antes, mas como eu tava afastado de tudo, né? Eu via nas vitrines, chamavam Moshiach Now, Moshiach é “o messias”, eles até pensavam que ele era o messias, eles falavam: “Pô, ele era o messias”, tamanha a força dele. Eles: “Ele era o messias e a gente não sabia” e depois eu mesmo fiquei até meio fervoroso, assim, por esse rabino, né. Então eu fiquei naquele meio, né, que era totalmente diferente, aí eu pegava o metrô e ia pra Manhattan, pra passear um pouco, né, e é engraçado, eu não tinha curiosidade em museu, eu ficava andando pelas ruas, tentando achar os lugares que estavam na minha cabeça, não é? O edifício do Chrysler, o Empire State, quer dizer, eu não sei, eu não me peguei em visitar coisas desse tipo, que é até um absurdo eu não ir, os cara falaram: “Você não foi no Metropolitan?”, eu digo não: “Você não foi lá na...”, “Não, não fui”, “Então você é louco, você vai pra Nova Iorque e não vai nesses lugares!”, mas eu não sei, fiquei assim curtindo esse ponto, né?

 

P/1 – Quantos dias você ficou lá?

 

R – Eu fiquei quatorze dias.

 

P/1 – Foi a Manhattan e voltou pra São Paulo ou fez outra?

 

R – Não, não, aí realmente vim direto pra São Paulo e aí é que começou a confusão (risos), se eu tivesse ficado lá teria sido melhor.

 

P/1 – Já ta chegando perto do fim, tem mais umas perguntinhas, mas a primeira é: tem alguma coisa dessa trajetória que o senhor contou, que a gente não perguntou, que o senhor lembrou agora e queira contar? Que tá no papel, tá na memória, que não foi perguntado ainda?

 

R – Eu tenho a impressão que eu acho que foi muita coisa, né? Eu gostaria só de falar um pouco mais desse meu tio, né, que a gente chama tio Moysés, dessa figura, né, porque ele era mesmo, ele era militante, tanto assim que ele era aquele cara que seguia ordens, né? Ele, por exemplo, o partido mandou ele entrar na Klabin, justo na firma do patrício pra formar uma célula comunista lá dentro e, sabe, era aquele cara, assim, que ia, fazia, isso tudo tava do Dops, depois nós fomos ver, no Dops tava: “Ah, nós estamos de olho, esse cara acho que ta fazendo coisas lá dentro”. Ele fazia bandeirinha, ele fazia um monte de coisa e ele ficou preso no Maria Zélia, né, ficou lá com o Noé Guerta, ficou com várias pessoas, e fugiu antes, porque teve um massacre no Maria Zélia, né, e ele e mais alguns conseguiram fugir antes. Então ele tinha muita história, né, e era gozado, porque ele, quando chegava, sabe, pra gente era um negócio espetacular a vinda dele, né, porque a gente, como não tinha muito dinheiro, ele levava no restaurante judaico, que a gente nunca entrava, era lá no Bom Retiro, mas era tão caro que a gente nem entrava, então quando ele vinha a gente ia comer aquelas coisas que os judeus gostam de comer, né, então era uma festa, né, meu tio. Então ele foi uma figura, ele foi preso em 70 e pouco, mas não por grande atividade, né, ele participou de uma reunião, eles foram lá, fizeram um aparato maluco pra prender ele, mas falaram até pra mulher dele: “Não vai acontecer nada, mas ele vai ser preso” e levaram da casa dele. Ele, quando ele morou em Vitória, Espírito Santo, pelo partido, ele dirigia um jornal, então eles levaram o jornal deles com todos aqueles, com todas as recordações, a maioria já tinha até morrido e de fato ele não foi maltratado. E quando ele foi embora ele falou lá pro comandante, ele falou: “Olha, aquele jornal lá vocês podem me devolver?”, “Não, aquilo lá é material pra gente” (risos).

 

(Troca de fita)

 

P/1 – O senhor estava dizendo do seu tio, o senhor visitou bastante ele depois ou só naquele período que vocês iam?

 

R – Não, então, ele vinha muitas vezes pra São Paulo, né, ele era representante comercial. Mas ele sempre... você vê, ele não morava em São Paulo, a gente saía com ele pelo Bom Retiro e ele ia encontrando as pessoas, ele não discutia com ninguém, de brigar, mas nunca, sabe, quer dizer, ele... então ele era assim, ele ia encontrando os patrícios e conversando e falando, né, e ele contou um fato até, você vê o quê que é um militante, né, um militante que segue ordens, né, então, por exemplo, o Febus Gikovate, que é tio daquele psicanalista, o Flávio, né, que eu conheci também, o Febus Gikovate, ele virou trotskista, então o partido deu uma ordem que ninguém mais cumprimenta o Febus. Acontece que o Febus era amigo de infância do meu tio, do Renascença, estudaram juntos, aquele amigão, e aí ele contou pra gente, o Febus vinha vindo e ele: “Ô, Moisés” e ele passou direto, não cumprimentou, ordens do partido, né, quando chegou na esquina ele falou: “Eu tô louco, como é que eu não cumprimentei o Febus”, quer dizer, era uma coisa, sabe, tão disciplinado, não era fácil, né, mas ele teve essa fase. Ele conheceu aquele, o Mário Lago, né, ele fez teatro, televisão; Modesto de Souza... então ele disse que às vezes ele encontrava eles no Rio e ficavam bolando de fazer um filme. Então ele, meu tio era assim, era muita alegria, né, então ele foi uma figura muito forte, quer dizer, quando ele chegava em casa, a gente, com todos aqueles problemas, era como uma, quer dizer, mudava, né, mudava tudo, ele tinha uma coisa que era engraçada, assim, ele tinha assim uma afetividade, então tinha épocas, por exemplo, eu tava sem, eu não tava trabalhando, você está deprimido, aí ele puxava a gente pro Rio, puxava pra ficar lá na casa dele. Ele fez comigo, com meu irmão, uma outra prima também: “Não, vem pro Rio”, quer dizer, era gozado, era uma coisa que, muito fora, né, essa coisa dele, né, então ele foi uma figura mesmo, viu?

 

P/1 – Arnaldo, e como é o seu relacionamento agora... É o Samuel que tá vivo, né? Como que é a relação com ele, você encontra bastante?

 

R – Então, o Samuel é o seguinte, como eu e o Marcos, o Samuel era muito independente, né, ele sempre tinha os programas dele, ele não participava, como eu já falei, e então, mas de algum tempo já pra cá, como ele gosta muito de cinema, a gente tá sempre junto, daí houve um pouco até de inversão, por morar mais perto, eu tive até uma aproximação maior, né, até porque era difícil ir na casa do Marcos por causa da esposa dele, era um ambiente muito tenso, né? Então nesse momento o meu irmão parou de trabalhar, de vender, então ele me telefona todo dia, sabe, querendo conversar, querendo ir almoçar, e ele acha que tá com um problema mais sério de memória, né, então eu até penso: “Puxa, agora eu até poderia ir pro Rio”, que eu tenho um ganho certo, né, quer dizer, eu tenho um certo salário, até poderia, né, mas aí eu penso, né, tem essa ligação, quer dizer, agora seria uma... seria uma coisa, agora eu não vejo nem possibilidade, não teria como ir pro Rio em função do meu irmão, dessa... Eu sei que agora ele ta bem dependente, mas é assim, né, então é lógico que aproximou, a gente pensa muito no outro irmão, toda hora, né, como ficamos os três juntos o tempo todo, né, então é uma boa relação dele com a família dele, né? A família do outro irmão eu cortei totalmente, né, eu não quis mais ter contato, nem com esposa nem com as filhas, então agora a família mesmo se resume mesmo ao Samuel e os filhos dele, né?

 

P/1 – Qual seria hoje o seu sonho, plano, sonho, alguma coisa mais abstrata?

 

R – Olha, se for meio abstrato seria mesmo fazer um argumento de um filme de uma história que eu tenho, né, e já mostrei, o Máximo disse que é muito legal, mas é engraçado, que você tem a história montada, mas a parte de diálogos, o que cada pessoa pensa é que eu vejo uma dificuldade enorme, né, como é que você... você tem que... cada personagem você tem que fazer ele pensar e isso que eu acho, assim, eu tenho acho que me associar com alguém, né, que dominasse essa área, porque um filme é isso, o quê que a pessoa fala, você pode ter já o assunto bem, quer dizer, estar montado, mas depois tem que desenvolver as pessoas, né? Então esse é um pensamento, de ainda tentar alguma coisa, mas sem grande fantasia de que vá sair um filme, né, não é por aí não.

 

P/2 – A história você já tem?

 

R – É, eu tenho.

 

P/2 – Já tá escrita ou tá na cabeça?

 

R – Não, ela tá escrita, assim, o quê que acontece com a pessoa, eu posso até dizer um pouquinho, né? É um professor no Rio de Janeiro, que mora em Ipanema, aquele que leva aquela... sabe aquele professor de cursinho, tem aquela vida, uma vida normal, alegre, ele vai tocando, ele vive bem, mas ele gasta o que tem e de repente a escola fecha e ele vai ficando sem dinheiro, acho que foi a minha autobiografia (risos), ele vai ficando até numa situação que aí ele vem morar em São Paulo na casa de uma irmã que mora num subúrbio, mora num bairro, nada de miséria também. E aí, assim, o Máximo achou que a ideia é boa, né, porque é uma virada, até pensei no Pedro Cardoso, né, esse cara, esse seria o cara pra fazer essa história, né, mas é aí que cada personagem não pode ter só isso, né, ele vai refazer a vida dele em São Paulo do zero, vai conhecer gente e aí que eu... e onde é que fica cada personagem, você tem que ter agora cada um, então é isso que eles fazem, né, trabalho de campo. Quando eles dizem que eles vão morar no lugar da pessoa pra sentir como a pessoa vive, né, então é essa parte que falta, né, mas a história o pessoal diz: “Essa história vai, essa história pode dar alguma coisa, né”, então fica assim.

 

P/1 – A última pergunta que a gente queria fazer é o que que o senhor achou de contar um pouco a sua história hoje.

 

R – Eu achei, assim, muito, muito bom. Achei esse trabalho, sem querer coisar, mas esse trabalho que vocês fazem, quer dizer, a pessoa tem a chance, né, de, quer dizer, a história tá toda lá, tudo jogado, e vocês vão fazendo a pessoa montar, né? Quer dizer, ela consegue montar toda a história dela. Eu achei, né, consegui rever tudo, que ia escapar com o tempo, trabalhou aqui, trabalhou lá, fez isso, fez aquilo, isso tudo ia se perder e vocês seguraram isso tudo. Eu achei que foi bom mesmo, né?

 

P/1 – A gente também.

 

R – Espero que pra outros, né, também, se divirtam um pouco. Eu achei ótimo, viu? E vou recomendar a outras pessoas. Eu até falei com o Máximo Barros, né, eu falei: “E aí, Máximo”, eu falei que eu ia prestar um depoimento e ele falou: “Mas...”, eu falei: “Museu da Pessoa”, eu falei: “Puxa vida, você que tem tanta coisa”. Ele trabalhou com o Mazzaropi, ele fez, ele começou todo o cinema, sabe, é impressionante: “Ah, não, eu já contei muito, eu já falei muito, mas quem sabe, né?”. Porque essa parte pessoal eu acho que é interessante, né, não é... ah, profissional você vai ficar falando: “Fiz esse filme, fiz esse filme”, agora, querem saber como a pessoa vivia e ao mesmo tempo com todo esse aperto, né, que ele passou, então vamos ver. Quem eu souber aí que eu acho interessante eu falo, aí com a Jéssica, né?

 

P/1 – Bom, obrigado, viu.

 

P/2 – Obrigada

 

R – Obrigado.

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