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História

Falou que não pode, eu quero.

História de: Sônia Junqueira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/12/2008

Sinopse

Em seu relato, Sônia Marta Junqueira relembra momentos marcantes de sua vida pessoal e carreira, recorda o momento de sua alfabetização e a descoberta do gosto pela leitura, a sua vinda de Belo Horizonte para São Paulo, onde começou a trabalhar na Editora Abril Educação com livros didáticos. Também fala sobre os livros que escreveu para crianças, e o processo de criação e edição de livros infantis

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História completa

P/1 – Sônia, pra começar a gente sempre pergunta o nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Sônia Marta Junqueira, mas eu não uso esse Marta, eu uso só o Sônia Junqueira, eu não gosto do conjunto. Eu nasci em Três Corações, sul de Minas, dia 19 de abril de 1945.

 

P/1 – Conta o nome dos seus pais, o que eles faziam...

 

R – Meu pai é Rui Mendes Junqueira, morreu em 1986, ele era funcionário público. Era pescador, adorava pescar, ir pro mato. Se ele tivesse sido jovem mais pra frente, ele teria sido hippie, ele adorava mato, bicho, essas coisas. Levava muito a gente pra pescar, meu irmão pra caçar. Enfim, era um cara bem da natureza, bem da terra. Então, gente passou a infância muito ligada... Uma vez ele construiu um barco, a gente desfilou pelo Rio Verde, e esse Rio Verde forma três corações em volta da cidade. A gente navegou pelo Rio Verde, ele montou um trono pra mim, era engraçadíssimo. Ele era bem doido. Às vezes ele acordava a gente no meio da noite porque ele ia caçar rã, aí trazia aquela fieira de rã pra gente comer no meio da noite. Era bem assim. E minha mãe, dona de casa. Minha mãe é filha de árabes, ela nasceu no Brasil, mas, como eu digo, ela é puro sangue. E sempre cuidou da gente, da casa, da família. Minha mãe era uma pessoa alegre, gostava de cantar, cantava muito. Ao mesmo tempo, muito preocupada com filho, com perigos, com não sei o quê. Ela tinha umas coisas engraçadas, ela morria de medo de chuva e trovoada. Quando ameaçava uma tempestade ela botava nós todos sentados perto dela, eu tinha que tirar colarzinho, pulseirinha, sei lá o quê. Ela cobria os espelhos e a gente não podia rir, não podia falar, não podia se mexer, de medo. Ela ficava apavorada, cada relâmpago que dava ela: “Nossa Senhora da Aparecida!”. Aí, passava o relâmpago. Eu e os meus dois irmãos adoramos chuva, nenhum tem medo... A gente foi pro lado oposto, eu adoro tempestade. Eu achei que era uma coisa que podia ter ficado pra gente, esse medo. Mas não ficou. Era uma família comum, morava no interior, casa com quintal. Pegava muito passarinho e soltava, fazia arapuca, subia em árvore... Essas coisas de criança de interior, mesmo.

 

P/1 – Fiquei super curioso com essas histórias de barco, mas, antes de chegar nessa parte gostosa da infância, queria perguntar um pouco dos seus avós. Você conheceu os avós?

 

R – Eu conheci só meu avô, pai do meu pai. Chamava-se Gastão Pio Tupinambá Junqueira e ele era uma figura meio machadiana, de barba, terno, bengala. Ele era muito severo, era um homem seco, não era um homem carinhoso, afetivo, nada. Quando ele chegava a gente tinha que beijar a mão, tomar a benção. Os pais da minha mãe morreram quando ela era criança ainda. E minha avó paterna morreu quando eu era muito criança, não cheguei a conhecer. Então, eu não tive muito convívio com avós. Tive muito convívio com tios de tudo quanto é idade, bem mais velhos, tios da minha mãe.

 

P/1 – E você tem quantos irmãos?

 

R – Eu e mais dois, abaixo de mim.

 

P/1 – Meninos, meninas?

 

R – Homens, os dois.

 

P/1 – Qual o nome deles?

 

R – O logo abaixo de mim, três anos mais novo, chama-se Dagoberto. E o outro, três anos mais novo que ele, chama-se Laertes.

 

P/1 – E como era o convívio com eles?

 

R – Eu brigava muito com o Dagoberto. Muito, muito, muito. Era uma briga eterna. E o Laertes eu protegia porque ele era o caçulinha e ele é meu afilhado de representação. No dia do batizado tinha uma coisa que se chamava “representação”. Eles punham um pano branco nos braços da gente, punham a criança. Eu não sei o que significava isso, eu não lembro. Eu fui toda importante, eu tinha seis anos e pouco, ser “madrinha de representação” dele. Colocaram ele, mas não soltaram. Lembro desse batizado, da pia batismal, lembro de tudo. Então, era meu afilhado e eu protegia muito ele do outro, do Dagoberto, que era uma fera. A gente brigava demais, mas se divertia muito também. O Laertes era uma espécie de boneco meu: eu dava banho, trocava de roupa, eu obrigava ele a cantar, a ler os livros que eu queria que ele lesse, quando ele foi alfabetizado. Então, eu andava com ele pra baixo e pra cima. Diz ele que sofreu muito na minha mão. Mas eu acho que ele gostava.

 

P/1 Qual era a personalidade desses três irmãos? Você era mais levada? Como era cada um deles?

 

R – Eu sempre fui levada, malcriada, respondona, e eu armava muito. Eu pregava peça, gostava de me fantasiar, me disfarçar. Eu pregava muita peça. O Dagoberto era muito molecão, assim, de rua, de brincar na rua, de fazer brinquedo. A gente fazia esses brinquedos de interior, de quintal, que hoje eu nem sei mais se usa no interior. Boizinho de chuchu, vaquinha não sei o quê.

 

P/1 – O que é boizinho de chuchu?

 

R – Uai, você pega um chuchu, espeta quatro palitos, podem ser de fósforos, você fura olhinho, boquinha, põe um chifrezinho de coisa, é um boizinho. A gente fazia boi, vaca, ovelha, com batata, chuchu. Fazia uma fazenda e a gente brincava muito. Eu lembro que uma vez tinha quatro bananeiras no quintal formando um quadrado, a gente fez um elevador com coisa de tábuas e cordas. Bom, destruímos as bananeiras. A gente brincava assim, com bicho. Não tinha televisão, ela estava começando a aparecer. Eu lembro que uma vez o Dagoberto e eu matamos um pintinho. Nós pegamos o pintinho e arrumamos um triângulo de pano, pusemos como se fosse um lenço na cabeça e pintamos o biquinho com esmalte. Só que a gente vedou aqueles buraquinhos por onde eles respiram e o pintinho morreu. Nunca mais eu esqueci disso: foi um crime que a gente cometeu. Coitadinho do pintinho, morreu lá... Ficou igual uma velhinha, mas aí, puf, morreu. Então, tinha muita, coisas assim de criança.

 

P/1 – Tinha muitos animais?

 

R – Tinha muito bicho em volta e tudo quanto é criança da rua tinha quintal, então, era muito.

 

P/1 – Era casa grande com animais grandes ou?

 

R – Eram casas grandes. Tinha gato, cachorro, passarinho, muito bicho solto, também.

 

P/1 – E árvores frutíferas?

 

R – Árvores frutíferas, horta...

 

P/1 – E o que vocês comiam, tinha muito que vinha de lá mesmo, da alimentação de vocês?

 

R – De verdura, sim. A família do meu pai, grande parte é de fazendeiros. Então, meu pai ia pescar, caçar, tal, e trazia muita fruta, muita coisa de lá e a gente comia de lá também. E dessas merceariazinhas de interior. Mas todo mundo tinha horta, tinha mamão, laranja, mexerica, limão, tudo tinha lá. Você pegava na horta, no quintal.

 

P/1 – Sônia, você falou que era muito levada, muito respondona. Como era pros os seus pais isso? Como eles lidavam com isso?

 

R – Meu pai era muito autoritário, então, ele queria que eu fosse obediente. Eu tinha uma frase que eu falava: “Eu morro, mas eu não entrego”.  Eu era muito parecida com ele, eu também sou muito autoritária. E minha mãe achava um absurdo eu ser malcriada, brigar com os irmãos, porque só nós que fazíamos isso, ninguém mais. Imagina! Era uma tentativa, o tempo todo, de me controlar. Falava que eu não tinha modos: “Essa menina não tem modos, é geniosa”, não sei o quê. Eu era levada, mas - como é que eu vou te dizer - era uma coisa bem moleca, não era uma coisa maldosa. Era uma coisa meio ingênua, meio pura, de fazer molecagem mesmo, de pregar peça nos outros, de inventar histórias. Eu inventava muita história, e contava. Inventa coisas biográficas, eu já fui Mata Hari, eu já fui uma espiã que nem Mata Hari. Mulher de pirata. Eu escrevia a biografia que eu queria. Teve uma época que eu queria ser pirata, mas não usava mulher ser pirata, e eu falei: “Então, vou ser mulher de pirata”. Escrevi a biografia como mulher de pirata. Eu era rebelde e muito preguiçosa. E naquele tempo usava as meninas pra ajudarem as mães nas tarefas domésticas. Eu fazia com a maior má vontade porque eu não gostava de trabalho de casa. Às vezes eu começava a fazer uma coisa, largava e ia embora. Aí, minha mãe me pôs o apelido de “Sinfonia Inacabada” porque eu começava a arrumar as camas e ia embora, começa a fazer não sei o quê e ia embora. E a coisa que eu mais fazia, eu gostava muito de ficar no quintal sozinha, gostava muito de ficar deitada no chão vendo formiga, carreira de formiga. Depois da chuva eu gostava de jogar sal em lesma, que é um assassinato também. Depois que a chuva para as lesmas saem dos seus buracos, os caracóis saem. Aí, eu ia com sal e jogava, e ela desmancha. Então, uma das coisas preferidas era jogar sal em lesma depois da chuva. Gostava muito de ficar olhando nuvens no céu, vendo figuras. Mas o que eu mais gostava de fazer era de ler. Era o que eu mais fazia na infância: ler.

 

P/1 – Mas o aprendizado de leitura veio na escola, ou veio em casa?

 

R – A minha não era uma casa de leitores, não. E nem da escola também. Não costumava muito indicar leitura. Eu não sei como, a sensação que eu tenho é que eu nasci sabendo que ler era ótimo, porque eu não me lembro como eu comecei. Mas eu tinha uma professora que era meio aparentada de longe com o meu pai e ela tinha muito livro, tinha a coleção completa de Monteiro Lobato e  disponibilizava para os primos, sobrinhos, amigos dos sobrinhos, tal. Eu comecei a pegar livros lá, pegava também na biblioteca da escola, às vezes. E comprava também, lia muito gibi... Eu lia muito gibi, era proibido, então, eu tinha uma caixote enorme e eu escondia embaixo da minha cama. Eu adorava fazer coisa proibida. Falou que é proibido, eu quero. Quanto mais era proibido, mais eu lia gibi escondida.

 

P/1 – Por que era proibido gibi, Sônia?

 

R – Porque naquela época as famílias não recomendavam, não era leitura recomendada. Não era uma boa leitura para meninos e meninas. Pra menino também era proibido. Então, os pais não gostavam que a gente lesse gibi.

 

P/1 – Antes de entrar mais especificamente na leitura, que é uma parte importante da sua vida, vou perguntar um pouquinho sobre outras coisas. Essa história do barco, como foi essa história do barco do seu pai?

 

R – Ele era pescador, fez um barco grande e na inauguração do barco ele falou: “Vamos dar um passeio no rio”. O barco tinha uns bancos e ele montou, acho que era um caixote, não sei, e eu fui sentada em cima. Porque eu era a única filha, era meio princesa. Eu fui sentada em cima, meu pai e meus irmãos e a gente descendo o rio. Foi uma coisa rápida, mas foi chiquérrimo.

 

P/1 – Vocês iam pescar muito com seu pai?

 

R – Eu não ia muito não porque eu tinha nojo de minhoca, dessas coisas. O meu irmão, o Dagoberto, ia mais. O Laertes era muito pequeno ainda... Mas ele trazia os peixes, então, eu cresci comendo peixe: lambari, piaba, era direto peixe.

 

P/1 – E fora o peixe, qual era a comida da sua casa?

 

R – Comida caseira, mineira. E árabe também, porque do lado da minha mãe: quibe, charuto, essas coisas, ela fazia muito.

 

P/1 – Sua mãe era boa cozinheira?

 

R – Muito. Uma delícia a comida dela. Minha mãe tá viva ainda, vai fazer 93 anos dia sete de outubro. Mas ela tá bem caduquinha. Tá ótima, mas tá bem caduquinha.

 

P/1 – E mora onde?

 

R – Belo Horizonte, com meu irmão.

 

P/1 – Com qual dos irmãos?

 

R – Com o Laertes.

 

P/1 – Com o mais bonzinho? .

 

R – É, o caçulinha querido.

 

P/1 – Sônia, conta um pouquinho dos amigos que tinha no bairro, fora os irmãos.

 

R – A gente tinha muitos primos, de várias idades. Em cada faixa etária tinha um bando de primos. Então, éramos amigos. Fora alguns amigos de escola que a gente conhecia. Três Corações era uma cidade muito pequena e não tinha muita coisa pra fazer, a não ser essas coisas de quintal, andar de bicicleta na rua, brincar de pique. Com o menino da vizinha, o da frente, foram essas crianças. Cada um tinha seu bandinho lá.

 

P/1 – Qual era o tamanho da cidade? Como era a cidade nessa época?

 

R – Eu não lembro o tamanho, a quantidade de habitantes, não sei. Não tenho a menor ideia. Mas era uma cidade pequena, todo mundo conhecia todo mundo, a gente ia e voltava sozinho da escola. Não tinha perigo, tinha pouco trânsito, pouco carro, era tudo perto. Era tudo tranquilo, todo mundo conhecia todo mundo. Se acontecesse alguma coisa todo mundo sabia que: “Ó, é o filho da Elza e do Rui que tá aqui”, socorria. Tinha muito parente espalhado, então, era muito tranquilo. Teve uma história, uma vez, do Dagoberto, muito engraçada. Ele estava voltando da escola e escutou um rádio tocando alto, não sei se bar, não sei onde, tocando aquele “churrasquinho de mãe”. Sabe aquela música que fala que vinha vindo da escola, que avistou não sei o que lá, e a mãe tinha morrido? Chamava “churrasquinho de mãe”, porque tinha tido um incêndio e a mãe do cantor tinha morrido. Ele não conseguiu chegar em casa, ele arriou numa porta de uma loja e chorava que nem doido, porque achou que ele ia chegar e a mamãe ia estar morta lá, que nem estava na música. Então, pegaram ele e levaram em casa, que ele estava chorando, sentado na porta do bar e sem coragem de ir pra casa.

 

P/1 – Então era bem pequena mesmo, todo mundo...

 

R – Bem pequena.

 

P/1 – E a escola, você lembra o primeiro dia de escola, como foi isso? Os primeiros dias pelo menos...

 

R – Eu não lembro muito bem, não. Eu lembro que eu estava louca pra ir pra escola e aprender a ler. Naquela época a gente aprendia com sete anos, e eu estava com muita vontade de aprender a ler, de ir para a escola e foi tranquilo. Adorei, aprendi a ler logo e adorava. Eu saboreava palavras... Foi uma experiência maravilhosa, uma das experiências mais ricas, bonitas e emocionantes que eu tive na infância, foi de aprender a ler.

 

P/1 – Você lembra do processo?

 

R – Eu lembro que eu fui alfabetizada num Livro de Lili. Foi muito famoso na época, era método global, que era uma novidade. E era uma coisa apaixonante esse livro. Todo mundo da minha geração, acho que começou na minha geração esse livro, e algumas depois. Lá em Minas, que foi onde o livro foi mais adotado, parece, tem uma legião de apaixonados pelo Livro de Lili. Assim, quando começa a falar a respeito, todo mundo tem uma coisa pra lembrar, todo mundo sabe de cor várias lições do livro, vários trechos. Tem gente que se emociona, que chora. Fizeram uma confraria lá uma vez, de alfabetizados do Livro de Lili, tinha camiseta, porque era apaixonante. E a implantação da cartilha, chamava livro, mas era cartilha mesmo, foi uma estratégia de marketing fantástica. Porque antes de chegar o livro, começaram a divulgar que ia chegar a Lili, quem seria a Lili, e a  Lili, a Lili, e foram envolvendo a gente com aquilo. Aí, passava um carro, parava um carro ali: “Será que a Lili chegou? Será que é ela?”. É, não é. Criaram aquela expectativa na gente e quando chegou o Livro da Lili estava todo mundo pronto pra receber. E era uma delícia. A gente aprendia com a maior facilidade e a professora que me alfabetizou chamava Lili, também. Tinha o livro com as lições, as leituras, tinha cartazes nas paredes com aquelas lições ampliadas, as ilustrações. E tinha umas fichas de frases ou segmentos de frases que a gente cortava e colava no caderno pra formar frases. E eu lembro da cor, da textura, do cheiro dessa coisa de ficha, eu lembro de tudo. Foi uma coisa maravilhosa. E eu deslanchei, um dia eu cheguei em casa, com pouco tempo de escola, e estava lendo. Minha mãe chorou, ficou emocionada.

 

P/1 – Você lembra de trechos desse Livro de Lili, alguma coisa assim?

 

R – Lembro. A primeira coisa: “Eu me chamo Lili, eu comi muito doce. Vocês gostam de doce? Eu gosto tanto de doce!”. Ela tinha uma cachorrinha que chamava Suzete. E ela tocava piano e a Suzete ouvia ela tocar. Quando ela parava, a Suzete falava: “Toca Lili, toca!”. Depois, tinha um das meias, ela falava: “Eu vou calçar as minhas meias. As minhas meias são azuis. Ó, que pena! Minha meia tão bonita está furada! Eu não sei coser, como há de ser?”. Teve uma vez, lá em Belo Horizonte, que a UFMG promoveu uma exposição, montou salas de aula antiga, material de leitura, cartazes, etc. Montou uma grande sala de aula, um grande espaço com aquelas carteiras duplas, tal. Eu estava com a Vivina de Assis Viana. Nós fomos visitar a exposição e entramos na sala que tinha os cartazes e os livros da Lili. Sentamos as duas e começamos a chorar, de lembrar daquilo, foi uma coisa muito emocionante.

 

P/1 – De quem era esse livro? O autor?

 

R – Pois é, eu não lembro. Eu não consigo lembrar o nome da autora. Eu lembro de tudo do livro e não consigo lembrar o nome da autora. E eu procuro esse livro em tudo quanto é sebo, entro na Estante Virtual direto, pra ver se acho esse livro. E quem tem não passa pra frente de jeito nenhum. Quem guardou, não passa pra frente. É muito legal, foi uma coisa muito emocionante. Eu nunca vi ninguém tão apaixonado pelo livro em que aprendeu a ler quanto o pessoal da Lili, que aprendeu na Lili. É um negócio espantoso.

 

P/1 – E depois da Lili, qual foram os primeiros livros?

 

R – Aí, eu não lembro. Mas aí, eu comecei a ler... Uma coisa que eu lembro, sim, que eu li e adorei foi o Almanaque do Jeca Tatu, do Monteiro Lobato. Na verdade, era do Biotônico Fontoura, e foi uma leitura deliciosa. Mas eu li várias vezes Monteiro Lobato, lia aqueles da Biblioteca das Moças... Eu lia tudo o que aparecia pela frente.

 

P/1 – Mas mais voltado para o público infantil ou já abrindo pra...

 

R – Aí eu já cresci um pouco, eu já estava entrando na adolescência. Porque não tinha livros voltados diretamente para o público infantil, tinha o Monteiro Lobato. Eu tinha uma antologia, que era de livro de leitura na sala de aula, que chamava Antologia Nacional, o organizador era Carlos de Laet. Ele tinha longos textos que a gente lia em classe. Eu gostava muito daquilo, tenho até hoje, eu lia muito ali. Eu tive um livro, que foi meu livro de leitura na terceira série primária, que seria hoje a terceira série do ensino fundamental, que era o Cuore, de Edmundo de Amicis, um livro traduzido, que eu lia também e era apaixonada pelo livro. E tinha esses romancinhos, essas coisas...

 

P/1 – E gibis, quais eram?

 

R – Ah, tinha o Cavaleiro Negro, Roy Rogers, Zorro, O Fantasma... E tinha a Disney, o Pato Donald... O que eu mais lembro é o Pato Donald, dessa época.

 

P/1 – Essa leitura tão forte, tinha algum sonho de infância de ser escritora, ou não, tinha outro sonho louco?

 

R – Eu era meio destrambelhada. Eu já quis ser mulher de pirata, espiã, que nem Mata Hari, eu queria ser Globe-Trotter... Depois, teve uma época que eu falei que queria ser freira porque eu queria, não sei, mas eu achava chiquérrimo. Eu falava assim: “Vou para um convento de freiras alemãs e vou sofrer muito, muito, muito”. Eu ia sofrer horrores lá.  Vai entender. Depois, quando eu entrei na adolescência, eu queria ser raptada por um sheik, porque tinha um livro chamado O Sheik, que era uma história romântica, romantismo desvairado, e ele sequestrava a moça, a inglesa. E eu também queria ser raptada por um sheik. Eu achava que eu ia ser professora.

 

P/1 – Essas coisas, você falava pros seus pais que queria ser ou guardava só pra você?

 

R – Não, eu falava pra todo mundo, às vezes me fantasiava. Nessa época de freira, era assim: eu tinha uma calça comprida - menina estava começando a usar calça comprida nessa época - e ela era preta. Eu peguei a blusa do agasalho de escola, que era azul marinho. Eu fiz assim, abotoei e botei um pano branco. Então, eu ficava de calça comprida, uma blusa sei lá o quê e, com aquele pano, eu estava fantasiada de freira. Eu embarcava muito na fantasia. E todo mundo achava que eu era meio doida, mas ninguém ligava.

 

P/1 – E mulher de pirata é bom que é em Minas. Longe do mar ainda por cima...

 

R – Pois é, achava chiquérrimo ser pirata, mas como eu não podia ser... Durante muito tempo, quando eu era mais nova, eu queria ser a Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo, que era o meu ideal.

 

P/1 – O Monteiro Lobato marcou muito...

 

R – Marcou muuuito muuuuito muuuuito.

 

P/1 – Reinações, tudo...

 

R – Tudo, tudo. Eu já li várias vezes e é uma leitura que de vez em quando eu vou lá e bico de novo. Eu acho que foi definitivo pra mim. Pra muita gente, não só pra mim. E hoje eu tenho amigos, por exemplo, que não leram Monteiro Lobato na infância. Eu falo: “Eu tenho dó de vocês”. É um buraco que vai ficar pra sempre porque, tudo bem, pode ler hoje, mas, aquilo lá que a gente sente quando a gente é criança, adolescente, não tem mais.

 

P/1 – E escrever foi desde que aprendeu a escrever?

 

R – Eu sempre gostei muito de escrever, inclusive, do ato físico de escrever. A mão deslizando no papel, escrever a lápis, o gestual. Inclusive, o meu irmão Laertes ri de mim porque eu escrevo o tempo todo aqui na mão, sem lápis. Eu tô aqui, eu tô escrevendo, quando eu tô mais desligada. Então, o ato físico de escrever sempre me deu muito prazer, o cheiro do papel, tal. Agora, com o computador, a gente perde isso. Mas eu ainda gosto. Por exemplo, quando eu tô falando no telefone, eu fico rabiscando. Às vezes eu pego uma palavra e escrevo, repito, repito, repito. Adoro isso. E inventar história, não tem nada mais gostoso. Mas eu não sabia que eu ia fazer isso. Eu sempre gostei muito de livro. Muito, muito. E eu me preparei para ser professora, eu fiz curso de Letras. E eu fui professora muito pouco tempo. Fui professora de Literatura, de Português, de Ginásio. E fui professora, um pouquinho, de Teoria da Literatura na Universidade. Mas, aí, eu descobri que eu não queria ser professora, eu não gostava. Eu descobri isso sendo aluna de uma Educadora que é uma pessoa também definitiva na minha vida, e na vida de muitas gerações, que é a Magda Soares. Eu fui aluna da Magda no último ano de faculdade. E como eu fazia Português puro na faculdade, eu tinha oito horas de aula por semana com ela, quatro de Didática de Português, quatro de Didática geral. E a Magda é a professora por excelência, ela tinha uma inteireza na sala de aula, e uma paixão, que era uma coisa meio arrebatadora. E eu saquei: “Eu, como professora, nunca vou ter isso, nunca vou ser assim”. Eu podia até ser tecnicamente boa, eu tinha um bom desempenho em sala de aula, mas essa paixão eu não ia ter. E eu falo pra Magda que eu deixei de ser professora por causa dela. Mas eu tinha que ser alguma coisa virada pra livro. E foi por acaso. Eu resolvi vir pra São Paulo, eu estava em Belo Horizonte, me preparando pra fazer carreira universitária, ia fazer Mestrado, não sei o quê, quando eu falei “Não quero” e vim pra cá. E acabei, por uma série de caminhos, indo trabalhar na Abril Educação, com livro didático, primeiro como assistente, depois como editora. E foi uma grande escola. Depois escrevi livro didático, primeiro uma coautoria de primeira a quarta, depois escrevi sozinha quinta a oitava. E tive convite pra escrever.

 

P/1 – Vamos deixar só um pouquinho a Abril, só pra gente voltar um pouquinho e pegar uns pontos de memória que eu fiquei curioso ainda. Uma delas é qual era o nome da sua primeira escola e como era a escola?

 

R – Grupo Escolar Bueno Brandão, em Três Corações. E depois era o Colégio Estadual de Três Corações. Porque se fazia o primário e depois você ia pro colégio. Então, eu estudei no Grupo Escolar Bueno Brandão, foi lá que eu fui alfabetizada no Livro de Lili. No Colégio Estadual de Três Corações fiz o ginásio, fui pra Belo Horizonte e estudei no Colégio Estadual de Belo Horizonte, o Estadual Central, que eu fiz Curso Clássico.

 

P/1 – E como é que era o dia a dia no colégio, pra você era tranquilo?

 

R – Eu adorava, adorava. Era uma delícia. Eu amava escola e eu não era boazinha, não, eu era bem bagunceira, mas eu era ótima aluna também. E os professores eram até meio indulgentes comigo por causa disso, eu tirava só notas boas, me saía muito bem, curtia muito. E fazia muita bagunça na escola, era muito bagunceira.

 

P/1 – Esse “ir bem” era em todas as matérias, era especificamente em Humanas.

 

R – Nas Humanas. Eu ia bem porque era meio CDF, estudava pra não tomar bomba. Mas eu odiava Matemática, até hoje. Eu gostava profundamente de Português, gostava de Latim, adorava Francês. Gostava menos de História e Geografia. Mas o que eu gostava mesmo eram as Línguas. E as Literaturas. Tanto que eu fui fazer Clássico. Inclusive, quando eu fiz Clássico, tinha o Clássico dirigido pra Letras e Humanas e tinha o Clássico dirigido pra Ciências Sociais. Eu fiz o Clássico Letras porque não tinha Matemática, Física, nada. Eu tinha verdadeiro horror, até hoje eu tenho.

 

P/1 – Tinha algum professor que marcou essa época?

 

R – A Dona Lili que me alfabetizou. No Ginásio eu tive duas professoras, uma de Português que chamava Dona Clotilde, e a de Francês, uma paulista que era do interior, mas que morava lá, era casada com mineiro, tal. Leda. E tinha um professor de Geografia também, que se chamava Alaor Ribeiro Leme, que eu gostava muito. Depois, no Clássico, já em Belo Horizonte, eu tive um que eu fui apaixonada por ele, chamava Nei, era uma paulista, também, que era meu professor de Português. Tinha o Professor Veloso, de Filosofia, que eu adorava. E tinha... Eu fui aluna, um pouquinho só, do Affonso Romano de Sant’Anna, seis meses só, no Clássico. Os que marcaram mais foram esses, no Colégio.

 

P/1 – E você sempre foi mal em Matemática, mas sempre bem em Redação, esse tipo de coisa?

 

R – Sempre, sempre.

 

P/1 – Como eram os colegas na escola, tiveram alguns que ficaram?

 

R – Não, de escola, não. Tem uma prima que foi minha colega e, família, você sempre mantém o contato, Maria Teresa. Mas o pessoal foi se separando pela vida, não ficou ninguém, não, que eu tenha contato até hoje.

 

P/1 – Você fica em Três Corações até que idade?

 

R – Até final de adolescência, não me lembro muito bem. É, final de adolescência.

 

P/1 – Aí, veio pra São Paulo sozinha?

 

R – Vim pra São Paulo. Minha família se mudou pra lá. Porque como meu pai era funcionário público e eu tinha que fazer Clássico e em Três Corações não tinha, tinha curso Normal de formação e Científico, e eu não queria. Depois viriam meus irmãos, logo em seguida, e meu pai pediu transferência e mudamos para Belo Horizonte.

 

P/1 – Como foi essa mudança?

 

R – Foi ótima. Eu fui estudar no melhor colégio que poderia existir nessa época, que era o Colégio Estadual, um colégio de ponta. Aluno de colégio estadual estava garantido, a maioria entrava na faculdade de Direto. E era muito bom, o ensino muito bom. A maioria dos nossos professores eram professores de faculdade, universidade. Então, era muito legal, foi uma coisa muito rica. A gente lia muito, conhecia muito escritor... Murilo Mendes, eu conheci Guimarães Rosa, Clarice Lispector, enfim... E não era essa coisa de hoje, de escritor ir falar com criança na sala de aula. Mas de vez em quando tinha umas palestras, uns eventos assim. Então, era muito bom, muito bom mesmo. E o colégio era muito legal. Eu tive grandes amigos lá, mas a gente se espalhou. Depois eu fiz faculdade e vim pra São Paulo, então, foi perdendo o contato.

 

P/1 – E dessa época de Belo Horizonte, você lembra de alguns livros mais, fora esses que você citou aqui, que te marcaram e moldaram como pessoa?

 

R – Olha, eu li muito Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos. Eça de Queiroz eu gostava pra caramba, e gosto até hoje, de Eça de Queiroz. Depois eu lia muito Drummond e Bandeira, lia demais. Um pouquinho de João Cabral, mas eu gostava mesmo de Drummond e Bandeira. Fernando Pessoa. E foram basicamente esses, fora um ou outro, mas coisas de peso mesmo, que eu lia constantemente, foram esses.

 

P/1 – Conta um pouquinho como você resolve vir pra São Paulo, por quê...

 

R – Como eu resolvo, foi o seguinte: Eu estava me preparando pra fazer carreira universitária, mestrado, tal. Mas com essa sacada que eu não queria dar aula, eu saquei outra coisa também, que é o seguinte: eu não tenho muita paciência pra estudar, eu não sou muito estudiosa. Eu gosto de saber, mas eu gosto é de inventar. Pegar, fazer pesquisa, estudar profundamente um assunto, um tema, eu não tenho a menor paciência. Aí, o que eu vou fazer na Universidade? Eu vim aqui passar umas férias, tinha uma amiga que morava aqui, e adorei São Paulo, foi a primeira vez que vim pra São Paulo. Não, mentira, já tinha vindo antes, mas fazia tempo, eu tinha vindo com um Jogral. Eu fazia parte de um grupo que recitava poesias brasileira e portuguesa e nós fomos nos apresentar no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre e Caxias e paramos um pouco em São Paulo. Fizemos duas apresentações aqui também. Isso foi no colégio. Eu vim passar umas férias aqui, adorei e falei: “Ah, eu vou morar em São Paulo”. Cheguei em Belo Horizonte, a hora que eu desci do ônibus, botei o pé no chão, eu falei: “Não fico mais aqui”. Eu dava aula no cursinho Pitágoras, que era um cursinho grande, lá, e dava aulas na faculdade. Então, saí pedindo demissão e carta de apresentação.

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Eu tinha 25, 26 anos. Eu falei: “Bom, eu não gosto de dar aula, mas é o que eu sei fazer. Então, eu vou procurar aula e depois eu vejo o que acontece”. Eu trouxe carta de apresentação do Walfrido dos Mares Guia, que a família dele era dona do curso Pitágoras. E o Walfrido trabalhava, dava aula também, ele deu cartas de apresentação para o Objetivo, pro Equipe e pro Anglo, que eram três cursinhos. E eu fui na faculdade pra pegar uns documentos, algumas coisas e eu encontrei com a Magda Soares, que tinha sido minha professora, e ela sabia que eu não gostava de dar aula. Eu contei que estava vindo pra São Paulo. “Mas você vai fazer o que lá?” “Eu vou procurar aula primeiro, pra começar, depois eu começo a conhecer gente...” Ela disse: “Por que você não vai na Editora Abril?” “Fazer o que na Editora Abril?” “Lá tem a Abril Educação”, e eu não sabia de nada disso. “Tem lá uma Abril Educação e eu sei que eles estão precisando de gente porque me pediram pra indicar alguém. Eu indiquei o Adilson que é um colega meu, mas ele não quis ir para São Paulo. Por que você não vai lá? Eu te dou uma carta pro diretor e te apresento pra ele”. Me deu a carta, botei na bolsa e esqueci da carta. Vim pra cá, fui no Anglo, no Equipe e no Objetivo. O Objetivo era assim, você tinha que trabalhar um ano sem ganhar nada pra conseguir depois. O Anglo só ia ver isso mais pra frente, ver o quadro de professores. E o Equipe estava dispensando professores de Português porque tinha muito. Então, falei: “Bom, deixa pra lá”. Eu estava com meu fundo de garantia e eu torrava o dinheiro. Aluguei apartamento sem saber nada o que iria acontecer. Aluguei apartamento lá no Paraíso, esquina com a Praça Oswaldo Cruz. Eu torrava dinheiro, andava só de táxi, ia ao teatro toda noite... Só Hair eu vi oito vezes, a peça. E assim, o dinheiro indo embora e nada. Chegou o carnaval, eu estava indo para Belo Horizonte com os amigos para passar o carnaval lá, e a gente passou na Marginal e eu vi lá a Editora Abril. Eu falei: “Ô gente, eu tô com uma carta aqui pro Professor Edson Franco, que é diretor de uma tal Abril Educação. Deixa eu ir lá”. Eles pararam na Marginal, eu atravessei, fui lá na guarita do guarda e falei: “Eu quero falar com o Professor Edson Franco” “Ah, ele não fica aqui, não, ele fica no Curtume”. Eu não sabia o que era o Curtume, voltei e falei: “Ah, ele fica num tal de Curtume, vamos embora”.

 

E fomos embora, passamos o carnaval. Dez dias depois um desses amigos, o João, que estava no carro - ele morava aqui, dava aula e tinha sido meu colega de faculdade - ele me ligou e falou: “Já sei o que é Curtume, é uma rua lá na Lapa e a Divisão de Educação e Fascículos fica lá. Se você quiser eu te levo”. Eu falei: “Vam’bora”. E fomos, sem marcar hora, sem nada. Cheguei lá, falei que queria falar com o professor Edson Franco. “Marcou hora?” “Não, eu estou aqui com uma carta da Professora Magda Soares”. Ele veio me receber porque carta da Magda era altamente recomendável. Leu a carta, me encaminhou pro editor do Livro Didático e me falou o seguinte: que se eu tivesse ido lá dez dias antes ele tinha um assistente, mas que durante o Carnaval esse assistente dele tinha resolvido se mudar pro Guarujá, então, tinha voltado e pedido demissão. E que a carta me recomendava muito, mas que ninguém entrava sem teste psicotécnico, e não sei o quê. Eu falei: “Tudo bem, eu faço tudo, mas eu não sei nada de editora, nunca trabalhei”. Ele falou: “Isso não é problema, você aprende”. Fiz os testes todos e a vaga ficou sendo minha. Quer dizer, eu tinha ido lá antes, mas tinha dado errado. Fiquei dez anos na Abril trabalhando com livro didático, com um pouquinho de fascículos eu trabalhei, mas a maior parte do tempo foi livro didático. E foi uma escola.

 

P/1 – Isso na década de 70?

 

R – Isso foi... Eu vim pra cá em 72, é, na década de 70. Eu fiquei na Abril de 72 a 82.

 

P/1 – Conta um pouquinho desse cenário da Abril, era muito rico nessa época.

 

R – Muito rico, muito rico. Tinha pessoas inteligentíssimas, muito ex-preso político, ex-torturado, muito intelectual. Era um ambiente de uma efervescência cultural e intelectual muito grande. E os anos 70 foram anos de muita liberação. Era um ambiente muito solto, alegre, meio louco. Muito legal, muito legal. E fazia-se coisas interessantes, muitas publicações interessantes. Era um universo muito rico, a Abril. E muito formador, também, de profissionais da área. Profissional que saía da Abril tinha um peso muito grande no mercado, tinha uma procura.

 

P/1 – E lá você conheceu escritores que começam a publicar mais tarde, como Pedro Bandeira, Ruth Rocha...

 

R – Ah, Maria Adelaide Amaral, Walcyr Carrasco, Jacó Gorender... Tinha muita, muita gente.

 

P/1 – Seu papel era exatamente o quê?

 

R – Eu era assistente editorial, assistente do editor de livros didáticos. Trabalhava direto na edição de livros, contato com o Autor, com o texto, com ilustrador, programador visual. E era tudo feito na mão, não tinha computador na época. Era tudo feito na faquinha. Tinha a preparação de texto, revisão, pesquisa. Às vezes a gente formulava questões pra propor pro autor.

 

P/1 – E nessa época tava surgindo a Literatura Infanto-Juvenil.

 

R – Estava começando com a Revista Recreio, Ruth Rocha, Ana Maria Machado. Sylvia Orthof estava começando a despontar. Mas era mais a revista Recreio que aparecia com as historinhas. E depois elas começaram a publicar. Da Revista Recreio saíram Ruth Rocha, Ana Maria, Sylvia Orthof, Joel Rufino dos Santos, enfim... Começaram a publicar livros, mas tudo muito pouco ainda. No final dos 70 que começou mesmo o tal boom da literatura infantil.

 

P/1 – E lá dentro você acaba conhecendo essas pessoas também? Como é que é?

 

R – Não, não conheci, não. Porque eu trabalhava mais na Educação, mesmo. Eu não conhecia ninguém, eu fui parar nisso, nessa história da literatura Infantil, por acaso. Quando eu estava na Abril ainda, em 79, 80, eu escrevi em parceria com a assessora pedagógica da educação, chamava-se Vilma Jorge, uma coleção de livro de Português de primeira à quarta série. Tinha cartilha e primeira à quarta, cinco volumes. Era livro do aluno e livro do professor. Ela foi mais responsável pela cartilha por causa da metodologia. Ela era pedagoga, eu não sou. E eu mais pela parte de Português, de língua. E na cartilha ela usou um método, que eu não sei como é que chama, mas que não antecipava sílabas, você só trabalhava com as sílabas que a criança tinha aprendido. Então, o primeiro texto era uma frase com duas sílabas só, palavras com aquelas sílabas e, depois, à medida que tinha uma lição nova, que entrava uma sílaba nova, os textos iam ficando mais ricos, foi uma coisa progressiva. E eu fiz os textos. Era difícil porque você não tinha recurso... Mas eu fiz os textos. Saiu, chamava-se Mágica das Palavras, foi publicado pela Abril e, mais tarde, a Moderna comprou essa coleção da Abril. A coleção saiu impressa. Em 1982 eu saí da Abril, já tinha dez anos lá, estava insatisfeita, estava numa mesmice muito grande. Eu também saí na louca, não tinha outra coisa pra fazer, nada. Tinha uma visão romântica, que eu ia fazer só uma refeição por dia, que ia economizar, aquelas coisas. Eu morava na Praça Benedito Calixto nessa época. Quando tinha três dias que eu estava em casa, desempregada e me preparando pra sofrer muito e tal, a Regina Mariano, que é a editora da Ática, editora de literatura infantil, me telefonou propondo um freelance. Alguém tinha dado meu nome pra fazer um freela, que era um reconto de um conto popular, sobre a Caipora, um livro que eles estavam fazendo. Contos populares da América Latina e tal. Então, me chamou pra propor esse freelance e eu não conhecia ela. Fui, começamos a conversar e ela, não sei por quais caminhos, tinha conhecido essa coleção A Mágica das Palavras. E comentou os textos da cartilha, falou que ela tinha um projeto pra lançar livros sem antecipação de sílabas, livros pra criança que estava aprendendo a ler, em três níveis de dificuldade. E que não tinha conseguido gente pra fazer aquele projeto, e se eu não queria tentar. “Ué, tento”. Comecei a fazer as historinhas e ela gostou. Ela comprava essas histórias, pagava bem e fiquei um ano fazendo essas historinhas. Era assim, eu fazia seis, ganhava aquele dinheiro, torrava o dinheiro e não fazia nada. Quando começava a acabar o dinheiro eu fazia mais um tanto, ia lá e ela me pagava na hora, eram dias pra receber. Aí, nasceu a Coleção Estrelinha, que o título é da Ática, da Regina. A primeira, Estrelinha um, só sílabas simples; a Estrelinha dois, sílabas um pouco mais complexas, mas a frase é mais simples. E a Estrelinha três já tem um pouco mais de complexidade. Saíram nove livros de cada. Então, eu entrei na literatura infantil com nove livros, não tive um livro. E é uma literatura paradidática, não é uma literatura pura, tem uma intenção didática, mas são historinhas com começo, meio e fim. E com essa coleção eu ganhei o Revelação de Autor Infantil da Câmara Brasileira do Livro, de 84. E meu nome começou a circular.

 

P/1 – De 82 a 84 foram esses livros que você foi publicando? São dois anos de publicação?

 

R – É, dois anos.

 

P/1 – Mas já tinha interesse anterior, seu, de escrever alguma coisa...

 

R – Não, nada planejado. Depois eu escrevi uma coleçãozinha que se chama O que Aconteceu no Caldeirão da Bruxa. Saiu pela Formato, de Belo Horizonte. As coisas acontecem, não são planejadas. Aí, um dia veio uma frase na cabeça e eu faço. Eu não tenho um projeto, nunca tive um projeto: “Ah, vou ser escritora”. E eu não acho que eu seja escritora. Eu faço uma distinção. Eu acho que existem escritores e pessoas que escrevem. O que são? Tanto escritor como a pessoa que escreve têm talento pra mexer com as palavras, é criativo, inventivo, não sei o quê, criam histórias. A grande diferença é que o escritor tem a compulsão de escrever e a pessoa que escreve, não. Eu acho que eu sou a pessoa que escreve, não sou escritora, não tenho compulsão de escrever. Então, assim, é uma coisa que acontece. Tenho uma ideia, é fácil, não vai me dar trabalho? Eu faço. Mas eu não tenho um projeto: “Vou ser escritora, sou escritora, esse é o meu ofício”, não.

 

P/1 – Então, quando você publicou os primeiros livros e você entra no mercado editorial, infanto-juvenil, você vai atrás pra conhecer? Ou também não é uma coisa que você vai pesquisar o que está acontecendo nesse meio...

 

R – Não, eu fui muito mais atrás, pra conhecer, quando eu virei Editora de livros infantis e juvenis. Porque depois que eu fiz a Coleção Estrelinha eu escrevi, a convite da Ática - o editor era o Jiro Takahashi - que me convidou pra escrever uma coleção de quinta à oitava série de Português com a mesma metodologia da outra, de primeira à quarta. Eu fiquei dois anos e meio em casa escrevendo esses livros pela Ática. Uma coleção que se chamou Português em Sala de Aula, saiu em 1987. Eu recebia adiantamento da Ática, então, eu podia trabalhar. E quando eu terminei essa coleção, eu trabalhei um pouco com o Jiro, muito pouco, que nessa altura já estava lá. Não inteirou um ano. Aí, me convidaram pra ir para a Atual Editora, para ser editora de literatura juvenil e paradidáticos. Eles não faziam Infantil na época. Foi quando eu comecei a me interessar pelo mercado, comecei a acompanhar. Eu acho que o meu grande barato é ser Editora.

 

P/1 – Isso você morava em São Paulo ainda?

 

R – Morava em São Paulo ainda. Fiquei três anos e meio na Atual e resolvi ir para Belo Horizonte. Quando eu já tinha 18 anos de São Paulo, e São Paulo já estava começando a ficar essa coisa massacrante, eu tive um convite do Gilberto Mansur pra ir pra Belo Horizonte. Ele ia abrir uma editora lá, a Ponte Editorial, pra fazer esses livros de arte por encomenda, esses livrões. Fui pra Belo Horizonte, o Collor veio e afanou o nosso dinheiro. E afanou o dinheiro do Gilberto, que era o dinheiro que iria bancar a Editora. Mas dali a pouco tempo, a Formato, que era de Belo Horizonte, me convidou pra ir trabalhar lá com literatura infantil e juvenil.

 

P/1 – Voltando um pouquinho. Conta um pouco dessa trajetória de São Paulo. Você fala do Paraíso, essas casas... Tinha uma vida cultural intensa em São Paulo? Como era isso?

 

R – Tinha. Muito cinema, muito teatro. Morei no Paraíso, de lá mudei para o Alto da Lapa, depois para a Praça Benedito Calixto. Depois, pra Vila Mariana e, da Vila Mariana pra Belo Horizonte. Foram quatro casas.

 

P/1 – Como é virar Editora? Conta um pouco esse processo.

 

R – Foi uma delícia porque eu descobri que era o que eu queria fazer na vida. Eu gosto muito dessa coisa de você pegar um original e acompanhar ele até ele virar livro. Porque o original chega à sua mão, ele não é um livro ainda. Ele é uma proposta de livro. Tem todo um trabalho de leitura do texto, de discussão com o autor. Muitas vezes você faz comentários críticos, sugestões, discute e propõe. Eu sugiro muita coisa. Claro que a palavra final é sempre do autor, mas eu gosto muito de sugerir, quando eu acho necessário, claro. E você vê o livro nascendo, você vê o projeto gráfico, ele ganhando uma cara. Aí, você pensa em quem vai ilustrar, você acertar na escolha é muito bom. “Esse texto aqui vai ficar bom no traço de fulano”. É um trabalho que eu acho extremamente rico porque é um trabalho de equipe, você não faz sozinho. O livro não é só do autor, não é só do ilustrador, do editor, é o resultado de um trabalho de equipe. Quando ele sai, tem um monte de gente ali por trás. Você tirou do nada, uma coisa que você fez nascer. O editor é meio parteiro, de uma coisa que não existia, um universo que não existia e que passa a existir. Então, eu curto muito isso, eu adoro fazer livro.

 

P/1 – Não sei se é igual até hoje, mas qual é ou qual era a função exata do editor nos anos 80. Chegava pra ele o original bruto, chegava já corrigido por alguém, como é que era?

 

R – Não, chegava bruto, encaminhado pelos autores, pelo correio ou pessoalmente. Os autores mandam propondo. Conforme o autor, a gente convida, pede texto. Isso até hoje é assim. “Quero um texto seu”. O ponto de partida é o original, na mão do editor. Tem todo um processo de leitura, avaliação. A gente usava, e usa ainda, pareceristas, que em geral são professores dentro da sala de aula. Porque o livro passa muito pela escola, o livro chega à mão do leitor infantil e juvenil pela via da escola, predominantemente. Quando você tá muito em dúvida a respeito de um texto, a gente dá para um ou dois pareceristas, dá um roteirinho lá, pede o que ele vai observar no texto, pra ele fazer um comentário crítico e falar das possibilidades que aquele texto oferece, no sentido de se transformar em um livro. Eu nunca tomei como determinante a leitura do parecerista. É muito importante, me fornece dados, mas a palavra final é minha mesmo, é um feeling. Você vai adquirindo essa experiência. Mas você colhe essas opiniões, faz um mix e tira a sua. Tem texto que você não tem dúvidas, você diz: “Eu quero esse texto” e pronto. Você olha também as necessidades de catálogo, mercado. Tem muito livro sobre a questão da ecologia, esse aqui é mais um? Então, não quero. Por melhor que ele seja, já tem muito. Você pega uma série de variáveis, tem todo o lado de custo, cada editora tem o seu projeto, o seu planejamento.

 

P/1 – E no começo dos anos 80, o que chegou pra você de grande... Que te dá alegria como editora, de editar esse autor...

 

R – Ah, muita coisa. Na Atual eu publiquei Sylvia Orthof, Fanny Abramovich, Vivina de Assis Viana, Ronald Claver, muita gente legal. Criei uma coleção chamada: Quem conta um conto, aumenta um ponto, que foi coordenada pelo Samir Meserani, e tinha o Mario Prata, o Ignacio de Loyola Brandão, Márcia Kupstas, a Vivina. Era uma coleção muito legal de fazer, foi muito bom. Um livro que até hoje eu tenho saudades da produção dele, foi um livro chamado Ana e Pedro, que é da Vivina de Assis Viana com o Ronald Claver. Foi um projeto meu, eles são amigos, e são meus amigos também. Uma vez, a gente conversando, eu disse: “Eu queria que vocês escrevessem um livro que é uma troca de cartas entre uma menina e um rapaz, adolescentes. Mas eu queria que vocês fizessem no ritmo do correio e que vocês só conversassem no início, pra definir. Eu participo dessa conversa, pra definir como vai ser essa troca e depois vocês não falam mais no assunto. Quando vocês se encontrarem na vida real, não conversem a respeito. Até uma hora que vai terminar essa correspondência e a gente vai ver como é que vai ser a hora de terminar, vocês vão saber”. E eles toparam, nós fizemos uma reuniãozinha, a Vivina ia ser a menina e ele ia ser o rapaz, como é que ia ser e tal, quem é que começava. E não sabiam quem é que iria começar, quem fosse começar, começasse. E a Vivina um dia mandou uma carta pra ele. Ela assinava Ana T e ele assinava Pedro. Então ia: “Para Pedro, aos cuidados de Ronald Claver”. Ele mandava “Pra Ana T, aos cuidados de Vivina”, no endereço dela. Às vezes, quando eles iam se encontrar num evento de literatura, numa feira, tal, ele trazia o envelope e falava: “O Pedro mandou entregar pra Ana T”. Eles seguiram à risca. Era no ritmo do correio e foi um ano maravilhoso porque chegava carta do Pedro, a Vivina me ligava, lia a carta, comentava e lia a carta que a Ana T ia mandar pro Pedro. E ele tinha um amigo que fazia a mesma coisa: Ele lia as cartas da Ana T. E a minha equipe na editora começou a se envolver, a ler as cartas. Foi um ano maravilhoso. Nós fizemos esse livro com o maior pique. E no fim saiu esse livro, chama Ana e Pedro, foi um sucesso editorial, e é até hoje. Ele já foi reeditado, saiu numa coleção nova da Atual. Eu fiquei na maior dor de cotovelo. O Henrique Felix, que na época era o meu assistente na Atual e agora era o editor, quando saiu esse livro, ele me convidou pra fazer uma apresentação. Então, saiu uma edição nova e foi maravilhoso, um sucesso editorial fantástico. A Vivina e o Ronald já foram em milhares de escolas, até hoje recebem cartas de leitores. Os adolescentes se envolvem profundamente. Isso é muito legal.

 

P/1 – Como começou a primeira carta, o que abordava?

 

R – Começou com uma conversa entre uma menina e um rapaz: “Como é que você é?” “Eu sou...”. Manda retrato, não manda retrato. Comentavam coisas do cotidiano, coisas de jornal, alguma coisa de política. Mas começaram a encaminhar para um clima meio de romance... de “Vai rolar alguma coisa, ou não vai rolar?”. Então, tinha muito subentendido nas mensagens. O Pedro escrevia longos poemas e enviava pra ela. Ela mandava um cartão postal de não sei onde. Um pré-namoro, vamos dizer assim.

 

P/1 – E como foi pra editar? Tudo entrou no livro ou vocês foram trabalhando esse material? Como foi a sua parte?

 

R – Eles entregaram as cartas manuscritas, mandei digitar tudo e foi um trabalho de texto normal, com algumas sugestões. Mas como os dois são autores experientes, não tem grandes acertos, só algumas coisas..

 

P/1 – Foi durante um ano esse processo?

 

R – Durou um ano.

 

P/1 – E tudo o que mandaram foi publicado?

 

R – Tudo. Não teve censura, nada. E o projeto de capa quem fez foi a Ângela- Lago, ficou lindo. Foi um marco, até hoje é, pra mim. Mas eu já fiz coisas muito lindas, de muita gente boa. Já editei Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Jorge Miguel Marinho...

 

P/1 – Queria que você contasse um pouquinho dessa experiência, por mais que seja uma experiência mais profissional mesmo, um pouquinho do que você conhecia da Sylvia Orthoff e do Elias José, que são pessoas que não estão com a gente mais.

 

R – A Sylvia, eu tive vários encontros com ela, publiquei três ou quatro livros dela, na Atual e na Formato. E a Sylvia era uma delícia de gente, ela era uma figura. Muito destrambelhada, falava o que vinha na cabeça, muito engraçada, muito bem humorada. Ela ria de tudo. Muito crítica, ela enxergava as coisas. E uma visão, sempre, muito, muito original das coisas. E aquele texto delicioso, fluente. Muito original. Era uma pessoa muito querida, era bom demais conversar com ela, ficar com ela. A gente ria muito, se divertia muito. Ela contava muito caso, se lembrava de muita coisa. Era uma pessoa muito aberta, muito receptiva. Foi uma experiência muito boa meu contato com a Sylvia. Com o Elias eu tive mais contato. Também era uma delícia de gente, um cara que tá fazendo muita falta porque ele era muito presente, muito generoso, ele se doava muito pros amigos, pras pessoas. Muito carinhoso, amoroso. Ele era daquele tipo de amigo que você lança o livro, manda pra ele, ele lia, comentava. Ele dava sempre o retorno e um retorno que, às vezes, te apontava e sugeria coisas. E muito legal. Ele era diretor da Faculdade de Letras de Guaxupé, onde ele morava. Ele fez um evento de literatura infantil e convidou várias pessoas. Nós passamos quase uma semana lá. Ricardo Azevedo, Cristina Agostinho, a Vivina, eu. A gente ficou em hotel, mas ia muito a casa dele. Faziam jantares ótimos, a família dele é uma delícia também. Ele era acolhedor, dava uma segurança afetiva pra gente muito grande. Era bom saber que o Elias estava lá. A gente trocava muito e-mail. “Elias, o que você acha disso?”. E foi uma perda muito grande, muito triste. E muito cedo, acho que ele foi embora muito cedo.

 

P/1 – Vou voltar um pouquinho pros seus livros, pra gente comentar. Quando você trabalhava como Editora, você também publicava, ou não? Você parou?

 

R – Publicava. Quando eu trabalhava na Atual eu publiquei na Formato, essa O que Aconteceu no Caldeirão da Bruxa, que tem quatro títulos. Publiquei uma Coleção chamada Nomes e Nomes, com seis títulos. Eu trabalhava na Atual essa época. Publiquei na Moderna, uma Coleção chamada No Caminho do Perde-Acha, e dois livros avulsos: O Mistério preso do Armário e Sapituca. Quando eu já trabalhava na Formato eu publiquei na Atual uma Coleção chamada Baú de Histórias; publiquei na Ediouro, na Record.

 

P/1 – Muito nesse formato de Coleções?

 

R –Tem gente que implica comigo porque eu faço as coleções. Porque é o seguinte: eu descubro um veio, é bom de fazer, é gostoso, eu faço um monte. Um só não me basta. Eu curti pra caramba, então eu quero mais, mais. Até que esgota aquilo. Agora, por exemplo, eu estou no roteiro pra livro de imagem, estou achando uma delícia de fazer. Eu faço um, tenho outra ideia e aproveito. A maioria é das coleções é por causa disso mesmo. Quer dizer, a Estrelinha, não. A Estrelinha foi intencional, ela foi programada pra ser uma Coleção. No Caminho do Perde-Acha também. Surgiu porque eu tive uma idéia. Eu estava ouvindo Caetano Veloso cantando Mora na Filosofia, que eu amo. Aí não sei em honra de que santo, veio uma frase na minha cabeça assim: “Jacaré perdeu a boca”. Veio essa frase na minha cabeça. Tenho muito assim, vem a primeira frase, ou vem o título. Eu funciono muito assim: vem essa primeira frase, aí eu sinto. Alguma coisa lá dentro me diz se vai dar alguma coisa, ou não. Se vai ou não rolar. Quando vai rolar eu corro. Eu sempre gostei de escrever a mão. E pego aquilo e despenca. Sabe quando você abre um texto no computador e ele despenca? O texto despenca, ele vem quase pronto. Então, veio esse Jacaré Perdeu a Boca. É uma história muito doida. Aí, achei um barato, tal. Daí num outro dia veio lá: Seu José Perdeu o Boné. Fiz a história. Eu percebi que dava uma coleção. Apesar de não gostar de dar aula eu tenho um veio meio Educadora, nessa coisa de língua, palavra. Eu vi que daria para trabalhar algumas dificuldades de escrita, de ortografia. Essa eu fiz também dez histórias. Porque aí foi planejado: eu sentei, listei o que eu iria trabalhar e fiz. Agora as outras, não. Foi assim porque foi gostoso fazer. A Nomes e Nomes, por exemplo, o primeiro que eu fiz foi Francisco. Eu adorei fazer e falei: “Ah, vou fazer mais”. E fiz.

 

P/1 – Conta um pouco dessa sua relação com os Ilustradores, porque é um livro, como você falou, mais infantil. Uma composição de um monte de gente e o ilustrador é uma pessoa importante.

 

R – É. Uma relação, de modo geral, muito legal. Porque tem vários tipos de editor. Eu sou daquele tipo que gosta de participar de tudo. Eu mando o texto pro ilustrador, em geral eu bato um papo sobre o que eu estou pensando do texto, o que eu acho que devia ser. Às vezes eu falo: “Olha, eu tô pensando nesse texto aqui com aquele traço seu”. E peço pra ele fazer alguns raffs, alguma proposta. Encontrar personagens, fazer uma cena, mais ou menos um cenário. Fazer alguns raffs e me mandar. Aí, a gente discute em cima deles. Claro que quanto mais experiente é o ilustrador, mais tarimbado, menos problema acontece. Mas, mesmo assim, às vezes, acontece. Eu falo de você tem de acompanhar porque, às vezes, o ilustrador embarca no estético e o conceito fica meio de lado. Por exemplo, já teve caso de uma história que se passava numa fazenda, era aquela baita fazenda lá com vaca, cavalo e tinha um bueiro, uma boca de lobo, perto da casa. Fazenda não tem isso. Então, tem umas coisas assim, que você tem que tomar cuidado, uma coisa de verossimilhança. Eu interfiro muito. Às vezes, a personagem tem cinco anos, e tá com cara de adolescente. Às vezes o ilustrador precisa fazer uma pesquisa pra uma roupa de sei lá que época, uma arquitetura de sei lá que época. Eu estou sempre junto, vou acompanhando, à medida que ele vai entregando. Em geral não tem problema, não.

 

P/1 – E quando os textos são seus? Como é essa relação?

 

R – Quando são meus, se eu também sou a editora dos meus, eu faço a mesma coisa. Mas se não sou, aí, o editor que se vire.

 

P/1 – Normalmente essa relação, quando você é escritora e não editora, é tranquila?

 

R – Normalmente eu não participo. Quer dizer, os outros editores mandam pra mim, porque como eu sou também do ramo, e se eu gosto eu falo, se não gosto eu não falo. De modo geral, eu gostei de tudo. Tem alguns casos, que eu não vou citar, que eu não gosto de ilustrações de livros meus. E teve só um caso que eu recusei. Era um livro sem texto, um roteiro pra livro sem texto, que eu acho que o Ilustrador fez uma outra leitura e eu não consegui enxergar a minha história ali. Eu acho que essa parceria de livro de imagem é mais complicada.  

 

P/1 – Então, Sônia, a gente tava conversando sobre os Ilustradores. Teve algum grande parceiro de livros seus, que ilustrou mais livros seus, que você admira o trabalho? Teve algum parceiro mais próximo?

 

R – De modo geral eu gosto de todos os que ilustraram meus livros. Eu gosto muito do trabalho que a Claudia Scatamacchia fez no Caminho do Perde-Acha. Os da Coleção Estrelinha são absolutamente fantásticos, é o Alcy, o Michelle e a Estrelinha três tem alguns do Martin, um ilustrador argentino que depois sumiu no mundo, e da Eva Furnari. Tem livro ilustrado pelo Roger Melo, Luis Dias. Eu dou muita sorte, eu tenho ilustradores maravilhosos. Recentemente saiu um da Editora Positivo ilustrado pelo Alexandre Camanho, que eu não conhecia, que achei muito bom. Tem a Mariângela Haddad, que é a minha parceira nessa coleção que eu estou lançando, de livro sem texto. Nelson Cruz, Marilda Castanha, quer dizer, altíssimo nível .

 

P/1 – E como é a sua relação com o outro lado, que é o lado do leitor de livro infantil. Porque é muito próxima essa relação do leitor com o autor, como é essa relação?

 

R – Eu já fui muito em escola falar com os leitores, mas é uma coisa que eu não gosto de fazer. Porque eu acho que a escola meio que vincula a leitura ao conhecimento do autor e eu acho que são coisas separadas. Eu acho que pra você ler um livro e curtir ele, usufruir, etc e tal, você não precisa conhecer o autor. Eu acho que a hora que o autor coloca o ponto final, que o livro existe, o importante é o livro, não é mais o autor. É claro que é bom você ter o retorno de leitores. Agora, os meus leitores, predominantemente, são crianças pequenas, eu trabalho pra faixa de até nove, dez anos, no geral. São leitores que você vai, a escola prepara essas crianças pra fazer perguntas. É muito legal de ver, mas também tem um lado que é muito mecânico. A escola bota na boca da criança a pergunta. Você vê uma criança de quatro, cinco anos, fazendo uma pergunta que você sabe que não é dela. Esse lado eu não gosto. Quando você vê a criança se manifestando espontaneamente é muito legal, ela falando que gostou, não gostou, isso ou aquilo, é muito legal. Mas, de modo geral, como o contato é na escola, ela prepara, e às vezes eu fico meio frustrada com esse tipo de coisa. E eu acho, aí é uma crença que eu tenho, que não se deve vincular a leitura ao autor. O livro passa a ter uma existência na hora que ele bota a mão nele e começa a ler. Eu nunca penso no leitor quando eu vou fazer uma história. Eu não escrevo pra criança, eu escrevo não sei nem se é pra mim. Eu escrevo porque é gostoso, eu tive uma ideia, achei engraçada, me diverte, tal e escrevo aquela historinha. Pelo prazer de lidar com a palavra, de construir a história. É um prazer realmente. Então, é por isso. E sai uma historinha que, em geral, é voltada pra criança.  Agora, é muito bom quando você vê que o leitor, de alguma forma, interagiu com aquela história, com aquele livro. Eu já tive retornos muito bons de coisas muito comoventes. Eu tenho uma história de O que Aconteceu no Caldeirão da Bruxa, que é uma bruxa que tenta pegar três meninos e eles vencem a bruxa, no final. Uma vez me contaram: uma menininha tinha perdido os pais em um acidente de carro e a menina parou de falar, uma menina de cinco, seis anos. Parou de falar completamente. Aí, deram pra ela, por acaso, esse livro, entre outros e ela grudou no livro e não largava mais. Pra onde ela ia, o livro ia junto, o livro foi ficando em frangalhos. Ela apontava, mostrava o livro pra alguém contar pra ela. E as pessoas liam, liam, liam e liam. Até que ela começou a contar a história da bruxa. Quer dizer, ela voltou a falar com aquela história, que ela estava exorcizando uma bruxa também. Então, tem umas coisas emocionantes. O retorno é bom, mas chega pouco, eu acho.

 

P/1 – E esse retorno, que é uma pergunta que eu sempre faço. Acho que há dois retornos diferentes, falando do leitor. Um que é o que vence prêmios, essa parte até mais burocrática, e um que é o retorno que o autor tem com ele mesmo. “Adorei fazer esse livro, não interessa se ele vai ganhar alguma coisa”. Você poderia apontar um, ou desses prêmios, ou de algum desses livros que você diz: “Adorei fazer esse livro, é um dos que eu mais gostei, não interessa a repercussão dele”.

 

R – Prêmio eu ganhei o de Revelação de autor infantil com a Coleção Estrelinha. Já ganhei alguns prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil Juvenil, Altamente Recomendável. Aí, da Coleção Baú de Histórias. Desses outros livros que eu tenho avulso, já ganhei alguns prêmios desse Altamente Recomendável, ganhei da Uber, um prêmio com a Coleção No Caminho do Perde-Acha. Claro que é ótimo ganhar prêmio, é uma delícia. Agora, eu nunca penso se vai ser premiado ou não, se vai vender muito, ou não. O que eu penso é assim: se foi gostoso ou se não foi gostoso. De modo geral, do jeito que eu trabalho, foi muito bom escrever todos eles. Como eu não tenho um projeto definido, uma intenção de fazer isso ou aquilo, quando ocorre uma idéia que eu acho legal e que eu consigo realizar, é muito bom, muito gratificante. É como se fosse um jogo, uma brincadeira. Agora, claro que tem uns que eu me diverti mais fazendo. Eu tenho um livro chamado: A Velha, o Leão e a Onça, que é editado pela Record, eu adoro aquele livro. Tem um da Coleção Baú de Histórias, que é a Princesa Dona Sapa que também curti muito, terminei às gargalhadas. Tem um que chama Inventadeira de Besteira, Eu?!, que é da Ediouro, que eu gostei muito de fazer. Da Coleção Estrelinha, eu gostei muito de fazer o Caracol Viajante. Da Coleção Nomes e Nomes eu adorei fazer o Francisco. E, da Baú de Histórias, eu gosto de todos porque são recontos de histórias que eu ouvia ou lia quando criança. Então, é muito legal. E agora eu to curtindo esses sem texto, que são os mais novos. Saíram pela Editora Autêntica que está entrando no segmento infantil-juvenil e eu estou editando lá, também.

 

P/1 – Não sei se é possível fazer isso, mas fazendo essa coisa bem lá atrás e um paralelo: Quais as histórias que você ouvia, quem te contava e qual história você contou depois?

 

R – Na escola tinha muito, minha mãe contava muita história, meu pai também. Eu lia muito também. Essas histórias, por exemplo, eu recontei chamando de A Noite Assombrada, que começa a cair pedaços de gente. Você conhece essa história?

 

P/1 – Não, conta pra mim?

 

R – Uma mãe e uma filha, muito pobres, o pai morreu, elas não tinham dinheiro pra nada, foram morar numa casa abandonada e mal assombrada. Ninguém chegava perto porque ela era mal assombrada, tinha gritos, barulhos. Elas não tinham onde dormir e foram dormir lá e começou de noite, a moça começa a escutar uma voz tremida, assim: “Eu caio, eu caio”. Essa coisa se repete e cada vez que falava caía um braço, depois outro braço, uma perna, depois outra perna. Depois caiu o tronco, e depois a cabeça. A moça apavorada lá e todas as partes se juntaram e formaram o homem, que era o antigo dono da casa, que tinha maltratado muita gente, e que o castigo dele foi morrer e não ter descanso, ficar ali assombrando pessoas até que alguém tivesse coragem de esperar as partes todas caírem, pra libertar ele daquilo. E como a moça tinha tido aquela coragem, agora ele iria descansar em paz na eternidade e contou pra ela onde estava enterrado um tesouro dele. Ele era riquíssimo, tinha um tesouro enterrado lá fora, ela e mãe pegam o tesouro lá fora, ficam ricas e acaba a história. Esse tipo de história. Tinha aquele Os Sete Sapatos da Princesa, que a princesa ia dançar toda noite, ela gastava um par de sapatos por noite, ela era levada por um diabinho pra dançar, uma coisa de encantamento. Tinha um que eu recontei chamando de A Vingança da Caveira, que é muito legal. Um cara que gozava de mortos e defuntos, até que uma caveira aparece pra ele... Ah, sei lá, tanta história. A Roupa do Rei, aquela que o rei tava nu. Um que eu gostei muito de recontar foi A Lenda da Gralha Azul, lenda do sul do país, da gralha azul que planta os pinhões. Achei muito bom.

 

P/1 – Quando você ouvia essas histórias, como era? Era um momento da família?

 

R – Às vezes era um momento da família. Às vezes era nas férias, a gente ia pra casa de algum tio e juntava todo mundo pra contar, pra ouvir história. Tinha muito fogão à lenha, com aquele, a gente chama “rabo do fogão”, aquela parte grande. A gente ficava em volta do fogão ouvindo essas histórias, histórias de assombração, de dar medo. Então, sempre tinha alguma tia, alguém que contava histórias. E era uma delícia, menina adora história. Eu fiz essa coleção por causa disso, porque era tão legal ouvir e deu vontade também de contar do meu jeito. Aí, eu escrevi um monte. E tem milhões de outras que eu gostaria de contar também porque é muito legal. Essa coisa de recontar é outro barato. Porque, às vezes, eu junto duas histórias, eu fundo. E eu faço recontos, eu invento muito em cima também. Eu mantenho o fio, o enredo, mas eu invento muito.

 

P/1 – Como é o seu processo de criação? Tem algum processo ou é totalmente livre?

 

R – Totalmente livre. Tem uma coisa engraçada, que é o seguinte: Eu gosto de escrever a mão e eu tenho, geralmente, uma ideia que pode ser o título, um começo, pode ser um final de história e eu vou e escrevo. E escrevo muito depressa. Eu gosto de escrever com lapiseira, bem depressa. E, às vezes, acontece de eu dar uma empacada. Some, dá um branco. Aí, eu pego a lapiseira com a mão esquerda - porque eu sou ambidestra – e ela funciona como uma antena. Então, eu tô empacada aqui, de repente a continuação vem da mão esquerda. Eu começo, é uma letra meio infantil porque eu não tenho agilidade, mas é bem legível. Eu começo com a mão esquerda, pego a ideia e parto pra direita.

 

P/1 – Fica brincando com o cérebro?

 

R – É, exatamente.

 

P/1 – E essa sua relação com animais de bigodes, felinos? .

 

R – Ah sim, eu adoro bicho. Eu só tenho um pouco de aflição com bicho de penas. Eu gosto, mas não de pegar, me dá aflição. Eu gosto muito de bicho, gato, cachorro. Meu bicho preferido é o gato, mas gosto de cachorro também. Eu tenho uma cachorra que chama Amora Junqueira. Ela mora na casa da minha empregada porque eu tenho um gato e ela é uma vira-lata barulhenta, então, lá no meu prédio é meio complicado. Eu já cheguei a ter sete gatos, quando eu tinha sítio, ficavam quatro no sítio e três comigo na cidade. Agora eu não tenho mais sítio, eu vendi. Eu tenho três gatos. Na verdade, eu falo que eu moro de favor na casa deles porque eles que mandam. Eu tenho um siamês e dois vira-latas, um macho e uma fêmea. E adoro, acho um bicho inteligentíssimo, elegantíssimo, tem personalidade, são afetivos. Tem muita gente que fala que gato não gosta da gente, gosta da casa, mas não é verdade. Eles são extremamente amorosos, eles brigam, eles interagem. Eu sou apaixonada por gato.

 

P/1 – E conta essa sua característica tão peculiar: escrever nas paredes.

 

R – . Pois é. Eu acho muito legal escrever na parede, acho legal demais. Eu gosto de frases... Eu tenho frases que eu curto, uma frase que eu leio, que eu escuto, uma letra de música. Eu tenho pichada lá Paulinho da Viola, “As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”. São coisas definitivas. Guimarães Rosa, “Felicidade se acha em horinhas de descuido”. Tem coisa melhor? Drummond tem: “A vida é um verso, sem sentido talvez, mas com que música!”. Então, tem coisas belíssimas. “A imaginação é a louca da casa”, da Santa Teresa de Jesus. Eu adoro essas frases, eu tasco lá e escrevo e vão ficando. À medida que eu vou aprendendo, colhendo frases novas... E fica lá, fica na parede que fica atrás do meu computador. Eu estou trabalhando aqui e elas estão ali. Às vezes eu paro, leio uma, leio outra.

 

P/1 – E serve de inspiração ou é serve só de passatempo?

 

R – Eu não sei se é passatempo, ou não sei o que é. Eu sei que eu curto e eu gosto de fazer. Estampar aquilo lá. Eu imagino, é uma forma de eu falar aquilo, fica no meu escritório. Então, não é um lugar muito frequentado, mas fica lá, gravado.

 

P/1 – E esse espírito desobediente e rebelde, da infância, isso continua em você?

 

R – Ah, continua. Falou que não pode, eu quero. Eu não consigo fazer dieta por isso: falou que não pode comer, eu tenho vontade. Acho desaforo não poder. Então, mesmo que seja eu falando que eu não posso, não devo comer, mas eu quero. Tem um capetinha que me tenta.

 

P/1 – Sônia, faz um pouco de memória, um pouco de análise pra gente, dessa geração que é a geração que surge junto com você, que é a geração dos anos 70, 80... Que cenário da literatura juvenil, o que isso foi importante, qual foi o reflexo disso, mesmo?

 

R – Eu acho que foi uma coisa de abertura para uma prática de leitura que não tinha. Veio pelo viés da escola porque existe uma lei que recomenda leitura extra-classe, etc e tal. Foi isso que favoreceu a expansão desse mercado. Agora, é o caminho, já que o hábito de ler não é muito disseminado no país, apesar de cada vez ter mais leitores e tal. Eu acho que foi uma coisa importantíssima no sentido do livro chegar até o leitor, chegar até a criança. E uma coisa feita pra ela, de uma forma ou de outra, uma literatura especial pra ela. Que é uma literatura de entretenimento, mas que vai formar leitores lá no futuro. Então eu acho que foi essa primeira geração, lá, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Sylvia Orthof, Joel Rufino, João Carlos Marinho, Ziraldo, Marina Colasanti. Esse pessoal botou um tesouro na mão das crianças, e sobretudo criança de escola pública porque tem políticas de compra de livro. Criança que tem pouca possibilidade de adquirir livro, pouco contato, de alguma forma, o livro chega até lá. Claro, que por detrás dessa coisa tem o interesse comercial das editoras, mas não faz mal. O livro chega. Você vai em qualquer biboca, qualquer fim de mundo no país, tem livro lá. De alguma forma, o livro tá lá na mão do leitor. Então, eu acho que foi, e que é, uma coisa fundamental. Eu acho que mudou um pouco o cenário da leitura. E uma coisa que no começo, como todo começo, eu acho que se publicava de tudo, então teve o tal boom da literatura infantil e que qualquer coisa era literatura, qualquer historinha bobinha. Colocava uma ilustração colorida e era um livro infantil. Depois, o próprio mercado foi selecionando, o próprio professor que trabalha em sala de aula com o livro ele foi aprendendo a separar o joio do trigo, a separar o que é bom, o que não é, o que tem qualidade, o que não tem. Então, acho que é uma literatura de altíssimo nível, tanto de texto quanto de ilustração visual. Acho que está melhorando muito a produção gráfica, os editores estão cada vez mais cuidadosos, a concorrência está feroz, o que é muito bom, e eu acho que é a literatura infantil e juvenil brasileira é uma literatura amadurecida, forte e é isso. Que bom que aconteceu.

 

P/1 – A pergunta de praxe que a gente faz aqui no Museu, pra terminar: Qual foi a sua experiência pessoal, o que você achou de contar um pouco a sua história, como é que foi esse momento aqui? .

 

R – É esquisito. Eu estou fingindo que a câmera não tá ali. É estranho. Eu não gosto muito de ficar na berlinda, eu gosto de ficar por trás, ou editando ou escrevendo. Mas foi bom, eu me senti à vontade. E eu acho importantíssimo esse trabalho que vocês estão fazendo, não só com gente de literatura infantil-juvenil, mas com pessoas, no geral. Esse registro da memória do país, dos segmentos da população, eu acho fundamental. Eu acho que é um trabalho altamente elogiável, vocês estão de parabéns. E eu fiquei muito honrada com o convite. Eu agradeço muito.

 

P/1 – A gente que agradece. Obrigado mesmo.

 

R – Obrigada você.

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