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História

Faço samba por amor

História de: Ana Lúcia da Silva (Ana Pérola)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2012

Sinopse

Ana Pérola nasceu em Madureira, na zona norte do Rio. É neta de avós mineiros e muito ligada à sua mãe, irmãos e primos. Nunca gostou de estudar, mas sempre adorou samba. Cresceu e virou dançarina; em 2007 se tornou gari e foi assim que foi descoberta por um olheiro na rua. Em Suburbia, fez vários testes para a personagem Jéssica e foi aprovada.

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História completa

A minha mãe sempre trabalhou muito. Ela é cabeleireira, e o dinheiro do cabelo de hoje já era pra comprar alguma coisa pra casa, o dinheiro do dia. A gente nunca passou fome porque minha mãe nunca deixou a peteca cair. O dia que não aparecia alguma coisa, vinha a luz, que Deus é muito bom. Quando você acha que as coisas não vão... Opa! Aparece um cabelo, um cortezinho rapidinho, uma tintura. Ela trabalhava em casa pra poder ficar com a gente. Minha mãe sempre quis mesmo a gente, com muita força.

 

Eu nasci de seis meses, e todas as pessoas me olhavam e falavam assim: “Esse bichinho aí não vai vingar não”. E to aqui, fazer o que? O subúrbio é um local onde tem pessoas que são próximas, que os vizinhos são como parentes, que a gente pode ser íntimo com todas. É isso, é você ter mais contato com as pessoas. É gostoso ser do subúrbio. A minha família é muito engraçada, então a gente conta nossas histórias já é o suficiente. Tem bastante comida. Minha tia gosta muito de cozinhar, e no domingo, se você não comer a comida dela ela fica louca! Foi ela que me levou pro samba! Eu tinha seis, sete anos, só que não podia desfilar, mas eu ia em todos os ensaios. Minha tia me levava pro Unidos da Ponte, era ótimo.

 

Eu acho que quando você gosta muito de uma coisa, vê alguém fazendo, acha muito bonito, acaba tentando fazer aquilo de qualquer forma e você consegue. É uma verdade que eu tenho pra minha vida! Era uma coisa que me encantava, o povo sambando pra caramba. Eu ficava lá o tempo todo sambando igual uma louca. Até hoje, se soltar o pé numa bateria, ta ti cá tá, acabou! Muito gostoso. Quando a bateria toca parece que mexe com o seu interior e eu, pelo menos, não consigo ver mais ninguém na minha frente. Não existe um cansaço físico. Aí comecei a pedir pra minha mãe me levar, eu fui, comecei a pescar mais como as mulatas faziam e pronto, cada dia que passava eu tava ficando melhor no negócio, e hoje eu me considero uma profissional do samba, porque faço samba por amor.

 

Hoje eu to na Mocidade como passista e como coordenadora de ala no Império Serrano. A passista tem que saber sambar bem, ter um corpo legalzinho e ter leveza nos movimentos; demonstrar simpatia, mostrar alegria, fazer com que as pessoas que olhem pra ela vejam o que a escola pode oferecer. Você ta representando uma escola! Uma coisa eu tinha certeza:“Eu vou ser dançarina”, isso sempre. Conforme foi passando o tempo, todo mundo parece que tem que ter uma faculdade. Eu já pensei: “Ah, deixa o mundo me levar, a vida vai me encaminhar pra um caminho certo”! Eu comecei a trabalhar profissionalmente como dançarina no Plataforma.

 

Eu trabalhava à noite, dançava vários estilos. Aprendi xaxado, carimbó, danças típicas do Brasil. Eu adorava estar no palco. Eu precisava, era muito importante pra mim. Abria a cortina, você está lá! Eu fiz um concurso de gari, em 2005, só que eles só me chamaram em 2007. Comecei a trabalhar como gari o dia inteiro e à noite ia dançar. Acho que fiquei dois anos nessa loucura. Num momento eu me senti muito exausta, meu corpo não tava aguentando mais. O primeiro dia como gari o braço dói muito, que a vassoura é grande, pesada, você não é acostumada a ficar o dia inteiro só varrendo. Depois, tudo me divertia: “Vamos varrer essa rua daqui até lá”, eu: “Caraca, vamos varrer”. A gente parava, pedia água, comer alguma coisa, é bom! Fui trabalhar em Irajá, na rua, fiquei um tempão trabalhando lá, com a equipe de ceifadeira e tive uma rua só pra mim.

 

E não tem jeito, tava lá eu pingando, maquiadinha, a hora que dava a gente dá um jeitinho, olha no vidro do carro: “Opa, será que eu to bem?”. Um brinquinho, e se der pra botar um colar de plástico pra não machucar a pele, alguma coisinha assim, ta sempre arrumadinha. Não é porque você é gari que você tem que andar de qualquer jeito, tem que ta sempre arrumadinha, sempre bonitinha. Eu trabalhava dentro da prefeitura como gari, aí quiseram fazer uma reportagem pro jornal, e o rapaz colocou: “Pérola no lixo”. Eu: “Pô, Pérola no lixo?”

 

Mas a reportagem ficou linda, dali por diante as pessoas me chamavam: “Você que é a Pérola?” Como eu vou falar que não? As pessoas me chamam de Ana Pérola até hoje. Tem muita coisa ao contrário. A Jéssica é a mulher! É a toda poderosa, ninguém pode ir contra ela. A loira falsa, ela não deixa a peteca cair, ninguém pode falar alto com ela, ninguém pode ser mais que ela. A Ana não, é tranquila, cada um tem o seu espaço, cada um tem sua verdade. A Jéssica tem que ta com o pelinho loirinho. Ela vai pra praia, passa o seu descolorante, e isso é coisa de quê? Suburbano! A Jéssica sempre com o pelinho loirinho, linda, maravilhosa. Mas ela dança e eu amo.

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