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Fábrica de Amigos

História de: Gleide Eloisa Armani
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/10/2004

Sinopse

Em seu depoimento, Gleise fala sobre sua criação no bairro da Mooca, em São Paulo, regada a muitas festas e reuniões entre os vizinhos, princialmente, as festas tradicionais para Santos. Como os vizinhos se locomoviam em grupo para trabalhar, já que a maioria trabalhava na fábrica da Johnson & Johnson. Conta sobre as confraternizações com os colegas da fábrica, as boas e más experiências, como, diversas enchentes. Explica como funcionavam as linhas de produção e como se desenvolveram através da evolução tecnológica. De forma geral, conta como cresceu dentro da empresa e atingiu um cargo maior, que no começo, não imaginava possível.

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História completa

P/1 - Bom, eu queria começar com a senhora falando seu nome completo, local e a data de nascimento.

 

R - Meu nome é Gleide Eloísa Armani. Nasci em São Paulo na Rua Coronel Cintra, número 55, na Mooca.

 

P/1 - Certo. E os nomes dos seus pais e onde eles nasceram?

 

R - O nome do meu pai era Silviano Armani, nascido em Sorocaba, e a minha mãe era Carmem Ruiz Armani, nascida em Linares, na Espanha.

 

P/1 - Certo. Gleide, você lembra dos seus avós? Você conheceu os seus avós?

 

R - O que eu lembro dos meus avós era, só lembro dos pais da minha mãe. Os do meu pai não, não conheci.

 

P/1 - Como é que eles se chamavam?

 

R - Minha avó chamava-se Ana Maria Morata e o meu avô, José Ruiz Padilha. 

 

P/1 - E eles vieram da Espanha pra cá?

 

R - Vieram da Espanha pra cá. A minha mãe veio da Espanha com 1 ano.

 

P/1 - E você sabe por que é que eles vieram? 

 

R - Vieram porque o meu avô montou um negócio aqui em São Paulo. Antigamente, né? Hoje acho que nem existe mais o ferro-velho. Foi um dos primeiros ferros-velhos que tiveram em São Paulo.

 

P/1 - Certo. E o que você lembra assim, veio alguma tradição da Espanha junto? Você foi criada como...

 

R - Nós fomos criados, é estranho porque o meu pai é descendente de italiano, então você fica no meio das duas “raças”, né? Mas nós tivemos uma infância comum, não teve tradição nem nada por causa das origens deles não.

 

P/1 - Certo. E quem é que morava na sua casa?

 

R - Ah, na minha casa morava eu, meu pai, minha mãe e o meu irmão. 

 

P/1 - Como se chamava o seu irmão?

 

R - Chama Glauco Roberto Armani.

 

P/1 - Certo. E como é que era o relacionamento de vocês dentro de casa?

 

R - Nós éramos uma família muito feliz. Nos amamos muito, temos paixão um pelo outro.

 

P/1 - Tinha alguém que exercia um poder maior, sua mãe, seu pai?

 

R - Era a minha mãe, né, depois dela foi eu. (risos)

 

P/1- Por quê?

 

R - Porque a gente sempre foi muito autoritária e eu puxei tudo da minha mãe. A minha mãe sempre foi muito autoritária.

 

P/1 - Certo. E nessa época, como é que eram as brincadeiras de vocês?

 

R - A gente brincava, antigamente se brincava na rua, né? Brincava de, e de noite a gente ficava tudo nas portas e brincava de passar anel, pular corda, amarelinha. Era isso que tinha, não tinha outra coisa pra brincar.

 

P/1 - E com quem você brincava?

 

R - Ah, eu com as minhas amigas, né, a Jane, o Valter, o Bertinho, a Neide, a Ana, que moram tudo na Mooca até hoje. Só o Valter é que mora no Canadá, que trabalhou na Johnson também.

 

P/1 - Certo. Gleide, como é que era o bairro da Mooca nessa época?

 

R - Ah... Era um bairro tradicional de imigrantes, né, então a maioria lá era italiana. Tem uma parte que é italiana e outra parte que é espanhola, né? Então era um bairro que o pessoal sempre foi muito unido, uns sempre procurando ajudar muito o outro. Agora já não é mais assim. Agora, muita gente... Tem os antigos, mas tem muita gente nova também lá.

 

P/1 - Você falou que as casas eram vilazinhas?

 

R - É. Tem lugares que são vilas, né, com 20 casas em cada vila. Ainda existe essas casas. A minha mãe morava numa dessas casas e atualmente, o meu irmão mora numa delas. Hoje já é diferente. Naquele tempo não era vila fechada nem nada. Hoje é vila fechada, pra segurança, né? E numa vila morava a família inteira: filho, neto, sobrinho. Então, procurava não sair um de perto do outro.

 

P/1 - Certo. Descreve pra gente como é que era a sua casa, o que é que você lembra dela?

 

R - A minha casa? Era simples, porque a gente não tinha, meus pais não tinham condições. Só o meu pai que trabalhava naquela época, então a gente morava era, hoje eles falam, nem sei se existe mais, mas naquela época, a gente falava cortiço, né? Agora não sei como se fala, nem sei se existe mais. Você morava com três famílias num quarto, sala, cozinha e banheiro. E as outras famílias também tinham quarto, sala, cozinha e banheiro. Era simples, né? A gente dormia tudo no mesmo quarto quando o meu irmão era pequeno, depois que cresceu já foi dormir na sala. E aí depois, saímos de lá e fomos morar numa dessas vilas particulares, né, mas isso só quando eu já era bem mocinha.

 

P/1 - Certo. Gleide, como é que era a convivência de vocês com as outras famílias que moravam na mesma casa?

 

R - Normal. A gente era tão amigo uns dos outros que o Natal e fim de ano a gente fazia junto. Não, nem passava junto com as famílias separadas. Ficávamos juntos, porque nós crescemos todos com, tudo começou “pequeninho” e crescemos tudo junto, né? Então, quer dizer, éramos muito, muito unidos. Não tinha briga, pelo contrário, não tinha nada. Um procurava ajudar o outro.   

 

P/1 - Certo. E organizando o Natal, quem é que fazia essa organização?  

 

R - Ah, tinha uma família que morava nos fundos, uma família de cor: a dona Isaura e o senhor Rubens. Nossa!  Eles eram maravilhosos, né? E eles que organizavam. Então depois, eles tinham uma filha mais velha e ela que ia comprar as coisas, ela que fazia. A gente estava sempre junto, tanto é que, até passear, tudo. Ia todo mundo junto.

 

P/1 - Gleide, você comentou com a gente das festas que tinham nas vilas, né, eu queria que você falasse um pouquinho...

 

R - Tem até hoje, ainda tem as vilas. Inclusive onde mora o meu irmão hoje, a gente fazia as festas na vila: festa de São Pedro, Santo Antônio, São João. Então cada um levava um prato pra fazer a festinha. Cismava qualquer dia, fazia: "Vamos fazer o domingo do macarrão?" "Vamos." Então cada um fazia um tipo de macarrão e punha na vila pra comer. "Vamos fazer um churrasco?" "Vamos." Então todo mundo se juntava. Ainda nas vilas tem muita gente do tempo antigo, porque quem comprou há muitos anos continuou lá, né? E tem também a famosa festa de San Gennaro, que todo mundo conhece, né, e que é uma delícia.

 

P/1 - E como é que vocês organizavam a festa de San Gennaro?

 

R - Ah, já aí eu não participava da festa. Eu só ia pra ver. Participar, nunca participei.

 

P/1 - O que é que você lembra da festa?

 

R - A gente ia lá porque é diferente do que hoje é a festa. Antigamente você ia pra passear, dar volta, comer o macarrão, a berinjela — que é diferente, bem italiana mesmo, né? Ai, eu quero morrer! Pra comer, ele está dando risada. (risos) E vai comer essas coisas porque era gostoso. De casa, né? Mas lá na festa era mais gostoso.

 

P/1 - E tinha dança, alguma coisa?

 

R - Tem, mas só pra quem reservava mesa que ficava dentro do salão. A gente como era pobre, ficava do lado fora, né, passeando na rua. O que é que você acha? (risos)

 

P/1 - Gleide, nessa época de infância, qual é a coisa marcante que você lembra?

 

R - De infância? Ah, eu não sei. Mais marcante, de alegria? De criança?

 

P/1 - É.

 

R - Ah, eu não lembro, de criança eu não lembro não.

 

P/1 - Não tem problema. E o período... Você estudou? O que você estudou?

 

R - Eu fiz o grupo... Saí do grupo, né? Antigamente você estudava no Grupo Escolar Eduardo Carlos Pereira e você já prestava. Hoje eu não sei como é que é, você tinha que fazer. Hoje eu acho que é vestibulinho, né, que eles falam. A gente precisava fazer pra entrar no ginásio. Aí eu saí do grupo, fiz o vestibulinho e entrei no ginásio. Só isso, e não fiz mais nada. Uma que a gente não tinha nem condições financeiras, né, de estudar nem nada.

 

P/1 - Onde que você fez o ginásio?

 

R - No Ginásio Estadual Antônio Fermino de Proença, que é parte do Grupo Escolar na Rua da Mooca.

 

P/1 - E o que é que você lembra desse período de colégio? Como eram as aulas...

 

R - Não lembro. Só lembro de uma diretora que eu adorava ela, dona Terezinha. Isso eu lembro.

 

P/1 - Por que você gostava dela?

 

R - Porque ela era muito boa, muito humana. Ela era enérgica quando tinha que ser, mas era muito humana; e uma professora que tive, a dona Edite, também.

 

P/1 - Ela era professora do quê?

 

R - Isso daí era do Grupo ainda. Não lembro muita coisa não, a idade vai chegando e você vai esquecendo.

 

P/1 - Mas vocês usavam uniforme? Que horas vocês entravam?

 

R - Era a sainha azul marinho, blusinha branca, né, que usava, meia sete oitavos branca, sapatinho preto. Entrava das 8 às 11 horas na escola e depois tinha outra turma que entrava das 11 às 14 horas e das 14 às 17 horas. Horário diferente do que é hoje em dia, né?

 

P/1 - Aí você saía da aula, o que é que você ia fazer?

 

R - Olha, o que você ia fazer?! Eu trabalhava já, numa senhora que fazia flores. Então eu ia, saía da escola, ia pra casa, almoçava e depois eu ia pra casa da dona Ursulina fazer flores e ganhava no fim do mês, né? Íamos eu, minhas primas, tudo, ficávamos lá a tarde inteira fazendo flores, fazendo grinalda de noiva, buquê de noivas, essas coisas que a gente fazia, artificial, né?

 

P/1 - Como era? Era uma sala grande?

 

R - Era uma sala grande com uma mesa e a gente ficava tudo sentado em volta.

 

P/1 - E ela é quem ensinava?

 

R - A gente trabalhava, montava pra fora, né? Ela vendia, então você aprendia e ao mesmo tempo fazia pra ela poder vender, né, e ganhava por semana.

 

P/1 - Nessa época, você tinha mais ou menos quantos anos?

 

R - Uns 11 ou 12 anos, por aí, mais ou menos.

 

P/1 - E a tua turma de amigos, de amigas? Quem que era?

 

R - Ah, lá tinham as minhas primas, tinha a Conceição, a Esmeralda, a dona Ursulina (que era a dona da casa, né), tinha a Nenê, que era filha dela, e inclusive foi madrinha de casamento do meu irmão. Tinha a Inês, só. Ah, tinha, como é o nome, a Vera. Uma que foi criada lá com a gente.

 

P/1 - E de fim de semana, vocês saíam Gleide? Vocês passeavam? O que é que vocês faziam?

 

R - A gente ia no cinema no domingo, a minha tia levava eu e as filhas dela. Nós íamos no Cine Ideal lá na Rua Piratininga. Bom, faz anos isso, nem existe mais.

 

P/1 - E que filmes que você lembra de ter assistido?

 

R - Ah, eu não lembro, que eu lembro, um deles foi "La Violetera". Acho que foi "Tarde Demais para Esquecer". Ah, não lembro, muitos anos.

 

P/2 - E lá tinha outros cinemas, outros tipos?

 

R - Tem, tinha o Cine Ideal. No Brás, tinha um outro cinema que eu não lembro o nome. Tinha o Cine Santo Antônio que era na Rua da Mooca mesmo. Então era o Ideal e o Santo Antônio que a gente ia.

 

P/2 - E tinha salão de baile, outro tipo de divertimento por ali?

 

R - Tinha, tinha o clube, que toda a minha família é sócia, que naquela época chamava-se Mem de Sá Clube, onde a gente dançava no carnaval, tinha as festinhas lá. E hoje é o Mac Clube, né, que os meus tios são diretores. Ainda existe, só que antes era na Rua da Mooca e agora é na Rua Oscar Horta.

 

P/1 - Certo. Gleide, nessa época a turminha que você andava, assim, vocês paqueravam? Como era a paquera?

 

R - Ah, eu não sei. Nessa época eu não tinha nem paquera, né, tinha 11, 12 anos. Não tinha coisa assim de paquera, você tinha amizade mesmo, né? Era uma turma de moços, mocinho e mocinha tudo junto. Eu não lembro de paquera nessa época não.

 

P/1 - A paquera começou mais tarde?

 

R - Começou depois que eu entrei na Johnson, né, aí você muda totalmente o teu ambiente, fica mais esperta. (risos)

 

P/1 - E como é que foi o seu primeiro namoro, você lembra? 

 

R - Meu primeiro namoro, mas faz tempo pra caramba! Quem foi o meu primeiro namorado?! Não lembro. (risos) Ai, juro que eu não lembro quem foi o meu primeiro namorado.

 

P/1 - Não tem problema.

 

R - Teve tantos que eu nem lembro. (risos)

 

P/1 - Você teve muitos namorados?

 

R - Pô, namorado, era namorado assim que você ia pros bailinhos, você ia tomar chopes, né, no Gouveia. Vocês nem nunca ouviram falar no Gouveia acho.

 

P/1 - Onde mais vocês costumavam ir nessa época?

 

R - Não. Agora de quando eu já entrei na Johnson?

 

P/1 - É.

 

R - Quando eu entrei na Johnson, se reunia no dia do pagamento, uma turminha, e nós todos íamos para o Gouveia tomar um chopinho, né? Tomava um chopinho e vinha embora pra casa. No fim de semana, era assistir os jogos da Johnson, que a gente saía tudo naqueles caminhões fechados pra ir assistir futebol e um bailinho ou outro que tinha que a gente ia, né? Era isso que fazia.

 

P/1 - Quantos anos você tinha nessa época?

 

R - Acho que 15 pra 16, né? Ele está dando risada. (risos) 

 

P/1 - Não. Mas ele não conta. Gleide, mas vamos voltar um pouco então. Como é que, você já tinha ouvido falar da Johnson?

 

R - É, eu morava lá pertinho, né, e então...

 

P/1 - O que é que você conhecia da Johnson?

 

R - Eu conhecia assim ela por fora e tinha o Armando Macias que trabalhava lá, que morava perto de casa, né? E a gente sabia que ele era chefe lá e todo mundo que morava naquele pedaço queria trabalhar na Johnson. Todo mundo, ou era na Johnson ou era na Fontoura que se trabalhava, né?

 

P/1 - Por que todo mundo queria trabalhar nessas duas...

 

R - Porque acho, uma, acho que pagava um pouco mais do que os outros lugares e outro por causa do ambiente, né? Os pais, naquela época, também não deixavam entrar em qualquer lugar pra trabalhar não, seguravam as filhas que nem uns loucos, né? Aí a minha mãe, conversando com o Armando Macias, pediu pra ele me arrumar emprego. Pediu pra mãe dele, a dona Júlia, e ela falou com ele. Aí ele me mandou ir lá: fui e estou até hoje. (risos)

 

P/1 - E quando você foi lá quem que te recebeu, você lembra disso, com quem você falou?

 

R - Ah, foi o, naquela época ele era lindíssimo, hoje também já deve estar coroa que nem eu: o Ronaldo, que trabalhava no departamento pessoal. Aí, quando cheguei lá, conversei com o Ronaldo e, aí fui ver, ele era amigo do meu irmão, jogavam bola juntos. O Ronaldo Roperto, o pai dele, era o chefe do restaurante da Johnson. Aí conversei com o Ronaldo, preenchi a ficha, tudo, fiz os exames médicos e comecei: passei nos exames, passei nos testes e comecei a trabalhar. 

 

P/1 - Que testes que eram feitos? Você lembra de algum desses?

 

R - Ah, era umas continhas de mais, assim, uns negocinho bem, coisa, eu não lembro direito, sei que era umas continhas lá e uma cartinha sua pedindo emprego. Era só isso.

 

P/1 - Gleide, nessa época, como é que era o ambiente, o local que a Johnson estava instalada, ali na Avenida do Estado? Quais eram as outras fábricas que tinham ali?

 

R - Olha, tinha a Johnson, que ela pegava, os fundos dela dava na Rua Odorico Mendes e a frente na Avenida do Estado. Bem de frente da Johnson, tinha a Chicletes. Do lado direito da Johnson, atravessando a Rua Oscar Horta, não, Rua Barão de Jaguara: tinha a Baruel. E na outra esquina, esquina com a Rua Ana Nery: era a Pontal Mercantil. Que eu lembro naquele pedaço eram essas firmas.

 

P/1 - Certo. E a Johnson ficava longe ou perto da sua casa?

 

R - Perto, cinco minutos.

 

P/1 - E você ia a pé?

 

R - Ia a pé. Ia e voltava, ia e vinha de uniforme, que era tão perto que nem dava tempo de trocar a roupa.

 

P/1 - Certo. E você lembra do seu primeiro dia de trabalho?

 

R - Lembro.

 

P/1 - Conta pra gente como é que foi?

 

R - No primeiro dia eu cheguei lá, aí o Armando me apresentou pras moças e quando entrei lá, eu era a mais nova que tinha no setor, o resto já eram tudo mulheres feitas, né? Que eu digo mulheres feitas: quase com a minha idade, um pouco mais nova. Eu era a mais novinha. Aí comecei e quem me ensinou trabalhar foi uma senhora, Carmem, a Beatriz me tratavam muito bem. Só isso.

 

P/2 - Em que setor?

 

R - Na Farmacêutica, eu comecei na linha que fazia o creme, desculpe, que fazia o óleo, o xampu, óleo, cremóleo, lavanda. Era isso que fazia. Hoje esses produtos são da SA, mas quando eu entrei eles eram da Farmacêutica. Eu comecei enchendo vidrinho de óleo e de lá eu passei pra linha de cremes, pós e líquidos. No fim, você precisava aprender a trabalhar em tudo quanto é lugar lá, né? 

 

P/1 - Isso, a pessoa sempre passava por todas as linhas?

 

R - Você tinha que aprender tudo, porque se tivesse, fosse um produto que ocupasse menos gente na linha: você tinha que ir pra outra trabalhar, né?

 

P/1 - Certo. Gleide, descreve pra gente assim como é que era exatamente a linha, o seu local de trabalho ali?

 

R - Como era o meu local?

 

P/1 - Você ficava numa mesa? Como é que era isso?

 

R - Era uma mesa, né, você sentava na frente, no óleo, principalmente uma em frente a outra. Era uma manivela comprida, tinha uma roda assim que girava, aí você enchia o vidrinho de óleo e ia pondo naquela roda que iam girando, colocava a tampa em cima e fechava a tampa. O vidrinho caía na correia, outra funcionária pegava, rotulava na máquina e jogava numa outra correia e outra funcionária, no fim, colocava nas caixinhas.

 

P/1 - Já embalado.

 

R - Já era embalado, o óleo.

 

P/1 - Que óleo que era?

 

R - O óleo Johnson. Tinha o óleo, a lavanda e o cremóleo, era tudo feito assim. Agora o creme já não, o creme: você coloca o tubo dentro de uma máquina e a máquina ia injetando creme, fechando e jogando na correia. Dependendo do creme, se era creme vaginal ia com bula, né, então uma colocava a bula, o aplicador. Que hoje é tudo máquina que faz, mas naquela época não, né? E se fosse o creme Johnson, era só enfiar o creme na caixinha.

 

P/1 - Certo. Tinha algum tipo de treinamento pra, de higiene? Você comentou que usavam uniforme?

 

R - Usavam.

 

P/1 - Como era esse uniforme?

 

R - Era um avental branco e um gorro engomado branco, tipo de enfermeira, que as enfermeiras usavam antigamente, né?

 

P/1 - Certo. Vocês usavam luvas?

 

R - Não, naquela época não. Naquela época, não tinha isso. Você diz equipamento de proteção? Naquela época não tinha. Na minha época não tinha nada disso.

 

P/1 - O pessoal ensinava a manipular as máquinas, quem que fazia?

 

R - Ensinava. Cada linha tinha uma encarregada. Quando eu entrei, a minha encarregada era a Cláudia, depois eu fui trabalhar com a Mercedes, trabalhei também com a Maria Rosa, com a Olímpia, né, que era outra linha, de comprimidos. A Mercedes nunca mais eu vi, mas era a moça mais linda que tinha na Johnson. É verdade, parecia a Elisabeth Taylor. Maravilhosa.

 

P/1 - Deixa perguntar uma coisa pra você: nesse setor, eram basicamente mulheres que trabalhavam?

 

R - Só mulher. Nas linhas, só mulher. Só tinham os homens que fabricavam os produtos, né?

 

P/1 - Certo. E eram salas separadas?

 

R - Não, não, era um salão bem grande, dividido. A Farmacêutica eram três linhas, certo? E nos fundos é que tinha os tachos que fabricavam os produtos e o resto era fralda, cotonete, Jontex, todo esse negócio.

 

P/1 - Certo. Vamos falar um pouco então das outras linhas de produção, você falou dessa primeira que você trabalhou?

 

R - Foi a de óleo.

 

P/1 - Foi a de óleo. Quais eram as outras?

 

R - As outras foram de cremes, líquidos e pós, que fazia glicose, Kalyamon pó, o creme Johnson, o Jonconol, o Pré-Jel, Vagi-Sulfa e todas essas coisas. E a outra era de comprimidos, que antigamente, hoje é a máquina que enche, né, os comprimidos, no meu tempo você colocava, era um modelo de um pianinho, tinha um furinho e com um pauzinho você contava os comprimidos e jogava no vidrinho. Colocava correia pra outra pôr o algodão e fechar.

 

P/1 - E os líquidos, no caso do Kalyamon?

 

R - Você enche, o Kalyamon líquido não tinha naquela época. Só pó.

 

P/1 - Ah, era pó?

 

R - O único líquido que tinha era um tal de Liquiprim, que tinha uma válvula lá, mas você enchia ele na própria linha de líquido, de óleo. Nos bicos do óleo é que enchiam esse Liquiprim.

 

P/1 - O Kalyamon, o Rarical também, era pó?

 

R - O Rarical drágeas começou na Avenida do Estado, mas foi já bem mais pra frente. Na minha época, tinha o Rarical comprimido. Naquela época tinha o Liquiprim, líquido, de pó tinha a Glicose C, Glicose B1, Kalyamon, Kalyamon pó, Kalyamon B12, que eu lembro de pó era isso. De comprimido tinha o Nidoxital, Nactizol, ah, de coisa tinha o Siloprim, que era pra dor de ouvido. E tinha os injetáveis também. E o Rarical, tinha o Rarical comprimido, agora, o Rarical drágeas é de agora, é mais novo, né, ainda.

 

P/1 - Certo. Gleide, você já conhecia os produtos da Johnson quando você foi trabalhar lá?

 

R - Não. Conhecia só absorvente, certo? Só absorvente que eu conhecia, o resto não.

 

P/1 - Quando você começou a trabalhar lá, começou a conhecer os produtos, né?

 

R - Certo.

 

P/1 - Você passou a usar?

 

R - Naquela época, o que é que tinha pra se usar lá, além do absorvente?! Tinha o talco e o creme Johnson, que a gente usava pra passar no rosto. O resto não usava não.

 

P/1 - Certo. Você estava comentando assim que era comum várias pessoas de uma mesma família trabalharem...

 

R - Era. Trabalhava muito parente antigamente. Eu mesmo trabalhava na fábrica e os meus primos trabalhavam no escritório. Então a gente se via na hora do almoço, todos, era muito família lá. Era uma família muito grande, por isso que até hoje se fala família Johnson. Além, pela empresa, que é uma excelente empresa. Não sei, trabalhei numa outra antes, mas era muito pequeninha. Acho que é uma das melhores que existem. Tinha muita família, muito parente dentro, e quando não era parente, era amigo que foi criado junto, mais que parente.

 

P/1 - Me fale o seguinte: como é que era o cotidiano da fábrica? A que horas vocês chegavam? O almoço...

 

R - A gente chegava, como eu morava lá pertinho, eu entrava às sete horas. Quando eu trabalhava no horário das 7 horas, né, 15, 20 pra 7 horas você estava lá, aí você trabalhava até às 11 horas, parava pra almoçar, ficava até o meio-dia e depois saía às 16 horas. No horário do almoço, ou você almoçava lá, eu ia almoçar em casa, porque era pertinho, né, então eu ia até em casa almoçar.

 

P/2 - E lá dentro da fábrica tinha incentivo? Assim, de algum curso extra?

 

R - Ah, na fábrica eu não lembro disso.

 

P/1 - Certo. Quando você entrou, foi em que função?

 

R - Auxiliar de acabamento.

 

P/1 - E você exerceu essa função até quando, mais ou menos?

 

R - Ah, eu acho que uns quatro anos, três anos depois eu passei pra encarregada de linha.

 

P/1 - Aí você ficou responsável?

 

R - Eu fiquei responsável pela linha.

 

P/1 - Que linha que você ficou responsável?

 

R - Eu fiquei pela linha de óleo, que foi onde que eu comecei, né, óleos, de cremes, produtos pra crianças. Eu fiquei responsável, porque eu trabalhava de turno, aí nessa linha era de turno. Aí eu trabalhava no segundo turno encarregada, porque a Cláudia saiu porque casou, então eu fiquei no lugar dela.

 

P/1 - Certo. E aí a sua função, qual era?

 

R - Era eu olhar se estava saindo tudo certinho: se não estava tendo erro na linha, se estavam enchendo os vidrinhos certos. Coordenar pra dar produção.

 

P/1 - Qual era o tipo de problema? Você lembra de alguma coisa que acontecia assim...

 

P/2 - Algum fato curioso que aconteceu?

 

R - Não, não lembro. Eu lembro que a gente era tão unido que a gente ria, brincava. Não lembro.

 

P/1 - Mas ria do quê, brincava por quê?   

 

R - Sei lá, era muita farra. Não lembro um fato curioso assim, não lembro mesmo.

 

P/1 - Por que assim, era todo mundo amigo, né?

 

R - Muito amigo. 

 

P/1 - Aí vocês brincavam...

 

R - Muito amigo, muito unido, um ajudava muito o outro, um se ajudava muito o outro. 

 

P/1 - Certo. Gleide, você falou que de fim de semana vocês acabavam saindo juntos também. O que é que vocês faziam?

 

R - Fazíamos piquenique, íamos nos bailinhos. A gente combinava já no sábado. Se tivesse um piquenique a gente iria tudo junto, né, porque a Johnson dava piquenique no Estoril, Morro Grande, aqui no Horto Florestal, esses lugares. Aí a gente já combinava e no domingo íamos, senão a gente ia pros bailinhos. Tinha um clube lá em cima na Mooca, agora não lembro, acho que Bola Preta, Ponte Preta, uma coisa assim, e a gente ia tudo pra lá. Era tudo pessoal que trabalhava na Johnson. Quem tomava conta do clube era um tal de Maurício, que é irmão do José Índio, aquele que é deputado, deputado, vereador, um negócio assim. E a gente ia tudo pra lá, dançar de tardezinha. O bailinho era de 3 às 7 horas, estava bom. (risos)

 

P/1 - Me diz uma coisa: os piqueniques, como é que vocês iam até esses lugares?

 

R - A gente tomava ônibus na porta da Johnson, né? Saía de lá, se encontrava tudo lá e ia pra festa, pro piquenique. Cada um levava uma comida, comprava refrigerante lá, né, porque naquela época a gente era tudo novinha, ninguém tomava cerveja. Agora enxuga. (risos)

 

P/1 - Certo. Gleide, iam mais ou menos quantas pessoas nesses piqueniques? Você tem ideia?

 

R - Eu não lembro mesmo. Ia todo mundo, todo mundo ia, dificilmente tinha aquele que não ia.

 

P/1 - E o que vocês faziam no piquenique?

 

R - Entrava no meio do mato pra dar uns amassos. (risos) 

 

P/1 - Então ia namorar bastante?

 

R - A gente ia lá pra jogar bola, brincar, porque naquela época não tinha tanta maldade. A mocidade antigamente era diferente, você não pensava, sei lá, a gente ia, não entrava nem na água e nem nada, não colocava maiô. Ficava lá jogando bola, jogando peteca, dançando de tarde. Era isso que fazíamos.

 

P/1 - E a que horas vocês retornavam, mais ou menos?

 

R - Ah, sempre saía, em qualquer piquenique que ia, saía às 17 horas, não saía mais tarde do que isso. 18h30, 19 horas você estava em casa.

 

P/2 - Certo. E dentro da Johnson, existiam festas lá na fábrica?

 

R - Existia a festa de fim de ano que era no refeitório. De vez em quando, o senhor Roberto fazia uns bailinhos de carnaval pra gente. Ah, tinha o baile dos campeões, que o pessoal ia jogar bola. Aí eles ganhavam os títulos, depois tinha as festas lá dentro: festa dos campeões. Era um tal de: “Você quer pôr a faixa nos moços lá?” Porque era a faixa do campeão de não sei o quê, cada um escolhia uma madrinha. Era muito bacana.

 

P/1 - Você chegou a colocar faixa em alguém?

 

R - Eu não, só queria bagunçar, não queria nada. Eu era terrível, pergunta pro Armando. (risos)

 

P/2 - Você acompanhava os times?

 

R - Acompanhava.

 

P/2 - O time se chamava?

 

R - Johnson Clube, né?

 

P/2 - Você ia?

 

R - Eu ia de sábado ver eles jogarem bola. 

 

P/2 - E eles jogavam lá mesmo?

 

R - Não. Dependendo de onde fosse, eles fechavam aqueles caminhões baús e a gente ia pra assistir o jogo. A Johnson tinha a frota que fazia a entrega e hoje já não tem mais, né? E tinham os bailes que a Johnson também dava, uma vez por ano: baile noite azul, baile da primavera, esses negócios. Era muito gostoso, dá umas saudades tremendas. Nossa!

 

P/2 - Agora, em relação à hierarquia: como era o relacionamento?

 

R - Ah. Bom, eu amava o meu chefe, que foi ele que me arrumou emprego, me conhecia desde criança, não tinha nada. Depois do Armando, foi o Fermino que foi ser o meu chefe, também excelente pessoa. Eu sou uma das que não pode se queixar de ninguém pra quem eu respondi, pra mim todos são bons. Melhor ainda que agora é o Cláudio, a quem eu amo de paixão. (risos)

 

P/1 - Certo. Gleide, você ficou como supervisora da linha?

 

R - Não, encarregada.

 

P/1 - Encarregada da linha.

 

R - Fiquei uns três, quatro anos e depois eu saí da Johnson. Aí eu falo Johnson, porque naquela época não era Cilag, certo?

 

P/1 - Certo.

 

R - Aí eu saí da Johnson, fiquei três anos fora, depois eu voltei. Aí eu voltei e fui trabalhar na linha novamente, comecei de baixo outra vez. Fiquei uns tempos lá na linha de drágeas, que fazia o Rarical drágeas, e aí depois apareceu uma vaga no planejamento, fui para lá e fiquei; aí a Johnson mudou pra São José e eu fui pra São José como planejamento.

 

P/1 - Certo. Mas vamos voltar um pouquinho. Eu queria que você contasse pra gente por que você saiu da Johnson? O que é que acontecia naquela época?

 

R - Eu saí, quando eu saí, porque existia aquela lei de estabilidade, né? Quando o funcionário completasse nove anos, se ele passasse dos nove anos de casa, você pegava uma estabilidade e eu, quando cheguei nos sete anos, fui uma das que foi chamada pra sair, mas pra voltar depois. Geralmente eles pegavam três, quatro meses depois, eles te pegavam de volta. Só que eu estava trabalhando e não me interessei pra voltar Até a hora que eu achei que devia voltar e voltei, que foi em 68.

 

P/1 - Quando você voltou? E foram eles que procuraram você novamente...

 

R - É. Eu, conversando com o Armando, com o Novazzi, com esse pessoal. Conversando, aí falaram pra eu voltar. Aí eu peguei e voltei.

 

P/1 - Certo. Vamos dar uma paradinha pra trocar a fita.

 

R - Deu já?

 

P/1 - Não, ainda tem mais um tempo. Aí você voltou, voltou pra linha de produção?

 

R - Aí voltei pra linha de produção.

 

P/1 - Certo. Fazendo comprimido e essas coisas.

 

R - É que lá você fazia de tudo um pouco. Aí depois eu passei para o planejamento, fui pra São José. Não ia pra São José, já tinha arrumado um emprego num outro laboratório na Lins de Vasconcelos, aí o senhor Paulo Flude insistiu para que eu fosse. Aí eu peguei e acabei indo. Fui com o planejamento e depois lá teve um problema grave na área de depósito com um dos rapazes, que ele não tinha mais condições de tomar conta do pessoal, aí o Fermino pediu pra que eu ficasse. Aí eu fiquei no depósito onde estou até hoje.

 

P/2 - Quando você foi pra linha drágea, já houve modificação, porque certos produtos não eram mais da Farmacêutica. Como é que foi essa mudança, quer dizer, dessa linha, desses produtos? você poderia falar assim até se mudou o seu espaço físico...

 

R - Tinha mudado. Nós trabalhávamos embaixo no andar térreo, no salão novo. Quando eu voltei, nós já estávamos no andar de cima, no primeiro andar, um salão grande que era só farmacêutico e ético. Só que o sistema era o mesmo ainda, você contava com o palitinho. Era a mesma coisa.

 

P/1 - Cansava contar?

 

R - Não, não porque você colocava o vidro aqui, contava dez e jogava, contava dez e jogava, contava quarenta, cinquenta e jogava dentro.

 

P/1 - Não era muito repetitivo?

 

R - Não, normal.

 

P/1 - Não se confundia um pouco?

 

R - Não, normal.

 

P/1 - Certo. Vamos dar uma parada.

 

[Fim da fita 006-A.]

 

P/1 - Gleide, então vamos retomando: eu queria que você falasse assim que a partir, que você...

 

R - Aí nós mudamos para o primeiro andar, certo? Aí quando eu voltei já estava nesse andar. Então em vez de três linhas, eram seis linhas: uma fazia só creme, outra fazia só líquidos e a outra fazia injetáveis, que acondicionava os injetáveis. Numa fazia o Rarical comprimidos, o Rarical drágeas, que aí começou a ser o carro-chefe da Farma. Na outra fazia pós e em outra, anovulatórios e psicotrópicos, né, que tinha um psicotrópico. E na, aí eu trabalhava, fui trabalhar na linha de drágeas, continuei enchendo comprimidos. Depois passei pra linha de líquidos, passei a ser encarregada novamente até que eu fui para o planejamento.

 

P/1 - Certo. E isso foi mais ou menos em que época, quando você foi para o planejamento?

 

R - Foi quando eu voltei em 68, ou 69, 70. Por aí. 

 

P/1 - Certo. Quando você voltou o pessoal que trabalhava era mais ou menos o mesmo, tinha mudado?

 

R - Ah não, tinha mudado. Tinha uns que estavam antes, mas a maioria tinha mudado. Eram todas moças novas, aí eu já era bem mais velha que elas, e tudo. Tinha mudado já bastante gente, tinham muitas do meu tempo ainda, que também saíram e voltaram. Voltaram antes do que eu.

 

P/1 - Mas ainda era Johnson?

 

R - Era a Johnson, ainda era a Johnson.

 

P/1 - Você lembra, você passou pra Divisão Farmacêutica...

 

R - Era sempre Farmacêutica, a divisão foi, só quando foi pra São José quando começou a se falar em Divisão Farmacêutica.

 

P/1 - Certo.

 

R - Agora, quando passou pra Cilag, eu não, faz pouco tempo, né? A Carmem eu acho que tem até anotado.

 

P/2 - Década de 80, 82.

 

R - É.  

 

P/2 - E em termos assim de higiene, essas coisas, porque você diz que começou com uniforme, né, mudou alguma coisa?

 

R - Não tinha mudado nada. Quando nós estávamos lá, continuava a mesma coisa. Depois com o tempo, é que eles mudaram somente os gorros, que era aquele gorro que ficava, prendia até aqui na testa e amarrava atrás, que você não via um fio de cabelo. Era a única coisa que tinha. E quando você trabalhava no anovulatório, no anticoncepcional, né, a única que você fazia e aí você já trabalhava. Você era obrigado a trabalhar com avental de manga comprida, ele no tornozelo com máscara de pano e luvas de PVC, né, porque era muito hormônio, né?

 

P/1 - Certo. Existia algum tipo de treinamento?

 

R - Sempre. A encarregada que treinava o pessoal, né? Só.

 

P/1 - O treinamento era no dia a dia?

 

R - Era no dia a dia.

 

P/1 - Certo. A hora que você foi para o planejamento, o que você passou a fazer exatamente?

 

R - Eu planejava o que é que ia ser feito; a gente fazia a programação do mês, do que é que ia ser feito de comprimidos, de líquidos, cada uma das moças tinha uma parte que nem eu tinha: vamos supor, eu tomava conta de líquidos, comprimidos, a outra tomava conta do absorvente e outra fazia programação mensal do que tinha que sair no mês.

 

P/1 - E qual era a média assim, você lembra?

 

R - Ah, não lembro, não lembro mesmo. Sei que a gente trabalhava pra dar produção, mas a média eu não lembro.

 

P/1 - Gleide, nessa época, como é que era o pagamento de vocês?

 

R - Ah, era um envelope. Na época que eu entrei mesmo, você recebia no departamento pessoal. Vinha um envelopinho com o teu nome e o dinheiro dentro que você ia receber. E aí depois foi implantado o DPD, né, que foi o Alceu que começou, que implantou. Aí você já, já era por via, não sei se era computador já, acho que não era computador, devia ser uma coisa mais ou menos parecida que é que já vinham os envelopes prontos. 

 

P/1 - Certo. Mas quando você entrou era um salário fixo ou era...

 

R - Salário fixo. Você ganhava por hora um salário fixo. Você ganhava por hora, né, mas você tirava aquilo num mês. Era horista que falava, até hoje fala horista, né?

 

P/1 - Certo. Nessa época que você estava no planejamento, você lembra mais ou menos quanto era o salário?

 

R - Não lembro. Se eu soubesse tinha trazido a minha carteira profissional daquela época. (risos)

 

P/1 - Imagina, não tem problema.

 

R - Não lembro.

 

P/1 - Bom. Gleide, e quando a fábrica foi pra São José, o que você lembra de quando soube que a fábrica ia...

 

R - Ah, a gente ficou muito assustada, né, porque você trabalha tantos anos já. Estava lá, né, aí ia embora?! E aí, eu procurei emprego e arrumei n’outro laboratório e não me deixaram ir. Eu peguei e acabei indo pra São José, né? Aí fui para o planejamento, fiquei um tempo lá no planejamento. O Fermino me pôs no depósito, que aquilo que eu falei, estava dando problemas com um dos rapazes lá.

 

P/1 - Mas assim, Gleide, quando a fábrica foi pra São José, foi toda ela?

 

R - Foi tudo. Os maquinários e tudo, que hoje estão desativando. Estão colocando máquina nova, né?

 

P/1 - Tá. E você queria continuar em São Paulo? 

 

R - Eu queria continuar na Johnson, né? Ela foi pra lá, eu fui junto. (risos)

 

P/1 - E as suas colegas, também sofreram impacto?

 

R - Sofreram. Algumas foram pra outros laboratórios grandes também, mas foi muito difícil a adaptação, porque quem trabalha na Johnson e sai, dificilmente acostuma n’outro lugar, por causa do ambiente que tem, um ambiente muito bom.

 

P/1 - Certo. E aí vocês passaram a ir diariamente pra São José?

 

R - Aí, no começo tinha o ônibus, né, a Johnson dava o ônibus. Tinham dois ônibus que iam pra São José, a gente ia e vinha todo dia. Aí depois tiraram aquele ônibus porque eles queriam que a gente mudasse pra lá, e aí nós fretamos um ônibus e viajávamos pra lá todos os dias.

 

P/1 - Os próprios funcionários que fretaram o ônibus?

 

R - Os próprios funcionários.

 

P/1 - Certo. E nessa época, a fábrica tinha funcionários que foram contratados em São José?

 

R - Tinha, tinha bastante. Inclusive, muitos deles que foram contratados lá, vieram pra treinar com a gente em São Paulo. Eles treinaram aqui pra depois fazer, depois trabalhar lá, né?

 

P/1 - Certo. E você tem assim alguma ideia, você viveu isso... Qual foi a repercussão para a Johnson com a ida pra São José?

 

R - Ah, foi muito grande, né? Todo mundo queria trabalhar lá, o pessoal de São José, que falavam em uma multinacional. Gerou muitos empregos no Vale, né, foi muita gente de fora. De fora?! Teve muito pessoal de Minas que trabalha lá. Gerou muitos empregos. Quando mudou, muita gente foi também pra lá, porque estava pra se aposentar. Então foram pra lá, né, até se aposentarem e saírem.

 

P/1 - Certo. Nessa época, quando a fábrica foi pra São José, como era o ambiente físico dela? Como que ela estava dividida? O que é que mudou?

 

R - Lá já mudou porque aí nós tínhamos um prédio só da Farmacêutica. Coisa que aqui em São Paulo não era. Era tudo junto, né? Aí nós já éramos um prédio sozinho, que era a Farma.

 

P/1 - Certo. E aí continuava com as linhas de produção?

 

R - Continuavam as linhas de produção, aí já era mais diferente, né, as máquinas eram as mesmas, né, agora não sei quantos anos ficaram máquinas antigas lá, cada hora elas estão mais modernas, mas era o mesmo esquema. Mas aí eu já não estava mais na produção, estava em outro setor, né?

 

P/1 - Certo. Mas aí continuou com as seis linhas?

 

R - Não, tem mais. São mais linhas lá. Nem sei quantas linhas tem, se você me perguntar eu não sei responder. Não lembro de cabeça, só contando assim. (risos)

 

P/1 - Então, na fábrica de São José você foi para o...

 

R - Depósito.

 

P/1 - O depósito. E qual é que passou a ser a sua função?

 

R - Eu trabalhava no depósito, era coordenadora. Tinha um gerente, não, tinha um rapaz que era supervisor que tomava conta, aí teve um problema lá, eu fiquei lá pra dar assessoria pra ele, né, aí fiquei lá junto com o Roberto Campanelli, ele se chamava. Aí depois ele, tinha o Roberto e tinha o seu João, aí puseram o Roque Mendes de gerente do depósito e eu era coordenadora. 

 

P/1 - E no dia a dia assim, o que é que você era responsável realmente? Qual era o seu trabalho?

 

R - Ah, eu coordenava tudo que chegava na Farmacêutica, que nem hoje. Só que naquela época não tinha carregamento, a gente descarregava material e olhava no cardex pra ver se o estoque estava baixo. Se não estava, era pra avisar o pessoal de planejamento.

 

P/1 - Que tipo de material chegava?

 

R - Matéria-prima, né, aromas, vitaminas, que eram pra fabricar os produtos, né? 

 

P/1 - Certo.

 

R - Açúcar.

 

P/1 - E sempre tinha que ter um estoque?

 

R - Tinha um estoque mínimo que você tinha que ter, pra não parar a fábrica, né?

 

P/1 - Aconteceu de alguma vez o estoque estar muito baixo em função de alguma coisa...

 

R - Que eu lembre não. 

 

P/1 - Nunca teve problema?

 

R - Não.

 

P/2 - Agora, em questão de controle de qualidade, Gleide, como é que era feito esse acompanhamento...

 

R - Tinha uma pessoa da garantia de qualidade, que hoje ele trabalha lá, é gerente do acondicionamento, ele trabalhou na garantia de qualidade: o Antônio Cavenag, que tem 28 anos de Johnson, entre Johnson e Cilag. Ele era garantia de qualidade, quem descia e pegava tudo, os cremes que eram feitos era tirar amostras pra analisar, pra ver se estava bom, né? Não sei que tipo de análise se fazia, porque era diferente da área da gente. E o Cavenag trabalhava lá pra pegar as amostras, pra ver se o tubo não estava amassado, se o Jonconol estava direitinho na faixa, se não estava torto. Se estivesse torto, não saía. Essas coisas eram da garantia de qualidade. Hoje não, hoje já é bem mais sofisticada, né? 

 

P/2 - Na sua área, naquela época das drágeas e tal, como é que era feito esse acompanhamento do controle?

 

R - Eles faziam o acompanhamento desde a fabricação, né, a garantia é desde a fabricação. Depois lá é que nem eu estou te falando: eles pegavam os vidros pra olhar, contar os comprimidos, porque se você estiver acondicionando, ele já estava aprovado, certo? Você só acondiciona quando está aprovado. Se não estiver aprovado, você não acondiciona.

 

P/1 - Mas eles pegavam aleatoriamente um...?

 

R - É. O dia inteiro o cara circulava, entrava e saía e ia olhando.

 

P/1 - Sempre? Tinha algum problema?

 

R - Às vezes dava, né, uma drágea ia manchada.

 

P/1 - E isso não passava?

 

R - Não, nem podia. Até hoje, né? Muito severa a garantia de qualidade.

 

P/1 - Certo. No caso assim de pegar uma drágea manchada, algum tubo que está amassado, o que acontece com esse material?

 

R - Olha, hoje eu não posso te falar corretamente porque eu não vivo muito no acondicionamento, né, mas na minha época, quando o tubo estava torto, ele não saía. Você tinha que tirar de fora, por isso que ele descia na correia. Você já ia olhando; se ele estivesse torto, você deixava de lado. Se a garantia falava que você podia pôr, você colocava. Senão, não.

 

P/1 - Mas esse material que era descartado, ele ia parar onde? Ele era jogado fora?

 

R - Era jogado fora. Até hoje, né, vai pra central. Naquela época, não me lembro pra onde que ia, se esvaziava o tubo, né, porque nunca pode jogar cheio. Você esvaziava o tubo, mas o resto eu não sei pra onde que ia, se ia pro ralo. Não lembro.

 

P/1 - Certo. Tinha alguma ideia assim de não poluir, já, o ambiente? Algum trabalho nessa linha?

 

R - Não lembro. Eu acho que já existia sim, não lembro muito.

 

P/2 - Agora, em relação aos funcionários: como é que era a competitividade dentro da linha, assim dentro...

 

R - Ah, não existia isso, o pessoal era muito unido. Um procurava ajudar o outro. Se tinha um doente, um fazia pelo outro. Não tinha tempo quente lá não.

 

P/2 - A empresa, ela propiciava cursos, reciclagem, essas coisas?

 

R - Olha, naquela época eu trabalhava na fábrica, né? Agora, se é, agora sim. Depois que nós fomos pra São José, sim. Eu nunca tinha feito um curso. Depois que eu fui pra São José, fiz vários cursos, seminários. Fiquei uma semana em Ubatuba, fiz vários cursos e depois, agora, há quase dois anos. Depois foi implantado o sistema BPCS, que é tudo com micro; até eu morria de medo que eu não ia conseguir, né, porque você não tem mais a cabeça de uma menina de 20 anos, então eu achava que eu não ia conseguir. no fim peguei, consegui .É muito legal. (risos)

 

P/1 - Gleide, ainda na linha de produção, como é que era estimulada essa produção? Vocês, existia algum estímulo pra produzir mais?

 

R - Não, porque a gente dava a produção, queria que saísse bastante produção. A gente não ganhava por produção, né? O único lugar que ganhava por produção lá era a linha de talco, o resto não.

 

P/1 - A única linha?

 

R - Que ganhava por produção. Quanto mais produzia, mais você ganhava na linha de talco Johnson.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Não sei, isso daí há muitos anos, né? Agora com o acondicionamento de hoje é muito pouco, porque você quase não vai nas áreas dos outros lá em São José, né, você fica mais na tua área.

 

P/1 - Certo. Deixa eu te perguntar uma coisa, voltando um pouco pra Avenida do Estado, pra fábrica da Avenida do Estado, eu queria perguntar sobre a época das enchentes, né? O que é que acontecia na fábrica?

 

R - Ah, quando dava enchente você saía de caminhão ou de barco. Você subia nos barcos e o pessoal da segurança carregava você, né? Pra mim era pior ainda porque na minha casa também dava enchente, né, então tinha o pessoal que era segurança lá, levava você até a sua casa. Ou era de caminhão ou de barco que se saía.

 

P/1 - E era frequente isso que acontecia?

 

R - Normal, normal. A época de chuva era quase todo dia. (risos)

 

[Pausa.]

 

P/1 - Bom. Gleide, voltando um pouco então, a gente estava falando das enchentes, né, atingiam as máquinas como é que...

 

R - Olha, pegava motor assim. Quando a gente estava no andar de baixo, pegava os motores, né, mas no dia seguinte já estava tudo lavado. A gente mesmo lavava, limpava e o pessoal da elétrica e da mecânica já arrumava tudo. Só quando a enchente era muito grande, né, que às vezes, várias vezes você saía da casa com a água na cintura pra entrar lá. Chegava lá, tomava um banho, colocava outra roupa e ia trabalhar, quando era no andar de cima, mas embaixo não tinha condições de entrar. 

 

P/1 - Mesmo com a enchente o andar de cima continuava trabalhando?

 

R - Você entrava, às vezes você estava lá dentro, você nem saía, continuava trabalhando. A enchente maior, pegou todo mundo com a maioria lá dentro. Nós dormimos lá e tudo.

 

P/1 - E tinha lugar pra ficar lá? Tinha comida?

 

R - Não, não tinha. Comida tinha por causa do refeitório, né, mas lugar não tinha. Você ficava sentada na cadeira, no vestiário. Não tinha lugar.

 

P/1 - Certo. Tinha algum lugar da fábrica que você mais gostava de ficar? Algum cantinho assim especial seu?

 

R - Agora, você diz ou antigamente?

 

P/1 - Agora e antigamente também.

 

R - Agora a gente senta um pouco lá no lago em São José pra conversar e quando era em São Paulo a gente ia na frente, né, da Johnson, né, nos jardins que eram muito bonito, né, você ficava lá conversando com os guardas, olhando. Era esse o lugar que a gente ficava, não tinha opção, né? Não é que nem lá no parque que é enorme, você pode dar volta e tudo. Não tinha isso.

 

P/1 - Mas dentro da fábrica tinha algum cantinho que você gostava...

 

R - Da fábrica?

 

P/1 - Que você gostava mais de ficar?

 

R - Que eu lembre não. Hoje eu gosto do meu lugar, né, É meu, adoro. (risos)

 

P/1 - Gleide, mas assim, ainda na linha de produção, né, você falou que tinha uma parceira, mas o trabalho era individual?

 

R - Era individual, mas só que, isso antigamente, você tinha que, descia o tubo, vamos falar, o tubo na linha. Então uma pegava a bula, dobrava, colocava embaixo da bisnaga, a outra enfiava o aplicador e fechava o cartucho.

 

P/1 - Era um trabalho coordenado, né?

 

R - Era. Então você sentava, vamos supor, aqui, e a outra sentava um pouquinho mais pra lá.

 

P/1 - Acontecia assim de uma atrasar a outra e...

 

R - Isso daí era normal.

 

P/1 - Se atrapalhar com os tubos?

 

R - Ah, sim. Com certeza, porque era muita correria, vinha rápido, né, na máquina.

 

P/2 - Você tinha uma meta, né, pra cumprir?

 

R - Era.

 

P/2 - Meta diária. E aí vinha depois a pessoa fiscalizando, recolhendo? Como é que era isso?

 

R - Corria na correia e no fim da linha, fazia o pacotinho de meia dúzia e colocava no estrado. Um rapaz colocava no estrado, só.

 

P/1 - E no fim, essa pessoa conferia?

 

R - Não, quando enchia o estrado, a encarregada ia conferir e marcava a produção e no fim do dia somava tudo.

 

P/2 - E quando não atingia essa meta, o que é que acontecia? Tinha alguma punição?

 

R - Ah não, não tinha nada. Você não trabalhava por produção, né? Quando você trabalhava com contrato pra ganhar mais, tudo bem, né, mas você tinha aquele que tinha que dar. Mas sempre dava, não lembro de nunca ter dado. Só se quebrasse a máquina, né, aí era diferente.

 

P/1 - Era comum quebrar máquina?

 

R - Comum agora que elas estão velhas, mas naquela época, elas não eram tão velhas, né? Não, não era comum, o trabalho era normal, não lembro assim das máquinas ficarem quebradas não.

 

P/1 - Certo. Deixa eu te perguntar uma coisa: como é que era o setor que você trabalhava, nessa época era só mulheres, né, e o outro, apesar de ser junto, era só os rapazes, né? Como é que era o relacionamento de vocês?

 

R - Mas eram poucos rapazes, eram três, só três rapazes.

 

P/1 - Responsáveis pela produção?

 

R - Não, que faziam, que manipulavam os produtos, eram o Antônio Moria, o Pedro e o Dárcio, ah, e o Joel. Eram quatro só e o resto era tudo mulher, só esses quatro.

 

P/1 - E como é que era o relacionamento?

 

R - Ah, era legal, muito bom. A gente saía pra tomar chope junto. Todo dia 15, saía todo mundo pra tomar chope. Era muito bom.

 

P/1 - Certo. Gleide, como é que você conheceu o seu marido?

 

R - E agora azarou tudo. (risos) Conheci ele na minha casa.

 

P/1 - Na sua casa? 

 

R - Na minha casa. 

 

P/1 - Como é que você conheceu?

 

R - Ele foi com um casal de amigos meus levar um presente de Natal pra mim e nós se conhecemos. Ele é viúvo e eu sou encalhada. (risos) Aí resolvemos, ficamos um tempo namorando e depois resolvemos morar junto.

 

P/1 - Quando é que foi isso, mais ou menos?

 

R - Faz, que a gente se conhece faz 12 anos, mas que a gente mora junto acho que faz uns sete, oito por aí.

 

P/1 - Certo. E me fala uma coisa, como é o seu dia a dia hoje? Você mora durante a semana... 

 

R - Eu fico de segunda a sexta em São José, moro num apartamento com uma senhora, dona Heleninha, uma mulher maravilhosa, um ótimo astral, moro eu e a Inês. A gente vai na segunda e vem embora na sexta-feira de tarde. E o dia a dia eu fico na Johnson, enquanto tiver serviço eu fico lá até às 19, 20 horas e se não tiver, saio às 17 horas e a gente vai no shopping, vai dar uma volta lá, porque não tem o que fazer, né?

 

P/1 - Certo. Por que é que você optou morar durante a semana lá?

 

R - Eu optei por causa que teve a implantação do sistema e eu tinha que acompanhar, né, e aumentou o número dos meus funcionários e eu era obrigada, sou obrigada, a dar assistência pra eles. E eu estando aqui em São Paulo, fica mais difícil.

 

P/1 - Que sistema foi implantado?

 

R - Esse BPCS, né, que era a implantação. Tudo jogado no micro, né?

 

P/1 - E pra que é que serve?

 

R - É pra você, antigamente você trabalhava tudo com cardex. Agora é tudo no sistema, controle de estoque, tudo. Só isso. (risos)

 

P/1 - Deixa eu te falar uma coisa. Quando você entrou na Johnson, esperava trabalhar esse tempo todo?

 

R - Nunca. Nunca imaginei que eu fosse, nem esperava que eu fosse viver até os 53 anos de idade. Você nunca sabe, né, o que é que vai acontecer na sua vida, então eu nunca esperava ficar tantos anos assim.

 

P/1 - E você esperava assumir os cargos que foi assumindo? Estar na posição que você tem hoje?

 

R - Eu nunca esperava, mas depois que eu fui pra São José, que eu fui trabalhar com o Cláudio Niemeyer, achei que tinha chance de alguma coisa. Pela cabeça dele, eu achei que eu tinha a chance de alguma coisa.

 

P/2 - Por que aqui era mais difícil?

 

R - Não tinha esses cargos, não tinha essas coisas, né? Aqui você só tinha encarregada. Isso, o Armando Macias que era o gerente e o Fermino, que era o farmacêutico responsável. Lá já não, lá já tem mais cargos, né, tem mais áreas, tem gerente de fábrica, gerente de acondicionamento, gerente de engenharia. Aqui não tinha nada disso, né? No depósito era encarregado, não tinha supervisor. O Cavenag era supervisor de acondicionamento. Então não tinha essas vagas que tem hoje lá, né?

 

P/1 - Quando você entrou você esperava chegar até onde, mais ou menos? Você tinha uma perspectiva?

 

R - Eu, olha, eu não posso te falar porque quando eu entrei, precisava muito do dinheiro que eu ganhava lá, né, pra comer, então você não estava nem pensando onde ia chegar, né? Só que eu nunca pensei que eu ia chegar a ter o cargo que eu tenho e ser respeitada lá que nem eu sou, nunca imaginei. E querida pelos meninos, né? 

 

P/1 - Hoje você tem quantos funcionários trabalhando com você?

 

R - Eu tenho 17, 17 homens.

 

P/1 - Você é a única mulher?

 

R - Sou a única mulher.

 

P/1 - Como é o relacionamento entre vocês?

 

R - Muito ótimo, muito aberto, muito franco um com o outro. Seja problema particular, o que é que for, a gente senta e conversa, o que for. É muito aberto. 

 

P/1 - Certo. Deixa eu te falar uma coisa: o que você pensa pro seu futuro, quais são os seus planos dentro da Johnson ainda?

 

R - Eu espero, não sei, ficar acho que até os 55 anos de idade pra pegar aquela complementação que tem, e treinar alguém quando o Cláudio achar que tem que pôr alguém pra eu treinar. E eu treinar alguém pro meu lugar, porque é uma área de muita responsabilidade. É uma das áreas que eu acho que, na minha opinião, de mais responsabilidade lá, porque você carrega e descarrega caminhão o dia inteiro. E dentro de caminhão você pode pôr o que você quer, né, pra sair.

 

P/1 - Você toma, quais os tipos de controle que você tem hoje?

 

R - Ah, eu fico de olho em tudo que estão fazendo, eu tenho mil olhos lá. (risos) Eu fico, tudo que estão fazendo eu sei, não deixo passar nada.

 

P/1 - Por que você recebe todo o material e você envia?

 

R - Porque todo o material que entra na Cilag, sou eu que recebo e tudo que carrega. Não produto acabado, produto pra ser feito em terceiros sou eu que carrego também. Então você manda muito comprimido embulistado, né, pra ser acondicionado fora e é um risco muito grande, então é tudo muito bem controlado.

 

P/2 - Por que lá tem o setor de acondicionamento e também tem fora, é isso?

 

R - É, a gente, o Tylenol 750 mg, a gente manda acondicionar fora, porque está tudo em reforma na fábrica, então não tem condições de fazer tudo lá, né? Isso daí nem é bom pôr.

 

P/1 - Está em reforma por que está ampliando?

 

R - Está ampliando. Está ficando bonita, né?

 

P/2 - É. Está.

 

R - Você não viu?

 

P/2 - Vi.

 

R - Está ficando muito bonito lá. Só isso. 

 

P/1 - Com o passar, você nessa função, notou assim alguma coisa que aumentou o volume de material que entra e que sai?

 

R - Aumentou o volume desde que eu assumi sim, aumentou muito mais o volume de materiais.

 

P/1 - Isso resulta em muito mais trabalho? Em mais gente?

 

R - Não é, é que tem muito mais produtos hoje do que a uns anos atrás, né?

 

P/2 - Hoje em dia os componentes básicos, né, quais os produtos que são os mais utilizados? Quais os desses sais básicos? Quais os produtos dali que você acha que tem maior procura de todo o material que você mexe?

 

R - Do que mais sai pra fabricar lá dentro?

 

P/2 - É.

 

R - O que entra é Nexetil Paraminofenol, é um dos que mais entram, né, mas o que mais usa... De cabeça, eu não consigo lembrar.

 

P/1 - Pra que é que serve esse que você falou?

 

R - É a matéria-prima que vai na fabricação, né, vai em vários produtos. Agora os produtos que entram, eu não lembro de cabeça. Um que sai bastante também é o Texapon, que fabrica xampu, né, o Triatop e o Nisoral.

 

P/2 - É. Porque você pega aí a parte tanto...

 

R - Não, eu só recebo a matéria-prima bruta requisitada e eu mando pra pesar, né, mas quem pesa já é outra área.

 

P/2 - Ah, tá. Você pega tanto da Farma...

 

R - Só da Farma. Lá é só Farma.

 

P/1 - Quais são os produtos que mais chegam, além desses dois que você falou?

 

R - O meu não é produto, o meu é matéria-prima.

 

P/1 - Desculpe, a matéria-prima.

 

R - Açúcar, Texapon, Sorbitol, vitamina B1, vitamina, é muita matéria-prima, é muita Só de “boxes”, eu tenho 1.900 boxes lá por sete de altura, não dá pra você lembrar tudo.

 

P/1 - Onde ficam guardados os materiais?

 

R - Material de embalagem e matéria-prima.

 

P/1 - De embalagem também?

 

R - É.

 

P/1 - Deixa eu perguntar uma coisa pra você, Gleide. Você falou que na época você não consumia nada da Johnson, né, e hoje você consome?

 

R - Ah, tudo que tem direito. (risos)

 

P/1 - Quais são os produtos que você mais consome da Johnson, da Farma?

 

R - Ultimamente o que eu tenho mais consumido é Esparanox, que eu estou com uma unha aí, uma unha muito brava aí, mas o que é que eu uso é Care Free. Tudo que você pode comprar lá e pode usar, você compra, né, porque é bem mais barato também pra gente. Tem uma lojinha lá, tudo.

 

P/1 - Tem uma loja para os funcionários?

 

R - Tem. Então você compra as coisas mais baratas.

 

P/1 - Tem mais alguma pergunta? Vamos dar uma encerrada, vamos encerrando então. Gleide, eu queria que você me falasse o seguinte: se você pudesse você mudaria alguma coisa na sua vida hoje? Se você quisesse mudar, o que você mudaria?

 

R - O que eu mudaria? Na minha vida profissional?

 

P/1 - Pessoal, profissional.

 

R - Eu acho que eu não mudaria nada não, a minha vida profissional foi boa, a minha vida particular... A única coisa triste foi que eu perdi um sobrinho, né, agora, pouco tempo, mas o resto não mudaria não. Tive uns pais ótimos, uma mãe pra frente, tem um irmão que eu tenho paixão por ele, tenho dois sobrinhos que eu amo mais do que a minha própria vida. Eu não mudaria não. Meu círculo de amizade é muito grande, eu não mudaria nada não.

 

P/1 - E você tem algum sonho que gostaria de realizar?

 

R - Ah, eu tenho um sonho que eu não consigo fazer. 

 

P/1 - Qual é o seu sonho?

 

R - Comprar uma casa. Eu não tenho casa, adoraria comprar uma casa minha, minha, minha. Não tenho, esse aí é o meu único sonho. E também, depois a gente morre e fica aí, né? (risos)

 

P/1 - Certo. Gleide, pra encerrar: assim, o que você achou de ter passado essa hora conversando com a gente, contando histórias...

 

R - Muito legal, vocês são ótimos, ótimos, ótimos. A Carmem eu já conhecia, né, a gente bateu um papo antes, mas vocês são maravilhosos. Nossa Senhora! Esse menino é um gatão, se eu tivesse 20 anos... Quando eu tinha 20 anos, era bonitinha. Agora já estou arriada. (risos)

 

P/1 - Está joia então, a gente agradece muito a sua ajuda.

 

R - Eu é que agradeço vocês. E se eu arrumar mais algumas fotos, mando pra vocês, tá?

 

P/1 - Fantástico.

 

R - Mas vocês precisam me deixar o endereço pra onde é que eu posso encontrar, né?

 

P/2 - Obrigada.

 

R - Obrigada a vocês.  

 

[Fim da fita 006-B.]

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