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História

Ex-funcionária e fã

História de: Irene Inês Preyer
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/06/2020

Sinopse

Conta sobre sua infância e a entrada na Avon como secretária. Fala sobre o ambiente de trabalho e momentos importantes da empresa. É casada.

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História completa

 

P/1 - Para começar, Irene, por favor, você pode falar seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R - Irene Inês Preyer. Sou nascida em São Paulo, em dezessete de abril de 1948.

 

P/1 - E qual é a sua atividade atual?

 

R - Atualmente eu trabalho com eventos corporativos e abri uma própria empresa pra cuidar desses negócios.

 

P/1 - Certo. Os nomes dos pais?

 

R - Alfredo Preyer e Marta Preyer, ambos já falecidos.

 

P/1 – Qual era a atividade profissional deles?

 

R – O meu pai, por uma característica de nacionalidade, domínio de idioma, trabalhava como caseiro numa chácara. Trabalhou muitos anos com uma mesma pessoa. Minha mãe era do lar.

 

P/1 – E a origem da família,  qual era?

 

R - Letônia, um país pouco conhecido.

 

P/1 – E tem irmãos?

 

R - Muitos. (risos) Nós éramos seis irmãos, cinco vivos.

 

P/1 – Então vamos lembrar um pouco da infância. Onde é que você morava?

 

R - Eu morei a vida toda quase que na mesma região, mudava só de casa. Na Chácara Santo Antônio. Eu nasci e vivi lá durante quase toda minha vida e ainda moro na região de Santo Amaro. Chácara Santo Antônio, hoje, é onde fica o nosso escritório.

 

P/1 – Fale um pouquinho pra mim como era a casa, o cotidiano dessa família.

 

R - Nós morávamos numa chácara, uma família grandona, de seis irmãos, e pai, irmão, avós morando conosco. Era um lugar muito espaçoso, muito gostoso, que hoje muitas pessoas gostariam de ter a oportunidade de viver lá, Naquela época a gente não sabia dar o devido valor, mas era um lugar que tinha um lago, tinha bosque, tinha horta, tinha plantação de árvores frutíferas. Foi um período muito bonito da nossa vida, muito legal.

 

P/1 – E quais eram as brincadeiras favoritas?

 

R - A brincadeira era rodar pneu ou pular em descaídas, eram carrocinhas puxadas por pôneis, pescarias no lago da própria chácara, bolinha de gude, empinar pipa, brincar de casinha - mas fazendo a comidinha, catando as verduras, os legumes na horta e ovos também, que tinha lá na chácara. Minha mãe deixava pegar os ingredientes e fazer comidinha de verdade, então foi uma coisa assim muito natural a nossa vida. Não tinha na época jogos, televisão, essas coisas, então foi uma coisa mais natural. Hoje em dia eu tento repassar pras crianças, mas é pouca oportunidade que você tem de fazer isso.

 

P/1 - Fale um pouquinho de como era essa São Paulo de antes.

 

R – Eu acho que era um lugar bem mais tranquilo. Hoje a gente tem o excesso de carros, naquela época tinha falta, então nós, pra locomoção até um lugar pra comprar, pra fazer alguma coisa - tipo centro de Santo Amaro, que era o lugar que eu morava, a gente ia de charrete ou então no lombo de cavalo mesmo. Naquela época, a gente atravessava um bairro que é bem conhecido naquela região, que chama-se Granja Julieta, e por ali a gente ia. Era o nosso meio de locomoção, senão a gente andava a pé mais ou menos uns dois quilômetros pra pegar o bonde que passava na [Avenida] Vereador José Diniz. Na época não tinha ônibus, então esses eram os meios de locomoção mais usados naquele período que gravou mais na memória.

 

P/1 – Está certo. Tem alguma lembrança bem marcante da época da infância?

 

R - A gente sempre tem lembranças, porque na nossa casa, por ter… Nós fomos nascidos e criados em igreja evangélica, igreja batista, e como tinha muito espaço na nossa casa, muito quintal, muita área verde, a gente fazia festas juninas. O pessoal da igreja vinha todo, então era festa de duzentas, trezentas pessoas, com fogueira de varar a noite, varar o dia seguinte. Todo mundo dormia conforme dava no terraço, no [vão] livre da casa. 

Eram coisas assim, gostosas de ficar, [de] fazer brincadeiras porque dentro da nossa religião não se dançava, então [se] fazia outro tipo de brincadeiras, de roda, de pular fogueira, uma série de outras brincadeiras que eram comuns na época. Isso traz lembranças gostosas, porque era uma maneira diferente da gente se divertir, mas sadia, talvez.

 

P/1 – E os estudos, quando é que você começou?

 

R - Os estudos foram sempre em escolas públicas. Comecei aos sete anos mesmo, pro primário. Fiz ginásio longe de casa, mas também em colégio estadual e equivalente ao colegial, que era Secretariado. Esse eu fiz no centro da cidade, mas sempre morando onde eu comentei que morei. 

Naquela época, faculdade não era uma coisa acessível pra todo mundo. Eu sei que hoje ainda é difícil, mas naquela época era mais ainda, então eu não tive oportunidade de fazer uma faculdade. Depois fui, na medida que a necessidade foi aparecendo, já na Avon. Inclusive fui fazendo cursos complementares: inglês, estenografia, que pouca gente sabe o que é. 

 

P/1 – O que é isso?

 

R - É taquigrafia, já ouviu falar em taquigrafia?

 

P/1 – Sim. 

 

R - É um método usado pra você anotar reuniões, resultados de reuniões, de excursões através de sinais. A gente fez esse curso em português, depois fizemos uma versão; fiz pra inglês e usei bastante, bastante mesmo. Hoje a turma dá risada, não sabe o que é, mas foi um método muito legal inclusive em escolas, para você anotar a explicação do professor. Ajudava bastante, era bem legal. Hoje o gravador resolve. (risos)

 

P/1 – É verdade. 

 

P/2 - E você teve alguma influência na escolha desse curso que você fez primeiro, de secretariado? 

 

R - Pode ser que sim, porque minhas irmãs todas foram secretárias, então talvez tenha sido uma coisa que veio naturalmente para mulher na época. É difícil escolher uma profissão. A gente achava que sendo secretária seria uma coisa legal, eu acho que foi por aí.

 

P/1 - Está certo. E com quantos anos começou a trabalhar?

 

R – Com doze. A minha mãe quase apanhou do juiz de menor porque precisei tirar uma licença especial. Eu já era meio maluca na época, arrumei um emprego bem perto da escola que eu estava no ginásio. Cheguei em casa e simplesmente expliquei pra minha mãe. Falei: “Faz uma marmitinha aí pra mim” - domingo à noite - ”que amanhã eu vou trabalhar.” Assim comecei a minha vida profissional e não parei mais, até hoje.

 

P/1- Qual foi o primeiro emprego?

 

R - Foi uma loja de doces, em frente ao hospital São Luís, na Avenida Santo Amaro. Uma doceria, fui trabalhar no balcão.

 

P/2 - E quais os outros lugares que trabalhou?

 

R - Depois disso, vizinha a essa loja havia uma relojoaria. Depois que eu estava há um ano, mais ou menos, nessa loja, os donos da relojoaria convidaram se eu não queria passar pra lá, porque me pagariam um pouco mais. Eu fui, só que não gostei muito do que eu fazia lá, voltei pra doceria mais tarde. (risos) Fiquei mais um bom tempo na doceira.

 

P/2 – E depois?

 

R - Depois disso, de bico em finais de semana, havia uma empresa…. Isso é outra coisa estranha, porque hoje em dia vocês não ouvem mais falar. Havia uma empresa limpadoras de fossa e eles precisavam de plantonistas pra atender telefone no final de semana. Eu trabalhei nisso. 

Mais tarde, eu estava em casa exatamente assim, parada, não estava fazendo nada; tinha uma irmã que trabalhava numa empresa e nessa empresa um funcionário que trabalhava na fábrica teve um problema sério de pulmão, por intoxicação de produtos. Pra que ele pudesse sair de licença, precisava de alguém pra substituir e eu fui fazer essa substituição. Trabalhei nessa empresa três anos. Comecei lavando vidros de experimentos de produtos químicos, depois passei pro escritório, para telefonista; depois disso fui fazer a parte de… Fui auxiliar de faturamento, então passava as faturas em extenso, em gelatina. Era uma coisa bem… Fazia cópias na gelatina, era um processo bem diferente, então fiz isso, passei pra um escritório.

 

P/2 -  E depois?

 

R – Depois disso eu pedi demissão. Surgiu uma oportunidade, uma vaga de auxiliar de escritório na Avon. Eu tinha uma irmã que trabalhava lá nesse departamento, aí cometi a loucura de me candidatar. Só que foi uma coisa muito louca, porque todo mundo torcia pra que eu conseguisse passar nos testes - eu era muito nova, tinha dezesseis anos - e o pessoal do departamento dizia: “Tudo que o chefe perguntar, se você sabe, você responda que sim.” Eu fui falando “sim, sim, sei, sei”, porque eles diziam “depois a gente te ajuda”. Só que chegou numa hora que ele falou assim: “Você sabe taquigrafia?” Eu falei: “Ah, sei.” Só que ele falou: “Tá bom, vamos a um teste.” 

Começou, mandou trazer papel, lápis, um caderninho e começou a ditar um trecho e eu… Na hora eu estava começando a fazer esse curso, então eu sabia só os sinais básicos. Aquilo me deu uma tremedeira! Eu falei assim: “Agora danou-se”, mas peguei um pouco do texto que ele ditou em português. Ele era um homem muito bravo e eu fiquei muito nervosa, entrei em pânico. Só que Deus é pai, ele não abandona: ele foi chamado a uma reunião de emergência, não sei, daí todo mundo me ajudou a traduzir o texto, para eu poder não passar um carão com ele. (risos)

Mas deu certo, eu fui para o departamento pessoal fazer entrevistas e toda parte necessária para admissão de alguém. Depois de uma semana trabalhando na Avon, graças a Deus, e no departamento dele… Isso foi uma coisa que marcou porque tinha uma fama de ser muito bravo. Havia funcionários lá de idade, na época, que quando ele brigava com esses funcionários, discutia, mostrava o erro, alguma coisa... Tinha um senhor alemão, ele saía da sala e batia a cabeça na parede de medo, sabe, de nervoso. Batia a cabeça na parede. 

Eu conhecia todo esse histórico através da minha irmã, que era secretária do departamento, então morria de medo desse homem, me pelava de medo, mas ele foi a pessoa que mais me incentivou a crescer dentro da Avon. Ele me aconselhava a fazer cursos e chegou a pagar algum curso na Época Inglesa, eu acho. Chegou a pagar um curso de inglês pra mim. Ele era muito bravo, mas era muito mano, muito gente boa, um coração muito grande. Ele se chamava Seu Quines, acho que pouca gente na Avon se lembra dele ainda, mas foi um dos homens mais bravos que eu conheci lá. (risos) Foi uma história pra não esquecer.



P/1 - Então antes de… Você já conhecia a Avon antes disso pela sua irmã?



R - É, através da minha irmã. Eu havia sempre, até por essa questão religiosa… Toda moça é vaidosa e antes dessa minha irmã entrar na Avon a gente não sabia o que era. Imagina usar uma sombra, um blush, um batom... Meu pai costumava dizer que era coisa do diabo, imagina, era uma coisa complicada. E eu, meninona, não via a hora de poder trabalhar lá também. Eu praticamente gastava quase meu salário de tanto comprar produtos porque eu adorava. Aquilo foi uma transformação na nossa vida até em casa - no fim até minha mãe tava usando batonzinho, então mudou alguma coisa dentro da nossa casa.

 

P/1 - E qual foi a primeira impressão que teve no primeiro dia de trabalho na Avon?

 

R - Eu acho que foi ótima porque havia uma certa integração. O pessoal me recebeu muito bem e me ajudavam em tudo. Era uma coisa muito boa, porque tinha muitos rapazes e eu era meninona. Eu gostava sempre de muita brincadeira, então foi fácil esse entrosamento com o departamento. A partir daí eu agradeço a eles porque me ajudaram muito e acho que me desenvolvi bastante com essa ajuda. Foi muito legal, tanto que eu fiquei lá tanto tempo, né? (risos)

 

P/2 – E do primeiro dia de trabalho mesmo, você se lembra?

 

R – Eu lembro do nervosismo que tomou conta de mim pra chegar lá. ”Ai meu Deus, como que vai ser e como não vai”... Esse é um medo que a gente tem do desconhecido, acho que isso a gente é normal sentir e sente até hoje. Apesar de ser uma pessoa alegre, eu sou tímida, não tomo iniciativa para um bate-papo nem nada. Se alguém vier e me deixar à vontade, aí a coisa muda. Nesse primeiro dia eu sei que cheguei bastante tímida e com medo, mas eu fui tão bem recebida que compensou tudo isso e passou rapidinho. (risos)

 

P/2- E você começou a trabalhar em que localidade da Avon? Foi na [Avenida] João Dias?

 

R – Sim, naquela época o escritório era na Avenida João Dias. Comecei a trabalhar nesse prédio, num departamento que se chamava Controle de Produção e Inventário. Dentro desse departamento havia um pedaçinho que era o Departamento de Finanças, ele só estava localizado ali, vamos dizer assim, fisicamente; um não tinha nada a ver com o outro, mas por questão de espaço, eram juntas as áreas.

 

P/2 - Certo. Então fale um pouquinho agora da sua trajetória na Avon. Você entrou nesse cargo e depois?

 

R - Eu entrei como auxiliar de arquivista. Não era arquivo de puxar esses gavetões que a gente tem hoje, era arquivo de Cardex. Eram umas fichas que controlavam a produção que acontecia na fábrica. Aquilo devia estar sempre muito atualizado, então havia uma pessoa que digitava essas fichas e eu arquivava, para manter em ordem os estoques dos produtos que eram controlados todos, praticamente [de modo] manual. 

Trabalhei nisso algum tempo, aí passei a atender como se fosse uma… Sem registro, sem título, mas como uma secretária auxiliar de finanças, que estava ali junto. Comecei a ajudar no departamento de finanças também. Meu primeiro chefe lá era o senhor Ismael Ferreira, e lá nós trabalhamos alguns anos juntos, até que a minha irmã, que era secretária da gerência desse departamento, se casou. Naquela época, quando uma moça se casava ela era desligada, então ela saiu da Avon e eu quase que automaticamente fiquei no lugar dela. Aí começou a trajetória, vamos dizer assim, da minha vida profissional na Avon.

 

P/1 – Mas você assumiu outros cargos ou você se conscientizou nessa secretaria de gerência?

 

R - Eu fiquei muitos anos nesse departamento, quase metade da minha vida profissional. Estou exagerando um pouco, mas muitos, acho que uns quinze anos. 

A Avon é uma empresa que muda sempre, então ela começou uma transformação interna. Os departamentos começaram a mudar de nome e o meu chefe, que era o gerente do controle de produção [e] inventário, nessa época, assumiu uma nova função que estava ligada a projetos. Chamava-se Projetos Especiais, mas porque era para selecionar e estudar os projetos que seriam contemplados com os primeiros programas de computador. A Avon estava iniciando a fase de processamento de dados - era assim que se chamava esse departamento - e o Seu Fernando começou a trabalhar nos projetos que priorizariam essa transformação para a informática. Fui com ele, ficamos alguns anos, trabalhando uns três anos, por aí, aí ele se aposentou. Saiu da empresa, foi embora para Mato Grosso com a família. 

Eu continuei na João Dias, mas fui convidada pra ajudar o engenheiro - secretariar, na verdade, o engenheiro que estava construindo a primeira fase de expansão da Avon Interlagos. Naquela [época], em Interlagos a gente tinha só a expedição, então houve uma fase de ampliação da expedição. Eu trabalhava meio período em Interlagos e na parte da tarde… Não, perdão, meio período na João Dias e na parte da tarde eu ia pra Interlagos, e assim contrabalançando as duas áreas, até que surgiu a oportunidade de construir o edifício administrativo. 

Como eu já estava lá mesmo, fiquei o período integral trabalhando com os engenheiros, tanto de Nova Iorque quanto do Brasil, que construíram esse edifício que vocês conhecem hoje, que temos lá hoje. Foi uma coisa muito interessante porque saiu completamente do ramo de perfumaria, de cosméticos, pra falar de cimento, de ferro, de ar condicionado, então termos totalmente diferentes, materiais totalmente diferentes. Deu pra aprender bastante coisa lá, foi muito interessante.

 

P/2 - Mas como foi essa transição da João Dias para Interlagos?

 

R – Eu era recém-casada, não tinha filhos, então tinha uma… Foi legal, eu acho que é bom mudar. Eu gosto de mudanças, gosto de desafios, e na vida pessoal não interferiu em nada. Na vida profissional, eu gostei do que fiz lá. Foi uma coisa... Eu trabalhava dentro de um barracão de obra mesmo, como você vê que fazem - qualquer obra não tem um barracão? O escritório era dentro de um barracão, era assim. 

Foi uma experiência boa, porque esse pessoal que trabalha em obras é um pessoal muito humilde, vem de longe, não sabe os termos da gente. Ali aconteceram muitas coisas que hoje a gente dá risada, mas na época tive pena. Por exemplo, eles me chamavam de doutora. Não entrava na cabeça deles que eu não era doutora, mas eles me chamavam assim. A gente tinha que usar aquelas botas, aqueles capacetes pra andar na área que estava em obra. 

Uma vez, veio um senhor com muita humildade [falar comigo]. Ele tinha cortado bem feio a perna dele, aí ele veio me pedir um socorro. Eu nem sei se isso pode ser dito. Depois você corta se não puder e estava sangrando, estava muito fei a perna dele. Eu quis leva-lo ao ambulatório porque já tinha um ambulatório lá, ele não queria.  Falou: “Não, eu só quero que a senhora me dê um negócio, aquele negócio branco que a mulher usa.” Eu falei: “Meu Deus, o que o senhor quer? O que é branco, que mulher usa?” “Aquele negócio que a mulher usa quando sangra.” Na verdade, ele queria um modess pra fazer um curativo na perna. 

Trabalhar com gente simples assim é muito bom. Esse pessoal tem um reconhecimento tão grande pelo mínimo que você fizer por eles que enche seu coração de alegria. É bom poder trabalhar com pessoal assim, é tudo muito sincero. Eles faziam pipoca lá no barracão onde dormiam e vinham trazer pra gente, aquele café bem ralinho, coado não sei nem onde com a pipoca, mas eu todo dia ganhava um pratinho fundo de pipoca, um prato desses [de] porcelana branca da mais simples, toda lascada, já rachadinha. Eles vinham trazer com aquele carinho e aquele copinho de café, então, era um… 

Foram experiências únicas pra mim. Foi um crescimento pessoal, não só profissional, mas o crescimento pessoal de ver a bondade do coração dessa gente. O mínimo que eles têm eles dividem com você, é uma coisa incrível. Foi uma lição de solidariedade, de vida mesmo.

 

P/1 – Estando em Interlagos, você trabalhava com quem?

 

R – Eu fui. Quando o escritório voltou, mudaram-se pra Interlagos os funcionários que estavam nesse barracão. Tiveram a oportunidade de eventualmente escolher o que gostariam de fazer pra serem recolocados. Eu queria trabalhar em marketing naquela época e tinha vontade de trabalhar e conhecer um pouco de marketing, então consegui ir pra um departamento que se chamava Incentivos. Naquela época era dentro de marketing, então fui como secretária do gerente de Incentivo.

Eu trabalhei pelo menos seis anos nessa área e foi um total aprendizado pra mim, principalmente no crescimento do inglês. Antes era mais raro [haver] oportunidades pra praticar, pra falar e lá eu tinha que traduzir boletins de procedimento, uma série de coisas. Foi muito legal, eu cresci muito em Incentivos. Aprendi muito, foi muito bom.

 

P/2 – E depois disso?

 

R - Depois disso - se a gente for somar esse tempo todo, desde o início da minha vida na Avon, se passaram vinte anos - surgiu a minha primeira oportunidade pra concorrer a uma vaga de secretária de diretoria. A gente foi chamada pra um… Dentre outras candidatas também internas - não sei se havia externas, mas internas tinha várias - a gente fez um teste em RH. Eu fiquei muito brava, porque você está trabalhando [há] vinte anos em uma empresa, todo mundo te conhece; fazer um teste de datilografia? Eu queria morrer, sabe? 

Aquilo me deixou queimada, eu fiquei muito chateada, mas fui bem. Devo ter passado, porque recebi essa promoção e fiquei alguns anos como secretária de diretoria de marketing. Foi muito bom, porque daí pra frente foi tudo muito mais rápido. Daí pra frente eu acompanhei o meu chefe, que foi o seu Adhemar Seródio. Na diretoria eu estava com ele; à medida que ele foi sendo promovido, ele voltou, foi pra Vendas e eu fui também. À medida que ele foi sendo promovido, ele me levava junto e nós chegamos até a fase da presidência.

 

P/2 – Como é que foi essa fase da presidência?

 

R - Olha, foi gratificante porque… Você vê, depois de quase trinta anos de empresa, eu senti a necessidade de voltar a estudar outra vez, porque ele se tornou Presidente do Brasil e Vice-Presidente pra América Latina. Ele cuidava de toda a  América Latina, chamava-se ________, é o nome da sigla que cuidava da América Latina. Eu tinha contato direto com os países da América Latina e cadê o espanhol? Estava fazendo falta. Foi aí que a gente reiniciou os estudos e fiz um curso bem puxadinho de espanhol, então também graças ao trabalho eu melhorei o meu currículo. Já sabia o inglês, já tinha um bom conhecimento, aí adicionamos espanhol, mais o português e o _______, que quase não serve pra nada, mas de certa maneira ajuda a desinibir a língua, então é mais fácil pra você.

 

P/2 - Tá certo. E como era o relacionamento com os outros países? Como era isso?

 

R – Meu relacionamento com os demais países era por telefone, fax, e receber os visitantes internacionais. Acho que por receber esses visitantes nesse período é que surgiu a ideia de um dia poder trabalhar com eventos - porque eu cuidava de tudo deles, da vinda deles, da agenda, do hotel. Mandar uma cartinha de boas vindas, coisas que nós criamos que não existia antes na Avon. Mesmo se viessem visitantes pra uma outra área, foi na gestão de seu Adhemar que a gente criou um procedimento de receber esse visitante na sala do presidente no primeiro dia, o visitante dizer a que veio e depois, no último dia da agenda, também alguns minutinhos pra ele dizer qual foi a experiência dele no Brasil, se ele gostou, se foi válida, se foi produtiva. 

Lidar com visitantes internacional hoje é o que eu mais curto fazer, e saiu daí, aprendi aí.

 

P/2 - E quais foram os principais desafios que você enfrentou na Avon? 

 

R – Bom, os desafios são constantes. Eu acho que um desafio que a gente tem no dia a dia é aprender a lidar com todos os tipos de pessoas. 

Acho que o relacionamento é, com as pessoas, saber filtrar, porque de certa forma você está representando uma pessoa numa função importante. Você não pode simplesmente deixar tudo chegar até a pessoa, as pessoas irem conversar direto com o presidente. Tem que saber até ser delicada pra dizer um não, pra marcar uma hora ou pra dissuadir a pessoa de alguma ideia, então acho que essa parte de desenvolvimento de relacionamento pessoal pra mim foi muito boa, aprendi muito com isso. 

Foi um desafio muito grande porque às vezes a gente age pelo ímpeto e não pode, você tem que aprender a ter calma e saber realmente peneirar as coisas, ver até que ponto vale a pena ou não levar até o chefe e poupá-lo de algumas coisas muitas vezes desagradáveis. 

 

P/1 - Certo. E as alegrias? 

 

R – Muitas. (risos) Tudo é alegria, a gente é… A Avon é uma empresa que entra no sangue da gente, então ela faz parte da sua vida. Hoje, mesmo fora de lá, se alguém me chama pra alguma coisa eu vou feliz da vida, porque me sinto parte de um todo ainda, mesmo que distante. As alegrias foram muitas. 

Eu me casei com uma pessoa não avoniana e o meu marido simplesmente não entendia que tanto tinha nessa Avon que… Sabe, eu curtia trabalhar, era legal. Eu não voltava pra casa reclamando. Depois de muitos anos de casamento, eu tive minhas filhas e elas também cresceram sabendo que a Avon é legal, então elas também não tinham ciúme da mãe estar na Avon. Tanto assim que mais tarde, bem mais tarde, quando já eram mocinhas, elas também tiveram oportunidade de fazer alguns trabalhos por meu intermédio dentro da Avon, como recepcionistas em algumas ocasiões especiais e ajudar, por exemplo, no final de ano, na distribuição de cartões de Natal. 

O meu chefe gostava de mandar cartão de Natal pra todo mundo, ele tinha um relacionamento enorme, então o que hoje nós chamamos de gerente setor - eram promotoras de venda - todas recebiam cartões de Natal dele. Se ele não mandasse elas se sentiam lesadas. Todo relacionamento dele com as Avon de outros países e pessoal de fora, os executivos da amizade dele, então sozinha eu não dava conta desse recado. Apertava muito o trabalho pra mim no final de ano. Como as meninas já estavam grandinhas, eu pedi autorização pra ele pra levá-las lá uma ou outra pra pelo menos colar os revoirs no cartão. 

Ali era um departamento que não pode entrar qualquer pessoa, tinha que ser pessoa de confiança; é um setor que você tem que ter um certo cuidado, então por causa disso elas me ajudaram bastante nos finais de ano lá trabalhando. Esse convívio foi legal, porque elas também aprenderam a gostar da Avon e hoje elas me ajudam nessa área de eventos, principalmente condução de eventos da Avon. As duas vão pra ajudar na recepção no que precisar, a gente trabalha junto. Elas cresceram aprendendo a dar valor ao trabalho, também começaram cedo e eu acho que tudo isso eu devo a Avon.

 

P/2- Que tipos de outros eventos vocês realizavam? Você organizava? 

 

R – Dentro da Avon?

 

P/2- Sim.

 

R – Quando da aposentadoria do meu chefe eu passei a trabalhar no departamento de comunicação, que algum tempo respondeu pra marketing, foi responder pra RH, depois retornou pra marketing. Lá já era um departamento formado, tinha gerentes, tinha uma supervisora, então tudo que elas precisavam de eventos internos ou externos e que eu pudesse ajudar eu ajudava também. Só que de certa forma, acho que por causa dessa experiência que a gente adquiriu ao lidar com os VIPs, eu acabei sendo mais requisitada pra cuidar dos [VIPs] em qualquer evento que acontecesse. Eu cuidava da alimentação deles, do transporte, acompanhava a segurança, então dentro da Avon eu acho que mais contou pra mim em área de eventos foi essa parte. 

Por exemplo, quando já como empresa de eventos, a gente teve o privilégio de ser convidado, o primeiro ‘eventão’ legal da Avon que surgiu foi receber a presidente mundial, porque a gente tem um certo cuidado, além de ajudar a parte de idiomas. Eu sei o que ela gosta de comer, o que ela não gosta; eu ia tomando nota no decorrer dos anos. “Isso ela não comeu”, mas por observar o prato; “olha, ela não gostou disso, ela não gostou daquilo”, então isso eu nunca mais oferecia. Mas esse cuidado com a alimentação, se você sabe que alguém tem um problema de saúde, então você vai tratar de cuidar, dar o que a pessoa pode comer. Acho que por causa desses cuidados eu fiz muito isso na Avon, cuidar mesmo das festas, mais da parte de A e B e receptivo de VIPS.

 

P/1 – Você pode falar mais um pouquinho desse período então que você trabalhou com o Adhemar?

 

R - Trabalhar com o Adhemar foi fácil porque era uma pessoa de muito bom humor, então… Lógico, eu nunca esqueci que ele era meu chefe, sempre o tratei assim, mas ele era uma pessoa que delegava e muitas vezes ele me dava liberdade de dar soluções pra alguns casos - com a ciência dele, mas sozinha. Isso me dava uma certa tranquilidade, porque é muito difícil você trabalhar com alguém que viaja muito, que é o caso de todos esses executivos. Nenhum deles foi presidente da empresa, mas estando lá o tempo todo, eles viajam muito, é uma loucura a vida deles. 

O que foi mais legal [de] trabalhar nessa gestão do Adhemar foi que a família dele passou a ser a minha família. Na ausência dele, você precisa ajudar a família. Ele tinha filhos pequenos, jovens ainda, adolescentes quando nós começamos a trabalhar juntos. Tinha uma esposa, tinha mãe, então a gente tinha uma liberdade de ligar pra casa de um ou de outro e resolver todas as pendências, [o] que deixava a gente muito à vontade. Foi uma coisa que firmou minha autoconfiança no trabalho.

Acho que foi muito fácil trabalhar com ele. Ele foi um chefe muito bom pra mim, muito compreensivo, sempre muito ligado na vida familiar da gente e de outros funcionários também. Eu estou falando de mim porque a gente trabalhava diretamente, e da família dele também, então eu ajudei muito no casamento da filha dele. A coisa transcendia um pouquinho, aquele trabalho dentro da empresa, só que assim eu organizava, fazia tudo e depois caía fora. Eu não misturava as coisas, com delicadeza eu saía. Às vezes ele até falava assim: “Puxa, você é orgulhosa.” Mas não é questão de orgulho, eu acho que a gente tem que saber o lugar da gente, a gente nunca pode se esquecer disso. Mas eu gostei muito de trabalhar com ele, eu trago lembranças muito boas, muito positivas.

 

P/2 – Você pode falar um pouquinho de mudanças que você acompanhou dentro da Avon?

 

R - Foram muitas. Tinha mudanças, não que não fossem significativas, mas que não mexia muito com as pessoas. Só mudanças de um departamento, transferências,  nome de departamentos, enfim, mudanças de nomenclaturas de cargos. Mas houve um período que houve uma mudança muito difícil, muito triste, uma reestruturação muito grande na Avon Brasil, principalmente. Acho que foi lá pros anos 80. Muita gente deixou a companhia; a gente não gosta de chamar isso de um corte, mas acaba sendo. Naquela época, foram mais de cem pessoas mandadas embora de uma vez. A Avon tem o cuidado de preparar isso, só que quando chega na hora de você enfrentar essa realidade é muito difícil, porque você vê pessoas queridas indo embora, e a gente sabe como é difícil o desemprego. Não importa o cargo que essas pessoas exerciam, a ligação era mais forte; você considerava todos amigos, todo mundo querido pra você, então você ficava sabendo de um, de outro, do terceiro que estava na lista. É muito duro. Essa época que tudo aconteceu, que tudo terminou, a gente sentia… Os que ficaram, a gente se sentia como num período de luto. Foi uma coisa muito ruim de superar e as mudanças foram muitas. 

Depois houve a era da globalização. Anteriormente, [para] tudo que se fazia na Avon a gente abria um livro de procedimento, uma bíblia enviada por Nova Iorque, então tudo era de acordo com que Nova Iorque determinava. Com a globalização, isso mudou. Acho que foi aí [que] o Adhemar pegou, exatamente no período da globalização. Esse período também foi muito difícil pro pessoal se adequar, porque de repente você para de dizer amém e está tudo resolvido. Você tem que usar mais a sua cabeça, você tem que saber o que é melhor para o Brasil, resolver as coisas localmente. Acho que esse foi um período difícil de adaptação, mas graças a Deus acabou bem, [os problemas] foram superados e hoje é essa potência que está aí. É indiscutível, isso.

 

P/1 – Você pode falar um pouquinho do seu cotidiano de trabalho, essas mudanças de tecnologia? Você usava máquina de escrever?

 

R – Meu Deus! Pois é...

 

P/1- Você usa computador?

 

R – Antes da era do computador a gente teve uma transformação grande, porque você passou da máquina de escrever manual para elétrica. Nessa oportunidade, havia um departamento que se chamava OM (Organização e Métodos), e como a empresa não disponibilizava uma máquina para cada secretaria ou para cada departamento, eu não sei como que era isso, tinha que se priorizar quem ia receber as primeiras máquinas elétricas. Eu passei por essa fase de testes e a gente tinha que comprovar qual era o seu volume de trabalho datilografado por mês para saber se fazia jus ou não a uma máquina elétrica. Esse departamento que ia julgar se você era merecedor ou não ou se tinha gente que tinha uma prioridade maior, então essa foi uma fase interessante. Hoje, a gente contando é uma coisa engraçada. 

Na fase do computador, eu estava já na presidência e pra secretária, acho que o meu foi um dos primeiros computadores, se não o primeiro. Aquilo pra mim era um bicho de sete cabeças. Eu o deixei seis meses na minha mesa sem nem tirar capinha pra não empoeirar, eu morria de medo, até que as colegas foram receber e foram ensinando. Eu tenho medo de tecnologia, sou péssima em tecnologia até hoje, mas aos poucos a gente… A Avon mesmo nos proporcionou alguns cursos internamente, aí sim eu comecei a desinibir. O que eu sei hoje eu devo a eles, pelo cursos que eu fiz lá. Não sou uma expert, mas acho que evoluí bastante na fase do computador. Foi legal. (risos)

 

P/2 – E o que você considera como sua principal realização na Avon?

 

R – Pessoal ou profissional?

 

P/2 – Os dois. 

 

R – Profissional acho que eu cheguei ao ápice da minha carreira. Se eu elegi ser secretária a minha carreira principal, eu cheguei ao que eu podia chegar. Até mais do que eu sonhava, porque eu jamais pensei que eu chegaria a uma presidência por nem faculdade ter na época, então acho que estou totalmente realizada nesse sentido. 

[Na parte] pessoal eu digo que tudo que eu tenho hoje, [mesmo] que não seja muita coisa, devo a essa carreira que eu construí dentro da Avon, porque foi com o salário, com os acertos, com indenização, com toda minha vida dentro da Avon [que] eu construí junto com meu marido nossa própria casa, carro. A gente tem um apartamento pequeno na praia; esse apartamento na praia a gente comprou naquela virada da aposentadoria, que você continua trabalhando mas teria direito de tirar seu fundo de garantia. Então fiz isso, dei entrada em um apartamento em construção, paguei as prestações com a aposentadoria porque eu não queria que o dinheiro da aposentadoria fosse consumido em supermercado, em coisas banais da casa, porque isso vai mesmo. Virou um apartamento que está lá até hoje, graças a Deus, e com a última indenização fiz umas loucurinhas a mais: vendi carro, um monte de coisas, aí compramos uma outra casa em Campos do Jordão, bonitinha, pequena e simples, mas era mais um sonho. 

Então estou com meu sonho profissional realizado em termos de carreira dentro da empresa, o meu sonho pessoal também, e hoje eu continuo realizando esses sonhos, de certa maneira, porque continuo prestando eventualmente serviços pra Avon em termos de organização de eventos, quando são eventos que tem aquelas características que eu fazia lá dentro. A gente também é cotado, participa da cotação de agências e acaba ganhando, fazer o quê. (risos)

 

P/2 - Que bom, né?

 

R – É muito bom.

 

P/1 – E como era o relacionamento com os colegas de trabalho?

 

R – Ah, muito bom. Se eu tiver inimigos na Avon - sempre tem - deve ter aquela coisinha de ciúmes, um ranço, porque “ela nessa função, não eu”. Mas isso é bobeira, porque muitas coisas acontecem sem que você espere, sem que você peça. 

Acho que de uma maneira geral eu deixei muitos amigos, tanto assim que a gente continua com contato até hoje. Ninguém é obrigada a gostar de alguém, certo? E se isso existir em relação a mim, eu nem sei, não conheço e prefiro não saber. Mas  tenho muitos amigos ainda e praticamente os amigos que eu tenho, que vieram pra casa, vieram da Avon também, de certa forma, porque foi lá que eu passei a maior parte da minha vida. Eu não tive muitos outros caminhos pra fazer amigos,  eventualmente um [ou] outro sim, mas a maior parte deles são mesmo os que eu fiz na Avon.

 

P/2 - E o que você acha Irene que a Avon representava para seus funcionários?

 

R – Eu sou um pouco assim… Eu não deveria nem dizer isso, porque… Eu sou macaca de auditório da Avon. A Avon foi a minha vida toda e eu sei de muitos funcionários que saíram de lá, com os quais a gente tinha algum contato, que sentem muito falta. É como eu te disse, existe alguma coisinha lá que contamina, entra no sanguinho das pessoas. Você se lembra sempre das pessoas com muito carinho e se alguém falar… 

Ontem mesmo aconteceu uma oportunidade. Fui fazer uma visita técnica a um hotel e a pessoa comentou sobre os produtos da Natura. Fiquei fula da vida, porque eu estava representando a Avon ali. Eu fui fazer essa visita técnica para um trabalho pra Avon, ela devia nunca ter dito que ela gosta mais da Natura. A gente sente ciúme da empresa, parece que a empresa é sua; é bobagem, mas a gente sente isso. 

Eu acho que é muito interessante também quando a gente vê um funcionário novo iniciando. Na minha época, a gente olhava e falava assim: “Esse é estilo Avon” ou “Esse não é estilo Avon”, e não ia dar outra. Não importa a função que essa pessoa desempenhasse, ou ela entrava e se integrava totalmente [ou] ela não conseguia. A Avon é uma empresa típica, não existe nenhuma empresa igual lá fora, tanto que quem trabalho muito tempo lá, eu acho que quando sai tem algum problema de adaptação, porque ela é completamente diferente das demais empresas.

Antigamente existia essa coisa de paternalismo, de família. De alguns anos pra cá, já estão trabalhando [em] tirar essa ideia da cabeça das pessoas, mas ainda assim ela é família, ainda assim é um ambiente muito saudável e um lugar gostoso, prazeroso de você trabalhar. Você não vai pra Avon [pensando] “ai, que droga! Vou ter que trabalhar hoje”, você não vai assim. Não sei se alguém sente isso, mas eu acho que não. Acho que até hoje, com todas as mudanças que possam ter ocorrido na empresa, novas cabeças pensantes e tudo isso, há ainda as pessoas que lá estão [e] curtem trabalhar na Avon. Você forma um círculo de amizade muito bom e um relacionamento muito saudável. É bom, é muito gostoso.

 

P/1 - E você tem algum caso pitoresco que você se lembre, algum caso engraçado?

 

R – Ai, meu Deus! Algum caso engraçado é chato. É engraçado, mas é triste. Uma vez a gente foi num velório de uma colega de trabalho e todo mundo naquele desespero. A moça faleceu assim, meio que prematuramente; teve um câncer, foi uma coisa muito chata, uma coisa meio fechada, não divulgada dentro da Avon. Chegou na hora praticamente do sepultamento, tinham esquecido de chamar um padre, um pastor, alguém para cercar aquele momento com um pouco mais de espiritualidade; eu olhei aquilo, via as pessoas desesperadas e meio chateadas e pensei, o que nós vamos fazer? Chamei um colega que havia sido do grupo de estudantes de padre, [se] chamava José Sebastião. Ele não está mais na Avon. Cheguei nele e falei: “Zé, o que vamos fazer? A turma vai entrar em desespero, vamos fazer alguma coisa. Você topa me ajudar?” “Topo, mas o que você quer fazer?” Ah, sei lá, vamos rezar. Vamos fazer alguma coisa, falar alguma coisa bonita pra ela. Você é bom nisso.” 

Nós dois fizemos a despedida do corpo dessa nossa colega, que foi uma coisa que até me arrepia de falar hoje, porque é muita pretensão de minha parte. Foi uma coisa de momento, mas que eu não me arrependo, porque é um momento triste pra família. Acho que se você preencher esse vazio com um pouco de Deus, um pouco de amor ao próximo, falar alguma coisa boa daquela pessoa que está partindo, enche o coração das outras pessoas de alento. Acho que isso foi uma coisa muito maluca e pitoresca que nos aconteceu.

 

P/2 – Com certeza. E o seu estado civil, é casada, né?

 

R – Sou casada.

 

P/2 – Você falou o nome do seu marido?

 

R – É Luis Antonio Preyer.

 

P/2 – E você o conheceu como?

 

R – Ele não foi da Avon. Eu o conheci fora da Avon, namoramos quatro anos, nos casamos. Estamos casados há… Amanhã, domingo, vai fazer 41 anos que a gente se conheceu; tire 34, 38… Não, tire 37 anos de casamento. 

Nesse casamento nós temos duas filhas e ele quase acabou com o casamento por ciúme da Avon várias vezes. (risos) Ele tinha muito ciúme. Qualquer evento que eu fosse participar, ele queria morrer. Achava que a Avon era mais importante que ele na minha vida - não vou contar pra ele, mas quase que era. Puxa vida, deu tanta coisa boa… Não gostava dessas características de ciúme, isso me fazia muito mal. Nós estamos juntos, graças a Deus, até hoje.

 

P/2- E o que você gosta de fazer na sua hora de lazer?

 

R – Eu sou uma pessoa bem ligada a forças da natureza. Gosto muito de programas externos. Não gosto de me enfiar em barzinhos, em restaurante, na casa dos outros, então hoje eu curto muito a casa em Campos do Jordão, sempre posso fujo um pouco pra lá.

 

P/1 - Que gostoso! Fale mais um pouco de Avon, então.

 

P/2 – Irene, a gente soube que teve uma greve na Avon...

 

R – Caramba, é mesmo! Tinha até me esquecido, coisa ruim a gente tem que esquecer. (risos)

 

P/2 – Você estava lá nesse momento? Como foi isso?

 

R – Estava, foi triste.

 

P/2 – O que desencadeou essa greve?

 

R – Essa greve é uma incógnita pra gente até hoje. Ela foi uma situação única que nós vivemos. Existem controvérsias, mas ela se iniciou na parte operacional, pessoal de expedição. Havia um diretor que era um pouco duro no tratar com os funcionários. Ele era diretor operacional na época e eu tenho a impressão que os funcionários da fábrica se sentiram meio que desafiados por alguma colocação que ele possa ter feito e escolheram um momento muito infeliz, porque não tinha… O presidente na época era o Seu João Majoly [e] estava viajando, foi um momento em que a Avon estava meio sozinha lá. Os funcionários [estavam] meio sozinhos e desprovidos dos executivos mais importantes da empresa; esse diretor estava lá e... 

Nossa, gente, [foi] triste isso, porque o pessoal externo que era… Que foi lá ajudar, fazer esse alarde todo... Eles acamparam na avenida em frente a Avon, num jardim que havia, com barracas, literalmente; ficaram ali por uma semana, impedindo os funcionários de entrar, então teve que chamar a polícia, a segurança, não sei o quê. Aqueles que insistissem em entrar tinham que entrar com proteção policial, então o pessoal principalmente do escritório, o que fez? Combinava-se pontos de encontro, ninguém era pra ir de carro, a gente ia de ônibus da empresa. O ônibus deixava a gente fora, tinha um cordão de policiais, a gente passava no meio e isso era muito humilhante porque eu ouvia coisas horríveis, eles falavam coisas muito pesadas, agressão verbal. Aquela turma que entrava para trabalhar, o pessoal do escritório, começou a se dividir. Organizaram de tal maneira pra que a produção não parasse, então a embalagem continuava, eu mesma cheguei a trabalhar numa linha de envasamento de desodorante líquido. [O] pessoal de vendas, gerentes de vendas foram pra um restaurante fazer comida e servir os colegas, então foram atribuições das mais diversas e isso durou uma semana. 

Até tinha esquecido, porque eu te falei, eu não gosto de lembrar de coisa ruim, só de coisa boa, e isso foi um marco muito negativo pra gente lá na Avon. Nós sentimos vergonha desse momento porque a Avon não merecia isso, eu acho, e a partir daí passou a ter um líder sempre lá dentro, algum funcionário nomeado líder do sindicato e que era funcionário. De vez em quando tinha que acontecer, não sei bem qual era essa prática, as reuniões com RH, então esse líder do sindicato era o porta-voz dos funcionários em RH para as discussões, as negociações e tudo isso.

Foi uma única vez e foi muito triste. Não acredito em greve pra uma causa justa. Acho que tem muita politicagem no meio, isso é um trampolim político e daquela vez também foi. E é triste porque atrapalha a vida de todo mundo, não só dos funcionários como da empresa e cria um ambiente muito pesado, muito insatisfatório. Muito chato isso, foi uma experiência muito ruim, não gostaria de passar de novo. 

 

P/1- Pode falar? Você pode falar um pouquinho da relação da Avon com a venda de porta em porta, a venda direta?

 

R – Eu vou contar um pouquinho do que sei. A história da Avon é bonita. Como venda de porta a porta, foi ela que iniciou esse sistema, ela é pioneira nisso. Depois, outras empresas aderiram, mas a história dela vem do fundador da Avon, que na verdade era um vendedor de livros, e ele o que fazia? Para poder ser recebido pelas donas de casa, ele começou a fabricar uns frasquinhos, umas amostrinhas de perfume no quintal da casa dele, ele mesmo, e dar isso como um agrado às senhoras que o atendessem. De dia quem está em casa é a mulher, o marido está trabalhando, imagina isso naquela época, 1800 e lá vai coisa. Ele começou a se tornar famoso pelos perfumes e não pelos livros, o pessoal começou a curtir os perfumes dele, até que ele resolveu arrumar uma ajudante pra distribuir esses perfumes, que chamava Mrs. Albee, essa senhora que ajudava. 

A Avon surgiu porque ele acabou não vendendo mais seus livros e abriu uma empresa chamava California Perfume Company. Ele, enfim, abriu a Avon com essa ideia. Eu fico imaginando o que foi em 1800 e alguma coisa uma mulher na rua vendendo. Isso foi uma coisa, deve ter sido muito difícil para a Mrs. Albee, tanto que a Avon, de certa maneira traz, a Mrs. Albee como um troféu para as revendedoras. Hoje em dia existe um critério pra elas ganharem esse troféu, mas ela é uma bonequinha de porcelana, não sei se vocês já viram, muito bonitinha. A cada ano ela ganha uma roupagem nova, mas uma roupagem à moda antiga, representativa da época. 

As revendedoras são doidas por essa Mrs. Albee. Eu até tenho alguma lá em casa que acabei ganhando também, tenho umas três delas, em três modelos diferentes; mas é uma briga, pois elas querem ganhar, só que a Mrs. Albee é o Oscar da Avon, né?

Eu acho que é isso. A venda direta é uma coisa que deu certo, está aí. A gente está vendo que muitas outras empresas adotaram esse mesmo sistema com sucesso, só que tem pessoas mais especializadas pra contar pra vocês sobre isso. (risos)

 

P/1 – Não tem problema, a gente só quer saber sua opinião. Eu queria saber também o você acha dessa oportunidade que a Avon dá, que insere tantas mulheres no mercado de trabalho.

 

R – Puxa, eu acho isso muito bom, porque a mulher sempre sofreu muito preconceito. Eu diria que isso é uma guerra grande, porque a mulher, no mercado de trabalho, acho que é tão capaz quanto o homem. Em algumas áreas, eu diria que aquela questão da sensibilidade feminina… Acho que a mulher até é privilegiada por causa desse dom da sensibilidade. Ela pode até ser mais feliz em algumas áreas de trabalho. 

A Avon, até onde eu sei, foi uma empresa que apostou bem nas mulheres. Acho que a Avon deu oportunidade de níveis gerenciais, diretoras. Nós tivemos até uma mulher na presidência. Acho que isso é muito bacana, porque a Avon é uma empresa voltada pra mulher e ela comprovou isso mediante essas oportunidades que ela tem dado e são crescentes, agora não só no Brasil. Acho que o Brasil foi pioneiro em termos de ter uma mulher na presidência mas, pra você ver, a nossa presidente mundial da Avon é uma mulher. Andrea Jung já está no poder há quantos anos e você vê, ela é uma mulher bem sucedida, continua sendo, continua dando os resultados que a empresa espera. Se não fosse isso, ela não estaria mais no poder.

Acho que a Avon foi muito feliz em dar essa oportunidade. As mulheres estão agradecidas. 

 

P/2 – E como você vê a atuação da Avon no Brasil, esse alcance que ela tem em levar os produtos aos mais diversos lugares?

 

R – Olha, eu acho que a Avon, além de levar os produtos pro Brasil inteiro, pra lugares… Houve uma época, há alguns anos - na época do seu Adhemar, inclusive - que a gente ficou sabendo que saiu uma reportagem sobre isso. Não sei se foi na [revista] Veja ou na Exame, [saiu] que a Avon chegava aonde nem a Coca-cola ia, o que é uma coisa rara, porque a Coca-cola está em todos os lugares do mundo e é apreciada. Eles descobriram algum lugar em que a Avon chegava e a Coca-cola ainda não estava lá. A Avon tinha sido pioneira. 

Eu acho que essa é uma oportunidade boa pra mulheres. Eu mesma já cheguei a revender Avon um tempo, fiz essa tentativa e foi muito legal. Foi uma experiência boa porque muitas mulheres, hoje em dia, tiram o sustento da família, o estudo dos filhos, da revenda do produto. Basta se dedicar, o campo, o mundo está ai, aberto pra todo mundo; se você se dedicar com afinco, você consegue. Você vende e é lucro certo. 

Hoje em dia, que a gente está vivendo num mundo com tanto desemprego, acho que esse é um bom negócio ainda, porque tem muita gente humilde que não consegue nada. Às vezes a pessoa é, sei lá, faxineira em um prédio e aproveita a entrada dela nesse prédio para revender Avon, dos níveis até mais humildes, mas ela tem acesso a várias casas, a outras colegas, aí entra na casa da patroa e vai indo. É por aí que eu acho que muita gente conseguiu sustentar a família. 

Eu acho que é uma oportunidade muito grande, sem contar o outro lado, que a Avon tem um potencial para fazer o que ela quiser em termos de distribuição de informação, haja visto que ela fez… Ela tem um Instituto Avon e fez uso desse canal para batalhar sobre a prevenção do câncer de mama, sobre a violência [contra] a mulher, então esse é um canal que pra ela não custa nada e ela pode estar levando conhecimento para fora, para o país inteiro, até nos lugares mais longínquos. Isso que eu acho que é uma coisa legal, que pode estar sendo aproveitada também: usar as mesmas revendedoras para melhorar o nível de conhecimento, de alguma maneira, do povo brasileiro. Acho que isso é muito bacana, é um potencial muito grande.



P/1 – Você citou o Instituto Avon. Qual a sua visão a respeito das ações sociais que a Avon realiza?



R - Eu sou fã do Instituto Avon porque acho que toda empresa tem que fazer alguma coisa por alguém. Eu comecei a trabalhar com o Instituto Avon fazendo os eventos deles desde a sua inauguração. Esse trabalho que eles têm feito de prevenção do câncer de mama, agregando conhecimento pra médicos ou técnicos que trabalham em hospitais longínquos, [em] que o pessoal não tem a mínima condição de… Nem de tecnologia, não tem acesso mesmo à informação. O Instituto Avon tem trabalhado de uma maneira muito séria e eu acho que é muito legal porque eles trazem essas pessoas, fazem uma triagem, [um] processo, programa. 

Às vezes tem um médico oncologista ou não que quer instituir um projeto gratuito voltado pra comunidade dele, mas ele precisa de um apoio, sozinho ele não consegue. É aí que entra o Instituto Avon. Eles mandam essas ideias, esses projetos pro Instituto Avon, aí existe uma seleção. Eles convocam esses interessados, seja lá de que parte do Brasil for, a vir pra uma reunião em São Paulo com tudo pago pela empresa e com a ajuda de pessoas experts da área de câncer de mama ou de outras doenças que eventualmente a gente esteja trabalhando na prevenção. Eles ajudam as pessoas a definirem melhor esses projetos e os que conseguirem concluir todas as etapas exigidas dentro desse critério da Avon têm uma ajuda do instituto pra poder botar esse projeto em funcionamento. 

A gente tem visto coisas muito bonitas, de montar um ônibus aparelhado pra ir [a] lugares distantes que o pessoal não tem acesso à médico, a nada, fazer exame nas mulheres, exames preventivos. Acho que é em Botucatu que aconteceu, e foram muitas cidades do Brasil já beneficiadas com mamógrafos, São Paulo inclusive. Tem várias comunidades carentes que já foram beneficiadas. 

Tomara Deus que esse projeto seja levado sempre a frente, se não pela Avon, por outras instituições. Ou esses hospitais que foram de alguma maneira beneficiados com cheques ou contribuições de alguma forma também deem continuidade no trabalho, porque esse é um trabalho muito sério e muito bonito. Eu acho muito legal o que a Avon faz.

 

P/1 – E na sua opinião, qual a importância da Avon pra história dos cosméticos?

 

R – Meu Deus, é grande. Eu acho assim, a gente... O histórico é grande, a concorrência também, mas creio que a Avon tem produtos excelentes, principalmente quando ela deu essa reestruturada de linha e incrementou os produtos pro cuidado da pele, principalmente, tratamento de pele - é essa linha Renew que hoje está enorme. Ela começou com um produtinho e hoje tem uma infinidade de produtos nessa linha. 

Acho que a contribuição dela foi enorme e a preços mais acessíveis que outros concorrentes. Os produtos são excelentes, não deixa nada a desejar pra ninguém, entende? Acho que o que a gente tem que vencer um pouco ainda é um certo preconceito - e a Avon tem lutado muito por isso - de que a Avon tem uma linha de produtos do tempo da vovó. Acho que isso ainda falta, trabalhar um pouquinho pra você atingir por completo a classe A. Tem muita gente da classe A usando e que não admite que usa porque ainda está com aquela antiga ideia na cabeça, mas a Avon não deixa nada a desejar. Acho que os produtos são excelentes e a contribuição dela é muito grande, principalmente porque pessoas dos mais diversos níveis de poder aquisitivo podem ter acesso a esses produtos.

 

P/1 – Irene, fala pra mim qual foi o fato mais marcante que você presenciou na Avon. Pode ser positivo, negativo.

 

R – De positivo - é bom sempre falar o positivo primeiro, né? A Avon ganhou um superprêmio internacional dentro das Avons por, por bater o recorde em vendas no Brasil. Dentre todos os países, foi o país que mais se distinguiu em vendas no ano. 

A gente fez uma reunião, um café, lá nos quiosques. Lá no fundo a gente tem um jardim, a gente fez um café comemorativo lá e foi muito bacana porque nesse café foi passado um vídeo que foi gravado quando o doutor Amílcar estava recebendo o prêmio lá nos Estados Unidos. Foi uma choradeira, todo mundo chorou muito e depois, pra tirar uma foto generalizada, soltaram um monte de balões de gás. Foi um momento muito bacana e cada vez que a turma assistia aquele… Pusemos a música do Senna pra tocar na hora que ele recebia o prêmio. A gente pôs aqui no Brasil a música e aquilo emocionou porque naquela época o Senna estava com a bola toda também, então houve uma associação, uma sinergia muito boa. Todos os funcionários participaram nesse momento desse vídeo, desse café e dessa comemoração. Foi um negócio que marcou bastante, foi muito bonito. Tem uma foto lá no álbum desse momento. 

E triste, você fala ruim?

 

P/2 – Não, o que for marcante pra você.

 

R – Não, vou ficar só com a boa. De ruim não vou falar não porque foi uma morte, um acidente lá dentro, de um colega. Não em trabalho, mas jogando bola. Foi muito chato, muito desagradável.

 

P/1 – E quais foram os aprendizados de vida que você tirou trabalhando na Avon?

 

R – Jesus, todos, porque a vida é uma escola eterna. Você nem pode dizer que já está pronto porque a cada dia você está aprendendo, mas lidar com pessoas é praticar o dom da paciência, saber esperar. Eu acho assim, a gente começa lá de baixo. Eu comecei como auxiliar de escritório, então eu digo o dom da paciência porque eu esperei vinte anos pra conseguir uma promoção e chegar naquele lugar que eu achava que eu queria chegar, que era minha meta: ser secretária de diretoria. Hoje em dia, a moçada começa um trabalho [e] já quer ser gerente, não tem paciência, não se dedica. A pessoa, além de não ter paciência, não quer começar de baixo e não quer aprender de baixo, então não pode ser um bom executivo, uma boa executiva, se não teve as experiências anteriores lá atrás. É que nem escola, você começa no bê-a-bá, não adianta você querer ir de trás pra frente que esse negócio não vai dar certo. 

Acho que pra mim, pessoalmente, na Avon, cada dia foi um dia de um aprendizado diferente. Entre alegrias e tristezas, às vezes a gente espera por uma coisa que não acontece, te decepciona, mas no final o positivo ganha porque acho que devo muito do ser humano que sou hoje a duas coisas: ao berço que eu tive em casa… Eu não tive escolas tão chiques e importantes na minha vida, mas acho que o aprendizado que veio dos meus pais, da religião, com tudo que eu vivi dentro da Avon, esses pontos todos fizeram de mim uma pessoa melhor. Acho que você tem que ter uma dose… A paciência é um ponto, mas a abnegação também é outro e você não pode desistir nunca. Se alguma coisa que você queria não aconteceu é porque você não está pronto ainda, entendeu? Você tem que melhorar a cada dia pra você chegar, você mesmo tem que autoanalisar e ver o que está faltando, aparar arestas pra você chegar onde você quer, e não é pisando em cima dos outros. Você chega lá sim, demora mais um pouco, mas com honestidade. Com trabalho duro, com amor, com dedicação que você chega lá.

 

P/1 - E o que você acha da Avon estar resgatando seus cinquenta anos aqui nesse projeto?

 

R - Maior orgulho. (risos) Eu acho que é muito bacana. A Avon fez, por causa dessa comemoração dos cinquenta anos, um resgate lindo. Eu não sei se alguém já contou pra vocês, mas foi assim: pessoas que saíram há muito tempo e que não tinham tido a oportunidade de ter mais um contato com a Avon; nem visitar a Avon, nem nada. Ela resgatou ex-presidentes, ex-executivos, ex-colegas da embalagem, ex-colegas da expedição. Mesclou essa turma toda e fez um evento por ocasião desses cinquenta anos que foi a coisa mais linda. Foi uma choradeira, todo mundo ficou superemocionado, e eu tive a honra de fazer parte, ser convidada pra fazer parte desse evento. 

Acho que o senhor Luís Felipe, que é o atual presidente… Se alguém havia deixado a empresa com alguma mágoa, com algum sentimento não muito bom, com essa atitude da Avon isso tudo acho que ficou pro passado, foi esquecido, porque houve um resgate muito bonito. E não precisou ser uma festa de gastar dinheiro, não foi nada disso. Foi uma palestra no auditório, mostrou o que a Avon tem feito, onde começou, onde está; um almoço normal no restaurante, todo mundo junto, e um kit depois de agradecimento que foi uma surpresa, porque todo mundo já era da Avon. Um kit muito bem feito, muito bem embalado, um vídeo, depois, de presente pra gente, um CD da história do que aconteceu. 

Eu esperava que isso um dia acontecesse. Acho que a gente não tem que sair de uma empresa guardando mágoas em nenhuma circunstância. Se isso aconteceu com alguém no passado, essa atitude, esse momento do resgate nesses cinquenta anos foi muito expressivo. Ele foi muito feliz, deixou muita gente contente, então eu acho que essa comemoração foi muito legal também por causa disso. Tem muitas outras coisas, mas também por causa disso.

 

P/1 – E o que você achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Eu me senti lisonjeada porque não esperava que fosse fazer parte disso. Achei que seriam umas fotos, que a gente ia trazer algumas fotos pra vocês. De alguma maneira montar algum trabalho pra fazer parte da história da Avon, mas jamais pensei que ia ter essa gravação nesses moldes. Agradeço muito a oportunidade, foi muito bonito. Não sei no que vai dar, mas espero que vocês gostem um pouco dessa história. (risos)

 

P/1 – Você quer falar de mais algum assunto que eu não perguntei?

 

R – Acho que a gente cobriu todos os campos, até onde… Uma coisa que também - eu não sei em que momento possa entrar isso… A Avon foi uma das primeiras empresas, não sei se alguém já falou, que inaugurou um berçário dentro do local de trabalho. Acho que isso é um outro ponto de grande orgulho, porque esse berçário foi alvo de muitas reportagens pela mídia, mas o mais importante foi a tranquilidade que trouxe pras funcionárias poderem trabalhar em paz e continuar amamentando seus filhos lá dentro. O tratamento que esses bebês recebem lá, e essas mães não têm que pagar nem um tostão por isso, é uma outra grande benção dentro da empresa.

 

P/1 – Tá certo. Então em nome da Avon e do Museu da Pessoa agradecemos a sua participação aqui.

 

R – Eu que agradeço.

 

P/1 – Muito obrigada.





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