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História

Evelyn: a bibliotecária do Aché

História de: Evelyn Biguetti Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2021

Sinopse

Evelyn fala da história de sua família; conta sobre alguns dos empregos que teve ao longo da vida, sobre sua admissão na Aché e sua rotina e atuação na empresa.

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História completa

P/1 – Então, Evelyn, para começar eu gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento. 
R – Meu nome é Evelyn Biguetti Pereira, meu dia de nascimento é 29 de março de 1956. 
P/1 – Em que lugar você nasceu? 
R – Eu nasci em São Paulo, no bairro da Penha. 
P/1- E toda a sua família é daqui de São Paulo? Você sabe um pouco da origem? 
R – O meu lado paterno, são italianos, tanto avô e avó. O meu avô de Ribeirão Preto conta que viveu a maior parte da vida lá. E, inclusive, eu estive lá agora, conheci o Museu do Imigrante e eu tive curiosidade de... Lá tem um computador onde, você colocando o nome da família, sai se ela foi registrada como imigrante - porque é uma família de imigrantes - e apareceu o meu sobrenome, que é Biguetti. E o meu avô sempre dizia que ele tinha nascido em Ribeirão Preto, e lá consta que ele veio recém-nascido para cá. Mas eu ainda não tive oportunidade de ir, porque é durante a semana que tem a documentação, deve ter o registro do nascimento para ver e eu fiquei curiosa para saber disso. 
P/1 – E você sabe quando é que foi isso? Quando eles vieram para cá? 
R – 1800 e alguma coisa, eu não tenho o dado certo. E agora, o lado da minha mãe: são portugueses por parte de avô, e de avó são alemães. A minha avó, inclusive, veio ela e a irmã sozinhas para tentarem a vida aqui. E meu avô português. Então é alemão, português e italiano, uma mistura só [risos]. 
P/1 – Como a maior parte dos paulistas e paulistanos, né? 
R – É. Então, e aí o meu avô eu acredito que veio para São Paulo, conheceu minha avó, então todos se... A minha avó é de Ribeirão Pires, e o meu avô é de Ribeirão Preto. Para o lado da minha mãe é sempre São Paulo. E aí sempre moramos em São Paulo. 
P/1 – E como é que você chega no Aché, Evelyn? Como é que foi a sua entrada, quando isso aconteceu? 
R – Ah, o Aché é uma coisa assim... Eu até me emociono, porque a gente fica pensando como que aconteceu tudo, né? Bom, eu sempre fui.. há 25 anos, 20 anos, que eu trabalho como bibliotecária, e trabalhando naquele serviço público que você, aquela coisa maçante, que não sai daquilo, é uma coisa assim, só fofocas, e quem faz menos, quem faz mais. E você acaba vendo que você está regredindo, que: “Será que a sua profissão é só isso?”. Então eu... Bom, aí eu fui cortada, a gente foi cortada, entrou o governo do Covas, sempre aquela coisa de política mesmo, né? O que circulava, o envolvimento todo é sempre em cima da política, não é o profissional, o que o profissional traz, as características, não, é sempre... Virava, virava, caía na política. Então, quando entrou, que mudou o PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro] do Orestes Quércia, que foi o quem fez o Memorial? 
P/1 – Foi. 
R – É isso que ele fala. Eu trabalhava no Memorial da América Latina, então sempre foi aquela rixa, aquela coisa: “Como? Não fez aquele monumento?”. Toda aquela coisa, controvérsias. Então, quando entrou o Covas, aí começaram os cortes, foi tendo corte, corte. Então a gente estava esperando - a qualquer momento - que fosse acontecer isso. E aí chega a biblioteca, o meu setor todo foi cortado, e a gente sai achando que vai ser independente, que vai receber um dinheiro e: “Nossa, nunca mais eu vou ser empregada...”. Aquela reviravolta. E fui trabalhar com transporte escolar, falei: “Eu não quero mais ser profissional, porque bibliotecária não tem nada a ver...”. Mas, acho que está no sangue, né? E trabalhando já, depois de três anos no transporte, eu voltei a trabalhar em biblioteca. Eu arrumei um trabalho de poucos dias, então eu associava tanto o transporte, não deu para largar nem um nem outro, e eu ficava com a biblioteca. 
P/1 – Mas em que lugar você estava trabalhando? 
R – Aí, o transporte, perto de casa. E a escola foi aqui em Guarulhos, no Colégio Virgo Potens. Eu acho que eu tenho alguma coisa aqui em Guarulhos [risos], porque eu nasci na Penha, morei aqui durante 30 anos, e casei e voltei para a Penha. A linha que eu comprei de - a gente compra linha escolar - a perua, era daqui de Guarulhos, aí consegui ir para a Penha. Depois arrumei o emprego aqui, e voltei para cá, nesse colégio [risos]. E tentando assim, sempre eu apresentava um projeto nas escolas, porque eu queria conciliar. Assim, como eu estava nesse colégio, o restante dos dias completar para que eu pudesse ficar com o meu filho num período assim, ficar mais em casa, e trabalhar nessa área de bibliotecária que... Quando nesse colégio, eu comecei a ver que eu gostava da profissão, e que eu comecei a crescer na minha profissão. Então eu falei: “Não, espera um pouco, então não é minha profissão, não sou eu”. Era onde eu estava, o sistema, porque lá sozinha eu fui criando, fui adaptando, fui implantando coisas, nunca teve bibliotecário. E fui crescendo, fui vendo que foi tudo crescendo, tanto o trabalho como uma realização que eu fui alcançando. Eu ia nas escolas, mostrava o meu projeto, mas aí as escolas gostavam, mas eles não queriam investir nesse trabalho. E foi indo, foi indo. E um dia eu estava fazendo uma pesquisa para o meu filho, na Internet, e eu via a palavra emprego, já estava lá procurando... Aí eu vejo emprego, dentro do site da pesquisa tinha a Catho, que eles fazem a propaganda. Eu falei: “Deixa eu ver o que é que tem a Catho”. Que eu já conhecia, achava um trabalho bonito o que eles fazem, de colocação, de aperfeiçoamento do profissional. Aí eu fui, tinham quatro vagas de bibliotecária. Aí eu falei: “Putz, será que eu vou voltar a trabalhar oito horas?”. Porque é caro trabalhar por conta própria, mas é uma delícia porque você tem o seu horário. E aí eu estava com o Lucas, eu falei: “E aí, Lucas? O que você acha de eu voltar a trabalhar 8 horas?”. E ele: “Ah, mãe, vai. Porque olha, eu não aguento mais essa vida, porque é uma vida muito corrida”. Porque é horário que você tem. Então ele me acompanhava, porque eu que levava ele para a escola, ele tinha que chegar uma hora mais cedo, tinha que almoçar correndo... “Mãe, vai, que eu já não aguento mais”. E como ele já estava numa idade de dez anos, eu falei: “Ah, já está diferente de cinco anos atrás”. E falei: “Ah, então vamos ver”. E mandei. Mandei o currículo pela Internet, e eles me chamaram, me chamaram. Fiz teste, entrevista, assim, em paralelo, em dois lugares, aqui e na Racine. Aí fui, fui fazendo entrevista, me chamaram, quando cheguei aqui tinham quatro bibliotecários, e eu falei: “Nossa! Não pensei que fosse ter tantos concorrentes!” [risos]. E eu informada que ainda tinha um outro grupo que ia ser entrevistado um dia depois. E na entrevista, não foi passado em nenhum momento qual o perfil que eles queriam, se era recém formado, se já estava na área, sabe? Nada. E eu tinha trazido tudo o que eu tinha feito, e eu também trabalhei num condomínio, eu também organizei uma biblioteca de um condomínio, então eu também lá implantei um sistema, aprendi o Access. Assim, tive que aprender, porque eu falei: “Nossa, agora onde que eu vou por toda essa relação desses livros? Vou ter que informatizar”. E não tinha nada, então fui atrás, arrumei, fiz o programa do Access e implantei. Então, tudo isso, eu falei: “Bom...”. Eu fotografava a biblioteca como estava e como ficou depois de organizada, e trouxe tudo. Quando eu cheguei na entrevista, eu fui a última, porque foi assim, fala primeiro você e tal, e eu fui a última. E eles falavam: “Eu faço tal, tal, tal...”. E eu falei assim: “E agora o que é que eu faço? Abro a bolsa e mostro tudo?”. Porque eu fiquei, sabe, eu achei injusto perante os outros. Mas eu falei: “Bom, seja o que Deus quiser, eu trouxe aqui, eu tenho que mostrar, né?”. Porque é concorrência. Aí mostrei todo o material e a Elaine, que fez a entrevista, ela é muito assim, uma profissional… ela não passava expressão nenhuma, né? E você assim, fala: “Ai, meu Deus do céu, será que deu certo?”. E passou. Aí passaram umas duas semanas, me chamaram. Aí eu falei: “Bom, enquanto estão chamando, está indo”. Se bem que ela avisou: “No final, sendo escolhida ou não, a gente avisa”. Então tá, aí ela me chamou, fez uma outra entrevista. Aí foi com a gerente, né? Ela deve ter selecionado algumas pessoas, das oito, para fazer a entrevista. Aí fiz a entrevista, tal. Também passou outros dias, e ela disse... Aí ligaram dizendo para eu trazer uma proposta de como eu organizaria a biblioteca. Falei: “Bom, então está indo, né? Não sei quantos ainda têm, mas ainda está indo”. E vim, mostrei a proposta, aí também passaram-se uns dias. Aí, eu nunca esqueço, foi numa sexta-feira, véspera do Dia das Mães... Chegou na sexta-feira, eu cheguei em casa umas seis horas, que eu até fui visitar uma biblioteca, um sistema que eles tinham, fui visitar uma amiga que trabalhava na biblioteca. Quando chego, tinha um recado: “Evelyn, aqui é a Elaine do Aché, favor entrar em contato”. Gente, e aí? Podia ser sim, podia ser não, porque ela avisou que ia ser sim ou não, né? Ah, eu ouvi aquela gravação na secretária o final de semana inteirinho, para ver se eu puxava, assim, um som de que tinha sido ok. Nada. Quando chegou na segunda, sete e meia da manhã, eu já liguei para cá. Nossa, quando ela falou eu pulava na cama, empurrava o meu marido: “Olha, eu fui escolhida, eu fui escolhida!”. O Lucas já estava meio sabendo, acordei o Lucas: “Lucas, eu fui escolhida!”. Foi uma alegria, né? Ai, eu me emociono. Bom, aí eu fiz a entrevista, tal, passei. Mas desde o início foi dito que eu não ia ser contratada, porque eles, sei lá, passaram uns profissionais que eles não ficaram contentes, eu não sei bem direito, e eles não queriam efetivar, cometer o mesmo erro. Então eu teria que passar por seis meses e ver se batia a experiência, e eles me efetivariam, quer dizer, o primeiro desafio. 
P/1 – Você acabou sendo efetivada, mas antes eu queria saber como é que você encontrou a biblioteca? Como é que estava organizada? 
R – Ah, ela não tinha nada. Ela estava com os livros, tinha alguns registros, outros tinham só etiqueta, porque você olhando estava tudo com etiqueta de localização do livro, só que ele não estava registrado no computador, não tinha sido cadastrado. Fizeram só a etiqueta, assim: “Vamos fazer a etiqueta para dizer que está pronto”. Sei lá qual que foi a intenção. E para descobrir tudo isso? 
P/1 – Você sabia já como estava funcionando a biblioteca? 
R – Não, não. Porque era assim: ficou parada uns meses, quando o último bibliotecário saiu. Ficou parada um tempo, os funcionários eram atendidos pelo pessoal do RH. Eles faziam uma escala só no horário de almoço, então emprestavam. Então onde sabiam que estava o material, emprestavam - o resto não tinha como. E, assim, com fichas, então tinha um programa que não foi testado, só cadastrado. Era um programa que, assim, não tinha sido testado nada, só o cadastro. Então eu fui aos poucos. Eu ia fuçando, eu cadastrava um livro, eu falava: “Quero ver, recuperar por título”. Não tinha. Tinha sido proposto, mas não estava pronto. Aí eu ligava, porque foi o André quem fez o programa: “André, vamos ver se a gente recupera por título”. E fui arrumando. Primeiro dia que eu… porque a biblioteca abria terça e sexta, só. Porque isso era para não ficar puxado para quem estava, né? O primeiro dia foi de integração, na segunda. Na terça-feira era o dia que abria... Aí abriram, meio dia abriu a porta assim [risos]. O pessoal começou a vir e eu fiquei fazendo empréstimo, eu fiquei sozinha! Até falei: “Nossa, antigamente... Não é? Não ficava alguém ajudando?”. Hoje em dia, não. “Você não é profissional? Então, você...”. E eu dei conta, né? Dei conta, tal, fui me identificando muito com o pessoal. E aí, depois de um mês, a Cláudia, que era a gerente, falou para mim: “Olha, um desafio para você, tem bibliotecário, tem biblioteca, por que não abrir todos os dias? E aí?”. Eu falei: “Meu deus do céu, eu tenho seis meses para cadastrar todos esses livros, o programa não está pronto, cheio de falhas...”. Mas eu falei: “Eu vou ter que... Já consegui o primeiro desafio, vou conseguir o segundo”. De ter entrado aqui, fora do mercado, sei lá. Foi uma conquista tão grande essa entrada, porque eu.... foram várias conquistas, eu estava “fora do mercado”, porque eu estava mais atualizada do que quando eu estava trabalhando. Engraçado isso, né? Porque eu não parei de fazer cursos, né? E gente jovem, nossa! Gente jovem sabe tudo, né? Então foram umas coisas que, quando eu entrei, eu falei: “Espera aí.”. Eu comecei a me dar valor, na minha profissão, na minha idade, um monte de coisas que se fala: “Ah, você não vai conseguir mais...”. Você ouve muito, né? O meu pai mesmo falava: “Vai voltar, como que você vai voltar? Você não tem mais 20 anos”. Não é isso mas, a gente tem uns preconceitos que não é mais assim. Bom, deixa eu voltar lá no computador... 
P/1 – Foram sendo implantados esses outros programas? 
R – É, e eu fui tentando, tal, fui atendendo, acho que fui atendendo. Fui atendendo, fui atendendo que, moral da história, fui efetivada. Foram seis meses, assim, seis séculos [risos]. 
P/1 – De muito trabalho, né? R - De muito trabalho, aquela expectativa de que: “E aí, será? Será?”. Porque eu sou uma pessoa muito pé no chão. Não fico assim: “Ah, porque ela falou, elogiou, eu vou ser efetivada”. Não. Eu acreditaria na hora que fosse na minha carteira, registrada, entendeu? Por mais que me elogiassem, não. Podia ter, não sei, alguma coisa. Não que eu não fosse competente ou alguma coisa tipo: “Olha, não vai dar para te efetivar”. Então eu só estava esperando esse momento. Aí fui efetivada em novembro, então foram outros desafios que eu conquistei. 
P/1 – E como é o dia a dia hoje na biblioteca? 
R – Eu agora estou há um ano aqui. Eu mudei de gerência, fui para um outro setor que é o de Comunicação e é uma coisa assim... Porque o RH era uma coisa assim meio, como é que eu vou dizer? O serviço de RH é um treinamento, tudo voltado ao desenvolvimento, ao treinamento, uma coisa restrita. Assuntos Corporativos já abrange a empresa, você tem que cobrir, não que o RH não cobrisse, mas, você entendeu? Ele cobre em todos os aspectos. Porque o RH, às vezes eu queria fazer um clipping, queria mandar uma... “Ah, não, mas isso é Assuntos Corporativos”. Então eu tinha que ficar. Então quando eu fui para lá, eu falei: “Não, agora eu estou livre, né? Eu posso comunicar esse, eu posso informar aquele, ‘olha, essa notícia é para fulano...’” Sem esbarrar em ninguém. Acho que aí fluiu, cresceu. Então é uma coisa que eu estou sempre querendo criar, sempre indo apresentar um trabalho, mais em função do funcionário, de qualquer forma deixar o funcionário atualizado. Tanto ele como estudante, como um curioso, em qualquer tipo de faixa de idade, estar informando o funcionário. Trazer, assim, a biblioteca para o funcionário como uma necessidade, um lazer, todos os pontos que eu possa trazer o funcionário eu estou tentando desenvolver. 
P/1 – A biblioteca é um serviço para os funcionários do Aché? 
R – Para os funcionários. Biblioteca geral, ela não é específica, ela é geral. 
P/1 – O acervo hoje como que é? Como é que ele está organizado? 
R – Ele está por assunto, todos os assuntos, todas as áreas. Temos periódicos, temos vídeos. E indo para a Comunicação, para o Assuntos Corporativos, a gente está comprando livros de todas as áreas. Coisa que antes era só o treinamento. Então, é “Harry Potter”, “O Senhor dos Anéis”, isso também atraiu mais o funcionário. Eu estou passando para, eu uso mural, e aí volta lá para o RH: “Não, mas o mural não dá para informar tanta coisa”. Eu posso informar no mural o que está acontecendo, estou sempre trocando essa informação com o funcionário. 
P/1 – E além desse acervo que você falou de vídeo, de livros, revistas, periódicos, ainda tem pesquisa na Internet? 
R – Tem, agora com a Internet. Você vê? Tudo está criando, tudo está sendo implantando. 
P/1 – Somando. 
R – É. Então tem Internet agora, para o funcionário que... Nossa, o que eles adoraram. Porque eles sempre me perguntavam: “Moça, não tem uma Internet? Não tem uma Internet?”. Então, a consulta também é constante, a “filinha” ali, constantemente [risos]. 
P/1 – E você viu diferença no funcionário, desse tempo que você está? 
R – Ah, sim. Desde que eu entrei assim, no meu profissionalismo? 
P/1 – É. 
R – Ah, sim, com certeza. Inclusive, eu não sei, o meu jeito, quando eu entrei, o pessoal me via, falava assim, por exemplo, no café da manhã, me via e falava assim: “Ai, o livro que eu preciso devolver!”. Eu falava assim: “Gente, não me vejam como cobrador, né?”. Eu acho assim: se você está atrasado, e não tem reserva, vai e renova o livro. Aí eu fui descobrindo que os outros bibliotecários suspendiam, podia ficar três meses sem retirar livro, umas coisas assim, muito forte. E que eu não adaptei isso, adotei esse sistema e ninguém está devendo, porque uma semana, coisa assim de nem ter tempo de vir aqui. Como também renovar livro é só telefonar, não precisa vir até aqui, às vezes: “Puxa, mas dentro da empresa não dá tempo?”. Às vezes não dá, porque tem que almoçar e ir no banco, tal, ambulatório, sei lá. Então, tudo que eu puder fazer para facilitar para o funcionário, eu facilito. Então pode telefonar para renovar, para reservar, para retirar o livro, como também foram feitas pastas públicas pelo Outlook, pelo e-mail, que ele tem como saber o que a gente tem na biblioteca. Quer dizer, por lá ele já consulta, já pede por telefone, quer dizer, tudo virtual. Quanto mais... Tem que ser. 
P/1 – Que bacana. 
R – É, porque biblioteca não é ficar sentada e: “Deixa eu ver... O livro lá está atrasado? Ai, olha, me devolve o livro!”. Castigo. A biblioteca é... O que o funcionário, o usuário está pensando, ele está necessitando, ele já tem que ter em mãos. Facilitar a melhor forma possível de ele ter, ainda mais com todos esses recursos que a gente tem agora, Internet, toda essa informatização. Não tem mais essa coisa de: “Ah, está atrasado, multa.” Eu acho que não. 
P/1 – Você acha que a frequência aumentou? 
R – Aumentou. Cada espaço, assim, eu sinto o aumento. Pessoas que... E eu estou sempre vigiando. Por exemplo, tem um moço no ônibus que eu vou, ele começou a me cumprimentar. Eu comecei a notar que todo mundo desce e: “Tchau, Evelyn, tchau, Evelyn, tchau Evelyn...”. Ele vinha atrás: “Tchau, Evelyn”. Eu olhei assim: “Ué, esse menino não é da biblioteca, será que ele sabe que tem biblioteca aqui?”. E aí, comecei. Aí, tem um moço que frequenta a biblioteca e eu via que ele conversava, eu falei... Ai, como ele chama? André. “André, esse moço conhece a biblioteca? Dá uma pesquisada assim, se ele conhece...”. Porque também, nada intimando, né? De forma nenhuma, senão você não consegue nada. Depois de três dias, ele aparece lá [risos]: “Oi!”. Bem assim, como se não estivesse sabendo de nada, porque não pode intimidar, o ser humano é muito tímido, então não pode intimidar. Está lá, leva livro, faz pesquisa, ele pede às vezes para mim pesquisar alguma coisa, para adiantar, né? Está tranquilo. Isso para mim é muito gratificante, porque está tendo retorno. 
P/1 – E, além dessa, alguma história marcante nesse último ano? 
R – Ai, deixa eu ver agora, de momento, coisas assim. De marcante não, mas tem as características de cada funcionário. Esse, por exemplo, que eu falei. Um outro que... Tem pessoas muito sistemáticas, porque a gente acaba conhecendo todo mundo. É lógico que tem que ter um controle, porque senão é muita gente, não dá. Mas eu sei, de cada um que vai levar o material, quem vai trazer e quem vai atrasar, quem vai trazer pontualmente, a gente sabe. Por exemplo, tem um funcionário que, quando eu fui abrir a biblioteca - abria terça e sexta, e, depois de um mês, começou a abrir todos os dias - e eu fiz uma chamada: “Faltam quatro dias, faltam três dias”. Fiz o maior movimento, aqui na frente da biblioteca, tal. Ainda hoje, esse funcionário vem e fala assim para mim: “Ai, sabe, eu trouxe a revista ontem, mas a biblioteca estava fechada.” Eu morro de rir, porque eu falo assim: “Ele não viu essa informação”. Às vezes ele fala: “Ah, eu esqueci.” Quando aconteceu isso a primeira vez, eu falei assim: “Você não viu que teve as chamadas, que a biblioteca ia ser aberta?”. “Não”. “Você não leu no mural que...?”. Não sei que, não sei que... “Não.” Ele trouxe, aqui fora estava ainda o cartaz, tinha sido recente, eu falei: “Você não leu esse cartaz aqui na entrada?”. Ele falou: “Não” [risos]. Você entende? Então, você está conhecendo as pessoas, você entende, dá para… não sei, a gente entende. Não vai mudar, não vai mudar. 
P/1 – Vai virando uma especialista do ser humano, né? 
R – É. Ai, é muito... é interessante, é curioso você conhecer. Eu tenho essa facilidade de, quando eu estou conversando com a pessoa, de passar isso, né? Não simplesmente: “Ah, tá, tá, tá.” Não, eu presto atenção nos detalhes... E eu queria fazer antropologia, acho que talvez seja isso uma das coisas, e de conhecer mesmo. Isso é muito importante, porque você conhecendo você sabe que não é sacanagem, você sabe que não é má fé. Tem má fé, tem coisa assim de maldade, mas você conhecendo, você sabe como agir. 
P/1 – E conquista, né? 
R – É, e conquista. E a gente ouve comentários, no início: “Ah, a bibliotecária que estava aqui...” [risos]. Até achei engraçado, e é chato falar do profissional, mas eles vinham e falavam assim: “Nossa, Evelyn, você é tão diferente”. E eu falei: “Por quê?” “Ah, porque a gente chegava aqui - ‘Tem o livro tal?’ E a bibliotecária - ‘Ahn?’ E você não, você está sempre...” . “Ah, sim...”. Isso é radar 360, porque eu já sei quem está sentado lá, sabe, estou sempre, eu sei as pessoas que entram e saem. Tento, né? Não sou Deus, nem nada, mas eu estou sempre ligada, às vezes eu estou atendendo eu ouço “Será que tem o livro tal, não sei quê...”. Eu acabo de atender e vou lá, falo: “Olha, você estava perguntando...”. Nossa, eu acho, eu gostaria de ser atendida desse jeito, então eu faço desse jeito. É como eu... Uma vez eu vi num curso que o dono da TAM tinha um atendimento especial, ele sentava com o cliente, então eu falei assim: “Então a estratégia é o dono da TAM”. Conhecer, você estar perto do seu público, né? 
P/1 – Sem dúvida. 
R – Não tem melhor forma de você conhecer e conquistar, né? 
P/1 – É verdade. 
R – É igual conquistar, né? 
P/1 – Bom, a gente podia ficar conversando o dia inteiro, Evelyn [risos]! Mas, para terminar, eu queria saber o que você achou de ter contado um pouquinho da tua história? 
R – Ah, eu acho bom. Primeiro porque esse trabalho que vocês fazem, desde que eu tomei conhecimento, primeiro o nome, né? Museu da Pessoa, aquilo bateu, assim. Muito interessante, uma coisa assim... que tem a documentação, lógico, eu como bibliotecária... Mas a declaração da pessoa, aquela coisa que nunca vai ser escrita, por mais que você documente, essa coisa de trocar, isso é maravilhoso, você registrar isso, né? E é um a mais para formar uma memória, eu acho que o ítem aí que vocês pegaram, que é o depoimento de pessoas, nossa, acrescentou demais numa memória. E só tenho a parabenizar a todos vocês, né? 
P/1 – Tá, muito obrigada, Evelyn. Foi ótima, viu? 
-------------------------------- Fim da entrevista --------------------------------

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