Busca avançada



Criar

História

Eu vou, a lembrança fica

História de: Antonio Caetano de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/05/2020

Sinopse

Nasceu em Potengi, Ceará. Pais também nasceram em Potengi, pai agricultor. Trabalhou na roça, bar, loja de tecidos, secos e molhados etc. Aos 18 anos decidiu ir para Paraná e voltou para cidade natal dois anos depois. Em 1972, já casado foi para São Paulo. Conta as diferenças do interior do Ceará e São Paulo. Em São Paulo, começou trabalhando como cobrador de ônibus, mas tinha o desejo de ser ascensorista, profissão que exerceu na Votorantim até sua aposentadoria. 

Tags

História completa

P/1 – Então, seu Toninho, eu queria começar nossa entrevista o senhor dizendo pra gente, seu nome completo, local e data de nascimento.



R – O local onde eu moro?



P/1 – Primeiro seu nome completo, o local  onde o senhor nasceu e a data do seu nascimento.



R – Meu nome é Antonio Caetano de Oliveira, nasci em Potengi, Ceará, e nasci dia 30 de abril de 1940.



P/1 – E o nome do seu pai?



R – Antonio Caetano de Oliveira.



P/1 – E o nome da sua mãe?



R – Maria Pereira de Oliveira.



P/1 – E o que seu pai fazia?



R – Agricultor, trabalhava na roça.



P/1 – Lá no Ceará?



R – É, no Ceará.



P/1 – E seu pai e sua mãe nasceram na mesma cidade?



R – Na mesma cidade, Potengi.



P/1 – E fala um pouquinho dessa cidade, Potengi, pra gente?



R – Bom, na época, quando eu vim embora de lá era uma cidade pequena, tinha prefeitura, não tinha hospital e o pessoal era pouquinho, era uma cidade pequena, entendeu? Mas era muito bom, eu trabalhei na roça muito tempo e trabalhei em loja de tecido, balcão, né. Depois passei pra secos e molhados, também balcão, uns dois anos, depois passei a trabalhar em bar, trabalhei uns dois anos e continuava trabalhando costurando, também costurava, quando eu era solteiro. Aí eu me casei, com uma moça, era vizinha, uns seis quilômetros da cidade e fui morar com meu sogro.



P/1 – Isso lá em Potengi?



R – É em Potengi



P/1 – Potengi, fica, é bem no interior do Ceará?



R – É interior, bem interior que é vizinho de Pernambuco, é divisa com Pernambuco. A gente lá da minha cidade ia à feira em Araripina, em Pernambuco, e aí voltava no mesmo dia. É perto do Crato, são 22 quilômetros do Crato, Juazeiro, sabe? Juazeiro do Padre Cícero, já ouviu falar?



P/1 – Já.



R – Muito pertinho, cidade boa, Crato, Juazeiro. Juazeiro é bem maior do que o Crato, né, Crato é uma cidade bonita, rica, mas é pequena por causa que ela fica no meio, entre duas Serras, a Serra do Araripe e a outra serra, que faz divisa com Pernambuco… 



P/1 – O senhor disse que costurava, o senhor aprendeu a costurar com quem?



R – Aprendi. Porque eu tinha vontade, achava bonito, trabalhei muito tempo costurando e vim parar, depois que vim pra São Paulo.



P/1 – O que o senhor fazia na costura?



R – Fazia calça e camisa, eu trabalhei muito tempo com um senhor lá. Eu trabalhava assim, eu trabalhava de operário, só costurava, eu não cortava. Então, eu fazia seis camisas, quando era camisa, por dia, dava pronta, casa, botão e passada e dobrada no lugar e calça eu fazia três, dava pronta também.



P/1 – E o senhor trabalhou também em secos e molhados?



R – Trabalhei, em Balcão



P/1 – E como era essa loja que o senhor trabalhou?



R – É, lá a gente chama bodega. Era tipo um mercadinho, entendeu, de tudo tem pra vender, arroz, feijão, açúcar. Lá no Norte usava muito, lá no interior, querosene, essas coisa assim. Primeiro eu trabalhei em loja de tecido, assim, tinha as peças de tecido nas prateleiras, chegava o freguês: “Dá aquele, quero tantos metros daquele pano.” Tirava, puxava o pano: “Ah! Esse eu não quero, me dá aquela lá.” Eu ia fazendo aquilo lá: “Ah! Eu não me agradei, não, deixa pra lá.” Dobrava, eu colocava tudo no lugar de novo, chegava outro freguês. Trabalhei uns dois anos, depois comecei trabalhar nos secos e molhados que é tipo, mercado aqui em São Paulo.



P/1 – Então era grande a cidade?



R – Não era muito grande, agora tá grande, já cresceu muito, mas tinha tudo isso. Não é mercado como aqui, supermercado, mas tinha de tudo. Aí depois saí, fui trabalhar em bar, aí era pra vender pinga, cerveja, essas coisas, né.



P/1 – E na (toca?) o que o seu pai plantava, quando o senhor trabalhou também na roça?

 

R – Lá na nossa região era milho, feijão e algodão, só isso aí. Arroz não dava, na nossa região não dava arroz.



P/1 – E tinha muito problema de seca, seu Toninho?



R – Tinha. Em 1958, a gente foi trabalhar em estrada, sabe, cavando barro e fazendo estrada, a seca foi tão grande, que não teve nada, não deu nada.



P/1 – Fazendo estrada pro governo?



R – É, pro governo, só que a gente não ganhava dinheiro, só ganhava mantimento, só mantimento, a gente não via dinheiro. Trabalhei uns seis meses, porque a família era grande, né, nós éramos sete homens e três mulher.



P/1 – Quatorze filhos?



R – Era dez filhos que ficaram vivo e morreu quatro, mas era em 14 irmãos. E agora nós somos em nove ainda, porque morreu uma irmã minha, morreu em 1986.



P/1 – E todo mundo trabalhava?



R – Todo mundo trabalhava, trabalhava na roça. Só eu que era aquela loucura. Bom, eu gostava sempre de ficar no meio de mais gente, pessoal que tava na roça, eles não gostavam muito, não. Aí saí fora. Com 18 anos vim pro Paraná, fiquei dois anos no Paraná, aí voltei, aí foi a época que eu fui trabalhar costurando.



P/1 – Então, eu ia lhe perguntar isso, o senhor resolveu sair da sua cidade com que idade? Com 18 anos?



R – Não, com 18 anos eu saí e daí voltei. Fiquei dois anos no Paraná e voltei com 20 anos, fiquei dez anos lá, me casei, me casei em 1968, quando foi em 1972 vim embora pra São Paulo.



P/1 – E quando o senhor foi pro Paraná o que o senhor fez lá?

 

R – Eu trabalhava na roça também, colhia café, tudo. O serviço de roça eu fazia tudo, fazia roçada, derrubada, fazia tudo.



P/1 – Pra que lugar do Paraná o senhor foi?



R – Eu fui pra Jandaia do Sul, perto de Maringá, depois de Apucarana.



P/1 – Daí voltou pra sua cidade?



R – Voltei pro Ceará de novo. Fiquei dez anos por lá.



P/1 – E aí, como é que o senhor conheceu sua esposa?



R – Trabalhando na roça. Eles eram da roça, era um pessoal bem de vida, era pessoal de fazendeiro, pessoal político. Eu, a minha família era pobre, não tinha nem sapato pra calçar. Mas eu trabalhava lá na cidade: “Vamo em tal lugar trabalhar?” Aí fomos, aí conheci ela, ela gostava muito de trabalhar na roça, aí conheci ela, mas ficou, talvez, mais de ano sem eu ver ela. Depois quando veio o mês de março, ela foi na cidade com uma tia pra extrair um dente, aí encontrei com ela, aí ela me convidou pra ir na casa dela. Era seis quilômetro lá pra casa dela, eu fui. Aí fiquei noivo em junho e me casei em dezembro.



P/1 – Nossa, que rápido.



R – Rápido, aí ficamos 22 anos, 22 anos casada, dois mês e dois dia, até isso aí eu sei. Ela adoeceu, ficou quase 11 mês internada aqui no hospital das Clínicas e faleceu em 1991, fevereiro de 1991.



P/1 – E o senhor estudou lá mesmo em Potengi, seu Toninho?



R – Quando a gente trabalhava na roça tinha aquelas escolinhas de um mês, dois mês e depois eu fiquei uns mês em Potengi estudando.



P/1 – E como era essa escolinha?



R – A escolinha é assim, vamos supor, eu sei, eu fiz até o primeiro ano, segundo ano, então aquelas crianças, que tinha por lá, a gente ensinava aquilo que a gente sabia. Quando eu me casei, eu morei no Potengi dez meses, uma casa alugada. Aí desocupou uma casa onde meu sogro, que ele tinha uma fazendinha né, desocupou a casa, eu fui morar lá e lá aquela criançada não sabia nem (ensinar?) o nome, eu inventei uma escolinha pra eles.



P/1 – O senhor inventou?



R – É, inventei. Ia lá pra casa, eu tinha quatro cunhadas garotas e tinha as prima e outros garoto mais perto, inventei aquela escolinha e um primo da minha esposa era prefeito da cidade, aí ele foi lá em casa e falou comigo: “Escuta, eu vou abrir uma escola aqui em Alto Alegre (chamava Alto Alegre, né), você vai ser o professor, só que você vai lecionar das sete da manhã às sete da noite. As crianças que aparecer, eu vou lhe pagar 35 cruzeiro (aquela época que era cruzeiro) por mês.” Eu falei: “Zé Tibúrcio, eu não posso fazer isso, porque eu ganho quase um salário costurando nas minhas horas vagas e trabalho na minha roça. Eu vou largar meu serviço, que eu posso ganhar um pouco mais, pra ganhar 35 cruzeiro por mês, com um monte de criança, sem nem saber quantas crianças eu ia, né.” Aí aquela criançada ali aprenderam assinar o nome, né, só que eu gostava de fumar (risos). Aquilo lá ele tinha que ter paciência, era na minha casa, era sempre à noite.



P/1 – Quer dizer que o senhor trabalhava durante o dia e de noite ainda tinha escolinha?



R – Tinha, era de graça, é, só porque eu sempre gostei da criançada, eu disse: “Agora vou ensinar pra eles aprender o nome.”



P/1 – E vocês só ensinavam a escrever ou ensinava outras coisa, seu Toninho?



R – Ensinava escrever, ensinava a ler, fazia o rascunho, que aquela época fazia letra por letra pra cobrir com uma caneta, pra ir pegando prática, né. Aí a gente perguntava que letra era aquela, até que eles aprendiam, como foi nós, quando a gente começou aquela época.



P/1 – E quantas crianças iam lá? O senhor lembra?



R – Era mais ou menos uns dez, mas eu gostava de fazer isso também, tinha aquela alegria, né, eu sempre gostei de criança.



P/1 – E seu Toninho, aí o senhor resolveu mudar pra São Paulo? Voltou pra lá ficou mais um tempo…



R – É, eu me casei em 1968, quando foi em 1972 no fim do ano, aí a gente terminou todo o serviço da roça e não tinha mais o que fazer. Aí eu falei pra minha esposa: “(Zíbia?), acho que eu vou pro Maranhão.” Ela tinha umas irmã lá, que eram bem de vida, até hoje é, né, aí ela falou assim: “Se fosse eu já tinha ido.” Então, meu padrinho de casamento tinha um filho, que queria vir pra São Paulo, só que ele não queria que ele viesse sozinho, ele era de menor, 18 anos, aí ele falou: “Eu te pago a metade da passagem pra você ir pra São Paulo com meu filho.” E eu era louco pra vir pra São Paulo mesmo e eu não tinha com que. Eu não ia vender alguma coisa de casa, deixar a mulher sem nada com três criança já, os três mais velhos nasceram lá. Aí eu digo: “Então eu vou.” Ainda consegui mais seis, tudo mais novo do que eu, viemos pra São Paulo. 



P/1 – Seis pra trazer de lá pra cá?



R – É, viemos tudo junto, chegando aqui, aí cada um tinha um parente, um conhecido aqui e cada um foi pra casa de alguém. Eu deixei a família lá e vim sozinho também, fiquei um ano e dez mês sozinho aqui, depois a minha esposa veio.



P/1 – E era assim mesmo, seu Toninho, as pessoas lá do Ceará queriam mesmo vir pra São Paulo? Como é que era?



R – Era e ainda hoje quer.



P/1 – Por que, seu Toninho? Alguém conta como é que é São Paulo?



R – Não é que conta, é que todo mundo tem aquela ilusão que São Paulo é bom, é bom pra trabalhar, ganha mais, porque, olha o nosso emprego aqui. No meu caso, o meu salário é pouco, ganho 20 reais por dia, lá na roça eu ganho dez real, o dia inteiro trabalhando na roça, serviço pesado, no sol quente, que lá é quente mesmo, descalço, às vezes, até sem camisa, porque não tem uma roupa nem pra trabalhar. É duro a vida de trabalhar lá na roça lá no Norte, não é que nem aqui, aqui quem trabalha na roça tem tudo, tem até o ônibus pra levar lá na roça, lá não, é tudo no chinelo.



P/1 – Vai caminhando?



R – É, caminhando e com a ferramenta nas costas ainda, lá a água tem que levar nas costas, aqui chama moringa, mas lá chama cabaça, tem que levar nas costas, ferramenta, tem tudo, lá tem isso. Então, o pessoal tem aquela ilusão: “Eu vou pra São Paulo ver se eu consigo uma coisa melhor.” Pelo menos trabalhar na sombra. E também o alimento aqui é diferente.



P/1 – Como assim diferente?



R – Porque lá geralmente, 90% do pessoal come feijão com farinha, não tem uma mistura, é muito difícil a mistura, até hoje é difícil. Eu tenho um primo que morava aqui comigo e foi embora pra lá, ele veio agora esses tempo e falou: “Fiquei quatro mês sem comer uma mistura lá, só um feijãozinho com farinha e lá algum dia o arroz.” Aqui não, aqui a pessoa ajuntando latinha, ele consegue arroz, feijão, mistura todo dia, uma roupinha pra trocar todo dia o que você quiser. Lá não, que é isso, tem uma roupa pro ano inteiro pra ir na cidade, aquela roupa lá vai na cidade, lava de novo, guardou, o fim de semana vai de novo com aquela mesma. Sou sincero a falar, eu vim comprar um sapato depois dos meus 18 anos, até meus 18 anos não tinha um sapato pra usar. Eu vejo minhas crianças falar: “Ah! Meu sapato está usado, já usei um mês e preciso comprar outro, um tênis.” Eu digo: “Vocês não sabem, não sabem o sofrimento ainda, vai lá no Norte.” Eles têm vontade de ir, né, pra senhora ver, esses dias eu tava contando, eu tenho uma neta com 3 anos, aquela que tá na foto, aí eu tava cortando as unha ela disse: “Vô, o senhor tem as unhas aleijada.” “Sabe de que? De andar descalço pelas pedras, nas pedras.” Pois ela admirou da minha unha aleijada, menina com 3 anos, eu digo: “Vocês não sabem o que é andar descalço.”



P/1 – E como é que vocês vieram, seu Toninho? Vieram de ônibus?



R – De ônibus, tem ônibus, tem. Já naquele tempo, quando eu vim, em 1960, em janeiro de 1961, já tinha os ônibus, demorava muito. Era quatro, cinco, seis dias pra chegar aqui em São Paulo. Eram uns ônibus pequenos, não tinha estrada naquela época, era tudo estrada de terra, então quando chovia aí ficava, parava meio dia, porque aí não dava pra passar na lama. Estrada de asfalto foi dos anos 1960 pra cá.

 

P/1 – Então o senhor já tinha vindo antes, em São Paulo? 



R – Já, aqui em São Paulo, eu passei fui pro Paraná, passei de passagem, mas meu sonho era voltar e ficar aqui. Voltei em dezembro de 1972 e não voltei mais pra morar lá não, sempre fiquei aqui em São Paulo.



P/1 – Então, aí em 1972 quando o senhor chegou aqui o senhor foi trabalhar no que?



R – Fui trabalhar de cobrador de ônibus, meu primeiro emprego. Trabalhei três meses e 15 dias, eu achava muito ruim, muito ruim, é um serviço muito humilhado, cobrador de ônibus.



P/1 – Por que, seu Toninho?



R – Porque o pessoal quando entra, já olha pra gente pensando: “Vai ficar com o meu troco.” (Risos). E aquele tempo ainda era bom, não é como agora que tem assalto, o pessoal maldoso com a gente, até que aquele tempo era bom, não tinha assalto, tinha reclamação, negócio de troco, que, às vezes, não tinha troco mesmo. Na verdade, não tinha troco, então quando a gente, eu que sou assim, sou cismado. Todo mundo quando entra no ônibus vai passando na catraca, já olha pro cobrador, primeira vez, quando entra na porta já olha pro cobrador, não sei porque. Isso é todo mundo, pode prestar atenção nisso aí, que é dessa maneira. Aí eu: “Não, não vou ficar nesse serviço, não.” Saí, pedi a conta, aí arrumei um serviço de limpeza aqui na Líbero Badaró.



P/1 – O senhor foi morar onde aqui em São Paulo?



R – Quando eu cheguei? Fui morar numa obra aqui no Belém, São José do Belém, aqui no Belenzinho.



P/1 – O senhor conhecia alguém aqui?



R – Tinha, eu tinha uns vizinho, três vizinhos que morava aí e trabalhava numa obra, eles foram me buscar aqui na rodoviária, na Júlio Prestes e me levou pra lá. Aí eu fiquei uns três, quatro meses morando com eles, eles mesmo que arrumaram serviço pra mim. Ah! Eu com 30 anos, eu não tinha feito o alistamento militar, fui fazer aqui, aí eu fiz em dezembro e jurei a Bandeira em março, porque eu era de maior, 30 anos. Só que eu paguei uma multa de 12 cruzeiros na época.



P/1 – Aí então o senhor foi trabalhar num serviço de limpeza?



R – É, trabalhei num serviço de limpeza, trabalhei aqui na Líbero Badaró, trabalhei aqui no conde de Prates, nesse prédio Conde de Prates aqui, aí passei aqui pra, trabalhei seis meses aqui no viaduto Santa Ifigênia, onde tem um Inps [Instituto Nacional de Previdência Social] aqui. Depois passei a trabalhar aqui na João Brícola, na João Brícola, o compadre mesmo era padrinho de uma menina minha, que nasceu aqui, ele foi falar pra mim: “Compadre, eu vou tirar você desse serviço, vou arrumar de ascensorista.” Eu era louco pra trabalhar de ascensorista, sabe. Pra mim é que nem o que você disse pra mim, a senhora sabe que até hoje, eu comecei em 1976, às vezes, eu sonho trabalhando de ascensorista, porque eu gosto, eu adoro trabalhar de ascensorista. A gente chegava às seis horas lá no prédio, ele trabalhava na prefeitura à noite aqui e trabalhava de ascensorista e ele falou: “Compadre, eu vou arrumar de ascensorista pro senhor.” Ele me chama de senhor. Até que um dia eu cheguei seis horas da manhã, ele já tava lá na porta do prédio, aí ele falou, o colega dele falou que na Boa Vista, no prédio do Banco Real, tava precisando, tinha uma vaga. Aí ele me mostrou o zelador saindo, de lá a gente via, ele mostrou: “Fala com ele.” Eu fui lá, fui lá e falei com ele: “Seu João, o senhor tem uma vaga de ascensorista aí?” Ele disse: “Tem, vai lá na Praça João Mendes número 40, 16º andar. Fala com fulano de tal lá, que ele arruma a vaga pra você e daí você vem trabalhar.” Eu fui, quando cheguei lá, era Donizete o nome do rapaz, ele falou: “Não, já tá preenchida a vaga.” Só que tinha três vagas, aí eu voltei, não encontrei com ele, no outro dia eu voltei lá de novo, aí falei com ele: “João, o rapaz, o Donizete falou que tá preenchida a vaga.” Ele disse: “Não, você vai trabalhar até meio dia, almoça, troca de roupa e venha trabalhar, depois você vai lá.” Aí eu fui, foi dia 19 de janeiro de 1976, comecei trabalhar. Aí pra mim aquilo ali foi, abriu-se o mundo, porque eu entrava no serviço de limpeza sete horas da manhã, saía às dez da noite, eu ganhava 650 cruzeiros e fui trabalhar de ascensorista, seis horas, 650.



P/1 – O senhor fazia os dois trabalhos?



R – Aí fiquei fazendo os dois, depois arranjei de ascensorista na Três de Dezembro, lá eu trabalhava à tarde, na Boa Vista, trabalhava de manhã na Três de Dezembro e trabalhava à noite de encarregado nesse mesmo serviço.



P/1 – Três empregos?



R – Três e tudo registrado, na mesma carteira, é que eu não lembrei de trazer a carteira pra mostrar pra senhora, que a senhora pedir, né, eu esqueci, mas eu ia mostrar. Pode até um dia mostrar pra senhora.



P/1 – Eu quero ver.



R – Então eu trago pra senhora ver, tudo registrado, os três serviços na mesma carteira e eu recebi o fundo de garantia. Naquele tempo tinha o salário família, recebi dos três serviços também e o pessoal era um melhor do que o outro, onde eu trabalhava a amizade era uma melhor que o outro.



P/1 – Por que aí, seu Toninho, a sua mulher já tinha vindo pra cá com seus filhos?



R – Já, aí eu já tinha a Andréa que é esse, das quatro é a terceira, eu já tinha a Andréa na época. Então, fui trabalhar de encarregado de limpeza e de ascensorista na Boa Vista e na Três de Dezembro, eu fiquei de encarregado à noite na mesma empresa que eu trabalhava, eu trabalhava na Boa vista à tarde e na Três de Dezembro de manhã. Só que eu pagava um colega da portaria, 20 minutos pra mim almoçar.



P/1 – Pagava do seu bolso?



R – É, pagava do meu bolso, que era  pra mim poder almoçar, porque o salário compensava. Trabalhei dez anos na Boa Vista, os dez anos a Votorantim ligou lá pedindo um ascensorista, que tivesse um tempo de casa de dez anos pra cima e ligou pra mim através de uma ficha que eu fiz aqui.



P/1 – Pois é, eu ia lhe perguntar isso, o senhor gostava de lá mas mesmo assim o senhor fez uma ficha na Votorantim?



R – É, aí quando ligaram pra mim, eu falei: “Não, eu não conheço a Votorantim.” “É pra você ir fazer uma ficha lá.” E eu disse: “Não, eu trabalho. Pra que?” Aí eu falei com a moça Maria Emilia, aí ela falou: “Não, seu Toninho, vem fazer uma ficha sem compromisso.”



P/1 – O senhor não conhecia a Votorantim? 



R – Não conhecia, não sabia nem onde que era. Aí ela deu tudo o endereço, eu vim. Quando cheguei aqui, eu fiz a ficha e ela falou: “Quanto é que o senhor ganha lá?” Eu digo: “860 cruzeiro.” Aí ela falou: “Então, o nosso aqui é melhor: 1300.” Que aquele tempo era cruzeiro, era milhão, sei lá, um milhão 351, tá na minha carteira também, eu vou trazer pra senhora ver: “Já dá pra pagar o aluguel?” Eu pagava aluguel nessa época. “Dá, melhor, mas eu não posso que o horário era o mesmo horário que eu trabalhava lá.”



P/1 – E o senhor não queria sair de lá?



R – É, mesmo com um salário melhor. Aí ela falou: “Então, manda uma pessoa que tenha mais de dez anos pra fazer uma ficha.” Eu mandei um rapaz até solteiro e era uma pessoa bacana que só visse, dado com todo mundo, fazia amizade com todo mundo. Ele veio, fez a ficha no outro dia, em três dias ligaram pra mim novamente: “Seu Antonio, é pro senhor, vem aqui.” Eu falei: “Ué, será que o Pedro fez alguma coisa errada lá?” Cheguei aqui, aí a Maria Emília falou assim: “Seu Antonio, é pro senhor fazer exame.” “Pra que o exame?” “É que a gente conseguiu um horário pro senhor, pro senhor vir trabalhar aqui, não quer vir?” Eu digo: “Quero” (da raia?) ela falou: “Dá pro trabalhar aqui, o senhor sai meio dia e meio e entra lá uma hora, o senhor paga uma pessoa lá pro senhor almoçar.” Assim eu fiz, não quiseram o rapaz. Aí eu comecei trabalhar.



P/1 – Já nesse prédio?



R – É, aqui nesse prédio na Praça Ramos. Isso foi mês de janeiro, quando foi mês de  agosto, um ascensorista aqui trabalhou sábado e na segunda-feira ele morreu, morreu de repente. Então, o meu chefe, que era o (Gorgoni?), falou assim: “Seu Antonio, eu quero um ascensorista daqui pra quarta-feira.” Aí eu chamei o Pedro, o Pedro veio, só que ele não chegou aos 60 dias, mandaram ele embora, porque era assim, ele falava com a senhora, já parecia que ele era uma pessoa de casa, uma pessoa que tivesse liberdade. Ele chegava, entrava na copa, que aquele tempo nós não tinha direito pra nada, nós não tinha direito de bater papo com ninguém, a pessoa: “Bom dia, boa tarde.” Dizer que nós puxava conversa com uma pessoa, não, nós não tinha essa liberdade como nós tem hoje. Aí ele chegou com muita de liberdade, foi mandado embora. Depois me pediram outro, consegui, ele trabalhou dez anos e foi mandado embora e eu ficando, ainda hoje tô por aí, como agora eu já vou aposentar, aí já me avisaram que eu aposentando eu vou ter que sair, né. Bom, mas eu já tava com vontade mesmo de aposentar e sair, porque também eu já trabalhei muito, quando minhas criança era pequena, justamente são cinco e eu sempre tive aquele capricho, eu ganhava pouco, mas se Deus quiser, eu nunca vou morar numa favela. Porque eu tenho muita gente lá do Norte, mesmo da minha cidade, que veio pra aqui e foi pra favela, mas esse capricho toda vida eu tive, graças a Deus, sempre morei num lugar de gente, né?



P/1 – Seu Toninho, então como que foi o primeiro dia aqui, o senhor veio pra cá, eles mudaram o horário por sua causa, como foi o primeiro dia, o senhor lembra?



R – Pra mim trabalhar?



P/1 – É, pra trabalhar aqui.



R – Eu era pra começar dia 13 de janeiro, aí essa menina Andréa, que hoje é casada, a minha irmã morava em Bandeirante, no Paraná, e veio pra aqui e pediu pra levar ela, eu com oito dia ir buscar ela. Eu fui, só que eu fui na sexta-feira à noite, o ônibus só saía às onze horas da noite, daqui da rodoviária e chegava às cinco horas da manhã, a mesma coisa de lá. Aí eu saí de lá no domingo e cheguei aqui cinco horas da manhã, eu já morava em São Mateus e não dava pra mim levar ela, que era pequena, lá e voltar pra trabalhar. Aí vim, deixei a menina lá com a mulher do zelador, lá na Boa Vista e vim aqui pra falar com o chefe, que eu não ia poder vim aquele dia. Esperei até nove horas que ele chegou, ele falou: “Tudo bem, mas amanhã não me falta.” Aí comecei dia 14. Cheguei eu já tinha prática, né, esse tempo todo trabalhando lá na Boa Vista e trabalhando lá na Três de Dezembro e peguei logo. Comecei trabalhar e já comecei uma amizade, que o pessoal aqui, quando falava do doutor Antonio na época da política dele nos anos 1980, você lembra? Eles falavam que aqui era uma família, até hoje são, mas não é como no tempo da SAIV [?], não, o pessoal é muito 100%, melhor ainda do que lá.



P/1 – Tem diferença de um elevador pra outro, seu Toninho? Na hora de… 



R – Tem esse que eu trabalhava na Boa Vista, ele era 22 pessoas, ele era automático, sabe? Assim como é esse hoje, aqui, era um botão, você apertava o botão, ele fechava a porta e ele abria automático, né. E quando eu cheguei aqui era alavanca, tinha alavanca, só que não era aquele pra gente deixar ele reto, ele fechava com alavanca e ele abria automático também igual, como o doutor Antonio ainda hoje é ele não quis que reformasse.



P/1 – De alavanca não é mais difícil, seu Toninho, de mexer?



R – Não, não tem nada de difícil no elevador. O elevador ele é difícil assim, se a pessoa for nervoso, tiver medo.



P/1 –Tem muita gente que tem medo, seu Toninho?



R – Tem, tem gente que tem medo, principalmente passageiro, ele não se controla. Vamos supor que o elevador para no meio da parede ou para e fica a porta fechada, ou que já faltou força como já aconteceu, tem gente que fica apavorado, até soa, é perigoso até desmaiar. Eu não, sabe o que eu faço? Eu começo dar risada e controlar o pessoal, eu nunca tive medo.



P/1 – O que o senhor faz numa situação assim que a pessoa fica nervosa? O que o senhor fala pra pessoa?



R – “Ó calma, que a gente, logo, logo vem o porteiro.” Chama o mecânico de emergência, que tem o mecânico de emergência pra vir. Como num ano que teve um blackout aqui, na época que eu trabalhava na Boa Vista, três elevador parou no meio da parede, né, o meu e outros dois justamente quando nós tava chegando no térreo, então ele chegando igual com a porta, qualquer coisa que acontece ele abre a porta automático, sozinho. Mas no meio da parede ele abre, mas fica o paredão lá e todo mundo fica assustado, porque o paredão é muito sujo, muito preto, ele fica muito perto. Então tem que controlar: “Calma, paciência.” O seu Arlindo aqui em cima, não sei se a senhora conhece, o seu Arlindo?



P/1 – Não. 



R – Que ele já há 50 anos que trabalha com doutor Antonio, na recepção dele. 

Ele uma vez o elevador parou no meio da parede assim, o homem começou soar e: “Toninho, vê se tira esse negócio daí, senão eu vou desmaiar aqui.” (Risos). Mas tem gente que tem coragem. Tem uma moça aqui no terceiro andar, a Andréa, ela disse que gosta, se ficar no meio da parede, diz que é a coisa melhor do mundo que ela sente (risos). Eu digo: “Andréa, você não tem medo, não?” “Não tenho, eu queria que parasse aqui e podia ficar o dia inteiro.” Não tem jeito, diz que a pessoa que é assim medroso de elevador é a fobia, né, fobia que fala. Eu nunca tive medo, graças a Deus até hoje, esse tempo todo, de 1976 pra cá pra mim eu tô com tudo.



P/1 – Seu Toninho, então o senhor tava dizendo, o primeiro dia então o senhor começou a trabalhar e como era o esquema, o seu dia a dia? O senhor disse que a orientação era só “bom dia, boa tarde!”, mas quem dava essa orientação? O seu chefe?



R – Era o Valdir. O Valdir era da administração, como é o seu Barros hoje, né. Mas naquele tempo o prédio inteirinho, o prédio inteirinho modo de dizer, o pessoal do prédio inteirinho fazia o que o Valdir queria. Se a senhora fosse funcionária aqui no prédio, a senhora chegasse sem o crachá, ele não deixava entrar; ele já ficava na portaria até o pessoal todo subir, a senhora chegasse com o crachá na mão, mandasse colocar, a senhora não quisesse, a senhora também não entrava. Visitante, eu vi visitante, mulher com blusinha de linha, aquela coisinha linda, pra não colocar o crachá pra não puxar, voltar da portaria, ele ficava: “Vai colocar o crachá.” Sempre do lado esquerdo: “Não, eu não vou colocar que vai estragar minha blusa.” “Então a senhora não entra.” Vi isso com meus olhos, a pessoa voltar da portaria, porque ele não deixava entrar.



P/1 – Nossa, que bravo, seu Toninho, como é o nome dele? 



R – Valdir Ciron. Então, nós não tinha a liberdade pra nada, chegar os porteiro, conversando um pouco comigo, com a senhora, com funcionário: “Bom dia, tudo bem, seu Antonio? Como é que tá? E a família em casa?” De jeito nenhum. A dona Iracema era copeira aqui e sempre chamava: “Seu Antonio, vai tomar um cafezinho lá na copa escondido.” Aí eu sempre ia tomava um café, dava a bolacha e tal. E não sei se ele viu ou se alguém falou pra ele: um dia eu tranquilo lá tomei o café, quando abri a porta ele tava com as duas mãos assim, do lado e do outro, aí ele não reclamava, ele xingava palavrão, eu é que não vou falar os palavrão que ele fala, né. Menina, aquilo o sangue subia, descia, acho que acabou o sangue. Aí eu pensei: “Acho que eu vou embora daqui, não vou aguentar esse homem.” Mas eu pensava no salário que era bom, né, aí aguentei. Até quando foi, a SAIV foi mudando lá pra Marília e o prédio mandando embora, quem não queria ir pra lá, quem ia ficar na CBA [Companhia Brasileira de Alumínio] e tal, aí ele foi, fomos mudando de chefe, aí tivemos um pouco mais de liberdade.



P/1 – Aí ficou melhor?



R – Ficou melhor. Ele era muito bom por umas parte, mas por outro ele era muito rígido. Eu vi uma vez a copeira, Adenir, com uma bandeja de café mais uma garrafa, ia daqui na entrada do elevador, pingou um pingo de café assim no piso. Ele viu, pois ele  esperou ela, Adenir, isso eu vi com meus olhos: “Adenir, você não tá vendo isso aí, essa sujeira, você faz sujeira e não limpa.” A coitada já andava com uma flanela na mão, onde pingasse um pingo de café, tinha que baixar e limpar, era assim. Um boy do sexto andar entrou no elevador: “Tudo bem,seu Antonio?” “Tudo bem.” Aí deu uma risada, né, ele tava dentro do elevador, grudou no crachá do menino e levou pra administração e falou: “Manda seu chefe ir buscar o crachá lá embaixo, que eu quero conversar com ele.” Só porque ele conversou comigo e deu risada, um boy. Era bom, naquela época era bom, mas também tinha isso aí.



P/1 – E vocês não podiam tomar café?



R – Só naquele horário, só no horário. Porque nós sempre tivemos 15 minutos de café, ascensorista só tem 15 minutos de café, não é por lei, é porque como se diz o chefe de todos os prédios, dá esses 15 minutos, mas não é por lei 15 minutos de café pra ascensorista; porque é só seis horas e também não tem almoço, nós não tem direito a almoço porque é só seis horas.



P/1 – E, seu Toninho, esse tempo todo que o senhor tá na Votorantim é sempre nessa função como ascensorista?



R – É sempre na mesma função.



P/1 – Qual o segredo de um bom ascensorista?



R – Eu acho que não tem, porque não tem promoção, não existe promoção pra ascensorista (risos). O segredo é, a senhora sabe que todo serviço, tem gente, que, às vezes ,não dá valor ao serviço, porque não gosta do serviço e fica pouco tempo, não gosta do ambiente. Como eu trabalhei na 24 de Maio, onde é a loja Babuch, eu trabalhei quatro meses lá, eu não me sentia bem naquele ambiente, pedi a conta, porque eu não me sentia bem. Eu já trabalhava aqui também, trabalhava à tarde e me sentia bem. Então é o caso, tem ascensorista que é bem, como se diz esperto, gosta de esperar pelos outros, no meu caso, como eu sempre gostei de trabalhar no elevador, eu nunca esperei pelo colega: “Ó, vai com fulano; fulano espera aí que fulano vai com você.” Não, chegou vai embora. Então, o bom ascensorista é esse que, no meu caso, não é que eu vou dizer que sou bom, eu sempre trabalhei muito tempo num lugar. Às vezes, quando a firma não gosta da pessoa, porque quando a firma não gosta da pessoa, porque às vezes é da maneira que eu to falando, fica esperando pelo outro. Então, isso é um mau funcionário, mesmo que seja de outra função. 



P/1 – As pessoas conversam muito no elevador?



R – Agora, agora sim, brinca muito comigo.



P/1 – Mas assim, entre as pessoas, contam segredos umas pras outras no elevador, esquece que o senhor tá ali de repente?



R – Não, só fala dos negócios, só aí sim, mas segredo assim nunca escutei, não (risos).



P/1 – Mas conversam muito sobre negócios?



R – Conversam, conversa e na época que a VN [?], não sei se era porque tinha muita gente ali e era um pessoal também muito bacana aquilo. Dia de uma pessoa tava fazendo aniversário, na hora do almoço no elevador fazia uma barulheira: parabéns, gritava, dava risada, se abraçava. Hoje não, hoje não existe mais isso, mas naquela época o pessoal parece que era mais amigo, sabe, parece que era mais amigo do que hoje. Também hoje o pessoal que trabalha quase tudo é de fora, é do Rio, de Belo Horizonte, vem trabalha um mês, vai embora novamente. Do pessoal velho que tem aqui, da CBA, da Mineira, a senhora encontra o pessoal daquele tempo.



P/1 – Fala um pouquinho desse pessoal velho, seu Toninho? O senhor lembra de alguém assim especial?



R – O pessoal da Mineira até se conta, tem o Ricinio Ferreira, o Mane, o Antonio, daquele tempo, que o sexto andar era o andar inteirinho da VN e o oitavo andar de um lado e do outro, hoje tá vazio. Agora, eu nem lembro mais quem tem aí, agora é tudo gente de fora que veio trabalha uma semana, trabalha um mês, aí vai pra outra agência, aí já vem outro, é tudo assim.



[Pausa]



P/1 – Então, seu Toninho, fala um pouquinho pra gente do pessoal antigo da CBA. O senhor falou que tem saudade dessa turma antiga da CBA.



R – Tem o pessoal, muitos foram embora cedo. Bom, vai fazer 12 anos que to na CBA, trabalhei oito anos na SAIV, de 1976 a 1994, eu fazia oito anos dia 14 de janeiro. Nós fomos mandados embora da SAIV dia 30 de dezembro e começamos na CBA dia 3, fomos registrado dia 3.



P/1 – Como é a empresa que o senhor falou?



R – É a SAIV. Aí quando eu entrei, em 1986, trabalhei na SAIV até 1994.



P/1 – O que era? Uma empresa terceirizada?



R – Não, é da Votorantim também. Essa era forte também, porque era cimento, era tecido e muitas outras coisas da Votorantim. Nesse tempo era todo mundo junto aqui: doutor Antonio, doutor José, doutor Ermírio, doutor Clóvis, a esposa doutor Clóvis, os filhos do doutor Antonio, os filhos do doutor José, tudo trabalhava aqui nessa época.



P/1 – E o senhor levava todo mundo?



R – Esse pessoal todo era mais o elevador da diretoria, que é o debaixo, né, justamente aquele de alavanca, que é miudinho, mas sempre, como era muito, iam comigo também.



P/1 – E o pessoal como era, o pessoal da família?



R – Era um melhor que o outro, era a mesma coisa que os funcionários: “Bom dia, seu Antonio! Boa tarde, seu Antonio.” Olha, uma coisa que aqui, todo mundo o maior respeito comigo, nunca vi desse jeito, desde quando eu entrei. Tem o doutor Fausto, não sei se a senhora conhece, o doutor Fausto aqui do segundo, ele já tem seus 60 anos aqui também, cabelo branquinho igual esse aqui: “Bom dia, seu Antonio, boa tarde, seu Antonio!” Todo mundo, os boy se começa hoje, já amanhã: “Seu Antonio.” Todo mundo. Até eu já falei, porque doutor Fausto, doutor Antonio chega: “Bom dia, seu Antonio!” Por que “Seu Antonio”, se nós não temos posição nenhuma, somos simples ascensorista? É o modo, o prédio mesmo, todo o pessoal, acostuma com a gente.



P/1 – Isso é importante, seu Toninho?



R – Eu acho importante.



P/1 – Por que? 



R – Porque é que nem um respeito que eles têm pela gente, como se diz, como que seja uma pessoa da família, como doutor. Antonio fala aí, todo mundo fala aí, tem muito respeito pela gente, sinal de amizade, tem amizade com a gente, isso aí eu também acho que é bom pra gente.



P/1 – O senhor acha que esses são os valores da Votorantim?



R – Eu acho.



P/1 – Quais seriam então? Amizade… 



R – Amizade. Também o nosso salário nunca atrasou, isso aí também é muito importante. Nós nunca recebemos um salário, ninguém daqui, atrasado. Se cai no dia 15, que é o vale, se cai no sábado ou domingo, eles pagam na sexta. Qualquer pagamento que cai dia 15 ou dia 30, cai num sábado ou num domingo, ou que seja feriado, na sexta-feira eles pagam, qualquer pagamento que seja. Eu tô aqui esse tempo todinho, eu não tenho lembrança que eu já recebi pagamento aqui atrasado.



P/1 – O senhor falou agora pouco da campanha do doutor Antonio, o senhor lembra da época da campanha, quando ele foi candidato a governo?



R – Eu tava com pouco tempo que tava aqui, teve comício por aqui, vinha artista, Luiz Gonzaga, Roberto Carlos, vários artistas subiam aí pra conversar com ele. Ainda hoje vem pessoal de novela, vem muita gente.

 

P/1 – Vem falar com ele?



R – Vem.



P/1 – É mesmo? Quem vem aí?



R- Ah! Vem tantos que eu nem lembro o nome do pessoal. Eu conheço assim, vejo aqui, vejo pela televisão, fulano de tal foi lá no doutor Antonio esses dias, sempre vem e aqueles cantores sempre vinham, na época que ele foi político. Mas naquele tempo eu tava com pouco tempo que eu tava aqui, a gente também não podia nem, fazer tanto: “Eu vou conhecer fulano.” Porque o chefe, né, não tinha condições.



P/1 – Mas o senhor foi no comício?



R – Vi aqui, porque teve um comício aqui uma vez, até o Roberto Carlos veio também aqui, que foi, eles ficaram ali em cima daquela lajinha, aí ficou tudo cheio aí. Eu vi esse aí, mas outros eu não acompanhei, não.



P/1 – E o senhor acha que ele ia ser um bom governador?



R – Olha, pelo que ele faz com os funcionários, eu acho que ele ia ser um bom governador, porque pelos funcionários, eu não vou dizer lá das fábricas, lá das filial, mas eu nunca ouvi falar que não fosse. Porque se ele fosse um político, tivesse condições, porque ele não chegou, né, eu achava que ele ia ser bom igual com os funcionários, porque eu acho que ele é uma pessoa muito bacana, assim nesse sentido.



P/1 – Seu Toninho, o senhor disse que não conhecia a Votorantim e depois que o senhor começou a trabalhar aqui, aí o senhor começou a conhecer a Votorantim?



R – Conheci só aqui mesmo. Eu nunca saí fora daqui, nunca fui numa filial, nunca fui na fábrica, que eu tenho vontade de conhecer, mas nunca tive oportunidade. Sempre vai, quando entra um pessoal novo, eles tiram um dia pra levar o pessoal pra conhecer, né. E teve, não sei se ainda tem o sábado, vai um ônibus, um pessoal. O presidente dá café, almoço e tudo e mostram tudo a fábrica, mas eu nunca tive oportunidade, porque o meu serviço não dá pra mim sair pra ir, eu não tenho outra pessoa pra deixar no lugar.



P/1 – Mas nem de ouvir falar o senhor passou a conhecer? Ouvir as pessoas falar?



R – Ouvir falar já.



P/1 – Ouvir falar das outras empresas?



R – Das outras empresas só fala de bem, sempre dentro do elevador o pessoal sempre fala. Até lá no Ceará, dentro do Ceará tem duas filial deles: tem em Sobral e tem em Fortaleza. O pessoal mesmo que vem de lá, os daqui apresenta: “Esse aqui é cearense.” “Eu sou de tal lugar da Votorantim.” Do Recife tem aí também, trabalha aí também e tudo fala bem, tudo fala bem das empresas dele, principalmente da CBA, a CBA, Companhia Brasileira de Alumínio. O pessoal vem todo dia aí e sempre fala bem do pessoal de lá todo, que ele vai lá e trata muito bem. Ele sempre vai lá, né.



P/1 – Qual a empresa mais importante, que o senhor acha?



R – Da Votorantim?



P/1 – É, do que o senhor ouviu falar?



R – Olha, a CBA é muito importante, mas tem varias importante aqui, é que pra nós é a CBA mesmo, né.



P/1 – A CBA é do coração? 



R – (Risos). A Votorantim tem vários grupos, né, então a Votorantim pra mim é do coração. Porque pra começar, quando foi pra mim entrar na Votorantim, uma moça do Recife, que trabalhou comigo aqui na Três de Dezembro (naquele tempo era da Cimento Peruzzi, onde eu trabalhei), aí eu falei pra ela que ia começar trabalhar na Votorantim, ela falou pra mim: “Seu Antonio, se o senhor trabalhar direito na Votorantim, o senhor vai conseguir a sua casa.” Eu ainda pagava aluguel nessa época: “Porque eu trabalhava na Votorantim do Recife. Eu tinha meu carrinho pra andar e ir pro serviço e aqui eu não consigo nem pagar o aluguel.” E consegui, consegui a minha casa depois que eu tô trabalhando aqui e tá paga, graças a Deus tá quitada. Quando eu entrei aqui, eu pagava aluguel, paguei aluguel quinze anos e tá quitada minha casinha: com quatro cômodos, garagem, banheiro, quintal, tudo, depois que eu entrei aqui. Aí depois eu passei a trabalhar, só aqui, entendeu. O Gorgulho que era o meu chefe, é que conseguiu aqui pra mim no CBI [?], só que eu ganhava, naquela época que era cruzeiro, 5 mil, sei lá, lá era 1 e 500. Eu trabalhei lá sete meses só e aí fiquei só aqui, logo meus filhos casou tudo, só ficou a Marisa, que era pequena, hoje tá com, vai fazer 22 anos. Eu digo: “Vou me matar mais por quê? Já tenho minha casinha, criei eles, agora vou morrer de trabalhar em dois, três serviços, pra que? Vou ficar sossegado agora, vou trabalhar só num.” Aí fiquei aqui.



P- O senhor acha que a Votorantim é importante pro Brasil?



R – Não é só pro Brasil, como eu acho que é pro mundo inteiro, é muito importante, não é só pro Brasil, o Brasil inteiro.



P/1 – Por que?



R – Porque é uma firma muito rica e o pessoal sabe trabalhar, os donos sabem trabalhar e eu acho que não trabalha com ambição. Eles trabalham e trabalham para o futuro, não é só pra firma, trabalham pro futuro do Brasil. Não vou dizer só de São Paulo, porque São Paulo, a Votorantim ajuda muito, eu sei, sei assim porque sempre escuto falar por aí, né, que muitos ajudam por aí. Aqui mesmo nessa praça, o doutor Antonio que investiu nessa praça, inclusive eu ouvi falar que ele queria cercar tudo de grade. É porque a prefeitura não aceitou, porque uma praça cercada não tem graça, né, de grade, não tem graça, não pode nem entrar dentro. Então, tá aí bonita, limpinha, tinha o pessoal que dormia aí ele tirou tudo, conseguiu tirar. Tem o rapaz que trabalha aí, ele paga, trabalha o dia inteiro pra não ficar o pessoal jogando lixo, ficar deitado por aí, então… E não é só aqui, não. Tem muitos lugares que ele investe o dinheiro dele, porque ele não quer só pra ele, quer pra todo mundo.



P/2 – Seu Antonio, o que o senhor acha que mudou na Votorantim, qual é a diferença daquela época pra hoje?



R – Não sei, de quando eu entrei, mudou muita coisa. Vamos supor a portaria: na portaria a gente trabalhava em seis de manhã, das seis às duas; seis das duas às dez; e seis das dez às seis da manhã. Então, eram três porteiros e três seguranças, naquela época trabalhava com revólver, né, o segurança. Aí foi mudando de chefe, foi ficando e pra mim aqui na portaria teve grande diferença daquele tempo. Até uns três anos atrás a gente parece que era mais unido, parece que os colegas era mais, depois foram saindo uns fora, foram entrando outros. Não sei se tem uns que quer tomar o lugar do outro, aí pra cima do escritório, não sei. Pra mim não tem diferença, porque sempre nosso salário foi sempre igual, nunca falaram nada de mandar embora, porque a gente ganha demais, o salário alto, não. Sempre foi.



P/2 – Mas assim, seu Antonio, uma coisa boa que existia e que não existe mais?



R – Existe, mas pouco. Logo o tempo que eu entrei e fiquei aquele tempo todo por aqui até a gente sair pra CBA era diferente o Natal. O Natal era rico pra nós, porque também tava a família inteira, né, hoje tá só o doutor Antonio e tinha os diretores também, que na época do Natal eles ajudavam, davam muita caixinha pra nós. Então foi saindo uns e também o pessoal, a família toda, ficou só o doutor Antonio, então ficou mais fraco. Mas ainda é bom, não é como antes, mas é bom. Eu não sairia daqui, dizer vou pedir minha conta aqui da Votorantim pra procurar outro melhor, não, de jeito nenhum, tanto o ambiente como o pessoal, muito bacana, o salário, o Natal também muito bom. Eu jamais eu vou sair, porque se Deus quiser, aposentando eu quero descansar agora, comprar um negocinho, mais fora aqui de São Paulo, pra eu ficar o fim de semana, se Deus quiser!



P/1 – E além do doutor Antonio, seu Toninho, quem mais assim da família que o senhor lembra que o senhor pudesse contar uma coisa pra gente?



R – Eu lembro de todos, né. Tem o doutor Clóvis, ele trabalhava aqui, que era cunhado dele, a firma dele é em (Barros?), lá em Poá, mas pra mim era todos igual. O doutor José na época se esforçava mais pelos funcionários.



P/1 – Se esforçava mais?



R – É.



P/1 – Como assim?



R – Pra salário, mesmo a época do Natal, como é que se diz, o feriado prolongado e todos tinham que assinar, ele fazia aquilo e mandava todos, irmão e sobrinho tudo, tinha que assinar.



P/1 – Pra concordar?



R – Isso, pra concordar em dar pro pessoal.



P/1 – E será que a turma não concordava, como é que era?



R – Concordava, concordava, não tinha muita atenção com o doutor José, doutor José tinha, Nossa Senhora! Aí eles se dividiram, ficou só o doutor Antonio, tem os diretor que toma conta, aí ficou diferente.



P/1 – E o doutor Clóvis também era bacana?



R – Era muito bacana. Na época tinha o doutor Antonio, doutor José e o doutor Ermírio, que eram irmãos e a esposa do doutor Clóvis, que trabalhavam tudo no sétimo, mas era um melhor do que o outro, não tinha cara feia, não eram de chegar em não cumprimentar, era: “Bom dia fulano! Boa tarde fulano!” Era assim.



P/1 – E tinha os filhos também, eles eram crianças?



R – Tinha os filhos, não. Quando eu entrei aqui só tinha o doutor Antonio, dos filhos homem, só tinha o doutor Rubens e o doutor Luis, que eram solteiros. Doutor Rubens era o caçulinha dos homens, aí casaram logo também. As moças eu vi parece que duas, já casada também, vieram aqui, mas poucas vezes. Eu não conheço todas, os filhos deles todos eu conheço, homens. Mas as filhas mulher eu não conheço, vi umas duas vezes não vi mais, não sei do que elas vivem, qual a função delas, se tem firma delas, né.



P/1 – O senhor disse que tem um elevador que é da diretoria, mas o senhor nunca trabalhou nesse elevador?



R – Trabalhei, trabalhei, porque eu fiz férias, eu sempre que cobria férias da onde eles trabalhavam era eu. Licença, dona Marineia ganhou nenê duas vez, eu que fiz os cinco meses, das duas vez. Essa agora a Fátima também, sempre eu que cobria as férias toda, eu fazia meu horário naquele elevador lá em cima e fazia o horário dela lá embaixo, por isso que eu também conheci mais eles, eles sobem tudo por lá. Nunca vi nenhum fazer cara feia. Doutor Antonio mesmo chega, quando a gente trabalha o elevador dele é parado, né, ele sobe no outro, a gente espera ele lá embaixo. Quando ele desce, a gente espera ele lá embaixo, quando ele acaba de subir a escada, mas longe que dali lá ele já cumprimenta a gente e ele dá uma caixinha também, todo sábado ele dá uma caixinha. Antes da gente falar “obrigado”, agradecer, ele é quem fala, ele dá a caixinha e ainda agradece, ele diz que o que é bom é ter educação: “Bom dia! Boa tarde, muito obrigado, desculpa, com licença.” Ele mesmo fala isso, que não tem coisa mais bonita que fazer isso. Então, ele fala isso porque ele acha que tem gente que não, é cabeça alta não fala nem um bom dia, porque a senhora sabe que tem gente assim. Então, ele fala assim, quer dizer ele quer uma educação no serviço dele, no emprego dele, todo mundo ser igual, mas nem todo mundo é igual, a natureza não é igual.



P/1 – Seu Toninho, nesses quase vinte anos, o senhor já contou que as pessoas ficam nervosas dentro do elevador, que outra coisa engraçada o senhor lembra desse seu período aqui na Votorantim?



R – No elevador?



P/1 – Pode ser, de uma outra coisa que o senhor tenha vivenciado aí.



R – Não, eu não lembro, não.



P/1 – Nenhum causo? Não é possível.



R – Não lembro (risos). Não lembro.



P/1 – Nada curioso?



R – Nada curioso, se eu lembrasse, eu acho que eu nem vi coisa de curiosidade assim pra mim falar, sinceramente.



P/1 – Nem que ninguém tenha contado pro senhor?



R – Não, porque não dá tempo também da senhora conversar comigo, porque o elevador é o que? Cinco, dez segundos do oitavo lá embaixo, no máximo dez segundos, do oitavo direto lá no térreo. Porque é pouco. Como na Boa Vista que eu trabalhei era 18 andar, aí demorava mais, dava até pra conversar mais um pouco, mas aqui não dá. Tem muita gente, que a gente é mais chegado, tem mais amizade e tal, né, mas não dá tempo de conversar. Também chegar, parar e conversar também não dá tempo, principalmente hoje que tá tudo cheio de zóião pra ver a gente (risos), só que só filma, né, ainda não dá tempo mesmo de ficar parado conversando, não dá pra ficar.



P/2 – Eu queria perguntar pra ele se ele lembra a primeira vez que ele entrou no elevador. Você lembra?



R –  Que eu entrei… 



P/2 – No elevador.



R – Aqui?



P/1 – Na sua vida.



R – Eu lembro, lembro que o primeiro elevador que eu entrei foi aqui na João Brícola, onde eu trabalhava de limpeza. Que eu entrei pra andar ou pra trabalhar?



P/1 e P/2 – Pra andar?



R – É, na João Brícola, mas não me sentia bem, não. Quando eu comecei a trabalhar na Boa Vista, nos primeiro dias, uns quinze dias mais ou menos, quando era sete horas mais ou menos que eu saía do elevador, eu saía do banco como quem tinha bebido pinga (risos), mas daí acostumei. Eu tinha vontade de trabalhar mesmo, de trabalhar no elevador. Outro serviço não, eu trabalhava, mas eu queria era o elevador, acostumei. Hoje eu não sinto nada, trabalho o dia inteiro de sete às sete se for preciso não sinto nada, acho bom.



P/2 – E também ele não falou, né, a primeira impressão que ele teve de São Paulo, ou desse prédio, a primeira vez que o senhor entrou aqui nesse prédio, qual foi a primeira impressão que o senhor teve, o senhor lembra?



R – Quando a gente entra a primeira vez parece que a gente não vê nada depois que vai clareando e a gente vai vendo as coisas. Quando eu entrei pra fazer a ficha, vim aqui entregar o documento e tal, pegar o crachá. Naquela época, cada andar tinha um crachá com um número, como eu fui fazer a ficha no sexto andar, se eu fosse pra o quinto falar com outra pessoa, eu tinha que descer no térreo, pegar um crachá do quinto pra ir pro quinto andar. Se fosse do sexto pro quinto com aquele crachá, o chefe deles lá botava pra correr, era assim. Então, eu cheguei, o pessoal todo diferente que lá onde eu trabalhava não tinha aquele negócio de procurar fulano de tal e falar com sicrano, eu chegava lá já entrava direto. Aí cheguei, fiquei atrapalhado lá em cima, até a moça da limpeza, perguntei pra ela onde que era o lugar que eu ia, ela me informou, eu cheguei lá pra fazer a ficha. Então, eu fiz a ficha. Quando eu vim fazer o exame, fiz o exame pra vim trabalhar, eu falei pra senhora, a gente ficou das duas às quatro assistindo um filme das firma, né, só que eu não sei pra onde foi esse filme, que era da SAIV, não sei se eles levaram embora, não passaram mais pra ninguém. Então a gente ficou, seis pessoas assistindo a tarde inteira, um sono (risos). Mas quando eu entrei aí comecei gostar, mas o negócio era o chefe, era o chefe, mas depois… 



P/2 – E qual foi o elevador mais bacana que o senhor entrou na sua vida?



R – Pra trabalhar?



P/2 – Não, um elevador.



R – Não, eu acho que pra mim todos são iguais, mas já teve elevador de entrar e dá vontade de sair, como aqui no Pátio do Colégio (risos). Tem uns que eu fui lá uma vez, tive medo de entrar, aquele de grade, não tem aquela grade assim, que a gente puxa pra entrar. Então, aquele foi um dos pior que eu entrei.



P/1 – E o melhor?



R – Não, o melhor pra mim, os outros tudo são iguais. Esse quando eu comecei trabalhar aqui, que justamente o do doutor Antonio, que é daqueles antigo, mas esse que eu trabalhava hoje era mais ou menos. E outros pra mim trabalhar, que eu já entrei, é tudo igual agora, tudo igual. Diz que tem uns que tem mais velocidade e tal, mas eu ainda não entrei, de eu entrar e sentir que tem mais velocidade não. Pra mim todos são igual, não sei se é porque eu to acostumado, é isso.



P/2 – E o que o senhor mais gosta em São Paulo? 



R – Em São Paulo eu gosto de tudo, tanto que eu não tenho mais vontade de voltar pro Ceará pra morar lá, não. Eu gosto de tudo em São Paulo, até do frio eu gosto (risos).



P/1 – Cearense gostar do frio.



R – Eu gosto, época do frio, tá certo o calor é bom, mas tudo tem um tempo, né, mas eu gosto do frio também. São Paulo eu gosto de tudo. Alguém, às vezes, fala: “Vamo pro Ceará ver se dá pra nós morar lá de novo?” “Vamo nada, não vou mais pra lá, não, os de lá eu já vi, eu gosto daqui e pronto.”



P/1 – Mas o senhor voltou lá pra sua cidade?



R – Pra passear? Já fui várias vezes. Minha mãe veio pra aqui, morou comigo, eu ia pra lá, até que por último ela foi pra lá e faleceu lá, já tem uns seis anos.



P/1 – E aí quando o senhor chegou lá uma vez contando que o senhor trabalhava na Votorantim, o que o pessoal falou?



R – Aquele pessoal que conhece, inclusive eu tive um colega, amigo da gente, eu trabalhava com o pai dele, que era vereador, o pai desse vereador tem um filho que é prefeito, um que é médico e esse que é vereador. Nessa época era tudo novo, eles estudavam e ele falava pra mim que tinha muita vontade de conhecer o doutor Antonio, gostava muito dele. Tanto na época da política, ele escreveu pra mim, que naquele tempo telefone ainda era difícil, não era todo mundo que tinha, pedindo um cartaz dele e camiseta. O que eu fiz? Já tinha passado tudo a política, né, doutor João Câncio me deu um cartaz tamanho desse aqui, que ele tinha na parede dele, conhece doutor João Câncio?



P/1 – Hum! Hum!



R – Ele me deu o cartaz e o senhor (Estoque?), que era o eletricista daqui, me deu três camisetas com a foto dele, né. Eu coloquei as três num envelope grande, o cartaz dobrado, pus num sedex, mandei pra ele. Quando eu fui depois, cheguei lá, ele tinha pegado o cartaz passou o ferro pra tirar aquelas quebras, que tava dobrado, né, as dobras e tava na parede do quarto dele. E eu não sei se ainda hoje tem aquilo, não, porque já faz muito tempo, né, se ainda tem aquele cartaz dele. Ele dizia, que tinha muita vontade de vir aqui pra conhecer ele. Veio nada, só pra conhecer.



P/1 – Seu Toninho, o que o senhor acha desse projeto memória da Votorantim, que entrevista as pessoas, que levanta as memórias da empresa?



R – Agora eu faço que nem o dizer da boa ideia da pinga: “É uma boa ideia.” E acho que deve ser muito bom, porque amanhã, o futuro que eu falo, né, amanhã eu vou embora, fica uma lembrança minha aqui. Sei lá, não sei se eu falei coisa pesada pra eles, que amanhã eles podem achar ruim e jogar isso fora, mas é uma lembrança, mesmo que tenha alguma coisa é uma lembrança. Fulano trabalhou aqui tantos anos, a gente gostava dele, ele gostava de todo mundo, eu acho muito bom isso aí, eu acho uma boa ideia.



P/1 – Desse tempo que o senhor trabalha aqui, qual a maior lição que o senhor pode dizer que o senhor tirou?



R – Lição?



P/1 – É, lição pra sua vida desse seu tempo de Votorantim?



R – Ah! Pra mim tudo foi bom, tudo foi uma lição pra mim, tudo foi bom pra mim aqui. Eu não tô lembrado qual foi o ano que lá onde eu moro deu umas enchente, e um dos chefes mandou uma pessoa lá na minha casa pra ver o que tinha acontecido. Pra senhora ver como o pessoal aqui é um pessoal bacana. Aí ele foi, chegou lá pediu alguma coisa, disse: “O seu Antonio, precisa de alguma coisa?” Fizeram, ajuntou umas moça por aí, fizeram uma lista e tiraram, naquela época, oito mil e poucos reais: compraram móveis da minha casa, compraram um monte de coisa e me deram um pouco de dinheiro. Só que o meu chefe, esse um pegou a metade e levou embora, mas esses, e hoje voltou aí pedir, voltou aí pedir coitado, sem nada. Naquela época, ele ganhava bem, não sei quanto ele ganhava, mas ganhava bem. Ele exigiu todas as lista e todo o pessoal que pegava o dinheiro. Teve uma moça só que tirou 2700 reais, umas confusão por aí, os diretor soube: “Olha um cheque que o doutor Antonio me deu pra eu endossar o cheque.” Ele levou no banco, eu não vi esse dinheiro, só esse cheque que o doutor Antonio me deu, 2000 e o resto do dinheiro ainda consegui 4000. Aí doutor Antonio soube e pediu, que não queria ver ele nem atado aqui, aí ele foi embora. Ele tava mais ou menos bem, depois foi acabando, acabando… Esses dias veio aqui pedir dinheiro da condução, triste, triste. Tanto que eu falei com seu Barros, que uma vez ele fez maldade com seu Barros, né. Aí eu falei com seu Barros: “Se o Valdecir chegar e pedir 50 real ou 100 real pra mim, eu sou muito homem pra dar, mesmo o que ele fez comigo. Eu sou muito homem pra dar, porque eu reconheço da precisão e reconheci da precisão dele.” Mas ele pediu pra alguém por aí, mas se ele chegasse e pedisse, ainda hoje se ele chegar e pedir eu dou, com toda a maldade que ele fez comigo.



P/1 – Seu Toninho, o que o senhor achou de dar a entrevista pra gente?



R – Achei muito legal, achei muito bom. A hora que a moça veio falar comigo eu: “Não, eu não quero falar com ninguém. Eu já vou embora mesmo, me falaram que eu tenho que ir embora de abril em diante, quando eu aposentar e já tá tudo certo pra aposentar.” Ela disse: “Não, não tem nada a ver, é até bom. Era pra ir seu Fianco, seu Fianco não quer ir, acho que tá com vergonha de ir.” “Eu não quero saber, então eu vou.” Aí aquela hora que a senhora ligou pra mim, eu já sei que é bicho de sete cabeças.



P/1 – Não vou escapar, né.



P/1 – Então, tá bom. Faltou alguma coisa que o senhor queria falar, seu Toninho, que a gente não perguntou?



R – Não. Não faltou nada, não. Sobre a família, a minha família é muito bacana, minhas filhas, né, são quatro, é uma melhor pra mim do que a outra. Agora, o meu filho, ele já tem 32 anos, vai fazer 33, é meio carga torta, não é de ligar muito pra emprego, trabalha, mas dizer assim como eu de ficar tantos anos numa firma, sei lá, não sei se é porque eu gosto de trabalhar e sempre gostei de ter minhas coisinha, né. Ele gosta também, mas não tá nem aí. Casou-se, ficou uns tempo com a esposa, o sogro deu até carro pra ele, mas não quis saber: largou dela, arrumou outra, arrumou um filho, largou daquela, arrumou outra e já tá largado (risos). As meninas não, as meninas são muito bacanas comigo. Elas falam pra mim: “Pai, vai viver a sua vida, o senhor já tem experiência de casado, agora se o senhor arrumar outra pessoa pra ficar dentro de casa, quem sabe não dá certo, aí o senhor não vai ter nem fulana e nem nós.” Então, tá bom, então fica tudo junto.



P/1 – Então tá bom, seu Toninho, muito obrigada pela entrevista.



R – Eu que agradeço, muito obrigado e, obrigado. E o papo pra mim foi legal, pra mim eu já até era uma pessoa conhecida já, de bater papo no elevador.



P/1 – Então, obrigada.



--- FIM DA ENTREVISTA ---

 

Dúvidas

Toca

Ensinar

Zíbia

Da raia

Gorgoni

Barros

Estoque

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+