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Eu trabalho na roça porque eu acho bonito

História de: Francisco de Assis da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2014

Sinopse

Francisco de Assis da Silva nasceu em 10 de abril de 1959 em Gregório, uma comunidade do interior cearense. Filho dos agricultores Deodato Pereira da Silva e Maria da Conceição, seguiu o ofício do pai, sempre trabalhando em fazendas de outros proprietários. Em 2006 sua comunidade foi ocupada para a construção da Companhia Siderúrgica do Pecém. Por isso, mudou-se para a região de Suipé, no município de São Gonçalo do Amarante, região metropolitana de Fortaleza-CE, onde mora com os filhos e um neto. Cultiva feijão, maniva e milho no quintal de sua casa e nos terrenos coletivos da sua comunidade em Suipé. Nesta conversa, ele relata com profunda emoção e orgulho dos afazeres que aprendeu com o pai: “Eu trabalho na roça porque eu acho bonito. Isso é um patrimônio que o meu pai deixou para mim.”

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História completa

Sou Francisco de Assis da Silva, nasci em 10 de abril de 1959 em Gregório, uma comunidade do interior cearense. Filho dos agricultores Deodato Pereira da Silva e Maria da Conceição, segui com muito carinho e orgulho o ofício do meu pai, sempre lidando com a lavoura. A minha mãe trabalhava batendo roupa aqui e acolá, fazendo faxina para um e para outro. No final de semana é que eles ficavam mais dentro de casa conosco. A maioria do tempo era só, pois ele saía de manhã para trabalhar e a minha mãe também saía para o outro lado. Não eram todos os dias, mas quase todos.

Lembro-me da casa que morávamos com o meu pai. Ela era uma casinha de taipa, coberta com palha de coqueiro. As paredes também eram cobertas de palha de coqueiro, feitas com palha virada. Nesse tempo não tinha uma comunidade como nós vivemos hoje aqui. Morávamos nas terras dos outros, daqueles que tinham mais condições e que nos davam a terra para morar e plantar. Ninguém tinha terra nessa época. Lá onde eu morava, juntávamos umas dez, 15 pessoas. Começavam as novenas de maio – de primeiro ao derradeiro dia de maio. Era uma festa normal. Era muito longe de onde morávamos, mas íamos à pé. Não tinha transporte para ir. Juntava aquela turma e ia. Ficávamos até quando terminava a novena e começavam as festas. Demorávamos um pouquinho e, depois, íamos embora, porque no outro dia tinha que trabalhar. Não tinha tempo de ficar até o fim. O meu pai não gostava muito de festa. Ele ralhava conosco porque íamos às festas. Às vezes, tínhamos que ir escondidos. Quando chegava tinha uma bronca danada, porque íamos sem pedir à ele. Os mais velhos não pediam e quando os mais novos pediam ele dizia: “Não vai para cantinho hoje”. Fazer o quê? Nos aquietávamos por ali mesmo. Nem ficava tentando.

O namoro era meio diferente. Não era como hoje em dia. Não tinha muita pegada. Hoje, os cabras colocam quente mesmo. Os velhos não eram muito bestas assim... Hoje em dia o pessoal não liga. Hoje em dia é difícil um pai e uma mãe combater um filho ou uma filha. Antigamente, o pessoal mais velho tinha moral com as pessoas mais novas.

Quando eu me casei eu passei uns seis meses morando com o pai da minha esposa. Ele era muito bom pra mim e eu também pra ele. Fizemos de tudo para ver se dava certo. Graças a Deus, tudo deu certo. Após seis ou sete meses, eu fiz um barraco e entrei debaixo. Nasceu o meu primeiro filho, uma menina. Tocamos para frente. Eu trabalhava e ela também.

Em 2006, minha comunidade foi ocupada para a construção da Companhia Siderúrgica do Pecém. Certo dia eu estava em casa, e o meu patrão chegou lá em casa atrás de mim com esses homens para darmos uma volta nos extremos das terras. Mas ninguém sabia o que era, nem o meu patrão. Ele pediu para eu dar uma volta com eles. “Eu vou”. Era três homens num carro. Perguntaram se eu queria dar uma volta nas terras e se eu sabia onde era. Eu sabia bastante de alguns, mas de outros, não. Muitas das terras estavam nos extremos e cada dono tinha os seus extremos. Fomos olhar o lado do meu patrão e, quando chegamos lá eu perguntei a eles o que aquilo significava. Ele disse: “Precisamos dar uma olhada por conta das escrituras da terra. É preciso saber como é que está”. Mas só que não era. Era o governo que estava precisando das áreas. Então, começou a partir daí. Começaram as reuniões e eles começaram a desapropriar as terras dos patrões. Ficamos para o final. Eles pagaram aqueles que iam saindo e os moradores ficaram até eles fazerem o assentamento para nos colocar. Eles começaram a dizer que precisavam das áreas. Começamos a entender que eles precisavam das áreas, pois há dez anos eles tinham falado que o governo havia planejado o lugar para fazer a siderúrgica. O porto do Pecém já estava começando e, por conta disso, precisavam da área em que eu morava para fazer a siderúrgica. Mas eles não falaram quando seria e nem o porquê. Sentimos que eles tinham que procurar uma melhora para nós, porque além de ficarmos sem ter onde morar, era a terra que todo mundo nasceu e criou seus filhos. Não poderiam deixar-nos jogados por lá. As terras não eram nossas, ninguém podia nem dizer nada, mas eles começaram a fazer as reuniões e prometeram que iam corrigir as terras que gostássemos para fazer os nossos assentamentos. Olhamos vários imóveis por aí afora, mas aqui foi o que achamos mais parecidos com o lugar onde morávamos. A terra da areia, terra de mato. Tiveram vários locais que ele nos mostrou, mas não gostávamos porque era sertão - e ninguém queria ir para o sertão. Os que tinham do sertão por aqui, que são do nosso meio, já vinham de lá pra cá. Mas ninguém queria ir para lá. Quando começaram a mexer a terra, eles não deixaram ninguém fazer mais o plantio. Aliás, os moradores podiam fazer, mas os donos não podiam fazer mais nada. Eles trataram de ajeitar a venda para logo pagá-los e, assim, saírem fora. Eles estavam precisando da área para fazer o desmatamento. Então, só sairíamos de lá quando tivéssemos os cantos já certos para irmos, com as casas feitas, só nos esperando chegar.

Por isso, mudei-me para a região de Suipé, no município de São Gonçalo do Amarante, região metropolitana de Fortaleza-CE, onde moro com minha esposa, os filhos e um neto.

Eu ainda fiquei trabalhando um ano lá, porque tinha umas fábricas funcionando. Ficou um bocado de fábricas funcionando, fazendo o trabalho que nós fazíamos. De um ano pra cá, começamos a arranjar um serviço por aqui mais por perto e começamos a trabalhar nas terras. A minha vida não mudou muita coisa, porque o trabalho que eu fazia, ainda continuo fazendo. Eu ainda não arranjei como mudar a minha vida.

Eu levanto as mãos para o céu e dou graças a Deus que os meus filhos vivem conosco e numa boa. Graças a Deus, ninguém fez o que não presta. Eles hoje vivem na igreja e eu também. Estou vivendo com eles, satisfeito. Tem muitos filhos por aí que vivem dando desgosto para o pai. Tem um que mora bem aí e o outro que está fazendo a casinha acolá, do outro lado. Por enquanto ele está morando com a sogra dele. Tem três filhos aqui comigo. Comecei a criá-lo aos sete meses e faz dez anos que ele vive comigo. E tenho uma filha que é casada também. Tenho dois filhos casados. Ela se separou do pai desse meninozinho que eu crio, mas vive sempre na casinha dela. Graças a Deus, os meus filhos não me dão muito trabalho.

Eu vivo lutando na roça porque o meu pai criou-me assim, trabalhando na roça. E eu continuo. Isso é um patrimônio que o meu pai deixou para mim. Mas não tem esse futuro todo. Naquela época, tinha muita gente e todo mundo trabalhava. Mas hoje, não. O pessoal não precisa trabalhar mais em roça porque tem muita empresa por aí afora. O pessoal não vai querer trabalhar com isso. Querem ganhar o dinheiro deles, mas diferente. Eu não sei ler, não sei nada e continuo trabalhando. Eu vou escapando desse jeito. Graças a Deus, criei todos os meus filhos desse jeito e continuo. Eu trabalho na roça porque eu acho muito bonito. Eu acho bonito um plantio. Não tem esse futuro todo, mas eu acho bonito. Por isso, continuo trabalhando. O plantio de roça, da maniva, do feijão, do milho. Quando eu chego em casa, às vezes, até um pouco meio estressado, com uma roça daquela eu já arranco um pé de mato no tronco e já começo a falar no meio das plantas. Isso me anima. Chego em casa mais tranquilo. Eu sou assim. É por isso que eu não deixo de plantar a roça: eu acho bonito, acho bom. Continuo pegando pesado na areia.

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