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História

Eu tive uma vida bem batalhada

História de: Maria Amélia Ribeiro da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/12/2004

Sinopse

Maria Amélia Ribeiro da Silva relembra da cidade onde nasceu, em Campos Altos. Diz que o relacionamento entre as pessoas que vivem numa cidade pequena é muito diferente das pessoas que vivem na cidade grande, todas as pessoas se conheciam e se davam bem. Conta que a história da sua infância é cheia de batalhas, sendo filha de agricultor e dona de casa, seus pais batalharam muito para os filhos estudarem. Como eram em muitos filhos, todos tinham que ajudar a cuidar da casa, dividiam as obrigações, mas essas tarefas não afetaram sua diversão. Como moravam numa chácara tinham muito espaço para brincar. Já entrou na escola alfabetizada por sua mãe que não tinha nem o primário completo e quando estava acabando o Curso Normal entrou na CTBC. Ao longo do depoimento conta como foi sua experiência na Companhia Telefônica em Campos Altos e em Franca.

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História completa

P/1 – Boa tarde, Dona Maria Amélia?

 

R – Boa tarde!

 

P/1 – Em primeiro lugar, eu queria que a senhora me dissesse o seu nome completo, o local e a data de seu nascimento?

 

R – Bom, eu me chamo Maria Amélia Ribeiro da Silva. Eu nasci em Campos Altos, Minas Gerais.

 

P/1 – Que data a senhora nasceu?

 

R – Ah, sim. Nasci no dia doze de março de 1954.

 

P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe, por favor?

 

R – Bom, papai era Alcindor Balbino da Silva e a minha mãe era Sebastiana Ribeiro da Silva.

 

P/1 – Perdão, Alcinor?

 

R – Alcindor Balbino da Silva.

 

P/1 – Perfeito. A senhora conheceu os seus avós?

 

R – Conheci por parte paterna.

 

P/1 – A senhora se lembra o nome deles?

 

R -  João Balbino da Silva e Maria Amélia de Jesus.

 

P/1 – Certo. E do lado materno, não os conheceu?

 

R – Não os conheci.

 

P/1 – E os nomes a senhora saberia?

 

R – O primeiro nome, sim. Minha avó se chamava Jucelina e o meu avô se chamava João. Eu não me lembro dos outros nomes.

 

P/1 – A senhora tem notícia de que seus avós eram da região, ou se vieram para a região?

 

R – Sim, todos eles eram de Minas Gerais, da região de Campos Altos. 

 

P/1 – Quer dizer, não migraram?

 

R – Não, não. Eram mesmo ali da região.

 

P/1 – A atividade do seu pai qual era, Dona Maria Amélia?

 

R – De início, quando eu era pequena, o meu pai era agricultor. Depois, ele trabalhou em algumas empresas, como de asfalto em Minas Gerais. Aqui, em Franca, também numa empresa municipal de asfalto. E ultimamente ele era aposentado.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Mamãe sempre foi do lar.

 

P/1 – Como é que era a cidade que a senhora nasceu? Como é que...

 

R – Era uma cidade muito gostosa, uma cidade pequena mas onde as pessoas se conheciam muito bem, todas as pessoas se relacionavam muito bem. Pelo menos do meu conhecimento, pelo menos, a minha família com os vizinhos, com os parentes. O relacionamento era muito bom. Morar em cidade pequena todo mundo conhece todo mundo, todo mundo ajuda todo mundo. É muito importante isso, é um relacionamento muito bom que hoje na cidade grande a gente não vê. Mas, naquela época, era assim.

 

P/1 – A senhora se lembra da sua casa como é que era?

 

R – Ah, lembro sim. Eu morei em várias casas. Algumas eram maiores, tinham mais quartos, sala, copa, cozinha. Outras eram menores, tinham dois quartos, sala e cozinha. Eu não tive uma vida muito fácil. Os meus pais batalharam demais para nos ver estudar. Nós éramos cinco filhos e, para estudar, era difícil. Principalmente, porque o papai trabalhava como agricultor, trabalhava para fazendeiros, tinha um salário muito pequeno. Então era  difícil. Eu tive uma vida bem batalhada.

 

P/1 – A senhora disse que são cinco irmãos, não é?

 

R – São, nós somos cinco filhos.

 

P/1 – Irmãos, irmãs, como é que se divide?

 

R – Eu tenho um irmão e três irmãs.

 

P/1 – O seu pai levava os filhos para trabalhar com ele, alguma coisa assim, não?

 

R – Não, só ele. Ele nunca nos levou para trabalhar na roça.

 

P/1 – E quando ele trabalhava na roça, as crianças ficavam em casa com a mãe?

 

R – É, nós ficávamos em casa com a mamãe. Ajudávamos a fazer os deveres da escola, ensinávamos a trabalhar, a fazer os afazeres da casa, educávamos, nesse sentido.

 

P/1 – Como era esse cotidiano da casa, as obrigações que cada um tinha, como se dividia isso?

 

R – Olha, se a mamãe estava lavando roupa, eu e minhas irmãs, geralmente eu e minha irmã mais velha, íamos limpar a casa. Eu não gostava de cozinhar. Então ela ia cozinhar e eu limpar a casa e olhar os menores. Tratar dos animais, todo esse serviço a gente fazia. Buscar a água na mina, porque nós morávamos numa chácara. Quem mora numa chácara sabe disso. Hoje tem água encanada e tudo, mas naquela época não tinha. Então nós tínhamos que buscar. Se acaso mamãe saia e ela deixava essas tarefas para nós, a gente tinha que fazer. Quando ela chegava, encontrava tudo pronto.

 

P/1 – A senhora falou “tratar os animais”. Que tipo de animais a senhora tinha nessa casa?

 

R – Tinha porcos, vacas, cavalos, tudo isso. Nós que tratávamos, papai não se preocupava com isso, porque isso era uma obrigação nossa, uma obrigação das crianças. Ou seja, uma responsabilidade das crianças.

 

P/1 – E tinha algum segredo para tratar bem desses animais?

 

R – Não, na época, não. Tinha a ração que a gente preparava, tinha o milho que a gente preparava e dava para os animais.

 

P/1 – E como preparava isso, como era o processo?

 

R – De preparação?

 

P/1 – É.

 

R – Olha, se o milho estava na espiga, nós tínhamos que debulhar e colocar nos cochos para os porcos, e jogar para as galinhas. A ração também. Ela vinha em pó e nós tínhamos que misturar água, preparar e colocar lá para eles comerem.

 

P/1 – Dona Maria Amélia, com tanta atividade, com tanta responsabilidade, como eram as brincadeiras, como vocês se divertiam?

 

R – Olha, nós nos divertíamos muito. Como eu te disse, nós morávamos a princípio numa chácara. Então nós tínhamos cavalos para a gente galopar, tínhamos os bois, que inclusive montávamos neles. Ah, eu brincava de casinha, brincava de pique. Tinha um espaço tremendo para brincar. Subia nas árvores procurando ninhos de passarinhos. A nossa infância foi muito boa e rica nesse sentido, de divertimento, de família. Apesar deu ter dito de nós não termos uma vida muito fácil, de não termos muita coisa, mas nós tínhamos muito amor, muito conselho, muita paciência por parte de meus pais, muita educação. Então a nossa infância foi muito boa.

 

P/1 – A primeira escola, a senhora se lembra?

 

R – Quando eu fui para a escola eu já sabia ler, aprendi com a minha mãe. A minha mãe não tinha nem o primário completo. Mas o pouco que ela sabia, ela tentava nos ensinar. Então quando eu fui para a escola, eu já sabia escrever o meu nome, o nome de meus pais, o nome de meus irmãos. Então na escola mesmo, o primeiro ano eu fiz em 28 dias e, por incrível que pareça, eu passei em primeiro lugar, com 9,8 nas provas finais. E eu nunca tive dificuldade na escola. Se não fui a melhor aluna, em termos de nota e até mesmo de comportamento, eu não ficava muito atrás. E a gente estudava mesmo, porque a gente sabia que os meus pais lutavam com dificuldade. Então a gente tinha que dar esse retorno e a gente se preocupava em dar esse retorno a eles. Tanto eu, como os meus irmãos.

 

P/1 – Como foi esse processo da sua mãe alfabetizar a senhora em casa, como ela fazia?

 

R – Olha, é aquela coisa de mãe, não é? Ela arranjou um caderno, um lápis, tinha um livrinho que era um ABC. Ela ia escrevendo e me ensinando. “Olha, isso aqui você faz assim, você junta essa letra com essa, mais essa vai dar essa, essa palavrinha.” E foi assim, ela conseguiu me alfabetizar.

 

P/1 – Fez isso com seus irmãos também?

 

R – Também. Todos, quando foram para a escola eles já sabiam ler. Inclusive, eu tenho um sobrinho – hoje ele está com treze anos -, que aos quatro anos já lia, porque ele ficava com ela. Então ela lia jornal e ele ficava ali perto. E eu acho que ele foi vendo, foi acompanhando, aos quatro anos ele já lia. Isso é prova, as escolas mesmo que ele estuda hoje podem te falar.

 

P/1 – A sua mãe era uma educadora nata?

 

R – Em todos os sentidos, em todos os sentidos.

 

P/1 – O nome da primeira escola que a senhora estudou, a senhora se lembra?

 

R – Não, não me lembro, foi numa fazenda.

 

P/1 – Foi uma escola de fazenda?

 

R – Foi uma escola de fazenda, eu não me lembro, faz muitos anos.

 

P/1 – E a primeira professora?

 

R – Ah, sim dela eu me lembro, ela se chamava Maria de Lurdes.

 

P/1 – O que ela marcou tanto na senhora?

 

R – Porque ela morava na minha casa. Além de professora ela era amiga. Nos momentos que ela não estava na escola, ela estava lá em casa. Então ela estava fazendo os planos de aula, eu estava ali perto dela. Então ela acabava ali, e quando ela tinha um tempinho, nós íamos dar uma volta na fazenda,  andar um pouco. Eu gostava, ficava esperando ela terminar para a gente sair, passear.

 

P/1 – E que fazenda era essa?

 

R – Para quem vai, pega a BR 262 é a fazenda da Serra, entre os municípios de Cachoeirinha e Luz, Córrego Danta e Luz, naquela região ali.

 

P/1 – A família foi acompanhando o pai para fazenda, é isso?

 

R – Nós? Ah, sim, nós morávamos lá, papai trabalhava nessa fazenda quando eu comecei estudar.

 

P/1 – E como é que continuaram os estudos? Porque essas mudanças a que a senhora se referiu, que mudavam muito. Como é que os estudos foram se…?

 

R – Ai depois, quando eu já estava na terceira série, no terceiro ano primário, nós voltamos para Campos Altos. Em Campos Altos eu estudei na escola Deiro Borges, Grupo Escolar Deiro Borges e Grupo Escolar Joaquim Domingos. Lá, eu estava fazendo a terceira série, terceira e quarta série. Depois na quinta...  Aí tinha o admissão, naquela época, que hoje não tem. Hoje, direto já vai para o ginásio. Naquela época tinha um ano intermediário entre a quarta série primária e a primeira série do ginásio. Nessa época, eu fui para um colégio de feiras, interno, para estudar. Gosto de falar que fui para estudar, não fui para ser freira. E nesse colégio eu fiquei quatro anos. 

 

P/1 - Onde era o colégio?

 

R- Lá também. Em Campos Altos. Chama Menino Jesus de Praga. E lá eu fiquei quatro anos, lá eu fiz a quinta série, depois eu fiz a primeira, o primeiro ginasial, o segundo, o terceiro. E na quarta eu saí e voltei novamente para a casa dos meus pais, que também moravam lá.

 

P/1 – Por quê essa opção de internar a senhora?

 

R – Olha, para falar a verdade nem a minha mãe entendia isso. Eu tinha uma tia que era irmã de criação da minha mãe. Ela tinha um relacionamento muito grande com essas freiras e tinha esse colégio interno. Ela achava que se nós fôssemos para lá, nós íamos ter mais oportunidade de estar estudando, porque o papai tinha dificuldades para estudar a gente. E ele queria que nós estudássemos. Então ela arranjou este lugar para que eu e minha irmã ficássemos. Nós ficamos lá uns quatro anos. Lá, durante quatro anos, eu trabalhava na secretaria, eu era a única educanda que saia do colégio, ia para o correio, ia à rua. Fora os horários de passeios, que as freiras nos levavam para passear. Mas fora disso, eu era a educanda de relacionamento do colégio com o público. Lá no colégio, além dos internos, havia o pessoal externo. A gente estudava na mesma classe. O mesmo estudo que era dado para as internas  era dado para os externos. E nós ficamos lá durante quatro anos, foi muito bom, nós aprendemos muito. Eu me relacionava muito bem com as freiras, com as meninas. Nós éramos 45 educandas, chegamos até cem educandas, na época, e eu aprendi muito lá com elas.

 

P/1 – Dona Maria Amélia, para uma pessoa, para uma criança que estava vivendo uma vida tão livre, tão cheia de mudanças, espaços e brincadeiras, o que significou ir para um colégio interno?

 

R – Olha, eu sempre fui muito apegada aos meus pais. Então eu sentia muita falta da minha casa. Eu entendia que eu precisava estudar e tudo, mas eu sentia muita falta. E a minha mãe também achava que esses quatro anos para ela foram muito sofridos, ela achava que esses quatro anos não deveriam ter acontecido, ter tirado a gente de casa. Apesar de que a gente só ganhou em termos de estudos, essas coisas. Mas ela acha que, por tudo isso, ela poderia trabalhar muito, mas não queria que a gente saísse. Até a pouco tempo ela falava isso para a gente, até antes dela morrer ela me falava isso.

 

P/1 – E havia saídas do colégio, a senhora podia passar tempos em casa?

 

R – Ah sim, nas férias. É como eu te disse, eu tinha muita liberdade lá. Tanto eu como a minha irmã. Eu não sei se era por causa da minha tia, ou pelo nosso comportamento, ou por a gente ser da cidade, mas nós tínhamos muita liberdade. Aos domingos, meu irmão e a minha irmã menor iam para lá passar com a gente. Tinha domingo da gente ir para casa passar com os nossos pais. Nas férias a gente ia. Nunca levei nenhum castigo, nenhuma repreensão. Não que eu fizesse por merecer. Não, mas sempre que me chamavam a atenção, me chamavam com muito carinho, tanto a mim com a minha irmã.

 

P/1 – E na hora de voltar para a escola quando acabavam as férias?

 

R – Voltar para o colégio? Ah, era doido (risos), era doído, sim. É como eu te disse, porque eu sou muito apegada a família. Família para mim é muito importante. Era muito difícil voltar. Quando nós saímos da escola, porque o colégio não podia ficar com esse tanto de meninas, eu não senti muito, a minha irmã sentiu mais. Eu senti sim a perda daquela amizade que eu tinha com as freiras, freiras italianas. Eu tinha um relacionamento muito bom com elas e gostava muito delas, eu senti, mas eu estava ganhando porque eu estava voltando para a minha família. Aí eu já estava maior, pensava em estar colaborando mais com a minha família, arranjando um serviço para trabalhar e tudo, então foi muito bom.

 

P/1 – A senhora, quando voltou já foi procurar um trabalho?

 

R – Não, não... Lá era uma cidade pequena como é hoje a nível do país. Você sabe que as cidades pequenas, mesmo as grandes, hoje, tem dificuldade de emprego, então naquela época tinha dificuldade de arranjar um emprego. Eu fiquei bastante tempo sem trabalhar, passei a tomar conta da minha casa, ajudar a minha mãe que começou a trabalhar para fora, ela pegava roupas para lavar em casa e eu tomava conta da casa enquanto ela fazia esse serviço.

 

P/1 – Mas sem cozinhar?

 

R – Ah… Cozinhar não (risos). Eu não gostava não. Fazia, aprendi e tudo, mas eu trocava qualquer outro serviço para não ter que cozinhar. Até hoje eu faço isso. 

 

P/1 – (risos) E o estudo como continuou?

 

R – Nós paramos quando eu estava no ginásio. Aí eu voltei para casa e estudei num ginásio Estadual da Campos Altos, fiz a oitava série de hoje, a quarta série ginasial e voltei a estudar nesse colégio que eu estudava, mas externo. Fazer o Curso Normal, que é o Colegial, uma adaptação. O Normal era mais para lecionar, o Colegial hoje não te dá essa limitação e o Curso Normal te dava a habilitação para ser professora de primeiro grau, do primeiro ano ao quarto ano primário. Então eu fiz o Curso Normal lá, no final do Curso Normal quando eu estava no terceiro ano eu já estava no CTBC. Eu já começava a trabalhar. Eu trabalhava e estudava já.

 

P/1 – Antes disso eu queria só entender um pouco de onde nasceu essa vocação para ser professora, se foi fazer o Normal é que certamente queria ser professora?

 

R – Não, você sabe que às vezes não era bem assim, era a opção que eu tinha no momento lá, naquela época. Depois do ginásio só tinha na cidade o Curso Normal. Não tinha um curso de Contabilidade, um curso técnico, saía para fazer um outro curso fora ou fazia o curso Normal.

 

P/1 – E como a senhora adaptou esse seu estudo, mais o seu trabalho em casa, mais esse primeiro emprego que a senhora conseguiu? Esse foi seu primeiro emprego?

 

R – Foi, esse na CTBC foi o meu primeiro emprego. Não... Foi muito fácil. Eu sempre fui uma pessoa muito ágil então eu não me desespero com o serviço, eu consigo fazer tudo com tranquilidade. Eu dou conta de minhas tarefas e na minha casa não era muito serviço que não desse para eu estudar e trabalhar. E eu sempre coloquei... Talvez seja por isso eu estou na CTBC até hoje, porque eu sempre coloquei a CTBC em primeiro plano. Em termos de prestação de serviços. Eu sabia que eu tinha uma obrigação muito importante e que eu devia zelar por essa obrigação que era o meu serviço. Eu sempre trabalhei pensando nisso, eu sempre coloquei o meu serviço acima de tudo. A minha prestação de serviço, prestar da melhor forma possível. Então nunca tive problema de atraso, de faltar no serviço. Eu sempre cumpri bem a minha obrigação e em casa a gente dividia o serviço e estudava também (risos). Porque quando eu entrei aí, depois de lá eu vim para Franca e aqui eu prestei o vestibular para a Unesp, e eu passei e fiz História. Aí não era porque eu não tinha opção; eu quis fazer História. E continuei trabalhando e estudando. Eu estudava a noite e trabalhava durante o dia, e tinha mês que eu fazia plantão e, eu saia da escola e ia para a CTBC trabalhar.

 

P/1 – Como é que foi essa sua primeira chegada na CTBC, como a senhora foi parar na CTBC? Quem a levou, como a senhora conseguiu esse trabalho?

 

R – Voltando a Campos Altos, é o seguinte: Na época, eles falavam que ele era o secretário, a pessoa que respondia pela CTBC, na cidade. E ele era o meu padrinho, mas não foi por isso que eu entrei, não. Aí ele sabia que eu precisava trabalhar e ia ter um concurso para ocupar uma vaga na CTBC. E ele me convidou para fazer esse concurso. E junto comigo, havia mais umas vinte meninas para fazer esse concurso. E nós fomos fazer esse concurso e nem foi em Campos Altos, foi em Luz. Veio uma pessoa de Uberlândia, que eu não me lembro o nome, veio uma senhora, veio de avião para fazer o concurso. E eu passei, fui bem, selecionada, fiquei numa posição muito boa. E uma outra menina também, que ficou numa posição muito boa, então a vaga foi para ela e eu fiquei aguardando uma outra vaga. Nisso, naquela época, as pessoas que casavam, as associadas que casavam não ficavam na empresa, você já deve ter tido esse depoimento aí. As pessoas não ficavam na empresa. E eu fiquei com a vaga dela, ela casou e eu entrei no lugar dela. Agora, você me perguntou como foi a minha primeira chegada à CTBC. Olha, a expectativa era muito boa, eu estava radiante, era o meu primeiro emprego. Eu, na verdade, acho que eu não tive medo de enfrentar aquilo. Aliás, acho que eu não pensei que as pessoas tinham que ter medo naquela época, de estar enfrentando o emprego pela primeira vez. Eu precisava trabalhar, então eu estava disposta a enfrentar todos os obstáculos. Eu me lembro que a minha mãe me disse o seguinte... Naquele dia a gente foi à missa antes deu ir trabalhar e no caminho ela me disse: “Olha, agora você vai começar a trabalhar. Agora você vai ter pouco tempo porque você tem que trabalhar. Só nas férias é que você vai poder passear, viajar, mas durante todo o tempo que você estiver trabalhando, você vai ter pouco tempo de lazer.” Eu falei: “Não, tudo bem, eu quero é trabalhar.” E fui com toda vontade e comecei a trabalhar. Eu comecei a trabalhar no dia 21 de dezembro de 1972 e fui registrada só no ano seguinte.

 

P/1 – E a senhora foi fazer exatamente o quê?

 

R – Eu fui telefonista, eu comecei como telefonista. Aliás, boa parte desses anos todos eu trabalhei como telefonista.

 

P/1 – E como é que era a CTBC lá em Campos Altos? Como era o local, o ambiente?

 

R – Olha, era um espaço mais ou menos como este aqui. Era um posto de atendimento pequeno, mas tinha um calor muito grande, que era uma família. As pessoa lá eram seis. Eram dois rapazes e quatro moças que trabalhavam lá. Era o examinador de linha, um plantonista, que era o rapaz, e as quatro atendentes que revezavam de horário. Tinha a responsável que trabalhava com a parte de escritório, com a parte de RH e dava apoio às telefonistas. E nós éramos as três telefonistas.

 

P/1 – E as três revezavam pelas 24 horas?

 

R – Não, o horário de telefonista são seis horas, a telefonista que usa o aparelho. Desculpa-me, nós éramos sete pessoas. E a telefonista tem um horário de seis horas que ela tem que trabalhar e tem doze horas de descanso. Por exemplo, se ela trabalha das seis da manhã ao meio-dia, ela vai voltar trabalhar amanhã, das seis ao meio-dia, e uma folga por semana, naquela época. E como eu te disse, lá  a gente era uma família. Primeiro porque era uma cidade pequena. Depois, nós nos conhecíamos já há muito tempo, participávamos das mesmas coisas, do mesmo clube, da mesma igreja, das mesmas escolas. Então era uma família, eu me sentia em casa.

 

P/1 – Quantos assinantes tinham em Campos Altos nessa época?

 

R – Duzentos e pouquinho, 239, mais ou menos. Eu me lembro, me passa assim a mesa telefônica.

 

P/1 – Cada telefonista trabalhava sozinha?

 

R – Sozinha, porque o serviço era muito pouco, dava muito bem para executar seis horas de serviços tranquilo. Tinha a moça que ficava lá e que, na hora de aperto, por exemplo, de receber as ligações do cliente que chegava para fazer um ligação, então era ela que recebia, quando ele terminava de falar a telefonista passava para ela os minutos falados e ela cobrava do cliente. Ou, às vezes, quando a gente estava sozinha, horário de almoço dela, a moça mesmo fazia, não era tão grande o número de serviços.

 

P/1 – E quando pediam interurbano?

 

R – Pois é, as ligações internas, as ligações locais eram muito poucas. Agora, interurbano também não era uma coisa muito grande, um excesso de chamadas. Existia, o único problema que existia e que demorava muito para completar uma chamada.

 

P/1 – Como a senhora fazia para completar uma chamada a contento?

 

R – Olha, naquela época, por exemplo, que estava em Campos Altos e queria falar com Parada de Minas tinha que... Não, falava direto com Parada de Minas, não chamava direto Parada de Minas. Então nós passávamos por Divinópolis. A gente ia arranjando rotas alternativas. Por exemplo, se Divinópolis estava com defeito, tínhamos condições de falar com Uberlândia. A gente ligava para Uberlândia, Uberlândia ligava para a gente em Parada de Minas. Então era assim. Mais na frente, eu vou te falar daqui em Franca, quando eu cheguei também o problema que era, que aqui o número de serviço era bem maior. Mas lá, em Campos Altos, era pequeno o número de serviço. Como eu te falo, só mesmo os interurbanos tinham uma certa demora porque muitas vezes a gente encontrava barreiras na frente. Não conseguia fazer direto, às vezes os circuitos estavam ocupados, então tinha que esperar. Caso de morte, por exemplo, a gente tinha que estar pedindo para telefonistas de outras localidades para priorizar as chamadas da gente. 

 

P/1 – E o telefone da cidade era automático, não? Ou não era automático?

 

R – Analógico, não é? Agora, a mesa, quando o cliente tirava o telefone do gancho sinalizava lá, acendia uma luzinha lá. Como eram poucos assinantes, nós sabíamos, conhecíamos até a voz do cliente, e dependendo se na casa havia muitas pessoas nós reconhecíamos a voz de quem estava chamando. Era uma tecnologia muito atrasada na época.

 

P/1 – Eu queria que a senhora descrevesse um pouco mais detalhadamente como a senhora fazia para conseguir essas rotas? Como a senhora fazia para atender esse assinante, esse cliente que estava precisando falar interurbano com urgência, com aquela dificuldade da época?

 

R – Então eu te disse, nós tínhamos, por exemplo, de Campos Altos para Parada de Minas… O primeiro que eu atendia era Luz, quando eu pegava um ligação interurbana eu pedia: “Luz, me liga Divinópolis.” Aí, ela falava: “O circuito está ocupado, aguarda.” Então tudo bem, eu aguardava ou então ligava Patos de Minas. Olha, para você ver. Eu ligava Patos e pedia: “Patos, tem condições de me ligar com Divinópolis?” Ela falava: “Tenho.” Então ela me ligava. Aí de Divinópolis, eu pedia: “Me liga Parada de Minas?” Era assim. Eu não sei se estou respondendo bem a sua pergunta, mas eu procurava rotas alternativas para completar as chamadas. Às vezes dava muitos defeitos, chuvas, dava muitos problemas. Então a gente procurava essas rotas alternativas.

 

P/1 – E as pessoas como entendiam essas demoras todas, essas dificuldades?

 

R – Olha, isso aí é o seguinte: muitos até entendiam, outros falavam: “Não, mas eu preciso falar, é um caso de morte, eu preciso avisar.” Então nós explicávamos para o cliente, porque a gente conhecia todo mundo, nós chamávamos pelo nome, ele sabia quem era a telefonista que estava lá, que ele também chamava pelo nome. Então, suponhamos que fosse o seu Geraldo: “Seu Geraldo, olha, está com defeito de Luz à Divinópolis, o senhor vai aguardar um pouco, eu vou tentar falar por outra forma, por outro lugar, eu vou pedir Patos de Minas para me auxiliar, porque a gente tinha circuito direto com Patos de Minas.” Então era assim, dessa forma. Muitos entendiam. Agora, tinha aqueles, como hoje, muito apressados, que pediam uma hora e gostariam que fosse feito, que fossem atendidos na hora. Isso é normal.

 

P/1 – Dona Maria Amélia, como era o conceito das telefonistas na cidade?

R – Era muito bom mesmo o conceito das telefonistas, principalmente porque, eu já te disse, era um local, numa cidade pequena, onde todo mundo conhecia, eram todas de famílias dali criadas ali, de famílias que tinham envolvimento na política, envolvimento na educação. Então o conceito era muito bom, nos respeitavam muito, havia muito apego, tanto a nós, quanto de nós para os clientes, porque a gente conhecia todo mundo.

 

P/1 – Nessa sua época, a senhora diria que havia algum tipo de preconceito quanto ao fato de mulher trabalhar fora, trabalhar a noite? Isso não gerava algum tipo de preconceito por parte das pessoas da cidade, não?

 

R – Lá, não. Eu vim conhecer isso aqui. Lá era um serviço normal. Aliás, um ótimo serviço porque na cidade não havia um serviço assim, a não ser professora, dona de casa ou doméstica. Então a gente não sofria nenhum preconceito nesse sentido, muito pelo contrário.

 

P/1 – Perfeito. A cidade, a localidade recebia muitas visitas de pessoas da sede da CTBC? Seu Alexandrino ia lá, seu Luís Garcia ia lá?

 

R – Não, eu nunca os vi lá, eu nunca os vi. Pode ser que eles tenham ido, mas eu não os conheci lá.

 

P/1 – A senhora conheceu o seu Alexandrino?

 

R – Não, nem aqui. Uma vez que ele esteve aqui, era um dia que eu estava de folga, eu não o conheci. Agora, o doutor Luís sim, eu conheço e outras pessoas que já passaram pela CTBC, como o senhor Wilson eu conheci. Mas o doutor Alexandrino eu não conheci. E também uma vez que eu estive em Uberlândia, eu não tive o prazer de conhecê-lo, ele não estava, ele tinha ido para Belo Horizonte receber um título.

 

P/1 – A senhora ouviu muita história dele, não?

 

R – Ah, sim, claro! Isso ouvi muito, eu li muito a respeito. Admiro demais. Como pessoa era admirável. 

 

P/1 – Que tipo de histórias a senhora ouviu dele? Alguma a senhora se lembra?

 

R – As histórias que eu ouvi dele foram sobre a sua força de trabalho, a luta dele para manter essa empresa, para fazer com que essa a empresa crescesse e até a sua preocupação de estar atendendo da melhor forma ao usuário. Isso aí é o que eu leio, que eu conheci, que ficou dele para mim.

P/1- Dona Maria, como se deu esse processo de sair de Campos Altos e vir para Franca? Por quê dessa mudança?

 

R – É como eu te disse, nós somos cinco filhos e, na época, o meu pai tinha muita vontade que a gente estudasse e lá nós estávamos estudando. Mas, veja bem, eu já tinha terminado o que eu podia fazer lá. Eu já tinha terminado o que eu podia fazer lá, meus irmãos também já estavam quase terminando o curso colegial. E papai tinha vontade que a gente estudasse mais e que todos nós trabalhássemos. Tanto era vontade do papai como da gente também. Eu já estava trabalhando, mas os meus irmãos sentiam a necessidade de estar trabalhando. O meu irmão trabalhava, mas ele trabalhava num posto de gasolina fora da cidade, trabalhava a noite e trabalhando a noite ele não podia estudar porque o posto ficava na rodovia, na rodovia BR 262. E foi o meu irmão que teve a vontade, a garra mesmo de falar: “Vamos embora, vamos sair, vamos buscar alguma coisa melhor.” E falou para o papai que ele estava vindo e que ele ia nos trazer. Aí também o meu pai decidiu sair. E saíram, vieram o papai, a mamãe e uma de minhas irmãs. Saíram de lá para ir para Uberaba, que nós temos família em Uberaba e eles saíram para ver se arranjavam alguma coisa para a gente, casa para morar e emprego. Chegando em Araxá, eles encontraram um amigo. E ele perguntou: “Por quê o senhor não vai para Franca. Franca está crescendo, tem muita indústria de calçados, eu tenho o endereço de uns parentes lá.” E esse parente dele era amigo dos meus pais. “Vai lá que, de repente, o senhor vai gostar, vai lá e vê como é.” Ao invés de irem para Uberaba, eles vieram à Franca. E chegando aqui, eles se apaixonaram pela cidade, minha irmã já ficou, nem voltou. Aí a minha irmã ficou, na semana seguinte ela já ligou para o meu irmão dizendo que já tinha arranjado um emprego para ele. Ele veio e, no final do mês seguinte, ele já foi e buscou a outra minha irmã. Aí eu pedi para sair da CTBC, porque eu senti a necessidade de estar aqui ajudando. Na verdade, eu tinha muito medo de que acontecesse alguma coisa com eles, eu tinha que estar junto. Aí nessa oportunidade, eu disse para a minha chefe que os meus pais iam mudar para Franca e que eu queria vir, que eu tinha que sair. Ela disse: “Lá também é CTBC, de repente a gente pode ver se arranja um  lugar para você, se tem uma vaga.” E eu tive tanta sorte que, naquele mês, estava saindo uma moça para casar. E tinha essa vaga e eles falaram com o senhor Luís Márcio, que é o nosso coordenador hoje, e ele arrumou a vaga para mim, e eu vim. E eu estou na CTBC até hoje.

 

P/1 -  A senhora veio direto já, apenas transferida?

 

R – Como se fosse transferida, só que, na época, não tinha transferência, então eu saí de lá e me registraram aqui novamente. Mas foi questão assim: eu saí num final de fevereiro, acho que dia 28 de fevereiro, e no dia primeiro de março eu já estava trabalhando.

 

P/1 – Como era Franca, como era essa cidade que a senhora chegou, depois de ter passado a vida inteira no campo?

 

R – Numa cidade pequena… (risos). Olha, tudo era novidade, porque se por aqui era bem maior... Eu não me lembro de quantos habitantes na época, mas me lembro que havia um número muito grande de fábricas funcionando. Era uma cidade que estava muito bem no cenário brasileiro de mercado. Me parece que, na época, havia umas quatrocentas fábricas funcionando, entre fábricas de fundo-de-quintal e as grandes. Então havia muito emprego, não havia desemprego em Franca, na época. Eu comecei a trabalhar, os meus irmãos já estavam trabalhando. Meu irmão trabalhava num curtume como químico e as minhas irmãs trabalhavam na fábrica.

 

P/1 – Sapatos?

 

R – É, sapatos. Uma trabalhava no Calçados Charm, que era do Samello, e a outra trabalhava no curtume junto com o meu irmão.

 

P/1 – E onde é que a família foi morar quando chegou aqui?

 

R – Quando eu vim, então aí ficou eu e meus irmãos, eu e mais três – eu, uma irmã, um irmão e uma irmã menor. Nós morávamos lá na Vila Imperador. Aí depois, quando papai veio, nós mudamos para o Jardim Francano. Na época se falava que lá era o lugar dos mineiros, porque tinha mais mineiros do que paulistas. E lá nós ficamos uns oito anos.                                                                       

 

P/1 – Como era essa casa no Jardim Francano?

 

R – Olha, para quem estava chegando de viagem, de mudança, vindo de uma cidade pequena com poucas condições, era muito boa a casa. Era uma casa grande, muito bem repartida. E a gente arrumou direitinho, compramos televisão, porque a gente não tinha televisão, começamos a comprar as coisas, sentíamos a necessidade de ter alguma coisa melhor, então começamos a comprar. Nós começamos a acertar as coisas, começamos a realizar aquele pouco que a gente sonhava. Era uma casa grande, tinha espaço, tinha terreno. Era muito bom.

 

P/1 – A família comprou a casa?

 

R – Não, nós alugávamos.

 

P/1 – A senhora falou a televisão, como foi essa sensação de ter uma televisão?

 

R – Porque lá em Minas Gerais nós não tínhamos televisão. A gente assistia os programas ou na casa da minha avó, ou na casa das minhas amigas da telefônica, da CTBC. Então quando tinha um programa bom, elas me convidavam e eu ia na casa delas assistir, a gente não tinha televisão. Aí quando chegamos aqui, que a gente acertou tudo, que a gente sabia que era importante cumprir direitinho o contrato de aluguel, cumprir direitinho tudo aquilo que a gente estava tendo. Então quando a gente sentiu que podíamos comprar a televisão, então nós compramos. E compramos o sofá para a gente se sentar e ver a televisão sossegado. Quem comprou a televisão foi o meu irmão, ele se responsabilizou pela dívida da televisão (risos). E eu pela dívida do sofá e ajudava o papai no aluguel.

 

P/1 – O seu pai continuava trabalhando ainda?

 

R – Sim, nessa época o meu pai era jovem ainda, então ele trabalhava na (Embep?), uma empresa aqui de Franca, uma empresa municipal, era um empresa de asfalto, asfaltava a cidade. 

 

P/1 – A senhora falou tão bem da televisão, a senhora tinha algum programa de que gostava muito, que tenha marcado a sua juventude?

 

R – Bom, naquela época acho que era o programa que todo mundo assistia, era o Chacrinha, e na Bandeirantes tinha um programa que eu não me lembro o nome dele, alguns filmes. Acho que, acima de tudo, o prazer de ter concretizado aquilo que você sonhava, ter uma televisão, ter alguma coisa. Talvez para outras pessoas não fosse tão importante, mas para gente era, a gente gostaria de ter. Até para sentir o prazer do meu pai e da minha mãe verem, dar o prazer a eles de verem alguma coisa. Minha mãe era muito curiosa, como eu te disse, em termos de conhecimento. Papai gostava muito dos telejornais. Então era importante isso aí, sentir eles.

 

P/1 – A família via reunida, assistia reunida?

 

R – Ah, sim! Por exemplo, as novelas não porque a gente ia para a escola. Era mesmo no final de semana que às vezes os meninos ficavam vendo filme até de madrugada, depois contavam para a gente o que tinham visto. Era assim, essas coisas assim. Acho que é uma coisa normal, de família. 

 

P/1 – Em seu trabalho na CTBC, o que foi se transformando com o avanço da tecnologia, com o avanço dos novos equipamentos, como é que aquela telefonista de Campos Altos… O que ela veio fazer aqui em Franca?

 

R – Bom, quando eu cheguei em Franca era diferente, porque o número de telefonistas era bem maior, era um número bem grande, um número de serviços bem maior. Na época, aqui no estado de São Paulo, tinha muito difícil de se fazer interurbano. Aí, então, que eu vou te contar, que nós tínhamos algumas rotas que nós tínhamos que fazer. Por exemplo, para falar para São Paulo, naquela época, nós levávamos até seis horas tentando a ligação. E Franca já falava muito. Então, o cliente pedia uma ligação para São Paulo e o volume de chamadas era tão grande que às vezes levava seis horas para se falar. E mesmo assim, tinha uma telefonista especialista naquelas ligações. Ela ficava seis horas só fazendo ligações para São Paulo. Então ela usava os circuitos diretos com São Paulo, passava por Uberlândia. Toda condição que ela tinha de sair para pedir ajuda, ela fazia para atender. Quando era caso de morte, nós colocávamos um aviso, um bilhete, a gente fazia um bilhete quando recebia a solicitação do cliente. Então tinha o bilhete, no qual a gente anotava “caso de morte”, assim aquela ligação tinha prioridade. Aquela região de Rio Preto era terrível para falar, era difícil de conseguir, era muito congestionada. Tinha a telefonista daquela região que ficava às seis horas dela com bastante serviço.

 

P/1 – E vocês se revezavam nessas áreas?

 

R – Sim, revezávamos de posição, pois cada posição tinha uma área para fazer as ligações. Então tinha posição que só fazia ligação para São Paulo, tinha posição que só fazia o que chamávamos de ligação “além”, então era São Paulo, Brasília, Curitiba, Novo Hamburgo, daqui se fala muito para Novo Hamburgo, por causa da área calçadista, então na época era assim.

 

P/1 – Mas se demorava seis horas uma ligação para São Paulo, quanto demorava para Novo Hamburgo?

 

R – O mesmo tempo (risos). Eu te falo assim porque não era nada muito rápido, a tecnologia ainda era pequena e os circuitos eram poucos. Por isso que haviam muitas chamadas, por Franca, na época, estava num crescimento. E o cliente não fazia ligação direta, tudo passava pela telefonista. Aí é que estava o problema, tudo era feito via telefonista. Tinha aqueles casos de localidades, por exemplo lá na Bahia, de pessoas que faziam a ligação e dependiam de um mensageiro. Você já ouviu falar do mensageiro? No posto de serviço havia um menino que quando alguém chamava uma determinada pessoa, o menino saía para procurar a pessoa. O cliente pedia a ligação para nós, nós ligávamos para aquela localidade – suponhamos que a cidade se chamasse Campo Alegre, na Bahia -, então nós ligávamos para lá, lá no posto de serviços eles atendiam, aí nós falávamos: “Olha, nós queremos falar com o senhor fulano.” Ela falava assim; “Então eu vou mandar o mensageiro chamar, dentro de trinta minutos ou dentro de uma hora você volta a chamar que ele vai estar aqui esperando.” E isso acontecia diariamente, diariamente haviam ligações que usavam mensageiro. E isso quando o mensageiro já não tinha soltado o cavalo, que em algumas localidades ele ia chamar a pessoa à cavalo. Aí, às vezes: “Ah, o mensageiro já soltou o cavalo, só amanhã.” Era assim nessa época. O início das telecomunicações era bem difícil.

 

P/1 – Como é que era o processo de bilhetagem dessas chamadas que a senhora... Como era… Desde o princípio, o cliente ligava e pedia um interurbano para São Paulo, como que...?

 

R – Isso, ele pedia a ligação para São Paulo, aí nós perguntávamos qual era o número do telefone, onde ele queria falar, com quem ele gostaria de falar, sabia que era de Franca ou da regional daqui da CTBC, porque nós atendíamos Ituberaba, Batatais. Então colocava o nome da cidade, o número do telefone dele, o nome dele e a gente já passava para a posição que ia completar aquela chamada. Quem fazia isso era as recebedoras, as telefonistas recebedoras. Nessa época tinha pelo menos quatro telefonistas só para receber chamadas e tinha dez para expedir, para fazer as chamadas, para fazer os interurbanos.

 

P/1 – Esses bilhetes eram anotados em cones diferentes? Como que era?

 

R – Não, ele era um bilhetinho branco com escritas verdes e aí depois dalí ele era enviado para Uberlândia para fazer o faturamento.

 

P/1 – O bilhete ia, ele não era processado aqui?

 

R – Não, não era processado aqui.

 

P/1 – Fazia os pacotinhos?

 

R – É, fazia os pacotes...

 

P/1 – Mas lá dentro da Central, o cliente chamava, a senhora anotava os dados, passava para a expedidora...

 

R – Veja bem, a chamada do cliente na Central era uma chamada local, ela não era interurbana. Ele chamava para 101. E 101 não era considerado interurbano, ele ia cair na telefonista. Ele chamava para solicitar a ajuda da telefonista. Na época, o que se mediam na Central eram os pulsos, por o cliente ainda não fazia as ligações diretas. Só depois, ele começou fazer, quando em Franca entrou o DDD, nessa região, aí se conseguia acessar discando direto. Ai sim era bilhetado, era na Central.

 

P/1 – Mas esse bilhete manual que a senhora fazia lá, os dados de duração de ligação e tudo o mais eram anotados ali?

 

R – Tudo, tudo. Tinha um reloginho, não era anotado pela cabeça da telefonista: “Ah, eu acho que esse cliente falou três minutos.” Não, tinha um reloginho. Quando ele iniciava a conversação, ela batia esse reloginho. Quando ele terminava, ela encerrava e marcava os minutos que ele falou. Era mediante isso aí.

 

P/1 – E a senhora ficava com esse bilhete até o final do dia na sua mão, não? Ou alguém recolhia isso?

 

R – Não, telefonista chefe recolhia. Não, as telefonistas monitoras recolhiam  esses bilhetes e passavam para uma área que arrumava-os para mandá-los para cobrança.

 

P/1 – Aí esse material ia para Uberlândia?

 

R – É, para tarifar e para vir na conta do cliente.

 

P/1 – E a conta de novo chegava aqui depois?

 

R – Como hoje, a conta voltava para o cliente.

 

P/1 – Nessa época o cliente ia lá na telefônica para pagar a conta?

 

R – Não, lá não recebia conta. Recebia contas como até hoje, mas eram pagas no banco. Nessa época já tinha esse processo de pagar no banco, receber a conta em casa.

 

P/1 – Dona Maria Amélia, como foi essa evolução do seu trabalho e o impacto que provocou no seu fazer? Aí nos anos setenta veio o DDD, não é?

 

R – 75. Quando eu cheguei em Franca, seis meses depois Franca passou a DDD e, mesmo assim, várias localidades continuaram sem acesso de DDD. Mesmo assim o nosso serviço continuou, um número grande de serviço, muitas chamadas. Diminuiu um pouco para as capitais, onde São Paulo, por exemplo, o cliente conseguia direto, as cidades maiores, essa região do estado de São Paulo, do nordeste de São Paulo foi passando tudo a DDD. Então aí sim diminuiu, mas ficaram as cidades pequenas. Até hoje, você sabe que existem cidades que não têm, que o cliente usa a telefonista de interurbano para completar as chamadas. Na época havia muitas cidades.

 

P/1 – Quer dizer que o advento do DDD não tirou postos de trabalho das telefonistas, num primeiro momento?

 

R – Não, não, de jeito nenhum, muito pelo contrário. Porque o papel da telefonista, mesmo que tenha DDD, caso o cliente não consiga, ou um cliente que tenha dificuldades, o papel da telefonista da CTBC é estar auxiliando esse cliente. Isso nós aprendemos, que o cliente tem condições de fazer mas, se algo o impedir, nada nos impede de auxiliá-lo.

 

P/1 – Certo. E nesse momento, a senhora trabalhando ainda como telefonista, a senhora chegava a pressentir que ia haver um momento que as telefonistas não iam ser tão necessárias assim?

 

 R – Claro, a gente via, porque nós sabíamos que com o passar dos anos a tecnologia ia levar a isso, o crescimento da tecnologia ia levar a isso. E, veja bem, a CTBC nunca deixou de estar lembrando, estar mostrando à gente isso. A CTBC é uma escola, aqui você aprende muito. Não é qualquer escola que se aprende tanto quanto aqui. Eu falo isso porque para mim e para muitas outras pessoas que conheço foi uma escola. A gente troca ideias sobre isso. E a CTBC sempre nos alertou sobre isso, para o crescimento, que a gente tem que se preparar porque as funções mudam, acabam e as pessoas têm de estar preparadas para o crescimento, para as mudanças.

 

P/1 – E como é que a senhora foi se preparando nessa época?

 

R – Eu fiz universidade, eu aprendi outros serviços, embora sempre estivesse na área de atendimento porque eu gosto mesmo. Do interurbano eu fui para o atendimento 102, que são informações. Eu trabalhei também na digitação de serviços medidos, depois eu fui para o atendimento 103 que é solicitação de serviços. Fui para PABX por um ano e, hoje estou na área de contratos, na parte de dados.

 

P/1 -  A senhora ainda se referindo a sua educação, de onde é que veio essa sua opção pela História, por fazer um curso de História?

 

R – Eu te disse que na época que eu fiz o curso normal em Minas Gerais não era opção, era o único meio, o único caminho. E parece incrível, quando eu vim para cá, quando eu vi que eu queria estudar, que eu precisava estudar, e na época aqui já tinha outros cursos, eu optei pela História, porque eu gosto, eu sou muito curiosa e a História me dá esse caminho de descoberta. História é só para você lecionar, porque eu poucas vezes lecionei, não que eu seja uma péssima professora. Não é isso, não. Eu preferi ficar na CTBC. Na época, eu tinha proposta para ir para São Paulo, a minha irmã foi e eu não quis. Uma que eu quis ficar com a minha família e outra que eu já estava na CTBC e eu gostava do que eu fazia, e eu preferi ficar na CTBC. Mas História é parte de humanas, que te dá muita visão das coisas.

 

P/1 – Nessa sua época ainda existia essa limitação de que as telefonistas não podiam namorar, nem casar? Namorar até podiam, mas podiam casar?

 

R – Nessa época sim. Foram várias telefonistas que saíram para casar. Inclusive, a pessoa que eu consegui a vaga aqui, que eu fiquei no lugar dela, ela saiu para casar, e acho que o marido dela vai ser um dos entrevistados por vocês. Existia sim. Agora, eu não casei não foi por isso, porque eu podia casar e ficar, mas por uma opção mesmo, não pintou essa coisa na minha vida. Mas eu sou dessa época sim e conheci várias pessoas que ficaram na empresa e não casaram.

 

P/1 – A senhora falou rapidamente, agora eu gostaria que a senhora falasse detidamente sobre cada um desses serviços pelos quais que a senhora passou: 102, 103. Qual é o segredo de cada um deles?

 

R – Bom, 101 eu te disse que era a parte de interurbanos. E eu fiquei muitos anos nesse setor, até que esse serviço foi transferido para Uberlândia, porque esse atendimento era feito aqui em Franca e nós atendíamos toda a CTBC do estado de São Paulo. Depois essa parte de interurbano foi transferida para Uberlândia. Aí nós ficamos com a parte de informações, auxílio à lista. Nessa época, eu fiquei como atendente de auxílio à lista. Depois eu passei para apoio desse pessoal de auxílio à lista.

 

P/1 – E qual é a mudança maior?

 

R – Apoio é o seguinte: qualquer problema que elas tinham de atendimento, eu estava ali para orientar, para atender ao cliente que estava reclamando, para organizar o horário, folgas. Então eu fiquei nesse apoio. 

 

P/1 – E tinha muito problema?

 

R – Não, não tinha muito. Problemas comuns de clientes. Você sabe que quem lida com cliente, quem presta serviços, sempre tem alguns problemas. Então tinha o cliente insatisfeito porque a atendente pedia para ele consultar a lista e como ele estava com pressa ele reclamava. Aí ela me ligava e eu explicava para ele e às vezes eu até informava para não criar mais problemas. “Olha, eu vou informar o senhor dessa vez, da próxima o senhor vai procurar como. Então era mais ou menos isso. E na parte de ação de serviços, era aquela parte de reparos, era o 103 da empresa, onde o cliente chama para pedir uma transferência de endereços, para verificar um telefone que está com problemas.

 

P/1 – E aí qual era o seu procedimento quando havia esse tipo de reclamação?

 

R – A gente atendia, nós temos um sistema que é o SSO, nós cadastrávamos a solicitação no SSO, que depois ia para as área competentes.

 

P/1 – SSO quer dizer exatamente o quê?

 

R – Sistema de Suporte à Operação.

 

P/1 – Naquela hora que eu ia quase interrompê-la, quando a senhora pegava aquele cliente carne de pescoço mesmo, que já começava a conversa xingando a senhora, como é que era tratar uma pessoa mais alterada.

 

R – Nós nunca tínhamos o direito de brigar, de entrar na briga. Nós éramos orientadas para ouvir, deixar o cliente xingar. Na época, nós tínhamos uma pessoa aqui de alto poder aquisitivo e ele estava doente na época. Então quando a gente atendia o telefone, a gente não sabia se ele estava xingando a secretária ou se ele estava xingando a telefonista. Então nós deixávamos ele falar, nós puxávamos a chave, ele xingava, xingava e depois ele pedia o serviços que ele queria. E geralmente sempre evitávamos entrar em conflito com o cliente. É claro que às vezes você fica muito irritada, porque você ouve coisas terríveis. Mas o que a CTBC sempre pedia é que não entrássemos em conflito com o cliente, que evitássemos esse tipo de coisa ou passássemos para a pessoa mais próxima da gente, a encarregada, a monitora, a telefonista chefe ou coordenadora. Mas que não entrássemos em conflito. Isso não quer dizer que às vezes não respondíamos, nós somos seres humanos. Acontecia, mas era muito raro.

 

P/1 – A senhora disse que não conheceu o seu Alexandrino, mas conheceu o doutor Luís. Ele era muito presente, ele vinha muito aqui, que impressão a senhora tem dele?

 

R – Olha, eu o vejo como uma pessoa muito ocupada e até entendo porque ele vem pouco nas regionais, porque eu sei que ele é uma pessoa que não fica parada, está sempre estudando, está sempre viajando e tem que estar sempre apresentando a empresa em vários lugares. A impressão que eu tenho dele é que ele tem pessoas dentro de cada localidade, dentro da empresa que ele pode estar tranquilo que essas pessoas estão zelando pelo nome da empresa, fazendo com que a empresa caminhe, que ele não tenha que ficar preocupado e que ele tem todo o direito de ficar cumprindo as obrigações dele normal. Que ele não tem que estar aqui para fazer a empresa caminhar. E quando ele vem, ele é muito bem vindo, ele é uma pessoa maravilhosa, é muito simples e isso é muito importante. A simplicidade dele encanta qualquer pessoa, uma pessoa como ele, um empresário como ele… Às vezes a gente vê pessoas dentro da empresa que agem de forma diferente dele, que ele não faz, porque ele mesmo sendo dono é humilde.

 

P/1 – Onde é que a senhora acha que nasceu esse espírito de corpo tão forte dentro da CTBC? A senhora diz: “Ele não precisa vir aqui porque nós estaremos zelando pelo bom nome da empresa.” De onde é que a senhora acha que nasceu esse espírito que ficou impregnado nos associados?

 

R – Cada pessoa que está dentro da CTBC foi tão bem recebida por ela, ela se sente tão bem que ela se sente na obrigação de estar fazendo a coisa da melhor forma possível. Eu não diria obrigação, é uma coisa que é feita com prazer, ela dá a parcela dela de colaboração com o maior prazer. Isso é uma coisa que somente as pessoas que estão aqui dentro sabem. E as pessoas que estão lá fora também têm muita vontade de estar participando dessa família. A gente sabe disso, as nossas famílias. O que a gente leva daqui para a nossa família, para a nossa escola, para a nossa sociedade é a melhor coisa. A CTBC realmente é uma empresa onde todo mundo gostaria de estar trabalhando.

 

P/1 – Como é que foi para a senhora aquele momento de reestruturação da empresa sob o comando do senhor Mário Grossi, onde houve uma revolução dentro da empresa, como foi isso na sua visão, como é que pessoalmente lhe tocou tudo isso?

 

R – Todas as pessoas se assustaram de início, porque estávamos acostumados com um tipo de coisa, a empresa estava caminhando, a gente sentia que estava tudo bem na nossa visão. De repente chega o doutor Mário Grossi e faz essa mudança. No início, nos assustamos, era uma mudança, estava acontecendo alguma coisa que até então a gente não sabia, não conhecia. Por exemplo, hoje aconteceu isso, houve aquelas demissões, como que vai ser amanhã? Quem mais vai embora da empresa? O que vai acontecer? O que vai mudar? Eles estão falando em mudança, que mudança é essa, se está tudo bem, se está tudo caminhando direitinho, o que está acontecendo? E início todos ficaram assustados, os associados ficaram assustados. Mas depois nós continuamos trabalhando e a gente sentiu que aquela mudança era necessária e que tinha vindo no momento certo. Aprendemos até que a mudança é importante, é necessária. É isso aí. 

 

P/1 – A senhora se sentiu suficientemente informada sobre as coisas que estavam ocorrendo?

 

R – Ah, sim. Eu não sabia até aquele dia, que foi o dia em que houve as demissões e então o pessoal responsável chamou todos os associados e mostrou o que estava acontecendo. E a partir daí tudo o que vem passando a gente está ciente, a gente está sabendo. 

 

P/1 – A senhora temeu pela sua posição na época?

 

R – Olha, eu tinha consciência da minha obrigação, do que eu estava fazendo. Mas, veja bem, quem foi embora, naquela época, do meu setor? Foi a telefonista chefe, foram duas monitoras que estavam a muito tempo na empresa e que conheciam o serviço. Eu era telefonista, eu poderia ter sido mandada também. Isso não passou  somente na minha cabeça, passou na cabeça de todas nós, de todas as telefonistas, quem mais alguém daquele setor poderia ir também. Porque se mandou telefonista-chefe embora, imagina nós então. Se ela não era importante para a empresa, era o que a gente pensava no momento. Então quer dizer: “Vai sobrar para a gente.” Mas depois, o Ancelmo na época conversou com a gente, mostrou tudo o que estava acontecendo, o porque estava acontecendo e o que que ia acontecer futuramente, pediu calma e a gente procurou atendendo e entendendo. E passou essa fase. E foi uma primeira, foi um susto. A gente não estava preparado.

 

P/12 – E hoje, o que é o seu trabalho hoje e a senhora se sente preparada para o futuro?

 

R – Hoje estou na comunicação de dados, na assistente de contratos. É uma área que está em crescimento, gosto do serviço, é muito interessante. Agora, preparado eu acho que você se prepara a todo momento, você tem de estar se preparando. Agora, dizer: “Eu estou preparado”. Não, eu acho que não, eu acho que a gente tem que dizer: “Estou me preparando.”

 

P/1 – Como é o seu trabalho hoje, como é o processo dele, como ele se dá?

 

R – O consultor vende o serviço e solicita para a gente as OSs, de Ordens de Serviços, nós fazemos as Ordens de Serviços, elaboramos o contrato mediante o que ele nos passa, acompanhamos o desenrolar, desde a viabilidade para verificar se há condição de instalação daquele serviço, daquele circuito para o cliente, a implantação. Depois de implantado, passamos para a parte de faturamento. Hoje ainda não faço a parte de faturamento, porque estou a pouco tempo na área, mas tem a menina lá que trabalha na área a mais tempo e então é ela que faz a parte de faturamento, ela põe para cobrar o serviço. E depois de colocado para cobrar no sistema, no _______, nós acompanhamos, todo mês a gente acompanha, para ver se está cobrando, por exemplo, um CTBC ________, se está cobrando uma PABX, que foi vendida pelo consultor no mês passado, se está cobrando aquele valor certinho.

 

P/1 – Fica monitorando?

 

R – Fica monitorando o faturamento. Então, o que eu faço hoje é isso, é acompanhando isso, dando prosseguimento à venda do consultor.

 

P/1 – Quer dizer, não é mais só telefone apenas?

 

R – E também nós atendemos as outras teles. Por exemplo, eu atendo a Embratel, a Telemar, a Telefônica.

 

P/1 – Atende? Como assim?

 

R – Atendo quando ela vende algum serviço aqui em Franca, por exemplo, quando ela vende alguma linha de dados aqui para um cliente, ela solicita para nós porque ela não pode entrar aqui na nossa área e implantar o serviço, ela tem que pedir para nós. Então eu registro essa solicitação, ponho em processo de viabilidade, dou o número para aquela linha, quando há viabilidade eu informo que há viabilidade e que vou mandar implantar, mando implantar. E depois de implantada mando para Uberlândia que vai fazer a cobrança.

 

P/1 – E tem muita solicitação desse tipo?

 

R – Das teles? Olha, não, não é muito não. Eu espero que a CTBC venda mais. Eles ainda não têm muita entrada não. Eu não vou falar que têm pouca, mas também não têm muita. O que se cogita é que nós temos que estar atendendo o nosso cliente porque elas querem entrar. Então não podemos dar oportunidade a elas de estar entrando na nossa área. Muito pelo contrário, nós temos que sair para a área delas e trabalhar lá.

 

P/1 – A senhora já deu uma pequena passagem sobre isso, mas eu vou retomar a pergunta porque isso implica também numa visão de futuro. Quer dizer, a senhora tem uma experiência que vem caminhando desde a telefonia instalada numa pequena localidade até esse momento de grande competição, de grande concorrência. Como é que a senhora enxerga o futuro desta companhia nesse quadro que a senhora vem acompanhando o desenrolar dela durante tanto tempo?

 

R – Da CTBC? Olha, eu vejo o seguinte: Nós temos que trabalhar muito porque nós temos empresas que estão chegando com muita força, querendo tomar o mercado. Então nós temos que estar preparados, estar preparando, estar crescendo para estar atendendo essa competição. Hoje em dia você pode ver, por exemplo, a Telefônica está aí com toda a força, a Embratel está aí com toda a força, e outras que virão. Então, eu vejo assim, a CTBC precisa crescer principalmente na área de dados, tem que investir. Nós temos o pessoal, os consultores, o pessoal tem mesmo que trabalhar, que estar buscando esse cliente, mostrando nosso serviço, o nosso atendimento tem que se dar da melhor forma possível para estarmos canalizando esses clientes.

 

P/1 – Seu Alexandrino falava assim: “Cuide bem do cliente porque é ele que paga o seu salário.”

 

R – Exato. Eu já ouvi falar que ele falava isso. E hoje você sabe, com tanta opção que o cliente tem, é muito importante que haja um diferencial no atendimento. Eu posso até te falar que em Franca, aqui na região, a gente tem a muita atenção do cliente para com a CTBC, o cliente ainda gosta muito da CTBC. Mas isso não leva a gente a pensar que estamos com o bolo ganho, muito pelo contrário. Cada dia nós temos que estar oferecendo mais, melhor atendimento ao cliente, estar do lado mesmo, estar ali atendendo ele da melhor forma possível. Aliás, se pudéssemos adivinhar o pensamento dele. Olha, ligar para ele e: “Estou sabendo que o senhor está precisando de uma Internet aí na sua casa, hoje eu tenho Internet cinquenta vezes mais rápida, eu tenho Netsuper para oferecer para o senhor. Ele é melhor que o Speedy da Telefônica porque o Speedy da Telefônica não está aqui. Agora, o Netsuper está aqui em Franca e eu posso te oferecer com preço muito bom.” É por aí. Nós temos que estar atentos e, se possível, adivinhar o que o cliente precisa.

 

P/1 – Porque a diferença vai estar aí, não é?

 

R – A diferença está aí, porque esse cliente vai ficar admirado. Ontem eu vi isto. Nós temos uma parte de telemarketing lá e o cliente ligou para perguntar para a nossa cliente se nós tínhamos o Speedy. Ela falou: “Não, nós não temos o Speedy porque ele é da Telefônica, mas eu vou passar o senhor para uma pessoa que vai informá-lo sobre o Netsuper. Aí eu atendi, informei direitinho para ele, dei a nossa página para que ele entrasse e ele ficou super satisfeito. Não foi porque eu atendi, não porque fui eu, mas porque a CTBC pôde estar oferecendo esse serviço a ele. É claro que ainda não está liberado em Franca, mas vai liberar agora. Quer dizer, ele ficou satisfeito em saber que em muito breve a gente vai poder atendê-lo.

 

P/1 – Perfeito, dona Maria Amélia. A senhora teria alguma coisa que a senhora gostaria de ter dito e a gente não provocou a senhora a dizer?

 

R – Não, acho que é somente isso mesmo. Não sei se respondi exatamente ao que você perguntou...

 

P/1 – A senhora acalenta algum sonho, a senhora tem alguns sonhos?

 

R – Sonhos? Não, eu só quero viver bem, quero continuar vivendo bem, com saúde, ter a força que eu tenho para trabalhar, ter a família que eu tenho. Só isso. Ter Deus como eu tenho e ter a CTBC. É bom, não é? Acho que é muito até, acho que é um milagre, é de graça. Eu só quero isso. Eu nunca fui muito ambiciosa. Dizem que a pessoa tem que ser ambiciosa. Eu acho que eu fui ambiciosa dentro do limite. Eu sempre sonhei com aquilo que eu posso executar. Uma coisa que eu sempre trouxe comigo: Eu nunca vou usar ninguém para conseguir as coisas. Tudo que eu consegui até hoje, foi mesmo por esforço, foi por vontade. Eu sempre pensei: “Eu quero isso, e eu vou conseguir sem machucar alguém.”

 

P/1 – O que a senhora achou de ter dado esse depoimento para nós?

 

R – Olha, legal, tranquilo, eu me sentia à vontade e foi muito bom, sem problema nenhum. E a hora que chegar lá, as pessoas estarão me esperando para saber como que é. Com certeza eu vou falar que foi muito bom, que foi tranquilo, que vocês me deixaram à vontade, que vocês são super bacanas. Me senti em casa.  

 

P/1 – A senhora está em casa.

 

R – (risos).

 

P/1 – Obrigada, então, pela sua gentileza, foi muito bom ouvir a senhora.

 

R – Não, eu é que agradeço e peço desculpa por alguma coisa que tenha saído errada.

 

P/1 – Nada a desculpar, foi tudo por querer.

 

R – (risos).

 

P/1 – Muito obrigada, Dona Maria.

 

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