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História

Eu tive uma infância muito rica

História de: Vera Maria Vaz de Mello
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2014

Sinopse

Vera nasceu em Abaeté, mas a única coisa que se recorda de sua cidade natal é de uma senhora que a segurava no colo. Passou uma infância simples e feliz em São Lourenço, em meio aos bichos da casa dos avós, o picolé de polenta da merenda escolar, e os brinquedos feitos pelo avô, pessoa por quem tinha uma afeição especial. Passou uma fase da sua adolescência morando em São Paulo com a mãe, onde trabalhava e estudava. Despois resolveu voltar para São Lourenço, cidade em que constituiu família e vida profissional. Passou por diversos empregos e atualmente é gerente do Parque das Águas, trabalho que adora.

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História completa

Meu nome é Vera Maria Vaz de Mello, nascida em 24 de agosto de 1966, na cidade de Abaeté, norte de Minas. O meu pai, Peri Carlos de Mello, nascido em 31 de maio, o ano eu não me recordo. Minha mãe, Vera Maria Vaz de Mello, nascida em São Lourenço, aos 21 de setembro de 1939. Meu pai é nascido em Caeté, Minas também, perto de Belo Horizonte. Minha mãe era uma jovem, aos 17 anos se casou. E meu pai trabalhava no IBGE aqui em São Lourenço. Eles se casaram, tiveram os três primeiros filhos aqui em São Lourenço, e os três caçulas em Abaeté. Somos seis irmãos: Vânia Hercília, Valmir Heleno, Vilmar, Valquíria, Vera e Carlos Alberto. Todos com V. Só o Carlos que saiu... O “rapinha” do tacho saiu... Resolveu colocar o nome de um tio e do meu pai. A minha mãe era dona de casa. Uns dez anos após o casamento, eles se separaram. Tiveram seis filhos e se separaram. Ela retornou para São Lourenço, voltamos todos pra casa de meu avô. Então eu fui criada pelos meus avôs maternos. Não mimada, eu fui criada só (risos). E minha mãe voltou a estudar, foi embora pra São Paulo. Ela se formou em Direito aqui na cidade de Varginha, próximo a São Lourenço. E com isso, São Lourenço era muito restrito, ainda mais uma mulher, sozinha com os filhos, ela resolveu ir embora pra São Paulo, levou os três maiores, e os três menores ficaram aqui. Então a trajetória dos três maiores... Essa separação foi muito dura, mais dura até do que a própria separação dos meus pais, porque eu tinha um ano e 11 meses só, então não tenho tanta recordação assim, não lembro. Meu pai era um homem muito bravo, muito severo, filho assim de uma família muito grande, 22 irmãos, por aí. Mas um homem muito duro, muito bravo mesmo. Minha mãe era um doce de pessoa, uma mulher muito benevolente, muito carinhosa, amorosa. Então eram pessoas muito diferentes de gênio.

Eu não me recordo muito da minha cidade natal, de Abaeté. Tenho uma vaga lembrança de eu ficar num banco de madeira, um banco com umas ripas largas, eu sentada ali na porta de casa e brincando com uma senhorinha, sempre no colo dela, é o que eu me recordo. E ela era cega. Essa senhora era cega. E realmente ela existe, não é da minha memória, não, só. Eu sei quem ela é, a dona Ana, já é falecida e tudo. E não a conheci, mas vi fotos dela. Meu pai depois mostrou algumas fotos e eu reconheci, falei: “Gente, eu não saía do colo dessa pessoa”. Era uma vizinha. Era uma vizinha. Na verdade, nós éramos vizinhos de uma Vila Vicentina. Então essa senhora fazia parte, ela era moradora da Vila Vicentina, e com isso ela ia muito à casa da minha mãe, com as crianças todas pequenas ali, mas ela tinha um problema, ela não enxergava absolutamente nada. Então me lembro disso e lembro muito de São Lourenço. Aqui foi a minha infância, aqui é a minha casa. Eu nunca mais voltei. Eu saí de Abaeté e nunca mais voltei. Tenho uma vontade muito grande de conhecer a minha cidade natal, mas São Lourenço é a minha terra, é a minha cidade, me sinto daqui, a família toda é daqui. Ah, a casa da minha avó era uma casa enorme, parecia um hotel. Na verdade, ela tinha sido uma pensão, há muitos anos. Eles tinham o hotel e, como tinha muito veranista, era época de veraneio, as pessoas vinham muito para o verão, por isso o nome de veranista, e com isso, a casa da minha avó era muito grande, era uma casa que não era de dois andares, mas ela tinha porão. Então eram quartos grandes, enormes, e ela também alugava na época de temporada em São Lourenço. Então eu me recordo muito assim. Era uma casa muito grande. Ela tinha 25 metros de frente e 50 de fundos. Ela era uma chácara. Uma mina d’água, meu avô tinha criação de vaca, galinha, porco, cachorro, gato, tudo quanto é bicho. Tinha um papagaio maravilhoso, o Loro, muito amado. E era uma casa cor de rosa, os azulejos portugueses da varanda, então assim, tenho muitas recordações de frutas, de pés de laranja, limão, adorava chupar limão com sal, manga verde com sal. Eu tive uma infância muito rica, muito boa, com pessoas muito boas ao meu lado, os meus vizinhos. Muita saudade dessa época. Muita saudade mesmo. O meu avô era dono de uma colchoaria. Fazia colchões de mola, de capim, de crina. Na verdade, é clina que fala. E ele punha a gente pra trabalhar lá, cortar borboleta, ajudar a pontear o colchão. Era aqui em São Lourenço, nos fundos da casa. Chamava Colchoaria São Jorge. Então meu avô era famoso por isso.

A minha infância, assim, tinha um fogão à lenha, claro, naquela época todas as casas tinham. E quem fazia comida era a minha avó e as duas secretárias dela do lar: Neuza e Vilma, que eram irmãs. Comida farta, mas não existiam muitas guloseimas, não. As guloseimas, a gente que providenciava, a gente que fazia. Então assim, minha avó fazia... Lembro que aos finais de semana era festa, porque fazia pizza. E domingo era macarrão, arroz, maionese, farofa, era comida de domingo. Nesse dia podia ter refrigerante, os demais dias, não. Eu sempre acordei muito cedo, fui de dormir cedo. Sou até hoje de dormir cedo e acordar cedo. Cinco horas da manhã, eu estava de pé pra ajudar o meu avô a apartar as vacas, colocava os bezerros pra mamar e pra tomar o café da manhã ali. Então pegava um cafezinho, que ele fazia, eu já tinha ido lavar os úberos das vacas, apartava os bezerros e ficava esperando-o ali com uma canequinha com café, fundinho de açúcar, e ele tirava, o primeiro leite era pra mim. Era uma canequinha azul, uma delícia, curtia muito, muito. O café era um bule muito antigo, ele mesmo acabou construindo aquele aramado pra poder colocar o coador de pano. A minha avó fazia o coador. E ele passava o café, esquentava a água, ligava o fogo muito cedo e passava o café, coava o café, deixava em cima do fogão, na taipa do fogão. Eu pegava o meu golinho de café e descia com ele pra poder ajudá-lo.

Ah, as brincadeiras de infância, eu fui um verdadeiro hominho. Eu não usava camiseta, só ficava descalça e de short o dia inteiro. Mas assim, até sete e meia da noite eu podia brincar, depois disso, dentro de casa, banho tomado, jantado e assistir Jornal Nacional junto com o meu avô. Começava a novela, ele falava assim: “Não, novela ninguém pode assistir, só os mais velhos, só as mulheres mais velhas”. Aí a gente ia dormir ouvindo rádio. As brincadeiras. Passa-anel, soltar pipa, bolinha de gude, eu era campeã de bolinha de gude, bafo, que é aquela figurinha. O que mais? Bicicleta, eu não tinha, corria atrás das bicicletas das meninas da rua e acabavam que elas me davam carona, colocavam quatro numa bicicleta só. Carrinho de rolimã, carrinho de sebo. Eu gostava muito de brincar de casinha, adorava. Eu tinha minha criação, eu tinha uma galinha e eu pintava a unha dela de vermelho, e ela olhava pra patinha e caía, porque devia desequilibrá-la. Eu brincava muito com ela. Tinha gato, cachorro, tinha uma bezerrinha que era minha, chamava Vitória. Então assim, foi muito boa a minha infância. Eram brincadeiras de criança mesmo, a gente não via maldade nas crianças. Eram coisas assim, muito próximas a gente. Nós construíamos os nossos brinquedos. De brinquedo, eu brincava muito com limão, chuchu, pegava fruta na horta assim, fazia vaquinha, fazia bonequinha. Meu avô tinha uma habilidade muito grande com as mãos, além da colchoaria, ele fazia alguns carrinhos pra gente. Eu tinha um carrinho de boneca que ninguém tinha. As meninas podiam ter da Estrela, do que fosse, de qualquer outra marca, mas o meu não, o meu era feito de madeira de caixote de maçã e meu avô que fez pra mim. Eu tinha uma bonequinha preta, a coisa mais linda, cada dia eu mudava o nome dela, um dia eu chamava Vilma, porque a Vilma era minha referência, que ajudou a me criar, outro dia que colocava o nome dela de Neuza. Enfim, era uma bonequinha que era variada, trocava a roupinha dela. Outra coisa que tinha também na minha época eram umas bonecas de papel e você podia mudar a roupinha dela. Nossa, brincava muito com aquilo. Muito. Muito. Muito.

Meu avô era um homem muito bom, coração muito bom. Minha avó era muito dura, talvez até pela formação, pela raça. E meu avô meu deu essa galinha e eu coloquei o nome dela de Cocota. Então aonde eu ia, a Cocota ia comigo. E a Cocota já tava mais velhinha e tudo, e um dia eu cheguei da escola, tomei banho... Não, mentira, tomei banho não, tomava banho só na hora de dormir, era assim que acontecia. Fui brincar na rua, quando voltei, tomar banho, vamos jantar e dormir. Tava jantando e falei para o meu avô: “Vô, a Cocota não veio me ver hoje. O que aconteceu? Será que alguém pegou a Cocota?”. Aí minha avó chegou do lado, falou assim: “Você tá procurando quem?”. Eu falei: “A Cocota, vó”. Ela falou assim: “Uai, você não tá reconhecendo? Ela tá no seu prato”. Eu chorei muito aquele dia. Fiquei muito triste. Muito decepcionada, porque eu acabei comendo a Cocota. Tomei birra.

Ainda mais uma criança. Meu bichinho de estimação e tudo. Então assim, isso me marcou muito, eu achei ruindade por parte dela de fazer isso. Mas de contrapartida, no dia seguinte, meu avô, não sei como, arrumou um patinho filhotinho e dois pintinhos pra mim. Esse ela não matou, não. Não deixei, não. Esse eu tomei conta.

Eu comecei a frequentar a escola, eu tinha quatro pra cinco anos. Eu sempre fui muito magrinha, esguia, então assim, eu me recordo, eu tava no pré-primário, as pessoas achavam que eu tava no segundo ano. Então me recordo assim da minha primeira professora, a tia Ilda, uma fofa, é viva até hoje, sempre a encontro aqui em São Lourenço, faço questão de falar que eu fui alfabetizada por ela. Foi a escola que eu fiz o primário todo. E assim, era muito próxima da casa do meu avô, andava questão de 600 metros, então eu ia sozinha pra escola. Era uma escola muito simples, mas com excelentes professoras. Gostava muito da merenda. Ô coisa boa! Tinha sopa de fubá com couve, com queijo, macarronada, cada dia era uma coisa. Eu tenho muita saudade. Inclusive, essa senhora cantineira é viva e ela fazia uma sopa de triguilho, aquilo que faz a massa de quibe, na verdade, que aquilo era uma delícia, muito bom. E outra coisa que eles guardavam sempre pra mim, que a família é muito pobre, muitos netos e tudo, sobrava um mingau de fubá e ela fazia picolé daquilo, aí ela guardava sempre dois pra mim, eu não precisava pagar. Uma delícia. Colocava uma canelinha. E eu adorava Inglês. O Inglês, eu dominava. Eu achava que eu era a rainha do Inglês. Gostava muito. Geografia também eu gostava. Eu era uma aluna acima da média. Eu me esforçava. E meu avô cobrava muito também. Meu avô me cobrava, me puxava muito pra que eu fosse uma pessoa melhor, pra que eu fosse uma criança saudável. Mesmo não tendo dinheiro pra colocar no colégio particular, nem nada, caderno de um passava pra outro, roupa de um passava pra outro. Eu tenho mania de sapato, eu acho que isso foi o meu avô, porque quando a gente era criança, era um tênis e ele tinha que durar o ano inteiro. Então era o conga e assim, chegava no meio do ano, tava apertado, aí ele cortava a biqueira, aquela parte branca, eu ia com os dedinhos pra fora. Então assim, eu não tinha vergonha, nem nada, mas as crianças, os colegas, caçoavam, riam. Mas eu não tava nem aí, não. Estudei muito, quer dizer, nesse momento, nessa época. E isso foi muito bom.

Eu queria ser jornalista. Muito falante, não sei o quê, falei: “Ah, eu quero ser jornalista”. Uma vez falaram assim: “Mas por quê?”. Eu falei: “Não, porque eu acho que eu me comunico bem” – falei pra um tio. E acabou que eu caí em outra área e tudo, mas eu tinha essa vontade. Nunca pensei: “Ah, quero ser professora”. Não. Eu queria fazer jornalismo, sempre pensei quando criança. Não tive oportunidade, mas também não me arrependo, não. Gosto muito da minha profissão.

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