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História

Eu tive sorte com os meus maridos

História de: Ana Maria de Oliveira Barbosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/12/2014

Sinopse

Ana Maria de Oliveira Barbosa nasceu em 06 de setembro de 1950 em Olho D’água, na zona rural de Caucaia-CE. Aos nove anos de idade, descobriu que os pais a haviam adotado de um casal que ela julgava serem seus tios. Na adolescência, trabalhou com costura e vendeu tapioca e outros alimentos no mercado central de Fortaleza. Casou-se em outubro de 1970 e ficou viúva quatro anos depois, por conta de um infarto sofrido pelo então marido, quando ela cuidava do bebê que havia nascido há poucos dias. Em 1988 casou-se pela segunda vez. Em 1992, após seis meses do nascimento da filha, novamente ficou viúva. Apesar de tantos acontecimentos dolorosos, Ana Maria conta uma história de muita luta e esperança. Ela fala das particularidades da região em que viveu, principalmente dos medicamentos caseiros utilizados na cura das enfermidades e das práticas relacionadas aos partos.

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História completa

Sou Ana Maria de Oliveira Barbosa e nasci em 06 de setembro de 1950 na comunidade Olho D’água, na zona rural de Caucaia-CE. Os meus pais são João Inácio de Oliveira e Lucíola Torquato de Oliveira que me adotaram quando eu ainda era bebê. Essa adoção foi dada antes de eu vir ao mundo porque os meus pais que me adotaram não tiveram família. Eles disseram - eu fiquei sabendo aos nove anos de idade. Eu soube na escola. Quando cheguei em casa e falei à minha mãe, ela disse: “Eu não sei responder nada, mas você pergunte ao seu pai”. Quando papai chegou do trabalho, eu fui e perguntei a ele, que disse: “Agora eu não posso lhe responder nada, porque eu estou cansado. Vou tomar banho, almoçar e depois eu lhe chamo para conversar”. Quando ele terminou de almoçar, me chamou e disse: “Se eu tivesse dez filhos, você seria a primeira, porque não existe maior amor do mundo que eu queira como você. Eu lhe adotei porque eu nunca tive família. Criei você e a tenho par o resto da minha vida. Só a morte nos separará”. Eu também nunca fiz questão de perguntar aos meus pais dos meus pais biológicos. Aos nove anos eu os conheci. Fui criada junto com as minhas irmãs, mas eu não sabia. Só aos nove anos eu soube. Eu fiquei com raiva porque o meu pai biológico bebia muito. Ele era de muita confusão, que saía de casa e nos deixava com necessidades, não ligava, ia para botequim gastar o dinheiro. Ia beber e voltava sem nada. O meu pai que me adotou nunca fez isso. Eu fui criada, graças a Deus, com os meus pais pobres, mas com carinho, com amor e com tudo dentro de casa. Nunca sofri dificuldade, mas as minhas irmãs sofriam. Então, não fiquei chateada, porque eu ia passar pelo sofrimento das minhas irmãs se eu estivesse lá. Mas, no fim, isso não me chocou muito.

A minha casa era dentro desse próprio terreno aqui, mas era longe, lá no meio do terreno. Era uma casa de taipa – uma casa de barro -, muito grande e com a casa de farinha. Era rodeada de alpendres, aqueles paus, aquelas forquilhas. Uma casa com muitos trabalhadores fazendo farinha. O meu pai e a minha mãe trabalhavam e muitas pessoas antigas, que já se foram e que não voltam mais. Esse povo trabalhava nessa casa de farinha, nessa moagem, há mais de 50 anos. Ninguém passou dificuldade porque o meu pai tinha muito gado, porco e ovelha. Quando ele queria, matava, vendia e dava. Comíamos carne, toucinho dentro do feijão, baião - aquele baião com leite de coco para ficar bem liguento. Todo mundo criava suas galinhas, tinha muito ovos, capote, peru. Todo mundo tinha suas criações.

Lembro-me que não tinha médico e nem transporte. Aliás, médico podia até ter alguns em Fortaleza, mas o pior de tudo era o transporte. O meu pai ia para Fortaleza, para a Igreja da Sé, que fica no centro de Fortaleza. À pé, eles iam para as casas dos rezadores para fazer um chá, que muita gente ainda usa: gergelim, eucalipto, limão, alho - os chás que as pessoa usavam quando ficavam doentes. Quando extraía um dente e que dava hemorragia, furava uma bananeira, molhava bem molhadinho daquele leite da bananeira, colocava onde tinha extraído o dente para estancar o sangue. Os medicamentos que eu ouvia falar eram esses. As pessoas que tinha as doença ficavam avermelhadas – que é a erisipela. Eles iam no mato, raspavam a jurema - tinha uma jurema preta -, tiravam uma lasca, colocavam para cozinhar e ficava aquele cafezão preto. Lavava a perna, pegava umas folhas grandes que chamavam carrapateira e amarravam na perna para desinflamar. Esses eram os medicamentos que eu ouvia falar. Eu sei que tem gente que usa. Eu uso ainda. Tem esse pezão de árvore verde, que é um pé de jucá, que dizem que é bom para a dor nos ossos, pois é um anti-inflamatório. Quando a minha coluna está muito inflamada, pego uma casca, uma folha, uma raiz, faço um chá e tomo. E melhora. Aquele outro, que hoje a menina veio buscar aqui, que é o mastruz - tem muita gente que ainda toma. Passa em cima de alguma pancada, de alguma coisa, porque o mastruz é muito bom para espalhar o sangue. Tem a alfavaca, que o pessoal faz banho para lavar a cabeça quando está com sinusite. 

Eu estudei numa escolinha da prefeitura que se encarregava de pagar as pessoas naquela comunidade, na casa de morada. Tinha aquela salinha de aula para ensinar as crianças. A prefeitura se responsabilizava de pagar. nome dela é Dona Cléa. Eu acho que foi o grande interesse que ela tinha em me ensinar. Aquela responsabilidade que ela tinha por mim, que eu achava até que ela gostava mais de mim, não sei se é porque também eu me interessava mais. A mãe dela também era uma senhora bem idosa, que me ajudava muito e ensinava quando eu estava com dificuldade. De vez em quando eu ligo para ela. Ainda antes de ontem ela disse: “Ana, qualquer dia eu vou passar o dia com você. Eu sinto saudade”. E eu também sinto. Ela ensinava muita gente na casa dela. A mãe dela era uma pessoa que, nesse tempo, chamavam de rico. Tinha muitos moradores que trabalhavam e tinha muita criança. O terreno era grande e aquele pessoal todo precisava ir para aula mas não tinha. A mãe dela, muito inteligente, foi na prefeitura, encarregou-se lá com o prefeito e aí, fizeram essa sala de aula na casa dela mesmo, para os moradores. Tinha muita gente que precisava. Eu estudei dos nove até os 16 anos. Eu comecei com ela na cartilha ABC. Fiquei o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto ano. E, pronto, parou. Todo mundo largou. Eu vim terminar os estudos há dois ano, numa escola particular. Porque ou termina ou, então, perde o emprego. Naquele tempo, quando chegava no sexto ano já estava bom. Na adolescência, trabalhei com costura e vendi tapioca e outros alimentos no mercado central de Fortaleza. Eu trabalhei a vida toda. Ia para a aula e, quando eu chegava, costurava. Fazia o serviço de casa. Eu sei fazer o bordado, costurar, e sei fazer muitas coisinhas. Nunca fiquei parada, de jeito algum.

Eu conheci meu esposo num velório de uma senhora que estava doente há muito tempo e, nesse tempo, as pessoas se juntavam e passavam a noite ajudando aqueles familiares, com aquela pessoa doente também. Eu cheguei a conhecer ele lá, no dia 10 de abril do 1969. Começamos a conversar - sempre tem que ter os papos (risos). Ele perguntou se poderia vir na minha casa e eu com medo que ele não viesse, pois o meu pai podia achar ruim e era aquela coisa. Falei ao meu pai, Ele disse: “Minha filha, se soubéssemos quem prestava, teria um letreiro na testa. Mas como não sabemos, se casamento é sorte e você já está mocinha, já está boa de arranjar uma pessoa, porque eu estou de idade. E tenho fé em Deus que, quando eu chegar a partir, você já estará na sua casinha, com a suas responsabilidades”. Ele nunca colocou obstáculos também. Namorávamos em casa mesmo. Quando queríamos ir a algum canto, essa senhora ia conosco, ou então, a minha mãe. Nunca saímos só. Nesse tempo, eu nunca gostei de praia, mesmo assim, na minha idade eu nunca gostei, mas a gente só saía acompanhado com alguém. Eu me casei no dia 28 de outubro do 1970, mas no dia 26 de abril do 1974 eu fiquei viúva pela primeira vez. Ele tinha 22 anos de idade. Nunca bebeu e nunca fumou e morreu de infarto. O bebê estava com 11 dias. Era à noite, ele já tinha jantado às seis e meia, sete horas e eu fui ajeitar a água para banhar o neném e fazer o mingauzinho dele. Quando eu entrei, ele terminou de jantar, deitou-se pertinho da porta e, quando eu fui passar com a banheira, ele disse: “Eu estou com dor de cabeça”, e quando eu olhei para ele, já estava todo revirado. Não tinha 20 minutos que ele tinha saído da mesa e o olho dele já estava todo revirado. Eu soltei a banheira e fui fazer um chá para ele. Quando eu voltei ele já estava com o dente cerrado. Às duas hora da manhã, tinha a dificuldade do transporte, não tinha telefone, não tinha nada. Um senhor que sempre frequentava a nossa casa, que tinha uma barraquinha aqui perto. Gritei por ele e ele foi nessa casa onde eu nasci e que o meu pai morava lá. O meu pai veio, foi atrás do transporte, levemos ele para Fortaleza, mas quando chegou lá ele faleceu. Fiquei com três filhos homens, cuja idade era de três, um ano e pouco e o menor, com 11 dias de nascido. Passei dez anos com meus pais. Quando eu fiquei viúva, fui feirante em Fortaleza para ajudar os meus pais a criarem os meus filhos. Não era tanta necessidade, porque eu via que eu precisava de trabalhar mais. Tanto que tiveram a criação dos meus pais. Do mesmo jeito que eles me criaram, criaram os meus filhos. Eu trabalhava e colocava as coisas dentro de casa para ajudar.

Nesse intervalo, conheci algumas pessoas, mas, como eu digo, tudo eu tinha que participar para ele - até com essa idade de 25 anos. Já viúva, com os meus meninos já na responsabilidade dele. Quando eu arranjava uma pessoa, ele dizia: “Bom, você já é uma pessoa de maior, já sabe o que faz. Eu só não quero que nunca me faça vergonha”, porque esses pessoal antigo é muito moralista. Com 30 anos de idade e dez ano de viúva eu conheci o meu segundo marido, que  era de fora. Seu nome era Luiz Gonzaga. Ele veio de fora para construir esse açude que tem aí em frente. Eu tinha um comerciozinho muito pequeno. Em 1988, casei-me novamente e no dia 2 de dezembro de 1992, seis meses do nascimento da minha filha, novamente fiquei viúva. Nesse período, abandonei o comércio de alimentos para trabalhar como agente de saúde contratada pela prefeitura de Caucaia, profissão à qual não pretendo me aposentar tão cedo. 

Depois que eu fiquei viúva ainda aproveitei muito a vida, mais do que solteira. Porque quando eu era solteira tinha que estar todo o tempo no mocotó do meu pai e da minha mãe. “Chegou a hora, vamos embora”. Mas aí, tinha uma senhora também que gostava de sair conosco e as viúvas saíam com uma turma de moças, senhoras de responsabilidade e eu ia no meio. Fui muito mesmo de farra, de dançar. Nunca bebi, não sei o que é um gole de uma bebida. Não é porque não tivesse oportunidade, mas foi porque eu nunca quis. 

“Mulher, tu não teve sorte com marido. Os seus marido morreram”, e eu digo: “Eu não tive? Eu tive muita sorte”. Eu canso de ver as pobres chorando por aí, que os maridos trabalham por semana, ou mensalmente numa empresa, recebem o dinheiro, colocam no bolso e vão para as farras e chegam em casa sem nada e abusando. E eu, graças a Deus, de Deus não posso falar nada. Nenhum morreu de coisa ruim, eu acho que foi com a permissão de Deus.

Sou mãe de quaro filhos, sendo três homens que nasceram em casa e uma menina que nasceu no hospital - porque era para fazer a ligação. Todos os partos foram com as cachimbeiras - as parteiras - em casa. Uma senhora por nome de Maria Café, que era cachimbeira desse povo aqui todinho. Ela faleceu há pouco tempo. Foi tudo bem rapidinho. Quando eu comecei a sentir as dores do primeiro, e de todos eles - quando essa cachimbeirazinha chegou, eles já tinham nascido. Todos os partos foram rapidinhos. Por isso que, às vezes, a pessoa diz assim: “Eu passei vários dias sofrendo”, e eu penso comigo: “Graças a Deus, Senhor, porque eu não sofri”. Até com o meu segundo filho, que pesou quase cinco quilos e nasceu de pé, eu tive sozinha. Quando a cachimbeira chegou, ele já tinha nascido.  Eu ficava deitada e, quando nascia, eu só afastava um pouquinho e ficava ali aguardado que a cachimbeira chegasse para tirar e ver se a placenta já tinha nascido. Depois ela cortava o umbiguinho e tirava. Quando nascia eu me virava e deixava ele do ladinho para quando chegasse a pessoa, ela saberia como ele estava. Eu não ia querer mexer, eu não sabia como estava a situação. Porque é um momento muito perigoso. Eu amo o meu trabalho. Quando eu estou de férias, saio daqui e vou na casa que eu sei que a pessoa ganhou um nenê; eu vou na casa daquele outro que eu sei que ele não vive muito bem de saúde; vou na casa dum paraplégico - que levou uma queda, quebrou a coluna e vive paraplégico -, para saber como é que está a situação dele, como é que está indo, como é que está sendo. Nessa profissão como agente de saúde, eu já peguei bebê e levei para a maternidade. Às vezes, acontece de ter dentro do carro, quando estamos à caminho da maternidade. 

Disseram que, como somos registrados como povo Anacé, dizem que, mesmo sem mexer aqui, que eu vou ter o direito de sair e ir morar lá onde vão fazer essas casas, como a do Júnior, da Dora, desse outro povo. Eles vieram aqui e já tiraram o título do terreno e mediram. Disseram que é para irmos para lá. Aqui eu posso deixar alguém morando, posso alugar e, se caso aparecer uma empresa que queira comprar, eu posso vender. Mas como somos cadastrado, temos que ir. A história é essa, não sei se vai ou não. Aqui, eu, a minha menina e mais dois filhos somos cadastrados. Teve um que não quis e que disse: “Não tem índio por aqui, não, é tudo mentira. Eu nunca ouvi falar de índio nessa área aqui”. Ele não se cadastrou. 

Meu dia a dia é sair de manhã. Não me aposentei, não fui atrás de aposentadoria porque eu amo meu trabalho. Vou ficar isolada do meu povo que eu visito. Não sendo mais uma agente de saúde, eu não vou mais colocar a minha mochila nas costas e sair à oito horas da manhã. Eu não teria mais nada para conversar com eles, nem para orientar. Porque, assim que eu sair, vai ter uma outra agente. E eu não vou me meter no que eu sei, porque cada um tem um modo de trabalhar. Tem tantos sonhos que se pode realizar. O que eu mais quero e que eu tenho fé é de que eu ainda vou durar muito, vou ver os meus netos casadinhos, nas suas casinhas. Mas, não tenho um sonho que eu ainda vou realizar - de morar lá em cima, ainda vou realizar. Esse aí, eu não tenho não. Tem quem diz assim: “Eu vou sair daqui, e vou realizar o meu sonho, vou lá para Fortaleza.” Graças a Deus, está bom demais desse jeito. Graças a Deus! Agradeço muito a Deus por ter chegado até aqui e estar aqui, ter o meu dinheirinho para ir passando.

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