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História

Eu tinha essa facilidade de gostar muito de criança

História de: Arthemisa Freitas Guimarães Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2014

Sinopse

Arthemisa é de uma família tradicional de São Lourenço, intimamente ligada à história da cidade. Sempre gostou de criança, e um dos acontecimentos que mais marcaram sua adolescência é o nascimento da afilhada, por quem nutre grande afeição. A gravidez inesperada aos 18 anos foi um susto no início, mas logo se tornou uma aventura que encarou com vitalidade e prazer. Formou-se em pedagogia, trabalhou como coordenadora pedagógica e diretora no Ensino Fundamental, e atualmente é pedagoga no Instituto Federal de Educação, em Carmo de Minas.

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História completa

Meu nome é Arthemisa Freitas Guimarães Costa, eu nasci no dia 28 de abril de 1977, aqui em São Lourenço. A minha mãe é Cássia Maria Junqueira de Souza, ela nasceu em 17 de dezembro de 1953, aqui em São Lourenço. O meu pai é Hergos Duarte Freitas, e eu não sei o local de nascimento e nem lembro agora a data. Ele faleceu eu tinha nove anos. A minha mãe é biblioteconomista, e o meu pai estudou até o último ano de Engenharia Mecânica, mas ele não concluiu o curso. Quando eu nasci, bem pequenininha, nenenzinha, eu fui morar em Belo Horizonte com eles. Que minha mãe ficava só em casa, cuidava de mim, meu pai fazia faculdade de Engenharia. Eles eram assim, bem revolucionários, lutavam contra a ditadura, num movimento de redemocratização. Só que meu pai quando tava no último ano de Engenharia, ele usou uma droga e ficou esquizofrênico. Desencadeou a esquizofrenia e a gente voltou pra São Lourenço, eu tinha três anos. E eles acabaram se separando, mas eu sempre convivi com meu pai. Só que quando eu tinha nove anos, ele faleceu. A minha mãe sempre me ajudou bastante. Quando a gente voltou pra São Lourenço, ela ainda não era formada, não tinha estudado ainda, aí a gente foi morar com a minha avó e ela começou a estudar, fez magistério, começou a trabalhar na Biblioteca Municipal, e depois fez Biblioteconomia. Uma relação boa, ela não tem muitos tabus, é bem resolvida, e atualmente ela é aposentada e mora em Belo Horizonte.

A família da minha mãe foi um das fundadoras, na verdade, da cidade de São Lourenço, porque o pai da minha bisavó veio pra cá antes ainda da descoberta das Águas e eles tinham a fazenda, que é ali na Praça da Federal. Agora já demoliu a casa que era sede da fazenda, que era o chalé, e a Praça da Federal era o curral da fazenda. E depois os bairros, cada filho ficou com um pedacinho de terra, que foram os bairros. E a minha bisavó contava até que os viajantes quando descobriram as Águas, os viajantes vinham, as pessoas vinham e pediam até hospedagem na casa dela. E ela casou, o meu bisavô era italiano. Eles vieram da Itália e eles tinham um açougue na estação, mexia com essa parte de carne e tudo. Então é uma família bem histórica aqui de São Lourenço. A família do meu pai, a minha avó é baiana, e o pai do meu pai, eu não lembro exatamente, eu sei que eles vieram pra cá, aqui tem a Eubiose, ele foi um dos fundadores da Eubiose, junto com o professor Henrique. E veio pra cá assim, por conta mesmo da Eubiose, tudo, e ficaram aqui.

A casa que eu passei a infância era ali o chalé na Pracinha Federal, e a família, os meus tios, toda a família, quase, morava bem próxima. Era a casa da minha avó que eu passei a minha infância, e morei lá até a vida adulta, na verdade. A casa ainda tá lá, é uma casa grande, tem quatro quartos, tem quintal, tinha pé de mexerica. Assim, a casa que a gente tem mais afetividade, lembra mais, é o chalé, que agora já foi demolido. Depois que a minha bisavó morreu, foi vendido e eles construíram um prédio. E lá no chalé tinha jabuticaba, manga, figo, fruta-do-conde. E a gente brincava de circo, colocava serragem, subia na árvore, era muito gostoso. É ali na região entre a Federal, quando termina a Federal, e inicia o Centro. Tem uma praça, é a Praça da Federal. E a cidade era bem mais tranquila, a gente brincava na rua, a rua ali não tinha saída, então era bem tranquila mesmo. Tinha poucos prédios ali na avenida principal, que dava para o Parque das Águas, quase não tinha prédio.

Eu era bem pequena quando comecei a frequentar a escola. Eu tinha dois aninhos. Lá em Belo Horizonte ainda. Depois eu vim pra cá e continuei. Aqui em São Lourenço, eu entrei no Colégio das Irmãs, eu devia ter de três pra quatro anos, e tenho a lembrança que foi uma professora que marcou muito a minha vida, que foi a irmã Sirlei, e a gente é amiga até hoje. Hoje ela mora em São Paulo, trabalha lá no colégio... Esqueci o nome do colégio de freiras lá. E sempre que eu vou a São Paulo, eu visito. Ela já morou nos Estados Unidos, a gente trocava carta. E foi a minha primeira professora, que eu amava, e tenho muita lembrança. Ah, ela era doce, carinhosa, muito afetuosa, sabe? Era aquela coisa assim que aconchegava mesmo. Ah, o colégio sempre foi muito gostoso. Tinha bastante espaço ao ar livre, na época que eu era pequenininha lá a quadra ainda não era coberta, tinha um parquinho delicioso, todo gramado, com árvore. Bem gostoso. Eu estudei lá até o jardim. Depois minha avó dava aula numa escola pública muito boa, que era a Nossa Senhora de Fátima, e eu acabei indo com ela porque facilitava. Como minha mãe estudava e tudo, era difícil. E com ela, eu já ia e voltava, era mais tranquilo. Estudei até a terceira série nessa escola. Na quarta série, eu voltei para o Colégio das Irmãs e depois fiz até o magistério lá também.

Na época de adolescência a gente saía, a gente gostava de tocar violão, de ouvir MPB. Eu tinha poucos amigos, mas assim, umas amizades bem intensas, que eram amigos de verdade, que iam pra cá, iam pra lá. Antes de eu fazer magistério, eu comecei a fazer magistério, mas depois eu falei: “Eu acho que não é isso que eu quero. E quero estudar fora”. E eu comecei a namorar meu esposo com 15 anos. Eu fui pra Belo Horizonte pra começar estudar, fazer o ensino médio lá, mas acabei não aguentando ficar. Eu falei: “Ah, não, quero ir embora, não quero ficar aqui”. E voltei. E voltei para o colégio, fiz o magistério, e namorei dos meus 15 aos 18 anos. Com 18 anos eu fiquei grávida e casei. A gente já pretendia casar, na verdade, porque eu formei o magistério com 17. Só que a gente tava programando, comprando móvel, aquela coisa toda, e aí eu fiquei grávida, e “vamos casar”, e adiantamos um ano o casamento.

Eu comecei a passar mal e tudo, e essa minha prima, que é muito amiga minha, a Débora, ela morava em Itajubá, eu falei: “Débora, eu to passando mal, eu acho que posso estar grávida, minha menstruação atrasou e tal”. Ela falou: “Ah, vem aqui em Itajubá”. E meu tio era bioquímico aqui o hospital. Então eu falei: “Eu não tenho coragem de fazer exame aqui em São Lourenço em lugar nenhum, porque meu tio é bioquímico, a cidade é pequena, eu tenho medo de ele ficar sabendo antes de mim”. Ela falou: “Não, vem aqui pra Itajubá, tem um laboratório aqui, você faz o exame aqui”. A gente pegou o carro do pai dela, na época eram Corcel, emprestado, e a gente foi pra lá, eu e com o que hoje é meu esposo. Fiz o exame lá, deu positivo, voltei descabelando. Eu falei: “Ah, meu Deus, e agora?”. E contei. Ah, minha mãe ficou... Levou um choque, porque ela não esperava que acontecesse isso, queria que eu estudasse primeiro. Eu tava no primeiro ano da faculdade, começando a vida e tal. Mas foi só naquele momento também, depois foi tudo dando certo. Então, ele nasceu, na verdade a cesárea foi programada. O médico falou assim: “Amanhã, dez e pouco da manhã, você vai para o hospital, que a gente vai fazer um exame”. Na verdade foi assim. Eu fui. Cheguei ao hospital, ele falou: “Vamos?”. Eu falei: “Vamos aonde?”. Ele falou: “Ter esse neném?”. Eu não tinha levado mala, não tinha levado nada. Eu falei: “Nossa, mas você falou que era um exame”. Ele falou: “Não, eu falei só pra você não ficar assustada, mas vai lá rapidinho, pede pra alguém ir lá pegar as coisas”. Eu já tinha deixado as coisas separadinhas, eles foram. Foi tranquila a cesárea. A melhor sensação do mundo é quando tira o neném e coloca aquele rostinho quentinho, você sente aquela pele quentinha. Maravilhoso. Eu tinha 18 anos, era muito nova. Eu tinha essa facilidade, gostar muito de criança. Assim, eu tinha uma afilhada que eu amava, e os pais dela, eu dormia na casa deles, à noite eu cuidava dela pra eles dormirem. Então eu já tinha assim, sabia trocar, dar mamar. Não foi aquele susto. Eu praticamente brinquei um pouco de boneca. Mas, assim, foi muito tranquilo. Bem pequenininho, eu já coloquei na natação, atravessava a cidade de bicicleta com ele na cadeirinha da bicicleta pra levar pra levar pra natação. Com um aninho, ele já mergulhava comigo. Foi assim, bem aventura mesmo. Tinha o maior pique, dançava, pulava, brincava, pintava no muro. Tinha um quartinho lá da casa, que era de passar roupa, deixava pintar a parede, rabiscar a parede, fazer tudo que queria.

Durante o magistério eu dava aula particular. Ajudava na escola assim, todos os conteúdos. O próprio colégio indicava, eu tinha alguns alunos fixos que eu ajudava a fazer tarefa, dava uma explicaçãozinha das matérias, aquela coisa mais do dia a dia mesmo. Com 17 anos eu me formei, em dezembro, em fevereiro eu consegui um contrato na prefeitura de auxiliar de biblioteca. Eu passei de fevereiro a dezembro trabalhando numa escola lá no Carioca, que chama Doutor Emílio, na biblioteca, de auxiliar. Em fevereiro eu comecei a trabalhar, em março eu fiquei grávida. Eu trabalhei até novembro, em novembro meu filho nasceu. Quando foi no ano seguinte, que o Gabriel já tinha nascido, eu consegui um vaga de professora aqui na Escola Ismael Junqueira, que é a escola que eu trabalhei depois por 18 anos. Eu vim pra cá pra uma turminha de primeira série, de alfabetização. O Gabriel era pequenininho, eu peguei essa turminha na Ismael e comecei a fazer faculdade à noite.

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