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História

Eu tinha a veia para o comércio

História de: Athayde Passos da Hora
Autor: Ana Paula
Publicado em: 15/12/2021

Sinopse

O entrevistado conta sobre sua infância na Baixada Fluminense e sua mudança para Brasília em 1960. Fala de sua trajetória profissional no setor terciário de Brasília e da sua experiência em entidades de classe durante a redemocratização.

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História completa

Memórias do Distrito Federal - Memórias Compartilhadas Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Athayde Passos da Hora Entrevistado por Eliete Pereira e Leni Justo Brasília, 9 de março de 2009 Entrevista número: MDF_HV016 Transcrito por ? Revisado por Alice Silva Lampert P/1 – Bom, seu Athayde, boa tarde. Eu gostaria que o senhor dissesse o seu nome completo, o local e a data de nascimento. R – O nome é Athayde Passos da Hora, faço sempre questão de dizer que o meu Athayde é da antiga, que tem “h” e tem “y”: [soletra] “t” “h” ”a” “y” “d” “e” . Eu também brinco muito que o meu local de nascimento foi pra colocar no currículo, eu nasci em Florianópolis, embora não tenha nada contra Florianópolis, mas fui lá pra nascer. Meu pai, na época, foi desenvolver um trabalho lá e eu nasci em Florianópolis. Com três meses de idade, ele retornou pro Rio de Janeiro, que é a origem de toda a família, mas fui registrado lá. De maneira que pouquíssimas pessoas sabem que eu sou catarinense, que não tenho jeito, meus olhos não são azuis, nem verdes. P/1 – E qual o dia que foi? R – 21 de março de 1942. P/1 – Qual a sua atividade profissional atual, seu Athayde? R – Eu sou consultor de empresas, consultoria empresarial. E aposentado. Atualmente exerço uma função de consultoria, como assessor da presidência da Federação do Comércio no Distrito Federal. P/1 – Senhor Athayde, qual é o nome dos seus pais? R – Athayde da Hora e Maria Helena da Hora, falecidos. P/1 – E o senhor chegou a conhecer os seus avós? R – Conheci rapidamente o avô, pai do meu pai e de uma forma melhor e mais intensa, a avó, mãe de minha mãe. P/1 – Eles eram do Rio de Janeiro? R – Do Rio de Janeiro, da cidade de Campos. A origem da família da Hora, é de Campos, no Estado do Rio. E também no Rio de Janeiro, ainda tem uma grande parte, mas a origem é lá de Campos, no Estado do Rio. P/1 – E qual era a atividade profissional dos seus pais? R - A minha mãe era o que nós podemos chamar de pessoa do lar, né? O meu pai tinha uma atividade fantástica, que muito me emociona até. Ele prestou serviços à marinha do Brasil. Inicialmente, reformava e construía faróis, e depois se tornou um faroleiro. E a minha situação é até muito curiosa, porque eu nasci numa ilha, num farol, lá em Florianópolis, na Ilha do Arvoredo, no Farol de Santa Marta. De maneira que é uma história muito bonita, muito interessante. Essa era a atividade dele, um homem que prestou serviços à marinha como faroleiro. Tem até um caso curioso, rápido, há alguns anos atrás, eu recebi uma medalha aqui da marinha, “Amigos da Marinha”, e que, com certeza, dediquei inteiramente ao meu pai, eu recebi isso, mas foi ele que foi o grande merecedor dessa medalha. P/1 – Seu Athayde, o senhor passou a infância no Rio de Janeiro? R – Isso. P/1 – E como foi a infância do senhor? R – Uma infância boa, como jovem de uma família pobre, mas não com dificuldades de nada, de alimentação, nada disso. O meu pai morreu cedo, eu tinha sete anos, ele morreu jovem. Fomos criados pela mãe e pela avó. E num lugarzinho muito interessante lá no Rio, nós chamamos a Baixada Fluminense, que fica entre São João de Meriti e Nilópolis, lugar chamado Tomazinho. Eu faço muita questão de ressaltar que está lá, continua lá o Tomazinho, sempre que vou ao Rio, procuro dar um pulinho lá para rever aquilo tudo. E foi uma infância trabalhando. Até uma curiosidade, naquela época - hoje a coisa mudou muito - eu tive, por exemplo, minha carteira assinada “de menor”, eu tinha 13 anos de idade. Tanto é que eu me aposentei com 48 de idade, e 35 de contribuição do sistema. Sempre trabalhando, estudando, uma vida normal. A cidade do Rio de Janeiro, o mundo não era tão violento como é hoje, as drogas não habitavam tanto esse país e o mundo, como habitam hoje, de maneira que tivemos uma infância bem tranquila nesse aspecto. P/1 – O senhor tem irmãos? R – Irmãos. Eu tenho três irmãos. Uma irmã, meia-irmã, era filha só do meu pai, a mais velha, e dois irmãos, resultado do casamento do meu pai com a minha mãe, uma menina, Alda, e o irmão Ademir, que aniversariou ontem, por sinal, no Dia Internacional da Mulher. P/1 – Seu Athayde, o senhor estudou no Rio de Janeiro? R – No Rio eu fiz primário, ginásio, na época o científico, né? Até fiz uma prova pro Instituto “Nemaniano”(?) do Brasil, que era uma escola de medicina no Rio, mas acabei não passando. Terminei o científico e vim pra Brasília. P/1 – Quando que o senhor veio pra Brasília? R – Eu cheguei aqui em agosto de 1960. P/1 – Por que Brasília, seu Athayde? R – Curioso, né? Dizem os metafísicos, e esse povo aí, que as pessoas não estão aqui de graça, que há uma razão espiritualizada, ou espiritual, muito forte para que as pessoas viessem para Brasília, são detalhes, prefiro não entrar muito nisso, mas dizem isso. Eu trabalhava no Rio como vendedor de uma empresa fabricante de esquadrias metálicas, e essa empresa tinha interesse de vir pra Brasília na época, porque era o “boom” da construção no país, para tentar colocar as esquadrias. Eles tinham aqui um representante e eu fui convidado para vir para cá para ajudar esse representante, e ver como nós poderíamos fazer. E assim eu vim para Brasília, para tentar vender esquadrias metálicas. E tem até um fato curioso, nós temos um prédio aqui no setor comercial sul, que hoje funciona a Brasil Telecom, mas aqui já foi o famoso TUI [?], que era a empresa de telefonia de Brasília, esse prédio foi construído para isso, depois virou Telebrasília. Eu vim tentar vender as esquadrias para o prédio, que estava ainda nas fases de planejamento, das plantas. Não consegui vender, mas fui ficando e estou em Brasília até hoje. P/1 – E qual era a impressão que se tinha na época de Brasília? R – É, uma boa pergunta. Eu peguei um ônibus em Belo Horizonte e quando cheguei aqui na rodoviária, eu olhei e eu disse: “O que eu vim fazer aqui?”. Naquela época não fazia tanto calor, fazia tempo feio até, e tinha essa época normal de seca, e eu me lembro que cheguei e já estava uma ventania, poeira para tudo quanto era lado, aquela poeira vermelha, e eu tive contato naquele primeiro momento com uma história muito interessante aqui, que os antigos sabem, o chamado Lacerdinha. É um redemoinho, rodamoinho, ou redemoinho, como queremos falar, que forma aquele cone de poeira pro céu e o pessoal apelidou aquilo logo de Lacerdinha. Então a gente via aquilo pra tudo quanto era lado, e essa foi a primeira impressão que eu tive quando cheguei na rodoviária e olhei pra aquilo. E me assustei. E fui ficando [risos]. P/1 – O senhor chegou a morar em qual bairro na época? R – Vários. Quando cheguei, eu fui procurar um hotel, imagina, na Asa Norte, que estava sendo construída, e tudo era de madeira. E eu me lembro que eu fiquei num hotelzinho de madeira e que naquele dia eles tinham colocado BHC [?] no hotel, pra matar baratas. Essa foi a minha primeira impressão. Fiquei bastante tempo neste hotel, depois morei, vamos lembrar, no Cruzeiro Velho, um bairro aqui muito conhecido, na época chamavam de Gavião. Depois eu morei uma época em Taguatinga, também naqueles inícios. Taguatinga não tinha, numa QNA lá, QNA 8. Morei também aqui no Plano Piloto, na Asa Sul, morei no Lago Sul, no Lago Norte, no Lago Norte não, perdão, na Asa Norte e morei no Guará, não havia o Guará 2, eu morei lá no Guará 1. Atualmente moro aqui na cidade de Águas Claras. Interessante, a cidade é muito interessante. P/1 – Agora seu Athayde, o senhor chegou aqui para vender esquadrias metálicas e encontrou a cidade em construção em 1960. Como o senhor foi se adaptando à cidade profissionalmente? O senhor ficou vendendo esquadrias por bastante tempo, depois passou para outro ramo? Como foi a sua trajetória profissional? R – Essa pergunta é interessante, que a gente para, assim, fecha os olhos e volta no tempo e no espaço, né? Acabamos vendendo, na época, umas esquadrias para uma empresa chamada Carvalho Hosken, que era uma construtora. A Carvalho Hosken construiu o quartel do Corpo de Bombeiros em Taguatinga. Então nós vendemos as esquadrias para lá. Nós colocamos as grades na cela do quartel e tinha um soldado dormindo, meio camuflado lá dentro, e ele não viu que as grades foram chumbadas e colocadas, e ficou preso lá dentro [risos]. Isso é uma história interessante, né? Bom, aí vendemos para a Carvalho Hosken, depois teve umas obras aqui na Asa Norte, os prédios começaram a ser construídos aqui na 104, 103, vendemos para um ou dois prédios também. E tem um fato que precisa ser colocado, que no início eu e muita gente não entendia porque vir para Brasília. Por que ficar aqui? Por que sair do Rio de Janeiro? E eu conheci aqui um amigo, o Raul, e o Raul tinha um outro amigo que, de vez em quando me falha o nome dessa pessoa, ele tinha um Fusca, e ambos são de Belo Horizonte, então eles queriam ir sempre a Belo Horizonte, mas o amigo, que era o dono do carro, não dirigia, não queria dirigir na estrada. Então nós tínhamos um acordo, eu e Raul, nós íamos sexta-feira à noite, fizemos isso várias vezes, sexta-feira à noite ia dirigindo esse carro, e o outro dormindo. Chegava em Belo Horizonte pela manhã, eles ficavam, eu pegava um ônibus, ia pro Rio, chegava no Rio meio dia, uma hora, sei lá, por aí, sábado, ficava de sábado pra domingo, saía domingo uma hora da tarde do Rio, encontrava o Raul e o outro à noite lá em Belo Horizonte, vinha embora para segunda-feira estar aqui trabalhando. Fiz isso várias, várias, várias vezes. Aí foi escasseando, porque você vai acabando, assim, vai ficando... Houve outro fato também muito curioso, o aeroporto à época era de madeira e nós descobrimos que tinha um aviãozinho que vinha trazer o jornal O Globo e o Jornal do Brasil, aí a gente ia ajudar a descarregar o jornal, com a possibilidade de pegar uma carona pro Rio, no aviãozinho e voltar na segunda de madrugada trazendo o jornal pra segunda-feira. Aí foi isso... Mas isso também foi escasseando, depois eu ia, de vez em quando eu ia pro Rio de carro, voltada, e foi indo isso e virou a cada dois meses, a cada três meses, aí foi se adaptando a isso aqui. P/1 – Então, quando o senhor chegou à Brasília, o senhor também sempre buscava voltar para o Rio de Janeiro, né? R – Sempre. P/1 – Havia algum motivo? Assim, era a família, a namorada... R - Família, namorada, essas coisas, né? Eu fui ficando realmente, há um fato aí também bastante interessante, que em 1963 eu comecei a trabalhar aqui numa empresa, aí deixei as esquadrias, deixei essas coisas de vendas e comecei a trabalhar nessa empresa. Fiquei nela até o final de 1967, na verdade até mais ou menos o início de 1968, perdão, de 1988, 1988. P/2 – E o que era essa empresa? R – Era uma empresa de eletrodomésticos conhecida, muito famosa, o Ponto Frio Bonzão. Eu fiquei 25 anos no Ponto Frio. P/1 – Agora, senhor Athayde, assim, Brasília é uma cidade com uma vocação para o serviço público, não é, por ser capital. Como o senhor vivenciou, na sua experiência profissional, o comércio de Brasília? Era uma cidade, que não tinha indústria com uma certa potência, e o senhor trabalhando num setor privado. R - Pois é, muitas vezes isso passou pela minha cabeça, e amigos que a gente foi conquistando diziam: “Puxa, não é possível, entra no serviço público. Tem uma possibilidade ali, aqui...”. Mas eu acho que eu sempre tive essa vontade do comércio, eu sempre gostei muito do comércio. Você falou aqui numa vocação do serviço público. Realmente por ser uma cidade administrativa é natural, e era muito natural, que houvesse isso, e até havia muito incentivo para isso, para que as pessoas viessem para o serviço público. Existe o caso das famosas dobradinhas, que o pessoal de São Paulo, Rio, vinha pra cá, mas porque tinham o salário dobrado, porque ganhavam apartamentos, etc. Mas acontece que o comércio também se tornou uma vocação aqui, especialmente na área dos serviços. Comércio, varejo e serviço, porque as pessoas precisavam comprar coisas aqui. De maneira que comércio e serviços se formaram aí, talvez, esse trinômio, junto com o setor público, do que Brasília precisava, da vocação de Brasília. A questão da indústria não ter se firmado aqui se deve muito também a uma questão de logística, porque você está no centro do país, e havia uma questão de distribuição disso, e o grande centro consumidor foi sempre o Sudeste, o Sul. Então se você produzisse aqui para mandar pro Sul, pro Sudeste, até seria uma espécie de contra-senso. Somado a isso, claro, a indústria do Sudeste, e notadamente de São Paulo, se uniram e demonstraram com muita clareza que lá era o foco da produção. Então Brasília passou a ser uma cidade mais ou menos terciária, que o comércio, serviços, foram tomando muita força. E aconteceu um fato depois que se descobriu que havia uma possibilidade de se ter aqui uma indústria não poluente, uma indústria limpa, que foi a questão do sistema, dos computadores, tivemos até fábricas que produziam umas peças de hardware, software, tanto é que está sendo criada aí a cidade digital aqui em Brasília. Então isso foi uma vocação que veio depois, um novo tipo de indústria. Claro que existem indústrias menores para abastecer determinadas situações, por exemplo, serralherias, tem ótimas aqui em Brasília. Mas como eu me senti? Me senti bem porque eu tinha a veia para o comércio. Sempre me senti muito bem nisso, sempre gostei muito. Por isso vivo até hoje dentro disso. P/1 – Senhor Athayde, o senhor foi da Associação Comercial ou da Fecomércio? R - A minha história nas entidades de classe começa na Associação Comercial. Em 1977, eu participei na Associação Comercial da primeira diretoria, da primeira eleição que houve realmente. Foi eleito o presidente Lindberg Cury, que é uma pessoa sobejamente conhecida aqui na cidade, eu fiz parte da diretoria, desde esta época até o ano passado, sempre fiz parte de diretorias da Associação Comercial. Exerci praticamente quase todos os cargos, só não fui presidente, mas fui vice-presidente, secretário geral, etc. E também tive uma passagem como diretor do Clube de Diretores Lojistas, que hoje chama-se Câmara de Dirigentes Lojistas, é o CDL. À época, eu, como diretor do CDL, dirigi o DPC, Departamento de Proteção ao Crédito, que hoje é o SPC, Serviço de Proteção ao Crédito. De maneira que, em termos de entidade, outras mais, Rotary, Lions, clubes sociais, participei de vários aqui. De maneira que eu sempre tive essa atuação muito forte nesses aspectos. Presidi um clube de futebol, chamado Guará. À época, chamava-se Taça de Prata, e Taça de Ouro, não sei se vocês lembram disso, e o Guará era da Taça de Prata. Eu presidi o Guará uma época. Então eu sempre tive uma ligação muito grande. A Fecomércio aconteceu oito anos atrás, quando eu fui convidado para ser um dos assessores do presidente, presidente atual, que é o Adelmir Santana, o senador Adelmir Santana. E na Fecomércio, eu coordeno a área sindical. Então, os outros assessores, cada um cuida de um pedaço lá. Então a minha ligação com o comércio começou no momento em que cheguei aqui, até hoje. P/1 – Agora, seu Athayde, como se deu o envolvimento do senhor com a Associação Comercial? Porque o senhor trabalhou no Ponto Frio, de 1963 a 1988. Como foi esse processo? De estar trabalhando numa loja, de ter uma carreira profissional e se envolver com entidade de classe? R – Tem muito a ver, porque a Associação Comercial congregava realmente toda a classe empresarial do Distrito Federal. Foi fundada há 50 anos atrás, então ela envolvia... Claro que havia um interesse da empresa lá, o Ponto Frio, que nós estivéssemos lá, na associação, sabendo das coisas. E eu, particularmente, também gostava, e eu fui movido pelas mãos, à época, do gerente geral do Ponto Frio, que era o coronel Teodolfo Benso Tavolucci, figura pragmática, enigmática, meu líder, meu guru. Através dele, eu comecei a frequentar reuniões da Associação Comercial. Naquela época, a Associação Comercial, nós até usávamos muito esse termo, era a caixa de ressonância, não havia representação política em Brasília, então as pessoas iam pra Associação Comercial para pleitear, enfim, solicitar. Isso gente de todas as matizes, de todos os lugares, comerciantes, associados. E aquilo era algo realmente muito legal, muito importante. A gente ouvia todos os clamores e aquelas reclamações, era uma caixa de ressonância. Além de representar o comércio do Distrito Federal. Então, não havia, vamos dizer assim, solução de continuidade com o meu trabalho com o Ponto Frio, porque até, acho que ele ajudou a complementar mais as coisas dentro do Ponto Frio, não houve nenhum problema, a direção do Ponto Frio não criou nenhum obstáculo, muito pelo contrário, ficava até satisfeita com isso. P/1 – Como era a vida política em Brasília na época? A vida pública de Brasília nessa época dos anos 1970, 1980? R – Sempre teve o Congresso, tinha um fato aqui muito curioso antes da representação política, que existia um triunvirato aí de senadores que regiam as coisas na capital, isso era muito criticado, né? Porque eles decidiam as coisas políticas e as coisas que tinham que ser resolvidas aqui. Nós sabíamos muito dos deputados, senadores, mas não tinha uma bancada do Distrito Federal que pudesse representar os anseios de Brasília, nós tínhamos que nos valer de outros meios, dessas entidades de classe, CDL, Associação Comercial, Federação do Comércio, Fibra, Federação das Indústrias, e uma série de outras. E nós sempre tínhamos aquela coisa de ter uma representação política, poder ter voz. Brasília começou a crescer, a cidade que tinha sido planejada para chegar no ano 2000 com 500 mil habitantes já vinha superando isso aí. E, claro, os problemas sociais vão se avolumando. Então houve essa necessidade de ter essa representação política. Agora, como nós convivíamos com isso? Convivíamos com o coração apertado, porque nós não tínhamos uma voz de chegar, como hoje acontece. Muita gente critica, mas eu acho que a democracia é isso, de você poder chegar e se apresentar. Era assim, era uma convivência, tínhamos ali do __________ todos, ligação com deputados, senadores, mas não que fossem da nossa base, tinha uma convivência sadia. P/1 – E agora, seu Athayde, o senhor pode comentar brevemente como foram essas eleições para a Associação Comercial em 1977, encabeçada pelo Lindberg Cury? R – Sim. Havia um governo, os governos aqui do Distrito Federal, naquela época, havia a figura do prefeito, né, depois o governador nomeado, não era eleito, e houve um interesse do governo na época de ter o presidente da Associação Comercial indicado por ele. E nós fizemos o contraponto disso, nós criamos uma chapa contra aquela figura, boa gente até, “Rivadalve”(?), e foi um disputa interessantíssima, porque aqui havia duas disputas de eleições que mexiam com a cidade, uma era do Iate Clube, e a outra da Associação Comercial. Tinha campanha, você precisava ver, outdoor, aquela coisa toda. E nós ganhamos, a chapa Realidade ganhou a eleição. Então foi um momento muito interessante. Normalmente nessas entidades não havia muito essa questão de disputa, né? Havia sempre um consenso, uma chapa única. E naquele instante, não. Lá, realmente houve essa questão, nós não podíamos aceitar que uma imposição de um presidente na Associação Comercial, tinha que ser um homem do comércio. E o Lindberg - sem demérito aos demais - , reunia todas aquelas condições, era um bem sucedido concessionário aqui, da Ford. Era uma pessoa muito querida aqui, ele era goiano, de Anápolis, o pessoal até diz que Brasília é o quadradinho de Goiás, porque nós estamos aqui no Estado. Então ele era uma pessoa local, uma pessoa com raízes aqui. E todos aqueles membros da diretoria também o eram. De maneira que foi uma disputa muito legal. E depois ficou tudo bem, porque ninguém quis dizer que derrotou o governo, não houve isso. Foi realmente derrotado, mas nós mantivemos a nossa posição. Foi bom. P/1 – E o que significava fazer parte da Associação Comercial naquela época? R – Dizem aí os inteligentes, os poetas, que o homem tem sonhos, né? E você não pode se afastar do seu sonho. Quando eu falo homem, eu generalizo, o ser humano. Ele não pode se afastar dos seus sonhos. E o sonho, com certeza, daquelas pessoas que militavam na área do comércio, era participar da Associação Comercial, que era o ponto, o It. Só que era uma coisa extremamente prazerosa, importante, você se sentia uma pessoa importante, “Eu sou membro da Associação Comercial do Distrito Federal, que nasceu lá no Núcleo Bandeirantes naquela época, tal”. Nós temos até hoje, o fundador da Associação Comercial, Tonico, que graças a Deus, está aí, vivo, entre nós. Histórias fantásticas desse período todo. Então foi uma honra muito grande estarmos fazendo parte daquele momento. Até hoje, né? É muito importante. P/1 – Bom, seu Athayde, a associação teve um papel importante na luta pela representação política do Distrito Federal. O senhor teve algum envolvimento direto nessa movimentação pela representação política? R – Eu participei, sim, muito, não numa posição direta. Porque eu fiz parte da diretoria, que começou com toda essa questão da representação política, sempre capitaneada pelo Lindberg. Nós temos figuras aqui, vou citar um nome que fez parte disso fortemente. É difícil citar nome, porque são tantos que fizeram parte, mas vou citar um. Em nome dele, eu espero estar falando sobre todos. O ministro Maurício Corrêa, era diretor na época e foi um dos baluartes, junto com Lindberg. E por que essa luta? Porque, como eu disse no início, a associação era a caixa de ressonância, então nós tínhamos a necessidade de ter uma representação política, nós precisávamos. E esse movimento começou dentro da Associação Comercial, muito forte. E o movimento, ele vai em várias etapas, em vários movimentos, em várias situações, de encontros aqui, encontros ali, comício, participação de muita gente, o atual presidente da república esteve na Associação Comercial na época, também dando um apoio, mostrando a importância disso. E foi assim, né? Ela foi resultado de um anseio, que eu diria, das classes produtoras do Distrito Federal, eu vejo dessa forma. P/1 – Seu Athayde, o senhor esteve naquela famosa reunião na Associação Comercial. Alguns depoentes que estiveram aqui disseram que foi o primeiro comício, pela representação política? R – Na praça lá defronte à associação, estive sim. P/1 – O senhor pode contar rapidamente para a gente como foi essa... R – Memória é um negócio sério, né? Lembro mais ou menos, nós descemos, fomos lá para o palanque, houve uma ameaça de prisão, de que viriam as forças armadas para levar o pessoal ali. Mas, mesmo assim, a gente falou muito e... Eu não subi, eu não estava lá em cima, não, mas estava no mesmo... De repente vou ter que botar no currículo que fui preso [risos]. Não houve isso. Mas foi um momento muito tenso, mas a associação realmente botou a cara de fora e acho que foi determinante aquele comício. Aquele foi um dos momentos. Teve um momento também muito interessante, não sei se já foi mencionado, uma história da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], que chegou a ser invadida e houve uma passeata, com o Maurício Corrêa e outros mais à frente. Tenho um amigo, vou falar outro nome - a gente ficar falando nome é complicado -, o Lacerda, o Francisco Lacerda Neto, que acabou sendo na época presidente da OAB, advogado. Então tudo isso foi um momento de resistência, mas resistência no bom sentido. Ninguém pegou em arma, nem nada, mas era uma resistência de ideias, de posturas, em que sempre a associação teve esse papel forte. Eu acho que hoje o pessoal deve agradecer muito aqueles momentos, porque está aí a democracia sendo exercida na sua plenitude no Distrito Federal. P/1 – O senhor se engajou em alguma campanha de algum deputado, de algum senador, em 1986? R – Não, a gente engajava como instituição, pelo movimento. Mas especificamente para A, B ou C, não. Eu até costumo dizer que é um problema muito sério, porque o voto aqui acaba sendo tão diluído. Tantos amigos que são candidatos, que é difícil, você tem três, quatro, no mínimo, cinco amigos seus que são candidatos. Aí você, é claro, pode tomar uma posição: “Não, eu estou com o fulano e acabou”. Mas, na época, eu, particularmente, tinha a minha posição institucional, uma posição dentro do sistema, dentro de uma organização que estava apoiando a representação política. Mas especificamente com A, B, C ou D, não. P/1 – Senhor Athayde, a Associação Comercial participou de alguma forma do processo da Assembléia Constituinte? Com propostas, ou com... R – É, havia muitas propostas, dentro da Associação Comercial. Eu não me lembro, assim, especificamente uma, ou duas, ou dez, ou, enfim. Eu imagino que os constituintes possivelmente tenham sabido de muitas coisas, de propostas da Associação Comercial. É claro que a constituinte privilegiou muito, e com razão, os direitos civis e sociais das pessoas. A associação também sempre teve uma preocupação muito grande com isso, eu imagino que possivelmente lá naqueles encontros, lá naquela tal ressonância, muitas coisas ficaram na cabeça de muitos, que puderam apresentar alguma emenda, alguma coisa, naquele momento. Mas eu não me lembro, assim, especificamente de uma que tenha sido. P/1 – Quanto a Câmara Legislativa, senhor Athayde, a Associação Comercial chegou a participar da votação da Lei Orgânica ou de algum processo desse tipo? R – Sim, havia reuniões públicas, audiências públicas, e a associação sempre esteve presente apresentando idéias. E eu quero lembrar, que a gente está falando aqui muito de Associação Comercial, mas na verdade todas as entidades que foram surgindo tiveram papel importante, isso é bom deixar claro. A Fecomércio, a Fibra, o CDL. Depois nós tivemos aqui a Federação dos Produtores Rurais, Federação das Empresas de Transporte de Cargas, todos estes sempre estiveram muito ativos. Foi criado aqui um órgão - que não é um órgão com CNPJ [Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica] -, mas que tem muita força, que é o Fórum do Setor Produtivo do Distrito Federal, e que congrega essas entidades todas. E elas têm uma preocupação muito grande, não só no campo político, não vou me referir à política partidária, mas no campo político, de ver coisas melhores, ver situações melhores, e, naturalmente, com uma preocupação muito grande com a questão tributária do país. O Fórum do Setor Produtivo realmente está muito engajado nisso. Então a gente fala em Associação Comercial como o pontapé inicial das coisas, mas com o tempo, com o surgimento dessas outras entidades, todos se congregaram dentro dessa ideia de uma representação política eficaz para o Distrito Federal, isso é importante que seja ressaltado. P/1 – Agora, senhor Athayde, o que significou essa representação política do Distrito Federal? R – Eu vou falar o que eu, Athayde, penso. Eu acho que significou o amadurecimento das pessoas, no entendimento do que é uma democracia. Significou a possibilidade de que o cidadão pudesse ter sua voz ouvida através dos seus representantes. Particularmente, vejo como um grande benefício para Brasília, para o Distrito Federal, a representação política nos níveis que está. No nível local, que é a Câmara Legislativa, e no nível Federal, que é a Câmara Federal e o Senado Federal. Penso que isso foi importantíssimo para o Distrito Federal. Importantíssima essa representação política. Um problema aqui, outro ali, isso faz parte, discussões de acertos de rumo, de vez em quando ter que ajustar o percurso. Mas, é importante, na minha visão, eu poder eleger um deputado distrital, ou federal, ou um senador que eu imagino que seja o meu representante nessa esfera, muito importante. P/1 – Senhor Athayde, eu gostaria de saber, para o senhor quais seriam os maiores desafios do Distrito Federal, depois de conquistada essa representação política? R – São muitos os desafios. Eu poderia pensar num que estaria muito engajado com o presidente da Federação do Comércio do Distrito Federal, o senador Adelmir Santana. Ele tem uma preocupação muito grande com essa questão das micro e pequenas empresas, essa questão de que você possa trazer e devolver a cidadania para quem tem o negócio, mas não conseguiram registrar o negócio. Agora tem uma lei que está surgindo com isso, nós tivemos o Simples, “Candango”(?). Essa é uma questão de você poder trazer para a formalidade os chamados informais, que estão tendo essa oportunidade. Eu quero deixar isso aí bem creditado, sem demérito aos demais que trabalharam, ao senador Adelmir Santana. Trabalho com ele, mas não é isso não, não sou eu só que estou dizendo isso. O trabalho dele, o trabalho que o SEBRAE [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] desenvolve no Distrito Federal, capacitando pessoas para poder exercer uma função empresarial, acho muito importante. Vejo como um desafio para os políticos a reforma tributária, que ela seja realizada dentro dos moldes que possam trazer tranquilidade, benefício e oportunidade de geração de empregos. A reforma tributária vai mexer com tudo isso, este é um desafio, que eu vejo, muito importante para o político daqui. E tem mais duas questões. Uma é a questão do entorno no Distrito Federal. Foram sendo criadas cidades, que nós chamamos de entorno, que não estão dentro do Distrito Federal, mas estão dentro de outros Estados, como Minas, como Goiás, e têm um efeito sobre a questão social do Distrito Federal. Você veja a questão da saúde, por exemplo, nós temos aqui o hospital de base, que muita gente às vezes reclama: “Ah, porque a saúde, tal”, mas esquecendo que o usuário, que o grande usuário, vem dessas cidades pra cá. Então é uma questão realmente séria. Se você chegar no hospital desses, você vai ver que uma série de ambulâncias, cidades aí, tem uma até que vai pra Bahia, como é, lá então, tem gente demais, como chama... P/1 – Barreiras? R - Barreiras, que é uma cidade enorme. E, no entanto, se utiliza muito dessa questão hospitalar aqui em Brasília, e dá uma repercussão muito séria aqui. Nós tivemos um problema aqui também, muito grande, que foi essa questão da terra, não é? Muita gente veio, na época da construção ou depois, e começava a avisar pro pessoal: “Olha, Brasília tem chance...”. Aí Brasília começou a encher, e começou a não ter solução pra isso, e foram criados vários setores habitacionais, que trouxeram um problema. O governo do Distrito Federal está empenhado numa situação muito interessante aqui, é o chamado “Brasília Legal”. Há muitos erros que são consagrados pelo uso, então muita gente consagra erros pelo uso, esquecendo que há uma legalidade. Há pouco tempo se falou muito na questão da obtenção do alvará de funcionamento, então a gente faz coisas sem alvará, mas você tem que ter alvará, é uma coisa legal. Então o governo do Distrito Federal está envolvido nisso. Eu acho essa uma outra questão, um outro grande desafio para o Distrito Federal: a legalidade, colocar Brasília dentro de um plano legal. Se discute que Brasília é Patrimônio da Humanidade e que ficou engessada. A cidade não ficou engessada, patrimônio é patrimônio da humanidade, então, pra que não fique engessada, é preciso que haja esse trabalho de legalidade. Então é só isso, reforma tributária, trazer para a formalidade as pessoas com possibilidades, a questão do entorno do Distrito Federal, que eu vejo isso como um grande desafio, e essa questão final, que eu acho que eu já falei até mais de uma vez, que é a questão do entorno, que tem todo esse efeito aí na nossa rede de saúde, né, na nossa rede pública de saúde. P/1 – Seu Atayde, como o senhor vislumbra o futuro de Brasília? R – Eu vislumbro muito otimismo, porque você verifica que o jovem em Brasília estuda, é até uma juventude capacitada. Brasília tem uma vocação, como nós falamos aqui, para a área do comércio, e agora essa questão da cidade digital, que vai trazer um novo enfoque para a cidade. E a questão da legalidade vai fazer com que as coisas se assentem melhor em Brasília. E o futuro de Brasília é grandioso, porque, afinal, é a capital do país, daqui emanam todas as decisões. Eu me sinto orgulhoso por estar aqui. P/2 – Seu Athayde, eu gostaria de voltar um pouquinho lá na sua história pessoal. O senhor falou que com 13 anos, o senhor teve a sua carteira de menor, né? R – E guardo essa carteira com carinho, carteira verde. P/2 – Qual foi o primeiro emprego que o senhor arrumou com essa idade? R – Eu fui office-boy de uma empresa do Rio de Janeiro, na Rua Senador Dantas, 40, chamada Lira da Silva Engenharia Limitada, a gente não esquece, né? P/2 – Fica pra sempre, né? R – Fica pra sempre. P/2 – Então, depois o senhor disse que veio pra cá, né, pra Brasília, e o senhor trabalhava primeiro com as esquadrias, depois o senhor passou pro Ponto Frio... R – Não imediatamente. P/2 – Não imediatamente? Então, como foi... R – Fiz algumas coisas. P/2 – ...Depois que o senhor saiu das esquadrias [risos]? R – Vocês lembram do Carnê do Baú da Felicidade, que tinha uma cartela da Loteria Esportiva nele? Eu fui distribuidor, fui vendedor daquele carnê. Então eu trabalhei vendendo Carnê do Baú da Felicidade. Trabalhei aqui numa “firmazinha” chamada Mop, que fazia desinsetização, aliás eu brigo muito com a minha secretária, que ela fala dedetização, mas é desinsetização. Que é dedetização por causa do produto, que era o DDT que se usava, hoje não é mais assim, mas você desinsetiza, você mata os insetos, né? Eu trabalhei com isso. E, puxa vida, e o Ponto Frio, que na verdade a atividade no Ponto Frio eu cuidava como um todo, depois de algum tempo. Porque eu entrei no Ponto Frio como auxiliar de escritório. P/2 – Então, como foi o seu desenvolvimento... R – É, eu entrei como auxiliar de escritório e aí vem uma história muito engraçada. Tinha um coronel, esse coronel Tavolucci, que era gerente geral, e ele me pediu pra procurar um general da recém criada Prefeitura Militar de Brasília. Esse general, ele tinha interesse de comprar algumas coisas, até porque estava trazendo pra cá uns cabos pro Cruzeiro Novo, que estava sendo criado o Cruzeiro Novo e esses cabos iam morar no Cruzeiro Novo. Eu fui lá, eu não era o vendedor, eu era auxiliar de escritório. Aliás, quando eu entrei no Ponto Frio, eu fui pra um setor chamado Relações Públicas, eu fiquei todo cheio: “Pô, Relações Públicas...”, mas era o setor que recebia reclamações do cliente, eu fiquei doido lá, quase que eu fui embora. E eu fui lá visitar esse general “Beckman "(?) e eu saí com um pedido nas mãos naquele dia, ele me pediu 50 máquinas de lavar, 50 fogões e 50 geladeiras. Eu quase caí para trás, eu tinha um preço, o preço era bom, e aquilo virou uma história dentro do Ponto Frio, né? “Não é possível...” Teve comissão, né, eu não era vendedor, eu fui lá pra... Fiquei todo cheio de moral dentro do Ponto Frio. Aí acabei tomando conta desse setor, de Relações Públicas, e fui ser vendedor. E como vendedor, como eu digo, o Tavolucci, ele foi uma pessoa muito importante na minha vida profissional, é muito bom quando se encontra alguém que te dá uma orientação, ele me falou de um negócio, que eu falo muito aí com as pessoas chamado Memento. Que que é o Memento, né? O militar utiliza muito isso, você põe, como se fosse um follow-up, você todas as atividades que você exerce, “Eu sou uma entrevistadora, sou uma jornalista, estou entrevistando. Qual seria, que que eu tenho que fazer como jornalista, ou numa entrevista?” Aí você elenca tudo aquilo, “vurrrrr”, aí você dá peso pras coisas: “O que eu tenho que fazer sempre a cada dia, a cada mês, a cada 15 dias”, enfim, você cria uma organização de trabalho. E eu aprendi isso com o Tacolucci. Então, como vendedor, eu tinha uma organização de trabalho. Por isso eu fui promovido a gerente da loja. E como gerente, mais ainda, né, que aí, o que um gerente de loja tem que fazer? Ele tem que ver tudo na loja, ele tem que saber de tudo, saber se a parte hidráulica, se as descargas no banheiro estão funcionando, se os interruptores estão funcionando, e por aí vai, aparência dos vendedores, se os produtos estão girando... Tinha um memento. Por conta disso eu fui promovido a supervisor de vendas, que já coordenava, os supervisores coordenavam as lojas, né? E chegou um momento que o Tavolucci, já se afastando, né, me indicou para ser o gerente geral do Ponto Frio. Foi um momento importantíssimo na minha vida, e eu me tornei gerente geral do Ponto Frio. Então, eu era da base, já sabia daquilo tudo. Eu quero ressaltar um fato que vale pra muita gente, quando eu fui promovido de vendedor para gerente, claro, os colegas vendedores, você sabe como é, uns ficaram felizes. Então eu tive sempre muito cuidado de dizer para eles que eu estava desenvolvendo uma atividade que era negócio, então a nossa amizade era uma coisa, mas era negócio. Se eu não seguisse aquilo, não tinha como, né, manter. Tive alguns desafios nesse aspecto, porque haviam colegas que, colega meu, vendedor comigo, e fazia um troço errado, eu era o gerente da loja e tinha que tomar uma posição. A mesma coisa como supervisor, agora com os gerentes. Depois, como gerente geral, já em cima dos supervisores e dos gerentes. Mas sempre levando isso bem. E até que um dia, numa reunião no Rio de Janeiro, eu também, se não tivesse problemas coronários, graças a Deus não os tenho, parece, eu fui promovido a diretor regional do Ponto Frio. E como diretor regional, nós abrimos a filial de Goiás, eu fui instalar em Goiânia. E outras várias lojas, fui ajudar a abrir a filial de Minas, Belo Horizonte, fui convidado para ir pra Minas, mas eu não queria sair daqui. De maneira que a minha carreira aqui foi essa, eu fiz muitas coisas, serralheiro, matei baratas [risos], estive no Ponto Frio, passando por todas as fases, e depois me aposentei e tive mais uma coisa interessante na minha vida profissional. Quando eu deixei o Ponto Frio, deixei porque desejei deixar o Ponto Frio, sem briga, sem nada, me dou muito bem com todos até hoje. Eu mantenho uma firma aqui, uma empresa de, “Tercasa”(?) era o nome da firma, nós, uma imobiliária, tinha um sócio. Não tinha nada a ver, imobiliária com geladeira, com fogão. É curioso que eu estou falando do Ponto Frio, já tem 21 anos, até hoje muita gente me diz: “Seu Athayde, do Ponto Frio”, muito interessante isso. Mas essa imobiliária, nós ficamos um ano, foi uma experiência muito boa, tivemos que fechá-la por questões econômicas do país. Aí vem outra fase de experiência na minha vida, fui convidado pela Brasal, o Osório Adriano, que era deputado para gerenciar uma concessionária de caminhões, caminhões Volkswagen. Caminhão, para mim, era aquele bicho que passava na estrada, com 300 rodas, aquela coisa bonita. Aí, de repente, me vi diante daquele produto. Mas nós chegamos, numa época, nós aqui, nós todos que estamos aqui, que nós somos produto acabado. Qualquer um de nós, se for convidado para fazer alguma coisa, não pode ir mais para ficar aprendendo, você tem que chegar e dizer a que veio, nós somos produto acabado, não é verdade? Porque há uma época que é isso, há uma época que você é estagiário, aprende, outra época não, você é produto acabado. Então, eu fui pra Brasal como um produto acabado, resolver uma questão dessa empresa de caminhões. Que coisa, eu me vi dirigindo um caminhão de Uberlândia para Brasília, só pra ver como é que era, como é que o caminhoneiro se sentia na estrada, eu fiz isso, aprendi, procurei aprender como é que era, foi magnífico esse tempo lá, são meus amigos. Depois eu fui convidado, aqui em Brasília, para uma empresa que produzia colchões, colchões de espuma com alta tecnologia, chamada Colchões Atlas, o Wilson está aí, tomara que ele leia esse livro, que ele vai lembrar que eu falei o nome dele. E a Colchões Atlas, ela vendia para o Brasil inteiro, aqui em Taguatinga tinha uma fábrica. Mas o Wilson era um perfeccionista. Se produzia tudo aqui, era um negócio... Hoje você sabe que colchão tem uma história de densidade, né, D28, D33, D não sei o que, isso tudo tinha uma história, eu fui aprender. Porque, até então, eu estava do outro lado, eu era comprador, eu comprava colchões da Atlas no Ponto Frio. Depois eu fiquei na indústria, fui ver o que que era a indústria, eu não tinha experiência de trabalhar em indústria. E fiquei lá na Colchões Atlas também um tempo, foi muito legal, muito. Puxa vida, eu coordenei a área comercial da Colchões Atlas a nível Brasil, que foi uma outra grande oportunidade de viajar o Brasil quase todo, falar com os representantes, aquela coisa toda. E nesse meio tempo houve um outro convite, eu até dizia assim: “Puxa vida, é bom a gente estar com essa idade e ser convidado para alguma coisa”, porque quando chega uma certa idade... E aí veio um convite incrível na minha vida, a Onogás, uma empresa de Goiás. O dono, falecido, Onofre Quinan, foi senador, e a Onogás tinha dois setores, tinha o eletrodoméstico, chamavam de ED, e tinha o gás, que era o GLP, ______ distribuidor de gás, de botijões, de gás e tal. Eu conhecia de nome, eu não conhecia ele pessoalmente. Um dia eu recebi um telefonema da secretária dele, marcou de ele vir aqui e tal, e nós fomos almoçar, ai eu conheci, uma pessoa fantástica, e aí eu virei diretor comercial da Onogás, aceitei o convite, afinal eu estava voltando. Até tem uma história, eles publicaram no Correio Braziliense uma foto minha desse tamanho, num domingo, magina, “Athayde agora é do Ponto Quente” [risos], ________________. E eu passei esse tempo na Onogás e também foi muito bom. A Onogás tinha 50 lojas aqui no Estado, e a minha função era a parte comercial, e eu a cada mês, ou 20 dias, tentava fazer uma visita a essas lojas, tinha um aviãozinho pra isso, senão como que eu ia fazer, visitar isso tudo aí. E até que eu também deixei a Onogás porque surgiu a oportunidade de me tornar um assessor na Federação do Comércio. Aí já é uma questão já profissional, já estava aposentado, e é isso. Deve ter mais coisa [risos]. P/2 – E em algum momento o senhor continuou os seus estudos? Porque o senhor falou que estudou até o científico... R – É, eu fiz o científico, depois, aqui em Brasília, eu fiz Marketing, era o Marketing Global. Àquela época o curso que eu fiz, ele não era reconhecido, me parece que depois, muito tempo depois, que vieram a reconhecer. Então eu tenho uma formação de Marketing Global. E tenho uma formação, bom, no Ponto Frio, em Brasília, eu cuidei de toda a área de comunicação do Ponto Frio, a propaganda, tudo aquilo eu cuidava, e depois da região. Sou, assim, macaco de auditório desse pessoal de comunicação, eu costumo dizer que as pessoas de comunicação são arejadas, você vê cada comercial fantástico, né? Então, eu tive isso e fiz uma série de extensões na área de administração, claro, e na área de comércio, uma série de coisas, mas em termos de curso superior, vamos dizer assim, tenho o de Marketing, que eu gosto muito. Às vezes eu fico pensando que eu também gostaria muito de ter estudado Direito. Embora não tenha estudado Direito, mas sou muito ligado à essa área também, a área do Direito, devido a função que a gente exerce, sempre tem coisas assim. Então, meus estudos foram esses. E o estudo da vida, esse foi muito importante, muito importante. P/2 – E a sua vida pessoal, assim, como correu paralelo? Quando o senhor veio pra cá, o senhor disse que ainda tinha uma namoradinha... R – É, me casei, me casei... P/2 – Com essa namoradinha? R – Com essa namoradinha lá do Rio, em 1976. Hoje eu tenho um segundo casamento. Eu me divorciei, eu tenho quatro filhos, são três filhas do primeiro casamento, meninas ótimas, a minha ex-mulher é minha amiga, ontem mesmo nós tivemos conversando. Das filhas, tem duas que são do Rio de Janeiro, todas seguiram, mais ou menos, essa questão, deve ser problema de genes, gostam a área do comércio, uma trabalha na Net, no Rio de Janeiro, como supervisora lá da Net, saiu daqui para ir pra lá, solteira, a outra trabalhou aqui um tempo, saiu, está morando no Rio, num lugar paradisíaco chamado Rio das Ostras, não sei se vocês conhecem, ela é do comércio, mas ela é formada em Análise de Sistema, e faz coisas lá para isso. E tenho a terceira, que está aqui em Brasília, e é supervisora dessas lojas de Duty Free do aeroporto - na ala internacional tem o Free Shop e mais as lojas no aeroporto, você tem mais duas lojas da Duty Free, que agora é Du Free, que estão fora, e ela que coordena, e está sempre no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, são as minha meninas. E tenho o meu filho, tenho um menino do segundo casamento, que é o homem aí da Tim, nesta área da tecnologia, graças a Deus. Quatro meninos, três netos, dois netos com 11 anos, um no Rio, um mora lá no Rio das Ostras, praticando surf lá, eu fico todo bobo lá vendo, e duas netinhas, uma de 22, aqui em Brasília, e uma de quatro. E a minha vida é assim, vida legal, sem dificuldades. P/1 – Bom, senhor Athayde, assim, eu gostaria que o senhor dissesse um pouco como o senhor avalia o esforço de se registrar essa memória pela luta da autonomia política do Distrito Federal. R – Como diz o também inteligente, um poeta, não sei quem é, diz que: “Toda a ideia nova encontra forçosamente uma oposição. E para que ela se mantenha, se implante, ela precisa ser forte”, senão ela não se implanta. Bonito, né? E é real. Essa ideia não é propriamente uma ideia nova, mas é uma ideia nova para nós aqui, o registro da memória das coisas aqui do Distrito Federal. A Associação Comercial recentemente editou, não sei se vocês tomaram conhecimento, um livro muito interessante, falando das coisas da Associação, a Fibra editou, a Federação do Comércio faz aqui um trabalho prestigiando o mercador candango, aqueles que vieram pra cá no início, né, recebem aqui uma homenagem da Federação do Comércio, então existe tudo isso. Mas esse trabalho, isso que está sendo feito, eu participei de um primeiro momento aqui, eu aconselharia, muito importante. E a sugestão que eu coloco é que isso não fique estanque, não pare numa publicação e pare aí, não. Eu penso que deveria ser criado, vou até usar um termo aqui, um comitê das pessoas envolvidas nisso, não tantas, mas um comitê para que pudesse, esse comitê, estar se reunindo durante o ano, estar colocando os fatos, alimentando o processo anualmente. E o final do ano, um encontro, um grande encontro pra ver os processos que aconteceram: “O que aconteceu neste ano? Vamos editar uma segunda edição? Vamos esperar mais um ano?”, mas ter um material sempre vivo, permanente, essa é a minha opinião, isso não pode parar aqui, né, você está aqui conversando com pessoas que vieram pra cá não sei quando, não sei o que, mas tem um monte de jovens aí que estão com uma porção de idéias, idéias interessantes sobre Brasília, né, sobre o nosso futuro aqui, e que devem também ser, eles precisam ser privilegiados nesse encontro, nesse trabalho. Esse trabalho merece, da mina parte, pessoal, todos os parabéns. P/1 – Bom, senhor Athayde, o que o senhor achou de ter participado dessa entrevista? R – Fantástico. Me senti aqui como um ator global [risos], os meninos aí é que sabem, está legal aí [risos]? P/1 – Senhor Athayde, antes de a gente encerrar, que a gente já está encerrando de fato, eu gostaria que o senhor comentasse porque o nome do senhor é da Hora? R – Eu prometi, né? P/1 – É! Só para [risos]... R – Tem um primo, falecido, eu não digo que tive, né, porque ele faleceu, aí não vou entrar nessa questão agora, essa questão religiosa, metafísica, não. Mas eu acredito em algumas coisas. E nós conversávamos para saber a origem da nossa família, e ele começou a fazer esse trabalho. Então descobriu que no século XVII, a família da Hora veio de Portugal, os da Hora se instalaram em Salvador e de lá saiu uma ramificação dessa família para Sergipe. De fato, há uns anos atrás, eu passei em São Cristóvão, em Sergipe, eu fui lá no museu e vi quadros, de Horácio da Hora, não sei o que. Então, faz sentido. E de lá saiu outra ramificação, que foi para o Espírito Santo, até para um local chamado São Mateus, uma cidade que tem lá chamada São Mateus. E aí vem uma história interessantíssima, o meu bisavô, ele era um negro, não sei se falaria escravo, mas vivia numa fazenda, como escravo, e a dona, filha lá do dono dessa fazenda se apaixonou, o amor é isso, né? O amor bate e, é uma química, né, bateu, bateu. E eles foram para Campos, no Estado do Rio. Lá ele se converteu ao catolicismo, foi batizado, e ela colocou o sobrenome dela nele, Hora. Então, é mais ou menos isso, meio rápido. Eu sou Passos da Hora, porque lá quando eu nasci, nessa ilha, em Florianópolis, não tinha, não deu tempo de ir pro continente, e tinha um casal que eram os auxiliares do meu pai no farol na ilha, e eles foram os parteiros, imagina, em 1942. Então fizeram uma promessa para um santo protetor dos pescadores naquela região, se vocês forem lá em Santa Catarina, vocês vão saber disso, Senhor dos Passos, ele é o santo protetor dos manezinhos lá da ilha. Se tudo desse certo, eu teria Passos no meu nome. Então, eu sou Passos da Hora em função disso. Hora, porque vem lá dos portugueses e o Passos, porque nasci lá numa ilha e estou vivo, porque nasci bem, porque era uma moça de 19 anos, 18 anos como parteira, e minha mãe também tinha 19, jovem. Imagina? Eu fico imaginando a cena, como é que foi. P/1 – Muito bem, seu Athayde. Bom, o Instituto Museu da Pessoa, a Bravídeo e a Fundação Banco do Brasil agradecem a sua participação no projeto. R – Eu que me sinto honrado, agradecido. Parabenizo vocês pela iniciativa, muito boa. P/1 – Obrigada. ---- Fim da entrevista ---
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