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História

''Eu teria muita história, mas estamos falando aqui resumidamente.''

Sinopse

Infância na zona Sul na Vila Mariana. Relato de costumes de uma família italiana. Perda do pai em um acidente. Tentativa de fazer desenho arquitetônico e mudança para contabilidade. Entrada no Sindicato de contabilidade. Momento em que conheceu sua esposa. Conta de seus filhos e netos.

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História completa

P/1 – Dr. Luiz, o senhor vai nos dizer o seu nome completo, local e data de nascimento. R – Meu nome é Luiz Bertasi Filho. Eu nasci em São Paulo no dia 3 de janeiro de 1933. P/1 – Seus pais, o nome deles? R – Luiz Bertasi e Filomena Bertasi. P/1 – Eles são de São Paulo também? R – Meu pai era de Juiz de Fora e minha mãe de São Paulo. P/1 – A origem deles? R – Italianos. P/1 – De que região da Itália? R – Meu pai do norte da Itália e minha mãe do sul da Itália. P/1 – E seus irmãos? Quantos o senhor tem? R – Eu tenho uma irmã só por parte de pai, porque meu pai, quando casou com a minha mãe, era viúvo. P/1 – O nome dela? R –Leonor. P/1 – O senhor pode nos dizer quando ela nasceu, que idade ela tem, para uma referência? R – Ela é viva ainda. Nasceu em 22 de agosto de 1919, em São Paulo. P/1 – O senhor sempre morou em São Paulo? R – Sempre morei em São Paulo. P/1 – Em que bairro de São Paulo? R – Sempre na zona sul. Vila Mariana, Moema, Planalto Paulista. Atualmente em Moema. P/1 – O senhor se lembra da casa, da sua infância, como ela era, que lembranças boas o senhor tem dela? R – Me lembro que eu morava na casa onde eu nasci, na rua José Antônio Coelho, na Vila Mariana. P/1 – Era uma casa grande? R – Era uma casa grande, assobradada e ficava perto da rua Domingos de Morais. Depois eu mudei de lá com cerca de seis anos, sete anos, por aí, fui morar na rua Pedro de Toledo por pouco tempo, voltei pra mesma rua, José Antônio Coelho, onde eu morei até meu pai falecer em 1941. P/1 – Qual era a atividade de seu pai? R – Ele era vendedor. P/1 – De que? R – Ele era vendedor das casas Odeon. P/1 – Discos? R – Não. Vendia máquinas de escrever, material de datilografia, essa coisas. Ficava na rua São Bento. P/1 – Já tinha uma certa ligação com Contabilidade? R – Ah, tinha. Na minha história, a Contabilidade eu tenho, praticamente, a influência maior, entre várias, foi do meu próprio pai. P/1 – E sua mãe, trabalhava? R – Minha mãe era de prendas domésticas. Sempre em casa. P/1 – Com essa irmã que veio do seu pai, o senhor tinha um relacionamento bom? R – Tinha um relacionamento bom. P/1 – Tinha muita diferença de idade? R – Tinha. Eu sou de 33, ela é de 1919. Hoje ela tem mais de 80 anos e eu tenho 68 anos. Mas eu perdi meu pai muito cedo. Perdi meu pai com oito anos de idade. P/1 – Isso influiu muito na sua vida? R – Influiu. Já que vocês querem saber, o negócio é o seguinte. O meu pai, além de ser vendedor pelas casas Odeon, que ficava na rua São Bento, ele era funcionário também, freelancer, do Sindicato dos Contabilistas. Ele era funcionário desde 1935. E ele freqüentava muito a sede do Sindicato dos Contabilistas que ocupava várias salas de um determinado andar do famoso edifício Santa Helena, que ficava na Praça da Sé, ao lado da Catedral. A Catedral, por sua vez, estava em obras naquela época. E ele me levava freqüentemente, nas horas de folga, lá no Sindicato. E eu tinha aí cerca de seis anos, sete anos. E lá eu percebi que, apesar de ser funcionário, ele tinha um relacionamento muito grande com os freqüentadores, que eram os sócios, contabilistas da época, do Sindicato. Com isso ele tinha uma amizade grande, eu também participava mesmo sendo criança e comecei a admirar aquelas pessoas e a profissão já naquela época, com seis, sete anos. Posteriormente o Sindicato mudou, antes de eu completar oito anos de idade, para o edifício Martinelli, porque estava havendo já um crescimento do Sindicato, dos relacionamentos, espaço, eles mudaram para o edifício Martinelli, em um determinado andar também. E eu passei também a participar, comecei a conhecer as pessoas. Mas logo, em 1941, eu tinha oito anos de idade, meu pai, num acidente, ele faleceu, com 44 anos. E aí fiquei eu, minha mãe, a minha Irmã. Minha irmã já era mais moça, então ela estava trabalhando. Mas logo em seguida depois ela casou, fiquei eu e minha mãe. E nós ficamos numa situação muito difícil, então com nove anos de idade eu comecei a trabalhar. Estudava de manhã, fazendo o curso, se não me engano devia estar no primeiro ano, segundo ano do curso ginasial. P/2 – Em que escola que o senhor estudou? R – No colégio Ateneu Brasil, colégio muito bom que ficava na Vila Mariana. E eu trabalhava de manhã e à tarde eu ia para a oficina de meus tios como auxiliar de mecânico. Havia a guerra, era tempo de gasogênio, então eu ficava me divertindo lá com os tubos para fazer oxigênio, o gasogênio, tirava breu, uma série de coisas. Isso foi até mais ou menos uns 11 anos, por aí. Com 12 anos eu passei a ser um auxiliar de balconista numa loja de armarinhos e camisas no Largo do Ouvidor, perto do Largo São Francisco. Mas aí eu continuava estudando pela manhã. Porque? Eu trabalhava praticamente escondido, porque naquela época era permitido o trabalho só após os 14 anos de idade, hoje é 16. Quando eu fiz 14 anos, exatamente no mês em que eu fiz 14 anos, em 1947, eu, através de um tio meu, arrumei um lugar para trabalhar num grupo multinacional muito grande, no caso aí era o Moinho Santista e eu entrei como office boy. E aí eu passei a estudar à noite, estava no último ano do antigo curso ginasial. P/2 – Era na mesma escola? R – Não. À noite eu tive que passar para uma outra escola, que era o colégio Ipiranga, do famoso Miguel Sansígolo, também na Vila Mariana. E eu tive que terminar o ginásio lá. Eu fiquei de praticamente pouco tempo, porque eu acabei caindo exatamente no Departamento de Contabilidade dessa grande empresa. E lá eu comecei a me interessar muito pelos trabalhos, eu vivia cutucando os funcionários, queria ajudar e depois de uns três meses mais ou menos eu fui promovido a auxiliar. Cargo muito baixo, tudo o mais, mas comecei a trabalhar. Eu terminei o ginásio, aí fui fazer um curso de Desenho Arquitetônico. Cheguei até o terceiro ano, mas desisti. P/2 – Porque Desenho Arquitetônico? R – Porque eu queria... naquela época era permitido quem fazia projetos de construção ter um para poder fazer plantas e tudo o mais. P/2 – O senhor gostava dessa área? R – Gostava. P/2 – O senhor desenhava bem? R – Desenhava, mas era arquitetônico. Mas aí os cursos de Engenharia começaram a dar em cima, porque quem aprendia a fazer Desenho Arquitetônico estava autorizado a fazer plantas de casas, de edifício e eles, com Faculdade, nós com três anos de curso básico, estávamos mais ou menos igualados em matéria de fazer plantas. Então eles fizeram um movimento e tiraram essa prerrogativa também do desenhista. Eu desisti, aí entrei na Escola de Administração de Negócios do Padre Sabóia. Ficava na Liberdade, onde é hoje a FEI. Durante o dia era a FEI, que era a Faculdade de Engenharia Industrial, e à noite tinha... que era a mesma faculdade onde eu estava fazendo Desenho Arquitetônico também. Aí eu comecei a fazer Administração de Negócios. Mas aí eu comecei depois, dentro do Moinho Santista, que era uma organização muito grande, eu comecei a desenvolver um trabalho muito grande e comecei a ir assumindo maiores responsabilidades, dentro da própria Contabilidade. Eu estava no terceiro ano de Administração e a Faculdade mudou para a PUC, para a Monte Alegre, era muito longe. Então eu tranquei a matrícula. P/2 – Como o senhor se locomovia em São Paulo? Era ônibus? Tinha bonde? R – De ônibus. Bonde. P/2 – Como era São Paulo nessa época? R – Era mais de bonde do que de ônibus. E era pingente, ficava pendurado. P/1 – Em que lugar da Liberdade era essa escola? R – Era na mesma rua onde hoje tem o Hospital Santa Helena. P/1 – Lá perto tem a FMU também? R – Não, a FMU é mais para baixo e não existia naquela época. Isso foi na década de 47, 50, por aí. Aí eu comecei a desenvolver maiores trabalhos dentro da Contabilidade lá no grupo Moinho Santista. Como eu tinha trancado a matrícula na Faculdade, eu fui fazer o curso Técnico em Contabilidade da Álvares Penteado, no Largo São Francisco, que naquela época tinha um curso fabuloso. A Álvares Penteado, mesmo sendo um curso técnico, era superior a muitas faculdades. A famosa Álvares Penteado. E lá me formei. Me formei em Técnico em Contabilidade. P/2 – Quantos anos? O senhor começou de novo ou o senhor conseguiu...? R – Não. Primeiro ano, segundo ano, terceiro ano, saía Técnico em Contabilidade. P/2 – O senhor começou então três cursos: primeiro Arquitetura, depois o outro e esse foi o terceiro. P/1- Agora a primeira escola sua, antes do ginásio... R – Foi o Ateneu Brasil. P/1 – E ali o senhor fez o curso primário também? R – O primário, depois admissão, que naquela época tinha admissão, e até o terceiro ano ginasial, porque no quarto eu fui obrigado a fazer à noite, aquela escola não tinha curso noturno. Mas nesse ínterim eu me formei como Técnico em Contabilidade, mas já estava galgando e exercendo a profissão há muito tempo dentro do próprio grupo, que era um grupo muito grande. Eu entrei lá em 1947. Aí fui crescendo, crescendo, crescendo dentro do grupo. Depois que eu me formei em Técnico em Contabilidade, através daqueles amigos do Sindicato que me conheciam, eu fui convidado a entrar no de São Paulo como sócio. Eu entrei em 1956. Apesar de que eu já tinha amizade com esse pessoal todo, que eram também amizades do tempo do meu pai e eu era criança, através do meu pai esse pessoal todo e depois eu mesmo comecei a fazer relacionamentos, não só através das empresas, como no próprio Sindicato. Entrei e comecei a participar das entidades, principalmente do Sindicato dos Contabilistas, porque eu praticamente nasci lá dentro, com aquelas idas com meu pai lá na Praça da Sé, depois no prédio Martinelli. Mas nessas alturas o Sindicato já tinha uma sede própria, que ficava e até hoje lá está na praça Ramos de Azevedo, no edifício CBI, ali no Anhangabaú. Ali já era uma sede própria, que foi uma investida de um grande contabilista, que foi Íris Miguel Rotundo, que teve essa iniciativa e colaborou muito para que o Sindicato tivesse sua sede própria e ele tem até hoje. Bom, aí no caso do Moinho Santista, eu comecei a subir, subir, subir, trabalhei em todas as áreas da Contabilidade, desde custos, apropriações, balanços, todos esses negócios. P/2 – Como era o trabalho lá? Era muito diferente do que é feito hoje? R – Era diferente porque naquela época não existiam os recursos da informática que existem hoje. Então, a gente tinha calo no dedo de tanto escrever. Os sistemas eram precários. P/2 – Primeiro o senhor escrevia como? R – Com a mão. Inclusive até com caneta tinteiro de molhar a tinta. P/1 – Aquelas famosas penas ronde, gótica? R – Era a mala 12, que a gente fazia muita coisa com estilo caligráfico. P/1 – Aqueles livros Caixa com os títulos todos. R – Era sistema de fichário, até que depois começaram a introduzir o sistema semi-automático, que eram as máquinas National, Ruf, o sistema Tríplice, aquele negócio todo. E eram feitos os Diários, os Diários eram copiados na base da prensa. Prensava-se folha por folha, porque eram feitos com fita datilografada em fita copiativa naquela época. Hoje os recursos são bem diferentes. O microcomputador é que faz tudo. E nós não. Nós tínhamos que lançar Conta Corrente, Conta Bancária. Tinha fichário, as mesas possuíam aquelas venezianas que a gente abria. E ali então tinham as fichas, que a gente lançava ficha por ficha de conta corrente, de banco, o que fosse. E isso era uma escrituração que era feita praticamente na mão. P/1 – O senhor, mesmo como chefe, mesmo nos seus cargos mais altos, tinha que saber tudo que tinha? R – Evidentemente. Eu primeiro parto, antes de tomar as chefias de Departamento, eu passei pela fase operativa de tudo isso. Até faturista eu fui, de datilografar à máquina as faturas dos clientes. P/1 – Tinha que ser datilógrafo naquela época? R – Eu não sou tão velho assim. Estou com 68 anos. Parece que eu estou falando de dois séculos atrás. P/2 – Mas nesse período a coisa mudou muito. R – Acontece que há cerca de mais ou menos uns trinta e poucos anos atrás é que houve uma evolução muito grande, principalmente na parte da Cibernética, e deverá ocorrer muito mais. A gente tem procurado acompanhar isso. Bom, aí eu comecei a participar das entidades. O que aconteceu nas entidades? Aconteceu que eu acabei sendo diretor secretário, em 1960, do Emílio Bacchi, que era um dos diretores da Antártica, que era o presidente. Eu fui diretor secretário na gestão dele. Depois eu saí de lá e fiz, na década de 60, 70, eu fiz três gestões como conselheiro do Conselho Regional de Contabilidade do Estado de São Paulo. P/1 – Que atividade o senhor fazia no Sindicato? R – No Sindicato eu era diretor secretário. Todo o que competia à parte de Secretaria, à parte administrativa, era com o secretário. A função era de acordo com os estatutos. Tinha que tratar de toda parte administrativa, de correspondência, de sócios, uma série de coisas. Assessorar o presidente, tratar de elaborar cursos para os sócios, parte associativa, todo aquele negócio. Depois fui para o Conselho Regional de Contabilidade. Lá eu fiz três gestões em épocas diferentes, na década de 60 e 70, sempre como conselheiro. Lá eu participava dentro daquele objetivo que havia somente antigamente, que era fiscalização e registro da profissão. Tanto eu fui conselheiro da área de fiscalização como fui conselheiro da área de registro. Aí depois eu fui também para a Federação dos Contabilistas do Estado de São Paulo. Lá eu exerci a função também de diretor secretário, depois exerci a função de vice - presidente. Aí, eu voltei para o Sindicato como vice - presidente, isso na década de 70, quase no final de 70. Era presidente o Amicis Brandi Bertolotti, que veio a falecer no cargo e eu, como vice-presidente, tive que assumir. Consequentemente, a gestão que era de três anos, depois que eu assumi de vice - presidente para presidente, logo um ano e meio depois houve a eleição, eu fui eleito presidente. Consequentemente, hoje eu tenho a gestão mais longa na Presidência, que foram 50 meses. O professor Luiz Fernando Mussolini tem 48, o Andriolli tem 42 de gestão. Foram as gestões mais longas. Porque mesmo antigamente a gestão era de dois anos. Depois, na minha época, passou a ser três. E foi a época da ditadura, que houve uma mudança muito grande e quem estava tinha que ficar e eles, então, obrigaram naquela época, o governo obrigou que as gestões seriam de três anos e ficaram de três anos no Sindicatos. Aí eu assumi a Presidência do Sindicato, fiquei lá durante 40 anos, acredito que eu devo ter trabalhado bastante com relação à valorização da classe, que sempre foi minha plataforma, mesmo porque eu sempre trabalhei em empresas grandes e, consequentemente, eu lutava pela valorização do Contador dentro dessas empresas grandes, porque eu achava que a Contabilidade era um bolo onde todas as outras profissões queriam uma fatia e avançavam. E acredito que eu, pelo menos, e mais alguns colegas lá do nosso grupo, conseguiram atingir cargos dentro dessas empresas, com uma valorização muito grande, através da Contabilidade, através do desempenho contábil, porque a gente sempre exerceu a profissão de Contabilidade dentro dessas empresas. No Sindicato o Amicis tinha assinado um contrato, porque um outro presidente tinha comprado uma outra parte do edifício CBI. Com o falecimento do Amicis e a assinatura do contrato, eu tive que desenvolver a reforma do Sindicato, em que nós fizemos uma reforma enorme e quase que dobramos a quantidade de área do Sindicato naquela época, que foi finalzinho de 70, começo da década de 80. Aí, depois do Sindicato, eu fui, até hoje estou com alguns cargos, mas apenas como suplente. Hoje eu sou suplente no Conselho Regional de Contabilidade, suplente na Federação. Mas também desses períodos todos, eu tive que assumir, eu era suplente do Conselho Federal de Contabilidade numa determinada época dessas décadas e o titular teve que se afastar, eu tive que assumir temporariamente o cargo de conselheiro efetivo do Conselho Federal de Contabilidade. Da mesma forma também eu assumi por uns tempos, eu era suplente ao cargo de diretor efetivo da Confederação Nacional dos Profissionais Liberais, que fica sempre no Distrito Federal. Participei em todas essas entidades. Eu me formei em Técnico em Contabilidade, voltando um pouco no tempo, em 1956, depois andei fazendo uma série de cursos, que vocês devem ter anotado aí e comecei a crescer muito no mundo empresarial através da Contabilidade. Bom, conclusão: acabei chegando a ser o Contador Geral do Moinho Santista. Mas aí não parou. O Moinho Santista era um conglomerado de empresas, eu passei a ser o Contador Geral do grupo todo do Moinho Santista e, posteriormente, eu tive a possibilidade inclusive de dirigir toda a parte contábil de todas as empresas do grupo, que naquela época era um grupo estrangeiro. Ainda hoje tem uma parte disso, que eles estão praticamente enxutos em determinados setores hoje. Mas na época que eu estava lá chegaram a ser cento e tantas empresas. Daí, a Contabilidade passou para outros colegas e eu passei a assumir cargo de Diretorias, chegando até a pertencer, entre Conselhos de Administração e Diretorias, a cerca de 15 cargos. Bom, nesses cargos de diretoria, também ocorreu na mesma época daquelas décadas de 70, 80, eu cheguei a ter o cargo de diretor de Relações com o Mercado. Consequentemente, entrei muito no mercado financeiro e de investidores. Naquela época foi fundada a ABRASCA, Associação Brasileira das Sociedades de Capital Aberto. Eu participei pelo Moinho Santista, e até praticamente eu me aposentar eu era conselheiro da ABRASCA. Fui eleito no Conselho de Administração da Bolsa de Valores de São Paulo e fiquei na Bolsa de Valores de São Paulo, no Conselho de Administração, cerca de 10 anos. E lá tive vários desempenhos na área empresarial, mas nunca desligado da atividade, vamos dizer assim, dentro das empresas. Como diretor, eu tinha sob a minha direção, orientação, quase sempre os departamentos ligados à Contabilidade, atendia a todos os investidores revelando, informando acerca dos dados contábeis das empresas. Para isso eu tinha que estar a par de tudo o que acontecia através da Contabilidade. P/2 – O senhor gostava de Matemática? R – Não era muito chegado, mas a nossa área não mexe tanto com Matemática. Mexe com números, mas é mais operativo dos fatos e tudo o mais. Eu tinha sempre muita amizade com o professor Hilário Franco, com o professor Mussolini. Tinha um relacionamento muito grande, então eu estava sempre atualizado, sempre mantive um relacionamento. P/2 – Quando o senhor teve contato com o professor Hilário Franco? Ele é uma pessoa importante, né? R – O professor Hilário Franco foi um grande amigo meu. Ele faleceu recentemente, no dia 22 de dezembro. Nós estivemos juntos, a última vez, durante uma semana, no Congresso Brasileiro de Contabilidade em Goiânia. Ficamos uma semana juntos e tivemos a oportunidade de bater muito papo. Ele foi meu professor. P/2 – O senhor tem alguma história para contar dele, algum fato? R – Ele foi meu professor. E como foi meu professor também, meu guru, o professor Luiz Fernando Mussolini, que era praticamente um irmão espiritual do Hilário Franco. Eles eram sócios, estavam sempre juntos. P/2 – Isso na Faculdade Álvares Penteado, que era Escola de Comércio. R – Da Álvares Penteado. É, Escola de Comércio. Eu tinha muita amizade, o Hilário Franco era, como eu também, são paulino, então a gente brincava muito. Mas Hilário Franco foi uma figura muito importante na nossa profissão, tanto no âmbito nacional como no internacional. Era uma pessoa de uma delicadeza extrema, de uma capacidade extrema. Ele obteve os títulos mais importantes na Contabilidade em sua homenagem e eu tive a felicidade, nesse Congresso, eu estava trabalhando em uma Comissão em que eram apresentados trabalhos. Dada a nossa amizade, ele participava sempre dessa Comissão e eu, nessa Comissão, sempre enalteci o nome dele, apresentando-o ao público, que era de 400, 500 pessoas no auditório. Ele era aplaudidíssimo. Ele ficava ali na frente sentadinho com a esposa dele, no final era terrível a quantidade de fotografias que o povo todo queria tirar com ele e obter autógrafos em seus livros. E ele, então, até brincava comigo: “Bertasi, se eu ganhasse um real por cada fotografia.” E eu: "Ah, professor, mas aí eu teria minha comissão, porque fui eu que apresentei o senhor aqui.” (riso) Brincava com ele. Isso foi em outubro de 2000. Em dezembro, infelizmente, no dia 22 de dezembro, ele faleceu. Mas nós nos dávamos muito, tanto com ele como com Mussolini. Eu me dava também com o professor Boucinhas antigamente, o famoso professor José da Costa Boucinhas, Ernesto Marra. Olha, todo esse pessoal de renome, alguns foram meus professores, mas através das entidades eu acabei não sendo mais aluno, mas sendo amigo e tendo esses amigos que na verdade ajudavam também a gente dentro das entidades e a desenvolver a nossa profissão. E foi através da Contabilidade, foi através do desempenho meu na Contabilidade, foi através da minha marca na Contabilidade, que eu consegui me tornar uma espécie de empresário desse conglomerado, onde eu tive uma participação muito grande no mundo empresarial, chegando a ser conselheiro da ABRASCA por muitos anos, da Bolsa de Valores, participava de uma série de Congressos de empresários, Seminários, viajava pelo Brasil inteiro, ia para o exterior. Inclusive eu fiz um curso em Fontainebleau de Mercado de Capitais. Lá na França, onde eu passei quase 30 dias mais ou menos viajando com o pessoal da Bolsa, fazendo esse curso, na Alemanha, na Espanha, em Paris, na Inglaterra e até naquela cidade, como chama? Liechtenstein, se não me engano? Não é Liechtenstein, não me recordo o nome, que fica ali entre Alemanha e Suíça. Lá também eu estive fazendo um curso, sempre na área de Mercado de Capitais. Nesse ínterim também eu participei de uma quantidade muito grande de Seminários, Congressos, cursos, como jogo de empresas, vário cursos, onde a gente ficava fechado, Matemática Financeira, Direção por Objetivos, uma série de cursos. P/2 – É uma atividade que requer uma constante atualização. R – Atualização e adaptação aos novos sistemas. P/2 – Adaptação às mudanças. P/1 – Pelo que dá para perceber, o senhor gosta muito dessa profissão. R – Demais, demais. P/1 – Se o senhor tivesse que começar de novo o senhor teria escolhido Contabilidade? R – Teria escolhido e me rendo perante a essa profissão, porque além de eu gostar e, como disse no início, praticamente, instintivamente, o meu pai acabou me levando para esse lado. P/1 – O senhor se realizou nela? R – Realizado a gente nunca está. Mas não há dúvida. Tudo o que eu obtive na vida foi através da Contabilidade. Eu sei que eu me aposentei do grupo Moinho Santista após 46 anos de serviço. E sempre dentro não só da área administrativa, no caso como diretor, mas também mais como um profissional da Contabilidade. Hoje, por exemplo, eu continuo ainda participando das empresas através dos Conselhos Fiscais, pertenço a algum Conselho de Administração. Nesses Conselhos Fiscais a gente é obrigado a estar atualizado com a Contabilidade, alguns eu dou assessoramento. E eu faço também, na medida em que aparece, eu estou sempre ligado à Contabilidade, ou como gerente delegado de empresa estrangeira, ou como procurador, ou como assessor administrativo contábil societário. Toda essa parte eu trato. Porque eu também hoje exerço a função de vogal já pela segunda gestão, na Junta Comercial do Estado de São Paulo, que é o órgão mais antigo que existe aqui. Tanto é que eu saí de lá agora e vim para cá. (riso) P/1 – De todas essa mudanças que o senhor acompanhou, porque 46 anos de profissão foi bastante coisa, de tudo isso... R – Mais, porque está fazendo 50 e tantos anos. P/1 – De todas essas mudanças tecnológicas, quais foram as mais significativas na área da Contabilidade? R – Não tenha dúvida que foi a parte da computadorização, porque aquilo que se fazia na unha, com o crescimento, de uma forma violenta, dos movimentos, de empresas que foram criadas, do comércio, importação, exportação, no mundo todo globalizado, seria impossível tentar fazer alguma coisa sem esses recursos de hoje. Porque a gente fazia praticamente na mão, na unha. P/2 – O senhor lembra quando foi o primeiro computador que o senhor teve contato? R – Foi na virada de 1950 para 60, com o sistema Hollerit, que era o sistema de cartão perfurado. Ali é que eu comecei a entrar nessa área. Hoje eu trabalho, não sou um , mas se eu não movimento o micro hoje, quem não tiver isso está fora. Na maioria das profissões, em qualquer atividade quase, é necessário ter micro, não só para desenvolvimento de trabalhos, como também pela vivência com o resto do mundo, através da rede de comunicação. Hoje eu acho, e sempre falei para os meus filhos desde criança, que o mundo seria da Cibernética. P/1 – Agora conta uma coisa para a gente: as mudanças econômicas, frente ao contabilista, elas devem atuar bastante, não é? R – As mudanças econômicas, principalmente na minha época, eram uma das coisas mais terríveis que poderiam existir, porque eram os célebres “pacotes” do governo. Consequentemente, na manhã que saía o negócio, durante dois ou três dias era uma luta titânica para a gente poder adaptar todos os sistemas, todas as providências, com relação àquilo que os “pacotes” modificaram. Principalmente na época de inflação, as medidas que se tinha que tomar eram coisas extraordinárias. Eu, por exemplo, não fui Contador de escritório de Contabilidade, de fazer escrita. Eu fui Contador de empresas grandes, onde eu trabalhava, praticamente, além da Contabilidade Fiscal, Legal, eu tinha que trabalhar com a Contabilidade Gerencial naquela época, que hoje isso é uma das coisas que mais deve prevalecer dentro das grandes empresas, é a Contabilidade Gerencial. Porque não adianta nada querer só ficar em cima da parte de registrar os fatos acontecidos de pagamentos e recebimentos, porque a Contabilidade é uma ciência e ela tem uma penetração muito grande. A Contabilidade, no meu modo de entender, não é que eu queira puxar a brasa para a minha sardinha, mas a Contabilidade tem que estar e está na vida de todo mundo. Quem não se organiza contabilmente, pode contar que mais cedo ou mais tarde vai sair prejudicado em alguma coisa. P/1 – A dona de casa é uma contabilista no fim das contas? R – É, de qualquer forma a Contabilidade está na vida de todo mundo. E toda empresa tem que ter um Contador. Quer dizer, é uma profissão que toda empresa tem que ter. Seja pequena, grande, o que for. P/1 – Se usa ainda esse termo, Contador? R – Usa. P/1 – Ou é contabilista? R – Olha, existe um problema que surgiu, porque a nossa lei de regência, ela teve um defeito, ela praticamente dividiu a profissão em duas categorias: a profissão de Técnico em Contabilidade e Contador, sendo que algumas prerrogativas do Contador não podem ser exercidas pelos Técnicos de Contabilidade, que é o caso, por exemplo, de auditoria, de perícia. O resto, o Técnico de Contabilidade praticamente pode fazer tudo. Com isso, houve uma divisão e, desde 1960, nós lutamos por isso, pela unificação da profissão, sem prejudicar aqueles que já têm o direito adquirido. Agora, no meu modo de entender, aí existe muita política e muita pressão por parte das escolas do curso Técnico de Contabilidade. Eu entendo que deveria terminar com isso, equiparar e deixar o Técnico, essas escolas, formar escriturários, auxiliares e nós, Contadores, teríamos uma profissão única, que seria mesmo só de Contador. Já existe uma guerra de especialização, um é perito, outro é auditor, outro é Contador do setor privado, outro é empresário porque tem escritório. É uma mistura. Eu acho que deveria existir só o Contador e a Contabilidade. P/1 – Contador é sinônimo do termo antigo guarda-livros? R – Sim. P/1– O senhor pegou esse tempo de guarda-livros? R – É a transformação. Depois que saiu a lei que rege a nossa profissão, que é a 9295, de 1946, em que foram formados os Conselhos Regionais de Contabilidade, foi aí que se criou o Técnico em Contabilidade e o Contador. Antes disso existia o guarda-livros, aquele célebre que usava aquela viseira e escrevia em manga de camisa com aqueles elásticos no braço, era a figura do Contador. Eu acho que o Contador é uma belíssima profissão. Eu adoro, como adoro as entidades e tenho participação até hoje porque, dada a quantidade de entidades, acabaram se formando grupos dentro das entidades. Aí é uma história mais longa. Em 1977, no Congresso de Contabilidade que foi realizado em Salvador na Bahia, o pessoal de São Paulo se reuniu e resolveram fazer uma espécie de congraçamento. Então aquelas célebres chapas, que tinha Um e Dois, aquele negócio todo, até por questões da política governamental, não podia mais ter número, era obrigado a ter cor, foi formado um grupo Azul e um grupo Verde. Então, se tentou fazer um congraçamento para que houvesse um equilíbrio de participação e de ajustes dentro das entidades, com os dois grupos, para que não houvesse mais divergências, choques e provocação de disputas eleitorais e tudo mais. Mas depois apareceram mais dois grupos. Apareceu o grupo Branco, que é formado mais por auditores, proveniente mais do Ibracon, onde por sinal eu exerci funções de diretor, no Ibracon, que é o Instituto Brasileiro de Contadores, tanto na seção regional como na nacional. Eu participei também como diretor. E fiz uma gestão, se não me engano, no regional e uma gestão no federal. Enfim, passei em quase todas as entidades, com exceção do Sescon, que é o Sindicato das Empresas de Contabilidade, que eu não sou sócio porque eu não tenho escritório de Contabilidade, mas faço parte como entidade congraçada. Hoje são quase dez as entidades congraçadas. E surgiu também, foi formado um grupo de contabilistas do interior. Então consequentemente, sob o aspecto político, aqui no Estado de São Paulo existem quatro grupos: Azul, Verde, Interior e Branco. Em cada grupo desses, que tem um número significativo de membros participantes, há uma coordenação, formada por cinco líderes. Desses líderes um deles é denominado o coordenador geral. Eu sou coordenador geral do grupo Verde. É um grupo que era formado pelo professor Mussolini, Hilário Franco, Boucinhas, Emílio Bacchi, Marra, contabilistas de renome. E não sei porque cargas d’água, eles me escolheram como coordenador desse grupo e estou até hoje. E nos outros grupos, cada grupo também tem o seu coordenador. A gente se reúne mais ou menos, ordinariamente, quatro vezes por ano, salvo se tem necessidade de se reunir extraordinariamente. Nesses grupos são decididos todos os problemas das entidades, a nível de formação de chapas, de participantes, de diretoria e, às vezes até de comum acordo, da própria profissão aqui no Estado de São Paulo. Para que não haja divergências e aquelas guerras intestinas que, muitas vezes, em determinadas profissões ocorre. Como nós somos uma profissão muito grande e de localizações diferentes, porque o Estado de São Paulo é muito grande, eu acho que estão funcionando muito bem esses acordos. E a gente consegue eleger as diretorias das entidades de comum acordo, com a participação de todos os grupos, em algumas fazendo-se rodízio das presidências, outras a presidência é de predominância de determinado grupo, de comum acordo. Entram outros diretores nas diretorias de outros grupos e a presidência, naquela entidade ou naquelas entidades, é de predominância de um determinado grupo. Em algumas entidades a presidência é feita na forma de rodízio, cada grupo tem uma gestão, conforme terminam os mandatos. Em linhas gerais é isso. P/1 – Dr. Luiz, a nossa linha aqui no Museu, a gente dá muita importância à vida pessoal e se o senhor pudesse nos falar alguma coisa da sua vida mais pessoal para compor um perfil melhor... P/2 - Quando o senhor casou... R – Eu posso dar uma rápida pincelada no seguinte: eu tive uma vida, vamos dizer assim, uma juventude muito difícil, porque eu perdi meu pai eu tinha oito anos de idade, fiquei eu e minha mãe. E minha mãe recebia uma pensão do meu pai muito baixa. Nós tivemos que diminuir o nível de vida, fomos obrigados a morar numa pequena casa. E lá minha mãe foi obrigada a exercer alguma coisa para ganhar dinheiro, o que ela fazia com muita habilidade, ela bordava, em máquina de costura. Ela bordava em casa. Depois passou a bordar na casa de pessoas que já estavam estabelecidas. Então ela defendia um pouco ali. E eu tinha que ajudar também desde os nove anos, por isso que eu trabalho. Nós tivemos muita dificuldade. E praticamente a minha infância foi eu e minha mãe só, porque a minha irmã, além dela ter uma distância maior, logo após poucos anos que meu pai tinha falecido ela casou e foi embora. E fiquei eu e minha mãe numa situação bastante difícil. Mas, graças a Deus, acho que eu tive cabeça e naquela época o homem, o rapaz com 18 anos já era homem, já tinha cabeça e tinha responsabilidade. Apesar de que na juventude eu era muito namorador, mas logo eu conheci a minha esposa, com 18 anos de idade. E era aquela época que a gente só via de sábado, então a gente só se via de sábado, durante a semana via as outras. (riso) E passamos muitos anos namorando. Era família também de origem italiana, então eu comecei a freqüentar a casa dela, porque ela tinha sido operada de amígdalas. P/1 – Como é o nome dela? R – Dima Dirce. E o pai dela era comerciante. Ele tinha um armazém atrás do Colégio Arquidiocesano, de secos e molhados. E aí, como ele não podia abrir o negócio de domingo, aos domingos ele abria por detrás. Eu estava lá, eu ficava ajudando, porque ele tinha problema. Ele era italiano e tinha estado na Primeira Guerra Mundial, e um estilhaço de granada praticamente inutilizou uma das pernas dele, ele tinha dificuldade para andar e enxergar, por causa do gás de mostarda que usaram naquela época. Então ele ficou quase que... usava umas lentes de fundo de garrafa. Eu ajudava o meu sogro, gostava muito dele, me dava muito com ele. Era uma família de italianos pequena, era pai, mãe e quatro filhos. Três filhas e um filho só, aqui no Brasil, não tinham mais ninguém. E eu namorei durante seis anos. E para poder casar o que eu fiz? Eu tinha terminado os estudos, foi na época que eu tinha me formado em Técnico, porque eu voltei para a faculdade depois de casado. Eu comecei a trabalhar à noite, fazendo bico de Contabilidade, de escrituração, com alguns amigos e, mesmo assim, chegou a pegar época em que eu estava estudando ainda, eu ia para a escola, voltava às dez horas da noite, onze horas da noite, ficava até duas, três horas da manhã fazendo escrituração de livros. E às oito horas estava dentro do Moinho Santista. E à noite o que me salvava é que na Rádio Cruzeiro do Sul tinha um programa de tango, não me recordo o nome do nosso amigo. Eu era louco por tango, eu tinha aqueles rádios, não era de pilha não, era de válvula, eu ficava ouvindo a Rádio Cruzeiro do Sul, que depois passou a ser a Rádio Piratininga, se não me engano. Eu ficava ouvindo tango e trabalhando, escriturando, para poder comprar os móveis à prestação. Morava numa casa pequenininha, fui entulhando tudo lá, até o dia em que eu mudei e me casei, em 1956. A minha esposa me ajudava, porque ela fazia de certa maneira a escrita do armazém do meu sogro, porque naquela época comprava-se muito fiado e tinha as tais cadernetas. Marcava tudo na caderneta. E diariamente ela tinha que anotar. As pessoas iam no armazém, compravam as coisas e faziam um papelzinho. À noite ela tinha que passar todos esses papeizinhos para a caderneta individual de cada um. Com isso ela ganhava um dinheiro do pai, porque era um trabalho grande. No fim do mês, quando era para fechar todas essas cadernetas para pagar, quem fazia a somatória de tudo isso era eu. (riso) P/1 – A mão? R – Não. Já tinha a maquininha. Tinha a maquininha de fita que, por sinal, modéstia à parte, eu tinha uma habilidade. Fazia a soma com uma facilidade incrível. E aí é que vinha o negócio, um dava uma parte, ficava devendo outra, aqueles meses duros. P/1 – Essa era uma contabilidade doméstica mesmo? R – É. Mas eu acho que, acredito que, modéstia à parte, eu devo ter sido um bom pai, um bom filho. P/1 –E filhos, quantos filhos o senhor tem? R – Eu tenho quatro filhos. Acontece que eu casei, mas levei minha mãe comigo. E a minha mãe morreu em 1997, com 90 anos de idade. Quer dizer, ela passou e eu passei a minha vida inteira, até 97, com minha mãe. Eu nunca abandonei minha mãe. E felizmente minha esposa aguentou as pontas, porque é duro sogra morar com nora e nora morar com sogra. Mas nós conseguimos levar até o dia que ela faleceu. Ela era uma pessoa muito forte, mas ela colaborou muito também no início, não só em olhar as crianças, como também ajudar na casa, ajudava muito minha esposa também, porque quatro filhos... Um veio, praticamente, nasceu a Denise, em 59. Em 61, nasceu a Solange e, por um lapso, em 62 nasceu o Fábio. Quer dizer, a Solange nem andava ainda. E em 65, foi quando apareceu a pílula, diz que podia parar, apareceu o Marcelo, de contrabando. Então eu tenho quatro filhos. P/1 – Hoje já estão...? R – A Denise é secretária numa Repartição Pública Federal, a Solange é psicóloga, o Fábio partiu para a Informática, foi para o Comércio, agora está querendo voltar para a Informática. A mesma coisa o Marcelo, mas o Marcelo já voltou para a Informática. P/1 - Nenhum foi para o seu setor de Contabilidade? R – Não. Nenhum. P/1 – Nem com a influência paterna? R – Nada. Ao contrário, eles achavam que eu era um louco de ficar o dia inteiro fechado dentro de um escritório trabalhando, mesmo em casa. Hoje eu tenho escritório na minha casa. E, graças a Deus, apesar de que a situação financeira hoje em dia está difícil, porque não deu para ganhar o suficiente para poder fazer uma independência total. Mas eu faço um bico aqui, um bico lá, um conselho aqui, um conselho lá. P/2 – Hobby o senhor tem algum? R – Olha, antigamente eu tinha mais. Eu jogava muito xadrez. Gostava muito de xadrez. P/2 – E com quem, quem eram os seus parceiros? R – Eu jogava no Sindicato, mas jogava muito dentro do próprio Moinho Santista, que nós tínhamos um clube de xadrez, inclusive nós disputávamos campeonatos. Eu cheguei a ganhar um campeonato, gostava muito de xadrez. Jogava tênis. Agora eu parei, praticamente por preguiça. Eu morava ali perto da Avenida Indianópolis e freqüentava o Clube Helvétia. Então tinha um outro colega que morava na Indianópolis, a gente acordava, às seis horas da manhã nós estávamos no clube. A gente batia até sete horas mais ou menos, morava ali quase em frente, tomava um banho e ia embora, oito horas estava no serviço. Era uma delícia, porque a gente chegava após uma ginástica e um banho. Mas isso era na época do frio, do calor, de todo jeito. Durante muitos anos nós batemos tênis juntos. Esse colega também se aposentou. Aliás, quase todos os colegas meus da época do Moinho Santista estão aposentados. P/1 – Não tem nenhum filho casado ainda? R - Tenho. Tenho cinco netos. P/1 – Que beleza. E a sensação de ter netos? R – O que é lamentável é que a maioria se separou. (riso) P/1 – Sinal dos tempos. R – E o vovô aqui. Eu tenho os dois primeiros netos, o Danilo e o Rafael, que são a loucura da gente, porque são os primeiros. Mas nós adoramos também os outros. O Danilo e o Rafael são filhos da Solange. A Denise não casou até hoje. Talvez seja a mais esperta. (riso) O Fábio tem uma menina, a Raquel, tem três anos, e o Marcelo tem dois, tem o Luigi e tem a Sofia. Agora quem mais freqüenta a minha casa e quem mais puxa para o nosso lado é o Danilo e o Rafael. Primeiro que foram os primeiros. P/1– Quantos anos tem o Rafael? R – O Danilo vai fazer 11 anos agora e o Rafael tem nove. A Sofia tem seis e os dois menores têm três. Mas acontece que o Danilo e o Rafael são filhos da Solange, que casou com uma pessoa lá de Rio Claro, foi morar para lá mas, depois que o Rafael nasceu, praticamente estão separados, não legalmente, mas estão separados, ela está em São Paulo, ele está lá. A gente ia muito para lá, porque ele lidava com boi e eu também comecei a me enfiar nisso (riso). E a minha esposa ia muito para lá e ficava muito com a minha filha lá e tomava conta do Danilo. Então o Danilo ficou sendo o primogênito e mais agarrado com a gente. Mas está um boi hoje. Está muito grande, muito gordo. A gente adora os netos. Mas eu acho que, tudo o que eu devo, eu devo à minha profissão, a Contabilidade. P/1 – E qual é a sua perspectiva agora, daqui para frente, na sua vida? O senhor tem muita vida pela frente. R – Será? P/1 – Olha, diz a hereditariedade que a longevidade passa. R – O meu avô, por parte do meu pai, acho que não existe muitos dados. Eles eram quatro filhos. Meu pai morreu por acidente, com 44 anos. Mas os outros, meus tios, eram dois tios e uma tia, morreram com... O último que morreu, agora, estava com 90 anos. P/1 – Então o senhor tem boas perspectivas. R – Não sei, porque naquela época a vida era diferente, a alimentação diferente. Eu fumo, eu gosto de tomar (riso) então não sei qual é a minha perspectiva, não vejo muita não. P/2 – Sonhos. O senhor tem sonhos ainda a realizar? R – Eu gostaria de ver a família toda bem encaminhada. Esse seria o meu sonho tranquilo. Porque hoje em dia está muito difícil. P/1 – Só mais uma coisa: o senhor tem formação religiosa? R - Eu sou católico. P/1 - Praticante? R – Agora eu estou meio assim, mas de vez em quando vou à missa. Mas eu trabalhei muito para a Igreja de São Judas Tadeu. Eu morava ali perto e eu freqüentava e trabalhava muito lá, inclusive minha esposa também, trabalhava em determinadas áreas, eu trabalhava noutra. Depois entramos naquele negócio de encontro de casais, ficamos muitos anos lá trabalhando, ajudando a Igreja. Freqüentava bastante. Sou católico e ela também é católica. P/1 – E atuação política, o senhor tem alguma? Acho que não teve muito tempo, não sobrou muito tempo. R – Olha, depois que eu me aposentei, eu me aposentei em 92, independentemente de todas essas participações, eu tinha um amigo contabilista que era deputado. Ele acabou sendo líder do partido e pediu se eu não queria ajudá-lo, lá na Assembléia Legislativa. E eu fiquei seis anos trabalhando dentro da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, durante algumas horas na parte da tarde. Então foi uma experiência interessante, onde eu conheci uma série de coisas, em que eu tenho umas opiniões que me deixam bastante desapontado. Porque eu vi como funcionam as coisas. Cheguei a entrar no PFL. Olha, pelo que eu vi lá dentro, não dá para a gente acreditar quase em mais nada. (riso) P/1 – É uma constatação. R – Salvo raras exceções, eu estou muito desapontado com a política. Em todo lugar tem problema, todo lugar tem. Primeiro eu, depois o povo. E cada um puxa a sardinha para a sua brasa ou a brasa para a sua sardinha, como queira, mas acho muito difícil alguém ir para lá e ser totalmente puro, totalmente bem intencionado. Porque é um baile que, se não dançar a música que eles querem, você fica fora do baile. No meu modo de ver, acho muito difícil. Em todo lugar está assim, acho que no mundo inteiro. É um problema do ser humano. Em que mais eu posso ajudar? P/1 – A gente gostaria de ficar conversando com o senhor durante muito tempo, que o senhor fala gostoso (riso), tem muita coisa para dizer para gente. R – Mas tem coisas da vida que a gente não pode falar, né? (riso) P/1 – Mas as coisas agradáveis até que é gostoso falar, não é? R – Olha, eu teria muita história, porque nós estamos falando aqui quase que resumidamente. P/1 – Claro. E tematicamente. R – Mas eu tive a oportunidade de participar de tanta coisa, em tantos lugares, que existem tantos fatos que eu participei, bons e ruins, é difícil destacar e teria que ter muito tempo. Além do que tem coisas até que a gente, quando se encontra, é uma gargalhada só, porque tanta coisa que a gente fez. Porque dentro de todo esse negócio aí, apesar da seriedade e tudo o mais, tem as partes que a gente também faz parte cômica e prepara uma série de coisas. Dentro de uma empresa grande, com tantos funcionários, acontece tanta coisa boa e ruim. E engraçada. Então eu, quando começo a contar para determinados companheiros certas coisas, é uma gargalhada só, porque eu gosto muito de piada, eu gosto muito de conversar, de contar os fatos. Então muita gente fala: “Você é um arquivo vivo.” E eu falo: “Ainda bem que eu estou vivo!” (riso) P/1 – Esta entrevista estava dentro de suas expectativas? Estava como o senhor esperou que fosse? O senhor gostou? R – Eu gostei. Tanto é que ontem eu sentei no micro e acho que 80% do que eu falei está aí. Está por escrito aí. P/2 – Ah, que bom. Está ótimo! P/1 – Mas a parte pessoal também faz parte. R – A parte pessoal quase não entrei, mas teria muita coisa para contar. Mas eu procurei me concentrar na parte profissional. Eu também já escrevi muito. Eu dei muitas palestras em faculdades, escolas. Escrevi alguns artigos nos nossos boletins. Eu cheguei a fazer até o curso de Oratória do (Demu Ramos?) e depois eu deslanchei. A experiência que a gente vai adquirindo, a vida vai ensinando uma série de coisas. Mas eu nunca fui de querer aparecer. Nunca gostei muito de esnobar ou de me prevalecer do poder que eu pude ter algumas vezes na mão. Isso nunca foi do meu perfil, nem do meu feitio. Ao contrário, sempre procurei ser o mais simples possível, modéstia à parte. E procurar sempre ajudar o próximo. P/1 – Essa é sua filosofia de vida? R – Essa é a minha filosofia de vida. Na minha profissão, eu sou pela valorização do profissional, porque dentro da empresa grande o Contador é muito difícil para aparecer. O engenheiro quer entrar na área administrativa, o economista e, na verdade, dizem que de louco e médico cada um tem um pouco. Mas acho que de Contabilidade também todo mundo tem um pouco, porque de forma correta ou incorreta acaba fazendo coisas que dizem respeito à parte da Contabilidade. P/1 e P/2 – Muito obrigada. Nós ficamos muito satisfeitas com o seu depoimento.

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