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História

"Eu tenho dom pra escrever poesia"

História de: Miriam Brasilino de Carvalho Miatto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2021

Sinopse

Miriam relembra as casas que morou com sua família em Campinas, sobre as brincadeiras de infância, os bailinhos, clube, sobre as escolas que frequentou, sobre passar a infância, a adolescência e a vida adulta em Campinas, sobre as transformações da cidade, como se tornou professora e como começou a escrever poemas.

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História completa

P/1 – Olá Miriam, bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Eu gostaria de pedir de novo para a senhora... Que a senhora falasse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Miriam Brasilino de Carvalho Miatto.

 

P/1 – A senhora nasceu em que cidade?

 

R – Nasci na cidade de Campinas, São Paulo no ano de 1944.

 

P/1 – Em que dia e que mês?

 

R – 26 de junho.

 

P/1 – De 44?

 

R – De 44.

 

P/1 – O nome do seu pai?

 

R – Geraldo Brasilino de Carvalho.

 

P/1 – E o nome da sua mãe?

 

R – Leonor da Silva Carvalho.

 

P/1 – O seu pai era de onde?

 

R – Ele nasceu em Campinas.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Em Amparo.

 

P/1 – E a família do seu pai era de Campinas mesmo? O seu avô?

 

R – Ah, meus avós eram... Minha avó era de Minas, minha avó paterna.

 

P/1 – E o seu avô era de Campinas mesmo? O pai do seu pai?

 

R – Isso eu não sei.

 

P/1 – E a sua mãe de Amparo? A família dela era de lá mesmo?

 

R – De Amparo, eram todos de Amparo.

 

P/1 – E o seu pai fazia o quê?

 

R – Meu pai era tintureiro, quer dizer, tinha uma lavanderia, onde lavava a roupa e também usava tingir, naquele tempo tinha tingimento de roupa, por isso a profissão de tintureiro.

 

P/1 – E seu avô, o pai dele? O que ele fazia?

 

R – Do meu avô eu não sei falar nada porque eu não tenho notícia dos meus avós maternos e paternos, eu não tenho.

 

P/1 – Eles já tinham morrido quando a senhora nasceu, né?

 

R – Eu acredito que sim, não sei nada deles.

 

P/1 – As avós, a senhora conheceu?

 

R – Conheci.

 

P/1 – As duas?

 

R – As duas.

 

P/1 – Tanto a de Campinas quanto a... A de Amparo morava lá ainda ou tinha mudado para Campinas?

 

R – Já estava tudo aqui em Campinas.

 

P/1 – E a senhora não tem mais família em Amparo, então?

 

R – Não, em Amparo não, não tenho mais.

 

P/1 – Como é que seu pai conheceu a sua mãe? A senhora sabe?

 

R – Foi aqui em Campinas, não sei se namoravam naquele tempo, davam voltas no jardim e começou a paquera. Acho que foi aí.

 

P/1 – A senhora sabe onde seu pai e sua mãe moravam de solteiro ou não? Quando eles se conheceram?

 

R – Sei que era no centro de Campinas, não sei se foi na Avenida Anchieta, exatamente eu não sei onde ficava a casa.

 

P/1 – E seu pai e sua mãe casaram. A senhora tem irmãos?

 

R – Eu tenho irmãos, tenho três irmãos.

 

P/1 – São mais velhos ou mais novos?

 

R – São mais novos, eu sou a mais velha.

 

P/1 – A senhora é mais velha.

 

R – Sou.

 

P/1 – A senhora nasceu onde? Onde seus pais moravam quando a senhora nasceu?

 

R – Moravam na Avenida Anchieta.

 

P/1 – No centro de Campinas?

 

R – É, no centro de Campinas.

 

P/1 – E a senhora morou lá muitos anos?

 

R – Morei alguns anos, depois nós mudamos muito de casa, porque era casa alugada e a gente foi mudando de casa.

 

P/1 – E como é que foi? A senhora lembra da infância na Rua Anchieta, na Avenida Anchieta?

 

R – Na Anchieta, eu lembro alguma coisa sim, eu lembro de um pé de (machucheiro?) que tinha ali, umas florinhas cheirosas em cima do muro, tinha terra, um portão de madeira, um cachorro que chamava Hino.

 

P/1 – Como é que chamava o cachorro?

 

R – Hino.

 

P/1 – Era o quê? Vira lata?

 

R – Era um vira lata.

 

P/1 – Daqueles grandões?

 

R – É (risos).

 

P/1 – Eu gosto de cachorro. A senhora ali reinava sozinha ou já tinha algum irmãozinho?

 

R – Eu já tinha minha irmã que tinha um ano e meio de diferença, mais nova.

 

P/1 – E aí a senhora não ficou muitos anos nessa casa?

 

R – Não, aí nós já fomos pra uma outra casa.

 

P/1 – E onde que era?

 

R – Na Vila Industrial, já era Rua da Boiada.

 

P/1 – Vila Industrial é longe do centro?

 

R – É.

 

P/1 – É para o lado de onde? Para o lado da Anhanguera ou para o outro lado?

 

R – É para o lado da Anhanguera. É afastado um pouco do Centro, é um dos bairros mais antigos de Campinas. Era na Rua da Boiada, era uma rua de terra e passavam os bois lá, deixavam aquela poeira.

 

P/1 – A senhora lembra de passar os bois?

 

R – Me lembro. Eu me lembro que tinha ciganas que andavam na rua e a gente fechava a porta. Minha mãe falava: “Olha, cuidado com a cigana, elas vão pegar crianças”. Eu me lembro de um pé de amoreira também, o meu irmão ia oferecer amora para minha mãe, eu me lembro disso.

 

P/1 – E vocês tinham vizinhos que brincavam? Filhos de outras pessoas?

 

R – Não, nessa casa eu não me lembro de vizinhos não, só na próxima casa.

 

P/1 – E a senhora brincava do que na Vila Industrial, com os seus irmãos?

 

R – No quintal a gente brincava, ah, de casinha, essas coisas assim.

 

P/1 – Tinha algum jogo, alguma brincadeira que a senhora lembra? Que a senhora gostava mais?

 

R – Nessa casa eu não me lembro tanto de brincadeiras não.

 

P/1 – Na outra casa, a próxima.

 

R – A próxima casa foi o local de trabalho do meu pai, era lavanderia, nós mudamos para lá, e gente brincava no quintal. Tinha um quintal grande e a gente brincava de escolinha, de escavar o chão, a gente achava que ia encontrar um tesouro. A minha mãe sempre falava que os ricos de antigamente enterravam os tesouros nos quintais, então a gente tinha sempre esperança, nunca perdia a esperança, só encontrava caco de vidro e telha (risos). A grande esperança era ________ ficar rica e tirar o meu pai da pindura e vamos achar esse tesouro.

 

P/1 – E onde que era essa lavanderia?

 

R – Na Rua Benjamim Constant, no Mercadão, lá no Mercadão.

 

P/1 – Vocês moravam nos fundos da lavanderia?

 

R – É, nós morávamos nos fundos da lavanderia.

 

P/1 – E aí já tinham mais vizinhos?

 

R – Daí já tinha mais vizinhos.

 

P/1 – Vocês brincavam, como que era?

 

R – Não, nessa casa nós não brincávamos muito com vizinhos, éramos mais nós mesmos, os irmãos.

 

P/1 – E brincavam na rua ou brincavam mais no quintal?

 

R – Dentro de casa, no quintal.

 

P/1 – Ali tem bastante movimento, perto do mercado.

 

R – Brincava com as formigas, fazia a casa das formigas também, brincava de filhos, de mãe, pai e filhos. Em vez de boneca... Meu pai não podia comprar muitas bonecas, a gente fazia filha de pau.

 

P/1 – Como é que era?

 

R – Pedaço de pau assim, embrulhava num jornal que era a vestimenta das filhas, mas cada uma tinha uma família muito numerosa, porque podia ter quantas quisessem. Daí o menino do vizinho tirava sarro, falava: “O que é isso aí? É guarda chuva?” (risos), “Não é guarda chuva, isso são nossos filhos”. Cada um tinha um bando de filhos (risos).

 

P/1 – Vocês pintavam no jornal assim, ou não?

 

R – Nem pintava, era o jornal daquele jeito, amarrava com um barbante e era assim, brincava de fazer comidinha, ralava tijolo e era o molhinho, arroz e feijão era pedrinha e assim passava.

 

P/1 – Continuava a escavar o chão para achar tesouro, ou não?

 

R – De vez em quando era dia de escavar o chão para achar tesouro. Foi muito rico ter essa parte, essas brincadeiras nossas.

 

P/1 – Tinha essa coisa da lenda de Campinas ser barão de café, de gente muito rica no passado, daí vocês...

 

R – Eu acredito que sim, né? De ter sido uma cidade de gente famosas e ricas. Somente de ver os nomes quando eu vou no Cemitério da Saudade tem nome de pessoas importantes que são nomes de ruas lá, que eram pessoas fazendeiras que tinham muito dinheiro. Tem sim.

 

P/1 – Ainda tinha aquela ferrovia ali, que saía do Mercadão?

 

R – Não, isso eu não cheguei a conhecer, a ferrovia que saia do Mercadão não.

 

P/1 – Acho que tinha um trem ali que ia para Souza.

 

R – Ah, não. Ah, tinha um trem que ia para Souza sim, só que eu não cheguei... Eu não me lembro disso aí, o meu pai que sempre falou de um trem que ia para Souza, eu nunca peguei esse trem não.

P/1 – Em que colégio a senhora estudava?

 

R – Eu estudei no Grupo Escolar Orozimbo Maia, foi a minha primeira escola.

 

P/1 – O Orozimbo Maia, a senhora já morava perto do Mercadão?

 

R – Já morava, só que foi na Senador Saraiva, na Avenida Salvador Saraiva, aquela perto do mercadão também.

 

P/1 – Foi depois?

 

R – É, e a escola também era mais ou menos perto.

 

P/1 – E como é que era a Orozimbo Maia?

 

R – Era uma escola muito boa, gostava. Uma escola tipo antiga, tem umas escadas. Minha mãe me levava, levava nós todos na escola. Corria, de um lado entrava os meninos e do outro lado entrava as meninas e ela tinha que falar tchauzinho para os dois. Então, ela tinha que largar o pau, porque não podia ficar um sem o tchauzinho senão ficava triste, sem o tchauzinho da mãe.

 

P/1 – E a classe era separada também ou não?

 

R – A classe era separada, masculino e feminino.

 

P/1 – E a senhora gostava da escola?

 

R – Eu gostava. Bem, no começo eu senti muito, no primeiro ano eu senti, senti a separação da família, da mãe. Eu sentia um pouco triste, não via a hora de voltar pra casa.

 

P/1 – A senhora ficava quanto tempo na escola?

 

R – Acho que quatro horas, não?

 

P/1 – Era de manhã, de tarde, a senhora lembra?

 

R – De manhã.

 

P/1 – De manhã.

 

R – É.

 

P/1 – Tem alguma professora que marcou mais a senhora?

 

R – Dona Edna foi minha primeira professora.

 

P/1 – Dessa a senhora não esquece?

 

R – Dessa eu não esqueço. Não esqueço das bravas também, dona (Nazira?) era muito brava (risos).

 

P/1 – Era brava, mas castigava? Tinha alguma coisa assim ou não?

 

R – Era muito rígida a Dona (Nazira?).

 

P/1 – Mas tinha castigo físico nessa época?

 

R – Não.

 

P/1 – Com régua, essas coisas ou não? Bolo?

 

R – Régua tinha sim, viu. Régua tinha mesmo.

 

P/1 – Tinha?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Como é que era quando alguém fazia alguma coisa que não podia?

 

R – Ah, dava reguada na cabeça mesmo.

 

P/1 – Aquela régua de madeira.

 

R – Ah, punha de castigo de costa pra parede, o tempo todo de pé, tinha que ficar com o nariz colado na parede.

 

P/1 – Era comum isso?

 

R – Era.

 

P/1 – Na época podia, né?

 

R – Podia.

 

P/1 – A lei deixava?

 

R – Os alunos tinham muito medo dessas.... Assim, dessas represálias dos professores.

 

P/1 – Os pais, quando acontecia isso, eles iam brigar com os professores? Ou eles achavam que...

 

R – Dificilmente viu, era uma coisa tida como normal. Eu lembro que tinha aluno que tinha tanto medo, que às vezes urinava na frente, lá na frente da lousa. E a professora era malvada, fazia os alunos pegarem um pano para enxugar. Disso eu me lembro.

 

P/1 – Até eu me lembro.

 

R – Lembra disso.

 

P/1 – Não batia, mas eu me lembro de aluno urinando também.

 

R – Era um fato ________, urinava de medo mesmo. Agora que eu tô me lembrando, eles urinavam de medo. Tinham medo de pedir pra ir ao banheiro.

 

P/1 – E as professoras boas, não faziam essa....

 

R – Tinha... Teve professoras boas, sim.

 

P/1 – Esse terrorismo.

 

R – Tinha professoras boas, lá. (Eu reconheço?)

P/1 – Nessa época, o seu pai, quando a senhora mudou pra Conselheiro Saraiva?

 

R – Não, Senador Saraiva, Avenida Senador Saraiva.

 

P/1 – Ele continuava com tinturaria?

 

R – Ah, continuou, foi o nosso sustento, foi aí que ele conseguiu que a gente fizesse faculdade com esse trabalho.

 

P/1 – Como é que foi a sua adolescência? A senhora diz que mudou muito de casa, a senhora ficou bastante tempo na Senador Saraiva?

 

R – Fiquei muito tempo na Senador Saraiva, numa casa velha, mas moramos lá muito tempo, e passei a minha adolescência lá, fiquei lá até os dezoito anos.

 

P/1 – Como que era a adolescência em Campinas? A gente ta falando de final dos anos cinquenta, né, começo dos anos sessenta, como era Campinas nessa época? Cinema, baile, (salairina?)?

 

R – A gente ia muito em bailinho, bailinho na casa dos colegas. Fazia um bailinho, dançava junto naquele tempo, aquela fase do romantismo, dois pra lá, dois pra cá, aquela coisa.

 

P/1 – E os meninos também iam? Ou era só de menina?

 

R – Não, os meninos iam e os rapazes tinham que tirar as meninas pra dançar. Tinha dia que a gente ficava aborrecida porque tomava um chá de cadeira e não vinha nenhum rapaz (risos).

 

P/1 – E eram nas casas?

 

R – Eram nas casas.

 

P/1 – Era de noite, era de tarde?

 

R – Era de tarde também, de noite meu papai não me deixava muito não, era mais de tarde mesmo.

 

P/1 – E as mães deixavam as filhas, os filhos usar a casa pra fazer bailinho?

 

R – Deixavam. O meu primo me ensinou muito a dançar, o primo Wagner ______.

 

P/1 – Mas vocês iam também em clube ou só em locais que tivesse baile assim, pago?

 

R – Não.

 

P/1 – Seu pai não deixava?

 

R – Não.

 

P/1 – Suas amigas iam ou não?

 

R – Eu fui uma vez num clube de carnaval sim, mas entrava porque eram sócios que deixavam acompanhante entrar, mas a gente não era sócio do clube. Aliás, eu era sócia de clube, mas eu não ia assim, pra frequentar, era mais o meu irmão que ia pra nadar.

 

P/1 – Que clube?

 

R – Regatas.

 

P/1 – Como é que chama?

 

R – Regatas Natação.

 

P/1 – Clube de Regatas Natação?

 

R – É.

 

P/1 – A senhora não ia então, seu pai não gostava que vocês fossem?

 

R – Não, era mais o meu irmão que ia mesmo, meu pai gostava muito de ensinar natação e luta, então era mais para o homem e não para a mulher, a gente não ia muito não.

 

P/1 – Seu pai praticava algum esporte? Ele era...

 

R – Meu pai gostava de esporte, meu pai gostava de natação, de levantamento de peso. Meu pai era um tipo atleta, que... Ah, ele gostava de ensinar luta, até as mulherada teve que aprender a lutar.

 

P/1 – Ele ensinava pra senhora também?

 

R – Judô. É, dentro de casa ensinava, lutava com os meninos da rua até. Torcer o pescoço, defesa (risos).

 

P/1 – E como é que era? Ele reunia os irmãos e falava “agora vamos…”?

 

R – É, iam lá em casa, era sessão de luta mesmo. Meu pai foi apaixonado por luta.

 

P/1 – Ele tinha aquele tatame?

 

R – Não tinha nada, era no chão, no assoalho do chão da sala, ali mesmo. A gente brincava de lutar.

 

P/1 – E não machucava?

 

R – Não, era mais criança. Depois quando cresceram ficou mais assim... Meu primo, meu irmão. Mas no começo as meninas entraram também na luta (risos).

 

P/1 – E como é que foi namorinho nessa época? Podia, não podia? Era escondido?

 

R – Não, meu pai falou que era mais aos dezoito anos, mas a gente tinha umas paquerinhas aí que… (risos).

 

P/1 – Então tinha idade, era só com dezoito anos, antes dos dezoito não podia nada?

 

R – Não, só com dezoito anos.

 

P/1 – Mas ele não tava o tempo inteiro com a senhora,. Quer dizer...

 

R – Então, a gente dava umas paqueradas por aí, né?

 

P/1 – Alguém que marcou nessa época ou não?

 

R – Ah, um vizinho meu.

 

P/1 – Ele não ficou sabendo?

 

R – Ah, meu pai, não ficou sabendo.

 

P/1 – Seu pai era severo, ele batia?

 

R – Não, bater não. Ele era severo, mas não batia.

 

P/1 – Mas botava de castigo, não deixava sair?

 

R – Castigo, sim.

 

P/1 – Como é que ele era em termos de... Não sei também com relação a tinturaria? A gente sabe tudo, é muito complicado de dinheiro, mas ele dava mesada ou ele dizia: “Não, vocês vão ter que trabalhar?”

 

R – Não, ele nunca quis que nós trabalhássemos, ele falava: “Não, vocês vão estudar”. A meta dele era estudar, por exemplo, como ele não pôde estudar ele falou: “Não, eu quero que vocês estudem”. Ele não deixava a gente trabalhar mesmo. A gente queria trabalhar pra ajudar, mas ele não deixou. “Vocês vão fazer faculdade”. Meu irmão quis médico, minha irmã médica, ele conseguiu se formar, “Não, o seu irmão vai conseguir”, mas ele conseguiu formar todos os filhos.

 

P/1 – E ele não fazia diferença dos meninos e meninas? Todos tinham que estudar?

 

R – Todos tinham que estudar, ainda mais as meninas pra não depender de marido. Era pra estudar mesmo. Eu me formei professora, a outra formou médica e o meu irmão médico também.

 

P/1 – Como era a cidade? A senhora ia ao cinema....

 

R – Cinema, eu adorava cinema, eu ia sempre no cinema.

 

P/1 – Tinha bastante cinema?

 

R – Nós íamos a pé. Muitos cinemas. A gente fazia tudo a pé, nos bairros longe, perto. Eu acompanhava seriado pelo cinema, não tinha televisão naquele tempo, então a gente ia assistir cinema mesmo. Faroeste, Roy Rogers, Durango Kids, essas coisas assim. Era uma festa, uma alegria assistir esses seriados.

 

P/1 – Como era andar em Campinas, tinha bonde?

 

R – Tinha bonde, era uma delícia andar de bonde, ia de um bairro pra outro, entrava aquele arzinho gostoso, os banquinhos de madeira, quando ia, voltava virava o banco ao contrário. Era assim, era uma delícia.

 

P/1 – Tinha ônibus já também?

 

R – Ônibus eu não me lembro em que época chegou, acho que quando acabou os bondes que apareceu os ônibus. Eu não sei a época certa, eu já estava na adolescência quando começou a aparecer alguns ônibus.

 

P/1 – A sua família era religiosa?

 

R – Não.

 

P/1 – Não?

 

R – Meu pai se dizia ateu, mas ele era um homem que amava a natureza, amava as pessoas. Ele era muito assim, tinha uma espiritualidade, mas sei lá, no fim ele amava a Deus, mas acho que nem sabia, mas ele se dizia ateu e queria que os filhos também se dissessem como ateu.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Minha mãe seguia ele.

 

P/1 – Seguia porque tinha que seguir?

 

R – É, eu acredito que sim, nessa teoria. Mas depois, no final, ele acabou se convertendo e ficou um ateu devoto de santo, misturou tudo (risos).

 

P/1 – Então vocês não iam na missa?

 

R – Não, às vezes minha tia, que era ao contrário dele, era muito católica, muito.

 

P/1 – Irmã dele?

 

R – Irmã que eles se davam muito, passava a mão na gente e levava para as missas. E a gente ia com ela e depois levava pra passear, ia na sorveteria também, então...

 

P/1 – A sua mãe não ia?

 

R – A minha mãe ficava mais fazendo o serviço de casa, porque ela ajudava meu pai na lavanderia, ela era responsável em passar as roupas das mulheres e as camisas de linho que davam um trabalho pra passar, os homens todos usavam camisa de manga comprida de linho. Muitas camisas, roupas brancas, nossa, minha mãe trabalhava muito, cerzia ainda.

 

P/1 – Que tipo de música que a senhora gostava na sua adolescência, nos bailinhos?

 

R – Aquelas músicas românticas, Elvis Presley, ___________. Qual mais? Aqueles tempos....

 

P/1 – Já tinha muita música americana?

 

R – Tinha muita música americana, brasileira eu nem me lembro que cantor, eu gostava do Agnaldo Rayol, achava ele bonito e achava que ele cantava bem.

 

P/1 – E já tinha televisão em Campinas?

 

R – Tinha sim, mas a gente em casa não tinha, então a gente ia assistir na casa da vizinha que tinha maior poder e que tinha televisão. Era uma diversão, a gente gostava.

 

P/1 – E a vizinha deixava, quer dizer, ia todo mundo assistir lá?

 

R – Todo mundo sentava, fazia uma roda no chão, sentava até no chão para assistir televisão, era assim naquele tempo, às vezes era uma pessoa só da rua que tinha televisão, então todo mundo ia assistir lá. Tinha programa muito mais inocente, não é como hoje. Tinha muito ballet, música ao vivo, programas infantis. Era muita pureza nos programas. Ronald Golias sempre com aquelas piadas, a gente ria muito. Depois, como a minha mãe não tinha, a gente vinha contar pra ela as comédias e a minha mãe se divertia só de ouvir contar, a gente contar. E hoje a gente vê, parece que não tem nada graça aquilo lá.

 

P/1 – A sua mãe não ia pra casa dos vizinhos?

 

R – Minha mãe não, só as crianças que iam.

 

P/1 – Só as crianças.

 

R – Minha mãe ficava trabalhando e ouvindo rádio, mamãe ouvia mais rádio. Ouvia muitas novelas pelo rádio, acompanhava das sete a cinco da tarde, todas. Isso mais na adolescência, assistia todas as novelas.

 

P/1 – Das sete da manhã às cinco da tarde?

 

R – É.

 

P/1 – E tinha novela esse tempo todo?

 

R – Seguido. Tinha muitas novelas pro rádio, Rádio Nacional do Rio de Janeiro, direto, era muito... E quando o rádio “pifava” e era o último capítulo (risos)?, dia do casamento, o final era o casamento, era muito.... Era terrível, ficava pi-pi-pi, pi-pi-pi, era terrível isso aí (risos).

 

P/1 – E assim, livros, jornais, o seu pai tinha o costume de comprar?

 

R – Estadão. Meu pai era... Comprava sempre Estadão pra ler, pra brigar com o Estadão (risos), brigava com a política. Meu pai amava a política.

 

P/1 – Ele era de que partido, você lembra?

 

R – Meu pai era mais da esquerda (risos), era mais voltado pra esquerda.

 

P/1 – PTB, PCB?

 

R – Sei lá, ele era mais voltado pra linha de esquerda, eu não entendo muito de política, mas é.

 

P/1 – Jornais de Campinas ele não comprava?

 

R – Não, era mais o Estadão. Meu pai, ele lia... Meu pai fez até o quarto ano, mas ele lia jornal de ponta a ponta. Sabe como é sentar numa cadeira, pegar da primeira página e ir até a última? Sabia muito mais do que nós. Perguntava a ele _____ e nós que estávamos na escola não sabíamos nada, meu pai sabia de tudo que tava acontecendo no mundo, porque ele lia de mais. Além de ler jornal ele lia livros, sabia muita coisa.

 

P/1 – Aí ele quis mesmo que vocês estudassem, que vocês fizessem...

 

R – É.

 

P/1 – Ele tinha esse gosto.

 

R – Meu pai catava livro no lixo pra ler, ele não podia comprar, lia tudo.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – A minha, então, ela fazia os serviços domésticos e ajudava ele nas costuras, passar roupa também, essas coisas, ajudou muito ele, sempre do lado dele. Foi um casal muito unido, nossa, um amor mesmo, é difícil de achar, de ver hoje em dia o amor dos dois assim. Foi uma coisa muito bonita, o carinho do meu pai com a minha mãe, o respeito, tudo. Naquele tempo que dava a mão pra descer do carro, aquele cavalheirismo, aquela coisa bonita de se ver.

 

P/1 – A senhora fez dezoito anos, aí tava liberado o namoro, a senhora logo arranjou um namorado ou ainda demorou um pouquinho?

 

R – Eu arrumei alguns ainda sem meu pai ficar sabendo, assim mesmo.

 

P/1 – Sua mãe acobertava?

 

R – Sim.

 

P/1 – Ela era mais...

 

R – Flexível

 

P/1 – Mais flexível?

 

R – Sim.

 

P/1 – Era aquela mãe confidente...

 

R – É.

 

P/1 – A senhora ia contar as coisas: “Não, não conta para o papai”

 

R – É.

 

P/1 – Porque eles trabalhavam muito próximos. Porque seu pai tinha a lavanderia e normalmente vocês moravam nos fundos da tinturaria?

 

R – Mas aí a gente já morava na Senador Saraiva.

 

P/1 – E a tinturaria não era lá?

 

R – Não.

 

P/1 – A tinturaria continuava perto do Mercadão?

 

R – É.

 

P/1 – Então já separava um pouco.

 

R – Separava um pouco.

 

P/1 – E a roupa que sua mãe cuidava, vinha pra casa de vocês ou ela ia até a tinturaria?

 

R – Ela ia até a tinturaria.

 

P/1 – Acabava trabalhando bastante próximo.

 

R – É, e a gente ia brincar naquele quintal que a gente gostava de brincar às vezes.

 

P/1 – E como era ser adulto em Campinas? Quer dizer, a senhora tinha pretensão de sair de lá ou não?

 

R – Não, eu sempre amei demais Campinas, (tive?) muito orgulho de Campinas, eu gostava de lá, mesmo. Gostava da minha rua, depois era uma rua que se transformou numa avenida e foi muito triste isso, porque o outro lado foi detonado, explodido mesmo. Então a gente perdeu todas as amizades, porque era muito próximo, a gente brincava na rua, (não sei se a senhora lembra?), brincava de brincadeira de rua, a nossa brincadeira era de roda, era brincadeira de rua mesmo. Depois detonaram e aquilo ali virou avenida, e daí veio o supermercado, outras coisas. Acabou, os vizinhos foram tudo embora de lá.

 

P/1 – A senhora tá falando de que rua exatamente?

 

R – Da Senador Saraiva.

 

P/1 – Da Senador Saraiva, um lado foi todo demolido?

 

R – É, se transformou numa grande avenida até hoje, uma grande avenida. E daí aqueles vizinhos que moravam próximo, casa pertinho da outra, na nossa rua, onde a gente podia brincar o tempo todo que não passava quase carro, transformou-se numa avenida.

 

P/1 – E eles foram pra onde, a senhora sabe de cada um?

 

R – Cada um foi pra cada bairro, um bairro diferente e a gente mesmo acabou saindo de lá também. Daí a gente foi morar onde eu moro hoje, é uma chácara lá em Sousas, o pai conseguiu comprar finalmente uma casa nossa, era uma chácara.

 

P/1 – E como é que foi, a senhora tinha que idade quando mudou pra chácara?

 

R – Tinha uns dezoito anos, tava fazendo o colegial.

 

P/1 – E como foi mudar pra Sousas?

 

R – Ah, eu gostava. Tinha ar puro, tinha vegetação, tinha verde e o lugar que a gente morava só tinha nós, só tinha a nossa casa, o resto era tudo mato. A gente brincava de mocinho e bandido ali no meio do mato, corria de cobra, nadava no riozinho, ia buscar manga no cemitério, pintava e bordava lá, o negócio era... E depois a gente cantava, não tinha luz, era luz de lampião, não tinha rádio, não tinha nada. A gente cantava, cantava para as estrelas, era uma coisa muito bonita.

 

P/1 – Que músicas vocês cantavam?

 

R – Ah, meu pai gostava... Nossa, o meu pai gostava muito de músicas... Meu pai gostava de Mulher Rendeira, essas músicas assim. Várias músicas, meu pai gostava muito de música, nossa, tinha tanta que não me ocorre agora.

 

P/1 – Ele sabia tocar alguma coisa?

 

R – Não, mas ele gostava de ouvir música. A gente tinha uma eletrola lá, e tinha uma pilha de discos daqueles 78 rotações, ia caindo um por um. Nossa, tudo... Nelson Gonçalves, Carlos Galhardo. Usava assim, os empregados da lavanderia, os amigos dele se reuniam em casa enquanto a minha mãe fritava alguma coisa pra comer lá, eles ficavam ouvindo a música e conversando ao mesmo tempo, curtindo aqueles discos lá, achava legal aquilo lá.

 

P/1 – Como o seu pai fazia? Ele continuou com a tinturaria no centro de Campinas?

 

R – Continuou até quando ele pôde.

 

P/1 – Morando em Sousas e com a tinturaria em Campinas?

 

R – É, daí então, um empregado levava roupa lá em Sousas pra minha mãe lavar e trazia de ônibus as roupas.

 

P/1 – Como seu pai fazia, ele ia de ônibus? Tinha carro?

 

R – Não, ia de ônibus.

 

P/1 –Tinha bastante ônibus?

 

R – Tinha, tinha ônibus sim.

 

P/1 – E a luz, demorou muito pra chegar a energia elétrica?

 

R – Quando nós mudamos pra lá já tinha luz, mas a água ainda era de poço. Tirava água do poço, depois que foi Sanasa lá.

 

P/1 – Vocês demoraram um tempo pra mudar, foi isso? Depois de seu pai comprar? A senhora disse que não tinha luz, que ____ cantavam pras estrelas.

 

R – É, isso aí. Nesse tempo a gente ia mais lá pra passear o final de semana. Depois quando nós mudamos daí já tinha luz, tudo. Luz, depois logo instalou a água e já foi...

 

P/1 – Tinha pomar, tinha criação de...

 

R – Tinha pomar, uma plantação de maças, maças eu me lembro bem, mangueira, abacate, essas coisas.

 

P/1 – Criava animal?

 

R – Não.

 

P/1 – Não, nem galinha, nada?

 

R – Não, isso aí não.

 

P/1 – Sua mãe também nem teria muito tempo, né?

 

R – Minha mãe plantava, fez muito jardim. A minha avó morava com a gente também, minha avó materna.

 

P/1 – Lá de Amparo?

 

R – É, ela trazia mudinhas de plantas, ela que formou a chácara que eu moro hoje. Ela que vinha trazendo, ela saía por aí e roubava as mudinhas e hoje formou aquela beleza que todo mundo vai lá pedir muda pra gente e eu falo: “Foi minha avó”. Eu fiz faculdade em Rio Claro e também trazia as mudinhas de Rio Claro.

 

P/1 – Pois é, como é que foi isso? A senhora estudou onde? A senhora sempre estudou no... Orozimbo?

 

R – Então, eu estudei no Orozimbo Maia, daí fui fazer o ginásio na Escola Pedro Quirino, era uma escola, tinha outras matérias normais, mas era mais de corte e costura, nós não gostávamos muito de estudar, aprender costura, mas meu pai era... Puseram na cabeça do meu pai que era bom pra nós aprender isso aí, daí fizemos o curso lá. Só que era muito fraca a base, porque era base de ginásio e daí a gente queria passar pra colegial, só que a gente tinha pouca base, mas assim mesmo conseguimos fazer o colegial no Vitor Meireles. Porque naquele curso era formação para economia doméstica e eu não queria isso aí, não era isso que a gente queria, meu pai tinha na cabeça que a gente ia ser dentista (risos). Daí então fomos fazer o Vitor Meireles, era um colégio bom, foi fundado no ano que nós começamos a frequentar a escola. Uma escola muito boa, de nome em Campinas. Fizemos lá o colegial.

 

P/1 – E a senhora morava em Sousas, ou não?

 

R – Uma parte... Quando começamos a fazer lá, uma parte do colegial ainda morava aqui em Campinas, e depois, o finzinho já morava acho que em Sousas, pegava ônibus em Sousas.

 

P/1 – Leva quanto tempo de ônibus de Sousas pra Campinas?

 

R – Uns vinte minutos.

 

P/1 – E nessa época durava esse tempo também?

 

R – Durava.

 

P/1 – A estrada era boa?

 

R – Era boa.

 

P/1 – Quando a senhora terminou o colégio que opção a senhora... “Bom o que eu vou fazer?”

 

R – Olha, meu irmão, Medicina, eu... A gente tinha a idéia deu e minha irmã sermos dentista, mas eu falei: “Ah, mas dentista eu não vou querer ser não”, desisti. Vai querer Medicina porque daí meu irmão entrou logo em Medicina, ele foi o terceiro, mas era muito inteligente, ele já na primeira entrou, nem cursinho não fez, já entrou na Medicina, daí ____ vamos fazer Medicina. Daí eu com a minha irmã fazendo cursinho pra prestar Medicina. Tentamos uma vez, não entramos, daí no outro, a minha irmã entrou e eu fiquei, eu já comecei a pegar trauma da tal da Medicina. Fiz três anos de cursinho, já não tava aguentando mais meu pai pagar cursinho três anos, e eu não entro, chego lá, estudo, estudo, estudo chega na hora me dá um branco. “Não vou fazer mais Medicina, esse ano vai ser o último, no que eu entrar eu faço” (risos). Meu pai adorava que eu fosse uma cientista, ele queria que eu fosse uma grande cientista, madame Curie, era o sonho dele, mas eu não me sentia nada. Eu me saía bem nas exatas, mas eu não achava que esse era meu dom,, eu não sabia qual era o meu dom na verdade, mas pra Ciências não era muito não. Mas eu fui fazer Física, eu falei: “Vou fazer Física, o pai vai deixar porque ele adora Física, tenho certeza”, ________. A única faculdade que ainda tinha vaga era Rio Claro, e eu fiquei entre Biologia e Física. Falei: “Não, se for Física meu pai vai deixar eu ir”. Com essa estratégia realmente ele deixou, eu falei: “Não, vai dar pra viajar todo dia”, mas quando cheguei lá era tempo integral, não ia dar pra viajar todo dia. E agora? Vai ter que morar aqui, uma despesa a mais. Tinha parente lá, mas meu pai não queria que eu morasse com parentes. Daí acabou alugando uma casa, porque tinha casas de família, senhoras que alugavam casas pra estudantes e eu fiquei morando nessas casas de família durante quatro anos. Fiz o meu curso de Física e me formei professora. Fiz trinta anos esse ano.

 

P/1 – Seus dois irmãos entraram em Medicina onde?

 

R – Em Campinas. Fizeram Medicina em Campinas, na Unicamp.

 

P/1 – Qual era a faculdade? Na Unicamp, já?

 

R – Na Unicamp. Tava começando a Unicamp nesse tempo.

 

P/1 – E a Rio Claro era que faculdade?

 

R – Lá fazia parte da Unesp, uma coisa assim.

 

P/1 – Então seu pai tinha despesa com a sua casa?

 

R – Tinha. Pegava... Final de semana pegava a minha malinha e lá ia eu pra Rio Claro, com o coração apertado, (risos) mas fiz a minha faculdade lá. Eu pensava em ser uma pesquisadora  pelo menos em Física, mas depois eu vi que eu não sabia que o meu curso era licenciatura e licenciatura queria dizer ser professor, só que eu descobri só no final e falei: “E agora? Peguei o bonde errado, agora vou até o fim, vou ter que ser professora, o que eu vou fazer? Não vou voltar pra trás”. Daí experimentei essa carreira de professora e não gostei muito não. Minha irmã falou: “Porque você não faz outra faculdade?”. Daí em 1975, comecei a fazer outra faculdade, fazer o quê? Optei por Fisioterapia, daí comecei a trabalhar como professora e com o dinheiro que eu ganhava fiz a faculdade de Fisioterapia. E meu pai me levando de carro pra lá e pra cá, pra dar tempo, porque na verdade eu dava aula em Jundiaí à noite e fazia o curso de Fisioterapia, também era integral durante o dia, se não fosse o meu pai ter me levando pra lá e pra cá de carro não teria condição de ter feito isso não.

 

P/1 – Fisioterapia a senhora fez onde?

 

R – Na PUC em Campinas, daí me formei em 1980, foi o ano que eu me casei. Daí não deu, casamento, professora e Fisioterapia é muita coisa, não deu para exercer a profissão de fisioterapeuta. Fiquei como professora que eu já tava há anos no ramo, continuei assim. E eu ainda lecionava fora, chegava quase de madrugada em casa, era muita... Não dava conta, daí logo engravidei também, daí complicou mais a situação ainda, fiquei  só como professora mesmo. Quando meu filho nasceu minha mãe ainda ficava com meu filho pra eu poder trabalhar. Demorou pra eu poder vir pra Sousas, numa escola de Sousas, demorou muitos anos.

 

P/1 – Voltando um pouco para Rio Claro, como que era morar.... A senhora morava era numa casa, era num quarto?

 

R – Era numa casa de família.

 

P/1 – Num quarto?

 

R – Eu tinha um quarto, cada um tinha um quarto e a você fazia a refeição ali. E era assim, cada um tinha a sua vida lá, um estudava num lugar, um fazia escola de Química, eu fazia faculdade, cada um fazia uma coisa ali. Do meu lado tinha um tipo de uma discoteca, eu não gostava muito daquilo, muita barulheira e eu nunca fui muito de gostar disso aí. Eu morava junto com uma senhora, fiquei os quatro anos lá, foi bom eu estudar lá, saía com a turminha, a gente fazia serenata. É um lugar tranquilo, pra...

 

P/1 – Era isso que eu ia perguntar, como era Rio Claro, mais tranquila que Campinas?

 

R – Muito tranquila, uma cidade sossegada. O pessoal andava de bicicleta, porque era tudo retinho. Muito tranquila a cidade, quieta, parada até demais.

 

P/1 – Era longe a faculdade de onde você morava?

 

R – Ah, tinha que pegar um ônibus.  

 

P/1 – Era um ônibus da UNESP mesmo ou era um circular?

 

R – Não, era um circular.

 

P/1 – E esse tempo todo o seu pai bancou a senhora lá?

 

R – Bancou, viu. Ficava às vezes... Economizava na comida pra poder comprar os livros. Ela já pagava a pensão, pra comprar os livros não dá, ele economizava na comida. A maioria dos meus colegas falavam isso também, às vezes passavam só com ovo, sei lá. Até pra comprar bandejão da faculdade pesava.

 

P/1 – Era isso que eu ia perguntar, lá tinha bandejão?

 

R – Tinha, mas não era todo dia que dava pra comprar bandejão. Agora quando a mulher lá da pensão falava: “Ah não, hoje vem a faxineira, vou fazer comida”, depois no final desfez essa pensão lá, e ficou só eu. A senhora, a única que ela confiou pra deixar morando com ela fui eu, fiquei sozinha lá, daí de quarta-feira ia a empregada e ela fazia comida. Eu ficava lá e pra mim era a festa, porque aí tinha comida garantida, senão era os miojos da vida e as outras comidinhas mais fáceis de fazer. (risos)

 

P/1 – E a senhora cozinhava na casa dela?

 

R – Cozinhava, usava o fogão, ela deixava eu usar o fogão, eu fazia coisas fáceis.

 

P/1 – A senhora namorou lá em Rio Claro?

 

R – Não, foi só paqueras mesmo, nada...

 

P/1 – Nada mais sério?

 

R – Não, na faculdade também não tinha ninguém, a minha cara metade ______ (risos).

 

P/1 – A senhora vinha no final de semana para Campinas?

 

R – Vinha.

 

P/1 – Todo final de semana?

 

R – Todo, o pessoal até achava que eu tinha namorado, porque tem tanta pressa de voltar, mas eu gostava muito da minha avó, ela era velhinha e eu me preocupava muito com ela. Eu vinha para ver minha avó, não acreditava se ela tava bem mesmo. Minha avó tem um xodó comigo, minha avó materna, e a cabecinha dela já tava meio ruim no começo, mas ela enfeitava os caminhos pra eu passar, fazia um tapete pra me esperar quando eu chegasse da faculdade (de barba de bode?). Ela enfeitava os caminhos pra eu passar, a minha avó. E eu vinha com o coração assim: “Mas será que ela tá bem mesmo? Vocês falam por telefone que ela tá bem, eu quero ver se ela ta bem mesmo”. Uma ligação muito forte entre eu e minha avó materna. Eu era o xodó.

 

P/1 – Ela sempre morou com seus pais?

 

R – Com a gente. Sempre.

 

P/1 – Desde que sua mãe casou?

 

R – É. Como eu fui a primeira neta, então tem um xodó, ela punha (ticket?) escondido da minha mãe, “Para comprar uma balinha para você”. Sabe quando era pra lamber o glacê dos bolos que ela fazia, ela dava só pra mim, os outros irmãos vinham brigar: “Você não deixou pra mim, é tudo pra Mirinha, é tudo pra Mirinha e pra nós nada” (risos). Ela era assim, ela não escondia não.

 

P/1 – Como chama seus irmãos? A gente não falou o nome deles.

 

R – Marcos, Mércia e Marge.

 

P/1 – Marge?

 

R – É. Tudo com M.

 

P/1 – Tudo com M?

 

R – É.

 

P/1 – Seu pai gostava com M ou sei lá, foi coincidência?

 

R – Não, ele gostava mesmo. Ele disse que tirava muito os nomes dos filmes. Não sei.

 

P/1 – A senhora nunca pensou em morar em Rio Claro?

 

R – Não, pra mim aquela cidade era muito pacata, não gosto (risos).

 

P/1 – A senhora estava sempre com a cabeça em Campinas?

 

R – É, nossa, em Campinas.

 

P/1 – Como é que eram essas serenatas? Como era isso, que grupinho era esse? Era da sua faculdade?

 

R – Era, uma turminha da faculdade e com o violão fazia serenata, sei lá, cantava pela rua assim.

 

P/1 – Como era a faculdade, porque Física tá junto de outras matérias, que...

 

R – É, Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro.

 

P/1 – E a senhora tinha contato com pessoas de outros cursos?

 

R – Tinha, de Biologia, de Letras também, Geografia, Geologia, tinha contatos.

 

P/1 – Até porque acho que tinha matérias didáticas que deviam ser comuns, de licenciatura.

 

R – Aham.

 

P/1 – E como que era esse convívio?

 

R – Era legal.

 

P/1 – Era dali? Os seus amigos da serenata, eram só da Física ou eram de...?

 

R – Era só da Física.

 

P/1 – Uma turminha... E como eram essas serenatas, era com violão?

 

R – Era com violão.

 

P/1 – E era encomendada ou ia andando e cantando?

 

R – Não, eu acho que ia andando e cantando, eu estava lembrando, mas não tinha... Era encomendada não, a gente saia cantando pela rua.

 

P/1 – Não ficava em baixo da janela de ninguém mais assim...?

 

R – Não, acho que não. Ficava não. Alguns desses colegas deram aula comigo depois de formada. E faziam as serenatas lá.

 

P/1 – E o seu pai confiava de ter a filha morando longe assim?

 

R – Ah, plenamente, ele confiava sim. Eu ia de trem...

 

P/1 – A senhora tava comentando, como é que a senhora ia de Campinas para Rio Claro?

 

R – De trem, na maioria das vezes, de trem.

 

P/1 – Que Companhia era, a senhora lembra? A Paulista?

 

R – Chamava Fepasa.

 

P/1 – Era a Fepasa. Saía ali da estação de Campinas?

 

R – Saía da estação de Campinas e ia até.... Ah, você tá falando pra onde?

 

P/1 – Pra Rio Claro.

 

R – Ah, pra Rio Claro? Eu ia de trem também. Eu descia ali na rua perto de onde eu morava mesmo, a Rua Um.

 

P/1 – Quanto tempo demorava a viagem?

 

R – Eu não me lembro quanto tempo demorava a viagem. Será que umas duas horas? Eu não sei quanto tempo ________.

 

P/1 – A senhora ia dizer que ia de trem pra outro lugar também, para onde era?

 

R – Quando eu comecei a dar aula em Jundiaí.

 

P/1 – Ah, a senhora ia de trem?

 

R – Ah, de trem direto, pegava o trem ali na Fepasa, e ia dar aula em Jundiaí.

 

P/1 – Quando a senhora voltou da faculdade, disse que em Rio Claro não queria morar, queria voltar. A senhora tinha na cabeça que queria mesmo voltar a morar com sua mãe, com pai, com sua avó?

 

R – Sim, morar na chácara lá.

 

P/1 – Não tinha vontade de morar sozinha?

 

R – Não. Daí os meus irmãos foram casando. Casou primeiro a mais nova, daí a minha irmã depois de mim, daí o meu irmão. Eu fui à última a casar. Eu sou a mais velha, mas fui à última a casar.

 

P/1 – E como é que a senhora conheceu o seu marido?

 

R – Meu marido, por incrível que pareça, ele era quase meu vizinho lá na chácara. Ele morava numa fazenda. Um dia nós se encontramos lá, começamos a paquerar, essas coisas, um dia meus pais tinham ido pra Mato Grosso e assim que a gente começou a namorar, ele meio tímido. Eu que tinha que tomar a iniciativa, tudo, mas começamos a namorar. Ele é muito simples.

 

P/1 – Tinha que ser sem os pais por perto? Era mais fácil?

 

R – Ah, a gente saía pra Campinas, ia ao cinema, ou então no jardim, naquele tempo ainda tinha... Podia sentar no jardim naqueles tempos. Tinha banco, coreto, as pessoas frequentavam o jardim.

 

P/1 – Que jardim? ________.

 

R – Jardim Carlos Gomes.

 

P/1 – Carlos Gomes.

 

R – Carlos Gomes. Ficava lá, ou então, ia ao cinema, era essa a nossa programação.

 

P/1 – Carlos Gomes é aquele que fica em frente à prefeitura?

 

R – É, perto da prefeitura, que tem um coreto ali.

 

P/1 – Que tem um coreto grande?

 

R – Nossa, é.

 

P/1 – Vou perguntar uma coisa pra senhora, o que os seus pais foram fazer em Mato Grosso, passear?

 

R – Porque minha irmã que casou, a mais nova, mudou pra lá. Ela conheceu um fazendeiro de lá, até interrompeu os estudos e foi morar pra lá. Casou e foi morar pra lá.

 

P/1 – Essa sua irmã estudava o quê?

 

R – Ela começou, não sei se era economia, não sei que curso ela começou a fazer, mas depois ela interrompeu porque ela casou, né?

 

P/1 – E não voltou mais?

 

R – Daí não voltou mais. Tá lá até hoje.

 

P/1 – Ela mora em Mato Grosso até hoje. E não estudou mais?

 

R – Não estudou mais. Agora já tem netos, já tá até viúva.

 

P/1 – A senhora e o seu marido ____ moravam então de novo... A senhora tinha que idade quando começou a namorar seu marido?

 

R – Olha, já tinha terminado a faculdade, tava terminando a faculdade de Fisioterapia. Eu já tinha trinta e poucos anos, já.

 

P/1 – Fisioterapia a senhora fez na PUC de Campinas?

 

R – É.

 

P/1 – E aí como era? A senhora continuava morando em Sousas, estudava em Campinas, trabalhava em Jundiaí?

 

R – Era uma correria, porque o curso era integral. Tinha dia que eu chegava e tinha aula prática à noite, eu tinha que sair mais cedo de Jundiaí pra poder pegar a aula prática na PUC, foi um sufoco danado. Durante o dia, o meu pai coitado, corria com o carro pra lá e pra cá, pra poder dar tempo de fazer tudo. Pegava ônibus na rodoviária, mas do que eu frequentei rodoviária é incrível, porque daí não era mais trem, era rodoviária.

 

P/1 – E seu pai já tava aposentado, não tinha mais a tinturaria?

 

R – Meu pai não tinha mais a tinturaria. Ele fechou porque daí não deu jeito mais, tava dando prejuízo. Ele aposentou.

 

P/1 – Vendeu tudo e foi lá pra Sousas?

 

R – É.

 

P/1 – E a sua avó tinha falecido já?

 

R – Minha avó faleceu no tempo em que eu tava trabalhando em Jundiaí, não sei em que ano exatamente. Minha avó já tinha falecido sim.

 

P/1 – A senhora dava aula do quê? Onde foi o primeiro lugar que a senhora começou a dar aula?

 

R – Colégio Ana (Paes?), lá em Jundiaí.

 

P/1 – Foi o seu primeiro emprego?

 

R – Foi o meu primeiro emprego. Eu formei e comecei a trabalhar.

 

P/1 – Dando aula de Física?

 

R – Isso.

 

P/1 – E como foi? Que idade tinha os alunos?

 

R – Adolescentes não, dezessete, dezoito, quinze.

 

P/1 – Colegial?

 

R – De quinze pra cima.

 

P/1 – Segundo Grau chamava na época, né?

 

R – Segundo Grau.

 

P/1 – E como foi na sala de aula? Como foi quando a senhora...

 

R – Ah, eu achei difícil o começo, achei que eu não ia aguentar, não. Foi barra, difícil. Os alunos não se interessavam, era difícil manter a disciplina. Nessa primeira escola não tive uma boa experiência, o pessoal muito fechado, não deixavam... Sabe quando tem panelas na escola? A diretora muito rígida também, beneficiava uns e outros, então quem chegava, quem era novo ficava isolado. A única pessoa que eu tinha amizade era com a faxineira da escola, eu saía onze horas do colégio e era um bairro lá, e eu ficava sozinha e ela ficava comigo até o ônibus chegar. Ficávamos juntas lá.

 

P/1 – Era comum essa coisa das pessoas morarem numa cidade e trabalhar na outra, isso naquela região era comum?

 

R – Nesse tempo era, viu. Sabe por que? Naquele tempo a gente ganhava até bem e dava pra ter essa despesa com viagem e tudo. Hoje em dia não dá mais pra fazer isso, leva prejuízo se for dar aula. Naquele tempo não era todo lugar que tinha aula, então, a gente ia aonde tinha aula. Tinha gente que dava em duas cidades até, um pouquinho aqui, um pouquinho ali. Chamava professor contratado. Pegava um pouquinho aqui, um pouquinho ali e assim era a vida, mas dava, a gente ganhava até razoavelmente, mas depois... Atualmente não dá pra fazer mais isso, o salário caiu tanto.

 

P/1 – Em Jundiaí a senhora achava que tinha algum preconceito pela senhora não ser da cidade, ser de fora, não?

 

R – Não. Eu também, sei lá, eu achava que as escolas de Campinas, eu tinha um pouco de medo de Campinas.

 

P/1 – Por que?

 

R – Achava que em Campinas, sei lá, as escolas parecem que exigiam muito da gente, eu tinha um pouco de dificuldade de mudar. Quando tá cômodo num lugar, a tendência é ficar.

 

P/1 – A senhora resistiu de ir pra Campinas, é isso?

 

R – É.

 

P/1 – Porque depois dessa escola em Jundiaí, a senhora foi para outras escolas também em Jundiaí?

R – Acabou essa escola de Jundiaí, fui pra outra de Jundiaí, daí prestei concurso. Quem presta concurso tá sujeito a cair em qualquer cidade. Eu caí numa cidade chamada Cabriúva, que é perto de Pirapora, pra lá de Jundiaí, era uma coisa que eu tinha que sair de manhãzinha de casa pra dar aula à noite e chegava em casa de madrugada, era assim. Lugar de sítio, vinha só eu no ônibus, o resto era tudo peãozada de lá. Tudo escuro. Eu chegava acho que mais de onze horas na rodoviária, chegava uma hora lá em Campinas, e o meu marido me esperando lá.

 

P/1 – E seu marido em Sousas?

 

P/1 – É. Fiz essa vida eu acho que um ano, daí consegui remoção pra Paulínia, foi uma alegria, porque já ficava bem mais perto. Eu dava aula durante o dia, e daí finalmente eu consegui vir pra Sousas, por remoção também, eu consegui chegar em Sousas.

 

P/1 – Em Sousas tem quantas escolas estaduais?

 

R – Tem duas. Bem em Sousas, a outra é Joaquim Egídio. Tem uma só, à outra é da Prefeitura, (Tomas Alves?).

 

P/1 – E a senhora conseguiu ir para essa escola?

 

R – Depois eu ia para (Tomas Alves?). (Tomas Alves?) era uma escola que tinha um nome, por ser a melhor escola de Campinas quase assim. Eu achava: “nossa, será que eu sou tão boa, pra dar aula nessa escola?” No fim... Ela, a diretora de lá, era rígida, mas no fim era tudo igual às outras. Só que lá era uma coisa mais aberta, não tinha aquela coisa de panela, o pessoal mais amigo, entendeu? Me senti bem melhor, falei: “Nossa eu tava com tanto medo de vir pra cá, no fim a escola aqui até que foi legal”.

 

P/1 – Quantos habitantes hoje tem Sousas?

 

R – Ah, eu não sei falar para a senhora exatamente.

 

P/1 – Mas tá grande?

 

R – Aumentou muito, porque têm muitos condomínios. Acabaram com as fazendas, as fazendas viraram condomínios. A população aumentou muito porque... Até no tempo da eleição ficou difícil pra votar, porque a fila não acabava nunca mais, por causa dos novos habitantes. É um lugar privilegiado, é um lugar muito bonito, então o pessoal de Campinas vai tudo pra lá.

 

P/1 – Porque eu fico pensando numa coisa, a senhora que já morava lá há muitos anos, apesar de ter morado um pouco em Rio Claro também, dando aula no mesmo lugar onde a senhora mora, quer dizer, a senhora conhece os pais dos alunos, conhece os alunos? Como é isso?

 

R – Tudo. Todos os jovens lá foram meus alunos. Em todo lugar “A senhora deu aula pra mim” “Ah é?”. É uma felicidade quando acontece isso, hoje que eu tô aposentada, todo mundo, as pessoas... Até senhores já: “A senhora deu aula pra mim, a senhora não lembra de mim?” “Não consigo me lembrar, mas que bom, dei aula pra você e tudo”. E hoje eu sou assim, hoje tenho minhas aulas de ginástica, e as minhas amigas são as avós e as mães dos meus ex-alunos. É muita alegria, uma coisa muito gostosa, eu nunca pensava que ia acontecer isso, sabe?

 

P/1 – E na época que a senhora dava aula, isso não criou nenhum problema?

 

R – Como? Em que sentido?

 

P/1 – “Ah, eu vou falar com a minha mãe” e a mãe vinha bater na sua porta pra reclamar? Isso não chegava...

 

R – Eu morava... Por isso que eu morava... A minha chácara, a minha casa era meio longe ________ era muito bom, o acesso era meio... Mas os alunos, às vezes, pegavam no pé. Quem tinha carro, eu não tinha carro, furava o pneu dos carros dos professores. Ultimamente então tá terrível, chegavam a ameaçar mesmo os professores, os alunos. Mesmo aqueles que não faziam nada, eles chegavam a ameaçar fisicamente mesmo.

 

P/1 – Qual é o perfil dos alunos lá? São filhos de imigrantes ainda italianos e tal, ou é como em São Paulo, imigrantes nordestinos ou já são aquelas pessoas mesmo da roça que foram pra lá?

 

R – Acho que são os netos dos imigrantes, não? Tem um pouco de nordestino também, mineiros e nordestinos que acabaram procurando emprego, um pouco misturado, eu acho. Primeiro era mais a italianada lá mesmo, você vê pelos sobrenomes, todos italianos, imigrantes, nomes de ruas. O meu sogro tem rua com o nome dele lá, os (Penedos?). Meu marido é filho de imigrante.

 

P/1 – Eu não fiz sua ficha, eu não vi isso, o seu pai e a sua mãe ainda são vivos?

 

R – Meu pai faleceu há cinco anos, minha mãe ainda é viva.

 

P/1 – Continua na mesma chácara?

 

R – Não, a minha mãe agora está numa casa de repouso e eu continuo na chácara.

 

P/1 – A senhora mora na sua chácara? Na chácara dos seus pais.

 

R – Junto com meu filho e meu marido. É.

 

P/1 – Não está na fazenda do seu marido?

 

R – Não, meu pai construiu uma casa lá pra gente. Quando eu casei, ele construiu uma casa. Tirou um pé de abacate que tinha ali, e construiu uma casa pra mim e pro meu marido. Hoje é lá que nós moramos e a casa dele tá alugada.

 

P/1 – E porque essa opção, da senhora ir morar com seu pai e sua mãe? A senhora gostava? Seu marido gostou da idéia?

 

R – Gostou, porque a gente tava pagando aluguel, né? (risos) E ainda minha mãe ia olhar meu filho pra eu poder trabalhar.

 

P/1 – Pois é, a senhora teve quantos filhos?

 

R – Um.

 

P/1 – Mas trabalhando bastante, né?

 

R – É.

 

P/1 – E sua mãe que tomava conta?

 

R – Minha mãe tomava conta dele e dos meus sobrinhos. Era uma alegria pro meu pai e pra minha mãe tomar conta dos netos. Foi a maior alegria da vida deles. E lá, tinha muito espaço pra brincar, meu pai adorava brincar com os netos.

 

P/1 – Vou perguntar uma coisa, a senhora deu aula mais ou menos de que ano até que ano?

 

R – 1974 a 2000. Será que foi em 2000? 2001.

 

P/1 – A senhora notou diferença na sala de aula nesse tempo?

 

R – Notei, uma piora.

 

P/1 – Piora.

 

R – Nossa, tá terrível.

 

P/1 – Em que sentido?

 

R – O desgaste físico do professor. O professor foi muito desvalorizado, essa história de aprovação automática que o aluno tem e dá muita chance pro aluno, tirou a motivação pra estudar. E o professor não tem quase mais controle, com a disciplina. Até os alunos bons se desmotivaram, porque eles viram que aqueles que não se esforçavam acabavam também sendo aprovados, entendeu? Então por isso que tava difícil ultimamente dar aula.

 

P/1 – A senhora acha que falta diálogo entre esses pedagogos que ficam na Secretaria de Educação, esses educadores e os professores que ficam em sala de aula?

 

R – Eu acredito que sim, entre direção da escola. Eles exigem muita papelada e a prática mesmo que é o aluno, não fica... É muito papel, muito encher papeleta, muita coisa assim. Reunião, reunião que não leva a nada também, projetos que não saía do papel, essas coisas assim.

 

P/1 – A senhora pegou a implantação da Lei de Diretrizes e Bases, da LDB?

 

R – Aham.

 

P/1 – Melhorou ou piorou?

 

R – Eu acho que ela não era totalmente colocada em prática.

 

P/1 – Como é que a senhora… A senhora falou na desvalorização do professor, a senhora acha que também tem a ver com a questão de família, de postura de pais?

 

R – Eu acho que a sociedade mudou, acabou o limite com os filhos. É outro pessoal que ta recebendo hoje, de mães que trabalham fora, acho que não tem tempo assim, de ficar com o filho e o filho tem certa revolta ou carência, não sei. Às vezes, eles fazem bagunça para querer atenção do professor. Eu acho que a sociedade mudou também, porque tanto na escola pública como na particular a gente vê esse tipo de problema. O perfil do jovem tá diferente dos outros tempos.

 

P/1 – Nos anos de 1970, a senhora acha que era mais calmo?

 

R – Era mais calmo, mais tranquilo, eram mais interessados. Foi decaindo mesmo.

 

P/1 – A senhora acha que a televisão, as novas mídias, têm influência nisso? A internet, computador ou não?

 

R – Acho que a televisão sim. Eles ficam... Parece que eles assimilam mais o que a televisão passa do que a escola passa. E a televisão não passa muita coisa boa, boa para o aluno (risos).

 

P/1 – Acho que boa pra ninguém, né?

 

R – É.

 

P/1 – Boa parte das coisas... E dentro da sala de aula, quer dizer, como professora, a senhora disse que a idéia era Medicina, depois ser uma cientista, acabou caindo na sala de aula. A senhora se realizou como professora, houve momentos de realização?

 

R – Eu acredito que sim. Toda experiência é válida, eu acho que sim. Foi um crescimento sim, a ali dar o relacionamento, eu achei que foi válido sim. Apesar de não ter sido essa a minha verdadeira vocação. Eu tinha mais vocação para as artes mesmo, eu devia fazer educação artística, sei lá, eu acho que eu teria me saído melhor, nessa parte. Porque eu...

 

P/1 – A senhora nunca pensou em fazer um curso paralelo, alguma coisa nessa linha?

 

R – Enquanto eu tava no esquema de dar aula, não dava tempo. Então não fiz. Aí que começou a pintar a aposentadoria, aí fui fazer dança, fiz a dança e descobri até o meu dom de poeta.

 

P/1 – A senhora hoje escreve?

 

R – Escrevo. A partir de 1999 descobri que eu tinha dom pra escrever poesias. Daí teve pessoas que me incentivaram, professores que me incentivaram, daí num ano eu consegui já colocar poesia num livro. Falei: “Mas será que eu sou escritora que nem esses escritores de verdade? Eu?” Eu, eu que não me dava tanto valor assim, foi uma realização, foi um sonho, às vezes, eu não acredito que sou eu. Quando vou lá na academia junto com os outros poetas, eu não acredito, parece que eu tô num sonho. Eu falei: “Acho que eu já tô noutra dimensão”. Quando venho aqui, sinto que já tô noutra dimensão. Não parece que sou eu, sabe? É uma realização muito grande, uma coisa que sai da alma mesmo.

 

P/1 – E como é que foi isso, a senhora se descobriu poeta? A senhora não escrevia nada antes?

 

R – Nada, nada, eu não escrevia nada.

 

P/1 – Como foi esse encontro da caneta com o papel aí, como é que foi?

 

R – Foi assim.... Eu comecei a fazer alguma coisa com Fisioterapia, mas a domiciliar. Resolvi depois fazer curso de massagem e daí um sobrinho meu adoeceu, e eu fui aliviar as dores dele com a minha massagem. Depois ele acabou falecendo e eu fiquei muito triste, senti aquele vazio e depois eu falei: “Então só me resta agora escrever, né?”.  Escrever um poema, ou melhor, uma cantiga de ninar, essa foi minha primeira poesia, eu intitulei de Meu Menino, eu conversando com o meu finado sobrinho, foi... Mas o que eu escrevi aqui foi uma poesia, mas será que eu sou capaz de escrever outra? Daí tentei, escrevi uma pra Deus e daí eu fui em frente, a turma falava: “Escreva uma pra mim”, eu escrevia. Em pouco tempo eu já estava com trezentas poesias. Daí veio um recortinho de jornal, Centro de Poesia Artes, quem quiser levar trabalho, falei: “Mas será que eu posso?”, daí liguei lá: “Quantas poesias você tem?” “Trezentas” “Mas claro que pode”. Daí eu entrei na Associação dos Poetas lá e hoje eu já tenho onze coletâneas. As minhas trezentas eu vou colocando como eu posso, porque a gente (não?) compra página de livro, entendeu? Como eu posso comprar só duas, cada ano compro duas e assim vou colocando as minhas flores, porque eu chamo meus poemas de minhas flores. Coloco todas as minhas flores num livro. A característica dos meus poemas é homenagear as pessoas, tô sempre homenageando alguém. Esse ano eu tô homenageando o professor. Eu consegui, pela primeira vez, fazer uma poesia homenageando o professor, tá lançando em junho, com todo carinho mesmo. Eu mesmo e todos os professores, eu até pus a dedicatória, aos mestres com carinho, pelos trinta anos de formada esse ano.

 

P/1 – São as duas páginas dessa coletânea da Associação dos Poetas?

 

R – É, essa é uma página e a outra é uma outra poesia que eu escolhi.

 

P/1 – Como chama essa associação?

 

R – É CEPAC, como é que é? É Centro de Poesias Artes de Campinas. Eu deixei uma de presente pra vocês ai, uma coletânea.

 

P/1 – E qual é a repercussão disso? O que volta pra senhora? Por esse... A senhora divulga seu trabalho, como é que a senhora sente isso?

 

R – Ah, eu sinto uma alegria tão grande, nossa, não tem nada que se compare com isso. Uma alegria mesmo, no dia do lançamento ou então, o simples encontro com os colegas poetas lá, me dá muita alegria, parece que eu tô numa outra parte do mundo.

 

P/1 – Como são esses encontros, vocês fazem poesias ali na hora?

 

R – É.

 

P/1 – Ou lêem?

 

R – Não lê, declama. Quem quiser vai lá declama e tem música e poesia intercalada. Só fala de coisa de amor, de paz, da natureza, então só coisas bonitas, né? A gente sai de lá com a alma leve.

 

P/1 – E música essa que também é composta pelos poetas?

 

R – É música, quem quiser, quem é artista, vai lá tocar piano, violão, tudo. Música erudita depois sempre termina com coral. Então a gente sai de lá nas nuvens.

 

P/1 – De quanto em quanto tempo que tem essa reunião?

 

R – A cada dois meses. A cada dois meses têm esses encontros lá.

 

P/1 – A CEPAC tem uma sede própria?

 

R – Tem, tem a Casa do Poeta também.

 

P/1 – Tem a Academia Campinas de Letras?

 

R – Tem, é lá que a gente se reúne.

 

P/1 – Ah, vocês se reúnem lá.

 

R – Tem esse prédio, é pra gente usar pra isso, né? Então, eu me sinto feliz. São duas coisas que me traz felicidade hoje é isso, participar da ginástica do Sousas, onde eu sou amiga das mães e avós dos meus ex-alunos, com a ginástica harmônica e participar desse grupo de poetas. Pra mim agora eu me sinto, assim, realizada.

 

P/1 – Essa ginástica, a senhora é professora ou é aluna?

 

R – Eu sou aluna. Eu sou aluna da Ginástica Harmônica. É uma coisa muito boa, é uma ginástica que na verdade é dança. Eu até fiz uma homenagem pra eles lá, uma poesia Ginástica Harmônica. Uma coisa que traz muitos benefícios para o corpo, e que tá crescendo, só aqui em Sousas tem em todos os bairros já. É uma coisa muito boa.

 

P/1 – Quais são seus planos pro futuro?

 

R – Ah, é continuar fazendo o que eu estou fazendo, minha ginástica, continuar escrevendo. Quero comprar um computador pra mim, pra eu poder.... Eu não tenho ainda, eu tenho só o do meu filho, que nem ela falou lá, pra você ficar... Nos concursos ou mandar por e-mail as poesias, fica mais fácil pelo computador. Eu sou na base da escrita por enquanto.

 

P/1 – E seus colegas poetas, já usam muito o computador ou a maioria ainda escreve à mão?

 

R – Isso que eu não sei, viu? Mas acho que a maioria já tem computador não? A maioria já tem computador.

 

P/1 – A senhora escreve de uma vez só ou vai escrevendo e mudando, escrevendo e mudando?

 

R – Se eu faço um rascunho das minhas poesias?

 

P/1 – Se sai de uma vez só. Tem inspiração saí, a senhora muda depois?

 

R – Pouca coisa.

 

P/1 – Pouca coisa.

 

R – Se tiver que mudar, pouca coisa. Normalmente já sai lá.

 

P/1 – Não tem uma coisa que sai pequena e é grande, sai grande e fica pequeno?

 

R – Não.

 

P/1 – Nada tão drástico, só uma vírgula aqui e ali.

 

R – É, tira o sentido da sentença ali.

 

P/1 – É poesia com rima ou sem rima?

 

R – Sem rima, é poesia moderna que chama. Sem métrica e sem rima.

 

P/1 – A senhora tem alguma pra declamar?

 

R – Deixa eu ver. “Meu poema, não importa a métrica, não importa a rima, são apenas pensamentos, são apenas sentimentos numa folha de papel”.

 

P/1 – Bonita, é quase um __________.

 

R – É, é bem pequenininha.

 

P/1 – Bem simples. E o que a senhora achou de ser entrevistada?

 

R – Achei legal, porque eu to falando da minha vida naturalmente como se estivesse falando com uma pessoa qualquer sem esse pensamento de ta sendo filmada, sei lá, ou se ta gravando. To falando naturalmente como se tivesse falando com uma pessoa ....

 

P/1 – O que a senhora acha de fazer parte do acervo do Museu da Pessoa?

 

R – Eu acho uma coisa boa, de ter a história da gente arquivada, né? Interessante isso. Foi uma amiga da ginástica harmônica, a professora da ginástica harmônica que me passou isso de presente de natal, essa oportunidade. Conhecimento pra ter essa oportunidade. Quando ela viu aquilo ela achou: “Isso aqui é pra Miriam”.

 

P/1 - __________________________________

 

R – É, antes disso eu já montei o álbum da minha vida, então foi uma coisa ligada com a outra. Ela escreve, montou o álbum da vida, eu tive que parar na mão dela. Foi esse presente de natal que ela me deu.

 

P/1 – Agora além do seu álbum a senhora vai ter uma gravação também de um pouco da história. Não dá pra contar tudo.

 

R – Não.

 

P/1 – É só um pouquinho.

 

R – Um apanhado, né?

 

P/1 – Pequeno apanhado que a gente fez. Tem mais alguma coisa que a senhora gostaria de dizer?

 

R – Acho que não tem mais... Acho que não tem.

 

P/1 – Dona Miriam, gostaria de agradecer a sua entrevista, foi muito boa. Foi muito gostoso passar aqui esse tempo junto.

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