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História

Eu sou uma líder nata

História de: Lilia Maria de Morais Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Lilia Maria de Morais Silva nasceu em 29 de abril de 1965 na região da Tocantins. Teve poliomielite com um ano de idade, razão pela qual ficou sem andar até os nove. Perdeu o pai quando tinha seis anos e foi criada pela mãe, junto de seus dez irmãos. Vive na comunidade Córrego do Ouro desde pequena. Estudou até o ensino médio, casou-se com 18 anos e teve três filhos. Trabalhou na LBA, foi agente e líder comunitária por 16 anos e hoje é auxiliar de enfermagem.

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História completa

Nasci em 29 de abril de 1965 aqui em Brasília mesmo, nessa região da Tocantins, que era dos meus avós. Eles foram vendendo, a Votorantim comprou, com esse dinheiro meus avós compraram lá, que é Batalha, na comunidade Córrego do Ouro, a fazenda onde mora toda a família. Minha mãe,  Balbina, eu me lembro dela cuidando da gente só. Quando eu morava aqui eu tinha 1 ano, eu andava, aí eu peguei a poliomielite, fiquei sem andar até os 9 anos. Eu me lembro dela me pegando no colo, cuidando de mim. Sempre fui uma menina protegida. Agora, eu tinha 6 anos quando meu pai faleceu, ele era trabalhador rural e minha mãe também. Tenho dez irmãos. Foi ela que foi pai e mãe pra gente.

  Brincadeira era sempre com boneca, que eu gostava muito. Era cortar tecido, fazer roupinha de boneca. O meu sonho era ir pro colégio. Quando eu entrei num colégio eu já sabia ler porque a minha irmã mais velha ficava me ensinando. No início eu não dava conta de ir. Os meus irmãos mais velhos é que me levavam. Depois eu fui conseguindo andar, aí ia embora, tinha 9 anos. Eu não fiz fisioterapia nem nada. Foi o meu esforço. Por exemplo, eu tentava levantar me apoiando em alguma coisa, e levantava. Lá na casa da minha mãe tem uma mesa até hoje, eu levantava na perna dela. Quando eu botava a mão lá, eu estava em pé. Aí, foi firmando. Foi a minha vontade que me fez andar. Aí depois eu andei até demais, que eu já andei nessas comunidades todas.

  Depois fui pra Sobradinho fazer a quinta série, o ensino fundamental. Quando eu estava fazendo magistério, casei com 18 anos. Tive que voltar, parei meus estudos. Eu tive meus filhos, o meu filho mais velho, fiquei nove anos pra ter mais duas filhas. Eu já sou avó, tenho dois netinhos. Durante esse tempo eu passei a trabalhar com a comunidade. Aí eu vi: “Não, tenho que voltar a estudar”. E comecei. Terminei o ensino médio, vinha à noite fazer o ensino médio em Sobradinho. O ônibus chegava lá uma hora da manhã, mas eu terminei. Fiquei trabalhando na comunidade um tempo, depois trabalhei na LBA, na antiga LBA, depois eu fui agente comunitária. Estudei mais, fiz um curso de auxiliar de enfermagem, fiz o concurso, passei em terceiro lugar da Zerbini, aí fiquei trabalhando. Depois fiz a secretaria, passei. Hoje eu sou auxiliar de enfermagem, sou funcionária estatal.

  Fui líder comunitária por dezesseis anos, mas até hoje eu sou uma líder nata, não deixo de reivindicar coisas pra minha comunidade. A do Córrego do Ouro é a pioneira em poço artesiano, que na época corri atrás pra reivindicar água potável pra gente, e foi colocado. E a energia também, a primeira comunidade a ser colocada energia foi Córrego do Ouro. Quando eu era presidente, a comunidade participava. Eu os convidava pra ir. Toda a última sexta-feira do mês tinha reunião e estava todo mundo lá. Sempre trabalhei voluntária, nunca peguei dinheiro de Associação pra sair, nada. Eles confiavam em mim, eu falava: “Fui em tal lugar e a gente tem que fazer isso, a gente tem que correr atrás, nós temos que nos unir”. E todos concordavam. Eu sempre colocava isso em reunião: “Vocês têm que fazer sua parte pra gente conseguir”. Mutirão. É imensa a área, mas a água foi feita em mutirão comunitário. E a comida? As próprias pessoas é que faziam comida, e eu falava: “Gente, eu vou precisar de cinco mulheres pra fazer comida aqui pro pessoal que vai trabalhar. Não vai cavar o buraco, mas vai fazer a comida”. “E quem não puder vir?” “Então doa as coisas.” Aí um dava uma galinha, um dava o arroz, um dava o feijão. Ia todo mundo pro centro comunitário fazer a comida pra quem estava trabalhando. E funcionou, porque todo mundo ficou com água.

  A Batalha é uma comunidade cultural. É catira, é novena, é folia. É o ano todo assim trabalhando. Setembro tem folia, uns finais de semana o pessoal junta pra dançar catira. Quando não é catira, é roda de viola. Em janeiro tem a Novena São Sebastião. Nove dias cada um da família faz a sua novena, quando chega dia 20 de janeiro é a festa final. As festas geralmente junta todo mundo pra organizar. Minha mãe está com 75 anos, mas tem que fazer a novena. Ela fica lá, ela não faz nada, só organiza, mas tem que fazer o que ela quer. São cinco dias fazendo biscoito, tem que matar porco... E é tudo pra dar no dia, dão o café da manhã, dão o almoço e dão o lanche das três horas. Aí tem a missa, tem a reza. Aquela tradição. Tem um terço e uns cantos. Tem leilão. Por exemplo, um dá uma galinha pro leilão, um faz artesanato, um dá um litro de vinho, outro dá uma garrafa de pinga. Os jovens participam 100%. Eles gostam. Quando dá época de folia, você vê todo mundo a caráter, é bota, calça e chapéu. É mulher, é homem, é criança, é tudo.

  A Fercal sempre tem a Folia do Divino, que é de setembro, e reúne mais de três mil pessoas. Lá na minha mãe, são três mil cavaleiros. Ela geralmente gira pra área rural. Aí tem também a “Folia do Padre”, que foi o padre que pediu a folia, em outubro, que sai de lá da área rural e entrega por aqui, Fercal ou Sobradinho II. A folia tinha sido extinta. Aí o sobrinho de Mércia, que era amigo do meu irmão, falou: “Gente, não vamos deixar a folia acabar, não. Vamos fazer a folia”. Lá na Batalha, que é onde minha mãe mora, tem uma capela. Os dois sentados lá em casa: “Vamos fazer uma folia?”. Aí fizeram, juntaram mais ou menos 50 pessoas, só foi aumentando, aumentando, aumentando. Minha mãe prometeu: “Se vocês fizerem, eu dou um pouso”. Aí na época ela arrumava. Até hoje, se falar “é folia”, ela banca sozinha. Ela começou, outras pessoas já falaram: “Não, eu quero na minha casa”. Foram passando pra um, pra outro, foi aumentando. Tem um que canta, aí tem que correr atrás. Porque tem as pessoas que comandam a folia. Eles foram atrás, marcaram o período. Eram dois dias, começava num canto e chegava no outro. Agora são três, quatro dias girando.

  Hoje eu me superei. Quando às vezes eu estava em casa desempregada, eu falava: “Meu Deus, eu tenho que conseguir as coisas. Eu vou estudar, eu tenho que arranjar um trabalho”. Então é minha vitória. Eu falei: “Eu não tenho nada que pedir a Deus. Eu só tenho que agradecer”.

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