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História

"Eu sou um escravo da música"

História de: Nelson Angelo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2004

Sinopse

Nelson Ângelo conta sobre sua infância, a influência de seus pais em sua carreira profissional. Foi um garoto musical que tinha muita facilidade auditiva e visual. Sua juventude foi entre cidades do interior, Ponte Nova e Papagaio e cidade grande, Belo Horizonte. Nelson conheceu Márcio Borges e Milton Nascimento em meados de 1963 e a partir daí, desenvolveu amizade com os membros do Clube da Esquina. Aos 16 anos, se muda para o Rio de Janeiro, relembra como foram produzidos os discos do Clube da Esquina e sua participação tocando instrumentos como violão, piano e percussão. Também teve influência em outros álbuns de Milton Nascimento, como em Minas, a composição de “Simples” e Geraes, com a composição de “Fazenda”. Nelson comenta das convivências que teve com Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e seu parceiro na música, Cacaso. Ainda como muita sede de viver ele quer estar presente na música e se comunicar com a juventude.

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História completa

P1- Bem, Nelson, bom dia!

 

R- Bom dia.

 

P1- Eu queria começar a entrevista perguntando então o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R- Isso no cartório, (riso) Nelson Ângelo Cavalcanti Martins, nascido em Belo Horizonte, dia 15 de junho de 1949.

 

P1- E Nelson, você podia falar o nome dos seus pais e qual era a atividade que eles desenvolviam?

 

R- Meu pai chamava-se Nelson Vieira Martins e minha mãe Heloísa Cavalcanti Martins. Meu pai era médico e minha mãe, do lar, como chamavam antigamente. Classe média de Belo Horizonte, e isso aí, normal ali, família normal ali. Gente do interior, Ponte Nova, todo mundo. Eu tenho um pé no norte também, o meu avô por parte mãe era lá do norte, mas o resto da família, todo mundo Minas Gerais.

 

P1- O seu avô materno ou paterno que era do norte?

 

R- Materno, meu avô materno. Tenho um pezinho lá, um Cavalcanti, né? O Cavalcanti é do pessoal de lá.

 

P1- E Nelson, os seus pais...

 

R- Posso fazer um negócio? Eu fiquei totalmente inibido, eu fiquei...

 

P1- Bem, Nelson, você podia se apresentar?

 

R- Tá. Hoje a gente está aqui, no dia 17 de junho de 2004. Eu estou aqui pra falar um pouco de mim, e pra falar sobre a minha participação junto com meus amigos e companheiros num movimento que foi chamado de Clube da Esquina e também pra falar um pouco da minha vida no meio dessa história toda. Meu nome é Nelson Ângelo Cavalcanti Martins, eu nasci em Belo Horizonte, minha família é do interior de Minas Gerais, de uma cidade chamada Ponte Nova. 

 

R- Bom, hoje é dia 17 de junho de 2004. Eu estou aqui pra prestar um depoimento, falar sobre mim e sobre  amigos que acabaram se tornando parte de um movimento. [trecho sem som] Martins, nome artístico, como dizem, Nelson Ângelo. Nasci em Belo Horizonte, em 1949, na rua da Bahia, nasci em casa. Filho de um médico [trecho sem som] Nelson [trecho sem som] e Heloísa Martins, [trecho sem som] na cidade mineira de Ponte Nova. E eu tenho um pé um pouco no norte, porque meu avô é pernambucano, Cavalcanti, que foi pra Minas Gerais e constituiu família, lá. Então é uma pessoa de classe média. Família normal. Eu nasci ali perto do Minas Tênis Clube. Onde eu vivi a minha infância entre Belo Horizonte e Ponte Nova, que eu passava assim a metade do ano em Ponte Nova e também um outro lugar chamado Papagaio. Que meu pai foi médico da cidade e chegou até a ser prefeito uma época, aquela coisa. Um lugar, um lugarejo, né, pequenininho, uma cidade pequena. E eu passei também bastante tempo da minha infância nessa história de cidade do interior e Belo Horizonte. Foi muito importante na minha vida. Mas eu vivi muito essa coisa de cidade de interior mesmo. Então essa história daí. Na minha infância eu comecei a estudar em colégio de classe média, em colégio marista, os Irmãos Maristas. E fiquei, isso era 1954, 1955, por aí. Fiquei estudando lá e aos 10 anos, eu estudei um pouco de violão. Primeiro com o professor Raul Martins, ali no Santo Antônio mesmo. E depois um pouco com professor José Martins, que era muito conceituado, amigo até do André Segóvia e tudo. Mas na verdade, eu fiquei muito pouco tempo nesse estudo, porque eu tinha uma fascinação muito grande pela música popular. E em Minas Gerais é um lugar onde se ouvia muita música. A grande escola, depois até pretendo me lembrar disso pra falar um pouco sobre essa história na frente, que é uma escola de ouvir, de tocar porque ouviu muito, porque seguiu aquilo. Essa era a coisa vigente, a maioria desses músicos, desses meus amigos, dessas pessoas, tanto músicos como letristas como pessoas que mexiam com literatura, tinham um aprendizado. Havia um aprendizado meio feito assim sem as escolas tradicionais. Era tudo meio no meio da rua mesmo, nas esquinas, nos bares, que era uma coisa tradicional lá de Minas Gerais. Sempre foi o bar um lugar de encontro, de troca de idéias e de aprendizado, por incrível que pareça assim, um meio menos formal de aprendizado. Então essa época dos 10 anos, a música era tocada em rádio. A televisão ainda não existia, veio um pouco depois. Mas se ouvia muita música no rádio e muita música em tudo que é lugar que você ia. Todas as casas tinham piano, violão, entendeu? Você não ia numa casa que não tivesse um instrumento musical. E a motivação era muito grande. As pessoas que tinham uma facilidade, vamos dizer, um talento pra questão musical se deram muito bem, porque tiveram uma formação rica ali em Minas Gerais. Todos, assim sem exceção. Todas as pessoas da maioria das classes ouviam música. Ouviam ópera, ouviam música clássica, ouviam jazz, ouviam rock and roll, ouviam tudo que é tipo de música. E isso parece que foi assim a semente dessa história pelo lado musical, né? Pelo lado humano, a gente tinha, eu tive um presente muito grande, porque eu tive a felicidade de poder conviver com diversas pessoas independentemente assim do status dessas pessoas, enfim, do poder aquisitivo. Eu tive uma vida curiosa desde cedo, porque pelo fato deu estudar em colégio de classe média, eu conhecia as pessoas ricas da cidade, entendeu? Quer dizer, donos de banco, donos de grandes empresas e grandes lojas. Mas pelo meu bairro ali tinha uma proximidade também com pessoas que não tinham absolutamente nada. Inclusive, assim, favelados mesmo, pessoas que moravam em favela, que a gente tinha uma relação por intermédio de música e de futebol. Rolava uns joguinhos assim, entendeu? E apesar de eu ser um grande perna de pau, eu joguei muito futebol quando era menino. Na fazenda assim, lá em Ponte Nova, tinha uma coisa engraçada que o pessoal, tinha um campo de futebol que era assim, o, era um...

 

P1- Um declive?

 

R- É, era um declive. Então os meninos tinham tanta saúde assim, tanta liberdade, tanta vontade de viver, assim essas coisas, que jogavam assim. O pessoal almoçava, aí assim, de duas às quatro, jogavam pra baixo. De quatro a seis, jogavam pra cima, entendeu? O time atacava pra cima, né? Então esse tipo de coisa, rolava em morro, rolava quando eu mudei pra perto do Minas Tênis Clube, que era mais chique assim, pro Alto do Santo Antônio, perto da caixa d’água. Começou a história de, tinha umas favelinhas, um outro tipo de coisa, a palavra favela a pessoa pensa até que é esse tipo de coisa de hoje, mas era uma coisa muito mais romântica, entendeu? Existia uma pobreza mas com muita dignidade. Existiam os marginais que eram os malandros. Eu conheci já desde essa época, entendeu? Conheci lá o cabeção, entendeu? Que era o cara barra pesada. “Esse, ó, esse garoto, meu amigo, hein.” E fiquei impressionado com aquilo. Eu era menino, eu ficava com medo, né, claro. Aí o cabeção já soltava pipa, lá já. Era uma coisa assim mesmo marginal, mas só que com muita elegância, vestia um terno, entendeu?

 

P1- Terno?

 

R- É, e namorava as moças, as domésticas e tinha romance. Contava pros meninos. Os meninos ficavam ouvindo as histórias dele lá. Ele dizia assim: “não, porque eu namoro aquela lá, aquela.” Contava altas peripécias, né? Então tinha esse convívio e o negócio de carnaval. A gente formava uns bloquinhos de carnaval, que eu tocava percussão. Descia lá e tocava, fazia papagaio, pipa, né, lá na coisa e tocava com eles. Até o pessoal falar: “aí, o cara aí, o cara vem cá de cima e está tocando melhor que vocês.” (riso) Tinha um jogo, uma brincadeira. Enfim, o quê eu quis dizer com isso que me veio aqui na memória agora, já que vocês me liberaram pra falar até mais da minha pessoa e que a minha convivência humana foi essa daí. Isso me gerou coisas curiosas durante a vida assim. Porque nem sempre e até hoje essas pessoas convivem numa muito boa, não é? Existem diferenças, existem revoltas. E eu desde menino fiquei meio no meio dessa coisa daí, entendeu? E tentando um pouco defender um lado e o outro da minha amizade. O que talvez possa ter provocado uma coisa, que demorou pra eu até aparecer, porque eu fiquei assim meio, sabe? Se o cara era um tipo de pessoa, eu não gostava de ver um outro tipo de pessoa chegar e dizer, fazer pouco caso daquilo, entendeu? Quer dizer, vamos dizer, se era pobre eu não gostava de ver o cara que era rico chegar e dizer algum negócio pra ele. Se era rico eu também não gostava de ver o malandreco dizer: “Eu vou passar a perna nesse cara!” Então eu tive uma vivência boa e fiz muitos amigos, graças a Deus, nessas áreas todas. Daí eu comecei a mexer com a música. Nós estamos ouvindo o lado Raul Marinuzzi e Martins, [espaço sem som] total [espaço sem som] estúdio de música,  não sei o quê. Isso foram uns dois, três anos.

 

P2- Mas o seu primeiro instrumento foi a percussão?

 

R- Nada, pra te dizer na brincadeira foi, né, na brincadeira foi, porque eu toquei, eu tocava tamborim. Mas não era a coisa que eu levei a sério no sentido de prosseguir naquela coisa. Meu primeiro instrumento na verdade foi o violão, porque eu peguei na minha casa, como eu disse todo mundo tinha instrumento. Meu pai tinha, minhas irmãs tocavam e eu peguei o violão e em dois meses assim eu tocava melhor do que ela, entendeu?

 

P1- Ah é?

 

R- Ah é.

 

P1- E você tinha quantos anos?

 

R- Não, eu era um menino cheio de jeito pro, é, meu professor ficava ____ e eu meio ___ negócio de música clássica, porque ele tocava a música pra mim uma vez e eu decorava, entendeu? Aí não lia. (Riso) Passava ele pra trás, não lia, ficava, entendeu? Era a facilidade de ouvir, então eu tinha, eu levava jeito, sabe? Aquele menino tinha jeito pro negócio, e eu...

 

P1- Só te interromper um instantinho. Então quer dizer, na sua família tinha um clima musical?

 

P1- Ah, tinha.

 

P1- Teu pai tocava?

 

R- Meu pai tocava uma música chamada “Dalila”, entendeu? Uma, entendeu? Que fazia plin, tchum, tchum, plin, tchum, (riso) e parava por aí, entendeu? O negócio dele era medicina e pescaria. Na música ele gostava, sempre me deu a maior força, mas ele me dava força pra qualquer coisa que eu quisesse fazer. Ele não era assim essencialmente um músico. A minha mãe era mais musical. 

 

P1- Ah, é?

 

R- Era, minha mãe era musical. Porque as mulheres naquela época, todas aprenderam piano, entendeu? Todo mundo tinha uma casa que tinha piano, entendeu? As tias, se não tinham piano, por exemplo, na minha casa não tinha piano, mas na casa da minha tia, que era lá perto, tinha. Minhas irmãs estudaram até um pouco de piano na casa das minhas tias. E aí o negócio do violão, foi um instrumento que eu tinha facilidade. Eu peguei assim e rapidinho eu toquei. Eu olhava e repetia, sabe, facilidade visual e auditiva. Eu sempre fui um garoto musical, entendeu, musical. Por isso muitas pessoas gostaram de mim como músico. Nomes até que depois viraram pessoas super importantes na música. Por causa disso, uma facilidade musical, entendeu? Acho até que com o passar do tempo, às vezes, esses dias eu estava pensando nisso, as pessoas se deseducam um pouco. Porque quer, o raciocínio muitas vezes prejudica esse lado musical, a coisa. Você não pode começar querer tolher, sabe? É uma discussão longa que não cabe aqui. Mas às vezes a pessoa muito musical começa a ficar presa de regra, saber uma regra? “E então você faz isso aqui assim. Isso aqui pode, isso não pode.” Começa a tolher essa história e prejudica essa musicalidade bruta, entendeu? Quer dizer, atrapalha um pouco. Eu acho que a pessoa não deve deixar essas regras, deve prestar muita atenção pra regra não começar tolher a facilidade que você tem, que Deus te deu, de talento, de musicalidade, de fazer isso. Mas voltando aqui, como dizem, à vaca fria. Então rolava isso, aí rolava assim, muita festa, entendeu? Assim, ponte, ai cidade do interior, entendeu? Baile e todos os... menino de interior é menino precoce em relação à vida, né? Menino que convive, fez 12 anos já está com cara de 18, querendo falar grosso, entendeu? E é, o trem é, e começa logo o movimento, a ir nos lugares, entendeu? Vai na igreja, vai na zona, vai no clube, tem muitos amigos, entendeu? Então eu tive a felicidade de ter essa vida, entendeu? Eu comecei, como diziam, comecei muito cedo, entendeu? Eu fui muito à festa, dancei muito em clube, entendeu? Tinha aquela coisa, aqueles namoros de cidade de interior, maravilhosos, que você vai, convida a menina pra ir, primeiro tem aquela coisa, as moças andando, você, os rapazes ficavam olhando, não sei o quê.

 

P1- É o footing.

 

R- É, aquele footing. Então você diz assim: “posso falar com você?” E coisa e tal. Aquela coisa até meio atrevida, né, ficava vermelho, envergonhado, a moça também e coisa e tal. Aí vai pro cinema.

 

P2- Mas o quê que vocês ouviam na época, que música que vocês dançavam?

 

R- Tudo isso que eu estou te falando, era tudo. Tinha, ó, tinha assim: ópera, o Trovador, o Palhaço, Cavalleria Rusticana. Ouvia-se muito Bach, Beethoven. Isso eu não estou botando isso na frente de nada. Aí assim, música popular era época que começou a coisa da bossa nova, você entendeu? Quer dizer, vindo de uma época seca pra jovem. Eu comecei ouvir mas na época de Tamba Trio, João Gilberto, entendeu, Tom Jobim. E paralelo a isso veio a coisa de Ray Charles, veio a coisa de, tinha tudo, tudo, Elvis Presley, Pat Boone, as grandes orquestras americanas, Ray Conniff, Mancini, todas elas, Tommy Dorsey, todas as bandas, entendeu? Quer dizer, a informação era enorme, entendeu? Então aquilo ali, misturado na cabeça de uma pessoa jovem, entendeu, dava um coquetel maravilhoso. Se você tinha facilidade de lidar com aquilo, tanto que quando eu viajava pra Ponte Nova, eu tinha uma, ia muito de trem. E aí rolava uma história que eu botava o ouvido assim na janela da Maria Fumaça e aquele barulho do vento batendo, eu ia ouvindo melodias, o que eu mais gostava de ouvir. Porque eu, engraçado, surpreendentemente, eu ouvia meio o que eu queria. Ai eu falava, eu gostava muito de ouvir corais, entendeu? Coro cantando. E a melodia, não sei com o vento, eu não sei o quê que isso, sabia? Até hoje eu não entendi. Eu ouvia, fazia a melodia, eu compunha a melodia que eu queria ouvir ali. Já era um negócio de composição que eu meio não sabia o que era, né? Eu ficava ouvindo, aquilo me bastava, nunca pensei em guardar. (Riso) Devia ter um interesse. “Vou gravar isso aqui.” Devo ter feito grandes obras para coral, (riso) para coral e orquestra. Então a história era essa. Ponte Nova, muita festa, muito baile e enfim. E aí, quer dizer, acho que eu já dei um panorama dessa história. Era bom aluno. Engraçado que geralmente o cara que tem isso que eu falei aqui, não é lá muito bom aluno, o neguinho é meio, né, coisa e tal por natureza. Mas, curiosamente, mais uma vez pra eu não me entender, eu era bom aluno, entendeu? Assim, matemática, era bom, eu ouvia uma aula de matemática, eu aprendia ali na hora, entendeu? Depois até tinha uns colegas meus que pediam pra eu explicar depois da aula, entendeu, às vezes eu explicava, porque eu aprendia. Eu fui, tirei primeiro lugar muitas vezes no colégio, ganhei medalha, não sei o quê. Tinha até uma medalha, que era a medalha de excelência, eu ganhei. Engraçado, né, porque geralmente não bate com músico. Músico geralmente é o cara mais baderneiro, mais, né? Em compensação quando eu parei eu parei assim de vez, entendeu? Acho que a reação foi inversa. Né? Eu parei o estudo de uma vez só, nunca mais mexi com colégio.

 

P1- Quando?

 

R- Em 1965, no Colégio Estadual. Eu saí do Marista, fui pro Estadual, fiz um ano de clássico. Mas aí eu dormia na aula. Eu falei com os professores que eu não queria mais estudar e convenci. Falei: “no ano que vem eu vou me mudar pro Rio de Janeiro, vou fazer música e não vou mais estudar.” Convenci. Tinha uma professora de Geografia, Leda, que ela deixava eu dormir na aula. Eu ficava acordado até tarde, eu dormia na aula dela numa boa. Meu, a prova de fim, acho que agora já pode falar nisso. Não vai comprometê-la, né? Me deu a prova de fim do ano, assim, pra eu poder estudar as questões, né? Ela passou: “eu sei que você não vai estudar mais mesmo, já vi que não adianta querer nada com você.” Mas voltando lá, porque aí que eu vou começar a chegar numa história, que é o seguinte. Aí Ponte Nova, coisa e tal, carnavais maravilhosos, música, estudo, colégio, amizades. Aí em 1963, 1962 pra 1963, a gente tinha lá no colégio um grupo de amigos que gostavam de mexer com música e organizar assim, uma espécie de um clubinho de música lá na cidade, entendeu? E nessa época o Teatro Opinião, o pessoal do Grupo Opinião tinha a peça, estava no auge do “Carcará”, aquela coisa, João do Vale e tudo mais. Então eles iam fazer um show em Belo Horizonte e esses amigos resolveram fazer uma espécie de um clube, um lugar chamado Carcará, entendeu? Que era lá no centro da cidade, na rua da Bahia aí, no centro da cidade. E essa foi a mesma época que o Tamba Trio tinha ido a Belo Horizonte um pouco antes, feito uma apresentação na Secretaria de Saúde de Belo Horizonte - onde até meu pai trabalhou muitos anos como médico lá na Secretaria da Saúde e Assistência - eu fui, assisti esse show. Aí eu já fiquei totalmente fascinado, porque eu conheci as coisas pelo disco, mas ao vivo eu não tinha visto ainda, entendeu? Então, aí é que a coisa pegou mesmo, entendeu, foi aquela pedrada. Ah aí tem um fato que eu vou contar aqui, que é marcante, eu já até falei sobre isso, que nesse mesmo dia em que eu fui ver o Tamba Trio lá na Secretaria de Saúde, tinha uma turma sentada atrás de mim assim. O auditório estava muito cheio, e tinha um turma sentada atrás e tinha um sujeito lá no meio dessa turma que gritava. “Maravilha, que beleza, que beleza!” Batia palma, levantava. Eu nunca tinha visto aquilo na minha vida, eu falei: “meus Deus, que coisa engraçada, que entusiasmo.” Eu fiquei olhando aquilo. E muito pouco tempo mais tarde, eu um dia o conheci e que é que era? O meu amigo Márcio Hilton Fragoso Borges, que foi assim, era um entusiasta, tal. É. E a figura ficou assim na minha cabeça, que eu não, eu não vou esquecer a cara daquele maluco que estava, (riso) urrava no show. Aí falei: “eu não vou esquecer a cara daquele maluco de jeito nenhum.”  Então foi meio junto com o Bituca, com o Milton Nascimento, que eu conheci Márcio Borges. A gente, a apresentação formal, ó, vou formular: eu conheci o Márcio Borges antes do Bituca, do Milton Nascimento, tá, e fui apresentado a ele depois que eu fui apresentado ao Milton. Isso foi uma questão de pouquíssimo tempo, uns dois três meses.

 

P2- E aonde vocês se...?

 

R- Tudo em Belo Horizonte. Aí vou voltar ao Caracará, eu não estou perdido não. É porque tem muita coisa. O Carcará deu uma festa depois que eles fizeram essa apresentação em Belo Horizonte do Opinião, que era Nara Leão, que era o Zé Keti, o João do Vale, tinha um violonista que está aí até hoje, o Roberto Nascimento, entendeu? E esses foram os principais. Eu não pude ir nesse show, porque a gente estava lá cuidando da inauguração do lugar e convidando todo mundo, não sei o quê. Então, lá nesse show, foi o primeiro dia que ouvi falar do Milton. “Tinha um cara lá no show, que entrou, cantou uma música e arrasou, acabou com o show.” (Riso) Quando ele entrou assim, diz que o teatro veio abaixo, que acabou com a história do negócio lá. Eu falei: “olha que maravilha, é mesmo, não sei o quê.” E me apareceu a figura do Milton, junto com o João do Vale, com o Zé Keti e com o Roberto Nascimento. E foram lá fazer a visita ao tal Clube Carcará, deixar o autógrafo na parede, né, botar lá o autógrafo na parede. E tudo certo, aquela coisa, todo mundo satisfeito, um movimento danado. E no meio disso, eu estava lá assim. E aí, todo mundo na época gostava de tomar umas biritinhas e aquilo ali às vezes fugia um pouco assim do controle, né, o pessoal ficava bem doidão mesmo assim. E no meio dessa história eu já estava falando, todo mundo meio assim, “Por quê!” Fazendo discurso. E aí o Milton falou assim: “eu acho que a gente devia tomar um Sonrisal.” (Riso) Nessa aí do Sonrisal, como não tinha lá, obviamente, nós fomos numa farmácia. Fomos procurar um Sonrisal numa farmácia lá aberta, aquelas farmácias de plantão. Não sei o quê. Aí já tomamos um Sonrisal, aí tinha um bar do lado, já tomamos mais uma outra, já tomamos não sei o quê, daí uma confusão. E, a partir desse dia, em 1963, nós fizemos uma sólida amizade, entendeu? Uma sólida amizade. Pela música, pelos mesmos interesses de conversa, de noite, de arte, de tudo, daquela coisa de ouvir muito, de ficar, de querer fazer alguma coisa, e ter uma vida pela frente assim. E nesse mesmo tempo, o Milton também, já conhecia o Márcio Borges e aí eu também fiquei conhecendo Márcio Borges. E aí a gente começou essa história, quer dizer essa é a minha versão. Quer dizer, o que ocorreu comigo. Eu não sei se é, entendeu? Cada pessoa vai ter uma maneira de enfocar isso aí, né? Comigo foi assim, a coisa de Clube da Esquina, chamado hoje. Começou dessa maneira daí. Daí nós viramos assim, grandes frequentadores, né, do Bigodoaldo’s, né, do Edifício Maletta, e de alguns lugares que permitiam que a gente fosse, frequentasse, entendeu, de menor beber, entendeu? Não tinha muito, eu era menor mas neguinho fazia vista grossa, tomava uma cervejinha, tomava, né, uma caipirinha e ninguém, chiava. Era uma coisa tranquila onde a gente podia compor, evoluir a nossa amizade, trocar idéia. Porque a coisa, é muito fascinante, a cabeça da pessoa mais jovem sobre os parâmetros, os conceitos, o quê que quer fazer da vida, o quê que a outra pessoa pensa, como é que é, discussões filosóficas, alegrias, tristezas. Ficava todo mundo numa tristeza danada, de repente tinha um negócio que se chamava fossa. Na época da gente, pô, hoje eu tô na fossa. Era aquela coisa assim meio influenciada por Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, existencialismo, entendeu? E a coisa assim, o Marcinho por exemplo era super ligado em cinema, o Bituca também. Eu também gostava apesar de saber menos coisas sobre cinema, mas gostava, porque cinema é uma coisa de sensibilidade. Todo mundo gostava muito. Então a gente fazia altos papos sobre isso, entendeu? Altas elucubrações, ia, voltava, não, por quê? E não sei o quê e por quê? E não sei o quê lá. E começou a juntar um monte de pessoas maravilhosas, que eu posso assim, sem dúvida nenhuma lembrar de uma moça totalmente apaixonante, maravilhosa, que foi amiga de nós todos, que foi a Marisa. Uma moça chamada Marisa, que também é parte do começo da minha história nisso aí, entendeu? É uma pessoa espetacular, a Marisa simbolizava assim, a figura feminina que era amiga, gostava dos assuntos pertinentes à rua, política, à arte. Não tinha aquela coisa de uma outra área de, de mais sofisticação, sei lá, enfim de garotas que só pensavam em outro tipo de coisa. A Marisa era igual a gente, porque ela ficava ali. Daí amizade ter se aprofundado, né, acredito que todos tiveram uma amizade muito grande com ela, e eu acho que é uma pessoa assim símbolo, merece sempre ser relembrada, talvez assim, fazendo uma comparação à nossa Leila Diniz, entendeu, até nessa hora. Uma pessoa, aquela pessoa que chegou e põe linha mesma, dizia: “vamos lá.” E encarava os assuntos. Ela participou. E a coisa foi crescendo, nessa época a família Borges, eu comecei a conhecê-los, o resto da família, né, o seu Salomão, a dona Maricota, eu conheci. Eles moravam no Edifício Levy. Uma família enorme, né, que eram, sempre foram muito amigos do Bituca. O Bituca tinha lá como uma casa dele, entendeu? E eu já também, como amigo, já comecei a frequentar. Andamos dando até umas festas lá, uma vez que o povo viajou. (Riso)

 

P1- O povo viajou vocês fizeram uma festa?

 

R- Essa festa foi um negócio, famosa festa, porque o pessoal mais velho viajou e aí, acho que os mais velhos e os mais novinhos. Porque nessa época, acho que o Lô ainda tinha calça curta lá. Ainda nem mexia com essas coisas, assim, ficava só olhando. Mas não era personagem, era o Marilton e o Marcinho, que era amigos do Bituca, assim, da idade e que ficaram meus amigos também. E sei que um dia lá teve uma festa, rapaz. E a gente não achou limão pra comprar pra fazer batida e então a gente comprou Ki-Suco de limão. Olha, aquilo ali foi um negócio sério na parada, porque deu um porre desastrado em todo mundo, desastrado. O Marilton cantava numa boate chamada ______ e no dia não pôde ir, chamou o Bitica pra substituí-lo. Quem era o substituto era o Bituca, mas o negócio já estava tão avançado a história que o Bituca me convidou também e eu falei: “claro é comigo mesmo.” Fomos, entendeu? Não, eu fui tocar bateria, entendeu? E não sei porque cargas d'água o Bituca ia cantar e tocar baixo. E o Elvis Vilela apareceu também, ou da mesma festa, que eu já não me lembro mais, ou de uma outra festa. Eu sei que resumindo a história, quer dizer, fomos expulsos da boate.

 

P1- Expulsos? 

 

R- Não, você imagina essa coisa, esse trio tocando, entendeu? Era um, o Elvis foi ao banheiro, desmaiou dentro do banheiro, ficou lá. O Bituca caiu com o contrabaixo pra frente, entendeu? E eu tocava e o Elvis falava assim: “Eu acho que isso está atravessado.” Eu falava assim: “onde, onde?” (Riso) Era o ritmo e eu tá, qualquer coisa. E eu dava umas canjas de bateria, por causa do negócio de percussão, eu dava umas canjinhas e coisa e tal. Lá no clube de Ponte Nova andei fazendo minhas incursões ali por esse lado. Mas, enfim, eu estou contando essas peripécias como se fossem assim uma coisa da nossa infância, juventude nessa coisa do Clube da Esquina. Começou por aí assim. Obviamente que tudo isso são coisas que foram se transformando, as pessoas naturalmente, essa fase dessa coisa dura um pouco, mas acabou. E daí começou acontecer, pelo fato desse interesse de pessoas que tinham talento, né, a coisa começou a se formular, né? 

 

R- Bom, então eu estava falando sobre essa primeira parte, vamos dizer assim, de como, quer dizer, quem eu sou, como eu conheci as primeiras pessoas, né? Depois mais tarde a gente foi aumentado o número de gente, obviamente, pela vida. Mas existia essa coisa de Belo Horizonte. Teve a história que tinha uma coisa também muito ligada ao ponto dos músicos. Quer dizer, a música sempre foi a comandante assim da motivação de amigos que se formaram, nessa época daí?

 

P1- O quê que é o ponto dos músicos?

 

R- Ponto dos músicos seria o lugar onde o pessoal que era músico ia pra bater papo e pra arranjar baile pra fazer. Então era por aí. Nessa época, o Milton como era pouca coisa, tinha mais idade que eu, conhecia, me apresentou algumas  pessoas que eu não conhecia lá, Márcio José, alguns outros. Eu já conhecia alguns também, tipo Valtinho, o Aécio Flávio, o próprio Marilton aí, o Elvis Vilela. O Marilton Borges, o Elvis Vilela, que também é Borges. Então o quê que acontecia? O pessoal pra bater um papo, combinar um almoço aqui, um almoço ali, tinha uma coisa de convivência. E pra arranjar baile pra fazer. A história era meio essa. Coisa de ponto dos músicos mesmo. Eu tirei carteira da ordem, em 1966. Isso era 1966, eu tirei carteira da Ordem, não sei o quê. Então teve essa história toda. Mas veja bem, fora o plano de amizade, eu queria abrir um parênteses aqui na história pelo seguinte, porque na época ninguém não está nem aí, não imagina isso que eu vou falar, mas assim o Milton Nascimento por exemplo, fazendo uma rápida análise como um músico, como um compositor, somos uma pessoa totalmente ligada à área da música, ele sempre trouxe com ele essa bagagem, uma coisa assim, vamos dizer, acima do normal, assim de pessoa que já nasceu com o dom de ter aquela coisa por dentro, quer dizer, já é uma coisa natural, né? Então ele sempre, todas as pessoas que tinham essa possibilidade, perceberam isso nele, entendeu? Dessa, acredito que a maioria desses amigos dessas pessoas que eu citei sabia, disso. De uma maneira ou de outra, podiam não realizar, mas sabe que a pessoa tem uma coisa ali. E graças a Deus, nós todos, seja lá - isso não existe uma medida, não tem um aparelhinho pra medir isso - mas todos que foram essas pessoas que se juntaram ali, tinham um pouco disso, entendeu? Tinham essa coisa por dentro, entendeu? De uma facilidade, uma coisa que vinha dentro da cabeça, um talento mesmo pra mexer com arte. Não foi uma coisa forçada, sabe? Aquela vontade, simples vontade de falar assim: “não, eu vou fazer isso.” É porque aquilo vinha de uma maneira tão poderosa que começou ali a se formar uma coisa e muito assim, em torno do Milton, junto, entendeu? Quer dizer, ele era, talvez as parcerias deles com o Márcio foram talvez as primeiras que aconteceram ali, o Crença, Terra e outras mais, entendeu? Episódios até que eu fiquei super honrado, anos depois que eu soube, pra você ver que a coisa era tão desligada assim, tão despretensiosa, eu fui até homenageado numa parceria do Márcio e do Milton, que está até contado no livro do Márcio, “Os Sonhos Não Envelhecem”, que é a música “Coragem”, né? Que eles fizeram lá, aquele garoto doido lá que gosta de música, que tem talento. O Milton também sempre me admirou muito, entendeu, assim como um talento de música, eu tive um respaldo dele interessante. Não que eu fosse conseguir me desvencilhar disso, mas foi importante pra mim. O Milton assim, aquele jeitão dele: “Você é um compositor.” Ele falava assim meio arrancado, sempre foi assim. “Você é um compositor,” não sei o que lá. Então foi uma coisa muito interessante. A gente formou uma amizade e um trabalho danado, sabe? Aquilo começou ali a tomar uma medida, que foi feito com muita gana, muita garra, por isso que resultou nessa coisa. Senão, não resultaria na coisa que, vamos dizer, mais importantes em termos públicos que virou, foi essa questão estética musical, negócio do Clube da Esquina. Que realmente, eu sem meus estudos formais, né, coisa, eu posso discernir que vem daí, tem um embasamento muito grande de pessoas que realmente tinham o borogodó, entendeu? O talento do negócio. E o Milton sempre foi um irmão mais velho, um representante. E foi em torno dele que isso sempre foi, vamos dizer, permaneceu, não é? E uma coisa assim de um coração aberto. Porque eu não vi durante toda essa época, talvez mais tarde tenham outros parâmetros, mas durante toda essa época, eu não vi uma pessoa pensar qualquer coisa e medir o quê que era isso, o quê que era aquilo, entendeu? De entrega de coração mesmo pra causa que estava sendo ali tratada. Foi um negócio assim que todo mundo se ia dar uma nota, dava aquela nota do melhor jeito que podia dar, entende? Com o maior carinho. Se ia fazer uma música era com o maior carinho, entendeu? O maior respeito. Essa a coisa que eu acho, a coisa assim, é nesse aspecto aí. Que são vários aspectos, o mais importante, um negócio assim, de um respeito e de um carinho, entendeu? Fora do comum, uma coisa assim, totalmente fora do comum. O Milton sempre foi uma pessoa seríssima. Ele é uma pessoa, ele fez disso aí um sacerdócio, entendeu? E eu acredito que vários de nós também o tenhamos feito. Eu levo essa coisa daí, eu me considero assim, até pretensiosamente, talvez, mas eu sou escravo da música, entendeu? Eu sou uma pessoa que eu não consigo enganar um troço, entendeu? Eu posso fazer aquilo tão bem. Eu vou lá, mas entendeu, e isso é meio, foi formado com essa ideia de Clube da Esquina. O Clube da Esquina não tem uma pessoa que você faça música mais diferente um do outro. Viaja pra lá, mais diferente, viaja pra cá, ninguém procurou lá, enganar nada.., entendeu? Ninguém, nunca, mas nem de longe, entendeu, tentou enganar você pode ter discussões, não digo nem problemas, discussões com essa pessoa, aquela outra. Você não pode ter uma totalmente diferente, não ter mais, até não querer mais conviver com aquela pessoa. Mas essa coisa ninguém pode abrir boca pra falar. 

 

P2- Nelson, e como era num estúdio de gravação?

 

R- Não, o estúdio de gravação ainda demorou desse tempo que eu estou falando. Isso aí era a formatação de um repertório, de um conceito, de uma estética que foi pautada no respeito à música de uma maneira geral, à música nacional, entendeu? Tipo Tom Jobim, João Gilberto, e Radamés Gnattali, que até não era tão citado, mas internamente já era uma pessoa da maior importância.  Villa-Lobos, entendeu, que aparecia, todo mundo ouvia. Uma aplicação mais jobiniana, porque até uma época do Clube da Esquina, que o Tom sempre foi fascinado pelo trabalho do Villa-Lobos pra várias pessoas, né? Enfim, teve essa história dentro de negócio de clube da esquina e foi formado nessa época. Aí daí a pouco, começou o Lô com o talento dele a compor. Eu me lembro uma coisa do Lô e do Beto Guedes, eles eram bem meninos nessa época que a gente está falando. E quando eles começaram a botar as manguinhas de fora, quererem participar de uma coisa ou de outra. Um dia, eu já morava no Rio, e eles foram lá em casa me pedir pra fazer um arranjo pra cada um, de música deles. Era o “Equatorial” e era mais uma outra que aqui no momento eu não estou me lembrando. E eles foram lá no Santo Antônio, pedir, eu falei: “Que coisa, essas meninada, os meninos novos desse jeito, tudo aí.” E coisa e tal. E fizemos lá uma confusão danada. Eu tinha umas idéias assim meio de música concreta na cabeça. O Lô se lembra até hoje da história, que eu, chegou uma hora da partitura da orquestra que tocava lá na secretaria de saúde, eu dizia assim: Tocar __choise.” Aí os caras diziam: “O quê que é isso?” Eu dizia: “toque qualquer coisa.’ ___choise, eu botei em francês ainda por cima. “Toque ___choise.” Mas e assim: “mas como?” Eu disse: “faça aí um ruído e coisa e tal.” E aquilo era meio engraçada, foi meio, as pessoas na verdade não têm, enfim, virou um festão lá. E tocaram, não sei se isso, se as músicas foram classificadas ou se isso aí tirou, virou um protesto (riso) de forma lá e tirou a música do festival, mas enfim. Eu conheci o Beto Guedes e o Lô Borges que nós voltamos de lá do Alto Santo Antônio até o centro da cidade a pé. E eles falavam, a gente falava todo mundo alto. Gritava no meio da rua, era de noite, meio tarde da noite. Os meninos davam um berro pra ver, sabe, aquela coisa de juventude. E eu achava aquilo engraçado, a gente, tipo uma molecagem, no meio da rua. Saí correndo, corri ali, praça da Liberdade, não sei o quê, e foi assim que eu conheci essas duas figuras aí, né? Bem diferentes um do outro, né? Mas muito amigos e com o mesmo princípio, entendeu? Voltando lá do negócio que eu estava então, a coisa que eu faço que carimbou, entendeu? Que não há como ninguém mudar, porque é inexorável é essa questão. A questão da música, a música da maneira mais ampla. A música com palavras, né? A maioria das músicas que foram compostas nessa época raramente tem uma coisa que era só instrumental. Às vezes, uma coisa que era só instrumental, depois transformavam, tinham, colocavam letra também. Mas houve isso e isso ninguém tasca, porque ninguém planejou, não há como roubar isso. Você pode esconder essa pedra assim, entendeu? Em algum lugar, debaixo do oceano, mas no dia que alguém achar, vai ver que isso foi uma coisa que aconteceu, né? E que acabou formalizando um negócio assim com o mercado, entendeu, enfim, com a mídia. Que até em determinados pontos é discutível porque é uma confusão, né? Quer dizer, a mídia tem uma questão de medida, ela quer sempre dizer uma coisa assim, faz um parâmetro que tudo bem, eu prefiro deixar ela na dela. Eu estou falando da coisa aqui, houve um entorno de uma questão aí. Esse é um negócio que independente qualquer outra história que qualquer um possa falar. Ninguém pode tirar esse mérito, essa coisa daí. É música com muito respeito, muito carinho, muita responsabilidade, sabe, amor. Sabe, o melhor que pode ser feito. Uma coisa assim, criatura, entendeu? Que extrapolou os níveis, que é uma coisa importante que se diga é o seguinte: todas essa pessoas, eu acredito mesmo que todas, pode ter alguma exceção, alguém me lembrar, mas todas essas pessoas tiveram uma formação parecida. Se estudaram, estudaram pouco, entendeu? Estudaram assim formalmente, porque claro que todo mundo tem que estudar a vida inteira e não pode parar assim, aquela coisa, escola e tal, uma faculdade e tal, ninguém. É todo mundo faculdade da vida. É muito ouvir música, é formular uma espécie de teoria, de uma convivência, de um barato assim, com a, entendeu? Uns com os outros, o quê que pode funcionar dentro de um grupo, entendeu? Uma consciência de grupo muito bacana durante um bom tempo, entendeu? E eu acho isso, que todo mundo fez parte de uma escola, entendeu, foi formada aí uma escola. Depois você vê que hoje em dia é um negócio bastante formal, existe por uma facilidade muito grande. Você pega músicos que impressionam muito, porque obviamente talentosos e que têm aquela coisa ali toda escrita, toda dada ali. Ele não teve, ele tem aqui depois dessa nota, vai essa, porque acidente é esse, porque a regra é tal. E as pessoas acabam desenvolvendo a partir daí. Não quer dizer que assim é certo, o assado é errado. Mas é diferente, a gente aprendeu que uma nota não cabia quando tocou, estava e não gostou muito. E aí mudou ela ali mesmo na hora assim. Ela ali mesmo, na hora assim de uma maneira que acabou isso aí formalmente dando, sabe, uma coisa. Não ficou, a música você vê assim, não é muito aquela música muito certinha, sabe? Tudo exatamente no lugar, vamos dizer, a coisa do Clube da Esquina, a formação de uma banda não é aquela banda americana, que é toda precisa. Pan pan pen pon, tudo no mesmo lugar, o Clube da Esquina, essa idéia dessa música que rolou ali, tinha uns catan pan bran, entendeu? De repente rolava um negócio totalmente inesperado. Mas nem por isso virava uma bagunça, entendeu? Existia um conceito ali no meio daquela coisa, não era muito qualquer coisa, e isso, como as pessoas, uma foi fazendo com a outra, foi ali um se ajeitando aqui, outro ali, uma prática musical. Existem pessoas que têm, que tinham já na época, uma prática musical maior. Existiram assim, depois na coisa que a gente vai entrar que é a época da gravação, que aí já vem uma outra turma, não é mais ligada talvez até ao Rio de Janeiro. Músicos profissionais que são importantíssimos, fundamentais nessa questão de Clube da Esquina estética musical, entendeu? E tudo que também participaram de uma cabeça exatamente assim, né, mas a coisa formou-se dessa maneira. 

 

P2- E o quê que tinha tão diferente do que se fazia na época?

 

R- Não é exatamente essa resultante, primeiro que ninguém estava procurando nada diferente, a coisa saía, vamos chamar, diferenciada, não é? Como dizem hoje, por causa disso talvez, uma falta de estudo formal, entendeu? As pessoas, às vezes, invertia um acorde, entendeu? Não sabia como é que era, aí em vez de falar assim, você coloca a terça, a sétima e depois você tira a quarta. A pessoa como não dava muita bola pra isso, pegava um violão lá meio qualquer coisa e fazia um negócio até fazer (palatein?), entendeu? Aí ficava com o dedo meio assim, entendeu? Que acorde é esse? Depois você sabe, é tudo muito simples, né? “Não, é um dó maior.” Mas, entendeu, então por causa disso houve uma diferenciação entendeu? Dessa coisa daí. E depois um negócio que aí me agrada, quer dizer, é uma utopia, que foi a tentar não dividir as coisas, as fronteiras, as barreiras, entendeu, as barreiras. Porque é óbvio, você nasce num lugar você mantém a característica daquele lugar. Você nasceu no interior, você teve uma formação, você mantém. Mas a coisa do limite, entendeu? Aí já vem uma história que foi da fase dos anos de 1970, a coisa hippie que me fascinou muito que é a idéia de não fronteira, sabe? Não fronteira, não ter, porque isso é uma coisa que vai e volta, se você observar nessa época, todo mundo tanto faz como tanto fez. Você vê principalmente o Rio de Janeiro não tinha a menor, o Rio de Janeiro é a cidade mais aberta do mundo. Você chegava ninguém te perguntava de onde você era, se você era mineiro, carioca, baiano, não sei o quê. E te tratavam como um baiano daqui. É o mineiro daqui, a coisa totalmente informal, que era pertinente a um estado de espírito carioca, entendeu? Que tempos em tempos essa coisa no mundo, os limites, as fronteiras são relembradas, entendeu? Porque eu, aqui agora na minha cabeça, acho que muito isso é por causa de dinheiro, entende? O dinheiro é que é uma coisa que às vezes faz essa forçação de barra, porque até ali se é daquele cara, ele está ganhando mais pra fazer isso, entendeu? Pra vender ou não sei o quê, que é não sei de onde, entendeu? Então ele estabelece uma linha ali no meio, o que artisticamente gera uma espécie de uma infelicidade de começar uma discussão, o por quê que tem aquela linha ali, entendeu? Então essa minha mudança pro Rio de Janeiro e o meu sonho de utopia, era ainda mais garoto inexperiente, cheio de amor pra dar. (Riso)

 

P1- Nelson, você veio em 1966 com 16 anos?

 

R- É, 1966, 16 anos eu vim.

 

P1- Sozinho?

 

R- É, vim sozinho. Eu ia pra Bahia, entendeu? Estudar no Conservatório da Bahia, mas aí já tinha a história do Milton ter feito o negócio do festival, entendeu? Que ele veio prá cá, muito meu amigo, a gente sempre teve uma convivência enorme. E outros motivos e tem um negócio aí da minha paixão pelo Rio de Janeiro. Porque o meu pai formou-se aqui na Praia Vermelha, na Faculdade de Medicina da Urca. E todo ano tinha uma festa da turma dele. Cada ano era num estado, foi Minas Gerais, blá, blá, blá e bateu no Rio de Janeiro. Então teve uma festa no Rio de Janeiro, eu tinha 5 anos, vim pra cá, entendeu? Só que quando eu cheguei aqui, quando eu pisei na cidade me deu um, eu falei: “ê, isso aqui.” Me deu um negócio, sabe? Já me deu um negócio esquisito. E além do mais, era uma festa, então foi o quê, uma semana de festa. Acordava de manhã, o pessoal ia pro Quitandinha, dava uma volta em Petrópolis, olhar, passear. Depois pegava uma barca dava uma volta na baía de Guanabara com uma banda de carnaval, serpentina e tudo mais. Então além de eu ter tido essa coisa com a cidade, ainda teve essa motivação. Eu cheguei em Belo Horizonte no dia seguinte, eu cheguei assim meio amuado, entendeu, meio chateado ainda. Engraçado que eu me lembro disso, tinha 6 anos talvez. Minha mãe falou: “Quê que foi, que está acontecendo, você está aí quieto aí?” E fui tentar falar não consegui: “estou com saudade do Rio de Janeiro” e bé, abri a boca. Aí 16 anos, não deu outra, na hora em que eu senti firmeza eu falei: “é prá lá, vou prá lá”. E fui, fiquei três meses na casa de uma tia minha, depois fui morar numa pensão de uma portuguesa lá em Copacabana. Se eu for ficar falando aqui, acho que eu vou fazer o, como é que chama aquele filme do Fassbinder, “Berlin Alexanderplatz”, vão ser trezentos capítulos sobre o negócio meu de Rio de Janeiro. Mas nós vamos falar um pouquinho, né? Então voltando lá no negócio, nós estamos chegando na fase aí que começaram as gravações. Então o Bituca já tinha coisa do festival. Ele já tinha feito um disco pela Codil, com o Tamba Trio, arranjo do Luiz Eça, com o Travessia, com o Morro Velho, com as músicas dele, acho que tem até o Crença, não tem naquele disco? O Crença, ele fez, e é um disco muito bonito e tudo mais. E aí ele começou, a EMI-Odeon, contratou o Milton pra fazer trabalhos lá e obviamente o pessoal que estava perto era esse pessoal dessa sequência da história, aí já o Lô e o Beto naquele momento de maior explosão de composição e tudo. O Milton naquela época estava assim, muito frequentando, não sei se ele já tinha mudado pra Santa Tereza, nessa época que o Milton estava aqui, talvez já tivesse mudado pra Santa Tereza, lá em Belo Horizonte. E aí surgiu, antes desse primeiro Clube da Esquina ainda tiveram alguns trabalhos, que o Milton gravou lá, que tem uma música minha e do Ronaldo Bastos, chamada “Quatro Luas”, tem o ___, Plínio Horta, Sunset Marquis. Tem algumas outras coisas, a gente gravou tudo junto, já era a mesma história. Aí começaram a ser feito os discos, né, os trabalhos começaram a acontecer daquela efervescência que teve lá atrás e aí era material que não acabava mais, entendeu? Aí tinha coisa junto que vinha, música dos Beatles, músicas de outras pessoas, porque sempre esse lado do Milton que foi um lado muito bom assim, acho que pra todo mundo, deu um grande exemplo, o Milton sempre gostou muito de canções, como ele tem o privilégio do cantor, da facilidade vocal e tudo, ele sempre gostou muito de interpretar obras de outras pessoas. Músicas americanas, músicas inglesas, enfim. Então isso aí foi uma coisa mantida dentro da estética que vinha rolando. O Milton também tem uma história muito interessante, vamos dizer até paralela, nesse sentido da minha narrativa com o Wagner Tiso, que é a coisa lá de Três Pontas, dos W’s Boys, que o Wagner deve até ter contado, o Milton também. Eles tiveram, vamos dizer, acho que antes do Milton ter ido pra Belo Horizonte, naquela época. E depois eles tocaram muito. E tinha essa história, o Wagner também tinha essa coisa de Belo Horizonte, tocava em festival. E era uma coisa dos músicos assim gostarem de tocar músicas de outras pessoas, né? Então tinha isso também, e foi juntando. Aí veio uma turma aqui do Rio de Janeiro, de músicos assim, na percussão por exemplo, quem acho que uma figura fundamental que é o Robertinho Silva, que é uma pessoa que vamos dizer, pegou toda essa combinação que já existia, não só entendeu, como transformou isso na área dele com uma generosidade enorme, um músico espetacular, né? E foi uma pessoa assim que fundamentalmente, depois teve até a chegada do Naná Vasconcelos, que também foi uma figura de proa nessa história numa área de criação. Mas assim o Robertinho, ele chegou um pouco antes e ficou um pouco mais em termos cronológicos assim, perto da coisa do Milton e estabeleceu um certo conceito mesmo rítmico e sonoro. É curioso que me lembro assim, eu sempre tive, não é também, não no assunto de tocar, mas idéias pertinentes a isso, a maneira de fazer percussão. Eu sempre na minha cabeça, apesar de não ser percussionista, mas gostar, pelo negócio do tamborim lá atrás. Eu fiz uma certa, eu tinha um certo conceito de usar várias coisas, de mexer, fazer ___ choise uma hora, né? Chacoalhar daqui e dali. E isso pra mim foi muito natural, porque como Robertinho já tinha isso, o próprio Naná também, o próprio Milton gostava dessa idéia, era uma música colorida pelo aspecto de percussão, o que deu assim, pensando bem, as pessoas não faziam muito nessa época isso. Não era uma coisa normal, você usava uma bateria, você usava, mas você não usava uma séria. Vamos dizer, nesse aspecto difere da bossa nova, porque a bossa nova ela tem uma marcação específica mas a sonoridade é uma sonoridade clássica, de um baterista, entendeu? E não tem coisa de percussão, a bossa nova mesmo, autenticamente, da maneira que a coisa foi elaborada, não tem pandeiro, não tem outras coisas chocalho e xequerês e não sei o quê. Ela obedece a uma coisa porque é assim. Eu não estou comparando, estou só vendo a coisa formal. Já nesse outro tipo de música, que é uma coisa que sempre me agradou, independente até de qualquer negócio com Clube da Esquina, ou sem, essas coisas assim, era um pouco dessa desordem, sabe assim, essa desordem rolando, tanto que eu gosto, é uma coisa que me fascina é achar uma nota que normalmente não seria dada ali. Eu sempre até hoje estou procurando uma nota que chega ali no limite entre estar e não estar, entendeu? Até a pessoa diz assim: “se você passar meio tom pra cá e meio pra cá conserta.” Uma coisa de músico. “Tá errado, dá meio tom pra cima, meio tom pra baixo.” Isso muito esperto. Mas eu gosto, eu vou além assim, eu às vezes eu gosto até da nota errada. Eu prefiro uma nota errada relaxada do que uma nota certa de demonstração, entendeu, aquela coisa. “Está vendo, eu estudei isso aqui, está vendo, não dou uma nota errada.” Eu não sou muito dessa escola., minha escola é o cara, às vezes, vamos dizer, eu perdôo certas coisas atrevidas musicalmente, entendeu? Pega uma nota que esteja totalmente dissonante às vezes, conforme ela é colocada ela pode significar um sentido pra aquilo ali. Sabe, você dá um acorde e dá uma nota, A, completamente fora daquilo, mas dentro de um contexto, ela te coloca musicalmente dentro de um contexto mais universal. Você pode ser mais universal musicalmente, porque ela te fala, um, te tira daquele pé no chão exclusivo. Fala assim: “espera aí, mas essa música está andando agora entre os planetas aqui.” É como você estivesse ouvindo o seu radinho, entendeu, num outro lugar e pegando um bonde espacial, e ouvindo o som do espaço e aquela música foi se somando com o universo. Então essa coisa é fascinante, entendeu? Antes de, voltando lá, pra eu não me perder aqui, aí teve assim o Robertinho, aí vieram outras pessoas importantes assim, até por também ter uma amizade grande, o Robertinho, Luís Alves, eram pessoas que tiveram coisas muito próximas ao que eu contei aqui sobre a gente de Belo Horizonte. Óbvio, né, eles vieram se conheceram em Realengo, não sei mais aonde, fizeram um baile aqui, fizeram não sei o quê, foram formando uma amizade, houve essa coisa. Embora às vezes assim entre o formal e a coisa de mercado, de empresários, que sempre é um papo paralelo, né, que os empresários que me perdoem, mas cria uma certa confusão uma hora, que não sei quem, a coisa fica no limite entre a coisa. Então às vezes atrapalha muito essa questão que nos interessa. Mas é um mal necessário, né? Então às vezes um parava de tocar um tempo, voltava, teve umas certas reviravoltas. Mas mesmo assim nada disso conseguiu derrubar. E a coisa no Rio de Janeiro cresceu, depois veio o Novelli. Tiveram músicos muito interessantes que trabalharam. O Novelli também é outra pessoa dessa formação da escola da vida. É um músico maravilhoso, uma pessoa super musical, entendeu? Que também começou a participar dessa amizade.  Depois, e veio um monte de gente, foi chegando, as pessoas foram chegando, foram chegando. E fizeram vamos dizer, uma espécie de um núcleo. Aí já nessa época a gente contava... Me esqueci de falar só do Fernando Brant, né, que eu conheci um pouco depois do Márcio Borges assim, que o Milton falou: “pô, você tem que conhecer um cara que eu conheci aí, da pesadíssima, não sei o quê.” “Quem que é? “ “Ah, o Fernando, chama Fernando.” E eu conheci o Fernando nessa época lá em Belo Horizonte. Uma pessoa super generosa, trabalhava no juizado de menores, o pai dele era, foi juiz de menores lá, então o Fernando trabalhava lá. A gente fazia as mesmas incursões, às vezes passava lá, encontrava com o Fernando lá em baixo. Às vezes encontrava com o Marcinho, os Bigodoaldo’s, os Maletas, né, se quiser pode até depois cortar e depois botar lá naquela história porque é isso aí, porque é uma falha. Eu fiz questão de dizer as pessoas mesmo que eu conheci, não foi quem eu acho que é isso ou que é aquilo. São as pessoas com quem eu convivi. Tanto que tem nesse negócio de clube da Esquina várias outras pessoas mas que naquela época eu não convivi, o Tavinho Moura, o próprio Flavinho Venturini, o Murilo Antunes, entendeu, que veio um pouco depois dessa época, entendeu? Mas eu não convivi nessa determinada época da história. Então voltando ao negócio, aqui no Rio de Janeiro formou-se essa história daí de arredondar tudo. Aí tiveram, veio o Wagner Tiso, teve a coisa feita com o Som Imaginário, que foi um grupo que foi formado assim, com pessoas que eram assim muito pertinentes com essa coisa do Milton, essa coisa de Clube da Esquina, que sempre girou ali. E o Milton com um grande carisma foi somando isso mais aquilo, com outras coisas também, vamos dizer pessoais dele, foi entendeu, fazendo viagens, fazendo esse tipo de coisa. E nesses anos entre os anos de 1970 até os anos de 1980, eu participei de noventa e nove por cento das coisas que foram feitas, entendeu? De todas elas eu estava ali, ou como, ou tocando, ou fazendo arranjo, vocal, entendeu, enfim, aquilo pra mim sempre foi uma coisa de família, entendeu? Foi família, foi a minha vida. Eu não tinha nenhuma, nunca tive nenhuma questão de participar disso, nunca realizei de sabe, de ser, de estar trabalhando para uma outra coisa que não a minha coisa, entendeu? Isso daí, também faço questão de dizer, entendeu? Alma pura cara, entendeu, alma pura. Dentro do que eu consegui na vida, eu não tenho explicações, mas uma coisa eu sei, eu nunca fiz um troço pensando em outro, sabe assim de, não fiz mesmo. Se eu fiz foi inconscientemente, eu posso às vezes ser um grande mentiroso, porque é, todo mundo está sujeito a, não é prá levar a sério assim também não. Mas poderia. As pessoas que mais fascinam que são, né? Você vê são fascinantes, grandes discursos, grandes contas bancárias, entendeu, aqueles microfones maravilhosos em casa, entendeu. Então há uma coisa que eu acho pertinente que se fale sobre isso, mas assim faço questão que seja num nível elevado, porque já que a gente passou tanta coisa não vamos, entendeu, falar sobre isso de uma maneira lá embaixo. Porque a quem tiver que ouvir, se é que o português estiver correto, lá dos Irmãos Maristas, nem me lembro mais, entendeu? Vai ouvir, quem sabe vai raciocinar uma hora e até vai dizer, pô o cara não é bobo, fizeram isso com ele mas ele percebeu, então eu estou fazendo um comentário sobre isso. 

 

P1- Ô Nelson, eu podia só te interromper um pouquinho.

 

R- Várias vezes.

 

P1- Pra te fazer a seguinte pergunta, porque a nossa meta agora, lançando o site com essas histórias em setembro é dedicar um belo espaço pras histórias sobre o disco Clube da Esquina nº 1. Então você que foi testemunha, participou disso tudo você podia contar uma história sobre a gravação desse disco.

 

P1- O que eu posso dizer é que pessoalmente, eu não acho que foi aí que começou a coisa, porque tanto a nossa narrativa já foi muito anterior, a coisa pra mim começou antes. O Clube da Esquina foi um disco muito importante, muito importante, entendeu, como vários outros também. E talvez ele pelo fato até de chamar Clube da Esquina, ele possa facilitar uma localização. “Ah, o Clube da Esquina nº 1.” Entendeu, né? O Clube da Esquina nº 1 na verdade foi aquele (Alka-Seltzer?) pra mim entendeu, foi ali que começou o negócio. Mas esse aí é muito importante sim, e merece inclusive, com vários outros trabalhos merece ser chamado representante. O que ocorreu ali, era uma fase que o Milton andou passando um tempo em Belo Horizonte convivendo muito com as novidades do Lô e do Beto. inclusive fazendo parcerias com o Márcio, parcerias com o Fernando. Tudo naquele universo ali de uma coisa vamos dizer assim, da garotada que até então não tinha participado. E houve um grande entusiasmo assim da parte do Milton em trazer o Lô e o Beto, entendeu, assim, pra essa praia daí, entendeu, pra esses acontecimentos. Então ele os convidou e começou a se fazer ali o disco na Odeon, numa época em que a Odeon era um estúdio, a tecnologia se comparada a de hoje, era uma coisa até engraçada, parecia a lamparina e a luz elétrica, entendeu? Era um estudiozinho ali no centro da cidade, entendeu? No Edifício São Borja, entendeu? Com um elevadorzinho, um prédio meio antigo, até meio velhinho assim já. E um estúdio grande onde você não tinha muito recurso de play-back, sabe? Você chegava, você juntava logo uma turma, tanto que as orquestras iam lá pra dentro. Todo dia que tinha orquestra, tinha cordas, então estava todo mundo lá. Entrava gravava cordas junto com violão, junto com vozes, entendeu? Você podia gravar duas vezes, entendeu, depois passaram pra quatro.  Então duas vezes era o seguinte, era todo mundo ali ao vivo e a cores. Se alguém errasse, para tudo, começa tudo, vamos fazer tudo de novo. E o Clube da Esquina pegou essa época daí, né, de poucos recursos. Então o quê que ocorreu, as composições foram escolhidas ali, né? E houve um revezamento. Acho que talvez seja, dessa época, talvez o único disco que não tenha composição minha, porque foi exatamente feito nessa história. O Milton queria apresentar os dois rapazes, a música do Lô e a música do Beto, a base principal. E com todo merecimento, entendeu? Não preciso nem repetir o que eu já fiquei horas aqui falando, sobre o respeito a isso. Então, o quê que foi feito? Juntou uma turma ali em volta. Aquele estúdio grande, bem grandão mesmo, entendeu? Na época o espaço era mais fácil. Casinha pra bateria, lugar pra não sei o quê, lugar pra isso. Milhares de histórias, né? A bateria tinha uma casinha só prá ela, a famosa casa da bateria. Você chegava lá tinha mensagens enfiadas assim nos pedacinhos de espuma de borracha, você baixava a mão pegava uma mensagem. “Você deu sorte, aqui tem o que você quer.” Entendeu? Qualquer coisa acontecia na casa da bateria. Então, isso é uma coisa pitoresca da história. O clube da Esquina foi feito num clima de todo mundo no estúdio, entendeu? Aí aquela musicalidade, o Beto sentava lá na bateria e tocava uma música. O Lô pegava um violão de corda de aço. Aí o Toninho Horta e eu aqui. Tinha um órgão Hammond lá maravilhoso, entendeu? Cada hora ia um e sentava lá e tocava. As percussões foram, sabe, o cara ia passando, um tocava surdo e o outro tocava não sei o quê. Tudo ali ia formando como se tivesse assim, cada um fazia um pouco do arranjo, entendeu? Participava um pouco da história. E quando havia arranjo formal mesmo, de orquestra, nessa época eu acho que o Wagner chegou a fazer pro Clube da Esquina. O Clube da Esquina tem um arranjo do Eumir Deodato também, né, não estou gagá não, acho que tem, é, um arranjo do Eumir Deodato maravilhoso, é o “Girassol da Cor do Seu Cabelo”, é, maravilhoso. Então eu tive o privilégio, aquilo é igual você um menino feito o nosso querido lá da Mangueira fala, feito pinto no lixo, não é? É pinto no lixo, você chegava ali um monte de instrumento. Violão, viola. A Odeon tinha assim duas guitarras, três violões de corda de aço, dois de corda de nylon, a gente levava os da gente. Aí você olhava pra tudo que era canto tinha instrumento de percussão. Você nem tocava você passava assim tinha um negócio toc, toc, toc, e a música estava rodando de repente chegava, isso está, quando você vê já estava gravado, entendeu? E aquela coisa então é um disco assim de coisas assim, tinha parte de composição, a parte de criação musical na hora e a parte mais formal de música escrita, quer dizer tinha tudo. 

 

P1- Mas era tudo ensaiado ou tudo no improviso?

 

R- Não, nada ensaiado, o ensaio era assim, é claro que pra eles falarem vamos gravar essa música, eles tinham tocado a música algumas madrugadas, alguns dias assim, entendeu? Aí você pode dizer que era um ensaio nesse sentido. Mas ensaio formal, olha três horas não sei aonde nós vamos, nada. E menos ainda o musical, entendeu? Porque quando rolava uma coisa já embasada naquele som que você já tinha uma intimidade com aquilo, as pessoas ficavam experts nesse negócio, entendeu? Tem coisas pra frente que eu fico abismado, músicas tipo do Tavinho Moura. Que assim, as maravilhosas músicas do Tavinho Moura é um acorde, um acorde, um acorde, o negócio vai andando, não para, não para. Eu digo: ”meu Deus do céu.” A gente sentava assim na frente, olhava aquilo ali, olhava, ficava olhando, olhando. Na segunda passada, as pessoas sentadas assim, já estava todo mundo tocando, invertendo o acorde, fazendo outro som, buscando o efeito no instrumento. Quer dizer, foi um trabalho coletivo que aconteceu ali, entendeu? Aí vinha a facilidade do Milton, sabe, as coisas cantadas maravilhosas. Então surgiu aí o Clube da Esquina nº 1, entendeu? E daí já estava vindo, continuou, e foi e não parou mais. Aí o que você poderia chamar de ensaio era muito a nossa convivência, porque os discos receberam sempre o apoio das pessoas da área. Os letristas, vamos dizer, os poetas que fizeram as letras das músicas sempre participaram muito das produções, entendeu? O Marcinho, o Ronaldo, o Fernando. Então sempre todo disco que ia ser gravado, o Minas, o Geraes, entendeu? Outros todos, todos eles dessa época que eu permaneci ainda na história física, eles tinham vários encontros, entendeu? Vários Bigodoaldo’s e vários Maletas, entendeu? As pessoas encontravam diziam: “não porque essa música vai ser assim, vai abrir, não porque.” Aí o Milton: “não, eu quero colocar, vamos ver se a gente coloca um coral fazendo não sei o quê.” Aí o outro dizia: “vamos emendar essa música aqui com aquela outra.” Tanto que você vê, eu me lembrei aqui, o “Simples”, que é uma música e letra minha é a última faixa do Minas, mas tem um solo de bateria do Edson Machado, grande Edson Machado, que tem uma participação maravilhosa. A história é muito rica musicalmente do Clube da Esquina. Eu estou lembrando ele e tem outros participantes assim maravilhosos que passaram de uma vez e deixaram carimbado. O Edson Machado fez um solo de bateria que foi, nessas conversas, Bigodoaldo’s e papos de bar, e olha aqui e olha ali, foi colocado como introdução do “Fazenda” no outro disco. Você termina, prrlll, ele fazendo um solo de bateria e o começo do “Fazenda” é o prrll, entendeu, que vem o água de beber e tudo mais, e ele, entendeu? Tudo isso eram coisas que aconteciam em torno dessas conversas. Como é que vai ser, não era uma coisa bagunçada, era uma bagunça organizada, você entendeu? Tinha uma história, tinha um conceito, o quê que deveria ser com todo naquele momento.

 

P2-  E Nelson, tem uma coisa dos coros, você pega ali a relação de pessoas que cantam no coro enorme, como que era isso?

 

R- Foram generosos, entendeu? Porque até vem de encontro ao que eu penso. Às vezes as pessoas cantam mais simpaticamente do que um cantor num determinado trecho, não que ele vá ser aquele cantor, também não vamos falar isso não, senão vão pensar que ah, então é qualquer coisa. Mas às vezes uma pessoa que nem é cantor, um coralzinho. "ê nã nã,  _____" Fala uma coisinha que fica mais simpático, mais relaxado do que se ___, entendeu? Botar um cantor formal ali prá cantar o negócio. Então houve sempre uma generosidade muito grande. De repente pessoas que não eram cantores estavam ali, mas faziam a massa e tinham a idéia do que era aquilo, não é. Então dentro de um trecho ou de outro, foi colocado determinado tipo de pessoa. Quando era pra fazer um vocal, onde tinha vocalise, notas definida e tudo o mais, aí se procurava fazer com os músicos, com pessoas que saberiam dizer, fazer aquela volta ali, fazer aquele contracanto de uma maneira mais fácil. Que você não vai pegar uma pessoa, de repente que não tenha prática e vai ser até ruim pra ela, colocar numa… Então houve uma generosidade muito grande em todo esse trabalho. Não só nesse trabalho o próprio assunto do Milton, porque ele gosta muito da coisa de voz, de canto, entendeu? Então você vê que sempre ele está, até hoje variando, pega uma turma pra cantar não sei o quê, de repente pega uma pessoa mais velha pra cantar, não sei o quê lá. É uma valorização da sonoridade humana, né? Então houve isso nesse trabalho entendeu? De repente tinham cem pessoas cantando, ___, tinha aquela coisa, às vezes duas, entendeu? Às vezes uma fazia um contracanto, e houve várias pessoas, criaram contracantos em várias músicas, entendeu? Coisas até que depois se misturaram em outras músicas e que relembraram histórias contadas, entendeu, houve um grande, uma grande atenção, até sem querer, nesse tipo de coisa, entendeu. E foi bacana. Pras coisas serem aprovadas também existia um consenso, sabe, se ficasse uma coisa dentro ali, estava bom. Mas não podia sair, embora não houvesse, nunca houve censura de nada, nem ninguém coisa. Mas assim tinha um cuidado pra aquilo sair dentro de uma característica bacana. Eu acho que houve sempre isso.

 

P1- Ô Nelson, você tocou o quê no Clube da Esquina nº 1?

 

R- Tudo.

 

P1- Tudo?

 

R- É, toquei piano, toquei piano, toquei viola de doze, toquei percussão, toquei tudo. É o que eu estou falando, a gente chegava, entendeu, estava lá, o piano estava al. Às vezes vinha um, a gente sempre até distribuiu muito simpaticamente, entendeu? Era uma esperteza malandra, sabe? Era uma coisa assim, às vezes uma pessoa via que alguém ia fazer aquilo ali, estava ali mais na mão naquela hora, sabe? Às vezes era outro. Então tinha um revezamento. Você vê que eu toquei baixo em algumas coisas, Entendeu? O Novelli tocou piano em outras. O Toninho Horta tocou baixo acústico, entendeu? Então tinha, percussão todo mundo fazia, que era uma coisa deliciosa. Juntava aquela turma, né, grandona. Um fazia tum, o outro tché-ké, plin, frrr, entendeu? Isso aí, todo mundo ali ao vivo, pô, era uma maravilha, entendeu? Dava aquela sensação de vida dentro da música, entendeu? A coisa era viva. Você ficava ali respirando aquele som e a coisa era muito, né? E os caras lá do cachimbo lá na indústria lá, o charuto, né? Hum, rô rô rô rô rô rô. (riso) né? É, tem essas, entendeu? Nem todo dia é dia que você pode estar com dois sóis assim na sua frente. Falando sobre isso, porque os caras estão lá pra parecer que você está bobo no mundo, né? "Ah, meu Deus, coitado”. Talvez a nossa época tenha sido mais leve isso aí, porque agora os meninos sabem disso muito cedo. Acho que a grande diferença dessa época dos anos de 1970 pra agora pra 2000, entendeu? Que eu, graças a Deus estou vivendo aqui agora, não estou, é essa um pouco, a gente era mais, meio que, “ah tá Papai Noel não existe, mas Papai Noel larga ali (riso) um negócio.” Agora é muito duro, entendeu? Os meninos dizem assim: "olha bicho, Papai Noel não existe." Acabou ali, por ali, michou aí, o cara já fica, como é que é, quê que tem que fazer, como é que eu vou fazer. É mais complicado. Então.

 

P1- Como é que foi a repercussão do lançamento do disco?

 

R- De qual disco.

 

P1- Do Clube da Esquina nº 1, os shows?

 

R- Olha, nós fizemos umas quatro ou cinco grandes turnês com o Milton, Brasileiras, fora as que tiveram lá fora. Eu fui uma vez pros Estados Unidos com ele e foi numa época que já, depois disso, eu não sei se vai dar tempo da gente chegar lá. Mas depois disso eu já fisicamente não estava. Mas essas grandes turnês foram assim tipo Brasil inteiro sabe, teve muita viagem, teve muita coisa, sabe? Eu me lembro mais das turnês, na verdade, o primeiro Clube da Esquina, eu acho que teve o show que era com o Som Imaginário, se não me falha a memória, que eram as coisas do Teatro da Lagoa, esse teatro aqui na Lagoa, Teatro da Fonte da Saudade. Eu dei canja, porque como eu tinha gravado, fui, toquei. O Tavito tocava, eu me lembro bem disso. O Toninho Horta, nesse show que era mais participação do Lô e do Beto eu dei umas canjas lá. Era perto da minha casa, eu morava aqui no Jardim Botânico. E não teve assim grande turnê, tá? Foram apresentações, talvez tenha tido algum programa de televisão, algum negócio, mas era Milton Nascimento e o Som Imaginário. E coisa e tal, não teve. O que eu me lembro que começaram as grandes turnês do Milton, foi a partir do Minas. Aí virou assim coisa grande, entendeu? Era viagem, começava geralmente aqui no Rio de Janeiro, tinha ou o Maracanãzinho ou lugar grande, não sei o quê. Aí saía São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Norte, Nordeste, Sul inteiro, entendeu? Eram viagens assim, enormes. E parecia uma coisa assim de Beatles, entendeu? O que eu me lembro assim é que formou-se uma estrutura em torno disso, não é, que era grande estrutura, era uma coisa big, era uma coisa mesmo pá, sabe, que tinha assim as coisa todas necessárias para uma grande turnê. Transportes e afins e equipamentos e os shows não era pra menos de cinco mil, dez mil pessoas nunca era, sempre coisa grande. E eram shows assim que eu, não raras vezes, várias e várias vezes, entendeu? Da mesma forma que ouvi da boca do Milton Nascimento, várias vezes na minha vida ele dizer pra mim que eu era o melhor amigo dele, eu ouvi pessoas falarem que nunca tinham visto uma vibração igual aquela, era uma loucura, nem show de Beatles que tinham assistido, nunca tinha tido uma coisa, uma sensação tão maluca, entendeu, nem Rolling Stones, entendeu, do que aquela coisa. Isso eu ouvi, porque na verdade eu estava concentrado em outros negócios, eu estou contando o que me falaram. E não foi, nem duas, nem três, milhares de pessoas. Nunca vi um negócio desse na minha vida, o palco tremia, entendeu? O pessoal pulsava e era engraçado porque como a época não era muito um frenesi que hoje em dia tem um pouco, que é assim, as pessoas ouvem um som e estão precisando extravasar mesmo, porque a vida está complicada. Não quero entrar nesse mérito da questão, pulam muito, não sei o que lá, tinha uma coisa mais contida, mas era uma pulsação conjunta, você sentia que um sim pesado era ouvido por uma pessoa em posição de lótus, entendeu? Era uma coisa e ao mesmo tempo aquela pessoa dançava junto e todo mundo parecia que estava  muito concentrado no que estava acontecendo ali, entendeu? Não era muito jogar pra platéia, você jogava pra platéia o seu coração, o seu negócio, não era querer fazer um charme na história não, entendeu? Era uma coisa religiosa, entendeu? Essas turnês do Milton pra mim era assim. Tinha lugar de vinte mil pessoas, entendeu, e uma coisa rapaz parece que você ficava assim totalmente numa outra esfera. Houve muita dedicação, houve muita coisa bacana, entendeu, eu acho que ali naquele momento e em vários outros houve uma vitória da, não sei se a palavra é essa, da arte, entendeu,da música, sabe? Não conseguiram entrar ali no meio e fazer aquela coisa, né? Quando eu era menino, a primeira vez na minha vida - eu me lembrei, que hoje eu tenho altas discussões com isso, porque existe um exagero na minha maneira de pensar - eu era fã do Ray Charles quando eu era garoto, lá em Ponte Nova, ouvia-se muito Ray Charles e tudo mais, e eu tinha uma ideia daquilo na minha cabeça. Um dia eu abri a revista e estava assim, Ray Charles usa fitas Scotch. Foi a maior decepção que eu tive na minha vida, naquela época, naquele dia ali, eu falei: "o Ray Charles está fazendo anúncio de fita de gravador?” Eu posso estar falando uma grande bobagem, mas isso não me soa bem, não me soou o ideal, depois é que eu vi que as pessoas têm que sobreviver, não é? Você não pode, a fitas Scotch deve ter dado ao Ray Charles um piano, mil trabalhos. Mas eu era radical, na minha cabeça não entrava isso. Arte era arte, entendeu?O mercado e o homem do charuto era uma outra história, tudo bem você fica aí, que me deixa aqui, entendeu? Eu quero passar isso aqui mas não interfira. Olha a inocência total, inocência total. É querer viver, é a coisa da juventude, né, dá até uma ansiedade, você achar que você vai conseguir passar por cima disso, quando depois você vê que, como?

 

P2- E as suas experiências nos festivais, Nelson?

 

R- Festival, eu vou te dizer, eu não gosto de festival. Não gosto, eu sei que festival é importante, que faz as pessoas... Eles justificam, a justificativa pro festival é que deixa as pessoas aparecerem. Deveriam deixar as pessoas aparecerem de outra forma, sem festival, porque música não é, sabe? Música não que é o melhor, qual que é a música. Música não tem esse peso, entendeu? Tanto que você está almoçando você não vai ouvir uma escola de samba, entendeu? Depois você está dançando você não vai ficar ouvindo uma balada de Ravel, entendeu? Então como é que você vai botar num mesmo lugar um monte de música, o quê que você vai dizer, "mas essa comunicou mais." Você pode construir com isso vários assuntos interessantes, entendeu? Como é que uma canção pode ser comparada com um samba. "Ah, mas todo mundo pulou na música de fulano e nessa daqui ninguém fez nada, ficaram até falando." Você ouve num festival uma coisa dessas.  Mas dia assim, mas o quê que é melhor, qual é o primeiro lugar? Eu sou contra esse conceito. Sempre fui, tanto que devo ter tomado outra cacetada por causa disso. Porque o negócio do Bituca foi curioso, porque quem inscreveu as músicas do Bituca foi o Agostinho do Santos, entendeu? Ele já pegou uma coisa, porque aquilo era inevitável, entendeu? Se acontecesse ali no festival aconteceria, se não, teria uma outra maneira, porque na verdade sempre tem, quando há uma generosidade da coisa, o próprio astral vai se formando e conspira de uma certa forma, você acaba aparecendo. Então a grande desculpa é que não, mas o festival faz as pessoas aparecerem, que é prá poder aparecer o patrocinador, entendeu, que é prá poder haver um domínio do sistema maior, não é? Quer dizer, o sistema é que bota você. Você é um escolhido, entendeu? Você é um jovem hoje e está lá, é porque você foi escolhido por isso. Mas para você ser escolhido por eles existe um conceito deles, entendeu? Qual é a pessoa pra ser escolhida, é aquela que tenha isso, quer dizer, a política existe, é uma coisa, não tem como você fugir disso. E eu particularmente, né, não sei nem, ainda não posso andar no ônibus de graça mas estou quase, entendeu? Então talvez eu possa falar isso agora e não me prendam na saída daqui, mas existe um interesse do sistema, entendeu? Que é meio que uma mentira, entendeu? É meio que uma mentira, porque como o sistema não consegue gerir uma qualidade de vida pras pessoas, não consegue te dar condições pra você pegar o seu dinheiro, você assistir a música que você bem entender, e ver o filme que você bem entender, o teatro que você bem entender, no lugar que você bem entender, existe um controle dessa  história, entendeu? As pessoas não são nada burras, a gente, as pessoas, os outros, não entendo como é que isso, aquele buraco está ali na esquina, não entendi como é que não conserta. Chega uma hora que você diz, como você não entende, por causa de dinheiro, entendeu? Porque aquele buraco está dando dinheiro pra um monte de gente. Então como não há essa possibilidade, começam a fazer como se fosse pão e circo, entendeu? "Não, nós da tal somos maravilhosos." Entendeu? São mais importantes do que os artistas, a vez deles está bem a frente, se chegar algum artista lá e falar alguma coisa que venha a triscar, entregar um negócio que pra eles não seja uma coisa, que pra eles seja útil, ele está fora. Ele está fora em vários níveis, ele está fora até a nível de se começar a falar muito, é capaz até, vamos dizer, não vamos enlouquecer totalmente, mas é capaz até dessa pessoa desaparecer. "Cadê fulano?" "Não sei, cara, olha nunca mais eu vi." A estrutura do mundo é essa, parece que o pecado original, a questão do ser humano, essa questão todo mundo tem que viver, querendo ou não, o cara não pode pedir pra descer, eu estou sentindo até sua cara um pouco cansada com o que eu estou falando. Uma coisa, não dá pra falar assim, para o mundo que eu vou descer, é uma coisa que o ser humano é obrigado a encarar isso, entendeu? Não dá assim pra você falar, é o sonho. “Não, agora eu vou morar no interior, numa casinha, numa choupana e vou”. Primeiro que você precisa muito dinheiro pra fazer isso, depois que você não consegue que o mundo vai lá dentro da sua casinha e acaba com seu sossego, entendeu? Vai, porque o ser humano é assim, entendeu, você fala assim: “não, mas tem um vizinho que é o cara mais chato do mundo”, entendeu? Você fala assim, “vou sair da cidade grande porque a cidade está me tornando…” Chega lá no meio do mato tem aquela pessoa que todo dia, pe pe pe, bate na porta da sua casa, começa a dizer assim: “porra eu vou voltar pra São Paulo, por que isso aqui eu achei que era roça, mas não é, São Paulo é aqui”. E o cara já te pega logo pra você falar das coisas que você saiu correndo de lá, entendeu? Então o mundo é globalizado, né, acabaram com a história. Então globalizaram, quer dizer, o efeito borboleta, então agora, acontece aqui, vai o cara do mercado chinês, não sei o quê, você não sabe mas aí aquele show que você ia fazer, você não faz mais porque o mercado chinês e o mercado de Nova Iorque, a bolsa. Tanto que agora em vez do músico olhar a coisa ele vai olhar a bolsa, né? Todo dia o músico se quer saber se vai ter show pra ele tem que olhar o resultado da bolsa, porque se a bolsa está subindo, ele fala: "Ih, vai rolar um projeto aí." Alguém, vai aparecer com um projeto, não é? A coisa é essa e existem assim os diversos são variados, por exemplo pra você ver quando eu me mudei pro Rio de Janeiro, continuei com a mesma sorte da história de conhecer pessoas de diferente locais, diferentes pessoas. Tive assim a honra, sabe, de continuar assim, já fui de cara, olha que eu já era amigo do Milton Nascimento que eu chamava já de Bituca, cheio de intimidade, o cara assim: “o Milton, o Bituca, como hem?” “Não, Bituca, meu amigo”, já era. Então eu gostaria de falar um pouquinho dessa coisa daqui. Mas assim, eu vou pedir assim, cinco minutos para os nossos comerciais.

 

[pausa]

 

P1- Bem Nelson, voltando dos comerciais, eu queria que você contasse um pouco da sua participação no disco Minas no qual você grava a sua composição “Simples”.

 

R- O Milton morava na Barra da Tijuca, na _____ ____. E a casa dele era o centro das reuniões, né, subversivas, sobre como é que ia ser esse trabalho ou outro, essa coisa toda. E a gente frequentava ali de uma forma  religiosa, entendeu, ia todo mundo que participou desse trabalho. Tinha ali uma sala com um piano, contrabaixo e violões, aquele mesmo ambiente de sempre, de música. E o disco foi planejado ali, né, com as coisas que Milton achava que deviam ser pertinentes àquele trabalho. Foi, as coisas foram um pouco distribuídas, assim: quem tocaria, quem seria convidado pra fazer arranjo. E nessa música minha que foi escolhida, foi uma música chamada “Simples”, a primeira música do disco seria uma música  do Novelli, chamada “Minas”. E a última música seria o “Simples”, desse trabalho. E foi feito ali um roteiro em cima disso, com as músicas que o Milton queria cantar, a música lá em homenagem a Leila Diniz, as coisas todas que tinham ali, Paula e Bebeto, me parece. Que eram coisas assim, que o Milton tinha assim, vamos dizer, naquela fase de ter feito, a coisa nova que o compositor sempre gosta muito, se empolga bastante com a coisa mais recente, né, que está ali, então era o Paula e Bebeto. Tinha até o Caetano, assim, que também gostava da música, cantava não sei o quê. Então ele foi elaborado ali e continuou o que eu já contei aqui. No estúdio foi exatamente aquela mesma história, foi chegando gente e foi, eu não me recordo aqui se é no Minas que tem a participação da

Mercedes Sosa ou se é no Geraes, né?  É no Geraes, é.

 

P1- “Volver a los Diecisiete”?

 

R- É, é “Volver a los Diecisiete”. Então, mas aí no Minas também teve muita participação, teve muita coisa e o esquema de estúdio era o mesmo. Ele ficou ali, entendeu, as pessoas chegavam, um tocava um baixo aqui, o outro fazia uma percussão, um vocal. E foi passado assim. E foi gravado também ainda no São Borja, ali no estúdio da EMI, da Odeon. Foi um disco assim, que começou a partir dele as turnês começaram mesmo a pegar o pique de grandes turnês. Foi assim, ele foi elaborado assim, numa sequência muito interessante com o Geraes. Agora tem uma coisa engraçada que está vindo na minha cabeça aqui, o Milagres dos Peixes é posterior?

 

P1- Não, o Milagres dos Peixes é de 1973.

 

R- É, é por isso que me deu uma certa confusão aqui, é que a gente pulou, né? O Milagre dos Peixes, que foram trabalhos incríveis também.

 

P1- É, a gente tinha pulado por causa de pegar sua composição.

 

R- É, não, tudo bem. Mas aí fica registrado que a gente está ligado nisso. Então, aí a sequência do Minas foi o Geraes, né? Porque já era mesmo aquela historinha, né? O Minas tem histórias até pitorescas, assim, que era o negócio de Milton Nascimento, né? Teve uma pessoa que percebeu isso, né, que teve até alguns jogos assim interessantes. Então ficou Minas, Milton Nascimento, Minas, aí virou Minas Gerais, aí subdividiu Minas num Geraes, quer dizer, foi um trabalho meio, se fossem duas coisas interligadas, né? Com duas turnês, com os mesmos esquemas, né? Arranjadores também. A parte criativa, a parte de produção, o quê que ia ser, a parte criativa de estúdio e a parte mais formal das orquestras, que aí tinha orquestra no estúdio, tudo escrito. A orquestra tinha que ser escrito, né? Eu fiz arranjo, acho que o Toninho Horta, o “Beijo Partido”, tem arranjo. A minha faixa o “Simples” é arranjo meu, de cordas. E aí acho que o “Carro de boi”, acho que é de uma outra, já é do Geraes, né? É o Geraes então, o “Carro de Boi” a gente fez o arranjo assim conjunto, que era uma forma do Milton tocar o “Carro de Boi”. Já desde Belo Horizonte ele cantava, sempre gostou muito. Uma música em parceria, a letra é do Cacaso. Uma música do Maurício Tapajós, a letra é do Cacaso que eu não sabia que a letra era do Cacaso. Fiquei sabendo anos e anos mais tarde, né? Que era o “Carro de Boi”, que Os Cariocas tinham gravado. O Milton sempre gostou muito da música. Já era uma escolha dele e a gente acabou fazendo um arranjo pra orquestra junto ali, né? Eu, o Milton e o Novelli. Nós fizemos assim a três mãos, cada um deu uma idéia de uma frase, eu escrevi. Mas foi feito dessa forma. E foi muito parecido o trabalho, porque é uma sequência o Minas e o Geraes, eles são ali. Depois veio o Clube da Esquina...

 

P1- Não, vamos falar um pouquinho do “Fazenda”?

 

R- Do “Fazenda”, pois é, o “Fazenda” é no Geraes, né? Ele foi escolhido, o “Fazenda” para começar o Geraes. Uma coisa pertinente, né, bastante pertinente. O “Fazenda” é uma coisa curiosa porque tem umas coisas assim sobre ela, engraçadas assim. Primeiro, ela foi assim, um grande sucesso no meio, entendeu, assim todo mundo que ouviu. Foi uma música que eu fiz muito rápido, entendeu? Geralmente, eu tenho umas músicas que eu faço assim, ____. Eu até falo, penso que não é minha, porque falo assim: "Uai, será que eu fiz mesmo isso aqui? Eu não posso esquecer", não sei o quê. Daí a pouco eu vejo que tinha feito. Parece que eu já sabia meio assim, entendeu? Letra e música tudo de uma vez, e o “Fazenda” foi um negócio assim. E ela fez muito sucesso, todo mundo que ouvia “Fazenda” dizia assim: "essa música é minha.” Entendeu? Isso me criou um problema engraçado porque, olha só, foi o Bituca, foi Fafá de Belém, Simone, Caetano Veloso, entendeu? E foi engraçado porque o Bituca, engraçada essa história, ele gravou a música, eu acho que a Fafá já tinha gravado. Mas aquela história assim, não sei nem se eles vão gostar desse comentário, mas é pitoresco, uma coisa engraçada, normal, coisa humana, né? Primeiro que o Bituca quando canta uma música fica muito complicado pra outro intérprete, né? Geralmente tem aquele medão, né, porque aí, não essa gravação aí imagina como é que é. Então, ele não se, não tem importância outra pessoa ter gravado, mas às vezes os outros ____. E com isso, acho que a Fafá já tinha gravado, ele não se importou, gravou porque era, fazia parte mesmo, o “Fazenda” tinha tudo a ver com o assunto que a gente estava lidando ali, que é o negócio de Minas Gerais. Ele gravou, mas aí, eu perdi outras gravações.(Riso) No caso, assim a Simone tinha gravado mas ficou assim: "ih, mas todo mundo gravou." Aí o Caetano também ia gravar, mas falou: "mas o Milton gravou, como é que eu vou gravar." E eu fiquei lá. "Mas que coisa, perdi uma oportunidade por excesso de sucesso da música." (Riso) É engraçado isso. Então ela foi gravada assim, foi uma gravação que fez muito sucesso. E as pessoas pensaram durante muitos anos que a música era do Milton, entendeu? Eu já me, já teve shows assim de eu cantar a música, assim, às vezes num lugar e a pessoa falar assim: "Ah, bacana, cantando aquela música do Milton." (Riso) O “Fazenda”. Mas é normal, vamos dizer, a gente tem que ter uma compreensão pra isso porque é assim mesmo, o quê que vai fazer, né? Ele representou isso muito bem, ele deu, vamos dizer, uma visão muito grande, muito popular pra essa história. E várias pessoas, depois até que, depois de brigar bastante. "Não, a música é minha." Música, letra e arranjo. Eu fiz o arranjo, que por outro lado vai justificar também aquilo que a gente estava falando anteriormente, está tudo interligado. Eu escrevi arranjo assim de atrevido, entendeu? Aprendi um pouquinho lá de solfejo. Sou péssimo em teoria musical, entendeu. Vou lá contando no dedo. Ta a ta ta tá, ta ta ra ta ta, entendeu, ta,ta,ta, conto, escrevo precariamente, mas eu tenho um atrevimento entendeu? Como eu não estudei, não sei nada formal, eu também acabei reproduzindo determinadas situações, que ficaram, as pessoas acharam muito interessante. Depois falaram até como assim, uma forma estética de arranjo, entendeu? Gostaram muito do arranjo do “Fazenda”, fez muito sucesso. Eu já fui citado por causa dele por pessoas que fizeram cursos de arranjador e tudo mais. É. Nos Estados Unidos e tudo. Várias pessoas citaram como um dos arranjos mais criativos, entendeu? Em coisas inusitadas, entendeu, que é criatividade harmônica, passagens diferentes. O fato, às vezes de você não saber e levar jeito pra coisa, faz aquilo ficar, entendeu, vamos dizer meio até, meio original, numas, né? Porque na música tudo se transforma, não tem essa coisa, ninguém é tão original. Então a gente mexe com, né? A respiração muda daqui, dali, mas vai repetindo. Então essa coisa daí, essa história aí. Eu participei aí como arranjador, participei como músico. Eu participei como tudo, entendeu, ali e como na turnê também, entendeu? Onde foi uma turnê que o Bituca me convidava pra cantar. Eu fazia lá, eu cantava o “Tiro Cruzado” e cantava o “Canoa” como convidado lá, entendeu. E o Lô cantava também, e o Flávio Venturini também viajou bastante com a gente nessa turnê daí.

 

P1- Da turnê do Geraes?

 

R- Do Geraes, é. O Novelli também, e várias pessoas tiveram uma participação, foi uma coisa bem comunitária esse disco, bacana.

 

P1- E Nelson, o próximo trabalho vai ser Clube da Esquina nº 2, em 1978?

 

R- É, acho que sequência é isso, foi o Clube da Esquina nº 2. Onde aí já expandiu, né, essa história. Na verdade pra mim, isso tudo é uma coisa só. Nunca teve duas, três, agora. E sempre continuou sem um planejamento de nada, entendeu? O Clube da Esquina nº 2 apenas expandiu um pouco porque aí vieram mais agregados. Pessoas de fora, amigos que o Milton já tinha feito. Grupos sul-americanos, teve a Mercedes Sosa, Elis Regina. Enfim, já entrou uma gama, outras pessoas mesmo. O grupo Azymuth já entrou. Vários percussionistas e São Paulo, entendeu? Músicos de São Paulo, do Rio. Quer dizer, cresceu a parada de participação, né? Teve muita coisa que foi feita assim dessa maneira, de músico que o Milton já tinha conhecido os Estados Unidos, nas turnês, entendeu? Aquilo tudo foi sendo somado e teve a grande turnê, talvez a mais recente que eu tenha participado que foi a turnê do Clube da Esquina nº 2. Foi uma turnê enorme, entendeu? Também na mesma base, trinta mil, vinte mil daqui, vinte e cinco mil dali. Era gente que não acabava mais, entendeu? Muito sucesso, muito bacana. E a gente formou grupos assim, dava pra viajar com uma boa de uma orquestrinha, entendeu? Cordas, flautas. Aí tinha assim, o Jaquinho Morelenbaum participou do naipe de cordas, o Paulinho Jobim, o Danilo Caymmi, entendeu? Houve uma, entendeu, a banda aumentou, entendeu? Nesse disco, o Clube da Esquina nº 2 teve a participação de várias cantoras. A Joyce participou. Enfim, o Boca Livre, entendeu? Um monte de novidades, vamos dizer assim, no sentido de estar na mesma turma, né? E foi assim a turnê mais recente que eu fiz. A partir daí, vamos dizer, continua valendo tudo que falei, mas eu não tive mais o mesmo tipo de contato, entendeu, físico com essa história. Mesmo assim, até com o próprio Milton, entendeu? Porque aí ele mudou de gravadora, saiu da EMI foi pra um selo novo que eu não recordo aqui o nome, enfim, que aconteceu, a [Gravadora] Ariola, talvez, né, não sei o quê. E aí começaram outros trabalhos, ele já fez outras coisas. E sempre tinha, as pessoas vinham falar comigo com o negócio de comparações e tudo. Eu dizia: "Ah, não me faça isso, não me leve para este universo, eu não quero saber disso não, está ótimo, entendeu, vamos em frente.” Comparar que aquilo ou que aquilo outro. Então foi, pó, o trabalho sempre teve o Milton que é uma pessoa que eu tenho a maior admiração, mas realmente eu perdi o contato. Eu continuei me encontrando por questões de continuar a compor com o Fernando Brant. Nós fizemos uma turnê dos Estados Unidos que foi meio na mesma época desse negócio do Clube, que a gente gravou um disco chamado Journey to Dawn, que foi feito em Los Angeles, eu participei, a gente, foi um disco. E altas história, a gente viajou muito. A gente fez assim, conhecemos pessoas interessantíssimas. Acho que o Milton me proporcionou assim, porque ele era o convidado, não era eu. Ele proporcionou uma oportunidade de conhecer músicos maravilhosos. Eu fiz boas amizades também.

 

P1- Que músicos você conheceu?

 

R- Ah, fiquei do Wayne Shorter, entendeu,? O Wayne gostou muito de mim, falou: "Esse mineiro aí." Mandou me buscar em casa, lá no hotel, às vezes, entendeu? E cismou com o “Simples”. E o maior fã do “Simples” é Wayne Shorter. Aliás não gravou, ele ia gravar no próximo. Está tudo certo, nunca gravou. Mas ele, nós furamos um LP na casa dele, né? Ainda a Ana Maria estava viva nessa época, ele morava numa casa muito bonita. Aquelas casas de Los Angeles, mandaram me buscar em casa. Fiquei super honrado, mandaram sei lá, um carro, me pegaram no hotel. Eu fui, passei uns dois dias lá. (Riso) A minha visita demorou dias. (Riso) Aí, aí. Fiquei lá e ouvimos. Aí quando chegou, aquele olho arregalado, assim: “Nelson, Nelson." Aí pegou o disco, botou assim, nós ficamos assim uma noite inteira, ouvindo “Simples”. Ele olhava: "Mas Nelson..." (riso). Pegava o ___,tá, botava de novo, a gente ouvia. E o Milton que me permitiu conhecer assim, naquele momento essas pessoas. Depois também, não tive muito contato, não, não voltei muito mais lá. Voltei de uma outra forma. Mandei trabalhos meus e tudo mais.

 

P1- E como é que você continuou a sua carreira?

 

R- A minha  carreira, eu aí paralelo a tudo isso, quer dizer, voltando aquela história do meu fascínio pelo Rio de Janeiro, eu sempre tive um outro lado. Porque veja bem, o negócio de Clube da Esquina ficou mais localizado a uma coisa profissional, prática. Não tinha mais aquele tipo de encontro tão feito, que nem era em Belo Horizonte, que era full time. Era assim, o dia inteiro, o dia inteiro. Então aquilo era mais na hora dos shows, das produções dos discos, não sei o quê. E eu aqui no Rio de Janeiro, vamos dizer, desenvolvi um outro círculo de amizades, entendeu? Eu fui, nos anos de 1960, a convite da Márcia Rodrigues, eu fui, a Márcia tinha uma ligação com o pessoal de Belo Horizonte, uma amiga chamada Mercedes, que é muito minha amiga. Uma figura deliciosa, que eu até perdi o contato com ela. Mas assim, ali a Mercedes, a Márcia era amiga da Joyce, morava em Copacabana, eu morava numa pensão ali, da Dona Margarida, em Copacabana, na Francisco Sá. E a Márcia Rodrigues me convidou e convidou a Joyce pra gente fazer uma visita ao Tom Jobim. E desde esse dia, dessa visita ao Tom, eu fiquei muito amigo dele. E ele gostou, ele teve uma coisa muito parecida ao que o Milton teve comigo, uma reação muito favorável, entendeu? Quando ele viu assim a minha possibilidade até meio desorganizada, meio de garotão ali, eu tinha, sei lá, uns 16 anos, entendeu? Ele ficou assim fascinado. O Tom fez coisas comigo que eu não vi ele fazer com muita gente, a não ser com o Vila, entendeu? Pessoas mais, que ele veio de uma formação dessas pessoas. Gente que era abaixo dele nesse sentido de geração, ele não assim, grandes colher não. Ele falava...

 

P1- Não, e você o conheceu então logo na chegada, garoto?

 

R- Dentro da casa dele, é, ainda mais por cima. Daí eu comecei a frequentar a casa do Tom Jobim, entendeu? Aí eu tive muito mais contato com o Tom do quê com o Milton.

 

P1- Sei.

 

R- Eu frequentei de almoçar, tomar cerveja. O Tom falou: "Ah, você, quero que você seja amigo do meu filho, do Paulo." Eu não conhecia o Paulinho.  "Eu quero que você, ah, vocês vão ser amigos. Pô, meu, espera aí," e coisa e tal. Aquele jeitão maravilhoso. Me recebeu muito bem dentro da casa dele. Eu frequentei assim durante anos a casa mesmo. Almocei, jantei, só não dormi lá assim, formalmente como convidado. Porque nessa época eu rolava de um lugar pro outro. Mas lá era uma família organizada. Acabou que eu fui morar com o Luiz Eça, que era ali perto, no canal do Leblon, aqui na Visconde de Albuquerque. O Luizinho me convidou pra morar na casa dele. Então é outra pessoa importantíssima na minha vida, entendeu? Que era lá perto. Eu, quando morava no Luizinho, eu frequentava a casa do Tom, entendeu? A Teresa super generosa, entendeu? Assim, convidava os amigos. E o Tom tinha uma coisa assim que ele gostava muito, ele era muito sociável, gostava muito que as pessoas fossem, frequentassem a casa dele e fizessem o círculo de amizades. Ele preferia, por exemplo, aquele tipo de pai, "Não, se é pra tomar cerveja, vamos tomar todo mundo aqui, eu também", sabe. Ele participava, ficava ali, porque gostava mesmo do lance, do quê o pessoal ir pra rua, não sei o quê. Então ficava sempre combinado que a casa do Tom tinha sempre uma cervejinha, entendeu? Que tinha sempre um som rolando e que tinha uma sala lá que dava o maior pé, dos meninos juntarem, entendeu, e ficar estudando, vendo partitura do Ravel, olhando, estudando assim, informalmente. A gente imitava João Gilberto, entendeu? A gente tirava os acordes que o João usava e tocava muito, inventava música, fazia tudo, rock and roll. Aí era a época hippie, entendeu? Era uma coisa bem bacana, uma liberdade de cabeça. Aí rolava aquela praia de manhã no posto 9, entendeu? Aí eu já tinha mudado da pensão da dona Margarida aqui. Todas essa coisas que eu estou falando rápido, são capítulos à parte. Porque a própria pensão da dona Margarida, eu fiz uma amizade na pensão da dona Margarida, que eu chamava o cara de Raulzito, que era amigo de dois outros baianos, que era o Carleba e o Eládio, que moravam, dividiam o quarto comigo. Era um quarto pequenininho, a gente pra chegar numa cama tinha que pular um por cima do outro. Era uma confusão danada. E de vez em quando dormia um cidadão lá chamado Raulzito, que tinha um negócio chamado Raulzito e os Panteras, lá em Salvador. 

 

P1- Pensão que aparecia o Raulzito, né?

 

R- É, a pensão da dona Margarida era uma coisa formidável que fez parte, eu me lembrei por causa do Tom Jobim, que tinha: levanta cedo, não tem café, não tem dinheiro, só anda a pé. Como vai você? Como vai você? Como vai você? Vai bem, não é? Dar pra se ver que a sua vida é boa pra valer. Entendeu? Essa música, quando eu mostrei isso pro Tom, virou um sucesso pra ele. Virou um sucesso, ele encontrava comigo, _____"levanta cedo, não tem_" E ficava fazendo arranjo pra música, entendeu? Então teve uma fascinação que era a mesma coisa do Bituca, que falava: "compositor, __compositor." Eu tive a mesma sensação. Como eu tive também com o João Gilberto, como eu tive com o Dorival Caymmi, entendeu? Todos eles por uma razão ou por outra, foram assim, muito iguais com relação a minha pessoa, já me abraçaram assim. Eu fiquei mal acostumado com essa história, entendeu? É, porque veja bem, eu não estou falando de qualquer um que olhou e falou: “ih esse cara é demais”, eu estou falando os nomes mais importantes, entendeu da...

 

P1- Como é que você conheceu o João Gilberto?

 

R- O João Gilberto foi no México. Foi depois, só queria terminar o negócio do Tom, vamos pegar aqui, porque o tempo, né? Eu queria fazer um filme que nem o Berlin Alexanderplatz, oito horas logo, né? Mas eu entendo isso. Então pra ser mais objetivo, né? Na dona Margarida, eu conheci um sujeito chamado Raulzito, né? Que de vez em quando dormia lá. O pessoal que tocava com ele era meu  companheiro de quarto. Um ano depois, eu já morava no Solar da Fossa, que é um outro lugar também interessantíssimo, que é uma outra história. Eu cheguei na PolyGram um dia, estou ouvindo uma gritaria, um som __: "Eu nasci a dez mil anos atrás." Eu olhei aquilo e falei: "meu, quem é que esse maluco que está ali berrando, esgoelando desse jeito aí?" Abri a porta do estúdio, porque eu já era músico, íntimo, gravava lá todo dia. Me convidavam, me chamavam. Gravava profissionalmente e copiava ____ do Luís Eça. Enfim, me virei de tudo que foi jeito. E quando eu olhei eu falei: "Raulzito, mas o quê que você está fazendo aqui?" (Riso) E era o Raul Seixas, grande amigo meu, entendeu? Ficou horas e horas. Depois anos mais tarde, a gente se encontrava, ele parava o que estava fazendo, entendeu, ele falava assim: "Mas Nelson, mas Nelson." A gente ficava horas e horas, eu esquecia da vida, eu ficava conversando horas e horas. Passamos várias peripécias. Eu tive altas histórias com o Raul Seixas. Inclusive dele dizer assim: "eu quero produzir um disco seu." Isso a gente já tinha assim tomado umas cervejas a mais, essa coisa e tal. "Eu quero produzir um disco seu." Não produziu nunca. (Riso) Eu dizia: "claro Raul, você pode produzir um disco meu a hora que você quiser, pra mim vai ser ótimo, imagina, vou ficar famoso." (Riso) Aí acabou que ele não produziu nada. "Eu quero tocar violão igual você toca." Olha que coisa engraçada que eu me lembrei. Muito generoso, o Raul Seixas, uma figura excelente, maravilhoso. Tem altas coisas. Importante, ele tem uma importância enorme. Nem era assim formalmente na música exclusivamente. Mas uma coisa de cabeça, de comportamento, e figura mesmo interessante. Um filósofo talvez assim, mais do que um músico assim. 

 

P1- Um filósofo.

 

R- É um, é. Usava a música, aquela meio forma de música americana, meio rock and rol. Mas não é, o lance dele era a mensagem, né? Era uma percepção da coisa social, da cabeça, do pensamento. Aí, indo da dona Margarida, voltando ao negócio do Tom. Foi muito importante, porque nessa época eu conheci também o Vinícius de Moraes, que também gostou muito de mim. Eu conheci por causa do Tom no Carreta, que eu já era amigo dos filhos do Vinícius: do Pedro, da Suzana, da Georgiana e da Luciana. Sempre fui amigo aqui, de Rio de Janeiro, de noite  carioca, de boêmia. Enfim, dessa coisa toda, os bares da vida, maravilhoso. E o Vinicius era um frequentador nessa época da Carreta. Ele, Aloísio de Oliveira, o Tom Jobim, que obviamente como era aquela figura sociável, ele queria juntar o máximo possível, né? Então ele levava pra lá os filhos, a mulher e os amigos ali mais chegado. e eu era um deles. Porque a gente se encontrava em Ipanema no meio da rua, nem marcava, às vezes, nada. Mas já meio sabia do lugar que ia. Às vezes ele me ligava, dizia: "e aí, vai lá hoje?" Não sei o quê. Mas muito raramente e às vezes a gente se encontrava era no meio da rua. Ele com aquele Galaxie, eu via."Ih, olha só." Aí eu entrava no Galaxie, a gente ia às vezes na praia, ficava sentado lá jogando conversa fora. E altos ensinamentos, porque era uma diferença de idade que fazia diferença. Era um cara muito mais experiente, entendeu, como o Vinícius. E nisso eu aprendi de A a Z, você entendeu? Fui, vamos dizer, eu tive uma, como é que diz, um acabamentozinho ali, que pra mim foi muito importante, porque eu aprendi um pouco, como é o seu comportamento, a sua maneira de ser começa a influir, a interferir diretamente na música que você faz. Eu comecei a tomar mais consciência disso, de como é que isso se passava. Informalmente, quer dizer, com ensinamentos assim, entendeu? Assim, criar aquela tensão superficial no copo de licor, entendeu? (Riso) Isso era um papo levado a sério, porque vinha aquele Cointreau, mas ele assim: "Se você está vendo, isto aqui, ó, quando você serve essa dose, você cria aquela tensão superficial”, então fica ali aquela, quase derramando, mas não derrama, faz aquele, o Cointreau fica assim, aí você também tinha que mostrar honestamente que a situação ainda era boa, que você não estava nem tão alterado, né? E pegar com a mão firme e levar aquilo à boca, não é tomar, não é. Quando a coisa complicava, você botava um charuto pra acabar com a tensão superficial e não derramar, né? Então ficava aquele assunto de churrascaria, e generoso, né? Aí realmente foi uma escola pra mim, de vida, fabulosa. Porque essas pessoas que eu citei, reuniam outras pessoas. Então era assim, um sem fim, daí ecoou aqui na bateria, um sem fim de personalidades, e pessoas de várias áreas que circulavam em torno deles, entendeu? Mas eu estava ali presente e muito bem recebido. Então eu aprendi assim a lidar com um monte de situações. Você, é a coisa da vida, você vai aprende daqui, vê ali como é que é que, hum, quer dizer que osso por aqui, por ali. Quer dizer, pra mim foi uma coisa fabulosa, entendeu, esse convívio com o Tom, com o Vinícius. Conheci indo a Copacabana, na época da  pensão da dona Margarida, o Danilo Caymmi, que é da minha geração, que tem uma participação também muito importante nessa coisa também com os mineiros, e é muito amigo dos mineiros. É uma família espetacular, a família de Dorival Caymmi, não há palavras pra dizer como são bacanas. São pessoas e importantes assim na nossa história, né? E o Dorival Caymmi, aquele ser humano que já nasceu pronto, né, já nasceu ensaiado, tem o dom de sintetizar, que é uma das grandes qualidades do ser humano, né? A coisa quase Jesus, né? Que sintetizava em duas frases e coisa e tal. O Dorival Caymmi é a pessoa que começa, ele diz duas frases já te responde quinhentas coisas que você queria ouvir, já aparece uma conversa de duas horas, entendeu? E ele é muito generoso, uma pessoa. Me levou, junto com o Danilo, é engraçado, eu fui meio adotado, né? Agora que eu estou percebendo isso, porque junto com o Danilo, ele já me levou lá pra ______, já pra mostrar aquelas malandragens do centro da cidade do Rio de Janeiro. E muito simpático, aquela figura carismática, já pegava um táxi, falava: "ô seu Caymmi, como é que vai?” Ele: "ah, meu filho..." Aí ficava aquele papo que você não queria outra vida, entendeu? E, vamos lá, eu vou pra Maracangalha, aquela camisa listrada, entendeu? O cara generoso, pai do meu amigo, meu amigo também, e dizia: "minha casa é sua, você por favor você vá a hora que você quiser" e não sei o quê. Então foi uma coisa atrás da outra. Foi, vamos dizer, que foi uma universidade, né, essa fase daí. Porque, músico, tocava no violão dele, chegava lá e subia, entendeu? 

 

P1- É mesmo?

 

R- É, no violão dele lá. Um cara super generoso. Pintava, sabe, eles moravam, aqui em Copacabana, no Edifício chamado Comandante (Lance?). Enfim, dona Stella sempre me recebeu de braços abertos. Eu sou querido lá dentro da casa. E isso é um orgulho pra mim. Isso é uma coisa muito boa. Eu falo isso assim, me dá uma sensação muito agradável, de coisa. Então eu tive essa vida. Veja você, ao mesmo tempo teve o negócio de Clube da Esquina, ao mesmo tempo isso aí, Barra da Tijuca, não sei o quê,  já foi me levando pra um negócio que eu também já tinha desde cedo assim, um pouco no sangue, que era uma coisa da área do samba, entendeu? Eu sempre gostei dessa história do samba, da, sabe, não só quer dizer o samba, o negócio da bossa nova, que é basicamente uma coisa do samba, a pulsação do samba de um formato ali determinado. E eu nessa época comecei a conhecer assim um pessoal, João Nogueira, entendeu? A época, o Cacaso, que já estava desde essa época do Plataforma. Tinha assim um outro QG, vamos dizer, que não, Carreta antes, Plataforma depois.  Estúdio com o Tom a maioria das vezes, na RCA-Victor. Aquele disco Tom Jobim e Miucha. Todas aquelas coisas que o Tom Jobim fez naquela época ali, eu andei participando. Ele ia assistir show meu e do Paulinho na sala Funarte, entendeu? A plateia estava... O Tom sentado, aquilo era uma maravilha. E você ficava ali se sentindo, entendeu, achando a coisa, poxa, estava tudo certo. Porque você estava no veio, na coisa mais importante, efervescente de música. Então o Cacaso tinha também, como ele morava na avenida Atlântica e ficou muito meu amigo, a gente começou uma hora a deslocar um chopinho pra ali. O Cacaso já era conhecido do Radamés Gnattali, que frequentava muito o Lucas, aqui no posto 6, em Copacabana, na avenida Atlântica. E era melhor que o point do Radamés. Então eu já ia, às vezes, tinha um chopinho no Lucas assim de tarde com o Radamés, também ouvindo l´o mestre falando lá e coisa e tal.Não uma coisa de música formal, mas música por vida, né? Porque as atitudes de vida são as que mais evoluem a pessoa na música, curioso, né? Não é, tudo bem, escala e as coisas, você tocar, praticar, você não pode viver sem, né? Senão enferruja tudo, não dá certo. Mas à vezes, a postura na vida te evolui mais do que a própria coisa ali. Porque aquilo é meio mecânico, né, você fica na mecânica. Mas a vida te leva a formular aquilo de uma maneira diferente. Você coloca um acorde assim, o outro você, conforme a situação, você diz, mas espera aí, isso aqui aconteceu assim, vamos fazer assim e ver o quê que pode surgir daqui. Então isso é uma escola maravilhosa. E o Cacaso, nós tivemos, é uma pessoa que eu gostaria de fazer um filme assim falando da nossa amizade e tudo mais.

 

P1- Você tem uma parceria enorme com ele, né?

 

R- Enorme, porque eu vou te contar o começo dessa história. Quando eu conheci o Cacaso, nessas coisas de churrascaria, todo mundo, essa vida, vamos chamar, mais boêmia também, junto com a coisa formal de música. Nós fizemos uma música e nessa de conviver na casa dele, ele me fez fez uma proposta que foi o seguinte, falou: "ó, a gente fez uma música aqui, estamos gostando a beça, está super bacana, vamos fazer um negócio." Uma coisa até mineira, bem de Minas. Ele falou assim: "nós vamos fazer um monte de músicas, não vamos falar nada, quando as pessoas souberem já tem assim, entendeu, um montão de música." E dito e feito, nós paramos assim e ficamos um ano, entendeu? Um ano, sabe? Ia pra casa do Cacaso, às vezes ele ia lá em casa, mas era mais na casa dele. Porque era ali na beira da praia, tinha piano ainda, se bem que na minha casa também tinha. Mas o costume era do encontro mais lá na casa do Cacaso. Eu ia, Copacabana, a gente ficava ali, entendeu? Tinha umas mesinhas de bar, tinha sempre uma cervejinha. A gente ficava ali, tocava piano, olhava aquele mar. Aí que começou a história do mar de mineiro, entendeu? Que eram aqueles mineiros olhando ali pra aquele marzão besta, entendeu? O mar, olha o mar. Olha o mar, entendeu? Mas não era da beira do mar, né, que nem. Isso aí você não invente, né? Mas tinha um sentimento também, aí começou uma coisa paralela, meio que uma simbiose, né? Se é que é pertinente essa palavra. Pode ser, né? Não é? Simbiose é meio isso, né? Então com essa história do mar, da beira da, e a gente começou a falar do mar, misturar. E eu tenho uma história na minha vida que é uma grande fascinação pela coisa de cidade com sertão. Eu assim, o meu negócio, assim, eu tenho um projeto que eu ainda não consegui realizar, que chama-se o Sertão da Cidade, que é um jogo meio que, né, O Sertão da Cidade e a Cidade do Sertão. E um, entendeu, essa coisa que virou até uma globalização,virou. Esse papo tem a ver com a coisa que foi, me fascina muito, como sempre me fascinou a falta de fronteira para o ser humano. Isso aí é uma coisa que me fascina. O comportamento humano de um roceiro na cidade ou de um cara da cidade na roça ou de, entendeu? Esse jogo aí me dá subsídio pra pensar. Então, eu com o Cacaso comecei a fazer um trabalho, quando a gente viu tinha umas oitentta obras, assim, sabe, feitas. Inéditas, fizemos um musical. Fizemos um monte de coisas. Tinha até um folclore. Ah, mas vocês não mostram coisa de mineiro, eles não mostram músicas pros outros gravarem. (Riso) Mas não era isso não, a gente ficava doido pras pessoas gravarem depois que vissem. Acabou essa bobagem, que era uma brincadeira. Na verdade, nem foi levado a sério. Nós fizemos as músicas porque vinha brotando, entendeu? E músicas enormes, letras, entendeu? De tudo que é jeito, valsa, samba, choro, tudo, tinha tudo que é tipo de música. E isso tudo paralelo com o que estava rolando, entendeu? E principalmente nos anos de 1980, aí foi uma dedicação total a essa coisa. Perdi esse contato com Milton, coisa que até hoje é assim. Eu entendo porque um lado assim, a vida leva as pessoas, né?  Eu tenho até um disco chamado “A Vida Leva”, um samba chamado “A Vida Leva”, né? Que é a coisa desse disco, a vida vai te levando, numa hora você, até o Zeca Pagodinho também agora é um grande sucesso dele, “Deixa A Vida Te Levar”. A idéia é mais ou menos essa, né? As músicas são diferentes, mas é isso, a vida leva. Então o negócio de Clube da Esquina pra mim, tem essas facetas assim: o ponto central disso como trabalho está fincado no coração, jamais vai ser mudado, entendeu? Agora, essa coisa prática, não sei o quê, desde os anos de 1980, entendeu? As pessoas, às vezes não imaginam muito isso, porque acham que é aquela historinha formal. Eu não, eu estou solto pelo mundo aí, de outras formas. Mesmo porque eu sei que eu gozo de privilégio na cabeça, na alma do Milton. Porque seria impossível ele não ter uma ligação mais próxima comigo, mas fisicamente a gente não sabe muito. Olha, eu encontrei com ele recentemente duas ou três vezes, entendeu? Trocamos duas ou três frases, entendeu assim? Eu até, vou ser sincero, eu gostaria que a gente até tivesse falado mais, mas não levo isso como uma obrigação, eu levo isso como um prazer. Eu teria prazer de encontrar o Milton e dar umas risadas. Eu teria o enorme prazer, mas não aconteceu, sabe como é que é? A gente não sabe o por quê, aconteceu, hoje a gente recebe homenagens, entendeu? Essas coisas principalmente que são referentes ao Clube da Esquina, eu estou incluído. Não há, nem querendo dá pra me tirar, porque eu estava lá desde o começo. Então eu vou e a gente se encontra assim, na assembléia legislativa não sei de onde. Ele está assim sentado do meu lado. "E aí tudo bem?" "É, pois é, ___". Troca umas duas frases, não sei o quê, aí daí a pouco vira aquela confusão, ninguém fala com ninguém mais, entendeu? Quem eu mais falo agora é o Fernando Brant e o Márcio Borges, que a gente ultimamente tem se relacionado mais de encontrar e ficar por aí, entendeu, porque a história modifica, né? Você também, a idade vai modificando essa coisa, né, a facilidade física, né? Antigamente, numa época a pessoa mais jovem, qualquer coisinha você pega um ônibus, entendeu? Vai ali, vai a pé, vai de carona, entendeu? Hoje você não pode ir na avenida Brasil, entendeu, pedir uma carona que você vai virar uma estátua de sal, né? Então, não.

 

P1- Mas ô Nelson, agora também, quer dizer, você tem ido muito a Belo Horizonte, entrou agora na fundação, na Associação Amigos do Clube.

 

R- Eu acho isso muito importante, entendeu, essa fundação do clube, eu acho importante, do museu, entendeu? Porque veja bem, isso que eu estou terminando de dizer, essa falta de contato físico, de encontro e de participação em coisas divisões em certos trabalhos, cria nas pessoas que não conhecem essa história, uma curiosidade muito grande de saber. Poxa, mas como é que é isso, mas como é que... E isso estava me incomodando, estava fazendo uma certa falta. Porque aí vem um lado de mineiro que é muito complicado, que é um lado mais tímido, uma timidez. Às vezes eu brinco assim, se a gente fosse baiano, estava todo mundo rico. (Riso) Mas, entendeu, falta esse discurso. O mineiro não é muito de discurso, entendeu? Eu até talvez seja assim meio falador porque eu vivi em outros lugares, aprendi um pouco aqui no Rio. Acho que é isso, eu tive mais facilidade. Só não consegui na verdade falar X, mas pô, resto eu aprendi muita coisa aqui, eu me considero assim, um carioca assim, também, entendeu, de coração pelo menos. Eu gosto dessa terra, eu participo, eu botei, sabe, eu boto uma fé danada nesse lugar aqui. Apesar de todos os problemas que estão acontecendo no momento, eu acredito muito na terra, na beleza, nas pessoas, na generosidade, entendeu? É uma terra bacana, mas enfim, é uma outra discussão. O que eu quero dizer é que demorou muito, principalmente ao Milton, pra fazer um evento. Chegou 30 anos da história, aí ficava um negócio, como é que vai ser? Vai ter um show, não vai ter um show? Obviamente vem os homens do charuto, né, que sempre estão presentes, estão olhando a gente, o quê que está falando. "Vê lá em, vê se esse garoto não vai atrapalhar o meu negócio." Então, sabe, sempre criou uma tensão, uma saia justa nisso. E estava faltando um momento de que as pessoas vissem o Milton e mais todas as outras que estão faladas ali, pelo menos uma vez, de saber que ele é um cara que aprova, quer dizer, ele assina embaixo que houve uma história. Ele pode ter os julgamentos e as conclusões pessoais, mas a história ninguém pode mudar a história. Não é assim dessa forma, você pode até ter uma visão diferente, você pode ter coisa, mas você não pode tirar uma pessoa que fez determinada coisa numa época, porra, que depois você vai dizer o quê, que não fez?

 

P1- Não. De modo algum.

 

R- Nunca, entendeu? Então a história ela é fundamental e eu achei que já estava no limite, entendeu? Então eu parabenizo, entendeu, essa coisa, mais uma vez aí, dessa iniciativa, nesse sentido, de poder esclarecer alguns pontos, entendeu? Das pessoas verem a história e verem como é que a coisa funciona, entendeu? Agora, me dá um grande alívio ter falado assim sobre isso, porque, sabe, parece que eu tiro um peso, sabe como é que é? Porque sempre alguém me pergunta, mas escuta mas e a pessoa, fulano é seu amigo? Não sei quem gosta mesmo de você? Por quê que você não faz mais, você não grava mais com o Milton? Ele nunca mais gravou uma música sua? Não tem nada a ver isso, entendeu? A vida já mudou, eu já estou, olha, cheio de projeto, entendeu, cheio de projetos. Eu sou bastante teimoso. Uma coisa que eu acho que eu aprendi com sambistas. Entendeu, porque sambista às vezes faz sucesso velho, né? Não é, o cara sim, né? É difícil sambista novo fazer sucesso.  O cara fica, quando está bem, porque acham que vai aprontar muito. (Riso) Sambista muito novo, faz sucesso, faz uma desordem, brincadeira. É uma provocação, mas deixa eu só seguir esse raciocínio aqui. Então, eu acredito que uma hora eu vá ter um espaço com essas coisas, com esses meus projetos. O Sertão da Cidade é um projeto super pretensioso. Porque é um filme, um longa-metragem. Mas feito em homenagem a Belo Horizonte. Começou os 100 anos de Belo Horizonte, que já tem uns oito, né, dez, sei lá. E os afro-mineiros, que é uma coisa muito mal falada, muito mal esclarecida, porque Minas Gerais tem uma convivência com a África muito grande. Um aprendizado e uma troca de coisas, entendeu? E eu sempre achei isso muito mal explicado, sabe assim, muito. Uma hora as pessoas se metem a querer ser muito generosas e trocam os pés pelas mãos. Enfim, um assunto não trouxe. E ao mesmo tempo som, não é um som de fazer uma homenagem aos africanos, de pegar o som deles e repetir no meu trabalho, sabe como é que é? É uma questão pra mim, de uma questão de vida, de sabedoria, de calmaria, né? Que eu me  lembro disso, a Julieta, que era uma senhora que trabalhou na minha casa durante longos anos, que me ensinou milhares de coisas, sem falar nada, com o próprio comportamento. Nos momentos em que o europeu é muito ansioso, é muito nervosinho, muito, né, aquela coisa de ansiedade, é falta de domínio mesmo psíquico de algumas coisa lá de dentro da cabeça; e o africano, ele tem uma postura muito mais sábia, é mais plantado. E obviamente quando você convive entre as raças, o convívio entre as raças é o maior presente que Deus dá, porque todo mundo pode ter a generosidade de aprender daqui, dali. E essa senhora dava uma idéia de calmaria muito grande, entendeu, de. Então eu tenho essa homenagem nesse sentido. Não vou ficar botando instrumento africano no meu negócio, porque não é, até posso pôr, mas não é aquela coisa. Eu fazer uma, esse negócio de homenagem é muito perigoso, porque você vai fazer uma homenagem, usa tudo que a pessoa fez e diz que está fazendo uma homenagem. Então esse projeto é interessante que é o meu negócio, o que eu aprendi sobre isso e a minha forma de ver, ou seja, um filme em cima de uma música. Só que como eu tenho essa ansiedade sobre as coisas, eu já fiz o roteiro do filme. Uma vez eu fui falar com o Domingos de Oliveira, que é meu amigo, ele falou: "ah, mas você já tem um filme pronto." Falei com o Zé Jofre também, ele falou: "mas você devia dirigir esse filme." Eu falei: "você está brincando comigo, pára com isso." Porque eu já tenho a idéia do filme como é, como começa, como vai pro meio, entendeu? Como é que, os quadros... Só que imagina a minha pretensão, né, entendeu? Muito, imagina fazer um filme desse, não, é um projeto enorme, que vai exigir um monte de dinheiro, um monte de confusão. E eu tive alguns papos daqui e dali, entendeu, com os homens do charuto, entendeu, através de órgãos, da indústria, _, governos e afins, entendeu? E consegui um mínimo. Então, o que eu quero dizer, a minha postura, desde esses 20 anos, eu guardo esses projetos. Eles estão todos, eles estão vivos e eles estão aguardando o seu momento de darem continuidade. Fiz uma versão mais jazzística da música, entendeu? Convidei outros músicos e fizemos uma coisa mais. Tirei a idéia de orquestra sinfônica, porque era, estava se tornando inviável. E fui transformando, mas o cerne permaneceu. Tem os discos que eu gravei nesse tempo, eu nunca fiz um disco igual ao outro, sabe? Meus discos são assim a coisa que estou naquele momento mexendo e mais empolgado. Então eu nunca tive uma fórmula, o que também, atrasa na mídia, entendeu? Cada hora tem uma cara o meu disco, entendeu? Uma hora eu estou mais dedicado ao violão, porque eu estou tocando mais violão nessa época. Outra hora o piano, que é um instrumento que eu tenho um grande fascínio na minha vida. Ele tem uma entrada espetacular o piano na minha vida, porque eu ganhei um piano. Isso é uma coisa rara de acontecer. Um cunhado meu me deu um dia. Eu morava no Jardim Botânico, chegou um piano no dia no meu aniversário, 15 de junho. Eu vi uns caras subindo a escada, uma barulhada. Uma escada de um prediozinho pequenininho, as minhas filhas eram novinhas ainda. Eu abri vi um piano, pense comigo: "poxa vida, podia ser pra minha casa." Fechei a porta e deixei. Aí o cara veio subindo, subindo, subindo, pim, bateu na porta, falou assim: "senhor Nelson Ângelo." Eu falei: "sou eu mesmo." "Esse piano é pro senhor." Eu quase caí duro, entendeu? E desde então o piano é um instrumento assim, eu agora já estou menos tímido, eu toco piano, você acredita nisso? Eu toco piano, nunca estudei piano. Mas eu toco piano porque eu gosto tanto daquilo. Não vou te dizer que eu seja aquele pianista pra qualquer coisa fazer, entendeu? Chega assim e toca aí agora uma rapsódia. Não, não é nada disso. Mas dentro do meu universo, eu ajeito com bastante carinho aquela história, entendeu? E já vi gente ouvindo assim, gravação de gente importante dizer assim, que é o pianista. Já ouvi algumas vezes. Já falaram que eu era, citaram outros nomes dizendo, e era eu que estava tocando, entendeu? Então é um instrumento que fascina, entendeu? Essa coisa que Wagner falou que o piano é aquela orquestra ambulante. E ele é isso e até muito mais, porque ele, você vê tudo aqui, você tem duas, entendeu, as suas duas mãos percutem e repercutem, e tem uma repercussão sonora de harmônicos e de parâmetros e tudo. É uma coisa impressionante o piano, realmente. Talvez é o instrumento mais completo nesse sentido e tem coisas curiosas. Porque piano, você vê, o que soar no piano, soa nos outros instrumentos. Se você fizer um acorde muito grave e ele ficar muito embolado, aquela série harmônica não tiver muito de acordo ali, vai acontecer aquilo nos instrumentos. Então, ele é um instrumento, além de tudo é bengala assim, sabe? Você faz um acorde assim, tum, aqui numa região, ih que acorde bonito, você pode escrever pra qualquer coisa, flauta, pra sopro, vai ficar bonito. Ele tem esse dom porque exatamente, ele naquela coisa dele mexe com a série harmônica. O piano é um instrumento chamado temperado. Você quando afina, você não pode botar uma máquina eletrônica afinar o dó central e afinar o último dó lá com a mesma máquina, porque pra um piano acústico ficar afinado, ele aqui está de um jeito, aqui você vai indo pra lá, a afinação vai subindo. Tem que ser meio de ouvido, pra você soar temperado, dar o acorde ele ficar parecido. E ao contrário pra cá, ele tem que ficar mais baixo a afinação dele, entendeu? Aí você toca no teclado inteiro do piano, você tem um equilíbrio do piano. Já o violão é aquele instrumento que é uma outra natureza assim, embora seja muito generoso nos harmônicos, coisa que é mais explorado quando o violão é usado acústico, entendeu? O violão é um instrumento bonito já pela forma, né? Forma de mulher, forma de um corpo, né? Todo mundo faz essa comparação do corpo de mulher. Que é uma coisa linda, ele é generoso, um instrumento de uma forma feminina, você põe o instrumento no colo, você acaricia. É muito importante a postura do instrumentista, porque é uma coisa você ter um contato. O piano já é mais complicado, porque você não vai carregar um piano. Você senta ali e toca nas teclas. O violão não, você tem uma relação física com ele e se você ver, as pessoas que você acha que você selecionou como os melhores instrumentistas de violão, são aquelas que se integram mais com o instrumento. Que sabe, eles pegam, tem uma maneira de pegar que você fala: "hum." Sabe, não vai pegando de qualquer maneira, sabe. Abraça, acaricia, aí o instrumento começa te responder, porque o instrumento é isso.

 

P1- Ô Nelson, maravilhoso, você deu a definição de violão pro dicionário já do Clube da Esquina.

 

R- Uai é? Se valeu, ótimo.

 

P1- Eu queria te fazer a última pergunta.

 

R- Não, a mais recente, né? Como é que a gente vai dizer a última, se não vai parar por aqui, a mais recente hoje. 

 

P1- A de hoje, a do primeiro tempo, né?

 

R- Não, eu sei, é primeiro tempo. Não eu estou brincando com você.

 

P1- Porque o Tavito está ali.

 

R- Ah bom, _____, esse é um outro grande cidadão, pessoa de Belo Horizonte, mineiro de Belo Horizonte, desculpe, vai.

 

P1- Então eu queria, nós vamos combinar um segundo tempo, porque você é um ótimo contador de história mesmo.

 

R- Muito obrigado.

 

P1- Estamos aqui muito satisfeitos, muito legal essa primeira parte.

 

R- Funcionou?

 

P1- Demais, e eu queria...

 

R- Eu espero que as pessoas gostem, quem sabe, eu tenho alguma chance no cinema.

 

P1- E queria dizer o quê que você sentiu de dar esse depoimento pro Museu do Clube da Esquina.

 

R- Muito bem, eu já declarei isso aqui, me senti muito bem, entendeu? Não só de ter dado esse depoimento pro Clube da Esquina que é uma coisa que eu já estava esperando isso a muito tempo, de fazer, entendeu? Vamos dizer, é mais um capítulo assim essa, entendeu? Vamos sair pra uma outra novela, porque, entendeu, essa daí, se alguém vier me falar alguma coisa, me perguntarem eu digo: "ó, tem umas duas horas de fita lá, falei tudo que é bobagem, pode ir lá olhar", porque pra não ficar repetindo, né? Mantenho no coração as minhas declarações aqui, principalmente as, vamos chamar, mais formais, porque claro que a gente brinca e tudo mais. Mas nós estamos aqui não é por uma brincadeira, é por uma coisa séria que gerou o Clube da Esquina, se tornou um negócio importante, discutido, não é? E eu me sinto muito honrado de participar. Me sinto muito bem nessa história toda. E estou afim, entendeu? De ter uma continuidade.  Eu sei que eu não posso começar de novo. A gente hoje estava até falando sobre a questão de envelhecer, não é? Eu sei que não dá pra começar de novo, de 13 anos, 14 anos de novo, mas eu ainda tenho vontade de fazer mais coisa, sabe? De, não é desfazendo quê aconteceu, mas eu sinto carência, eu sinto falta de ainda, sabe, tentar construir mais um negócio. Talvez seja pertinente ao ser humano mesmo, e esteja falando uma coisa que aquele senhor, né, 5 mil anos, diz assim: “É meu filho" e coisa e tal, "você está indo, é, você está indo mais ou menos, você vai chegar lá, 55 não é nada, né?" Mas eu tenho essa vontade, essa pretensão de estar agora, sabe? Eu não quero saber do negócio do passado nesse sentido, eu estou agora, sabe? Eu estou aqui, agora, doido pra tocar, doido pra, sabe, pra chegar num lugar desses, num palco, sabe, numa coisa e até, modestamente, até numa churrascariazinha

que é bom, né? Você toma uma pinguinha assim miudinha, né? Já não pode mais, mas vai aquilo, plin. Só pra, não é, tem que ser ajuizado, toma uma, né? Come uma carne, faz uma extravagância vamos dizer assim, depois fica cinco dias pra (riso) mas eu pretendo ainda ter esse approach, entendeu? Principalmente com a juventude, porque eu gostei muito dessa coisa daí de ir e falar pros jovens. Gostei e não é uma coisa careta, não. Eu não quero aquela coisa de virar, coisa. Eu queria estar é lá, e tocar e meu som agradar e meu papo também, entendeu? Porque os termos podem ser um pouco diferentes, bicho, não sei o quê. O cara usa, Pô cara, entendeu? Vai mudando mas a alma, entendeu, está ainda. Eu estou nessa batalha de chegar perto das pessoas, né?

 

P1- Então olha, muito obrigado mesmo.

 

R- Eu que agradeço, isso é uma oportunidade maravilhosa. Vamos continuar, né? Vamos ver se uma hora a gente faz um pro Museu da Pessoa, não é?



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