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História

Eu sou 'piolho da mata'

História de: Lucila da Costa Moreira Nawa Mariruni
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/04/2022

Sinopse

Lucila conta sobre sua vida, seus estudos e sua luta para recuperar os costumes e assegurar o território do povo Nawa. 

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História completa

(00:00:23) R - Boa tarde. Eu vou contar a minha história. Eu nasci na República, o meu pai trabalhava cortando seringa com o Bolota, e a gente sempre ficava andando, sempre passando, um ano em um campo, outro, no outro, mas sempre na República ou nessa terra aqui, do Novo Recreio. Trocava de colocação porque tinha que trabalhar na seringa. 

Quando a gente tinha uns quatro anos de idade, a gente veio para a República. A gente passou uns seis anos morando na República, ali na Aldeia Abacateiral. O nome dessa aldeia é porque realmente tinha muito abacate que foi plantado pela minha mãe; não são mais os mesmos pés, mas são frutos dessa plantação. E eu estudei até a segunda série na República.

 

(00:01:53) P/1 – Essa Aldeia Abacateiral, como era naquele tempo?

 

R - Lá moramos nós e a Marina, que era avó do Paulo Almeida (Nukini) e o seu Basto, que era casado com a filha da Marina, nesse Abacateiral. Com o passar do tempo a gente cresceu. Quando chegou a demarcação da terra dos Nukini - não lembro bem o ano que foi - teve o levantamento das pessoas. O Humberto Jorge era o cacique geral do povo Nukini, e ele fez o levantamento das pessoas. 

Lá morava a minha avó, que não era índia, porque essa minha avó foi casada com um índio, teve três filhos e um deles foi a minha mãe. Ele disse que minha avó não poderia ficar lá, que minha avó tinha um filho que gostava de brigar, era valente, então ele não queria lá por esse motivo. Eles achavam que esse meu tio era muito valente e lá só poderia ficar a família da mamãe, que era papai e nós, os filhos. Mamãe não aceitou a proposta do Humberto, porque a mãe dela vinha embora e não sabia para onde ia, então ela ia acompanhar a mãe dela e a mãe dela ia acompanhar ela. E assim a gente regressou da República aqui por Tapada. 

Meu pai realmente foi criado aqui por um índio chamado Pio. O Pio veio da mata, casou com a mãe do meu pai e criou o meu pai desde pequeno.

 

(03:49:00) P/1 – O que seu pai contava sobre essa pessoa que criou ele?

 

R - Ele contava que tudo o que ele aprendeu, andar na mata, as histórias do Povo Nawa, quem contava para ele era o avô Pio, que era o meu avô por consideração, que foi quem criou o meu pai, então a gente chamava de avô. Ele contava que minha mãe era filha do povo Nawa, porque ele conheceu muito o pai da minha mãe, que era conhecido por Cabeça; esse meu avô que era irmão da tia Chica. 

Ele contava muita coisa para o meu pai, só que o pai da minha mãe morreu cedo e minha mãe não teve muito contato com o próprio pai, já foi criada pelos brancos, então ela não tinha muita história. Ela sabia que era índia, da família da tia Chica, do Nilton, que morava aqui, mais ali embaixo, no Campina. Morava o Pio e os filhos do Pio que já eram casados, moravam nessa região de Olho da Boca Tapada. 

Eles trabalhavam muito na República, o meu pai era caçador do patrão, porque quando ele deixou a seringa e a pele da caça veio dar dinheiro, o patrão colocava eles para caçar, para levar carne para os trabalhadores comerem. Vendia a carne para o patrão e também vendia a pele da caça, como a onça, a pele do unum; eles também compravam as peles das caças.

 

(05:41:00) P/1 – Essa coisa de patrão, poderia contar mais sobre isso? Por exemplo, como o seu pai começou a ter um patrão, como foi essa história?

 

R - Quando a família dos indígenas Nawa, que veio realmente de Cruzeiro do Sul… A pessoa que fugiu, que foi a sobrevivente, foi a nossa bisavó, Mariana. Ela foi criada pelos brancos, que foram os cearenses que vieram, fora esses patrões, porque essas pessoas que vinham de fora, esses coronéis, a família, eles iam morrendo, os que os índios não matavam; também, quando chegava o seu tempo e morriam, o filho desse patrão já pegava a patente do pai e ficava dominando os indígenas. Eles cortavam a seringa, e o seringal nessa época era dos patrões, mas quem realmente era para ser dono eram os indígenas. 

Foi tomado tudo dos indígenas. Eles passaram a ser donos dos seringais e mandar os índios trabalhar, cortando seringa para vender a borracha pela mixaria, por um valor mínimo para os patrões. Eles não tinham outra opção. Eles trabalhavam cortando a seringa e trocavam pelo açúcar, pelo leite, por uma roupa, por alguma coisa assim, porque naquela época todo mundo já vestia roupa. 

O Povo Nawa viveu cem anos escondido. Nesses cem anos, eles passaram por uma transformação. E nessa transformação é que em 1999, a tia Chica, que era a sobrevivente mais velha, o seu Nilton, ela se identificou através do CIMI e o Paulo Nukini disse que aqui também tinha um povo indígena. Ela, missionária do CIMI,  realmente correu atrás da tia Chica para contar a história dela, para ver se realmente era do povo Nawa. Chegando lá na casa da tia Chica, ela esbarrou com um cemitério; o esposo da Tia Chica tinha morrido e ela tinha mandado enterrar no terreiro, e [tinha] uma filha que já estava enterrada no terreiro. 

Para a surpresa do ICMBio, eles perguntaram que tradição era aquela de enterrar no terreiro. Ela disse que era a tradição do povo dela, o povo Nawa, que ela tinha herdado essa tradição da pessoa morrer e enterrar bem próximo da casa, da maloca. A dona Rose chegou a fazer o primeiro relatório com o seu Lindomar, dizendo que realmente tinha um povo aqui. Chegou aos ouvidos da FUNAI, e a FUNAI veio reconhecer, ver se realmente era o Povo Nawa.

 

(09:22:00) P/1 – Você estava contando então essas duas coisas. A Chica, que lembranças você tem dela?

 

R - A tia Chica ainda está viva, ela já tem 94 anos, não estou bem certa. Ela até me disse a idade quando fiz a entrevista com ela. 

Eu tive muita convivência com a tia Chica, quando ela morava aqui na Aldeia Sete de Setembro. Quando começou a gente saía aqui do Boca Tapada, a família do seu Nilton e a gente ia para o Sete de Setembro fazer o mariri, cantar as nossas músicas, que a gente já tinha resgatado através do seu Nilton, o papai, a minha mãe, a Chica, a outra Chica, que é a mãe do Railson. A gente já tinha música, a música que a gente cantava. A gente passava a noite na casa da Chica, fazendo o mariri, lá. 

Foi a tia Chica quem realmente levantou a nossa cultura. A gente era bem próximo dela, a gente tinha muita convivência com ela, mesmo a gente morando aqui e ela no Sete, mas a gente todo final de semana ia fazer um mariri na casa dela.

 

(10:47:00) P/1 – Você disse que seu pai, junto com ela, resgataram a cultura. O que isso quer dizer? Como eles faziam isso de resgatar a cultura?

 

R - Quando a gente começou, digamos assim, através da minha sabedoria… O meu pai dizia algumas palavras, a gente via ele por sorte, cantando as músicas devagarzinho. E depois que eu continuei, trabalhei na educação, tudo aquilo que eu via ele dizendo, uma palavra, eu anotava. Tudo o que ele dizia eu ia anotando. Depois eu também explorei o meu pai pelo que ele sabia, já como professora porque eu queria aprender, para ele me dizer e pedia para anotar todas as palavras que ele sabia. Através dessas palavras que ele disse, e através dos encontros que eu participava com os outros indígenas, eu via [que] as palavras que ele tinha me falado eram muito parecidas com as dos Nukini, as do Kaxinawá que a gente  encontrava. Tinha uns sons diferentes porque eles falavam na língua, e nós, a mesma palavra só era diferente por causa do som, porque a gente falava só em português. Eu achei muita coisa parecida, aí ele foi me dizendo e fui escrevendo. 

Eu cheguei através da aula, da minha formação; fiz tipo um dicionário de palavras que eu consegui resgatar através dele, botei aquelas palavras em prática. Depois de mais estudo, eu já comecei a fazer frases das palavras e as nossas músicas, através das palavras que nós conhecemos na língua indígena. Começamos a fazer as nossas próprias músicas, a música dos animais, a música que realmente era de alegria, de dança. Através daquelas palavras, nós resgatamos a nossa cultura, do povo Nawa, com a nossa sabedoria, nós professores. 

Quem levantou a cultura do povo Nawa fui eu, através de tudo o que eu fiz, de toda a pesquisa que eu fiz. As músicas, quem começou a cantar fui eu. A primeira pessoa que cheirou o rapé fui eu, então eu chegava com rapé muitas vezes nos outros parentes. Eu convidava meu povo para cheirar rapé e eles diziam: “Está doida, onde eu vou estar cheirando rapé? Eu dizia: “Isso aqui é bom, menino, isso aqui é uma cultura do povo que realmente eles usam nas festas, nos momentos que as pessoas estão com sono.” 

Eu cheguei a levantar esse povo, a primeira pessoa que construiu toda essa nossa cultura, toda essa universidade que vocês viram em todos os nossos encontros, essa pessoa fui eu. E depois, através disso, a Anália também participou das aulas aqui comigo da língua indígena, a minha irmã, aí elas aprenderam todas as palavras. 

Eu também ensinei como a gente podia fazer nossas músicas. Anália hoje faz as suas próprias músicas. A minha irmã trabalhou na escola também, na Adélia Costa. Anália, depois que sentiu que realmente sabia, ela também dá aula na língua indígena, e hoje está muito bonito. A gente canta, mas não fala diretamente; se uma pessoa falar, outro parente falar qualquer palavra, a gente entende, a gente sabe o que é. Isso, para mim, foi uma conquista do meu pai, do seu Nilton e também da minha criatividade e da minha vontade. 

Às vezes eu abandonava os meus filhos, deixava na aldeia e ia para os encontros. Na época eu tinha seis filhos pequenos, o maiorzinho tinha doze anos. 

Eu nunca abandonei esses 22 anos de luta aqui com o povo, trabalhando, lutando, buscando, me informando, trazendo informação para dentro da comunidade. A minha vida nesses 22 anos foi de luta. Esses 22 anos eu não vivi para mim, vivi para o meu povo.

 

(00:16:20) P/1 – Lucila, você sempre se reconheceu como Nawa?

 

R - Não, teve um tempo que eles chamavam a gente de caboclo. A gente não se identificava por nenhum povo. A gente sabia que era índio, mas não sabia se era do povo Nawa, por que a nossa família está bem misturada com os Nukini. Tinha muitos Nukini que eram nossos primos; a gente, como se diz aqui, se considerava parente. Tinha tia Nukini, e o pessoal realmente chamava a gente de caboclo. 

Depois de nossa semente, eu, o Railson, o Luís viemos dizer de onde esses caboclos realmente tinham vindo. A gente foi atrás de onde era seu Nilton, a tia Chica, juntamente com o CIMI fazendo essa pesquisa, esse levantamento. O seu Nilton e a tia Chica, que eram os dois mais velhos que ainda tinha para contar a história de onde eles eram, [de onde] os pais deles eram, que eram de Cruzeiro do Sul. 

Eles disseram que a nossa bisavó Mariana saiu de Cruzeiro do Sul e veio para o estirão dos Nawa, depois dos ataques. Ela era uma meninazinha, ela fugiu. Depois de toda a matança dos nossos povos indígenas, do nosso povo de Cruzeiro do Sul, pegaram a Mariana na mata. Ela foi domesticada pelos brancos, pelo patrão, foi ser escrava do patrão. Foi criada por eles para trabalhar para eles. 

Depois de grande, [ela] veio até o rio Azul com o marido - ela se casou com um cearense. Eles vieram para essa região do Moa. Depois deles morrerem, foi a época que a tia Chica casou, porque a Chica era filha da Mariana, e a gente ficou aqui nessa região, trabalhando com os patrões que tinha aqui. O meu pai, seu Nilton, a tia Chica no Sete de setembro, a gente era uma família, mas só em 1999 a gente veio se identificar como índio Nawa. Foi nessa época que o Ibama...

 

(00:19:13) P/1 – Como foi o momento que vocês falaram: “Nós não somos caboclos, nós somos Nawa?”

 

R – É porque a gente viu o movimento dos outros povos. A gente já sabia que os caboclos, como eles falavam… A gente também já tinha o nosso direito. A gente não tinha mais medo de ser morto, porque já tinha a força dos Nukini aqui do lado, que é do lado da nossa terra e o movimento deles também. A gente foi vendo aquilo e aprendendo, reconhecendo. Depois que fomos reconhecidos, nós corremos para cima, atrás dos nossos direitos de sermos reconhecidos como povo Nawa.

 

(00:19:59) P/1 – E você, dentro dessa luta? O que você lembra da sua luta nessa parte? 

 

R - Eu estou em toda parte da luta da terra, porque eu cheguei a morar em Cruzeiro do Sul. Na época me casei bem novinha, tinha quatorze anos, e com quinze anos já tive minha primeira filha. Saí daqui da Aldeia Boca Tapada e fui morar com o pai dos meus filhos lá no Gibraltar.

 

(00:20:34) P/1 – E o seu marido era do povo?

R - Esse meu marido era um patrão, um dos patrões que trabalhava com o pessoal ribeirinho lá no Gibraltar, na Serra. Ele era branco - era não, ainda é branco porque ele é vivo.

(00:20:53) P/1 - Esse casamento foi por vontade? Você queria casar com ele? Como foi?

R - Rapaz, esse nosso casamento foi mais por necessidade, porque meu pai tinha doze filhos pequenos. A gente não tinha muita opção, condições, então a gente se casava assim, se juntava muito novinha, sem experiência de nada. E os patrões, como eram sem vergonha também, eles seduziam a gente. Ele chegou a me seduzir. Eu, com quatorze anos, não tinha nenhuma experiência, não conhecia a cidade, toda a vida morando na aldeia. A gente não tinha experiência e nem conhecimento da vida do branco, então a gente se juntou.

Nessa época ele tinha três mulheres, comigo. A gente arengava muito. Depois que eu já tinha dois filhos, me separei e vim aqui para a aldeia. Quando pensava que não, ele vinha me buscar, eu voltava; nessa arrumação, ainda conseguiu fazer seis meninos, e depois um terceiro filho, que tinha aqui no Gibraltar. 

A gente foi para Cruzeiro do Sul e eu fui lá, junto com ele. Chegando lá, ele viu que se não mudasse, se a pessoa não tivesse grande responsabilidade, a pessoa cairia no mundo da vida mesmo. Ele perdeu o preço da borracha e ficou sem condições, devia muito no banco; o banco pegou tudo o que tinha e ficou sem opção, aí chegou a ser preso por vender droga, esse meu marido. Ele mandava, eu cheguei ainda a ir para o Peru buscar drogas. Uma vez eu fui; depois que eu cheguei, disse que não iria mais, porque aquilo não era a minha vida, eu não queria aquilo ali nem para mim, nem para os meus filhos. Aí ele foi preso e a gente se separou nessa época, então eu vim embora para aldeia aqui de novo e ele ficou lá.

 

(00:23:24) P/1 - Então você se separou e voltou para a aldeia.

R - Eu me separei dele. Deixei tudo, casa, tudo que a gente tinha lá. Na época, ele vendeu tudo também para pagar advogado e a gente ficou sem nada. E a minha opção… O Railson foi lá, o cacique, ele já estava aqui trabalhando e achou que eu seria uma das pessoas que iria ajudar ele, por já ter conhecimento da cidade. Passei oito anos morando na cidade, e assim [seria] uma pessoa que iria ajudar muito ele na luta. Ele me convidou para eu vir para a aldeia e eu aceitei. E nessa luta, quando ele não podia ir, eu fui representando o povo. Eu saía para viajar, para representar o povo.

Fui muito discriminada por dizer que a gente não era indígena, porque o povo Nawa não existia mais. Eu sempre lembrei que o povo que eles mataram não existia realmente mesmo, mas ainda tinha uma semente e também o nome do povo Nawa de Cruzeiro do Sul, porque lá estava o guaraná Nawa, o café Nawa, lá estava o teatro dos Nawa e todos esses cantos, era a maloca do meu povo. A maloca do meu povo se transformou em fábrica, acabou tudo. A maternidade, ali era a maloca do nosso povo. 

Isso tudo que meu avô Pio dizia para o meu pai, quando o avô Pio veio da mata, quando ele chegou em Cruzeiro do Sul… Tinha duas casas, estavam construindo duas casas dos patrões, dos coronéis que mataram o povo Nawa. E ele foi lá pela mata mesmo e reconheceu duas casas que já tinham sido onde o povo Nawa morava. Ele retornou de novo para cá, porque ele foi pego aqui por essas bandas, entre o Peru e o Brasil, então aqui realmente é onde hoje a gente mora. 

O avô Pio nunca saiu daqui dessa aldeia, ele sempre morou aqui no Novo Recreio, desde a época que ele foi pego na mata. Eu só não sei por quem ele foi criado, mas com certeza ele foi criado pelos patrões, aí ele casou com a minha avó, que era a mãe do meu pai. Meu pai, na época, era recém-nascido e foi criado desde pequeno como filho do Pio mesmo. 

Ele contava essa história, que quando o povo Nawa foi morto pelos patrões, [ele] chegou em Cruzeiro do Sul, quando tinha duas casas construídas. A gente sabia da Mariana, através da tia Chica, que a gente era de lá; essa menina fugiu de Cruzeiro do Sul, na época que fugiram para o estirão dos Nawa. Ela fugiu para a mata e foi pega na mata mesmo. Por toda sorte que a gente está aqui, porque não mataram, pegaram ela, talvez fosse bonitinha e pegaram para criar.

 

(00:27:00) P/1 –  E essa história que você conta, como é que você ouvia essa história? Quem permanecia contando? Ou você foi descobrir depois, pesquisando?

R - A primeira professora daqui dessa terra indígena era minha irmã, a mulher do Joãozinho. Ela também tinha a quarta série, teve mais convivência com o avô Pio. Ela morou mais com ele do que eu, porque eu saí novinha daqui, tinha catorze anos. Ela foi ser professora dos filhos dos seringueiros, por um contrato dado pelo patrão Bolota Francisco - o João Bernardo, que era o pai do Bolota. Pela necessidade dos filhos dos seringueiros estudarem, e como ela tinha a quarta série, ela foi a professora daqui, mas não dizendo que ela era indígena, botada lá pelo patrão. Ela ainda não se reconhecia como índia. 

Quando foi ser professora, ela deixou… Ela morreu, mas deixou uma lista de tudo que tinha de animal em uma folha de papel, no caderno dela da escola. Essa página de papel fui achar em Cruzeiro do Sul, na casa do irmão do Joãozinho, que se chama Liberman. Eu trouxe a folha para a aldeia, onde eu percebi que tinha muita aparência das palavras dos indígenas, através desse material que ela deixou.

 

(00:28:53) P/1 – E já que você falou de animal, você tem alguma lembrança, alguma história com algum animal?

R - É um mito da origem do povo. Tinha uma mulher que era realmente essa transformação, a nossa transformação foi essa. Ela não tinha filho, era a mulher com a filha. A filha dessa mulher tinha vontade de ter filho e não tinha filho porque realmente não tinha homem, não tinha ninguém, só tinha ficado as duas mulheres. Ela tinha muita vontade de ter filho, não conseguia. Ela sumiu. 

A mãe sentiu falta da filha e foi atrás dela, entrou na floresta; não encontrou a mulher, mas encontrou uma anta se transformando em duas meninazinhas. Através dessas meninazinhas…. Nós, o povo Nawa, realmente somos matriarcais, a gente surgiu da mulher. A mulher se transformou na anta e a anta se transformou nessas duas meninas. Esse é o mito da nossa origem Nawa. A gente tem muitas histórias.

 

(00:31:00) P/1 – Queria te perguntar também…. Voltando à infância - a gente vai e volta - vocês tinham alguma brincadeira tradicional?

R - A gente sempre brincava da brincadeira do mamão, a brincadeira da cana, quando era criança. Os nossos irmãos, da minha geração, a gente não tinha com quem brincar. O nosso brinquedo era mamão, era tomar cana um do outro; jogava para cima, aí quem tomasse mais cana ia chupar mais cana, quem pegasse a cana do outro guardava no montezinho, e o mamão do mesmo jeito. A gente trazia saco de mamão para o terreiro, ficava um correndo atrás do outro para tomar o mamão do outro, que era para gente levar para casa. Quem conseguisse tomar mais, ia levar mais mamão para casa. 

Eram assim nossas brincadeiras, a gente não tinha opção. Nossas brincadeiras eram brincar com os ossos dos animais, também eram nossos brinquedos. A gente matava o rauí, e com aquele espinhaço vindo do rauí, ele tem um monte de cachorrinho… A juntinha do espinhaço do jabuti, a gente desconjuntava todinho aquele espinhaço. A gente tirava e era o nosso cachorrinho, era nossa brincadeira. Até hoje a gente tira e chama o espinhaço do jabuti de cachorrinho. Toda criança indígena gosta daquele cachorrinho do osso do jabuti, porque você tira o osso daqui e ele fica como um cachorro, com as quatro patas no chão e aquele corpinho na frente. 

(00:32:52)  P/1 – Como você aprendeu a fazer remédio?

R - Eu aprendi a fazer remédio pela necessidade que a gente se encontrava. Aqui, no nosso povo, chegou a morrer um primo de hepatite B, morreram ainda uns dois aqui, brancos mesmo, gente aqui morreu de hepatite. A minha irmã morreu de hepatite também, e a gente não tinha saúde de maneira nenhuma dada pelo SUS, por ninguém, só por Deus. 

Quando a gente adoecia, o nosso pai ia buscar folha. Ele mandava buscar para fazer cozimento, dar banho na criança quando a criança estava ruim. Era fazendo chá de remédio, se era uma inflamação trazia a casca de pau. Ele sabia e a gente foi aprendendo a conhecer a madeira. 

Eu, desde os nove anos de idade, acompanhava o meu pai na mata; eu era caçadora também, caçava junto com ele. Quando eu me separei e vim para cá não tive muita dificuldade, porque eu era o piolho da mata; eu matava queixada, eu matava veado. Com seis meses grávida desse menino, eu vim aqui para essa aldeia, ia para matar com meu pai. Meu pai matava um capoeiro, charru, e metia nas minhas costas; ele ia para frente, eu voltava com o veado para casa. 

Toda a minha vida eu fui da mata, por isso que a Mariana, a minha bisavó, tinha o nome Mariruni, que significa “cotia da mata”. Depois de conhecer a história dela, eu também me batizei como Mariruni, porque eu era também, eu era um piolho da mata mesmo. Eu matava macaco. 

Quando esse menino, o Verlândio - tive quatro filhos homens e duas mulheres - foi crescendo, com doze anos já ia para mata, porque eu nunca quis ficar em casa. Eu não sou mulher de ficar em casa, eu sou mulher de ficar no roçado, sou mulher de ficar caçando. Sou mulher de buscar melhoria para o povo, de viajar, de aprender, não sou aquele tipo de mulher de dobrar roupa para o marido, de fazer comida na hora certa para o marido, não! Eu como quando dá fome, lavo minha roupa quando não tenho mais para vestir, lavo as coisas também quando me dá na telha. Para você viver com marido, tem que ser tudo certinho, por isso que até hoje eu sou solteira. Eu arrumo os homens e não é da forma que os homens querem, nem é do jeito que eu quero; eles me deixam e vão embora, porque o meu povo eu não deixo.

Nas minhas viagens eu passava três meses estudando em Plácido de Castro, fazendo o magistério indígena. Deixava o marido em casa e quando eu chegava em casa não estava mais, então deixava para lá. Como eu disse, eu sempre vivi pelo meu povo, para o meu povo. 

Quando eu tive a noção de indígena, eu criei a alma, o sangue falou mais forte dentro de mim. E também cheguei a tomar o Daime junto nesses encontros. Fui aprendendo, já aprendi muitas coisas com o Daime, bebendo com os parentes. Agradeço muito o Povo Nukini, os Puyanawa, os Kaxinawá - hoje não é mais Kaxinawá que eles querem que chame, eles querem que chame eles de Mucurim. Eu aprendi também muito com eles, então agradeço a cada povo que me ajudou, porque a gente viajou com todo respeito, aprendi muita coisa com eles, e através deles eu levantei a minha aldeia na cultura também, porque o que eu vi eles fazendo eu trouxe para cá, arrastei para cá também. Nós somos o nosso povo, também temos nossa a cultura, vamos levar para frente.

 

(00:37:40) P/1 - Eu queria que você contasse um pouco também de como foi o trabalho… Você disse que trouxe várias coisas, o rapé, foi a educadora que fez o resgate das danças. Queria que você contasse como fez esse trabalho.

R - O rapé eu via os parentes usando. Eu viajava e não levava rapé, mas eles me convidavam, me desafiavam para ver se eu conseguia cheirar rapé. E eu fui aquela pessoa que só Deus me derruba na hora certa, mas nesse chão eu sou forte. Eu tomei rapé no cano grande, eu tomava rapé junto com eles. Uma rodada - se eles dessem dez rodadas eu dava também, sem ter conhecimento daquilo, mas eu ia junto com eles porque eu queria aprender, eu queria saber o que era, queria saber do significado. 

Depois de tudo que eu vi, eu fiz o rapé na minha própria aldeia. Eu faço rapé só de folhas medicinais, eu não boto um pingo de tabaco no rapé. Um rapé para sinusite, a gente faz rapé só das folhas e fica bem verde. Fica tipo aqueles dos Apurinã, o rapé deles é verde também, só que o que eu faço é só da erva, porque realmente eu não sei como é o deles, nunca vi eles fazendo. Eu fazia o meu rapé aqui na época, ficava grosso, porque a minha avó nessa época já usava rapé. A mãe da minha mãe, que era casada com o pai da minha mãe, que era índio, ele já fazia rapé, só que o rapé deles era diferente, eles torravam. Eles tomavam aquele torrado na hora de cura, usavam nos momentos certos. 

Hoje a gente cheira o rapé tipo um vício de quem fuma, porque o rapé vicia a pessoa como quem fuma cigarro, sempre vai querer fumar o cigarro. O rapé é do mesmo jeito, a gente fica usando o rapé, mas o nosso povo, na época, usava o pó do rapé só naqueles momentos sagrados. Hoje a gente usa ele diferente, como também faz diferente; hoje a gente coloca as nossas ervas, tudo bonitinho, tudo direitinho. Já tem até material para peneirar, que na época eles não tinham. Eles faziam grosso porque não tinha pano, era moído, torcido só com a mão de pilão. Eles batiam, então não tinha como fazer como a gente faz hoje; hoje a gente tem opção de peneirar, de ter o próprio pano e na época não tinha nada. 

 

(00:41:14) P/1 – Quando você era criança, o que você via de diferente? Como era a aldeia naquela época e como é a aldeia hoje?

R - Ela tem uma grande diferença de quando eu era pequena para hoje. Tenho cinquenta anos, ela tem uma grande mudança em tudo e por tudo. Primeiro que quando a gente era criança aqui tinha três moradores: era o seu Nilton, o Geraldo, a gente e a da família do Pio; hoje, só dentro desse igarapé têm 35 famílias. A gente saía, trabalhava… Quando eu era pequena só tinha quatro, que era o Nilton, o Geraldo, o Pio e o Joaquim Gomes; eu me lembro de quatro pessoas, de quatro casas. Hoje a gente tem 42 casas, 42 famílias. 

Na época de quatro casas, os porcos, antas atravessavam esse rio aqui de um lado para o outro; você jurava que era boi que passava, de vareda de anta. Eu conheci isso com os meus próprios olhos, cheguei a ver vareda de anta aqui, onde a gente mora hoje, era ponto de caçada. Aqui onde a gente mora, só morava o Pio com os filhos pequenos e não tinha mais gente para procurar, só ele. Aquela família procurava para comer da mata, e hoje com esse tanto de gente, porquinho que matava na beira do rio, do igarapé, tinha muito mais peixe, hoje ainda tem. Ainda tem caça, não dá para dizer que não tem, mas da época que eu era pequena para agora está muito diferente por esse motivo. 

Na época a gente não tinha agente de saúde, a gente não tinha professor. Quando eu era pequenininha - quando comecei a estudar eu já tinha uns nove anos de idade, para fazer a primeira e segunda série na República - a gente não tinha as condições que a gente tem hoje. 

Hoje o povo Nawa é muito trabalhador. Eu lembro que primeiro a gente andava de remo e varejão, a mulher remando na frente e o homem empurrando com o varejão atrás, era o motor; só andava manual, tudo era manual, e hoje você vê um barco, no porto de cada índio desse tem uma canoa com motor. Quando a gente acha que o motor não está correndo mais, a gente já [arranja] outro com mais força. Com esses ruídos a caça se afasta também, tem muita gente para caçar e muita zuada de máquina, é aparelho de som que antes não tinha e hoje tem, é a televisão, então é completamente diferente. 

Na época, o seu Nilton com o papai colocavam roçadinho. Dentro do roçado eles plantavam inhame, eles plantavam roça; plantavam milho, arroz, tudo em um roçado só. Eles não pensavam em desmatar, eles preservavam a natureza como a gente hoje preserva, mas hoje o nosso roçado é maior do que o deles, a família é maior. A gente broca na capoeira, só não broca na mata virgem para fazer roçado, mas a gente tem um plano de gestão em que a gente pode usar a capoeira dos antigos. A gente não broca, não planta mais do jeito que eles plantavam; tudo o que eles queriam eles plantavam no roçado. 

Você vê a gente aqui, nesse terreiro. Para ninguém dizer que tocou fogo em nada, tocamos fogo nessa coivara para a gente se alumiar. E eles faziam o roçado deles dessa forma; eles não queimavam, eles cortavam só o mato pequeno e aqui mesmo eles faziam o roçado deles, nesses espaços que estão assim era o roçado deles.  Muitos deles viravam campestre e hoje tem muitos campestres; na mata, quando você pensa que não, tem um campestrezinho. 

Campestre é um [campo] limpo, um sinal dentro da floresta que alguém passou ali, alguém esteve ali naquele canto. A gente topa muito naquelas coisas, eles faziam isso aqui por ser zelado e muitas vezes nem mato criava naquele cantinho ali, isso se dava o nome campestre.

 

(00:46:50) P/1 – E já encaminhando… Eu ia perguntar a sua trajetória na educação, o que você fez. Você estava até fazendo um TCC sobre o povo, como foi a sua caminhada dentro disso?

R - Eu comecei falando que comecei a dar aula com a quarta série, na época. Nas terras indígenas tinha muito professor que dava aula com a quarta série, porque não tinha ninguém formado em mais nenhuma série; só tinha aula para nós até a quarta série dentro da aldeia. Quando parava a quarta série, se não fosse para a cidade, se a gente não fosse morar nas casas dos outros, dos estranhos, para trabalhar e estudar, a gente nunca fazia outro grau da escola. 

Eu nunca saí dessa região para estudar, fiz até a quarta série e parei; só em 2000 através do Estado, da Secretaria, é que comecei a fazer essa formação do Magistério Indígena. Eu me inscrevi porque queria me formar. Tinha vaga para todas as aldeias, nós já éramos reconhecidos como povo e lá fomos incluídos, tinha vaga para os Nawa também. 

A gente chegou a ir em mais de doze mulheres para fazer esse Magistério Indígena, se formar. E chegando lá, as mulheres que tinham marido, que não queriam deixar os maridos, tinham filhos pequenos não aguentaram. Elas não ficaram, logo vieram embora; passaram quatro, cinco dias, viram que não dava certo e abandonaram os estudos. Ficamos eu e a sobrinha do Railson, que é a Adecilda, as duas mulheres daqui de dentro que começaram primeiro dar aula aqui. Eu dava aula aqui em cima e ela dava aula onde o avô dela morava, no Campina. 

A gente se formou, eu me formei no Magistério Indígena, no primeiro e no segundo, em 2008. 

Em 2017 fiz o seletivo na faculdade para fazer a Licenciatura Indígena, me inscrevi e tirei o sétimo lugar, de 572 indígenas que concorreram a cinquenta vagas. Para mim foi uma alegria, eu nem pensei que ia ser selecionada e tirei o sétimo lugar. Teve a Aurora, a Aurinha, teve uma neta da tia Chica, a Marinete, que também se inscreveu, e a gente passou, estamos fazendo a Licenciatura Indígena. Eu estou me formando em Linguagem e Arte, não terminei ainda por conta dessa pandemia. A gente está estudando só on-line, a gente vai para o Município porque aqui não tem internet; quando chamam a gente vai para lá, passa dois meses estudando e depois retorna para aldeia. 

Já estamos trabalhando no nosso TCC. O meu TCC é com as mulheres indígenas. Eu sempre esqueço do nome… A linguagem é assim, para eu entrevistar as mulheres e sua sobrevivência, a narração das mulheres Nawa, do povo Nawa. Como nós chegamos através das mulheres, eu entrevisto mais mulheres, mas eu já entrevistei o cacique, já entrevistei o Francione - poucos homens, mais mulheres. 

Eu valorizo muito as mulheres aqui da nossa comunidade. Nós, mulheres, sempre estamos presente em todos os eventos. Nós estamos juntas na demarcação de terra, na alta demarcação que nós fizemos… As mulheres juntas, as crianças juntas. Se os homens vão mariscar, nós estamos junto; se o homem vai para o roçado, a gente está junto. Somos muito parceiras com os homens e por isso eu valorizo muito a mulher e também a minha mãe; agradeço muito a ela por eu ser uma indígena através da minha mãe. Eu valorizo muito, muito mesmo as mulheres.

 

(00:52:37) P/1 - E dentro dessa pesquisa profunda sobre as mulheres do seu povo, o que você aprendeu de novo, sobre o seu povo?

R - Eu aprendi o que realmente eu sei hoje. Foi lutar, não desistir porque quem desiste são os fracos e o povo Nawa não era fraco. Eu sei que já foi dito pelos velhos que já [se] foram, eles contavam que o povo Nawa era um povo muito guerreiro. Eles não queriam ser mandados, não eram escravos; preferiam morrer do que serem mandados. Não aceitavam troca com as suas mulheres - às vezes os patrões queriam tomar as suas mulheres na aldeia. Por motivo de muitas matanças é que eles não trocavam suas mulheres, porque muitos trocavam a mulher por alguma coisa e o nosso povo não aceitava de jeito nenhum. Chegavam a morrer, mas não trocavam, não aceitavam. 

O povo Nawa era muito guerreiro mesmo, como a gente sabe através dos mais velhos que contam. Eles enfrentavam mesmo, ali era para vida ou morte.

Acho que herdei isso realmente do meu povo, porque eu sempre fui valente. Para quem me ataca, que sempre queria me atacar, sempre fui valente, mas de coração bom. Sou uma pessoa acolhedora, dou a mão às pessoas que estão na cidade, às vezes sem apoio, sem casa para morar, moram na rua. Chego a levar para minha casa, para minha aldeia, para dar comida, para ver ele limpo, ter uma água para tomar um banho. Às vezes eu acolho alguém e sinto que eu tenho coração bom, sou valente para quem me ataca e para defender o meu povo, mas para fazer o mal, não.

 

(00:55:14) P/1 - E sobre a autodemarcação, como foi isso? 

R - Essa demarcação a gente decidiu por causa da invasão e pelo CMBio não cumprir o que ele promete. A gente tem a FUNAI, dizem que é para defender o índio, mas só fazem o que o governo quer… Com esse governo do Bolsonaro, que quer acabar com toda a floresta, pelo plano deles. 

A gente não quer a nossa floresta derrubada por causa dessa estrada que vai sair para o Peru. Vai ter uma estrada que vem de Cruzeiro do Sul, corta aqui pelo Parque Nacional e vai bater no Peru, sem a gente ser consultado. Não tivemos consulta de nada e o projeto está lá, [foi] aprovado que vai ter essa estrada e ia tirar um pedaço da nossa terra. 

No nosso entorno não mora só indígena, mora branco também. O branco faz muito roçado, faz caça por trás com cachorro, para vender. Estava tendo muita invasão, tanto de riba, como de caça. A gente decidiu, junto com a comunidade… A gente conversou e fez essa autodemarcação para gente ter uma trilha, pra gente poder fiscalizar, porque a gente tem um rio - lá também a gente tem um outro rio, o Zulmira - e aí a gente tirou a nossa travessia. Nós não vamos deixar fazer invasão para futuramente os nossos netos não conhecerem uma anta, um porco e muitas espécies que chegam a ser atacadas pelos caçadores. A gente decidiu isso, a gente combinou para não entrar. Daqui a um ano ninguém caça nesse local, a gente não vai deixar porque foi combinado que todo mundo só caçasse por perto, pelos seus filhos que já tinha aqui, e lá a gente só ia uma vez por ano, depois de um ano, porque esse ano ia ser a reprodução.

(00:58:16) P/3 - Queria muito saber da sua pessoa, do carinho que você tem em fortalecer principalmente as mulheres Nawa, e dar exemplo para os outros parentes vizinhos, como nós, Nukini; dizer como você se acha disponível, sua visão, sua experiência.

R - É, eu tenho… Vocês chegaram no momento certo. Eu já tinha muita reclamação, porque há muito tempo que eu venho e volto loucamente para cidade para estudar. Nesses três anos que a gente está estudando, fazendo faculdade, na minha volta reclamavam muito que não estava tendo mais encontro. A gente não estava mais se encontrando, não estava tendo mais o mariri, não estava tendo reunião com a comunidade. 

Quando eu vim agora, eu já tinha o plano de fazer esse terreiro aqui, nessa Samaúma, para gente realmente conversar, puxar de novo as danças, para gente se pintar, ter os nossos momentos culturais, beber nossa bebida sagrada. E o que eu tenho para as mulheres é o que a gente fez, eu convidei as mulheres para beber  sempre, junto com a gente. Também o jovem, os homens, trazer para esse momento, para se fortalecer dentro da cultura; que eles não venham se perder na bebida, no alcoolismo, nas drogas, porque a gente tem a nossa medicina tradicional.

Eu tenho meus filhos, Virgulano, o Nilinho, que me apoiam muito dentro da medicina. Convidei os meu filhos, os homens todos bebem o uni, eles estão para me dar força, para me acompanhar. E tudo o que vou fazer, como esse encontro - fiz, a bem dizer, só eu e eles dois, porque também era em cima… O Railson falou que vocês vinham, o Museu da Pessoa, para fazer algumas entrevistas, e nós ficamos muito alegres nesse momento; eu me avexei para fazer esse canto, esse momento, e mandei um menino convidar alguém da comunidade para vir ajudar a gente. A gente não fez uma coisa do jeito que é o meu sonho porque foi em cima da hora, mas foi muito bom esse encontro. As mulheres estavam todas aqui com a gente, os homens também, dando apoio; eu fiquei muito feliz por esse momento porque eles gostaram.

Eu vou continuar fazendo esses encontros, tanto da ayahuasca, como da rodada de rapé, contada de história. A gente vai levantar isso, realmente. 

Hoje agradeço muito vocês, o Jonas Samaúma e a Diana, por esse momento de ter vindo. [Isso] levanta a gente de novo, porque a gente já estava quase fraco. O Paulo, o cacique Nukini, eu já tinha feito o convite para ele antes; quando eu ajeitasse esse terreiro, ele seria um dos meus convidados especiais. Ainda bem que o Railson já sabia que a gente já tinha conversado; ele foi lá, convidou e ele também aceitou. 

O povo Nukini, aqui com os Nawa… Tem índio já que é NukiNawa, porque a mãe é Nawa e o pai Nukini, então a gente já tem um sangue bem traçado, como amigo, como parente mesmo. Tem essa troca de experiência. E ele foi uma das pessoas que não mediu esforço de vir, toda a vida que cheguei convidar ele dizia: “Parente, quando estiver pronto, tu me avisa.” Chegou o momento, muita gratidão mesmo pela presença deles aqui, do Paulo; foi uma grande coisa, gratidão mesmo dele ter vindo, ter feito essa rodada aí com a gente, para o jovem ver como que é. 

Aquele ali foi o nosso primeiro momento de ayahuasca dentro da terra indigena Nawa. Para mim é um grande espírito, forte mesmo, que chamou - e através de uma mulher, através da Lucila, que sou eu, que fiz todo esse esforço, juntamente com nosso povo.

 

(01:03:41) P/1 - Queria perguntar se você também já teve algum sonho marcante, dormindo. 

R - Sempre eu sonho. Se eu sonhar com água barrenta, eu andando dentro de canoa e a canoa chegar a alagar, morre alguém próximo da família. Quando eu sonho assim, eu fico sabendo que vai ser alguma coisa ruim vai acontecer comigo ou com alguém da família. Pode não chegar à morte, mas acontece alguma coisa. 

Eu tenho várias experiências de sonho. Tem sonho que se eu for para a mata e encontrar queixada… Tem sonho que eu sei se vai ter fartura, através do que eu sonho - se vai ter fartura naquele período, se vai ter pouca comida. Então tudo isso eu sonho, eu sei quando vai faltar, se vai ter, na minha vida financeira. Eu tenho um sonho quando meus negócios vão dar certo, os que não vão dar certo, então é um sonho de ciência. Se eu sonhar com certas coisas, eu sei o que pode acontecer.

 

(01:05:20) P/1 - Teve algum sonho que te marcou? Uma história que você sonhou e aconteceu alguma coisa?

R - Quando eu tinha dezoito anos de idade, eu tive um sonho que eu entrava dentro do avião e o avião caia lá na frente, a gente caía de avião. Nessa época, eu morava no Gibraltar e a minha mãe morava aqui no Boca Tapada, com meus irmãos e meu pai. Eu vinha de lá pra fazer caçada aqui. Eu caçava com o Francione, meu caçador, era eu e ele, só nós dois; ele, meninozinho pequeno, e eu, com dezoito anos, vinha para caçar com ele aqui, para levar rancho para casa, pegava daqui para levar lá para comer. 

Nesse sonho eu cheguei, veio o marido, peguei a minha irmã, o meu pai, que era um dos caçadores e o Francione. Nós subimos aqui, no Igarapé. Quando nós subimos, veio uma ventania que o mato estava lá e veio pra cá, o vento muito forte. O motor subiu e nós, com aquele medo, olhando para cima, contra o mato, para o pau não cair dentro da canoa. Mas ninguém fechou os olhos e nós vimos uma embaúba; não deu tempo, na hora mesmo caiu, bem no meio da canoa. A gente levava um cachorro no meio da canoa e a embaúba veio bem em cima do cachorro. O cachorro nas minhas pernas, eu ia sentada no banco com a minha irmã, eu sentada aqui, ela ali e o cachorro na nossa frente; o pau veio em cima do cachorro, aqui nos nossos pés. 

O meu pai ficou na proa, o cachorro no meio, nós aqui para trás e o meu marido ia no motor. Quando ele viu o pau, ele caiu na água! Não deu tempo nem para parar o motor, ele já caiu na água. Esse pau veio, paralisou, partiu a canoa no meio e matou o cachorro; se não fosse esse cachorro naquele dia, era para ter morrido eu e minha irmã. Deus nos livrou, morreu o cachorro. Ficamos com muito medo, daquele pau entre o pai e nós no meio da canoa. Fomos emendar a canoa, fomos rasgar coberta para tapar a canoa e poder voltar, porque a gente estava longe da casa da minha mãe. 

Eu tinha vários sonhos que na época eu não tinha a experiência, foi através desses sonhos que vieram as experiências.

 

(01:08:44) P/1 - Você disse que aprendeu muitas coisas da medicina. O que você aprendeu teve algum ensinamento marcante, alguma história marcante dentro também da medicina?

R - Não, por ora. Eu tomo ayahuasca, mas ainda não estou aquela pessoa preparada para conduzir um terreiro. Esse saber até que sei, mas eu não tenho essa coragem ainda, acho que ainda não veio esse chamado. Mas a medicina me ensinou o fortalecimento da nossa cultura. 

Na miração eu vi os nossos kene, a pintura do nosso povo, como realmente são os nossos kene, só que a cor eu ainda não encontrei, a cor dos nossos kene. Vamos dizer, a cobra realmente brilha, no sol ela brilha diferente das nossas pinturas, é uma coisa feita meio especial. Eu vi umas cores muito bonitas, bonitas mesmo, aqueles kene pintados no formato da marca da cobra. 

Através da uni eu comecei a fazer os nossos kene. A gente não se pintava todinho pois a gente não sabia fazer desenho; foi através disso que eu aprendi a fazer os nossos kene

Já fui curada também por alguém que chegou na hora da força. Eu estava muito deprimida nessa época. Era uma curadora, chegou perto de mim e me curou mesmo. Não sei quem era não, mas era uma indígena, uma pessoa que curava, uma mulher; ela chegou perto de mim e tirou todas aquelas angústias que eu tinha nessa época. 

Isso foi nos Puyanawa, esse encontro de ayahuasca em que eu tive essa cura. Eu acho que se ela não tivesse me curado, eu teria pegado uma depressão na época. Eu estava muito cheia, muito pesada mesmo. Cheguei até o Joel, contei para ele e ele disse: "Vamos tomar ayahuasca hoje”. Depois disso que aconteceu, eu não senti mais aquelas coisas que eu estava sentindo. Para mim aquilo foi uma cura e foi uma mulher que veio me curar; eu vi ela, uma coisa muito especial. 

Também cheguei na miração a ver o meu pai, depois que ele morreu, me dizendo… Ele me diz, eu cheguei a ver ele na miração, ele sempre está presente nos nossos encontros. O meu pai era muito esforçado, ele defendia muito… Por não ser índio, ter sido só criado por índio, corria o sangue do índio na veia dele, realmente ele defendia, era uma pessoa muito guerreira mesmo. 

É um grande respeito que tenho pelo meu pai. Eu andava com ele desde os meus nove anos, cortava seringa com ele, tirava caucho, eu caçava. É uma lembrança muito forte que eu tenho do meu pai, pelo que aprendi com ele. Eu aprendi a atirar com ele, eu chegava a ir para mata com ele e meus irmãos. Ele nunca chegou a nos abandonar quando a gente era criança, como tem muitos pais que chegam a abandonar os filhos. E não tinha as condições de hoje, não, era da mata mesmo que a gente se sustentava, comendo carne assada, comendo macaxeira. Era macaxeira cozida, era banana, farinha. Teve época que nem macaxeira a gente plantava, porque o patrão não deixava, porque tinha que cortar seringa e comprar farinha. A gente não plantava porque eles não deixavam, porque todo dia tinha que ir cortar seringa. 

Quando a gente foi crescendo, eu e a minha irmã, a gente colocava no roçado, e eu fui crescendo assim do jeito que eu sou, eu não tenho o espírito de mulher de casa. Eu sou mulher, gosto de homem, mas o meu espírito é de andar na mata, andar no roçado, buscando fora e trazendo para dentro da comunidade. Eu sou mulher, mas meu espírito é de homem. Gosto da limpeza em casa, hoje tenho minhas noras que me ajudam muito em casa, mas eu sou de buscar, não sou daquela mulher de arrumar. Tem mulher que arruma tudo bonitinho. Eu gosto de casa limpa, eu gosto das coisas da mulher; eu não gosto de fazer, eu não sou essa mulher. 

Eu trabalho na educação, sou aquela pessoa que gosta de buscar para dentro da comunidade. Através de mim, quando eu comecei, que eu era sozinha, hoje nós já temos cinco professores, todos já formados aqui na escola João Bernardo Rodrigues - João Bernardo Rodrigues, era uma homenagem ao pai do patrão. Consegui através da secretaria os barqueiros, porque os meninos andavam por dentro na mata; às vezes o pai não podia vir deixar porque era longe, os meninos vinham sozinhos. Conseguimos também barqueiros nas minhas lutas, quando eu ia para as reuniões do governo. Eu pedia escola, eu pedia barqueiro, eu pedia internet, que até hoje não chegou; era para ter internet nessa escola, mas o governo não ajuda em muita coisa. [Só] se você se manifestar, porque hoje o índio só é visto através da manifestação. 

Se nós, indígenas, ficarmos aqui, quietinhos, ninguém olha pra nós, mas quando a gente se revolta - chegamos a prender o ICMBio, a FUNAI, porque eles prometiam as coisas pra gente e não cumpriam - cheguei a pagar processo por causa disso, porque prendemos atrás do nosso direito em defesa do nosso povo. Atrás dos nossos direitos em defesa dos nossos direitos, prendemos e prendemos mesmo! Digo, vou para a cadeia, mas defendo o meu povo! Eu quero isso! O Railson prendeu um pessoal porque eu estava estudando, eu fiquei só passando as informações. Eles prenderam também por não cumprirem aquilo que prometeram para os indígenas. 

Nossa terra não é demarcada por causa do ICMBio, porque eles foram contra. O Parque Nacional foi criado em cima da nossa terra indígena. A gente já vivia aqui, a gente vive há cem anos aqui, eles dizem que não sabiam, mas como não, se eles não fazem a consulta? Eles passaram aqui na época e nem sabiam se aqui morava alguém, tapando tudo o que era boca de igarapé. Era o Parque Nacional da Serra do Divisor, um Parque Nacional é para não ter morador. Eles diziam que aqui todo mundo ia embora, que não ficava ninguém; foi na época que a gente se manifestou, a gente foi contra, porque a gente ia para onde? 

Iam levar a gente para o Parque Havaí, do município. No inverno, do Parque Havaí até o município você se atola até a cabeça. Então nós dissemos: “Nós não vamos, não. Vamos ficar aqui mesmo, porque nós somos daqui, nascemos aqui, nos criamos aqui e daqui nós não saímos. Daqui ninguém me tira, nós só saímos daqui se for amarrado na envira!” (risos)

 

(01:18:45) P/1 - Queria saber se você queria fechar com algum caso, alguma história de caçada.

R - Já está bom, não está? 

P/1 - Tá bom. 









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