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História

Eu sou mensageiro

História de: José de Ribamar Ferreira de Miranda
Autor: Ana Paula
Publicado em: 14/01/2021

Sinopse

José conta sobre seu início de carreira na Petrobrás nos anos 1950, sobre a transferência de trabalhadores para Aracaju nos anos 1970, das dificuldades do trabalho nas plataformas e sobre as mudanças que ocorreram na região. Fala, também, de suas impressões acerca do movimento sindical

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História completa

Projeto Memória da Petrobras Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de José de Ribamar Entrevistado por Eliana Santos Aracaju, 15 de dezembro de 2004 Código: Entrevista CB_SEAL número 14 Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha Revisado por Alice Silva Lampert P/1 – Bom dia. R – Bom dia. P/1 – Vamos começar pedindo que o senhor nos diga o seu nome completo, o local e data de nascimento. R – Meu nome completo é José de Ribamar Ferreira de Miranda. Como o nome tá dizendo, eu sou maranhense. Eu nasci em Barra do Corda, no estado do Maranhão. P/1 – Quando, Senhor Ribamar? R – 21 de março de 1935. P/1 – Você podia contar pra gente como que foi o seu ingresso na Petrobras e quando foi? R – Bom, eu ingressei no Conselho Nacional de Petróleo. Foi meio difícil, porque tinha pouca verba e tudo. E eu entrei como contínuo, em 10 de março de 1953. P/1 – E daí para lá? R – E daí para lá eu fiz carreira na área administrativa: Ajudante Administrativo, Assistente e Administrador de Empresas. Me aposentei como Administrador de Empresa IV. P/1 – E o senhor pode contar para a gente um pouquinho como que era o seu trabalho, os setores em que o senhor passou? R – Ah, meu trabalho era na área de Recursos Humanos. Sempre foi. E logo que a Petrobras foi criada, em 1964, era um grande esforço exploratório no Maranhão. Nós chegamos a ter quatro sondas no Maranhão, cinco equipes grandes de geometria e duas equipes sísmicas. E as condições de trabalho eram muito adversas na época, muito adversas mesmo. Era difícil, por exemplo, quem trabalhava na equipe só tinha folga, só tinha as férias anuais. Gozava de um repouso semanal nos próprios locais de trabalho. Isso é muito complicado para a família. E eu que trabalhava em São Luís, na sede do escritório, mas tinha sempre que viajar com as equipes, geralmente fim de semana, para atender às necessidades da equipe, admitir pessoal, pagar, aquele negócio todo. E, às vezes, fazer algum movimento em prol das famílias. Porque os caras ficavam nas equipes, às vezes até esqueciam da família, que sempre recorria à Petrobras dadas as condições de trabalho na época. P/1 – E como que foi a sua vinda para Aracaju? R – Bom, a minha vinda para Aracaju foi meio complicada. Foi nomeado Superintendente aqui um engenheiro, José Martinelli, que tinha trabalhado no Maranhão. Nós fizemos uma grande amizade. Ele é Engenheiro de Perfuração e chefiava o setor de perfuração, e eu era Chefe de Recursos Humanos. Ele foi nomeado Superintendente Geral aqui da (Repeniere?). Eu estava, na época, na Renor. Fomos também Chefe de Pessoal. E ele insistiu muito, o Superintendente de lá não queria liberar. Mas terminaram chegando num consenso e eu fui transferido para a Repeniere (?) e aqui cheguei no dia 15 de abril 1979. P/1 – A (Repeniere?), o que é isso? R – A (Repeniere?) é esse órgão hoje que anteriormente tinha esse nome, Região de Produção do Nordeste. Hoje é meio complicado, é (Seal?) não sei o que. Não estou bem ao par não. Aqui a unidade era meio complicada, a unidade antiga. Ninguém queria vir para cá porque já tinham esfaqueado um Chefe de Recursos Humanos, e botado dois para correr. Mas eu vim e me dei bem aqui com o apoio do Superintendente, e com o apoio do próprio Presidente Geral do Departamento na época. E nós conseguimos fazer alguma coisa pela região. O mais importante que ocorreu é o seguinte. Na época, a região era sediada em Maceió e a menos de um ano ela tinha se mudado pra uma sede nova construída no Tabuleiro, que era na estrada que vai pro aeroporto, a 13 quilômetros do centro de Maceió. E tinha alguns problemas, de muitos empregados estáveis, que é difícil de administrar. E eu cheguei aqui em maio, não, cheguei em abril. Em maio eu fui notificado que a região - a sede da unidade - seria transferida para Aracaju. Umas premissas que deveriam ser alteradas e obtidas. Então foi nomeado um grupo de trabalho. Esse grupo foi constituído, até procurei a portaria mas não achei, foi constituído pelo Dr. Denion, representando o departamento, por mim, representando a unidade, e pelo representante do Sepes, que era o Serviço de Pessoal da Petrobras na época, e o Serviço de Organização e Método. E nós tivemos quatro meses para viabilizar a mudança. Podia construir, aqui só tinha, já era a sede, era o distrito. Tinha um prediozinho aqui. Não me lembro bem, esses aí do meio. A área já era da Petrobras e nós, em janeiro, transferimos a sede pra cá com os problemas daí decorrentes. Problemas familiares de toda natureza e tal. E problema político porque nenhum estado, naquela época, poderia se dar ao luxo de perder a sede de uma unidade da Petrobras, tal o desenvolvimento que os recursos que se alocavam na região e outras coisas mais. Mas foi um trabalho difícil, mas fizemos sem maiores traumas. É claro que, com essa mudança, houve uma grande repercussão. Nós tivemos que deixar os empregados que a Petrobras não queria lá, que depois foram dispensados pagando 100% de acordo na Justiça do Trabalho. Distinção de estabelecimento, que foi o que foi alegado na época. E iam alocar famílias aqui. Nós transferimos no mês de janeiro. De janeiro a maio nós transferimos 700 e tantas famílias para Aracaju. Era uma cidade que, evidentemente, não tinha a menor condições de receber um afluxo muito grande de pessoas. Foi muito difícil. Você vê muita gente, Aracaju colaborou muito. Alugava apartamento, alugava uma casa e ia morar na fazenda, morar na Atalaia. Outros petroleiros foram morar em Atalaia. E não tinha recursos nem tinham Hospital Cirurgia, que era um hospital que ainda existe hoje mas na época era muito parecido com esse. E um Hospital Santa… Não me lembro, era um hospital ali no Bairro de Santo Antônio. Era o Hospital Santa, não sei, tem um hospitalzinho melhor. Mas não tinha condição nenhuma de atender o afluxo de pessoas. E posteriormente, durante o ano de 1970, nós trouxemos mais alguns familiares, que não eram necessariamente transferidos. Eles eram do campo, que queriam vir para cá para poder ficar alocado na sede da unidade. Foram transferidos posteriormente. A cidade era muito pequena, sem muitos recursos, e você pode imaginar o trabalho imenso que nós tivemos aqui, social, porque todo mundo: “Ah, o meu filho tá doente, o que eu faço?”. Eu sabia lá também o que fazer, que eu também tinha chegado. Mas não podia dizer isso a eles. E tinha as assistentes sociais, uma que veio de Maceió, que já era daqui, filha daqui, e outra que já tinha aqui. Nós conseguimos harmonizar, sem maiores problemas, esse contingente imenso. Aracaju terminava ali no (Latis?). Você já conheceu o (Latis?)? P/1 – Não. R – Ali, o (Latis?) pra lá, 13 de Julho, Jardins, tudo era mangue ou era coqueiral. P/1 – Vocês receberam muitas pessoas daqui? Como é que foi o processo de receber trabalhadores do local? R – Não. O pessoal que tinha aqui - já era um distrito bem pequeno - quase não afetou a vida de ninguém aqui. Porque a Petrobras se modernizou na época. Então, por exemplo, tinha muitas funções que não tinha mais necessidade de existir. Mas era estável, não se podia fazer nada. Tinha que ficar com esse pessoal. E Carpinteiro. Na época que foi iniciado era muito importante mas com o desenvolvimento tecnológico não havia mais necessidade. O pessoal aqui não foi, ninguém mexeu em ninguém. P/1 – Mas vocês receberam muitos trabalhadores da região ou ficaram trazendo mais ______? R – Nós trouxemos umas 700 a 1000 pessoas de Maceió para cá. Que deve ter sido um baque muito grande para economia de Maceió, que não foi maior porque a Petrobras, na época, já estava construindo salgema, explorando. P/1 – Como? R – Salgema, um minério que foi descoberto em Maceió, que ainda hoje tem a fábrica lá em Maceió. Isso amenizou. Mas na época a mudança da sede aqui foi um afluxo de recursos impressionante, que Sergipe nunca esperou receber. Então, a decisão da mudança da sede foi da diretoria da Petrobras no Rio de Janeiro. Os motivos políticos ninguém sabe bem, mas os motivos técnicos era que Maceió foi uma primeira descoberta na região, de petróleo. Tem um campo de Tabuleiro e depois um campinho lá de Coqueiro Seco. Mas aqui descobriu um campo grande que, na época, era o segundo maior campo de petróleo, que era o Campo de Carmópolis. Depois outros campos. E outro fator também muito, em termo de razão, de motivo pra mudar, foi que foi descoberto o petróleo na plataforma aqui na costa de Sergipe que ainda hoje está aí produzindo. Esses fatores técnicos todos foi que motivaram a sede. Nós trouxemos todo o corpo administrativo que já tinha. Não podia, só mudamos de local. Trouxemos todo o corpo técnico, Geólogos, Engenheiro de Perfuração, Engenheiro de Produção. E trouxemos muitos agentes administrativos, porque a mudança não teve o caráter de “demita lá” e “admita aqui”. Não houve isso. É perto. As condições eram terríveis. Não tinha asfalto daqui para Maceió. Era asfaltado até o Rio São Francisco. De lá era na lama. No dia em que chovia, você sabia que ia chegar, mas não sabia quando ia chegar. E houve a mudança, e nós construímos aqui quase todos os prédios, de julho a dezembro. Hoje, tem prédios mais modernos e _____. A maioria dos prédios que tem aqui foi construído nesse período. E nós, em janeiro, mudamos a sede. O problema habitacional foi muito difícil. Nós construímos um conjunto aqui para o pessoal de nível mais baixo, nível médio, assim, como eles chamam. Porque os Engenheiros, as funções de chefia, eles tiveram os seus devidos auxílios - como tem hoje, quer dizer, a Petrobras diz que você tá transferido pro Rio, ela dá ajuda de custo, dá auxílio moradia, de acordo com o cargo que eu for exercer. ________. E com isso viu que a gente tinha condições de morar melhor. E para o pessoal de nível médio nós construímos um conjunto aqui, o Conjunto Castelo Branco. Foi feito no Coqueiral aqui, muito bonito. Hoje tá tudo cidade aí. P/1 – Ah, é? Mudando um pouco de assunto, o senhor era filiado ao sindicato? R – Em Belém eu era. Eu comecei em 1953, com 17 anos, como eu tinha dito anteriormente. Mas com 19 anos eu já fui Chefe de Pessoal. Era chefe de mim mesmo. É o Encarregado de Pessoal. Mas era o chefe e fazia o serviço todo. E foi aumentando o serviço e tudo. E lá em Manaus, em Belém, São Luiz eu era sindicalizado e participava, inclusive, da eleição. Aqui não dava, não tinha condições nenhuma, porque era incompatível você ser sindicalizado e ser Chefe de Recursos Humanos. P/1 – E o senhor acha que a relação do sindicato com a Petrobras mudou muito? R – Olha, as relações foram muito boas, eu acho. Porque, por exemplo, um fato curioso é que na Renor [Refinaria do Nordeste] - Renor é a Região do Norte - quando eu vim pra cá, tinha muitas boas pessoas aqui, muitas boas pessoas no sindicato. Tanto que, com a Revolução de 1964, a degola foi mínima e muito tranquila. Houve muito mais degola de pessoas que você nem sabia que eram vinculadas ao sindicato, eram de uma situação política que a gente nem conhecia, do que do próprio sindicato. Eu, inclusive, fui interventor do sindicato. Lá eu não tive maiores problemas. Aqui houve certos problemas, mas porque, quando nós chegamos aqui, estavam naquela fase de cassar mandato, de demitir, essas coisas. Nós tivemos alguns problemas porque, inclusive, o diretor do sindicato dizia que eu fui responsável e eu digo: “Eu não fui responsável. Eu tô chegando. Quem cassa mandato e tudo é o Presidente da República. Eu não tenho nada com isso”. E nem tinha porque eu estava acabando de chegar aqui. Mas se eu pudesse eu cassava mesmo alguns por aqui, porque não era fácil, porque misturaram política ideológica, política com o sindicato. Era totalmente diferente. E na minha opinião, na minha visão, se nós estávamos num regime de cessão, quem aceitasse o regime, bem, quem não aceitasse, procurasse. Mas o sindicato não é para isso, sindicato é para defender, no meu ponto de vista, os interesses da Petrobras. Outra coisa também que facilitou muito a vida porque, por exemplo, as grandes conquistas que a Petrobras concedeu não foram reivindicações de sindicato. Décimo terceiro, férias, um mês de férias, a Petros [Fundação Petrobras de Seguridade Social]. Ao contrário, o sindicato às vezes era contra. A Petro é a nossa aposentadoria. Mas o sindicato tinha a ilusão de que, como nós éramos, tinha um cheiro de serviço público, porque nós somos uma economia, uma empresa de economia mista, o governo é o dono. Mas nós éramos regidos pelo Sistema SA, de Sociedade Anônima, e de uma empresa privada. Privada pelo menos em termos ________. Então não podiam nunca ter uma aposentadoria dos servidores estatutários da época, que era a aposentadoria mais um _____ quando se aposentava. Nós tínhamos que reger pelas leis trabalhistas. Foi por isso que a Petrobras fez, e foi por isso - eu acho e tenho certeza - que a Petrobras é o que é hoje. Porque você já pensou se a Petrobras fosse uma autarquia e tal? Nós podemos fechar os olhos aí, as autarquias que já estiveram nesse país e que não foram para lugar nenhum. A Petrobras tem muito sucesso primeiro pela tenacidade dos seus operários porque a luta foi difícil. Ninguém queria trabalhar na Petrobras porque era muito difícil, as condições eram quase desconhecidas para algumas pessoas. Porque, por exemplo, se eu não podia pegar na Amazônia, braçal da Amazônia para trabalhar no “ressolo”, porque aquilo já requeria um certo conhecimento. Não podia pegar analfabeto. Então nós tínhamos de levar o braçal, o plataformista. O que é o plataformista? É um operário de uma sonda. É claro que nós admitimos ele hoje com uma grande escolaridade, porque ele vai fazer carreira, ele vai ser um torista, vai ser um soldador, vai ser um puxa. Hoje essa nomenclatura de cargos é um pouco mudada, mas é isso. Um puxa é o cargo mais alto a nível médio numa sonda. Então analfabeto não podia, embora nós tivéssemos, no começo da Petrobras, nós tivéssemos. Para a Petrobras começar o seu grande arranco exploratório, seu grande esforço exploratório na década de 1954, 1955, nós trouxemos muitos americanos analfabetos. Eu paguei americano no dedão. Não os puxa que estavam, que já tinham, mas os plataformistas, os toristas que vinham para cá do Texas eram “analfabetão”, pagava no dedão aqui. Mas, com pouco tempo, nós conseguimos, com grande esforço, recrutar pessoas capacitadas. E tá aí. A Petrobras é esse gigantismo que é, devido ao sacrifício. Mas não era fácil. Para você fazer um concurso, ninguém queria ir. P/1 – E conta para gente um pouquinho como que se deu o seu afastamento da empresa. Como é que foi? R – O meu afastamento da empresa foi o seguinte. Eu estava na Bahia na época. Porque as grandes, eu não sei mas eu vou fazer aqui um parênteses aqui. A Renor, ainda hoje é _____, não sei bem se já mudou o perfil de produção, mas ela foi administrada por vários anos por militares. Em todas as outras unidades, aqui, Bahia, São Mateus, os Superintendentes eram Engenheiros, Geólogos, os grandes homens da Petrobras que cresceram com a empresa. Mas na Renor, foi militar. A administração por muitos anos foi militar. Não sei porque. Talvez seja porque o segundo presidente da Petrobras tenha sido Janary Gentil, que era militar. Mas quase todos os presidentes sucessores foram militares. E a Renor foi bem administrada pelo Jarbas Passarinho, um homem extraordinário. Uma capacidade extraordinária de visão, de intelectualidade e de maneira de tratar as pessoas. Eu vou só lhe dar um exemplo aqui de como era. Uma sonda de perfuração da Amazônia tinha um alojamento. Para você entrar, tinha que tirar o sapato, porque não era sintecado naquele tempo. Então era uma balsa, feito um alojamento. Não tinha ar-condicionado, porque eu acho que naquele tempo nem tinha, porque Manaus era quentíssimo e nós não tínhamos ar-condicionado. Era um ventilador velho que fazia suar. E neste alojamento se hospedavam os americanos de todos os níveis, inclusive os analfabetos. Alguns engenheiros que lá já estavam, até para aprender, e aprenderam com muita facilidade e com muita rapidez. E o pessoal administrativo, o Chefe, o Administrador. E os brasileiros ficaram na margem do rio em barracas feitas, cobertas por lá mesmo, material de lá, folha, sei lá. Comida separada. E uma rede. Uma muriçoca infernal na Amazônia, você imagina só. É bem verdade que o pessoal de lá não sofria tanto com isso. Mas os que iam de Manaus já sofriam com isso aí. E aquilo revoltava qualquer espírito brasileiro. ________ americano coisa nenhuma. E o Passarinho conseguiu mudar isso. Em pouco tempo nós conseguimos. E veja bem, como eu disse no início, o empregado ia para o campo e ele só tinha as férias para ver a família. Algum, no Maranhão por exemplo, como as condições eram melhores, geralmente as sondas ficavam próximas de alguma cidade. Na Amazônia uma cidade é aqui e outra no infinito. No Maranhão já são mais próximas. As famílias acompanhavam. Mas quem não podia, quem não queria levar a família, a família não podia ir, ele só via a família uma vez por ano. E o Passarinho implantou o sistema de folga de três por um para o empregado. Você imagina a despesa imensa para a empresa, porque o empregado que só tinha a passagem para o trabalho uma vez, duas, nas férias, ida e volta, a cada 30 dias de trabalho ele dava 10 dias de folga. E com passagem dada pela Petrobras. Então isso mudou muito as condições humanas e sociais. Outra coisa também era que, como o homem ficava alojado no campo, Maranhão no Pará, ele, cada sonda tinha um, vamos dizer aqui como é que chama, uma zona de meretrício. E a Petrobras fazia, dava, “terraplanava”, dava água encanada, dava energia, e dava atendimento de saúde pra proteger nossos empregados de doenças venéreas. E aquilo você sabe como é, o homem aquilo ele gastava uma parte do salário dele. Nós tínhamos que administrar muito, com muita dificuldade, as famílias que ficavam em São Luiz, em Belém, que faltava comida, faltava dinheiro para remédios e o cara não mandava e tal. E nós tínhamos que administrar todos esses problemas que só o pioneirismo mesmo que pode existir. Bom, eu, e a Petrobras não tinha, e a Renor não tínhamos empregados estáveis. Embora eu fosse um defensor da estabilidade, porque o Passarinho dizia que não existe bom empregado no estado e eu dizia que existia. E tínhamos grandes exemplos, inclusive o meu. Bom, mas eu acho que, no fim, eu tive de consentir. E na Bahia e aqui os problemas foram muito sérios, porque tinha muitos empregados estáveis. É dificílimo você administrar Recursos Humanos com empregado estável. Bom, eu não queria ir para a Bahia de jeito nenhum, porque a Bahia era muito grande e os problemas lá eram terríveis. Mas um Superintendente, também muito meu amigo, foi pra lá, o Dr. Denion Roberto Brito. E fez um convite e eu, pela amizade, não pude negar. E lá eu me aposentei em 1990 porque fui convidado pela Ministra Margarida, que tinha sido Assistente Social - e grande Assistente Social. É impressionante. Contra sindicato e contra tudo, ela, a (Repeniere?) aqui, a região de produção do nordeste, foi o maior índice de adesão à Petros, graças ao trabalho que ela fez. E nós éramos muito amigos, e ela foi ministra do Collor e me convidou para ser o Secretário de Defesa Civil. E eu já tinha 37 anos de Petrobras, e eu ainda queria trabalhar mais uns dez anos, mas eu achei que era o momento de me aposentar. Tinha 37 anos de Petrobras e de serviço e de contribuição. Não dei um prejuízo para o governo. P/1 – Aí o senhor se aposentou? R – Me aposentei, com todos os tempos que tinha direito. E eu me lembrava de um fato muito interessante. Quando o Passarinho foi ministro, ele foi ministro primeiro do trabalho e depois foi Ministro da Educação, e foi ministro de várias coisas aí. E ele convidou a mim e o Bastos pra nós irmos para Brasília. Eu não quis ir. Eu adorava a Petrobras e não gostava muito desse negócio de governo. P/1 – Isso foi antes de o senhor se aposentar? R – Ah, isso foi a muitos anos, foi na revolução, no ano da revolução, me parece que quatro anos depois da revolução. E o nosso amigo Bastos, foi também Chefe de Recursos Humanos lá na Renor, ele foi secretário desse que tira carteirinha, não me lembro do nome do órgão. E quando ele voltou pra Petrobras, _____ achava o mesmo lugar pra sentar. A Petrobras tem essas. E eu não queria passar esse constrangimento e me aposentei porque tinha tempo suficiente. Não tô arrependido porque... (Pausa). R – Eu fui jantar no Pão de Açúcar e o vento do Pão de Açúcar era quente. Tanto que, quando eu cheguei aqui no aeroporto, eu me senti bem. Eu achei, digo: “Oh, que fresquinha gostosa.” P/1 – Aí conta pra gente, aí o senhor acabou se aposentando e não quis aceitar o... R – É, eu preferi me desligar da Petrobras porque já tinha todos os tempos e já tinha tido experiências do colega anteriormente e eu não quis correr esse risco. P/1 – Não quis correr esse risco. Seu Ribamar, infelizmente a gente vai ter que terminar a entrevista. Eu queria pedir para o senhor falar para a gente o quê que o senhor acha da iniciativa da Petrobras para o Projeto Memória, e o que o senhor achou de ter participado. R – Eu queria falar uma coisa só. Há uns meses atrás eu recebi uma homenagem da Assembléia Legislativa que me tocou muito, e me tocou por quê? Porque eu, quando conheci Aracaju e conheço Aracaju hoje, eu me considero co-participante dessa beleza que é Aracaju hoje, porque nós forçamos a vinda de mil famílias para cá, forçou a barra de expansão da cidade, a criação de hospitais, criação de clínica e outras coisas mais. Não tinha nada aqui. Aqui não tinha nada, uma “clinicazinha” de ordem aqui e nada mais. Então eu me senti muito gratificado com essa homenagem, porque eu acho que eu tenho, e digo para o meu filho, que eu ajudei a construir. Não é construir, não é fundar, não é nada. Eu ajudei Aracaju a ser o que é hoje, que eu acho que é uma cidade muito boa para se morar, inclusive, se for excetuando o calor. Quanto a essa pergunta, foi sobre a memória, né? Eu acho importantíssimo, muito importante mesmo. E gostaria de fazer uma ressalva. Porque, no ano passado, eu recebi um livro mais ou menos desse tipo, memória dos pioneiros e tal. E eu nem li o livro porque fiquei meio chateado, meio revoltado, porque eu quando abri o livro e vi o índice, e os pioneiros da Amazônia. Olha, a Amazônia tem pioneiros extraordinários, de coragem, de desprendimento, de tudo, porque o trabalho ali não é fácil. Ainda hoje não é fácil. Não sei se você conhece Urucu. Se você ver as condições de trabalho hoje em Urucu. E Nova Olinda, na década de 60, não tem termo de comparação. E os pioneiros que botaram lá foram da refinaria de Manaus, que não era nem da Petrobras na época. Ela era do (Sabá?), um homem rico lá de Manaus. E todos eles voltados para todos os pioneiros dos sindicatos. Eles tiveram, claro que tiveram o seu valor. Mas tem muitos pioneiros, não foi, os pioneiros não foram ____. Até porque o sindicato não trabalhava muito. Porque, quando se elegia sindicato, ele ficava no bem-bom da sede. Porque trabalhar no campo é outra coisa. Mas eu acho muito importante as iniciativas e eu gostaria de que os pioneiros mesmo, _____ ali e mostre, muita gente morreu de malária. Eu tive malária duas vezes. Aqui tem um Engenheiro aqui que, o Hugo ele é sergipano, sergipano mas trabalhava no Maranhão, ele foi hospitalizado, a gente não dava um tostão pela vida dele com a malária maluca. Era hospitalizado em São Luiz. E, quando ele tava melhorando e tal nasceu o filho dele aqui em Aracaju: "Eu posso beber uma e tal?” .“Ainda não”. Mas era malária, era febre amarela, era tanta doença, tanta coisa. E eu acho que esses pioneiros deveriam ser citados. Podiam ter citado os da refinaria, mas os da refinaria não foram, olha, vou dizer uma coisa pra você, a refinaria de (Manguinha?) não teve, construído na beira do rio próximo de Manaus. Imagine construir a Rlan [Refinaria Landulpho Alves]. Era Madre de Deus, que 20 anos depois da construção era mangue, não tinha nada, passava-se quatro, cinco meses lá, trabalhando naquelas condições horrorosas. Hoje é uma beleza, você vai de carro em poucos minutos. ______. E fecha seus olhos, o paulista aqui, veja o que é construir uma refinaria hoje de Campinho. E construir Cubatão. Ali não tinha nada. Era mata, mata mesmo. Foi a Petrobras que desbravou. Ali sim. É que hoje você constrói refinaria em Campinho e é uma maravilha. Fica dentro da cidade. Então eu acho muito importante. Agora, queria que desse uma chance aos ____, que tem muitos pioneiros aí nesse Brasil. Aqui, em Maranhão, Belém, na Bahia mesmo. Na Bahia tem muitos pioneiros, muitas histórias importantíssimas. E agradeço, parabenizo a iniciativa. Mas chega. Eu sou mensageiro, não sou nem um pioneiro. Eu sempre trabalhei na cidade, embora viajasse muito para o campo, quase todo fim de semana. P/1 – Muito obrigada, Senhor Ribamar. -------------------------------- Fim da entrevista --------------------------------
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